quarta-feira, 30 de setembro de 2015

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FLORENTINO ARIZA, por outro lado, não deixara de pensar nela um único instante desde que Fermina Daza o rechaçou sem apelação depois de uns amores longos e contrariados, e haviam transcorrido a partir de então cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias. Não tivera que manter a conta do esquecimento fazendo uma risca diária nas paredes de um calabouço, porque não se havia passado um dia sem que acontecesse alguma coisa que o fizesse lembrar-se dela. Na época do rompimento ele vivia com a mãe, Trânsito Ariza, numa meia casa alugada da Rua das Janelas, onde ela desde jovem tinha um negócio de armarinho e  onde  além  disso desfiava camisas e panos velhos que vendia como algodão para os feridos de guerra. Foi seu filho único, tido de uma aliança ocasional com o conhecido armador senhor Pio Quinto Loayza, um dos três irmãos fundadores da Companhia Fluvial do Caribe, com a qual deram um impulso novo à navegação a vapor no rio Madalena.
O senhor Pio Quinto Loayza morreu quando o filho tinha dez anos. Embora sempre se houvesse ocupado em segredo de seus gastos, nunca o reconheceu como seu perante a lei nem lhe deixou resolvido o futuro, de modo que Florentino Ariza ficou apenas com o sobrenome da mãe, ainda que sua verdadeira filiação tenha sempre sido de domínio público. Depois da morte do pai, Florentino Ariza teve que renunciar ao colégio para se empregar como aprendiz na Agência dos Correios, onde o encarregaram de abrir os sacos e arrumar as cartas, e de avisar ao público da chegada do correio içando à porta do escritório a bandeira do país de procedência.
Sua capacidade chamou a atenção do telegrafista, o emigrado alemão Lotário Thugut, que além do mais tocava órgão nas cerimônias extraordinárias da catedral e dava aulas de música a domicílio. Lotário Thugut lhe ensinou o código Morse e o manejo do sistema telegráfico, e bastaram as primeiras lições de violino para que Florentino Ariza continuasse a tocá-lo de ouvido como um profissional. Quando conheceu Fermina Daza era o moço mais requisitado do seu meio social, o que melhor dançava música da moda e recitava de cor a poesia sentimental, e estava sempre à disposição dos amigos para fazer a suas noivas serenatas de solo de  violino. Era escaveirado desde então, com um cabelo de índio amansado a brilhantina, e com os óculos de míope que aumentavam seu aspecto de desamparo. Além do defeito da vista, sofria de uma prisão de ventre crônica que o obrigou a tomar lavagens purgativas a vida inteira. Só tinha uma roupa para visitas e missas, herdada  do  pai  morto,  mas  Trânsito  Ariza  a  mantinha  tão  cuidada  que  a   cada

domingo parecia nova. Apesar do seu ar enfezadinho, do seu acanhamento e de seu traje sombrio, as moças do seu grupo faziam rifas secretas no jogo de ver quem  ficava com ele, e ele aceitava o jogo de ficar com elas, até o dia em que conheceu Fermina Daza e se acabou sua inocência.
Ele a vira pela primeira vez uma tarde em que Lotário Thugut o encarregou de levar um telegrama a alguém sem domicílio conhecido que se chamava Lorenzo Daza. Encontrou-o na pracinha dos Evangelhos, numa das casas mais antigas, meio arruinada, cujo pátio interior parecia o claustro de uma abadia, com tiririca nos canteiros e um repuxo de pedra sem água. Florentino Ariza não percebeu nenhum ruído humano quando seguiu a criada descalça por baixo dos arcos do corredor,  onde havia caixotes de mudança ainda por abrir, e ferramentas de pedreiro entre restos de cal e sacos de cimento alinhados, pois  a casa estava sendo submetida a  uma reforma radical. No fundo do pátio havia um escritório provisório, onde  dormia a sesta sentado diante da escrivaninha um homem muito gordo de suíças crespas que se confundiam com os bigodes. Chamava-se, de fato, Lorenzo Daza, e não era muito conhecido na cidade porque chegara menos de dois anos e não era homem de muitos amigos.
