quarta-feira, 30 de setembro de 2015

fim

FERMINA DAZA não podia imaginar que aquela carta sua, instigada por uma raiva cega, pudesse ser interpretada por Florentino Ariza como uma carta de amor. Tinha posto nela toda a fúria de que era capaz, suas palavras mais cruéis, os opróbrios mais injuriosos, injustos aliás, que no entanto lhe pareciam mínimos diante do tamanho da ofensa. Foi o último ato de um amargo exorcismo com o qual procurava criar um pacto de conciliação com seu novo estado. Queria ser outra vez ela mesma, recuperar tudo que tivera de ceder em meio século de uma servidão que a fizera feliz, sem dúvida, mas que uma vez morto o marido não deixava a ela nem traços da sua identidade. Era um fantasma numa casa alheia que de um dia para outro se tornara imensa e solitária, e na qual vagava à deriva, perguntando a si mesma angustiada quem estava mais morto: o que tinha morrido ou a que tinha ficado.
Não podia afugentar um recôndito sentimento de rancor contra o marido por havê-la deixado só no meio do oceano tenebroso. Tudo que era dele a fazia chorar: o pijama debaixo do travesseiro, os chinelos que sempre lhe pareceram de doente, a recordação de sua imagem se despindo no fundo do espelho enquanto ela se penteava para dormir, o cheiro de sua pele que havia de persistir na dela muito tempo depois da morte. Parava no meio de qualquer coisa que estivesse fazendo e dava um tapinha na própria testa, porque de repente se lembrava de alguma coisa que esquecera de lhe dizer. A cada instante lhe vinham à mente as tantas perguntas cotidianas que só ele podia responder. Certa vez ele dissera algo que ela não podia conceber: os amputados sentem dores, cãibras, cócegas, na perna que não têm mais. Assim se sentia ela sem ele, sentindo que ele estava onde não mais se  encontrava.
Ao despertar em sua primeira manhã de viúva, tinha se virado na cama, ainda sem abrir os olhos, em busca de uma posição mais cômoda para continuar dormindo, e foi nesse momento que ele morreu para ela. Pois só então tomou consciência de que ele passara a noite pela primeira vez fora de casa. A outra impressão foi à mesa, não porque se sentisse só, como de fato estava, mas pela certeza estranha de estar comendo com alguém que já não existia. Esperou que sua filha Ofélia viesse de Nova Orleans, com o marido e as três filhas, para de novo se sentar à mesa para comer, mas não na de sempre e sim numa mesa improvisada, menor, que mandou botar no corredor. Até então não tinha feito nenhuma refeição regular. Passava pela cozinha a qualquer hora, quando tinha fome, e metia o garfo

nas panelas e comia um pouco de tudo sem nada pôr num prato, de pé na frente do fogão, falando com as empregadas, as únicas com quem se sentia bem, e com quem se entendia melhor. Contudo, por mais que tentasse, não conseguia afastar a presença do marido morto: por onde quer que fosse, por onde quer que  passasse, em qualquer coisa que fizesse esbarrava em alguma coisa que a fazia lembrar-se dele. E se por um lado lhe parecia honesto justo que lhe doesse o que doía, queria por outro lado fazer todo o possível para não se deleitar com a dor. Por isso impôs a si mesma a resolução drástica de desterrar da casa tudo quanto relembrasse o  marido morto, como única coisa que lhe ocorria para continuar vivendo sem  ele.
Foi uma cerimônia de extermínio. O filho aceitou levar a biblioteca para que ela instalasse no gabinete o quarto de costura que jamais tivera depois de casada. Pelo seu lado, a filha levaria alguns móveis numerosos objetos que lhe pareciam muito apropriados para os leilões de antigüidades de Nova Orleans. Tudo isto foi um alívio para Fermina Daza, ainda que não achasse graça nenhuma em comprovar que as coisas compradas por ela na viagem de núpcias já fossem relíquias de antiquário. Contra o estupor mudo das criadas, dos vizinhos, das amigas da vizinhança que vinham acompanhá-la naqueles dias, fez atear uma fogueira num terreno vazio detrás da casa, e nela queimou tudo que lhe lembrava o marido: as roupas mais custosas e elegantes que se viram na cidade desde o século anterior, os sapatos mais finos, os chapéus que se pareciam mais com ele do que os retratos, a cadeira de balanço da sesta da qual se levantara pela última vez para morrer, inúmeros objetos tão ligados à sua vida que já formavam parte da sua identidade. Tudo fez sem uma sombra de dúvida, na certeza plena de que o marido teria aprovado, e não somente por higiene. Pois ele exprimira muitas vezes o desejo de ser incinerado, e não encerrado na escuridão sem frestas de uma caixa de cedro. Sua religião o interditava, antes de mais nada: ousara sondar a opinião do arcebispo, pois não custava tentar, e este respondera com uma negativa terminante. Era uma pura ilusão, porque a Igreja não permitia a existência de fornos crematórios em nossos cemitérios, nem para uso de religiões diferentes da católica, e a ninguém mais do que ao próprio Juvenal Urbino teria ocorrido a conveniência de construí-los. Fermina Daza não esqueceu aquele terror do esposo, e mesmo na confusão das primeiras horas se lembrou de mandar que o carpinteiro lhe deixasse o consolo de uma brecha de luz no caixão.
De todas as maneiras foi um holocausto inútil. Fermina Daza percebeu  em  pouco tempo que a lembrança do marido morto era tão refratária ao fogo como parecia ser à passagem dos dias. Pior: depois da incineração das roupas não só continuava penando pelo muito que tinha amado nele, como ainda pelo que mais a incomodava: os barulhos que fazia quando se levantava. Essas lembranças a ajudaram a sair dos charcos do luto. Acima de tudo, adotou a resolução firme de prosseguir na vida lembrando o marido como se não tivesse morrido. Sabia que o despertar de cada manhã continuaria sendo difícil, mas cada vez  menos.
No  término da  terceira semana, com  efeito, começou  a vislumbrar as  primeiras

luzes. Mas à medida que aumentavam e se tornavam mais claras,  tomava consciência de que havia em sua vida um fantasma atravessado que não  lhe dava  um instante de sossego. Não era o fantasma digno de compaixão que a espreitava na pracinha dos Evangelhos, e que ela evocava a partir da velhice com certa ternura, e sim o fantasma abominável da sobrecasaca de verdugo e do  chapéu  apoiado  no peito, cuja impertinência estúpida a perturbara de tal modo que já lhe era impossível não pensar nele. Sempre, desde que o repudiara aos dezoito anos, guardou a convicção de ter deixado nele uma semente de ódio que o tempo só faria dilatar. Contara com esse ódio em todos os momentos, sentia-o no ar quando o fantasma estava perto, sua mera visão a perturbava, a assustava de tal modo que nunca encontrou uma maneira natural de  se comportar com ele. Na noite em que  ele reiterou seu amor, com as flores do marido morto perfumando ainda a casa, ela não pôde aceitar que aquele desplante não fosse o primeiro passo de quem sabe lá que sinistro propósito de vingança.
A persistência da lembrança aumentava sua raiva. Quando acordou pensando nele, no dia seguinte ao do enterro, conseguiu varrê-lo da memória com um simples gesto da vontade. Mas a raiva voltava sempre, e em breve percebeu que o desejo de esquecê-lo era o mais forte estímulo para se lembrar dele. Então se atreveu a evocar pela primeira vez, vencida pela saudade, os tempos ilusórios daquele amor irreal. Tratava de precisar como era a pracinha de então, as amendoeiras ao vento, o banco de onde ele a amava, porque nada disso existia mais como naquele tempo. Tinha mudado tudo, haviam carregado as árvores com seu tapete de folhas amarelas, e em lugar da estátua do herói decapitado tinham posto a de outro com uniforme de gala, sem nome, sem datas, sem motivos que o justificassem, sobre um pedestal aparatoso dentro do qual estavam instalados os controles elétricos do bairro. Sua casa, por fim vendida há muitos anos, caía aos pedaços nas mãos do governo provincial. Não lhe era fácil recuperar a imagem de Florentino Ariza, e muito menos conceber que aquele rapaz taciturno, tão desvalido debaixo da chuva, fosse aquela mesma ruína carunchosa que se plantara diante dela sem nenhuma consideração pelo seu estado, sem menor respeito pela sua dor, e que lhe abrasara a alma como uma injúria de chamas vivas que até agora lhe atalhava a respiração.
A prima Hildebranda Sánchez tinha vindo visitá-la pouco depois de sua estada na fazenda de Flores de Maria recuperando-se da hora negra da senhorita Lynch. Tinha chegado velha, gorda, feliz, acompanhada do filho mais velho, que tinha sido coronel do exército, como o pai, mas repudiado por ele devido à sua atuação indigna na matança dos trabalhadores dos bananais em São João da Ciénaga. As duas  primas se haviam visto muitas vezes, e sempre deixavam correr as horas nas saudades da época em que se haviam conhecido. Na última visita, Hildebranda estava mais nostálgica do que nunca, e muito atingida pela carga da velhice. Para fruírem melhor as saudades, trouxe sua cópia do retrato de dama antiga que tirara o fotógrafo belga na tarde em que o jovem Juvenal Urbino deu a estocada de misericórdia  na  voluntariosa  Fermina  Daza.  A  cópia  desta  se  perdera,  e  a      de

Hildebranda era quase invisível, mas ambas se reconheceram através  das  brumas do desencanto: moças e belas como jamais voltariam a  ser.
Para Hildebranda era impossível não falar de Florentino Ariza, porque sempre identificou a sorte dele com a sua. Evocava-o como no dia em que  passou  o  primeiro telegrama, e jamais conseguira tirar do coração a lembrança do passarinho triste condenado ao esquecimento. De sua parte, Fermina o vira muitas vezes, sem conversar com ele, é claro, e não podia conceber que fosse mesma pessoa do seu primeiro amor. Sempre lhe haviam chegado notícias dele, como mais cedo ou mais tarde chegavam as de tudo que significasse alguma coisa na cidade. Dizia-se que ele não tinha casado por ser de costumes diferentes, mas tampouco a isso prestou atenção, em parte por nunca fazer caso de rumores, em parte porque de todos os modos diziam-se coisas semelhantes de muitos homens inatacáveis. Em compensação, achava estranho que Florentino Ariza persistisse na indumentária mística, nas loções raras, e que continuasse tão enigmático depois de abrir seu caminho na vida de um modo tão espetacular, além de tão honesto. Não conseguia acreditar que fosse mesmo, e sempre se admirava quando Hildebranda suspirava: "Pobre homem, como deve ter sofrido!" Pois ela o via sem sofrimento desde muito tempo: era uma sombra apagada.
Mesmo assim, na noite em que o encontrou no cinema, nos tempos em  que voltou de Flores de Maria, algo estranho aconteceu no seu coração. Não se admirou que estivesse com uma mulher, e preta, ainda por cima. Admirou-se de vê-lo tão bem conservado, comportando-se com mais naturalidade, e não lhe ocorreu achar que talvez fosse ela e não ele quem havia mudado depois da irrupção perturbadora da senhorita Lynch em sua vida privada. A partir de então, e durante mais de vinte anos, continuou a vê-lo com olhos mais compassivos. Na noite do velório do marido não só lhe pareceu compreensível que estivesse ali, como até interpretou  o  fato como término natural do rancor: um ato de perdão esquecimento. Por isso foi tão imprevista a reiteração dramática de um amor que para ela não existira nunca, e numa idade em que não restava a ela e a Florentino Ariza nada mais que esperar da vida.
A raiva mortal do primeiro impacto continuava intacta depois da cremação simbólica do  marido, e mais crescia e se ramificava quanto menos capaz se sentia   de  dominá-la. Pior: os espaços da memória onde lograva apaziguar as lembranças   do morto iam sendo ocupados pouco a pouco de um modo inexorável pela campina de papoulas onde estavam enterradas as lembranças de Florentino Ariza. Assim, pensava nele sem querer, e quanto mais pensava nele mais raiva lhe dava, e quanto mais raiva lhe dava mais pensava nele, até que a coisa ficou  tão insuportável  que  lhe afogou a razão. Então sentou no gabinete do marido morto, e escreveu a Florentino Ariza uma carta de três páginas irracionais, tão carregadas de injúrias e  de provocações infames que lhe deixaram o alívio de ter cometido em sã  consciência o ato mais indigno de sua longa vida.

Também para Florentino Ariza aquelas três semanas tinham sido de agonia. Na noite em que reiterou seu amor a Fermina Daza tinha vagado sem rumo pelas ruas descompostas pelo dilúvio da tarde, a si mesmo perguntando aterrado o que ia fazer com a pele do tigre que acabava de matar depois de haver resistido ao seu assédio durante mais de meio século. cidade estava em estado de emergência devido à violência das águas. Em algumas casas havia homens mulheres meio nus procurando salvar do dilúvio o que Deus quisesse, e Florentino Ariza teve a impressão de que aquele desastre de todos tinha algo a ver com o seu. Mas o ar era manso e as estrelas do Caribe estavam quietas em seu lugar. De repente, em meio um silêncio das outras vozes, Florentino Ariza reconheceu a do homem que Leona Cassiani e ele tinham ouvido cantar muitos anos antes, à mesma hora e na mesma esquina: Da ponte me retirei banhado em lágrimas. Uma canção que de  algum modo, aquela noite e só para ele, tinha algo a ver com a  morte.
Nunca como então lhe fez tanta falta Trânsito Ariza, sua palavra sábia,  sua cabeça de rainha de brincadeira enfeitada com flores de papel. Não podia evitar: sempre que se encontrava à beira do cataclismo, fazia-lhe falta o amparo de uma mulher. De maneira que passou pela Escola Normal buscando o rumo  das atingíveis, e viu que havia luz na grande fileira de janelas do dormitório de América Vicuña. Teve que fazer um grande esforço para não incorrer na loucura de avô de carregá-la às duas da madrugada, morna de sono entre as fraldas, cheirando ainda a emanações de berço.
No outro extremo da cidade estava Leona Cassiani, só e livre, e disposta sem dúvida a lhe proporcionar às duas da madrugada, às três, a qualquer hora e em qualquer circunstância a compaixão que lhe fazia falta. Não teria sido a primeira vez que batia à sua porta no ermo de suas insônias, mas compreendeu que ela era demasiado inteligente, se amavam demais, para que ele fosse chorar no  seu  regaço sem revelar o motivo. Ao cabo de muito pensar, sonâmbulo pela cidade deserta, ocorreu a ele que com nenhuma estaria melhor do que  com  Prudência Pitre: a Viúva de Dois. Era dez anos mais moça que ele. No século  anterior  se haviam conhecido, e se haviam deixado de se encontrar era porque ela  se empenhara em não se deixar ver como estava, meio cega, e deveras à beira da decrepitude. Logo que se lembrou dela, Florentino Ariza voltou à Rua das Janelas, meteu numa sacola de mercado duas garrafas de vinho do porto e um vidro de conservas, e foi procurá-la sem saber sequer se estava em sua casa de sempre, se estava só, ou se estava viva.
Prudência Pitre não tinha esquecido a senha das unhas arranhando a porta, com  a qual ele se identificava quando ainda se acreditavam jovens embora já  não  fossem, e abriu sem perguntas. A rua estava às escuras, e ele era apenas visível com  a roupa de lã preta, o chapéu duro e o guarda-chuva de morcego pendurado no braço, e ela não tinha olhos para vê-lo a menos que fosse à plena luz, mas o reconheceu pelo clarão do lampião na armação metálica dos óculos. Parecia um assassino de mãos ainda ensangüentadas.

   Asilo para um pobre órfão — disse.
Foi a única coisa que acertou dizer, só para dizer alguma coisa.
Surpreendeu-se de ver quanto havia envelhecido desde que a vira pela última  vez, e sentiu que ela também o via assim. Mas se consolou pensando que um momento depois, quando se repusessem do golpe inicial, iriam notando menos um no outro os desgastes da vida, e tornariam a se ver tão jovens quanto tinham  sido  um para o outro ao se conhecerem: quarenta anos atrás.
   Você está com cara de enterro — disse ela.
Assim era. Ela também estivera na janela desde as onze, como quase toda a cidade, contemplando a passagem do cortejo mais concorrido e suntuoso que se vira desde a morte do arcebispo De Luna. Acordara da sesta com trovões de artilharia  que faziam tremer a terra, com a discórdia das bandas militares, a desordem dos cânticos fúnebres por cima do clamor dos sinos de todas as igrejas, que dobravam sem pausas desde o dia anterior. Tinha visto da sacada os militares da cavalaria em uniforme de parada, as comunidades religiosas, os colégios, as grandes limusines negras da autoridade invisível, as carruagens de cavalos com morriões de plumas e gualdrapas de ouro, o ataúde amarelo coberto com a bandeira na carreta de um canhão histórico, e por último fila das velhas vitórias descobertas  que  continuavam a se manter vivas para carregar as coroas. Ainda nem haviam acabado de passar diante do balcão de Prudência Pitre, pouco depois do meio-dia, quando despencou o dilúvio, e o cortejo se dispersou às carreiras.
   Que maneira mais absurda de morrer — disse ela.
    A morte não tem noção do ridículo — disse ele, e acrescentou com pena: — sobretudo em nossa idade.
Estavam sentados no terraço, frente ao mar aberto, vendo a lua com  um halo  que ocupava metade do céu, vendo as luzes coloridas dos navios no horizonte, gozando a brisa tíbia e perfumada depois da tempestade. Bebiam porto e comiam conservas com o pão que Prudência Pitre cozia em casa e trazia em  fatias  da cozinha. Tinham passado muitas noites como essa, depois que ela ficou viúva e sem filhos aos trinta e cinco anos. Florentino Ariza a encontrou  numa época em que  teria recebido qualquer homem que quisesse sua companhia, ainda que fosse um operário horista, e conseguiram estabelecer uma relação mais séria e prolongada do que parecia possível.
Embora nunca tivesse jamais insinuado tal coisa, ela teria vendido a alma ao diabo para se casar com ele em segundas núpcias. Sabia que não era fácil submeter- se à sua mesquinharia, a suas necessidades de velho prematuro, à sua ordem de maníaco, à sua ansiedade de pedir tudo sem dar nada de nada, mas em compensação não havia homem que mais que ele se deixasse acompanhar, porque não havia outro no mundo tão necessitado de amor. Tampouco havia outro tão escorregadio, de modo que o amor não passou de onde sempre chegava com ele:   até

onde não interferisse com sua determinação de se conservar livre para  Fermina Daza. Mesmo assim, prolongou-se por muitos anos, até mesmo depois de arrumar ele as coisas para que Prudência Pitre casasse de  novo, com um caixeiro viajante  que ficava três meses e viajava outros três, e com quem ela teve uma filha e quatro filhos, um dos quais, segundo ela jurava, era de Florentino Ariza.
Conversaram sem se preocupar com a hora, porque  ambos  estavam acostumados a compartilhar suas insônias de jovens, e tinham muito menos que perder em suas insônias de velhos. Embora quase nunca passasse  do  segundo  cálice, Florentino Ariza não tinha recobrado o alento depois do terceiro. Suava em bicas, e a Viúva de Dois lhe disse para tirar o paletó, o colete, as calças, que tirasse o que quisesse, porque porra, no fim das contas se conheciam melhor nus do que vestidos. Ele disse que tirava se ela também o fizesse, mas ela não quis: há tempos  se vira no espelho do guarda-roupa, e tinha compreendido na hora que não tinha mais sentido deixar-se ver nua por ele ou por ninguém.
Florentino Ariza, num estado de exaltação que não tinha conseguido apaziguar com quatro cálices de vinho do porto, continuou falando no passado, nas boas lembranças do passado que eram seu tema único há tanto tempo, mas ansioso por encontrar no passado um caminho secreto para desabafar. Pois disso é que sentia falta: botar a alma pela boca. Quando percebeu os primeiros fulgores no horizonte tentou uma aproximação enviesada. Perguntou, de um modo que parecia casual: "Que faria você se alguém lhe propusesse casamento, assim como você está, viúva e na sua idade?" Ela riu, com um enrugado riso de velha, e perguntou por sua vez:
   Você pergunta por causa da viúva de Urbino?
Florentino Ariza esquecia sempre quando menos devia que as mulheres pensam mais no sentido oculto das perguntas que nas próprias perguntas, e Prudência Pitre mais que qualquer outra. Presa de um pavor súbito devido à sua pontaria de arrepiar, barafustou pela porta falsa: "Pergunto por sua causa." Ela tornou a rir: "Vá zombar da puta da sua mãe, que em paz descanse." Depois instou com ele para que dissesse o que queria dizer, porque sabia que nem ele nem nenhum*outro homem a teria despertado às três da madrugada, e depois de tantos anos sem vê-la, só para beber vinho do porto e comer pão caseiro com conservas. Disse: "Isso a gente só faz quando procura alguém com quem chorar." Florentino Ariza bateu em retirada.
   Por uma vez você se engana — disse. — Até que esta noite minhas razões são mais para cantar.
   Então cantemos — disse ela.
Começou a entoar com muito boa voz a canção da moda: Ramona, os sinos plangem para céu. Foi o final da noite, pois ele não se atreveu a jogar jogos proibidos com uma mulher que lhe dera demasiadas provas de conhecer o outro  lado da lua. Saiu para uma cidade diferente, rarefeita pelas últimas dálias de junho, para uma rua de sua juventude por onde desfilavam as viúvas de trevas da missa das  cinco. Mas  então foi ele e  não elas  quem mudou  de  calçada para que  não   lhe