Recebeu o telegrama como se fosse a continuação de um sonho aziago. Florentino Ariza observou os olhos aflitos com uma espécie de compaixão oficial, observou os dedos incertos procurando descolar o papel, o medo visceral que tinha visto tantas vezes em tantos destinatários que ainda não conseguiam pensar em telegrama sem pensar em morte. Quando o leu, recobrou o domínio de si mesmo. Deu um suspiro: "Boas notícias." E entregou a Florentino Ariza os cinco réis de uso, dando-lhe a entender com um sorriso de alívio que não os teria dado se as notícias tivessem sido más. Depois se despediu com um forte aperto de mão, que não era de costume com um mensageiro do telégrafo, e a criada o acompanhou até o portão da rua, não tanto para conduzi-lo como para vigiá-lo. Percorreram o mesmo caminho em sentido contrário pelo corredor de arcadas, mas desta vez viu Florentino Ariza que havia alguém mais na casa, porque a claridade do pátio estava ocupada por uma voz de mulher que repetia uma lição de leitura. Ao passar diante do quarto  de costura viu pela janela uma mulher mais velha e uma menina, sentadas em duas cadeiras muito juntas, as duas acompanhando a leitura no mesmo livro que a mulher mantinha aberto no colo. Pareceu-lhe uma visão estranha:  a  filha ensinando a mãe a ler. A dedução era incorreta só em parte, porque a mulher era tia e não mãe da menina, embora a tivesse criado como se mãe fosse. A aula não se interrompeu, mas a menina levantou a vista para ver quem passava pela janela, e esse olhar casual foi a origem de um cataclismo de amor que  meio século depois  não tinha terminado ainda.
A única coisa que Florentino Ariza pôde averiguar sobre Lorenzo Daza foi que tinha vindo de São João da Ciénaga com a filha única e a irmã solteira pouco depois da peste do cólera, e os que o viram desembarcar não duvidaram que ele vinha para ficar, pois  trazia todo  o  necessário  para  uma casa bem  guarnecida. A esposa tinha

morrido quando a filha era muito pequenina. A irmã se chamava Escolástica, tinha quarenta anos e estava cumprindo promessa ao usar o hábito de São Francisco quando saía à rua, e o cordão na cintura quando estava em casa. A menina tinha treze anos e atendia pelo mesmo nome que a mãe morta:  Fermina.
Supunha-se que Lorenzo Daza era homem de recursos porque vivia bem sem ofício conhecido, e comprara com moeda sonante a casa dos Evangelhos, cuja restauração devia ter custado pelo menos o dobro dos duzentos pesos ouro que  pagou por ela. A filha estudava no Colégio da Apresentação da Santíssima Virgem, onde as senhoritas da sociedade aprendiam dois séculos a arte e o ofício  de  serem esposas diligentes e submissas. Durante a Colônia e os primeiros anos da República recebiam as herdeiras de sobrenomes ilustres. Mas as velhas famílias arruinadas pela independência tiveram que submeter-se à realidade dos novos tempos, e o colégio abriu as portas a todas as candidatas que pudessem pagar por  ele, sem levar em conta seus pergaminhos, mas com a condição essencial de que fossem filhas legítimas de casais católicos. De todas as maneiras era um colégio  caro, e o fato de que Fermina Daza estudava ali era por si só um indício da situação econômica da família, embora não fosse de sua condição social. Estas notícias animaram Florentino Ariza, pois lhe indicavam que a bela adolescente de olhos amendoados estava ao alcance de seus sonhos. Não obstante, o regime estrito em que a mantinha o pai se revelou dentro de pouco como  um obstáculo  intransponível. Ao contrário das outras alunas, que iam ao colégio em grupos ou acompanhadas por uma criada mais velha, Fermina Daza ia sempre com a tia solteira, e sua conduta indicava que não lhe era permitida nenhuma distração.
Foi desse modo inocente que Florentino Ariza iniciou sua vida sigilosa  de caçador solitário. A partir das sete da manhã se sentava sozinho no banco menos visível da praça, fingindo ler um livro de versos à sombra das amendoeiras, até que via passar a donzela impossível com o uniforme de listras azuis, as meias  presas  com ligas nos joelhos, as botinas masculinas de cordões cruzados e uma  única trança grossa com um laço na ponta que se estendia pelas costas até a cintura. Andava com uma altivez natural, a cabeça erguida, a vista imóvel, o passo rápido, o nariz afilado, com a pasta dos livros apertada nos braços em cruz contra o peito, e com um modo de andar de corça que fazia com que ela parecesse imune  à gravidade. A seu lado, acompanhando-a a duras penas, a tia com o hábito pardo e o cordão de São Francisco não deixava a menor fresta para que  alguém  chegasse perto. Florentino Ariza as via passar de ida e volta quatro vezes por dia, e uma vez aos domingos à saída da missa solene, e ver a menina lhe bastava. Pouco a pouco a foi idealizando, atribuindo-lhe virtudes improváveis, sentimentos imaginários, e ao fim de duas semanas a única coisa em que pensava era ela. Por isso, resolveu mandar-lhe um recado simples escrito dos dois lados de  uma folha de  papel com  sua caprichada letra de escrivão. Mas guardou-a vários dias no bolso, pensando em como entregá-la, e enquanto pensava escrevia várias páginas mais antes de  se  deitar,  de  modo  que  a  carta  original  foi  virando  um  dicionário  de     galanteios,

inspirado nos livros que havia decorado de tanto lê-los nas esperas da  praça.
Buscando o modo de entregar a carta procurou travar conhecimento com algumas alunas do Apresentação, mas estavam longe demais do seu mundo. Além disso, depois de muito refletir achou que não era prudente que alguém ficasse sabendo de suas pretensões. Mesmo assim, conseguiu saber que Fermina  Daza tinha sido convidada a um baile de sábado uns dias depois da sua chegada, e que o pai não lhe havia dado consentimento com uma frase terminante: "Cada  coisa se  fará em seu devido tempo." A carta tinha mais de sessenta páginas escritas dos dois lados quando Florentino Ariza não pôde resistir mais à opressão do  seu segredo, e  se abriu sem reservas à mãe, a única pessoa com quem se permitia algumas confidencias. Trânsito Ariza se comoveu até as lágrimas com a candura do filho em assuntos de amor, e tratou de orientá-lo com suas luzes. Começou por convencê-lo   a não entregar seu cartapácio lírico, com o qual  conseguiria assustar a menina  dos seus sonhos, que supunha tão verde quanto ele nos negócios do coração. O primeiro passo, lhe disse, era fazer com que ela se desse conta do  seu  interesse,  para que a declaração não a pegasse de supetão e ela tivesse tempo de  pensar.
— Mas sobretudo — lhe disse — a primeira conquista que você tem a fazer não é   a dela, e sim a da tia.
Ambos os conselhos eram sábios, sem dúvida, mas tardios. Em verdade, no dia em que Fermina Daza se descuidou um instante da aula de leitura que estava dando à tia, e levantou a vista para ver quem passava pelo corredor, Florentino Ariza a impressionou pela aura de desamparo que o envolvia. À noite, durante a refeição,  seu pai lhe havia falado do telegrama e foi assim que ela soube o que é que  Florentino Ariza tinha ido fazer na casa, e qual era seu ofício. Estas notícias aumentaram seu interesse, pois para ela, como para tanta gente da época,  a invenção do telégrafo tinha algo a ver com a magia. Por isso reconheceu Florentino Ariza desde a primeira vez em que o viu lendo debaixo das árvores da pracinha, embora não lhe desse qualquer inquietação até que a tia a fizesse saber que várias semanas ele se postava ali. Depois, quando o viram também aos domingos à saída da missa, a tia acabou de se convencer de  que tantos encontros não podiam  ser casuais. Disse: "Não de ser por minha causa que se tanto trabalho." Pois apesar de sua conduta austera e seu hábito de penitente, a  tia  Escolástica  Daza tinha um instinto da vida e uma vocação de cumplicidade que eram suas melhores virtudes, e a simples idéia de que um homem se interessasse pela sobrinha lhe causava uma emoção irresistível. Contudo, Fermina Daza estava ainda a salvo da mera curiosidade do amor, e a única coisa que lhe inspirava Florentino Ariza era  uma certa pena, porque lhe pareceu que estava doente. Mas a tia lhe disse que era necessário ter vivido muito para conhecer a índole verdadeira de um  homem, e estava convencida de que aquele que se sentava no jardim para vê-las passar só  podia estar doente de amor.