vissem as lágrimas que não podia mais reprimir, não desde a meia-noite, como ele acreditava, porque estas eram outras: as que trazia atravessadas na garganta há cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias.
Tinha perdido a conta do seu tempo, quando acordou sem saber onde diante de um vendaval deslumbrante. A voz de América Vicuña jogando bola no jardim  com  as empregadas colocou-o na realidade: estava na cama da mãe, cuja alcova conservava intacta, e onde costumava dormir para se sentir menos só nas poucas ocasiões em que a solidão o inquietava. Diante da cama estava o grande espelho da Pousada do Sancho, e a ele bastava acordar para ver Fermina Daza refletida no fundo. Soube que era sábado, porque era o dia em que o chofer apanhava no internato América Vicuña, e a levava a sua casa. Percebeu que tinha dormido sem saber, sonhando que não podia dormir, com um sono perturbado pela cara de raiva de Fermina Daza. Tomou banho pensando qual devia ser o passo seguinte, vestiu-se bem devagar com suas melhores roupas, perfumou-se e engomou o bigode branco  de pontas afiadas, e ao sair do quarto viu do corredor do segundo andar a bela criatura de uniforme, que agarrava a bola no ar com a graça que tantos sábados o fizera estremecer, mas que essa manhã não lhe causou a menor perturbação. Chamou-a com um gesto para sair, e antes de entrar no automóvel lhe disse sem necessidade: "Hoje não vamos fazer coisinhas." Levou-a à Sorveteria Americana, apinhada a essa hora de pais tomando sorvete com os filhos debaixo  dos ventiladores de pá pendurados do teto baixo. América Vicuña pediu um sorvete de vários andares, cada um de uma cor diferente numa taça gigantesca, que era seu predileto e o mais vendido porque exalava uma fumaçada mágica. Florentino Ariza tomou um café puro, olhando a menina sem falar, enquanto ela tomava o sorvete com uma colher de cabo bem comprido para chegar ao fundo da taça. Sem deixar de olhá-la, disse de repente:
   Vou me casar.
Ela o olhou nos olhos com um lampejo de incerteza, mantendo a colher no ar, mas logo se refez e sorriu.
   Está brincando — disse. — Os velhinhos não se casam.
Essa tarde deixou-a no internato à hora do ângelus, debaixo de um aguaceiro obstinado, depois de terem visto juntos os títeres do parque, de terem almoçado nas barracas de peixe frito do cais, de terem visto as feras enjauladas de um circo que acabava de chegar, de comprar nos portais toda classe de doces para levar para o internato, e de terem percorrido a cidade várias vezes no automóvel de capota  arriada para que ela fosse se acostumando à idéia de que ele era seu tutor, e não  mais seu amante. No domingo mandou o automóvel para ver se ela queria passear com as amigas, mas não a quis ver, porque a partir da semana anterior passara a ter noção plena da idade de ambos. Essa noite tomou a decisão de escrever & Fermina Daza uma carta de desculpas, embora fosse só para não capitular, mas deixou-a para dia seguinte. Segunda-feira, ao fim de  três semanas exatas de  paixão, entrou     em

casa ensopado de chuva, e encontrou a carta dela.
Eram oito da noite. As duas criadas estavam deitadas,
e tinham deixado no corredor a única luz permanente que permitia a Florentino Ariza chegar até o quarto de dormir. Sabia que seu jantar esturricado e insípido estava na mesa da sala de jantar, mas o pouco de fome que tinha depois de tantos dias comendo de qualquer maneira se esvaiu com a comoção da carta. Teve trabalho em acender a luz geral do quarto de tanto que lhe tremiam as mãos. Pôs a carta molhada em cima da cama, acendeu a lâmpada da mesa de cabeceira, e com a pretensa calma que era recurso muito seu para se aquietar, tirou o paletó empapado e o colocou no espaldar da cadeira, tirou o colete e o pôs muito bem dobrado em cima do paletó, tirou a fita de seda preta e o colarinho de celulóide  que  já tinha  saído de moda no mundo, desabotoou a camisa até a cintura e desafivelou o cinto para respirar melhor, e por último tirou o chapéu que pôs para secar junto à janela. De repente estremeceu porque não soube onde estava a carta, e era tal seu nervosismo que se surpreendeu quando a encontrou, pois não lembrava de tê-la colocado em cima da cama. Antes de abri-la secou o envelope com um lenço, tomando o cuidado de não borrar a tinta com que seu nome estava escrito, e enquanto o fazia se deu conta de que aquele segredo não era mais  compartilhado  por duas pessoas, e sim três, pelo menos, pois quem quer que houvesse trazido a carta teria reparado que a viúva de Urbino tinha escrito a alguém de fora do seu mundo apenas três semanas depois de morto o marido, com tanta premência que não mandara a carta pelo correio, e com tanto sigilo que dera ordens para que não fosse entregue em mãos e sim enfiada por baixo da porta como  um  bilhete anônimo. Não precisou rasgar o envelope, pois a cola se dissolvera com a água, mas  a carta estava seca: três páginas densas, sem cabeçalhos, e assinadas com as iniciais do nome de casada.
Leu-a uma vez com toda a pressa sentado na cama, mais intrigado pelo tom que pelo conteúdo, e antes de passar à segunda página já sabia que era justo a carta de impropérios que esperava receber. Colocou-a aberta na zona luminosa do abajur, tirou os sapatos e as meias molhadas, apagou junto à porta a luz do teto, e afinal colocou a bigodeira de camurça e se deitou sem tirar as calças e a camisa, com a cabeça apoiada em dois travesseirões que usava como espaldar para ler. Assim releu a carta, agora letra por letra, esquadrinhando cada letra para que nenhuma de suas intenções ocultas ficasse por desentranhar, e a leu depois quatro vezes  mais, até ficar tão saturado que as palavras escritas começaram a perder o sentido. Por último guardou-a sem o envelope na gaveta da mesa de cabeceira, se deitou de costas com  as mãos entrelaçadas na nuca, e ficou durante quatro horas com a vista imóvel no espaço do espelho onde ela estivera, sem pestanejar, mal respirando, mais  morto que um morto. À meia-noite em ponto foi à cozinha, preparou e levou para o quarto uma garrafa térmica de café espesso como petróleo cru, atirou a dentadura postiça no copo d'água boricada que estava sempre pronto para isto na mesa de cabeceira, tornou a deitar na mesma posição de  mármore jacente com variações    instantâneas

de  tempos em tempos para tomar um sorvo de  café, até que a arrumadeira entrou  às seis com outra garrafa térmica cheia.
essa hora, Florentino Ariza já sabia qual ia ser cada um dos seus passos seguintes. Na realidade não lhe doeram os insultos nem se preocupou em aclarar as imputações injustas, que podiam ter sido piores conhecendo-se o caráter de Fermina Daza e a gravidade do motivo. A única coisa que lhe interessou foi que a carta em si mesma lhe dava a oportunidade e reconhecia seu direito de resposta. Mais ainda: exigia. Desta forma a vida estava agora no limite onde tinha querido levá-la. Tudo mais dependia dele, e tinha a convicção firme de que seu inferno privado de mais de meio século lhe propunha ainda muitas provações mortais que  ele estava disposto a afrontar com mais ardor e mais dor e mais amor que todas as anteriores, porque seriam as últimas.
Cinco dias depois de receber a carta de Fermina Daza, quando chegou aos seus escritórios, sentiu que flutuava no vácuo abrupto e incomum das máquinas de escrever, cujo ruído de chuva tinha acabado por se notar menos que seu  silêncio. Era uma pausa. Quando o ruído recomeçou, Florentino Ariza assomou à sala de Leona Cassiani e a contemplou sentada diante de sua máquina pessoal, que  obedecia à ponta dos seus dedos como um instrumento humano. Ela se sentiu observada, e olhou para a porta com seu terrível sorriso solar, mas não deixou de escrever até o final do parágrafo.
   Diga-me uma coisa, leoa de minh'alma — perguntou Florentino Ariza: — como se sentiria você se recebesse uma carta de amor escrita nesse  traste?
O gesto dela, que já não se espantava com nada, foi de surpresa  legítima.
   Ora essa! — exclamou. — Juro que nunca pensei no  assunto.
Por isso mesmo não tinha resposta. Tampouco Florentino Ariza tinha pensado  no assunto até então, e resolveu correr o risco a fundo. Levou para casa uma das máquinas do escritório em meio às troças cordiais dos subalternos: "Louro velho não aprende a falar." Leona Cassiani, entusiasta de qualquer novidade, se ofereceu para lhe dar lições de datilografia a domicílio. Mas ele era contra os aprendizados metódicos desde que Lotário Thugut quis ensiná-lo a tocar violino por música, com  a ameaça de que ia precisar pelo menos um ano para começar, cinco para ser aceitável numa orquestra profissional, e a vida inteira de seis horas diárias para  tocar bem. Contudo, conseguiu que a mãe lhe comprasse um violino de cego, e com as cinco regras básicas dadas por Lotário Thugut se atreveu a tocar antes de um ano no coro da catedral, e a endereçar serenatas a Fermina Daza a partir do  cemitério  dos pobres e segundo a direção dos ventos. Se isto ocorrera aos seus vinte anos com algo tão difícil quanto o violino, não via por que não faria o mesmo aos setenta e   seis com um instrumento de um dedo só como a máquina de  escrever.
Assim foi. Necessitou de três dias para aprender a posição das letras no teclado, outros seis para aprender a pensar ao mesmo tempo que escrevia, e outros três para terminar  a  primeira  carta  sem  erros,  depois  de  rasgar  meia  resma  de  papel.  O

cabeçalho foi solene: Senhora, e a assinou com a inicial de seu nome, como costumava fazer nas missivas perfumadas de sua juventude. Mandou-a pelo correio, num envelope com tarjas de luto como era de rigor numa carta para uma viúva recente, e sem nome do remetente no dorso.
Era uma carta de seis páginas que não tinha nada que ver com  qualquer outra que jamais houvesse escrito. Não tinha nem tom, nem estilo, nem o sopro retórico dos primeiros anos do amor, e seu argumento era tão racional e bem  medido que o perfume de uma gardênia teria sido um ex-abrupto. De certo modo,  foi a aproximação mais acertada das cartas mercantis que nunca soube escrever. Anos depois, uma carta pessoal escrita por meios mecânicos ia ser considerada quase ofensiva, mas nesse tempo a máquina de escrever era ainda um animal de escritório, sem uma ética própria, cuja domesticação para usos privados não estava prevista nos manuais de urbanidade. Mais parecia um modernismo audaz, e assim terá entendido Fermina Daza, pois na segunda carta que escreveu a  Florentino Ariza, depois de receber mais de cento e quarenta suas, começava se desculpando pelos defeitos de sua letra, por não dispor de meios de escrita mais adiantados  do que a pena de aço.
Florentino Ariza sequer mencionou a carta tremenda que ela havia mandado, tentando desde o princípio um método diferente de sedução, sem qualquer referência aos amores do passado, nem ao simples passado: água passada não move moinho. Era antes uma extensa meditação sobre a vida, com base nas suas idéias e experiências das relações entre homem mulher, que um dia pensara em escrever como complemento do Secretário dos Namorados. Só que agora a envolveu num estilo patriarcal, de memórias de velho, para que não se notasse demais que na realidade era um documento de amor. Escreveu muitos rascunhos à moda antiga, que antes de serem lidos de cabeça fria já estavam ardendo na candeia. Sabia que qualquer descuido convencional, a menor ligeireza nostálgica podia revolver no coração dela ressaibos do passado, e embora previsse que ela devolveria cem cartas antes de ousar abrir a primeira, preferia que isso não acontecesse nem uma vez. Por isso planejou até o último pormenor como numa guerra final: tudo tinha que ser diferente para suscitar novas curiosidades, novas intrigas, novas esperanças, numa mulher que vivera em sua plenitude uma vida completa. Tinha que ser uma ilusão desatinada, capaz de lhe dar a coragem de jogar no lixo os preconceitos de uma  classe que não tinha sido a sua original, mas acabara por ser mais que de outra qualquer. Tinha que ensiná-la a pensar no amor como um estado de graça que não era meio para nada, e sim origem e fim em si mesmo.
Teve o bom senso de não esperar uma resposta imediata, pois lhe bastava que a carta não fosse devolvida. Não foi, como não foi nenhuma das seguintes, e à medida que passavam os dias se acelerava sua ansiedade, pois quanto mais dias passavam sem devoluções mais aumentava a esperança de uma resposta. A freqüência das cartas começou condicionada pela habilidade dos seus dedos: primeiro uma por semana, depois duas, e por fim uma diária. Alegrou-se com o progresso dos  correios

desde seus tempos de missivista, pois não teria corrido o risco de se deixar ver todos os dias na Agência Postal pondo uma carta para uma mesma pessoa, nem enviá-la por alguém que podia falar depois. Em compensação, nada mais fácil que  mandar um empregado comprar os selos para todo um mês, e depois enfiar a carta numa  das três caixas postais situadas na cidade velha. Em pouco tempo incorporou o rito    à sua rotina: aproveitava as insônias para escrever, e no dia seguinte, a caminho do escritório, pedia ao chofer que parasse um minuto diante de uma caixa de esquina ele mesmo saltava para depositar a carta. Nunca permitiu que o chofer fizesse por ele, como pretendeu numa manhã de chuva, e às vezes tomava a precaução de não levar uma sim várias cartas ao mesmo tempo para parecer mais natural. O chofer não sabia, é claro, que as cartas suplementares eram folhas em branco que Florentino Ariza dirigia a si mesmo, pois nunca mantivera correspondência privada com ninguém, salvo o informe de  tutor que mandava no fim de  cada mês aos pais  de América Vicuña com suas impressões pessoais sobre a conduta, o ânimo  e  a saúde da menina, e a boa marcha dos seus estudos.
Começou a numerar as cartas a partir do primeiro mês, e a encabeçá-las com um resumo das anteriores como os folhetins em série dos jornais, por temor de que Fermina Daza não notasse que tinham uma certa continuidade.  Quando  se tornaram diárias, além disso, trocou os envelopes de tarja de luto por envelopes brancos e amplos, o que acabou de lhes dar a impessoalidade cúmplice das cartas comerciais. Quando começou estava disposto a submeter sua paciência a uma prova maior, ao menos até não ter a evidência de que perdia o tempo com o único método diferente que pôde conceber. Esperou, com efeito, sem os desânimos de toda índole que lhe causavam as esperas da juventude, sim com a teimosia de um ancião de cimento sem nada mais em que pensar, sem nada mais que fazer numa companhia fluvial que já então navegava sozinha com ventos favoráveis, e ainda por cima convencido de que estaria vivo e no pleno domínio de suas faculdades de homem no dia de amanhã, de mais tarde ou de sempre em que Fermina Daza se convencesse afinal de que suas ânsias de viúva solitária só tinham o remédio de arriar para ele suas pontes levadiças.
Enquanto isso, continuou com sua vida regular. Prevendo uma resposta favorável, iniciou uma segunda renovação da casa para que fosse digna de quem  teria podido considerar-se sua dona e senhora desde que foi comprada. Tornou a visitar Prudência Pitre várias vezes, como havia prometido, para demonstrar que a amava apesar dos estragos da idade, à luz do sol e com as portas abertas, e não apenas em suas noites de desamparo. Continuou passando pela casa de Andréia Varón quando encontrava apagada luz do banheiro, e se embrutecendo com as loucuras de sua cama ainda que apenas para não perder a regularidade do amor, de acordo com outra superstição sua, nunca desmentida até então, de que o corpo continua enquanto a gente continue.
O único estorvo foi o estado de sua relação com América Vicuña. Tinha repetido ao chofer a ordem de apanhá-la aos sábados às dez da manhã no internato, mas  não

sabia o que fazer com ela durante o fim de semana. Pela primeira vez não se ocupou dela, e ela se ressentiu com a mudança. Ele a entregava às empregadas para que a levassem à sessão de cinema da tarde, aos coretos do parque infantil, às tômbolas    de beneficência, ou inventava para ela programas dominicais com outras companheiras do colégio para não ter que levá-la ao paraíso escondido atrás de seus escritórios, onde ela queria voltar sempre desde que a levou pela primeira vez. Não percebia, nas nebulosas de sua nova ilusão, que as mulheres podem se tornar  adultas em três dias, e eram três os anos que haviam passado desde que a recebera no motoveleiro de Porto Pai. Por muito que ele quisesse suavizá-la, a mudança para ela foi brutal, embora não concebesse o motivo. No dia em que ele disse na  sorveteria que ia se casar, ela sofreu um impacto de pânico, mas achou que a possibilidade era tão absurda que a esqueceu por completo. Em  breve  compreendeu, porém, que ele se comportava como se fosse coisa certa,  com  evasivas sem explicação, não como se tivesse sessenta anos mais e sim menos que ela.
Uma tarde de  sábado, Florentino Ariza a encontrou  escrevendo a máquina no  seu quarto de dormir, e bastante bem, pois estudava datilografia no colégio. Tinha feito mais de meia página de escritura automática, mas em certos trechos era fácil separar uma frase reveladora de seu estado de ânimo. Florentino Ariza se inclinou sobre seu ombro para ler o que escrevia. Ela se perturbou com seu calor de homem, seu alento entrecortado, o perfume de sua roupa, que era o mesmo de seu travesseiro. Não era mais a menina recém-chegada que ele despia peça a peça com gracinhas de bebê: primeiro estes sapatinhos para ursinho, depois esta blusinha para o cachorrinho, depois estas calcinhas de flores para coelhinho, e agora um beijinho na pombinha linda do papai. Não: agora era uma mulher feita e direita e que gostava de tomar a iniciativa. Continuou escrevendo com um só dedo da mão direita, e com a esquerda pegou às apalpadelas a perna dele, tateou, encontrou, sentiu-o reviver, crescer, suspirar de ansiedade, e sua respiração de velho se tornou áspera e difícil. Ela o conhecia: a partir desse ponto ele ia perder o domínio, sua razão se desarticulava, ficava à sua mercê, e não encontraria os caminhos da volta sem antes chegar ao final. Ela o foi levando pela mão até a cama, como se fosse um pobre cego da rua, e o trinchou bocado bocado com uma ternura maligna, pôs sal a seu gosto, pimenta de cheiro, um dente de alho, cebola picada, suco de um limão, uma folha de louro, até que ele ficou temperado na travessa diante do forno pronto na temperatura exata. Não havia ninguém em casa. As criadas tinham saído, os pedreiros e carpinteiros da reconstrução não trabalhavam aos sábados: tinham o mundo inteiro para eles dois. Mas ele saiu do êxtase à beira do abismo, afastou a  mão dela, se recompôs, disse com voz trêmula:
— Cuidado, não temos camisinhas.
Ela ficou muito tempo deitada de costas na cama, pensando, e quando voltou ao internato, com uma hora de antecipação, tinha apurado olfato e afiado as unhas para  encontrar  as  marcas  da  lebre  enfurnada  que  havia  transtornado  sua   vida.