Tia Escolástica era um  refúgio  de  compreensão  e  afeto  para  a filha solitária de

um casamento sem amor. Ela a criara desde a morte da mãe, e em relação a Lorenzo Daza se comportava mais como cúmplice do que como tia. Por isso a aparição de Florentino Ariza foi para elas mais uma das muitas diversões íntimas que costumavam inventar para entreter suas horas mortas. Quatro vezes por  dia,  quando passavam pela pracinha dos Evangelhos, ambas se apressavam  a  buscar com um olhar instantâneo o sentinela escaveirado, tímido, coisinha pouca, quase sempre vestido de preto apesar do calor, que fingia ler debaixo das  árvores. "Lá está", dizia a que o descobria primeiro, reprimindo o riso, antes que ele levantasse a vista e visse as duas mulheres rígidas, distantes de sua vida, que atravessavam o parque sem olhá-lo.
   Pobrezinho — tinha dito a tia. — Não se atreve a se aproximar porque eu estou com você, mas um dia tentará, se suas intenções são sérias, e então vai entregar a você uma carta.
Prevendo toda classe de adversidades, ensinou-a a se comunicar com sinais alfabéticos de mão, recurso indispensável aos amores  proibidos.  Aquelas travessuras ingênuas, quase pueris, despertavam em Fermina  Daza  uma curiosidade novidadeira, mas não lhe ocorreu durante vários meses que fossem  mais longe. Nunca soube em que momento a diversão se converteu em ansiedade, e sentia o sangue virando espuma na urgência de vê-lo, e uma noite acordou espavorida porque o viu olhando-a no escuro aos pés da cama. Então desejou no fundo da alma que se cumprissem os prognósticos da tia, e rogava a Deus nas suas orações que ele tivesse a coragem de lhe entregar a carta para ela saber o que dizia.
Mas seus rogos não foram atendidos. Ao contrário. Isto sucedia na época em que Florentino Ariza se confessou à mãe e ela o dissuadiu de entregar as setenta páginas de galanteios, e por isso Fermina Daza continuou esperando todo o resto  do  ano. Sua ansiedade se convertia em desespero à medida que se aproximavam as férias de dezembro, pois se perguntava sem sossego o que ia fazer para vê-lo, e para que ele a visse, durante os três meses em que não iria ao colégio. As dúvidas continuavam  sem solução na noite de Natal, quando estremeceu com a sensação de que ele a olhava do meio da multidão da missa do galo, e essa inquietação lhe sufocou o coração. Não se atreveu a voltara cabeça, porque estava sentada entre o pai e a tia, e teve que se dominar para que não percebessem sua perturbação. Mas na desordem da saída sentiu-o tão iminente, tão nítido no tumulto, que uma força irresistível a obrigou a olhar por cima do ombro quando abandonava o templo pela nave central,   e então viu a dois palmos de seus olhos os outros olhos de gelo, o rosto lívido, os lábios petrificados pelo susto do amor. Transtornada por sua própria audácia, se agarrou ao braço da tia Escolástica para não cair, e esta sentiu o suor glacial da mão através da mitene de renda, e a reconfortou com um sinal imperceptível de cumplicidade sem condições. Em meio ao estrondo dos foguetes e dos  tambores,  das lanternas coloridas nos portais e clamor das multidões sedentas de paz, Florentino Ariza vagou feito um sonâmbulo até o raiar do dia vendo a festa através

das lágrimas, aturdido pela alucinação de que era ele e não Deus que tinha nascido aquela noite.
O delírio aumentou a semana seguinte, à hora da sesta, quando passou sem esperanças pela casa de Fermina Daza, e viu que ela e a tia estavam sentadas embaixo das amendoeiras do portal. Era a repetição ao ar livre do quadro que tinha visto naquela primeira tarde no quarto de costura: a menina tomando a lição de leitura da tia. Mas Fermina Daza estava mudada sem o uniforme escolar, pois vestia uma túnica de linho com muitas pregas que lhe caía dos ombros feito um peplo, e tinha na cabeça uma grinalda de gardênias naturais que lhe dava  a aparência de uma deusa coroada. Florentino Ariza se sentou na praça, onde tinha certeza de ser visto, e então não apelou para o recurso da leitura fingida, permanecendo com o   livro aberto e os olhos fixos na donzela ilusória, que não lhe retribuiu sequer com  um olhar de caridade.
A princípio pensou que a aula debaixo das amendoeiras era uma mudança  casual, devida talvez às obras intermináveis da casa, mas nos dias seguintes compreendeu que Fermina Daza estaria ali, ao alcance da sua vista, todas as tardes   à mesma hora dos três meses das férias, e essa certeza lhe infundiu ânimo novo.  Não teve a impressão de ser visto, não notou nenhum sinal de interesse ou repúdio, mas na frieza dela havia um resplendor diferente que o animava a persistir. Em breve, uma tarde de finais de janeiro, a tia pôs o trabalho na cadeira e deixou a sobrinha no portal, no tapete de folhas amarelas caídas das amendoeiras. Animado pela suposição irrefletida de que aquela era uma oportunidade combinada, Florentino Ariza atravessou a rua e se colocou na frente de Fermina Daza, e tão  perto dela que sentiu a trilha, a forma de sua respiração e o hálito floral com que havia de identificá-la pelo resto da vida. Falou a ela com  a cabeça erguida e  com  uma determinação que voltaria a ter meio século depois, e pelo mesmo motivo.
   A única coisa que lhe peço é que receba uma carta minha lhe disse.
Não era a voz que Fermina Daza esperava dele: era nítida, e com uma autoridade que não tinha nada a ver com suas maneiras lânguidas. Sem afastar a vista do bordado, respondeu: "Não posso recebê-la sem permissão do meu  pai."
Florentino Ariza estremeceu com  o calor daquela voz, cujos timbres graves não  ia esquecer pelo resto da vida. Mas se manteve firme, e respondeu sem perda de tempo: "Consiga a permissão." Depois adoçou a ordem com uma súplica: "É um assunto de vida ou morte." Fermina Daza não o olhou, não interrompeu o bordado, mas sua decisão entreabriu uma porta por onde cabia o mundo inteiro.
   Volte todas as tardes — lhe disse — e espere que eu mude de  cadeira.
Florentino Ariza não entendeu o que ela quis dizer, até a segunda-feira da semana seguinte, quando viu do seu banco da praça a mesma cena de sempre com uma única variação: quando tia Escolástica entrou na casa, Fermina Daza se levantou e sentou na outra cadeira. Florentino Ariza, com uma camélia branca na botoeira da sobrecasaca, atravessou então a rua e parou diante dela. Disse: "Este é  o

maior momento de minha vida." Fermina Daza não ergueu a vista para ele, examinando, isto sim, os arredores com um olhar circular, e viu as ruas desertas na modorra da estação seca e um remoinho de folhas mortas arrastadas pelo  vento.
   Entregue-a — disse.
Florentino Ariza tinha pensado em levar-lhe as setenta folhas que então já poderia declamar de memória de tanto que as lera, mas se decidiu por uma meia página sóbria e explícita, em que prometia o essencial: sua fidelidade a  toda  prova e seu amor para sempre. Tirou-a do bolso interno da sobrecasaca e a colocou diante dos olhos da bordadeira atribulada que ainda não tinha ousado olhá-lo. Ela viu o envelope azul tremendo na mão petrificada de terror, e levantou o bastidor  para que ele ali pusesse a carta, pois não podia admitir que também nos dedos dela se notasse o tremor. aconteceu: um pássaro se sacudiu na folhagem da amendoeira, e sua cagada caiu bem em cima do bordado. Fermina Daza afastou o bastidor, escondeu-o atrás da cadeira para que Florentino Ariza não descobrisse o que tinha acontecido, e o olhou pela primeira vez com o rosto em chamas. Impassível, carta na mão, Florentino Ariza disse: "Dá sorte." Ela lhe agradeceu com seu primeiro sorriso, e quase lhe arrebatou a carta, que dobrou e escondeu no corpinho. Ele lhe ofereceu então a camélia que trazia na lapela. Ela a recusou: uma flor de compromisso." Em seguida, consciente de que seu tempo se esgotava, refugiou-se de novo em sua compostura.