Florentino Ariza, por sua vez, incorreu uma vez mais num erro de homem: achou que ela se convencera da inutilidade de seus propósitos e tinha resolvido esquecê-  lo.
Mergulhou em si mesmo. Ao fim de seis meses sem qualquer sinal, viu-se dando voltas na cama até romper o dia, perdido no deserto de uma insônia diferente. Pensava que Fermina Daza tinha aberto a primeira carta devido à sua aparência ingênua, tinha chegado até a inicial conhecida de outras cartas de outrora, e a jogara nas chamas do lixo sem se dar sequer o trabalho de rasgá-la. Teria bastado ver o envelope das seguintes para fazer mesmo sem abri-las, e assim até o fim dos tempos, enquanto ele chegava ao término de suas meditações escritas. Não acreditava que existisse uma mulher capaz de resistir à curiosidade de meio ano de cartas cotidianas sem sequer saber de que cor era a tinta com que estavam escritas. Mas se uma existia, só podia ser ela. Florentino Ariza sentia que o tempo da velhice não era uma corrente horizontal mas uma cisterna sem fundo por onde se escoava a memória. Seu engenho se esgotava. Depois de rondar a quinta da Mangueira durante vários dias, compreendeu que com aquele método juvenil não conseguiria transpor as portas condenadas pelo luto. Certa manhã, procurando um número no catálogo telefônico, encontrou por acaso o dela. A campainha tocou muitas vezes, e por fim reconheceu a voz, séria e afônica: "Sim?" Desligou sem falar,  mas  a  distância infinita daquela voz inatingível lhe abalou o espírito.
Naqueles dias Leona Cassiani celebrou seu aniversário e convidou a sua casa um pequeno número de amigos. Ele estava distraído e  entornou  o molho da galinha.  Ela limpou sua lapela molhando no copo d'água a ponta do guardanapo, que em seguida colocou nele feito um babador para evitar acidente maior: ficou feito um bebê velho. Notou que várias vezes durante a refeição tirou os óculos para enxugá- los no lenço, porque seus olhos choravam. À hora do café dormiu com a xícara na mão, e ela tratou de pegá-la sem acordar, mas ele reagiu envergonhado: "Eu só estava descansando a vista." Leona Cassiani foi se deitar espantada de  ver como já  se notava a velhice dele.
No primeiro aniversário da morte de Juvenal Urbino, a família enviou cartões de convite para uma missa comemorativa na catedral. Nessa altura, Florentino Ariza tinha mandado a carta número cento e trinta e dois sem receber de resposta  qualquer sinal, o que o impeliu à decisão audaz de ir à missa embora não  tivesse sido convidado. Foi um acontecimento social mais faustoso que comovente. Os assentos das primeiras filas, reservados com caráter vitalício e hereditário, tinham no espaldar uma placa de cobre com o nome do dono. Florentino Ariza chegou entre os primeiros convidados para se sentar num lugar por onde Fermina Daza não pudesse passar sem vê-lo. Pensou que os melhores seriam os da nave central, em seguida aos assentos reservados, mas era tamanha a afluência que nem ali  encontrou lugar vago, e teve que sentar-se na nave dos parentes pobres. Dali viu entrar Fermina Daza pelo braço do filho, vestida de veludo preto até os punhos, sem nenhum adereço, com  uma fileira contínua de  botões  do  pescoço  à ponta dos  pés,

como uma sotaina de bispo, e um leve xale de renda castelhana em lugar do chapéu de véu das outras viúvas, e mesmo de muitas senhoras que  gostariam  de  ser. O rosto descoberto tinha um resplendor de alabastro, os  olhos  lanceolados  viviam com a vida própria debaixo dos enormes lustres da nave central, e andava  tão  direita, tão altiva, tão dona de si, que não parecia mais velha que o filho. Florentino Ariza, de pé, apoiou a ponta dos dedos no espaldar do assento até que a vertigem passou ao largo, porque sentiu que ele ela não estavam a sete passos de distância    e sim em duas eras distintas.
Fermina Daza suportou a cerimônia no genuflexório familiar diante do altar- mor, de pé todo o tempo, na mesma postura com que assistia à ópera. Mas no final rompeu as normas da liturgia, e não ficou no seu lugar para receber a renovação das condolências, de acordo com os usos vigentes, abrindo caminho para agradecer a cada um dos convidados: um gesto inovador que estava muito de acordo com seu modo de ser. Cumprimentando uns e outros chegou aos bancos dos  parentes  pobres, e afinal olhou à sua volta para se certificar de que não faltava cumprimentar mais nenhum conhecido. Florentino Ariza sentiu então que um vento sobrenatural   o arrancava de seu centro: ela o havia visto. Fermina Daza, com efeito, se afastou de seus acompanhantes com a naturalidade com que fazia tudo em sociedade, estendeu-lhe a mão, e lhe disse com um sorriso muito  doce:
— Obrigada por ter vindo.
Pois não só recebera as cartas como as lera com grande interesse, encontrando nelas sérios motivos de reflexão para continuar vivendo. Estava na mesa, tomando café com a filha, quando recebeu a primeira. Abriu-a por curiosidade ao ver que estava escrita a máquina, e um rubor súbito lhe abrasou o rosto ao reconhecer a inicial da assinatura. Mas se dominou e guardou a carta no bolso do avental. Disse: "São pêsames do governo." A filha se espantou: "Já chegaram todos." Ela não se alterou: "Chegou mais um." Seu propósito era queimar a carta mais tarde, longe das perguntas da filha, mas não resistiu à tentação de dar antes uma olhada. Esperava uma réplica merecida à sua carta de injúrias, que tinha começado a lhe pesar no momento mesmo em que a mandou, mas a partir do cabeçalho senhorial e dos propósitos do primeiro parágrafo compreendeu que alguma coisa tinha mudado no mundo. Ficou tão intrigada que se trancou no quarto para ler a carta com tranqüilidade antes de queimá-la, e leu três vezes sem tomar  fôlego.
Eram meditações sobre a vida, o amor, a velhice, a morte: idéias que tinham passado muitas vezes a voejar como pássaros noturnos sobre  sua cabeça, mas que  se desmanchavam numa esteira de penas quando procurava segurá-las. Ali estavam, nítidas, simples, tal como teria gostado de dizê-las, e uma vez mais lamentou que o marido não estivesse vivo para comentá-las com ele, como costumavam comentar antes de dormir certos acontecimentos do dia. Desse modo se revelava um Florentino Ariza desconhecido, com uma clarividência que não correspondia às missivas febris da juventude nem à sua conduta sombria da vida inteira.Eram   antes

as palavras do homem que tia Escolástica imaginava inspirado pelo Espírito Santo,   e este pensamento tornou a assustá-la como da primeira vez. Em todo caso, o que mais contribuiu para acalmar seu ânimo foi a certeza de que aquela carta de velho sábio não era uma tentativa «e reiterar a impertinência da noite do luto, sim uma maneira muito nobre de apagar o passado.
As cartas seguintes acabaram de apaziguá-la. Queimou as de todos os modos, depois de lê-las com um interesse crescente, ainda que elas enquanto as queimava lhe fossem deixando um sedimento de culpa que não conseguia dissipar. Foi por  isso que quando começou a recebê-las numeradas encontrou a justificação  moral que estava desejando para não destruí-las. Sua intenção inicial, em todo caso, não era conservá-las para si mas esperar uma ocasião de devolvê-las a Florentino Ariza para que não se perdesse algo que a ela parecia de  tanta utilidade humana. O mal  foi que o tempo passou e as cartas continuaram chegando, uma cada três ou quatro dias de todo o ano, e ela não soube como devolvê-las sem dar a  impressão  da desfeita que não queria cometer, e sem ter que apresentar razões numa carta que  seu orgulho se negava a escrever.
Aquele primeiro ano tinha bastado para que assumisse viuvez. A lembrança purificada do marido deixou de ser um tropeço em seus atos cotidianos, em seus pensamentos íntimos, em suas intenções mais simples, se converteu numa presença vigilante que a guiava sem estorvá-la. Às vezes o encontrava, não como  uma aparição mas em carne e osso, onde em verdade lhe fazia falta. Animava-se  com a certeza de que ele estava ali, vivo ainda mas sem seus caprichos de homem, sem suas exigências patriarcais, sem a necessidade exaustiva de que ela o amasse com o mesmo ritual de beijos importunos e palavras ternas com que a amava. Agora o entendia melhor que quando estava vivo, entendia a ansiedade de seu amor, a urgência de encontrar nela a segurança que parecia ser o suporte de sua vida  pública, e que na realidade nunca teve. Um dia, no cúmulo da exasperação, ela havia gritado: "Você nem repara como sou infeliz." Ele tirou os óculos com um gesto  muito seu, sem se alterar, inundou-a com as águas diáfanas de seus olhos pueris, e numa só frase atirou-lhe em cima o peso de sua sapiência insuportável: "Lembre sempre que o mais importante num bom casamento não é a felicidade e sim a estabilidade." Desde suas primeiras solidões de viúva ela compreendeu que a frase não escondia a ameaça mesquinha que lhe havia atribuído em seu tempo, e sim pedra de toque que a ambos proporcionara tantas horas felizes.
Em suas tantas viagens pelo mundo, Fermina Daza comprava todas as coisas que lhe chamassem a atenção pela novidade. Ela as desejava devido a um impulso primário que o marido se comprazia em racionalizar, e eram coisas belas e úteis enquanto estavam sem seu meio de origem, nas vitrines de Roma, de Paris, de Londres, ou daquela Nova York trepidante do charleston onde começavam a crescer os arranha-céus, mas não resistiam à prova das valsas de Strauss com torresmos e das batalhas de flores a quarenta graus à sombra. Por isso regressava com meia dúzia  de  baús  verticais, enormes, de  metal  laqueado, fechaduras  e  cantoneiras de

cobre como féretros de fantasia, dona e senhora das últimas maravilhas do mundo, que no entanto só valiam seu peso em ouro no instante fugaz em que alguém do   seu mundo local as via por uma vez. Pois com essa finalidade tinham sido compradas: para que os outros as vissem uma vez. Ela adquirira noção do vazio de sua imagem pública desde muito antes de começar a envelhecer, e com freqüência dizia em casa: "Precisamos nos livrar de tantas bugigangas que já não nos deixam onde viver." O doutor Urbino fazia troça dos seus propósitos estéreis, pois sabia que os espaços liberados só iam servir para que ela os enchesse de novo. Mas  ela  insistia, já que na verdade não havia lugar para uma coisa  mais,  nem  havia  em canto algum algo que na realidade servisse para algo, como camisas penduradas em maçanetas de porta ou abrigos de inverno europeu socados nos armários da cozinha. Havia por isso as manhãs em que se levantava de espírito destemido e investia contra os guarda-roupas, esvaziava os baús, desmantelava os desvãos, e armava uma guerra sem quartel aos montões de roupa demasiado vista, chapéus nunca usados por falta de ocasião enquanto ainda estavam na moda, sapatos copiados por artistas da Europa dos que as imperatrizes usavam para ser coroadas, e que aqui eram desprezados pelas senhoritas de alta linhagem por serem idênticos  aos que as pretas compravam no mercado para andar em casa. Durante toda  a manhã o pátio permanecia em estado de emergência, e dava trabalho respirar na  casa devido às lufadas acres das bolas de naftalina. Mas a calma se restabelecia em poucas horas, já que no final ela se compadecia de tanta seda espalhada pelo chão, tantos brocados inúteis e desperdícios de passamanaria, tantas caudas de raposas azuis condenadas à fogueira.
— Isto é pecado queimar — dizia — com tanta gente, que não tem o que  comer.
Assim, a queima se acalmava, se acalmou sempre, e as coisas se limitavam a trocar de lugar, de seus cantos de privilégio às antigas cavalariças transformadas em depósito de sobras, enquanto os espaços liberados, tal como ele dizia, começavam a encher de novo, a transbordar de coisas que viviam um instante e iam morrer nos guarda-roupas: até a seguinte queima. Ela dizia: "Devia-se inventar o que fazer com as coisas que nem servem para nada nem se pode jogar fora:" Assim era: amedrontava-se com a voracidade dos objetos invadindo os espaços do viver, desalojando os humanos, encurralando-os, até que Fermina Daza os punha onde  não se vissem. Pois não era tão ordenada quanto acreditava, mas tinha um método próprio e desesperado de parecer que era: escondia a desordem. No dia em que morreu Juvenal Urbino tiveram que desocupar a metade do gabinete e amontoar as coisas nos quartos para ter um espaço em que  velá-lo.
A passagem da morte pela casa deixou a solução. Uma vez que queimou a roupa do marido, Fermina Daza percebeu que o pulso não lhe havia tremido, e com o mesmo impulso continuou armando a fogueira de tempos  em  tempos,  atirando tudo às chamas, o velho e o novo, sem pensar na inveja dos ricos nem na desforra  dos pobres que morriam de fome. Por último, fez cortar pela raiz o pé de manga até não  ficar  nenhum  vestígio  da  desgraça,  e  deu  o  louro  vivo  de  presente  ao novo

Museu da Cidade. Só então respirou a gosto numa casa como sempre a sonhara: ampla, fácil e sua.
Ofélia, filha, lhe fez companhia três meses e voltou a Nova Orleans. O filho trazia os seus a almoçar em família aos domingos, e sempre que podia durante a semana. As amigas mais próximas de Fermina Daza começaram a visitá-la uma vez superada a crise do luto, jogavam baralho diante do quintal pelado,  ensaiavam novas receitas de cozinha, punham-na em dia quanto à vida secreta do mundo insaciável que continuava existindo sem ela. Uma das mais assíduas foi Lucrécia dei Real dei Obispo, uma aristocrata à moda antiga com quem sempre manteve boa amizade, e que se aproximou mais dela a partir da morte de Juvenal Urbino. Entrevada de artrite e arrependida de sua vida airada, Lucrécia dei Real não só lhe fazia então a melhor companhia, como a consultava acerca dos projetos cívicos e mundanos que se preparavam na cidade, o que fazia com que ela se sentisse útil por si mesma e não pela sombra protetora do marido. Contudo, nunca como então se identificou tanto com ele, pois lhe tiraram o nome de solteira por que sempre a haviam chamado, e começou a ser a viúva de Urbino.
Era inconcebível, mas à medida que se aproximava o primeiro aniversário da morte do marido, Fermina Daza se sentia entrando num âmbito de sombra, fresco, silencioso: floresta do irremediável. Não estava ainda muito consciente, nem esteve durante vários meses, de quanto a ajudaram a recobrar a paz de espírito as meditações escritas de Florentino Ariza. Foram elas, aplicadas a suas experiências, que lhe permitiram entender sua própria vida, e esperar com serenidade  os desígnios da velhice. O encontro na missa de ano foi uma ocasião providencial de dar a entender a Florentino Ariza que ela também, graças às suas cartas de ânimo, estava disposta a apagar o passado.
Dois dias depois recebeu dele uma carta diferente: escrita a mão, em papel de linho, e com seu nome completo de remetente muito claro no dorso do envelope.  Era a mesma letra florida das primeiras cartas, a mesma vontade lírica, mas aplicadas a um parágrafo singelo de gratidão pela deferência do cumprimento na catedral. Fermina Daza continuou pensando nela com as saudades alvoroçadas vários dias depois de lê-la, e com a consciência tão limpa que na quinta-feira seguinte perguntou a Lucrécia dei Real dei Obispo, sem que viesse à baila, se por acaso conhecia Florentino Ariza, o dono dos navios do rio. Lucrécia respondeu que sim: "Parece que é um súcubo perdido." Repetiu a versão corrente de que nunca se soubera de mulher dele, embora fosse tão bom partido, e que tinha um escritório secreto onde levava os meninos que perseguia de noite pelo  cais. Fermina  Daza tinha escutado essa lenda até onde ia sua memória, e nunca acreditou nela ou lhe deu importância. Mas quando a ouviu repetida com tanta convicção por Lucrécia dei Real dei Obispo, de quem também se dissera numa época que tinha gostos esquisitos, não pôde resistir à premência de pôr as coisas no seu devido  lugar. Contou que conhecia Florentino Ariza desde menino. Relembrou que a mãe dele tinha armarinho na Rua das Janelas, e que além disso comprava camisas e lençóis

velhos para desfiar e vender como algodão de  emergência durante as guerras civis.  E concluiu com firmeza: "É gente honesta, feita à força de pulso." Foi tão veemente que Lucrécia deu o dito por não dito: "No fim das contas, de mim também dizem o mesmo." Fermina Daza não teve a curiosidade de perguntar a si mesma por que  fazia uma defesa tão apaixonada de um homem que não passara de uma sombra em sua vida. Continuou pensando nele, sobretudo quando chegava o correio sem nova carta. Tinham transcorrido duas semanas de silêncio, quando uma das empregadas  a despertou da sesta com um sussurro de alarma.
   Senhora — disse — aí está seu Florentino.
Estava ali. A primeira reação de Fermina Daza foi de pânico. Chegou a pensar  que não, que ele voltasse outro dia em hora mais apropriada, que não estava em condições de receber visitas, que não havia nada de que falar. Mas se repôs em seguida, e deu ordens para que o fizessem passar à sala e lhe levassem  café  enquanto ela se arrumava para atendê-lo. Florentino Ariza tinha esperado na porta da rua, ardendo sob sol infernal das três, mas com as rédeas na mão. Estava preparado para não ser recebido, ainda que mediante desculpas amáveis, e essa certeza o mantinha tranqüilo. Mas a decisão do recado o abalou à medula dos ossos, e ao entrar na sombra fresca da sala não teve tempo de pensar no  milagre  que  estava vivendo, porque suas entranhas se encheram de  pronto com  uma explosão  de espuma dolorosa. Sentou-se sem respirar, assediado pela lembrança maldita da cagada de pássaro em sua primeira carta de amor, e permaneceu imóvel na penumbra enquanto passava a primeira rajada de calafrios, resolvido a aceitar nesse momento qualquer desgraça, menos aquele percalço injusto.
Ele se conhecia bem: apesar de sua prisão de ventre congênita, os intestinos o haviam traído em público três ou quatro vezes em seus muitos anos, e nas três ou quatro vezes tinha tido que se render. Só nessas ocasiões, em outras de igual urgência, percebia a verdade de uma frase que gostava de repetir de brincadeira:  "Não creio em Deus, mas tenho medo dele." Não teve tempo para dúvidas: tratou de rezar qualquer oração de que se lembrasse, mas não encontrou nenhuma. Quando menino, outro menino lhe ensinara umas palavras mágicas para que acertasse num passarinho com uma pedra: "Tino tino se não te acerto te  escarabino."  Experimentou quando foi ao monte pela primeira vez, com bodoque novo, e o pássaro caiu fulminado. De maneira confusa, achou que uma coisa tinha algo a ver com a outra, e repetiu a fórmula com fervor de oração, mas não surtiu o mesmo efeito. Uma torcedura das tripas feito um eixo de espiral o ergueu do assento, espuma do seu ventre cada vez mais espessa e dolorida emitiu um queixume, e o deixou coberto de um suor gelado. A criada que trazia o café se assustou com seu semblante de morto. Ele suspirou: "É o calor." Ela abriu a janela, para ser amável, mas o sol da tarde deu em cheio no rosto dele, e foi preciso fechá-la de novo. Ele tinha compreendido que não agüentaria um momento mais, quando apareceu Fermina Daza quase invisível na penumbra, e se assustou ao vê-lo em semelhante estado.