   Agora vá embora — disse — e não volte mais até que eu lhe  avise.
Antes que Florentino Ariza lhe contasse que a tinha visto, sua mãe já o descobriria, porque ele perdeu a fala e o apetite e passava as noites em claro rolando na cama. Mas quando começou a esperar a resposta à sua primeira carta, sua ansiedade se complicou com caganeiras e vômitos verdes, perdeu o sentido da orientação e passou a sofrer desmaios repentinos, e a mãe  se  aterrorizou  porque seu estado não se parecia com as desordens do amor e sim com os  estragos  do cólera. O padrinho de Florentino Ariza, antigo homeopata que tinha sido confidente de Trânsito Ariza desde seus tempos de amante oculta, se alarmou também à primeira vista com o estado do enfermo, porque tinha o pulso tênue, a respiração rascante e os suores pálidos dos moribundos. Mas o exame revelou que não tinha febre, nem dor em nenhuma parte, e a única coisa que sentia de concreto era uma necessidade urgente de morrer. Bastou ao médico um interrogatório insidioso, primeiro a ele e depois à mãe, para comprovar uma vez mais que os sintomas do amor são os mesmos do cólera. Receitou infusões de flores de tília para entreter os nervos e sugeriu uma mudança de ares para buscar consolo na distância, mas aquilo por que anelava Florentino Ariza era todo o contrário: gozar seu martírio.
Trânsito Ariza era uma quadrarona livre com um instinto da felicidade frustrado pela pobreza, e se deleitava com as penas do filho como se fossem suas. Fazia com que bebesse as poções quando o sentia delirar e o enroupava em mantas de para enganar os calafrios, mas ao mesmo tempo lhe dava ânimo para confortá-lo em   sua

prostração.
— Aproveite agora que você é jovem para sofrer o mais que puder — lhe dizia — que estas coisas não duram toda a vida.
Na Agência Postal, é claro, não pensavam o mesmo. Florentino Ariza estava entregue à desídia, e andava tão distraído que confundia as bandeiras com que anunciava a chegada do correio, e numa quarta-feira içava a alemã quando o navio aportado era o da Companhia Leyland com o correio de Liverpool, e içava em qualquer dia a dos Estados Unidos quando o navio que chegava era o da Compagnie Générale Transatlantique com o correio de Saint-Nazaire. As confusões do amor causavam tais transtornos na separação das  cartas e provocavam tantos protestos   do público que se Florentino Ariza não ficou sem emprego foi porque  Lotário  Thugut o manteve no telégrafo e o levou a tocar violino no coro da catedral. Tinham uma aliança difícil de entender devido à diferença de idades, pois podiam  ter sido avô e neto, mas se davam tão bem no trabalho quanto nas tascas do porto, onde iam parar os tresnoitados, sem escrúpulos de classe, desde os beberrões sem eira nem beira até os rapazes de família, vestidos a rigor, que fugiam das festas elegantes do Clube Social para comer peixe frito com arroz de coco. Lotário Thugut costumava ir para lá depois do último turno do telégrafo, e muitas vezes amanhecia bebendo ponche da Jamaica e tocando acordeão com as tripulações de loucos das goletas das Antilhas. Era corpulento, parrudo, com uma barba dourada e um barrete frígio que usava para sair à noite, e lhe faltava uma réstia de campânulas para ser idêntico a Papai Noel. Ao menos uma vez por semana acabava com uma pássara da noite,  como ele as chamava, das muitas que vendiam amores de emergência num hotel de dormida para marinheiros. Quando conheceu Florentino Ariza, a primeira coisa que fez com um certo deleito magistral foi iniciá-lo nos segredos do seu paraíso.  Escolhia para ele as pássaras que lhe pareciam melhores, discutia com elas o preço   e o modo, e se prontificava a pagar adiantado e com o seu dinheiro o serviço. Mas Florentino Ariza não aceitava: era virgem, e havia proposto a si mesmo não deixar   de sê-lo, se não fosse por amor.