   Pode tirar o paletó — disse.
Mais que a torcedura mortal, ele sofreria se ela conseguisse ouvir suas tripas borbulhando. Mas conseguiu sobreviver ainda um instante para dizer que não, que só tinha passado para lhe perguntar quando poderia fazer uma visita. Ela, de pé, desconcertada, disse: "Mas já está aqui." E o convidou a passar ao pátio onde faria menos calor. Ele recusou com uma voz que a ela mais pareceu um suspiro de  dor.
   Eu lhe imploro que seja amanhã.
Ela lembrou que amanhã era quinta-feira, dia da visita infalível de Lucrécia dei Real dei Obispo, mas encontrou uma solução definitiva: "Depois de amanhã às cinco." Florentino Ariza agradeceu, fez uma despedida de emergência com o chapéu, e foi embora sem provar o café. Ela continuou perplexa no centro da sala, sem entender o que acabava de acontecer, até que se extinguiu no fundo da rua a petardaria do automóvel. Florentino Ariza buscou então a posição  menos dolorida no assento posterior, fechou os olhos, afrouxou os músculos se entregou  à  vontade do corpo. Foi como tornar a nascer. O chofer, que depois de tantos anos a seu serviço já não se espantava com nada, manteve-se impassível. Mas ao abrir a porta diante do portal da casa, disse:
   Tome cuidado, Seu Floro, que isso parece cólera.
Mas era o de sempre. Florentino Ariza o agradeceu a Deus na sexta-feira às cinco em ponto, quando a criada o conduziu pela penumbra da sala até o pátio, onde encontrou Fermina Daza junto uma mesinha posta para duas pessoas. Ofereceu- lhe chá, chocolate ou café. Florentino Ariza pediu café, muito quente e muito forte,   ela disse à criada: "Para mim de sempre." O de sempre era uma infusão bem carregada de diversas classes de chás orientais, que lhe erguiam o ânimo depois da sesta. Quando ela terminou com o bule, ele com a cafeteira, ambos já haviam ensaiado e interrompido vários temas, não tanto porque deveras tivessem interesse neles, como para evitar outros que nem ele nem ela ousavam abordar. Estavam ambos intimidados, sem entender o que faziam tão longe da juventude na varanda enxadrezada de uma casa de ninguém que ainda recendia a flores de cemitério. Pela primeira vez achavam-se diante um do outro a tão curta distância e com tempo bastante para se verem com serenidade depois de meio século, e ambos se haviam visto tal como eram: dois anciãos espreitados pela morte, sem nada em  comum  além da lembrança de um passado efêmero que já não era deles mas de dois jovens desaparecidos que podiam ser seus netos. Ela achou que ele ia convencer-se afinal  da irrealidade de seu sonho, o que o redimiria da impertinência.
Para evitar silêncios incômodos ou temas indesejáveis, ela fez perguntas óbvias sobre os navios fluviais. Parecia mentira que ele, sendo o dono, só tivesse viajado uma vez, havia muitos anos, quando não tinha nada a ver com a empresa. Ela não sabia o motivo, e ele teria dado a alma para dizer qual. Tampouco ela conhecia o rio. Seu marido compartilhava sua aversão pelos ares andinos, e a disfarçava com argumentos   variados:   os   perigos   da  altura   para   o   coração,   o   risco   de uma

pneumonia, a falsidade dos da terra, as injustiças do centralismo. Por isso conheciam meio mundo mas não conheciam seu país. No momento havia um hidroavião Junkers que ia de povoado em povoado pela bacia do Madalena, como  um gafanhoto de alumínio, com dois tripulantes, seis passageiros e os sacos do correio. Florentino Ariza comentou: "É feito um caixão de defunto aéreo." Ela estivera na primeira viagem de balão, e não tinha sofrido nenhum susto, mas mal podia crer que fosse mesma pessoa que se atrevera a semelhante aventura. Disse: "É diferente." Querendo dizer que ela é que tinha mudado, não as maneiras de viajar.
Às vezes se surpreendia com o barulho dos aviões. Ela os  vira  passar  muito baixo, fazendo manobras acrobáticas, no centenário da morte do Libertador. Um deles, preto como um urubu enorme, passou roçando os telhados da Mangueira, deixou um pedaço de asa numa árvore vizinha, e ficou pendurado nos fios elétricos. Mas nem mesmo assim Fermina Daza assimilara a existência dos  aviões.  Nem  tivera a curiosidade de ir nos últimos anos até a enseada de Manzanillo, onde amerissavam os hidroaviões depois que as lanchas da guarda enxotavam as canoas  de pescadores e os botes de recreio, cada vez mais numerosos. Velha como estava, tinha sido escolhida para receber com um ramo de rosas Charles Lindbergh quando veio em seu vôo de boa vontade, e não entendeu como podia se elevar nos ares um homem tão grande, tão louro, tão bonito, dentro de um aparelho que  parecia de folha enrugada, e que dois mecânicos empurravam pela cauda para ajudar a subir. A idéia de que uns aviões não muito maiores pudessem carregar oito pessoas não lhe entrava na cabeça. Em compensação, tinha ouvido dizer que os navios fluviais eram uma delícia porque não jogavam como os do mar, mas enfrentavam outros perigos mais graves, como os bancos de areia e os assaltos de  bandoleiros.
Florentino Ariza explicou que tudo isso eram lendas de outros tempos: os navios atuais tinham salão de baile, camarotes amplos e luxuosos como quartos de hotel, com banheiro privado e ventiladores elétricos, e desde a última guerra civil  não havia mais assaltos armados. Explicou ainda, com a satisfação de um triunfo  pessoal, que estes progressos se deviam antes de mais nada à liberdade  de navegação propugnada por ele, que estimulara a concorrência: em vez de uma empresa única, como antes, havia três muito ativas e prósperas. Contudo, o rápido progresso da aviação era um perigo real para todos. Ela procurou consolá-lo: os navios existiriam sempre, porque não eram muitos os loucos dispostos  a  se meterem num aparelho que parecia ser contra a natureza. Por último, Florentino Ariza falou nos progressos do correio, tanto no transporte como na distribuição, vendo se ela falava nas suas cartas. Não conseguiu.
Pouco depois, no entanto, a ocasião chegou espontânea.  Estavam  muito afastados do tema, quando uma criada os interrompeu para entregar a  Fermina  Daza uma carta recebida nesse instante pelo correio urbano especial, de criação recente, que utilizava o mesmo sistema de distribuição dos telegramas. Ela não encontrou    os óculos de ler, o que sempre lhe acontecia. Florentino Ariza conservou

a serenidade.
   Não é necessário — disse: — esta carta é minha.
Era. Ele a escrevera na véspera, num terrível estado de depressão por não ter podido superar a vergonha da primeira visita frustrada. Nela se desculpava pela impertinência de querer visitá-la sem permissão prévia, e desistia dos Propósitos de voltar. Ele a pusera na caixa sem pensar duas vezes, e quando refletiu melhor já era tarde. Mesmo assim, não lhe pareceram necessárias tantas explicações, embora pedisse a Fermina Daza o favor de não ler a carta.
   Claro — disse ela. — No fim das contas, as cartas são de quem as escreve. Não   é certo?
Ele deu um passo firme.
   Sem dúvida — disse. — Por isso são a primeira coisa que se devolve quando há um rompimento.
Ela passou ao largo da intenção e devolveu a carta, dizendo: "É pena que não possa lê-la porque as outras me serviram muito." Ele respirou fundo, surpreendido de ouvir dela muito mais que esperara, e disse: "Não imagina como fico feliz em saber." Mas  ela mudou  o assunto, ele não conseguiu que o retomasse pelo resto  da tarde.
Despediu-se passadas as seis, quando começaram a acender as luzes da casa. Sentia-se mais seguro, mas sem demasiadas ilusões, porque não esquecia o caráter volúvel e as reações imprevistas de Fermina Daza aos vinte anos, e não tinha razões para pensar que ela tivesse mudado. Por isso se atreveu a perguntar com uma humildade sincera se podia voltar outro dia, e a resposta tornou a surpreendê-lo.
   senhor volte quando quiser — disse ela. — Quase sempre estou só.
Quatro dias depois, terça-feira, voltou sem se anunciar, e ela não esperou que servissem o chá para lhe falar de quanto tinham sido úteis suas cartas. Ele disse que não eram cartas num sentido estrito e sim folhas soltas de um livro que  teria  gostado de escrever. Ela também tinha entendido assim. Tanto assim que pensava em devolvê-las, desde que ele não visse isso como um desdouro, para que  lhes desse melhor destino. Continuou falando do bem que lhe haviam feito no duro transe que estava vivendo, e o fazia com tanto entusiasmo, com tanta  gratidão, talvez com tanto afeto, que Florentino Ariza ousou dar algo mais que um  passo firme: um salto mortal.
   Antes nós nos tratávamos por você — disse.
Era uma palavra proibida: antes. Ela sentiu passar o anjo quimérico do passado,  e procurou evitá-lo. Mas ele foi mais fundo: "Em nossas cartas de antes, quero  dizer." Ela se aborreceu, e teve que fazer um esforço sério para não demonstrá-lo. Mas ele percebeu, e compreendeu que devia avançar com mais tato, embora o tropeço lhe ensinasse que ela continuava tão arisca como na juventude, mas tinha aprendido ser arisca com doçura.

   Quero dizer — disse ele — que estas cartas são coisa muito  diferente.
   Tudo mudou no mundo — disse ela.
   Eu não — disse ele. — E a senhora?
Ela ficou com a segunda chávena de chá no meio do caminho e o increpou com uns olhos que eram sobreviventes dos tempos da  inclemência.
   Tanto faz — disse. — Acabo de completar setenta e dois anos.
Florentino Ariza recebeu o golpe no centro do coração. Teria gostado de encontrar uma réplica com a rapidez e o instinto de uma seta, mas o peso da idade venceu: nunca se sentira tão esgotado numa conversação tão breve, o coração lhe doía, e cada golpe repercutia com ressonância metálica em suas artérias. Sentiu-se velho, triste, inútil, e com umas ânsias tão prementes de chorar que não pôde mais falar. Terminaram a segunda xícara num silêncio sulcado de  presságios, e  quando ela tornou a falar foi para pedir a uma criada a pasta das cartas. Ele esteve a ponto   de pedir que ela guardasse as cartas, pois tinha cópias de papel carbono, mas achou que tal precaução ia parecer ignóbil. Não havia mais nada que falar. Antes de se despedir, ele sugeriu voltar na outra terça-feira à mesma hora. Ela perguntou a si mesma se devia ser tão condescendente.
   Não vejo que sentido teriam tantas visitas —  disse.
   Eu não pensei que tivessem nenhum — disse  ele.
De maneira que voltou na terça às cinco, e em todas as terças seguintes, sem a convenção do aviso, porque as visitas semanais se haviam incorporado à rotina de ambos no final do  segundo mês. Florentino Ariza levava biscoitinhos ingleses para   o chá, castanhas confeitadas, azeitonas gregas, pequenas delícias de mesa que encontrava nos transatlânticos. Numa das terças-feiras levou a cópia do retrato dela  e Hildebranda, tirado pelo fotógrafo belga há mais de meio século, que ele comprara por quinze cêntimos num saldo de cartões-postais do Portal dos Escrivães. Fermina Daza não pôde entender como o retrato chegara lá, nem ele pôde a não ser como um milagre do amor. Certa manhã, enquanto cortava rosas do seu jardim, Florentino Ariza não pôde resistir à tentação de lhe levar uma na próxima visita. Foi um, problema difícil na linguagem das flores por tratar-se de viúva recente. Uma rosa vermelha, símbolo da paixão em chamas, podia ser ofensiva seu luto. As rosas amarelas, que em outra linguagem eram as flores da boa sorte, exprimiam  ciúmes no vocabulário comum. Certa vez lhe haviam falado nas rosas negras da Turquia,  que talvez fossem as mais indicadas, mas não tinha podido obtê-las para aclimatá- las em seu pátio. Depois de muito pensar se arriscou com  uma rosa das  brancas, que lhe agradavam menos que as outras, por insípidas e mudas: não diziam nada. À última hora, prevenindo o caso de Fermina Daza emprestar-lhes algum sentido,  tirou os espinhos.
Foi bem recebida, como um presente sem intenções ocultas, e assim se enriqueceu o ritual das terças. Tanto que quando ele chegava com a rosa branca 

estava preparado o jarro de flor com água no centro da mesinha do chá. Numa  dessas terças, ao colocar a rosa, ele disse de um jeito que parecesse  casual:
   Em nossos tempos não se usavam rosas e sim  camélias.
   É verdade — disse ela — mas a intenção era outra, como o senhor  sabe.
Assim foi sempre: ele tentava avançar e ela lhe fechava o caminho. Mas nesta ocasião, apesar de sua resposta na hora, Florentino Ariza percebeu que acertara no alvo, porque ela teve que virar o rosto para não se ver que enrubescera. Um rubor ardente, juvenil, com vida própria, cuja impertinência lhe deu um sentimento de irritação consigo mesma. Florentino Ariza tomou o maior cuidado em suscitar  temas menos ásperos, mas sua gentileza foi tão evidente que ela se soube descoberta, o que aumentou sua raiva. Foi uma terça ruim. Ela esteve a ponto de pedir que não voltasse mais, mas a idéia de uma briga de noivos pareceu tão ridícula na idade e situação de ambos que lhe deu um acesso de riso. Na terça-feira seguinte, quando Florentino Ariza punha a rosa no jarro, ela esquadrinhou a consciência e comprovou com alegria que não restava da semana anterior um só traço de ressentimento.
As visitas começaram a adquirir em tempo muito breve uma incômoda amplitude familiar, pois o doutor Urbino Daza e a mulher apareciam às vezes como por acaso, e se deixavam ficar, jogando cartas. Florentino Ariza não sabia jogar, mas Fermina lhe ensinou numa única visita, e os dois mandaram aos esposos Urbino Daza um desafio escrito para a terça-feira seguinte. Eram encontros tão agradáveis para todos que se oficializaram com tanta rapidez quanto as visitas, e se estabeleceram normas para as contribuições de cada um. O doutor Urbino Daza e a mulher, que era uma doceira excelente, contribuíam com tortas originais, sempre diferentes. Florentino Ariza continuou levando as curiosidades que encontrava nos navios da Europa, e Fermina Daza dava tratos à bola para  inventar cada  semana uma surpresa nova. Os torneios se jogavam na terceira terça-feira de cada mês, e  não se faziam apostas em dinheiro, mas impunha-se ao perdedor uma contribuição especial para partida seguinte.
O doutor Urbino Daza correspondia à sua imagem pública: era  fraco  de iniciativa, tardo de maneiras, e sofria de sobressaltos súbitos, tanto de alegria como de desgosto, e de rubores inoportunos que faziam temer pelo seu vigor mental. Mas era sem menor dúvida, o que se notava até demais mesmo à primeira vista, aquilo que Florentino Ariza mais temia que se dissesse dele: um homem bom. Sua mulher, em compensação, tinha vivacidade com uma chispa plebéia, oportuna e  certeira,  que dava um toque mais humano à sua elegância. Não se podia desejar casal melhor como parceiro de cartas, e a insaciável necessidade de amor de Florentino Ariza chegou ao auge com a ilusão de se sentir em  família.
Uma noite, quando saíam juntos da casa, o doutor Urbino Daza convidou-o a almoçar: "Amanhã, às doze e meia em ponto, no Clube Social." Era um manjar delicioso com um vinho envenenado: o Clube Social se reservava o direito de vetar

convidados por motivos diversos, e um dos mais importantes era a condição de filho natural. Tio Leão XII tinha tido experiências irritantes nesse terreno, e o próprio Florentino Ariza sofrerá a vergonha de o fazerem sair quando já estava sentado à mesa, a convite de um sócio fundador. Este, a quem Florentino Ariza fazia favores difíceis no comércio fluvial, só teve o recurso de levá-lo a almoçar em outro  lugar.
    Nós que fazemos os regulamentos somos os mais obrigados a cumpri-los — disse.
Não obstante, Florentino Ariza correu o risco com o doutor Urbino Daza, e foi recebido com um tratamento especial, embora não lhe pedissem para assinar o livro de ouro dos convidados notáveis. O almoço foi breve, dos dois sozinhos, e transcorreu em tom menor. Os temores que inquietavam Florentino Ariza desde a tarde anterior em relação àquele encontro se desfizeram com o cálice de vinho do porto do aperitivo. O doutor Urbino Daza queria falar de sua mãe. Pelo muito que disse, Florentino Ariza percebeu que ela falara nele ao filho. E havia algo ainda mais surpreendente: mentira a seu favor. Contou-lhe que eram amigos desde crianças, que brincavam juntos desde a chegada dela de São João da Ciénaga, que ele  a iniciara nas primeiras leituras, e por isso lhe guardava uma antiga gratidão. Tinha dito ademais que amiúde, quando ela saía da escola, passava muitas horas com Trânsito Ariza fazendo prodígios de bordados no armarinho, pois era  uma professora notável, e que se não tinha continuado a ver Florentino Ariza com a mesma freqüência não tinha sido por gosto mas pela divergência de suas  vidas.
Antes de chegar ao fundo de seus propósitos, o doutor Urbino Daza fez algumas divagações sobre a velhice. Achava que o mundo andaria mais rápido sem o estorvo dos anciãos. Disse: "A humanidade, como os exércitos em campanha, avança na velocidade do mais lento." Previa um futuro mais humanitário, e por isso mesmo mais civilizado, de seres humanos isolados em cidades marginais a partir do momento em que não pudessem mais cuidar de si mesmos, para lhes poupar a vergonha, os sofrimentos, a solidão espantosa da velhice. Do ponto de vista médico, segundo ele, limite podia ser o dos sessenta anos. Mas enquanto se chegava a esse grau de caridade, a única solução eram os asilos, onde os anciãos se consolavam uns aos outros, se identificavam em seus gostos e suas aversões, em suas mágoas e tristezas, a salvo das discórdias naturais com as gerações seguintes. Disse: "Os velhos, entre velhos, são menos velhos." Pois bem: o doutor Urbino Daza queria agradecer a Florentino Ariza a boa companhia que fazia a sua mãe na solidão da viuvez, instava com ele para que continuasse a fazê-lo para bem de ambos e comodidade de todos, e para que tivesse paciência com seus humores senis. Florentino Ariza se sentiu aliviado com a solução da entrevista. "Fique tranqüilo", disse. "Sou quatro anos mais velho que ela. e não só agora mas desde antes, muito antes do seu nascimento." Depois cedeu à tentação de desabafar com um toque de ironia.
    Na  sociedade  do  futuro — concluiu  — o  senhor teria que  ir agora ao campo-

santo, para nos levar, a ela e a mim, um ramo de antúrio para  almoço.
O doutor Urbino Daza não tinha reparado até então na inconveniência de sua profecia, e enfiou por um desfiladeiro de explicações que acabaram de emaranhá-lo. Mas Florentino Ariza o ajudou a sair. Estava radiante, pois sabia que mais tarde ou mais cedo ia ter um encontro como aquele com o doutor Urbino Daza, para cumprir um requisito social inevitável: a petição formal da mão de sua mãe. O almoço foi muito animador, não só pelo seu próprio motivo, como por demonstrar como ia ser fácil e bem recebida aquela petição inexorável. Se tivesse contado com o consentimento de Fermina Daza, nenhuma ocasião teria sido mais propícia. E mais: depois do que haviam falado durante aquele almoço histórico, o formalismo do pedido ficava de sobra.
Florentino Ariza subia e descia escadas com um cuidado  especial,  mesmo quando jovem, por ter sempre achado que a velhice começava com uma primeira queda sem importância, e a morte vinha em seguida com a segunda. Mais perigosa que todas as escadas lhe parecia a de seus escritórios, íngreme e de espaços estreitos, e desde muito antes de começar a se esforçar para não arrastar os pés ele   subia olhando bem os degraus e agarrado ao corrimão com as duas mãos. Muitas vezes lhe sugeriram que a substituísse por outra menos arriscada, mas a decisão ficava sempre para mês entrante, porque ele achava que seria uma concessão feita à velhice. À medida que passavam os anos levava mais tempo para subir,  não  porque lhe custasse mais trabalho, como se apressava em explicar, e sim porque  cada vez subia com mais cuidado. Contudo, no dia em que regressou do almoço com o doutor Urbino Daza, depois do cálice de vinho do porto do aperitivo e meio copo   de vinho tinto com a refeição, e sobretudo depois da conversação triunfal, procurou atingir o terceiro degrau com um passo de dança tão juvenil que torceu o tornozelo esquerdo, caiu de costas e não se matou por milagre. No momento em que caía teve lucidez suficiente para pensar que não ia morrer daquele acidente, porque não era possível na lógica da vida que dois homens que haviam amado tanto durante tantos anos a mesma mulher pudessem morrer do mesmo modo com apenas um ano de diferença. Tinha razão. Puseram-lhe uma couraça de gesso do pé à barriga da perna, e o obrigaram a ficar imóvel na cama, mas continuou mais vivo que antes da queda. Quando o médico lhe ordenou os sessenta dias de invalidez, não pôde acreditar em tanta desdita.
   Não me faça isto, doutor — implorou. — Dois meses dos meus são como dez anos dos seus.
Várias vezes procurou se levantar carregando a perna de estátua com as duas mãos, mas foi sempre vencido pela realidade. Mas quando por fim voltou a andar com o tornozelo ainda dolorido e as costas em carne viva, teve  motivos  de  sobra para acreditar que o destino tinha premiado sua perseverança com uma queda providencial.
Seu  dia  pior foi a  primeira  segunda-feira. A dor tinha  cedido, e  o    prognóstico

médico era muito animador, mas ele se negava a aceitar o fatalismo de não ver Fermina Daza na tarde seguinte, pela primeira vez em quatro meses. Não obstante, depois de uma sesta de resignação se submeteu à realidade e escreveu uma nota de desculpas. Escreveu-a a mão, em papel perfumado e com tinta luminosa para se ler na escuridão, e dramatizou sem pudores a gravidade do percalço procurando  suscitar compaixão. Ela respondeu dois dias depois, muito comovida, muito amável, mas sem uma palavra a mais ou a menos, como nos grandes dias do  amor. Ele  pegou a oportunidade em pleno vôo e tornou a escrever. Quando ela respondeu pela segunda vez, resolveu ir muito mais longe do que nas conversas cifradas das terças,   e mandou instalar um telefone perto da cama a pretexto de vigiar o curso diário da empresa. Pediu à telefonista central que o ligasse com o número de três algarismos que sabia de cor desde a primeira chamada. A voz de timbre apagado, tensa no mistério da distância, a voz amada respondeu, reconheceu a outra voz, e se despediu depois de três frases convencionais de saudação. Florentino Ariza  ficou  desconsolado com a indiferença: estavam outra vez no princípio.
Dois dias depois, no entanto, recebeu uma carta de Fermina  Daza  suplicando que não lhe telefonasse mais. Suas razões eram válidas. Havia tão poucos telefones na cidade que a comunicação se fazia através de uma telefonista que conhecia todos os assinantes, sua vida e seus milagres, e não importava que não estivessem em casa: encontrava-os onde estivessem. Em troca de tanta eficácia, mantinha-se inteirada das conversas, descobria os segredos da vida privada, os dramas mais bem guardados, e não era raro que interviesse num diálogo para introduzir seu ponto de vista ou apaziguar os ânimos. Por outro lado, no curso daquele ano se  havia  fundado A Justiça, um jornal vespertino cuja finalidade única era fustigar  as  famílias de nomes ilustres, dando nomes próprios e sem considerações de nenhuma espécie, como represália do proprietário porque seus filhos não tinham sido admitidos no Clube Social. Apesar da limpeza de sua vida, Fermina Daza se preocupava então mais do que nunca com tudo que falava ou  fazia, mesmo com  suas amizades íntimas. De maneira que continuou ligada a Florentino Ariza pelo fio anacrônico das cartas. A correspondência de ida e vinda chegou a ser tão freqüente intensa que ele esqueceu a perna, o castigo da cama, esqueceu tudo e se consagrou por completo a escrever numa mesinha portátil das que se usavam nos hospitais  para as refeições dos doentes.
Tornaram a se tratar por você, tornaram a trocar comentários sobre suas vidas como nas cartas de antes, mas Florentino Ariza tratou de andar outra  vez  com pressa demais: escreveu o nome dela com furos de alfinete nas pétalas de uma camélia, e mandou-a numa carta. Dois dias depois recebeu-a de volta sem qualquer comentário. Fermina Daza não tinha outro recurso: aquilo tudo para  ela  eram  coisas de crianças. Mais ainda quando Florentino Ariza insistiu em evocar  suas tardes de versos melancólicos na pracinha dos Evangelhos, os esconderijos das  cartas no caminho da escola, as aulas de bordado debaixo das amendoeiras. Ainda que morta de pena ela o pôs no seu lugar com uma pergunta que parecia casual em

meio a outros comentários triviais: "Por que é que você insiste em falar no que não existe?" Mais tarde criticou nele a pertinácia estéril de não se deixar envelhecer com naturalidade. Essa era, segundo ela, a causa de sua precipitação e seus descalabros constantes na evocação do passado. Não entendia como um homem capaz das reflexões que tanto apoio lhe haviam dado para suportar a viuvez se enrolava  daquele modo infantil quando procurava aplicá-las à sua própria vida. Os papéis se inverteram. Então foi ela quem procurou dar-lhe novo ânimo para ver o futuro, com uma frase que ele, em sua pressa estouvada, não soube decifrar: Deixe que o tempo passe e já veremos o que traz. Pois nunca foi tão bom aluno quanto ela. A imobilidade forçada, a certeza cada dia mais lúcida da fugacidade do tempo,  os loucos desejos de vê-la, tudo demonstrava que seus temores da queda tinham sido mais certeiros e trágicos do que havia previsto. Pela primeira vez começou a pensar de um modo racional na realidade da morte.
Leona Cassiani o ajudava a tomar banho e mudar o pijama de dois em dois dias, dava as lavagens, ajeitava o urinol portátil, aplicava compressas de arnica  nas  úlceras das costas, fazia massagens a conselho médico para evitar que a imobilidade lhe causasse outros males piores. Aos sábados e domingos alternava com ela América Vicuña, que em dezembro daquele ano devia receber seu diploma de professora. Ele tinha prometido mandá-la fazer um curso superior no Alabama por conta da companhia fluvial, em parte para amordaçar a  consciência, e  sobretudo para não fazer frente às queixas que ela não encontrava como fazer, nem às explicações que ele devia. Nunca imaginou quanto ela sofria nas insônias do internato, nos fins de semana sem ele, na vida sem ele, porque nunca imaginou quanto o amava. Sabia por uma carta oficial do colégio que do  primeiro lugar que  ela sempre ocupava tinha passado ao último, e estava a ponto de ser reprovada nos exames finais. Mas se esquivou ao dever de responsável: não informou de nada aos pais de América Vicuña, impedido por um sentimento de culpa que procurava escamotear, tampouco comentou com ela, devido ao bem fundado temor de que o implicas se em seu fracasso. Por isso deixou as coisas como estavam. Sem perceber, começava a protelar seus problemas na esperança de que a morte os  resolvesse.
Não só as duas mulheres que se ocupavam dele, como o  próprio  Florentino Ariza, se espantavam de ver como estava mudado. Apenas dez anos atrás tinha atacado uma de suas criadas atrás da escada principal da casa, vestida e em pé, e em menos tempo que um galo filipino a deixou em estado de graça. Teve que presenteá-la com uma casa mobiliada para que ela jurasse que o autor de sua desonra era um vago noivo dominical que sequer a havia beijado, e os pais e tios dela, bons macheteiros de safra, obrigaram os dois a casar. Não parecia possível que fosse mesmo homem, aquele que manuseavam pelo direito e pelo avesso duas mulheres que há poucos meses o faziam tremer de amor, que o ensaboavam por cima e por baixo, secavam com toalhas de algodão egípcio e lhe davam  massagens  de corpo inteiro, sem que ele soltasse um suspiro de perturbação. Cada qual tinha uma explicação diferente para sua inapetência. Leona Cassiani achava que eram    os

prelúdios da morte. América Vicuña atribuía-lhe uma origem oculta cuja trama não conseguia desentranhar. Só ele sabia a verdade, e tinha nome próprio. De qualquer maneira era injusto: mais padeciam elas a servi-lo do que ele sendo  tão  bem  servido.
Três semanas bastaram a Fermina Daza para ver a falta que lhe faziam as visitas de Florentino Ariza. Passava muito bem seu tempo com as amigas assíduas, melhor ainda à medida que o tempo a afastava dos costumes do marido. Lucrécia dei Real dei Obispo tinha ido ao Panamá para examinar uma dor de ouvido que não cedia  com nada, e voltou muito aliviada depois de um mês, mas ouvindo menos que antes com uma trombetinha que colocava na orelha. Fermina Daza era a amiga que tolerava melhor suas confusões de perguntas e respostas, o que estimulava tanto Lucrécia que não havia dia em que não aparecesse por ali a qualquer hora que   fosse
.,Mas Fermina Daza não pôde preencher com nenhuma outra pessoa as tardes calmantes de Florentino Ariza.
memória do passado não redimia o futuro, como ele se empenhava em acreditar. Pelo contrário: reforçava a convicção que Fermina Daza sempre tivera de que aquele alvoroço febril dos vinte anos tinha sido alguma coisa muito nobre e muito bela, mas amor, não. Apesar de sua franqueza crua não tinha intenção de revelar isto a ele nem pelo correio nem em pessoa, nem tinha coração para lhe dizer como soavam falsos os sentimentalismos de suas cartas para quem conhecera o prodígio de consolação de suas meditações escritas, como o desmereciam suas mentiras líricas e quanto sua causa era prejudicada pela insistência maníaca de resgatar o passado. Não: nenhuma linha de suas cartas de outrora nem momento nenhum de sua própria juventude tediosa a haviam feito sentir que sem ele  as  tardes de uma terça-feira pudessem ser tão dilatadas como na realidade eram, tão solitárias e indescritíveis sem ele.
Num de seus arrancos de simplificação, ela mandara para as cavalariças a radiola com que o marido a presenteara num de seus aniversários, e que ambos tinham pensado em dar ao museu por ter sido a primeira que chegou à cidade. Nas sombras do seu luto tinha resolvido não tornar a usá-la, pois uma viúva da sua linhagem não podia escutar música de espécie nenhuma sem ofender a memória do morto, mesmo que apenas na intimidade. Mas depois da terceira terça de abandono mandou-a pôr de novo na sala, não para desfrutar das canções sentimentais da emissora de Riobamba, como antes, mas para encher suas horas mortas com as novelas de lágrimas de Santiago de Cuba. Foi uma boa coisa, pois  quando nasceu  sua filha tinha começado a perder o hábito da leitura que o marido lhe  inculcara com tanta aplicação a partir da viagem de bodas, e com o cansaço progressivo da vista perdeu-o por completo, a ponto de passar meses sem saber onde estavam os óculos.
Apegou-se de tal modo às novelas radiofônicas de Santiago de Cuba que esperava com ansiedade os capítulos encadeados de todos os dias. De vez em quando ouvia  as

notícias para saber o que acontecia no mundo, e nas poucas ocasiões em que ficava  só em casa escutava com o volume muito baixo, remotos e nítidos, os merengues de São Domingos e as plenas de Porto  Rico. Uma noite, numa estação  desconhecida que irrompeu de súbito com tanta força e tanta claridade como se estivesse na casa vizinha, ouviu uma notícia pavorosa: um casal de anciãos que repetia a lua-de-mel no mesmo lugar que quarenta anos antes fora assassinado a golpes de remo pelo barqueiro que os levava a passeio, para roubar o dinheiro que tinham: quatorze dólares. Sua impressão foi ainda maior quando Lucrécia dei Real lhe contou o relato completo publicado num jornal local. A polícia tinha descoberto que os anciãos mortos a pauladas, ela de setenta e oito anos e ele de oitenta e  quatro,  eram  amantes clandestinos que passavam férias juntos havia quarenta anos, mas ambos tinham seus respectivos lares, estáveis e felizes, e com  famílias  numerosas. Fermina Daza, que nunca chorara com os novelões radiofônicos, teve que reprimir    o nó de lágrimas que ficou entalado em sua garganta. Na carta seguinte, Florentino Ariza lhe mandou sem nenhum comentário o recorte de jornal com a  notícia.
Não eram as últimas lágrimas que Fermina Daza ia reprimir. Florentino Ariza ainda não cumprira seus sessenta dias de reclusão, quando A Justiça revelou, em toda a extensão da primeira página e com fotos dos protagonistas, os supostos amores ocultos do doutor Juvenal Urbino e Lucrécia dei Real dei Obispo. Especulava-se sobre os pormenores da relação, sua freqüência e seu modo, e sobre    a complacência do marido, entregue a descalabros de sodomia com os pretos do seu engenho de açúcar. O relato publicado com enormes tipos de madeira em tinta de sangue retumbou como o trovão de um cataclismo na desconjuntada aristocracia local. No entanto, não havia uma só linha verdadeira: Juvenal Urbino e Lucrécia dei Real eram amigos íntimos desde seus anos de solteiros e amigos continuaram  depois de casados, mas nunca foram amantes. Em todo caso, não parecia que a publicação se destinasse a enodoar o nome do doutor Juvenal Urbino, cuja  memória gozava do respeito unânime, sim a prejudicar o marido de Lucrécia dei Real, eleito presidente do Clube Social a semana anterior. O escândalo foi sufocado em poucas horas. Mas Lucrécia dei Real não tornou a visitar Fermina Daza, o que esta interpretou como um reconhecimento da  culpa.
Muito em breve ficou claro, no entanto, que tampouco Fermina Daza estava a salvo dos riscos de sua classe. A Justiça se encarniçou contra ela pelo seu único flanco débil: os negócios do pai. Quando este teve que se desterrar à força, ela ficou   a par de um só episódio de seus comércios turvos, tal como lhe contou  Gala  Placídia. Mais tarde, quando o doutor Urbino o confirmou depois da entrevista com  o governador, ficou convencida de que o pai tinha sido  vítima de  uma infâmia. O fato é que dois agentes do governo se haviam apresentado com uma ordem de busca na casa da praça dos Evangelhos, revistaram-na de cima a baixo sem achar o que procuravam, e por fim mandaram abrir o guarda-roupa com portas de espelho da antiga alcova de Fermina Daza. Gala Placídia, sozinha na casa e sem meios de prevenir ninguém, negou-se  a abri-lo, com  a desculpa de  que  não  tinha as  chaves.

Foi quando um dos agentes quebrou o espelho das portas com a coronha  do revólver, e descobriu que entre o cristal e a madeira havia um espaço atulhado de notas falsas de cem dólares. Esta foi a culminação de uma cadeia de pistas que conduziam a Lorenzo Daza como último elo de uma vasta operação internacional. Era uma fraude de mestre pois as notas ostentavam as marcas d'água do papel original: tinham apagado notas de um dólar mediante um procedimento químico  que parecia coisa de magia, e tinham impresso em seu lugar notas de cem. Lorenzo Daza alegou que o guarda-roupa fora comprado muito depois do casamento da filha, e devia ter chegado a casa com as notas escondidas, mas a polícia comprovou que estava ali desde que Fermina Daza ia ao colégio. Ninguém senão ele teria podido esconder a falsa fortuna atrás dos espelhos. Foi só isso que o doutor Urbino contou  à esposa quando se comprometeu com o governador a mandar o sogro de regresso à sua terra para abafar o escândalo. Mas o jornal contava muito mais.
Contava que durante uma das tantas guerras civis do século anterior, Lorenzo Daza tinha sido intermediário entre o governo do presidente liberal Aquileo Parra um tal Joseph K. Korzeniowski, polonês de origem, que fizera estada  de  vários meses aqui na tripulação do navio mercante Saint Antoine, de bandeira francesa, procurando definir um confuso negócio de armas. Korzeniowski, que mais tarde ficaria célebre no mundo com o nome de Joseph Conrad, fez contato não se sabia como com Lorenzo Daza, que lhe comprou o carregamento de armas por conta do governo, com suas credenciais e seus recibos em regra, e pago com ouro de lei. Segundo a versão do jornal, Lorenzo Daza deu como desaparecidas as armas num assalto improvável, e tornou a vendê-las pelo dobro do preço real aos conservadores em guerra contra o governo.
Também contava A Justiça que Lorenzo Daza comprou a preço muito baixo um carregamento de botas que eram sobras do exército inglês, nos tempos em que o general Rafael Reyes fundou a Marinha de Guerra, e nessa única operação duplicou sua fortuna em seis meses. Segundo o jornal, quando o carregamento chegou a este porto, Lorenzo Daza negou-se a recebê-lo porque só vinham as botas do pé direito, mas foi o único concorrente quando a alfândega o leiloou de acordo com as leis vigentes, e o comprou pela quantia simbólica de cem pesos. Naqueles mesmos dias, um cúmplice seu comprou em iguais condições o carregamento de botas esquerdas, que chegara pela alfândega de Riohacha. Uma vez emparelhadas, Lorenzo Daza se valeu de seu parentesco político com os Urbino de La Calle, vendendo as botas à  nova Marinha de Guerra com um lucro de dois mil por  cento.
A informação de A Justiça terminava dizendo que Lorenzo Daza não abandonara São João da Ciénaga em fins do século anterior em busca de melhores ares para futuro da filha, como gostava de dizer, e sim por ter sido pilhado na próspera indústria de misturar tabaco importado com papel picado, e de uma forma tão hábil que nem os fumadores refinados notavam o engano. Também se revelavam seus vínculos com uma empresa clandestina internacional, cuja atividade mais fecunda em  fins do  século anterior tinha sido  a introdução-ilegal  de  chineses  a partir     do

Panamá.   Em   compensação,   o   suspeito   negócio   de   mulas,   que   tanto                  havia prejudicado sua reputação, parecia ser o único honesto que jamais tivera.
Quando Florentino Ariza abandonou a cama, com as costas em áscuas e pela primeira vez com uma sólida bengala em lugar do guarda-chuva, foi à casa de Fermina Daza. Encontrou-a desconhecida, com os estragos da idade à flor da pele, e com um ressentimento que lhe havia tirado os desejos de viver. O doutor Urbino Daza, em duas visitas que fez a Florentino Ariza durante seu exílio, lhe havia falado na consternação em que mergulhara a mãe com as duas publicações de A Justiça. A primeira lhe provocou uma raiva tão insensata devido à infidelidade do marido e à traição da amiga que renunciou ao costume de visitar o mausoléu familiar um domingo de cada mês, porque ficava fora de si com o fato dele não poder ouvir  dentro do caixão os impropérios que ela queria gritar: brigou com o morto. A Lucrécia dei Real mandou dizer, por quem quisesse dizê-lo, que se contentasse com  o consolo de  ter tido pelo menos um homem no meio de  tanta gente que passara  por sua cama. Da publicação sobre Lorenzo Daza era impossível saber o que é que a afetava mais, se a publicação ela própria, ou o tardio descobrimento da verdadeira identidade do pai. Mas uma das duas, ou ambas, a haviam aniquilado. O cabelo cor de aço limpo, que tanto enobrecia seu rosto, parecia agora de fiapos amarelos de milho, e os formosos olhos de pantera não recobravam o brilho de outrora nem com o esplendor da raiva. Notava-se em cada gesto seu a decisão de não continuar vivendo. Há muito tempo tinha renunciado ao hábito de fumar, trancada no banheiro ou de qualquer outra forma, mas reincidiu pela primeira vez em público e com uma voracidade desenfreada, a princípio com cigarros que ela própria preparava, como sempre gostara de fazer, e depois com os mais ordinários dos encontrados no comércio, porque já não tinha tempo nem paciência para enrolá-los. Um homem que não fosse Florentino Ariza teria perguntado a si mesmo que podia prometer o futuro um ancião como ele, coxo e com as costas esbraseadas de esfoladuras de burro, e a uma mulher que já não ansiava por nenhuma felicidade além da morte. Mas ele não. Ele resgatou uma luzinha de esperança entre os escombros do desastre, pois achou que a desgraça de Fermina Daza a engrandecia, a raiva a embelezava, o rancor contra o mundo lhe devolvera o caráter agreste dos vinte anos.
Tinha um novo motivo para ser grata a Florentino Ariza, porque com base nas publicações infames ele havia mandado a A Justiça uma carta exemplar sobre a responsabilidade ética da imprensa e o respeito pela honra alheia.  Não  foi publicada, mas o autor mandou uma cópia ao Diário do Comércio, o mais antigo e sério do litoral caribe, e este a destacou na primeira página. Estava assinada com o pseudônimo de Júpiter, e era tão argumentada, incisiva e bem escrita que foi atribuída a alguns dos escritores mais notáveis  da  província. Foi uma voz solitária no meio do oceano, mas que se ouviu muito fundo e muito longe. Fermina Daza soube quem era o autor sem que ninguém lhe dissesse nada, pois reconheceu algumas idéias e até uma frase literal das  reflexões morais de  Florentino    Ariza. De