O hotel era um palácio colonial que já conhecera dias melhores, e os grandes salões e os aposentos de mármore estavam divididos em cubículos de papelão com buracos de alfinete, pois tanto se alugavam para fazer como para ver. Falava-se de enxeridos cujos olhos tinham sido furados com agulhas de tricô, de outro que reconheceu a própria esposa naquela que estava espionando, e de cavalheiros de prosápia que entravam fantasiados de verdureiros para se aliviarem com os contramestres de passagem, e de tantos outros percalços de bisbilhoteiros e bisbilhotados, que a mera idéia de se expor dentro de um quarto parecia pavorosa a Florentino Ariza. Por isso Lotário Thugut não conseguiu persuadi-lo de que ver e se deixar ver eram requintes de príncipes na Europa.
Ao contrário do que fazia crer sua corpulência, Lotário Thugut tinha um bilro de querubim que parecia um botão de rosa, mas isto devia ser um defeito afortunado,

porque as pássaras mais experientes se disputavam a sorte  de  dormir com  ele, e seus alaridos de esfaqueadas abalavam as fundações do palácio e faziam tremer de espanto seus fantasmas. Diziam que usava uma pomada de veneno de víbora que excitava a sela turca das mulheres, mas ele jurava não dispor de recursos diferentes daqueles que Deus lhe havia dado. Dizia, morto de rir: "É puro amor." Muitos anos tiveram que passar para que Florentino Ariza compreendesse que talvez o dissesse com razão. Acabou de se convencer num tempo mais avançado de sua educação sentimental, quando conheceu um homem que se dava uma vida de rei explorando três mulheres ao mesmo tempo. As três lhe prestavam contas ao amanhecer, humilhadas a seus pés para se fazerem perdoar pelas coletas exíguas, e a única gratificação por que anelavam era que ele fosse para a cama com a que  mais  dinheiro trouxesse. Florentino Ariza achava que o terror podia induzir a tamanha indignidade. Contudo, uma das três moças o surpreendeu com a verdade  contrária.
— Estas coisas — lhe disse — podem ser feitas por amor.
Não foi tanto por suas virtudes de fornicador como por sua graça pessoal que Lotário Thugut chegou a ser um dos clientes mais apreciados do hotel. Florentino Ariza, com seu jeito silencioso e escorregadiço, ganhou também o apreço do dono, e na época mais árdua de seus quebrantos costumava se trancar para ler versos e folhetins lacrimosos nos quartinhos sufocantes, e seus sonhos deixavam ninhos de escuras andorinhas nos balcões e rumores de  beijos e bater de  asas nos marasmos  da sesta. Ao entardecer, quando baixava o calor, era impossível não escutar as conversações dos homens que vinham buscar um desafogo para o dia num amor apressado. Assim se inteirou Florentino Ariza de muitas infidelidades e mesmo de alguns segredos de estado que os clientes importantes e as próprias autoridades locais confiavam a suas amantes efêmeras sem o cuidado de não serem ouvidos nos quartos vizinhos. Foi também assim que se inteirou de que a quatro léguas marítimas ao norte do arquipélago de Sotavento jazia afundado desde o  século  XVIII um galeão espanhol carregado com mais de quinhentos bilhões de pesos em ouro puro e pedras preciosas. O relato o assombrou, mas não voltou a pensar nele  até uns meses depois, quando sua loucura de amor lhe alvoroçou as ânsias de resgatar a fortuna submersa para que Fermina Daza se banhasse em tanques de ouro.