maneira que o recebeu com um afeto reverdecido na desordem do  seu abandono.  Foi por essa época que América Vicuña se viu só uma tarde de sábado no quarto de dormir da Rua das Janelas, e sem que as procurasse, por puro acaso, descobriu dentro de um armário sem chave as cópias datilográficas das meditações de Florentino Ariza, e as cartas manuscritas de Fermina Daza.
O doutor Urbino Daza se alegrou com o reatamento das visitas que tanto animavam sua mãe. Ao contrário de Ofélia, a irmã, que voltou de Nova Orleans no primeiro navio de transporte de frutas logo que soube que Fermina Daza mantinha uma amizade estranha com um homem cuja qualificação moral não era das melhores. Seu alarma gerou crises desde a primeira semana, quando verificou  o  grau de familiaridade e domínio com que Florentino Ariza entrava na casa, e dos cochichos e fugazes arrufos de noivos com que transcorriam as visitas até bem entrada a noite. O que para o doutor Urbino Daza era uma saudável afinidade de dois anciãos solitários, para ela era uma forma viciosa de concubinato  secreto.  Assim foi sempre Ofélia Urbino, mais parecida com dona Blanca, sua avó paterna, do que se tivesse sido sua filha. Era distinta como a avó, altaneira como a  avó, e vivia como a avó à mercê dos preconceitos. Não era capaz  de  conceber a inocência  de uma amizade entre um homem uma mulher nem aos cinco anos de idade, e muito menos aos oitenta. Numa disputa aguerrida que teve com o irmão, disse que   a única coisa que faltava para que Florentino Ariza acabasse de  consolar sua mãe  era que se metesse com ela em sua cama de viúva. O doutor Urbino Daza não tinha coragem para enfrentá-la, nunca tinha tido, mas sua mulher intercedeu com uma justificação serena do amor a qualquer idade. Ofélia perdeu as estribeiras.
     O amor é ridículo na nossa idade — gritou — mas na idade deles é uma porcaria.
Empenhou-se com tal ímpeto na determinação de afugentar Florentino Ariza da casa que chegou aos ouvidos de Fermina Daza. Ela a chamou ao quarto, como sempre que queria falar sem ser ouvida pelas criadas, lhe pediu que repetisse as recriminações. Ofélia não suavizou nada: estava certa de que Florentino Ariza, cuja fama de pervertido ninguém ignorava, mantinha uma relação equívoca, mais prejudicial ao bom nome da família que as tratantadas de Lorenzo Daza e as aventuras ingênuas de Juvenal Urbino. Fermina Daza a escutou sem dizer palavra, sem mesmo pestanejar, mas quando acabou de escutar era outra: tinha voltado à vida.
   Só tenho pena é de não ter forças para dar em você a surra de couro que você merece, por atrevida e cheia de malícia — disse. —- Mas agora mesmo você vai embora desta casa, e juro pelos restos de minha mãe que não pisa mais nela enquanto eu estiver viva.
Não houve poder capaz de dissuadi-la. Enquanto  isso, Ofélia foi morar na casa  do irmão, e de lá mandou toda espécie de súplicas por emissários de monta. Mas foi inútil.  Nem   a  mediação   do  filho  nem  a  intervenção   das  amigas  conseguiram

demovê-la. À nora, com quem manteve sempre uma certa cumplicidade plebéia, soltou por fim uma confidencia com a fala florida de seus melhores anos: "Faz um século me cagaram a vida com esse pobre homem porque éramos  demasiado  jovens, e agora querem repetir a dose porque somos demasiado velhos." Acendeu  um cigarro na guimba de outro, e acabou de se livrar do veneno que lhe roía as entranhas.
   Que vão à merda — disse. — Se nós viúvas temos alguma vantagem, é que já não resta ninguém que nos  ordens.
Não houve nada a fazer. Quando por fim se convenceu de que estavam esgotadas todas as instâncias, Ofélia voltou a Nova Orleans. A única coisa que conseguiu da mãe foi que se despedisse dela, e Fermina Daza concordou depois de muitas súplicas, mas sem lhe permitir que entrasse na casa: tinha jurado pelos ossos da mãe, que para ela, naqueles dias de trevas, eram os únicos que continuavam  limpos.
Numa de suas primeiras visitas, falando de seus navios, Florentino Ariza tinha feito a Fermina Daza um convite formal para que embarcasse numa viagem de descanso pelo rio. Com mais um dia de trem podia ir até a capital da república, que eles, como a maioria dos caribenhos de sua geração, continuavam chamando pelo nome que teve até o século anterior: Santa Fé. Mas ela conservava as prevenções do mando e não queria conhecer uma cidade gelada e sombria onde as mulheres só saíam de casa para missa das cinco, e não podiam entrar nas sorveterias nem nas repartições públicas, segundo lhe haviam dito, e onde havia a toda hora engarrafamentos de enterros nas ruas e uma garoa miúda desde os tempos do descobrimento: pior do que em Paris. Em compensação, sentia uma atração muito forte pelo rio, queria ver os jacarés tomando sol nas pontas de areia, queria ser acordada no meio da noite pelo choro de mulher dos peixes-boi, mas a idéia de uma viagem tão difícil, na sua idade, e ainda por cima viúva e só, lhe parecia irreal.
Florentino Ariza reiterou o convite mais adiante, quando ela resolvera continuar viva sem o marido, e então lhe pareceu mais viável. Mas depois da briga com a filha, azedada pelas injúrias ao pai, pelo rancor ao marido morto, pela raiva de lembrar os salamaleques hipócritas de Lucrécia dei Real, que teve por tantos anos como sua melhor amiga, ela mesma se sentia de sobra na própria casa. Uma tarde, enquanto tomava sua infusão de folhas universais, olhou para o pântano do quintal, onde não tornaria a brotar a árvore da sua desventura.
    O que eu gostaria de fazer era me soltar desta casa, andando, em linha reta, reta, reta, e não voltar nunca mais — disse.
   Vá num navio — disse Florentino Ariza. Fermina Daza o olhou pensativa.
   Pois olhe que podia ser  disse.
Não tinha pensado nisso um momento antes de falar, mas bastou admitir a possibilidade  para  dar  a  coisa  como  feita. O  filho  e  a  nora  ouviram encantados.

Florentino Ariza se apressou a precisar que Fermina Daza seria hóspede de  honra em seus navios, haveria para ela um camarote arranjado como se fosse sua casa, um serviço perfeito, e o comandante em pessoa se devotaria à sua segurança e seu bem estar. Levou mapas da rota para entusiasmá-la, cartões postais de poentes furibundos, poemas ao paraíso primitivo do Madalena escritos por viajantes  ilustres, ou que tinham chegado a tal pela excelência do poema. Ela lhes dava uma olhadela quando estava no humor certo.
   Você não precisa me enganar como a uma criança — dizia. — Se vou, é porque resolvi, não pelo interesse da paisagem.
Quando o filho sugeriu que sua esposa a acompanhasse, ela cortou a proposta pela raiz: "Estou muito crescida para que alguém cuide de mim." Ela  própria  acertou os pormenores da viagem. Sentiu um imenso descanso com a idéia de viver oito dias de subida e cinco de descida sem nada além do indispensável: meia dúzia  de vestidos de algodão, suas coisas de toucador e asseio, um par de sapatos para embarcar e desembarcar e as babuchas caseiras para a viagem, e nada mais: o sonho de sua vida.
Em janeiro de 1824, o comodoro João Bernardo Elbers, fundador da navegação fluvial, tinha içado a bandeira do primeiro navio a vapor que sulcou o rio Madalena, um traste primitivo de quarenta cavalos de força chamado Fidelidade. Mais de um século depois, num de julho às seis da tarde, o doutor Urbino Daza e a mulher acompanharam Fermina Daza a embarcar no navio que a levaria em sua primeira viagem pelo rio. Era o primeiro construído nos estaleiros locais, que Florentino  Ariza batizara em memória de seu antecessor glorioso: Nova Fidelidade. Fermina Daza jamais pôde acreditar que aquele nome tão significativo para eles  fosse  deveras uma casualidade histórica, e não mais uma graça do romantismo crônico de Florentino Ariza.
Em todo caso, ao contrário de outros navios fluviais, antigos e modernos, o Nova Fidelidade tinha junto do camarote do comandante um camarote suplementar, amplo e confortável: uma sala de visitas com móveis de bambu  de  cores festivas,  um quarto de dormir matrimonial decorado de alto a baixo com motivos chineses, um banheiro com banheira e chuveiro, um mirante coberto, muito amplo, com samambaias dependuradas e uma visão completa pela frente e pelos dois bordos do navio, e um sistema de refrigeração silencioso que mantinha todo o recinto a salvo  do estrondo exterior num clima de primavera perpétua. Este aposento de luxo, conhecido como Camarote Presidencial porque ali haviam viajado até então três presidentes da república, não tinha um propósito comercial, reservado que era a autoridades de categoria e convidados muito especiais. Florentino Ariza o fizera construir com essa finalidade de imagem pública logo que foi nomeado presidente  da C.F.C., mas com a certeza íntima de que mais cedo ou mais tarde ia ser refúgio feliz de sua viagem de núpcias com Fermina Daza.
Chegado  o  dia, com  efeito, ela tomou  posse  do  Camarote  Presidencial  em sua

condição de dona e senhora. O comandante do navio fez as honras de bordo ao doutor Urbino Daza e esposa, e a Florentino Ariza, com champanha e salmão defumado. Chamava-se Diego Samaritano, vestia uniforme de linho branco, de uma correção absoluta, do bico dos botins ao boné com o escudo da C.F.C. bordado  em  fio de ouro, e tinha em comum com os demais capitães do rio uma corpulência de paineira, uma voz peremptória e maneiras de cardeal florentino. Às sete da noite deram o primeiro sinal de partida, e Fermina Daza sentiu-o ressoar com uma dor aguda dentro do ouvido esquerdo. Na noite anterior tinha tido sonhos sulcados de maus pressentimentos que não ousou decifrar. Muito cedo de manhã se fez levar ao vizinho panteão do seminário, que então se chamava Cemitério da Mangueira, e se reconciliou com o marido morto, de pé diante da sua cripta, num monólogo em que soltou os justos reproches que  trazia atravessados  na garganta. Depois  lhe contou os pormenores da viagem e se despediu até muito breve. Não quis dizer a ninguém mais que partia, como fizera quase sempre que viajava à Europa, para evitar os adeuses exaustivos. Apesar de suas tantas viagens tinha a impressão de ser esta a primeira, e à medida que o dia rodava lhe aumentava a aflição. Uma vez a bordo, se sentiu abandonada e triste, e queria ficar só para chorar.
Quando soou último aviso, o doutor Urbino Daza e a mulher se despediram dela sem dramas, e Florentino Ariza os acompanhou à passarela de desembarque. O doutor Urbino Daza se afastou para lhe ceder o lugar depois de passar sua esposa, e só então percebeu que Florentino Ariza também partia em viagem. O doutor Urbino Daza não conseguiu disfarçar seu desconcerto.
   Mas disto não havíamos falado — disse.
Florentino Ariza lhe mostrou a chave do seu camarote com uma intenção demasiado evidente: um camarote ordinário na coberta comum. Mas isso não pareceu ao doutor Urbino Daza prova suficiente de inocência. Dirigiu à mulher um olhar de náufrago, em busca de um ponto de apoio para seu desconcerto, mas se encontrou com uns olhos gelados. Ela lhe disse muito baixo, com voz severa: "Você também?" Sim: ele também, como a irmã Ofélia, pensava que o amor tinha uma idade em que começava a ser indecente. Mas soube reagir a tempo, e se despediu de Florentino Ariza com um aperto de mão mais resignado que agradecido.
Florentino Ariza os viu desembarcar da amurada do salão. Tal como esperava e desejava, o doutor Urbino Daza e a mulher se voltaram para olhá-lo antes de entrar no automóvel, ele fez um aceno de despedida. Os dois retribuíram. Continuou na amurada até o automóvel desaparecer na poeirada do pátio de carga, e depois foi para seu camarote, para pôr um traje mais adequado ao primeiro jantar a bordo,  na sala de jantar privada do comandante.
Foi uma noite esplêndida, que o comandante Diego Samaritano condimentou com relatos suculentos de seus quarenta anos no rio, mas Fermina Daza teve que fazer um grande esforço para parecer entretida. Apesar de haver soado às oito o último  aviso  e   de  terem   feito  descer  a  essa  hora  os   visitantes   e   recolhido  a

passarela, o navio não zarpou até que o comandante acabasse de jantar e subisse ao posto de comando para dirigir a manobra. Fermina Daza e Florentino Ariza ficaram debruçados na amurada do salão comum, confundidos com os passageiros ruidosos que disputavam entre si o jogo de identificar as luzes da cidade, até que o navio saiu da baía, meteu-se por canais invisíveis e pântanos salpicados de luzes ondulantes de pescadores, e resfolegou afinal a plenos pulmões no livre ar do rio Grande da Madalena. Então a banda irrompeu numa peça popular da moda, houve um alarido de prazer dos passageiros, e a dança começou em tropel.
Fermina Daza preferiu se refugiar no camarote. Não tinha dito uma palavra durante toda a noite, e Florentino Ariza a deixara perdida em suas cavilações. Só a interrompeu para se despedir diante do camarote, mas ela não estava com sono, só um pouco de frio, e sugeriu que se sentassem um pouco para olhar o rio do mirante privado. Florentino Ariza rodou duas poltronas de vime até a amurada, apagou as luzes, pôs nos ombros dela uma manta de  lã e se sentou ao seu lado. Ela enrolou   um cigarro da caixinha que ele lhe trazia de presente, enrolou-o com uma habilidade surpreendente, fumou-o devagar com o fogo dentro da boca, sem falar, e depois enrolou mais dois em seguida e os fumou sem pausas. Florentino  Ariza tomou gole a gole duas garrafas térmicas de café  forte.

O resplendor da cidade tinha desaparecido no horizonte. Vistos do mirante  escuro, o rio liso silente, e as pastagens das duas margens debaixo da lua cheia, se converteram numa planície fosforescente. De vez em quando se via uma choça de palha perto das grandes fogueiras que anunciavam que ali se vendia lenha para as caldeiras dos navios. Florentino Ariza conservava lembranças esbatidas de sua viagem de juventude, e a visão do rio fazia com que revivessem em rajadas deslumbrantes, como se fossem de ontem. Contou algumas a Fermina Daza, achando que podia animá-la, mas ela fumava em outro mundo. Florentino Ariza renunciou às suas lembranças e deixou-a só com as dela, e enquanto isso enrolava cigarros e os ia dando já acesos, até que a caixa acabou. A música cessou depois da meia-noite, o bulício dos passageiros se dispersou e se desfez em sussurros sonolentos, e os dois corações ficaram sozinhos no mirante em sombras, vivendo ao compasso do resfolegar do navio.
Depois de um longo tempo, Florentino Ariza olhou Fermina Daza ao fulgor do rio, viu-a espectral, o perfil de estátua suavizado  por um tênue resplendor azul, e  viu que chorava em silêncio. Mas em vez de consolá-la, ou esperar que esgotasse suas lágrimas, como queria ela, deixou-se invadir pelo pânico.
   Você quer ficar só?  perguntou.
   Se quisesse não diria a você que entrasse — disse ela.
Então ele estendeu os dedos gelados na escuridão, buscou tateante a outra mão  na escuridão, e a encontrou à espera. Ambos foram bastante lúcidos para perceber, num  mesmo  instante   fugaz,  que   nenhuma  das  duas   era  a   mão   que   tinham

imaginado antes de se tocar, e sim duas mãos de ossos velhos. Mas no instante seguinte já eram. Ela começou a falar do marido morto, no tempo presente, como se estivesse vivo, e Florentino Ariza soube nesse momento que também para ela soara  a hora de se perguntar com dignidade, com grandeza, com desejos incontidos de viver, o que devia fazer com o amor sem dono que lhe havia ficado.
Fermina Daza parou de fumar para não soltar a mão que ele guardava na sua. Estava perdida na ansiedade de compreender. Não podia conceber marido melhor que tinha sido o seu, e no entanto encontrava mais tropeços do que complacências  na evocação de sua vida, demasiadas incompreensões recíprocas, brigas inúteis, rancores mal solucionados. Suspirou de repente: "É incrível como se pode ser tão feliz durante tantos anos, no meio de tanto bate-boca, tantas chateações, porra, sem saber de verdade se isso é amor ou não." Quando acabou de desabafar, alguém tinha apagado lua. O navio avançava com os passos contados, pondo um pé antes de pôr  o outro: um imenso animal à espreita. Fermina Daza tinha voltado da  ansiedade.
   Agora vá — disse.
Florentino Ariza lhe apertou a mão, se inclinou para ela, e procurou beijá-la na face. Mas ela o afastou com sua voz rouca e suave.
   Ainda não — disse: — estou com cheiro de  velha.
Ouviu-o sair na escuridão, ouviu seus passos nas escadas, ouviu-o deixar de ser até o dia seguinte. Fermina Daza acendeu outro cigarro, e enquanto o fumava viu o doutor Juvenal Urbino com seu terno de linho  imaculado, seu  rigor profissional, sua simpatia deslumbrante, seu amor oficial, fazendo-lhe de outro navio do passado um aceno de adeus com seu chapéu branco. "Nós homens somos uns pobres criados dos preconceitos", ele tinha dito certa vez. "Em compensação, quando uma mulher resolve dormir com um homem não há barreira que não salte, nem fortaleza que  não derrube, nem consideração moral nenhuma que não esteja disposta a varar de lado a lado: não há Deus que valha." Fermina Daza continuou imóvel até a madrugada, pensando em Florentino Ariza, não como o sentinela desolado da pracinha dos Evangelhos cuja lembrança já não  lhe suscitava sequer uma luzinha de saudade, e sim como era agora, decrépito e descadeirado, mas real: o homem que estivera sempre ao alcance de sua mão, sem que ela o admitisse. Enquanto o navio    a carregava resfolegante rumo ao fulgor das primeiras rosas, só rogava a Deus que Florentino Ariza soubesse por onde começar outra vez no dia seguinte.
Soube. Fermina Daza deu instruções ao camareiro para que a deixasse dormir a seu gosto, e quando acordou havia na mesa da cabeceira um jarro com uma rosa branca, fresca, ainda suada de orvalho, e com ela uma carta de Florentino Ariza com tantas folhas quantas conseguira escrever depois de se despedir dela. Era uma carta tranqüila, que procurava apenas exprimir o estado de ânimo que o embargava desde a noite anterior: tão lírica quanto as outras, tão retórica como todas, mas apoiada na realidade. Fermina Daza leu-a um tanto envergonhada de si mesma com os descarados  galopes  do  seu  coração.  Acabava  com  o  pedido  de  que  avisasse     ao

camareiro quando estivesse pronta, pois o capitão os esperava no posto de comando para mostrar o funcionamento do navio.
Estava pronta às onze, banhada e recendente a sabonete de flores, com um vestido de viúva muito singelo de étamine cinzenta, e inteiramente refeita da tempestade da noite. Pediu um café sóbrio ao camareiro de branco impecável, que estava no serviço pessoal do comandante, mas não mandou o recado de que  viessem buscá-la. Subiu só, deslumbrada pelo céu sem nuvens, e encontrou Florentino Ariza conversando com o comandante no posto de comando. Pareceu-lhe diferente, não só porque ela o via agora com outros olhos, como porque  havia de  fato mudado. Em lugar da fúnebre indumentária da vida inteira usava sapatos brancos muito cômodos, calça e camisa de linho de colarinho aberto e manga curta   e seu monograma bordado no bolso do peito. Usava além disso um gorro escocês, também branco, e um dispositivo de vidros escuros superposto a seus eternos  óculos de míope. Via-se logo que era tudo de primeiro uso acabado de comprar  com o propósito da viagem, salvo o cinto de couro marrom, muito gasto, que Fermina Daza notou ao primeiro golpe de vista como uma mosca na sopa. Ao vê-lo assim, vestido para ela de um modo tão ostensivo, não pôde impedir o rubor de fogo que lhe subiu ao rosto. Perturbou-se ao cumprimentá-lo, e ele se perturbou mais ainda com a perturbação dela. A consciência de que se comportavam como noivos perturbou-os ainda mais, e a consciência de estarem ambos perturbados acabou de perturbá-los a tal ponto que o comandante Samaritano notou tudo com um trêmulo de compaixão. Tirou-os do apuro explicando o manejo dos comandos e o mecanismo geral do navio durante duas horas. Navegavam  muito devagar por um rio sem margens que se dispersava entre praias áridas até o horizonte. Mas ao contrário das águas turvas da desembocadura, aquelas eram lentas e diáfanas, e tinham um resplendor de metal debaixo do sol impiedoso. Fermina Daza teve a impressão de um delta povoado de ilhas de  areia.
   É o pouco que nos vai restando do rio — disse o  comandante.
Florentino Ariza, com efeito, estava surpreendido com o que havia de mudado, e mais ainda estaria no dia seguinte, quando a navegação ficou mais difícil,  e  percebeu que o rio pai, o Madalena, um dos maiores do mundo, não passava de uma ilusão da memória. O capitão Samaritano explicou como o desmatamento irracional tinha acabado com o rio em cinqüenta anos: as caldeiras dos  navios  tinham devorado a selva emaranhada de árvores colossais que Florentino Ariza sentia como uma opressão na primeira viagem. Fermina Daza não veria os bichos de seus  sonhos: os caçadores de peles dos curtumes de  Nova Orleans haviam exterminado  os jacarés que fingiam de mortos com as fauces abertas durante horas e horas nos barrancos da margem para surpreender as borboletas, os louros com suas algaravias e os micos com seus gritos de doidos tinham ido morrendo à medida que acabavam as frondes, os peixes-boi de grandes tetas de mãe que amamentavam as crias e choravam com vozes de mulher desolada nas pontas de areia eram uma espécie extinta pelas balas blindadas dos caçadores de prazer.

O capitão Samaritano tinha um afeto quase maternal pelos peixes-boi, porque  lhe davam a impressão de senhoras condenadas por algum extravio de amor, e tinha como certa a lenda de que eram as únicas fêmeas sem machos no reino animal. Sempre se opunha a que disparassem de bordo como era costume, apesar de existirem leis que o proibiam. Um caçador da Carolina do Norte, com sua documentação em regra, tinha desobedecido as suas ordens e  destroçado a cabeça  de uma mãe de peixe-boi com um disparo certeiro de sua Springfield, e a cria tinha ficado enlouquecida de dor chorando aos gritos sobre o corpo estendido. O comandante tinha feito subir para bordo o órfão, para cuidar dele, e deixou  o  caçador abandonado na praia deserta junto do cadáver da mãe assassinada. Passou seis meses no cárcere, devido a protestos diplomáticos, e quase perdeu sua licença  de navegante, mas saiu disposto a repetir o feito sempre que houvesse ocasião. Contudo, aquele passou a ser um episódio histórico: o peixe-boi órfão, que cresceu    e viveu muitos anos no parque de animais raros de São Nicolau das Barrancas, foi último que se viu no rio.
    Cada vez que passo por essa praia — disse — rogo a Deus que aquele gringo volte a embarcar no meu navio, para que eu volte a deixá-lo.
Fermina Daza, que não simpatizava com ele, comoveu-se de tal modo  com  aquele gigante terno que desde essa manhã o pôs em lugar privilegiado de seu coração. Fez bem: a viagem mal começava, e em breve teria ocasiões de sobra para perceber que não se enganara.
Fermina Daza e Florentino Ariza permaneceram nos postos de comando até a hora do almoço, e pouco depois passaram diante do povoado de Calamar, que uns poucos anos antes vivia em festa perpétua, e agora era um porto em ruínas de ruas desoladas. O único ser que se avistou do navio foi uma mulher vestida de branco  que fazia sinais com um lenço. Fermina Daza não entendeu por que não  a recolhiam, se parecia tão aflita, mas o comandante explicou que era a aparição de uma afogada que fazia sinais de engano com o intuito de desviar os navios para os perigosos remoinhos da outra margem. Passaram tão perto dela que Fermina Daza   a viu em todos os detalhes, e não duvidou  de  que na realidade não existisse, mas  seu rosto lhe pareceu conhecido.
Foi um dia longo e calorento. Fermina Daza voltou ao camarote depois do almoço, para sua sesta inevitável, mas não dormiu bem com a dor de ouvido, que ficou mais intensa quando o navio trocou as saudações de rigor com outro da C.F.C. com o qual cruzou algumas léguas acima de Barranca Velha. Florentino Ariza cochilou um sonho instantâneo sentado no salão principal, onde a maioria dos passageiros sem camarote dormia como à meia-noite, e sonhou com Rosalba muito perto do lugar em que a vira embarcar. Viajava só, com suas modas da Mompox do século anterior, e era ele e não a criança que dormia a sesta na gaiola de vime pendente da viga. Foi um sonho ao mesmo tempo tão enigmático e divertido que ele guardou   seu   sabor   durante   toda   a   tarde,   enquanto   jogava   dominó   com    o

comandante e dois passageiros amigos.
O calor cessava ao pôr-do-sol, e o navio revivia. Os passageiros emergiam como  de um letargo, recém-banhados e de roupa limpa, e ocupavam as poltronas de vime do salão à espera do jantar, anunciado às cinco em ponto por um copeiro que percorria o convés de um extremo ao outro fazendo soar entre aplausos de brincadeira uma sineta de sacristão. Durante o repasto, começava a banda sua música de fandango, e a dança não cessava até a meia-noite.
Com a dor de ouvido, Fermina Daza não quis jantar, e assistiu ao primeiro embarque de lenha para as caldeiras, numa barranca pelada onde nada havia além dos troncos amontoados, e um homem muito velho que atendia ao negócio. Não parecia haver nada mais em muitas léguas. Para Fermina Daza foi uma escala lenta  e tediosa, inimaginável nos transatlânticos da Europa, e o calor era tanto que  se podia sentir mesmo dentro do mirante refrigerado. Mas quando o navio zarpou de novo soprava um vento fresco recendente a entranhas de selva, e  a  música ficou mais alegre. Na povoação de Sítio Novo havia uma única luz numa única janela de uma única Casa, e no escritório do porto não fizeram o sinal combinado  de  que havia carga ou passageiros para o navio, de maneira que este passou sem  saudar.
Fermina Daza estivera toda a tarde perguntando a si mesma de que recursos ia valer-se Florentino Ariza para vê-la sem chamar à parte do camarote, e por volta das oito não agüentou mais as ânsias de estar com ele. Saiu ao corredor na esperança de encontrá-lo de um modo que parecesse casual, e não precisou andar muito: Florentino Ariza estava sentado num banco do corredor, calado e triste como na pracinha dos Evangelhos, há mais de duas horas se perguntando como ia fazer para vê-la. Fizeram ambos o mesmo gesto de surpresa que ambos sabiam fingido, e percorreram juntos o convés da primeira classe atulhado de gente jovem, a maioria estudantes ruidosos que se esfalfavam com certa ansiedade na última pândega das festas. Na cantina, Florentino Ariza e Fermina Daza tomaram um refresco  de garrafa sentados como estudantes ao balcão, e ela se viu de repente numa situação temida. Disse: "Que horror!" Florentino Ariza perguntou em que pensava para ter semelhante impressão.
    Nos pobres velhinhos — disse ela. — Os que mataram a golpes de remo no  bote.
Foram dormir quando acabou a música, depois de uma longa conversa sem tropeços no mirante escuro. Não houve lua, o céu estava nublado, e no horizonte explodiam relâmpagos sem trovões que os iluminavam por um instante. Florentino Ariza enrolou os cigarros para ela, que não fumou mais de quatro, atormentada pela dor que se aliviava por momentos e recrudescia quando o navio bramia ao cruzar com outro, ou ao passar na frente de um povoado adormecido, ou quando navegava devagar para sondar o fundo do rio. Ele lhe contou com que ansiedade a vira sempre nos Jogos Florais, no vôo em balão, no velocípede de acrobata, e com quanta ansiedade esperava as festas públicas durante todo o ano só para vê-la. Também   ela

o vira muitas vezes, e nunca teria imaginado que ele ali estivesse só para vê-la. Contudo, há apenas um ano, ao ler suas cartas, se perguntara de repente como explicar que ele jamais houvesse competido nos Jogos Florais: sem dúvida teria ganho. Florentino Ariza mentiu: só escrevia para ela, versos para ela, e só ele os lia. Então foi ela quem buscou sua mão no escuro, não a encontrou esperando-a como esperara a dele na noite da véspera, e pegou-a de surpresa. Gelou-se o coração de Florentino Ariza.
   Como são curiosas as mulheres  disse.
Ela deu uma risada profunda, de pomba jovem, e tornou a pensar nos anciãos do bote. Estava escrito: aquela imagem havia de persegui-la sempre. Mas nessa noite podia suportá-la, porque se sentia tranqüila e bem, como poucas vezes na  vida: limpa de toda culpa. Teria ficado assim até o amanhecer, calada, a mão dele suando gelo em sua mão, mas não pôde suportar o tormento do ouvido. De modo que quando se apagou a música, e depois cessou bulha dos passageiros comuns pendurando redes no salão, ela compreendeu que sua dor era mais forte que  o desejo de  estar com ele. Sabia que o simples dizer isso ele ia aliviá-la, mas não o  fez para não preocupá-lo. Pois já tinha então a impressão de conhecê-lo como se tivesse vivido com ele toda a vida, e acreditava que ele era capaz de mandar o navio voltar ao porto se isso pudesse curar sua dor.
Florentino Ariza previra que essa noite as coisas aconteceriam assim, se  retirou. Já à porta do camarote procurou se despedir com um beijo, mas ela lhe ofereceu a face esquerda. Ele insistiu, já com a respiração entrecortada, e ela ofereceu a outra face com uma coqueteria que ele não vira nela quando colegial. Então insistiu pela segunda vez, e ela o recebeu nos lábios, recebeu-o com  um tremor profundo que procurou sufocar com um riso esquecido desde sua noite de núpcias.
   Deus meu — disse — que louca que eu fico nos  navios!
Florentino Ariza estremeceu: com efeito, ela própria dissera, tinha o cheiro azedo da idade. No entanto, enquanto andava para seu camarote, abrindo caminho entre o labirinto de redes adormecidas, consolava-se com a idéia de que ele devia ter o mesmo cheiro, só que quatro anos mais velho, e que ela sem dúvida o sentira com a mesma emoção. Era o cheiro dos fermentos humanos, que ele percebera nas amantes mais antigas, e que elas tinham sentido nele. A viúva de Nazaret, que não guardava nada para si, tinha dito a ele de modo mais cru: "Já temos cheiro  de urubu." Cada um suportava o cheiro do outro, porque estavam à mão: meu cheiro contra o seu. Em compensação, muitas vezes pensara no caso de América Vicuña, cujo cheiro de fraldas despertava nele os instintos maternais, enquanto o inquietava a idéia de que ela não pudesse agüentar o seu: seu cheiro de velho verde. Mas tudo isso pertencia ao passado. O importante era que pela primeira vez  desde  aquela tarde em que tia Escolástica deixara o livro de missa no balcão do telégrafo, Florentino Ariza não tornara a sentir uma felicidade como a dessa noite: tão  intensa

que lhe causava medo.
Começava a adormecer quando o contador do navio o despertou às cinco no porto de Zambrano para lhe entregar um telegrama urgente. Estava assinado por Leona Cassiani, com data do dia anterior, e todo seu horror cabia numa linha: América Vicuña morta ontem motivos inexplicáveis. Às onze da manhã soube dos pormenores através de uma conferência telegráfica com Leona Cassiani, na qual ele mesmo operou o equipamento transmissor como não voltara a fazer  desde seus dias de telegrafista. América Vicuña, presa de uma depressão mortal por ter sido reprovada nos exames finais, tinha tomado um vidro de láudano roubado na enfermaria do colégio. Florentino Ariza sabia no fundo de sua alma que a notícia estava incompleta. Mas não: América Vicuña não deixara nenhuma nota explicativa que permitisse culpar quem quer que fosse de sua resolução. A família estava chegando de Porto Pai nesse momento, avisada por Leona Cassiani,  e o enterro seria às cinco da tarde. Florentino Ariza respirou. A única coisa que podia fazer para continuar     vivo                              era     não                       permitir     o                              suplício    daquela    lembrança.   Apagou-o                              da memória, embora de vez em quando pelo restante de seus anos  fosse  senti-lo reviver de repente, sem qualquer razão, como a pontada súbita numa cicatriz antiga.
Os dias seguintes foram calorentos e intermináveis. O rio ficou turvo e se foi estreitando cada vez mais, e em vez do emaranhado de árvores colossais que assombrara Florentino Ariza na primeira viagem, havia planícies calcinadas, destroços de selvas inteiras devoradas pelas caldeiras dos navios, escombros de povoados abandonados de Deus, cujas ruas permaneciam inundadas mesmo nas épocas mais cruéis da seca. Durante a noite não eram despertados pelos cantos de sereia dos peixes-boi nas pontas de areia, e sim pela baforada nauseabunda dos mortos que passavam boiando rumo ao mar. Pois já não havia guerras nem pestes mas os corpos inchados continuavam passando. O capitão foi sóbrio por uma vez: "Temos ordens de dizer aos passageiros que são afogados acidentais." Em lugar da algaravia dos louros do escândalo dos micos invisíveis que em outros tempos aumentavam o bochorno do meio-dia, só restava o vasto silêncio da terra arrasada.
Havia tão poucos lugares onde fazer lenha, e estavam tão separados entre si, que o Nova Fidelidade ficou sem combustível no quarto dia de viagem. Permaneceu atracado quase uma semana, enquanto membros da tripulação se internavam por pântanos de cinzas em busca das últimas árvores dispersas. Não havia outras: os lenhadores tinham abandonado suas veredas fugindo à ferocidade dos senhores da terra, fugindo ao cólera invisível, fugindo das guerras larvadas que os governos se empenhavam em ocultar com decretos de distração. Enquanto isso, os passageiros, enfadados, faziam torneios de natação, organizavam expedições de caça, voltavam com iguanas vivas que abriam ao meio e tornavam a costurar com agulhas de ensacamento depois de extrair delas as pencas de ovos, translúcidos e moles, que punham a secar enfileirados nos parapeitos do navio. As prostitutas pobres dos povoados próximos seguiram a trilha das expedições, improvisaram tendas de campanha  na  barranca  da  margem,  trouxeram  música  e  cantina,  e  plantaram  a

pândega diante do navio encalhado.
Desde muito antes de ser presidente da C.F.C., Florentino Ariza recebia informes alarmantes da condição do rio, e mal os lia. Tranqüilizava os sócios: "Não se preocupem, quando a lenha acabar já haverá navios de petróleo." Nunca se deu o trabalho de pensar no assunto, obnubilado pela paixão por Fermina Daza, e quando percebeu a verdade já não havia nada a fazer, a menos que se arranjasse um rio  novo. À noite, mesmo nas épocas de melhores águas, era preciso atracar para dormir, e então se tornava insuportável o mero fato de estar vivo. A maioria dos passageiros, sobretudo os europeus, abandonavam o podredouro dos camarotes e passavam a noite andando pelas cobertas, espantando toda classe de insetos com a mesma toalha com que secavam o suor incessante, e amanheciam exaustos e inchados de picadas. Um viajante inglês de princípios do século XIX, referindo-se à viagem combinada em canoa e mula, que podia durar até cinqüenta dias, tinha escrito: "Esta é uma das peregrinações piores e mais incômodas que um  ser humano possa realizar." Isto deixara de ser verdade nos primeiros oitenta anos da navegação a vapor, e depois tinha voltado a ser para sempre, quando os jacarés comeram a última borboleta, e acabaram os peixes-boi maternais, acabaram os louros, os micos, as povoações: acabou tudo.
— Não há problema — ria o comandante. — Dentro de uns anos  viremos  pelo leito seco em automóveis de luxo.
Fermina Daza e Florentino Ariza estiveram protegidos durante os três primeiros dias pela suave primavera do mirante fechado, mas quando racionaram a lenha e começou a falhar o sistema de refrigeração, o camarote presidencial se converteu numa cafeteira a vapor. Ela sobrevivia às noites com o vento fluvial que entrava  pelas janelas abertas, e espantava os mosquitos com uma toalha, pois a bomba de inseticida era inútil com o navio encalhado. A dor de ouvido tinha ficado insuportável, e certa manhã quando ela acordou cessou de repente e por completo, feito o canto de uma cigarra arrebentada. Mas até a noite não percebeu que tinha perdido a audição do ouvido esquerdo, quando Florentino Ariza lhe falou por esse lado, e ela precisou virar a cabeça para ouvir o que dizia. Não disse nada a ninguém, resignada diante de mais um dos tantos defeitos sem remédio da  idade.
No entanto, a demora do navio tinha sido para eles um percalço providencial. Florentino Ariza tinha lido certa vez: "O amor se torna maior e mais nobre na calamidade." A umidade do Camarote Presidencial afogou-os num letargo irreal em que era mais fácil amar sem perguntas. Viviam horas inimagináveis de mãos dadas nas poltronas da amurada, beijavam-se devagar, gozavam a embriaguez das cadeias sem o estorvo da exasperação. Na terceira noite de torpor ela o esperou com uma garrafa de aguardente de anis, daquela que tomava às escondidas com a malta da prima Hildebranda, e mais tarde, já casada e mãe dos filhos, trancada com  as amigas do seu mundo de empréstimo. Precisava de um certo aturdimento para não pensar na própria sorte com demasiada lucidez, mas Florentino Ariza acreditou   que

era para se dar coragem no passo final. Animado por essa ilusão, atreveu-se a explorar com a ponta dos dedos seu pescoço flácido, o peito encouraçado de varetas metálicas, as cadeiras de ossos carcomidos, as coxas de corça velha. Ela o aceitou com agrado de olhos fechados, mas sem arrepios, fumando e bebendo aos goles espaçados. No final, quando as carícias deslizaram para seu ventre, já tinha bastante anis no coração.
   Se temos de fazer safadezas, vamos a elas — disse — mas que seja como gente grande.
Levou-o para o quarto e começou a se despir sem falsos pudores com as luzes acesas. Florentino Ariza se estendeu de costas na cama, procurando recobrar o domínio, de novo sem saber o que fazer com a pele do tigre que tinha matado. Ela disse: "Não olhe." Ele perguntou por que sem afastar a vista do teto  baixo.
   Porque você não vai gostar — disse ela.
Então ele olhou, viu-a nua até a cintura, tal como a imaginara. Tinha  os  ombros enrugados, os seios caídos e as costelas forradas de um pelame pálido e frio como o de uma rã. Ela tapou o peito com a blusa que acabava de tirar, e apagou a  luz. Ele então se refez e começou a se despir na escuridão, jogando nela cada peça   de roupa que tirava e que ela devolvia morta de rir.
Permaneceram deitados de costas um longo tempo, ele mais e mais aturdido à medida que o abandonava a embriaguez, e ela tranqüila, quase abúlica,  mas  rogando a Deus que não a deixasse rir sem razão, como sempre que exagerava um pouco com o anis. Conversaram para entreter o tempo. Falaram de si mesmos. De suas vidas diferentes, do acaso inverossímil de estarem nus no camarote escuro de um navio encalhado, quando o justo era pensar que já não tinham  tempo senão  para esperar a morte. Ela jamais ouvira dizer que ele tivesse tido uma mulher, uma que fosse, numa cidade em que tudo se sabia até mesmo antes de acontecer. Disse isso de um modo casual, e ele respondeu de pronto sem o mais leve tremor na  voz:
   É que me conservei virgem para você.
Ela não teria acreditado nisso de maneira alguma, ainda que fosse verdade, porque suas cartas de amor estavam cheias de frases como essa que não valiam pelo seu sentido mas pelo seu poder de deslumbramento. Mas gostou da coragem com que ele falou. Florentino Ariza, de sua parte, perguntou de repente  a si mesmo o  que jamais teria ousado perguntar: que classe de vida oculta tinha tido ela  à  margem do casamento. Nada o teria surpreendido, por saber muito bem que as mulheres são iguais aos homens em suas aventuras secretas: os mesmos estratagemas, as mesmas inspirações súbitas, as mesmas traições sem remorsos. Mas fez bem em não lhe perguntar. Numa época em que suas relações com a igreja  já andavam bastante avariadas, o confessor lhe perguntou sem que viesse à baila se alguma vez tinha sido infiel ao marido, e ela se levantou sem responder, sem terminar, sem se despedir, e nunca mais voltou a se confessar com esse confessor nem com nenhum outro. Por outro lado, a prudência de Florentino Ariza teve uma

recompensa inesperada: ela estendeu a mão no escuro, acariciou-lhe o ventre, os flancos, o púbis quase sem pêlos. Disse: "Você tem uma pele de neném." Depois deu o passo final: buscou-o onde não estava, tornou a buscá-lo sem ilusões, e o encontrou inerme.
   Está morto — disse ele.
Acontecia amiúde da primeira vez, com todas, desde sempre, de modo que tinha aprendido a conviver com aquele fantasma: a cada vez tinha que aprender de novo, como se fosse a primeira. Pegou a mão dela e a colocou no próprio peito: Fermina Daza sentiu quase à flor da pele o velho coração incansável batendo com a força, a pressa e a desordem de um adolescente. Ele disse: "Amor demais é tão  mau  para isto como falta de amor." Mas disse sem convicção: estava envergonhado, furioso consigo mesmo, ansiando por um motivo para culpá-la do seu fracasso. Ela sabia, e começou a provocar o corpo indefeso com carícias de brinquedo, feito uma gata terna folgando na crueldade, até que ele não agüentou mais o martírio e foi para seu camarote. Ela continuou pensando nele até o amanhecer, convencida por fim de seu amor, e à medida que o anis a abandonava em lentas ondas, ia sendo invadida pela aflição de que ele se tivesse revoltado e não voltasse nunca  mais.
Mas voltou no mesmo dia, à hora insólita de onze da manhã, fresco e restaurado, e se desnudou na frente dela com uma certa ostentação. Foi um prazer vê-lo a plena luz tal como o imaginara no escuro: um homem sem idade, de pele escura, lúcida e tensa como um guarda-chuva aberto, sem pêlos além dos muito escassos e espichados das axilas e do púbis. Estava de guarda alta, e ela percebeu que não deixava ver a arma por acaso e sim que a exibia como um troféu de guerra para se  dar coragem. Nem lhe deu tempo de tirar a camisola que tinha posto quando começou a brisa do amanhecer, e sua pressa de principiante provocou nela um arrepio de compaixão. Que não a afetou, porque em casos como aquele não lhe parecia fácil distinguir entre a compaixão e o amor. No fim, porém, se sentiu vazia.
Era a primeira vez que fazia amor em mais de vinte anos, e o fizera embargada pela curiosidade de sentir como podia ser, em sua idade e depois de um recesso tão prolongado. Mas ele não tinha lhe dado tempo de saber se seu corpo também estava querendo. Tinha sido rápido e triste, e ela pensou: "Agora está tudo fodido." Mas se enganou: apesar do desencanto de ambos, apesar do arrependimento dele pela sua bisonhice e do arrependimento dela pela loucura do anis, não se separaram um instante nos dias seguintes. Mal saíam do camarote para as refeições. O  comandante Samaritano, que descobria por instinto qualquer mistério que quisessem manter em seu navio, mandava-lhes a rosa branca todas as manhãs, armou-lhes uma serenata de valsas do seu tempo, e mandava preparar para eles comidas de brincadeira com ingredientes alentadores. Não tentaram de novo  o  amor até muito depois, quando a inspiração chegou sem que a buscassem. Bastava- lhes a ventura simples de estar juntos.
Não  teriam  sequer  pensado  em  sair  do  camarote  se  o  comandante  não  lhes

comunicasse numa nota que depois do almoço chegariam a Dourada, o porto final, ao fim de onze dias de viagem. Fermina Daza e Florentino Ariza avistaram do camarote o promontório de casas iluminadas por um sol pálido, e acreditaram descobrir a razão do seu nome, mas já acharam a razão menos evidente quando sentiram o calor que resfolegava como as caldeiras, e viram ferver o  asfalto  das  ruas. Além disso, o navio não atracou ali e sim na margem oposta, onde ficava a estação terminal da estrada de ferro de Santa Fé.
Abandonaram o refúgio logo que os passageiros desembarcaram. Fermina Daza respirou o bom ar da impunidade no salão vazio, e ambos contemplaram da amurada a multidão alvoroçada que identificava as bagagens nos  vagões  de  um trem que parecia de brinquedo. Alguém poderia pensar que chegavam da Europa, sobretudo as mulheres, cujos abrigos nórdicos e chapéus do século anterior eram  um contra-senso na canícula poeirenta. Algumas traziam os cabelos enfeitados com formosas flores que começavam a fenecer com o calor. Acabavam de chegar da planície andina depois de um dia de trem através de uma savana de sonho, e ainda não tinham tido tempo de mudar de roupa para o Caribe.
Em meio à algazarra de feira, um homem muito velho de aspecto inconsolável tirava pintos dos bolsos do capote de mendigo. Tinha aparecido de repente, abrindo caminho entre a multidão com um sobretudo em farrapos que pertencera a alguém muito mais alto e corpulento. Tirou o chapéu, que pôs de  abas para cima no cais  caso alguém quisesse arremessar urna moeda, e começou a tirar dos bolsos punhados de pintinhos frágeis e descoloridos que pareciam proliferar entre seus dedos. Num momento estava o cais atapetado de pintos inquietos piando por todos os lados, entre os viajantes apressados que pisavam neles sem saber. Fascinada pelo espetáculo de maravilha que parecia executado em sua homenagem, pois só ela o contemplava, Fermina Daza não percebeu em que momento começaram a entrar no navio os passageiros da viagem de volta. Acabou sua festa: entre os que chegavam notou logo muitas caras conhecidas, algumas de amigos que fazia pouco a haviam acompanhado em seu luto, se apressou em refugiar-se outra vez no camarote. Florentino Ariza encontrou-a consternada: preferia morrer a ser descoberta pelos seus numa viagem de prazer, pouco tempo depois da morte do marido. Florentino Ariza ficou tão afetado pelo seu abatimento que prometeu pensar em algum modo   de protegê-la que não fosse o cárcere do camarote.
A idéia lhe veio de repente quando jantavam na sala privada. O comandante estava inquieto devido a um problema que há tempos queria discutir  com  Florentino Ariza, mas que ele afastava sempre com o argumento usual: "Dessas amolações Leona Cassiani cuida melhor que eu." Contudo, esta vez escutou. O caso  é que os navios transportavam carga de subida, mas desciam vazios, enquanto ocorria o contrário com os passageiros. "A vantagem está com a carga, que  paga mais e além disso não come", disse. Fermina Daza jantava de má vontade, aborrecida com a enervada discussão dos dois homens quanto à conveniência de estabelecer  tarifas  diferenciais.  Mas  Florentino  Ariza  chegou  ao  final, e  só então

soltou uma pergunta que ao capitão pareceu o anúncio de uma idéia salvadora:
    Falando por hipótese — disse — seria possível fazer uma viagem direta sem carga nem passageiros, sem tocar em porto nenhum, sem nada?
O comandante disse que só era possível por hipótese. A C.F.C. tinha compromissos trabalhistas que Florentino Ariza conhecia melhor que ninguém, tinha contratos de carga, de passageiros, de correio, e muitos mais, incontornáveis em sua maioria. A única coisa que permitia saltar por cima de tudo era um caso de peste a bordo. O navio se declarava de quarentena, içava-se a bandeira amarela e se navegava numa emergência. O comandante Samaritano tinha tido que fazê-lo várias vezes devido aos muitos casos de cólera aparecidos no rio, embora as autoridades sanitárias obrigassem logo os médicos a expedir certificados de disenteria comum. Além disso, muitas vezes na história do rio içava-se a bandeira amarela da  peste  para burlar impostos, para não recolher um passageiro indesejável, para impedir buscas inoportunas. Florentino Ariza encontrou a mão  de  Fermina Daza por baixo da mesa.
   Pois bem — disse — façamos isso.
O comandante se espantou, mas em seguida, com seu instinto de raposa velha, viu tudo claro.
   Eu mando neste navio, mas o senhor manda em nós — disse. — De maneira que se está falando sério, me dê a ordem por escrito, e poremos mãos à  obra.
Era sério, é claro, e Florentino Ariza assinou a ordem. No fim das contas todo mundo sabia que os tempos do cólera não haviam terminado, apesar dos alegres informes das autoridades sanitárias. Quanto ao navio, não havia problema. Transferiu-se a pouca carga embarcada, aos passageiros se disse que havia um percalço de máquinas, e foram passados de madrugada para um navio de outra empresa. Se coisas assim se faziam por tantas razões imorais, e até indignas, Florentino Ariza não via por que não seria lícito fazê-las por amor. A única coisa que o capitão suplicava que se fizesse era uma escala em Porto Nare, para recolher alguém que o acompanharia na viagem: também ele tinha seu coração  escondido.
Assim, o Nova Fidelidade zarpou ao amanhecer do dia seguinte, sem carga nem passageiros, e com a bandeira amarela do cólera flutuando com júbilo no mastro maior. Ao entardecer recolheram em Porto Nare uma mulher mais alta e  robusta que o comandante, de uma beleza descomunal, à qual só faltava a barba para ser contratada por um circo. Chamava-se Zenaida Neves, mas o comandante a chamava Minha Energúmena: uma antiga amiga sua, que costumava pegar num porto para deixar em outro e que subiu bordo tocada pela ventania da ventura. Naquele morredouro triste, onde Florentino Ariza reviveu as saudades de  Rosalba quando  viu o trem de Envigado subindo a duras penas pela antiga cornija de mulas, desabou um aguaceiro amazônico que havia de continuar com muito poucas  pausas  até  o fim da viagem. Mas ninguém se incomodou: a festa navegante tinha seu teto  próprio. Aquela  noite, como  uma contribuição  pessoal  à  pândega, Fermina    Daza

desceu às cozinhas, entre as ovações da tripulação, e preparou para todos um prato inventado ao qual Florentino Ariza deu como nome de batismo: berinjelas ao  amor.
Durante o dia jogavam cartas, comiam até rebentar, faziam sestas de granito que deixavam todos exaustos, e mal baixava o sol, davam livre curso à orquestra, e bebiam aguardente de anis com salmão até muito além da saciedade. Foi uma  viagem rápida, com o navio leve e águas boas, melhoradas pelas cheias que se precipitavam das cabeceiras, onde choveu tanto aquela semana quanto em todo o trajeto. De alguns povoados lhes disparavam canhonaços de caridade para espantar   o cólera, que eles agradeciam com um bramido triste. Os navios de qualquer companhia com que cruzavam no caminho mandavam sinais de condolências. Na povoação de Magangué, onde nasceu Mercedes, carregaram lenha para o resto da viagem.
Fermina Daza se assustou quando começou a sentir sereia do navio dentro do ouvido são, mas no segundo dia de anis ouvia melhor com ambos. Descobriu que as rosas cheiravam mais que antes, que os pássaros cantavam ao amanhecer muito melhor que antes, e que Deus tinha feito um peixe-boi e o pusera na praia de Tamalameque só para que a acordasse. O comandante o ouviu, fez desviar o navio, e viram por fim a matrona enorme amamentando sua criança nos braços. Nem Florentino nem Fermina perceberam o quanto se haviam amalgamado:  ela  o ajudava com os clisteres, se levantava antes dele para escovar a dentadura postiça que ele punha no copo enquanto dormia, e resolveu seu problema dos óculos perdidos, pois os dele lhe serviam para ler e cerzir. Certa manhã, ao acordar, viu-o  na penumbra pregando um botão de camisa, e se apressou a pregá-lo, antes que ele repetisse a frase ritual de que precisava de duas esposas. Em compensação, a única coisa que ela precisou dele foi que lhe aplicasse uma ventosa para uma dor nas costas.
Florentino Ariza, de sua parte, se pôs a revolver saudades com o violino da orquestra, e em meio dia já era capaz de executar para ela a valsa da Deusa Coroada, que tocou durante horas até que o fizeram parar à força. Uma noite, pela primeira vez em sua vida, Fermina Daza despertou de repente afogada num pranto que não era de raiva e sim de pena, pela lembrança dos anciãos do bote mortos a pauladas pelo remeiro. Em compensação, a chuva incessante não a comoveu, e achou demasiado tarde que talvez Paris afinal não tivesse sido tão lúgubre quanto lhe parecera, nem Santa Fé tivesse tido tantos enterros pelo meio da rua. O sonho de outras viagens futuras com Florentino Ariza se ergueu no horizonte: viagens loucas, sem tantos baús, sem compromissos sociais: viagens de  amor.
Na véspera da chegada fizeram uma festa grande, com grinaldas de papel e lanternas coloridas. Estiou ao entardecer. O comandante e Zenaida dançaram muito juntos os primeiros boleros que naqueles anos começavam a estilhaçar corações. Florentino Ariza se atreveu a sugerir a Fermina Daza que dançassem sua valsa confidencial, mas ela se negou. No entanto, a noite inteira marcou o compasso   com

a cabeça e os saltos, houve até um momento em que dançou sentada sem perceber, enquanto o comandante se confundia com sua terna energúmena na penumbra do bolero. Bebeu tanto do anis que foi preciso ajudá-la a subir as escadas, e sofreu um ataque de riso com lágrimas que chegou a alarmar a todos. Não  obstante, quando conseguiu dominá-lo no remanso perfumado do  camarote, fizeram um amor tranqüilo e são, de serenos avós, que se fixaria em sua memória como a melhor lembrança daquela viagem lunática. Não se sentiam mais como noivos recentes, ao contrário do que o comandante e Zenaida supunham, menos ainda como amantes tardios. Era como se tivessem saltado o árduo calvário da vida conjugai, e tivessem ido sem rodeios ao grão do amor. Deixavam passar o tempo como dois velhos esposos escaldados pela vida, para lá das armadilhas da  paixão, para lá das troças brutais das ilusões das miragens dos desenganos: para  lá do amor. Pois tinham vivido juntos suficiente para perceber que o amor era o amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso ficava quanto mais perto da morte.
Acordaram às seis. Ela com a dor de cabeça perfumada de anis, e com o coração aturdido pela impressão de que o doutor Juvenal Urbino tinha voltado, mais gordo    e mais moço que quando escorregou da árvore, e estava sentado na cadeira de balanço, esperando-a à porta da casa. Contudo, estava bastante lúcida para perceber que não era efeito do anis, mas da iminência da  volta.
— Vai ser como morrer — disse.
Florentino Ariza se surpreendeu porque era a adivinhação de um pensamento  que não o deixava viver desde o início da volta. Nem ele nem ela conseguiam se ver numa casa que não fosse o camarote comendo de modo diferente do  que o faziam  no navio, incorporados a uma vida que lhes seria alheia para sempre. Era, com efeito, como morrer. Não pôde mais dormir. Permaneceu deitado de costas na cama, as mãos entrelaçadas na nuca. A um certo momento, a pontada de América Vicuña fez com que se retorcesse de dor, e não pôde protelar mais a verdade: trancou-se no banheiro e chorou à vontade, sem pressa, até a última lágrima. Só então teve a coragem de confessar si mesmo quanto a amara.
Quando se levantaram já vestidos para desembarcar, tinham deixado para trás os canais e pântanos da antiga passagem espanhola, e navegavam entre os escombros  de navios e os tanques de óleos mortos da baía. Erguia-se uma quinta-feira radiante sobre as cúpulas douradas da cidade dos vice-reis, mas Fermina Daza não pôde suportar do tombadilho a pestilência de suas glórias, a arrogância de seus baluartes profanados pelas iguanas: o horror da vida real. Nem ele nem ela, sem nada  dizerem, sentiram-se capazes de se render de maneira tão. fácil.
Encontraram o comandante na sala de jantar, num estado de desordem que não estava de acordo com a pulcritude de seus hábitos: a barba por fazer, os olhos injetados pela insônia, a roupa suada da noite anterior, a fala transtornada pelos arrotos de anis. Zenaida dormia. Começavam a tomar o café em silêncio quando  um

bote a gasolina da Saúde do Porto mandou parar o navio.
O comandante, da sua ponte de comando, respondeu aos gritos às perguntas da patrulha armada. Queriam saber que tipo de peste grassava a bordo, quantos passageiros vinham, quantos estavam doentes, que possibilidades havia de novos contágios. O comandante respondeu que só traziam três passageiros,  e  todos  tinham o cólera, mas se mantinham em reclusão estrita. Nem os que deviam embarcar na Dourada, nem os vinte e sete homens da tripulação, tinham tido qualquer contato com eles. Mas o chefe da patrulha não ficou satisfeito, e mandou que saíssem da baía e esperassem no pântano das Mercês até as duas da tarde, enquanto se preparavam os trâmites para que o navio ficasse de quarentena. O comandante soltou um palavrão de carroceiro e com um gesto da mão mandou o prático dar a volta completa e voltar aos pântanos.
Fermina Daza e Florentino Ariza tinham ouvido tudo da mesa, mas pouco pareciam importar ao comandante. Continuou comendo em silêncio, seu mau humor era visível na maneira por que violava as leis de urbanidade  que sustentavam a reputação legendária dos capitães do rio. Arrebentou com a ponta da faca os quatro ovos fritos, arrebanhou-os para seu prato com patacões de banana verde que enfiava inteiros na boca e mastigava com um deleite selvagem. Fermina Daza e Florentino Ariza o olhavam sem falar, esperando a leitura das notas finais num banco da escola. Não tinham trocado uma palavra enquanto durou o diálogo com a patrulha sanitária, nem tinham a menor idéia do que ia ser de suas  vidas,  mas ambos sabiam que o comandante estava pensando por eles: via-se pelo pulsar das suas têmporas.
Enquanto ele despachava a ração de ovos, a bandeja de rodelas de banana, o bule de café com leite, o navio saiu da baía com as caldeiras sossegadas, abriu caminho nos canais através dos lençóis de tarulla, o lótus fluvial de flores de púrpura e grandes folhas em forma de coração, e voltou aos pântanos. A água era furta-cor devido ao mundo de peixes que boiavam de costas, mortos pela dinamite dos pescadores furtivos, e os pássaros da terra e da água voavam em círculos sobre eles com guinchos metálicos. O vento do  Caribe se meteu pelas janelas com o alarido   dos pássaros, e Fermina Daza sentiu no sangue as batidas desordenadas de seu livre-arbítrio. À direita, turvo e parcimonioso, o estuário do rio Grande da Madalena se espraiava até o outro lado do mundo.
Quando não havia mais nada que comer nos pratos, o comandante limpou os lábios com o canto da toalha, e falou num jargão procaz que acabou de uma vez por todas com o prestígio do bom falar dos capitães do rio. Pois não falou por eles nem para ninguém, mas apenas tentando pôr-se de acordo com a própria raiva. Sua conclusão, ao fim de uma réstia de impropérios bárbaros, foi que não descobria  como sair da embrulhada em que se metera com a bandeira do  cólera.
Florentino Ariza o escutou sem pestanejar. Depois olhou pelas janelas o círculo completo do quadrante da rosa náutica, o horizonte nítido, o céu de dezembro sem

uma única nuvem, as águas navegáveis para sempre, e disse:
   Sigamos em linha reta, reta, reta, outra vez até a Dourada.
Fermina Daza estremeceu, porque reconheceu a antiga voz iluminada pela graça do Espírito Santo, e olhou o comandante: ele era o destino. Mas o comandante não   a viu, porque estava anonadado pelo tremendo poder de inspiração de Florentino Ariza.
   Está dizendo isso a sério? — perguntou.
    Desde que nasci — disse Florentino Ariza — não disse  uma única coisa que  não fosse a sério.
O comandante olhou Fermina Daza e viu em suas pestanas os  primeiros  lampejos de um orvalho de inverno. Depois olhou Florentino Ariza, seu domínio invencível, seu amor impávido, e se assustou com a suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites.
     E até quando acredita o senhor que podemos continuar neste ir e vir do caralho? — perguntou.
Florentino Ariza tinha a resposta preparada havia cinqüenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites.
   Toda a vida — disse.


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