Anos mais tarde, quando procurava lembrar como era na realidade a donzela idealizada com a alquimia da poesia, não conseguia separá-la  das tardes  dilacerantes daqueles tempos. Mesmo quando a espreitava sem ser visto, nos  dias  de ansiedade em que esperava a resposta à sua primeira carta, a via transfigurada na reverberação das duas da tarde sob o chuvisco de flores das amendoeiras, que estavam sempre em abril qualquer que fosse o tempo do ano. Só lhe interessava então acompanhar Lotário Thugut ao violino no mirante privilegiado do coro  porque dali via ondular a túnica dela com a brisa dos cânticos. Mas seu próprio desvario acabou por estragar-lhe o prazer, pois a música mística era tão inócua para seu estado de alma que tratava de avivá-la com valsas de amor, e Lotário Thugut se

viu obrigado a despedi-lo do coro. Foi essa a época em que cedeu aos ímpetos de comer as gardênias que Trânsito Ariza cultivava nos canteiros do pátio, e  desse  modo conheceu o sabor de Fermina Daza. Foi também a época em que encontrou  por acaso num baú de sua mãe um frasco de um litro da água-de-colônia que vendiam de contrabando os marinheiros da Hamburg American Line e não resistiu   à tentação de prová-la para buscar outros sabores da mulher amada. Continuou bebendo do frasco até o amanhecer, embebedando-se de Fermina Daza com goles abrasivos, primeiro nas tascas do porto e depois absorto no mar, que contemplava  do cais onde faziam amores precários os amantes sem teto, até que sucumbiu à inconsciência. Trânsito Ariza, que o havia esperado até as seis da manhã com a alma por um fio, buscou-o nos esconderijos menos imagináveis, e pouco depois do meio- dia o encontrou chafurdando num charco de vômitos fragrantes num remanso da baía onde vinham aportar os afogados.
Aproveitou a pausa da convalescença para repreendê-lo pela passividade  com  que esperava a resposta à carta. Lembrou a ele que os fracos não entram jamais no reino do amor, que é um reino impiedoso e mesquinho, e que as mulheres só se entregam aos homens de ânimo resoluto, porque lhes infundem a segurança pela qual tanto anseiam para enfrentar a vida. Florentino Ariza assimilou a lição talvez mais do que devia. Trânsito Ariza não pôde dissimular um sentimento de orgulho, mais concupiscente do que maternal, quando o viu sair do  armarinho com o terno  de lã negra, o chapéu duro e o laço lírico no colarinho de celulóide, e lhe perguntou  de brincadeira se ia a um enterro. Ele respondeu com as orelhas em fogo: "É quase    a mesma coisa." Notou que ele mal podia respirar, de medo, mas sua determinação era invencível. Fez as advertências finais, deu a bênção, e  lhe prometeu  morrendo de rir outra garrafa de água-de-colônia para celebrarem juntos a conquista.
Desde a entrega da carta, um mês antes, ele havia contrariado muitas vezes a promessa de não voltar à pracinha, mas tinha tomado boas precauções para não se deixar ver. Tudo continuava no mesmo. A aula de leitura debaixo das árvores terminava por volta das duas da tarde, quando a cidade acordava da sesta, e Fermina Daza continuava bordando com a tia até que declinava o calor. Florentino Ariza não esperou que a tia entrasse na casa e foi atravessando a rua com umas passadas marciais que lhe permitiram dominar o desalento dos joelhos. Mas não se dirigiu a Fermina Daza, e sim à tia.
   Faça-me o favor de me deixar a sós um momento com a senhorita — disse. — Tenho uma coisa importante a dizer a ela.
   Atrevido! — disse a tia. — Não há assunto dela que eu não conheça.
   Então não falo — disse ele — mas aviso que a senhora será responsável pelo que aconteça.
Não eram essas as maneiras que Escolástica Daza esperava do  noivo ideal, mas  se levantou assustada, porque teve pela primeira vez a impressão avassaladora de que  Florentino  Ariza  estava  falando  por  inspiração  do  Espírito  Santo.  Por    isso

entrou na casa para trocar de agulhas e deixou sós os dois jovens debaixo das amendoeiras do portal.
Na realidade, era muito pouco o que sabia Fermina Daza daquele pretendente taciturno que aparecera em sua vida feito uma andorinha de inverno, e de  quem  não saberia sequer o nome se não fosse a assinatura da carta. Apurara desde então que era filho sem pai de uma solteira laboriosa e séria, mas marcada sem remédio pelo estigma de fogo de um único mau passo juvenil. Descobrira que não era mensageiro do telégrafo, como supunha, e sim um assistente bem qualificado e de futuro promissor, e achou que levara o telegrama a seu pai apenas como um pretexto para vê-la. Essa suposição a comoveu. Também sabia que era um dos músicos do coro, e embora nunca tivesse ousado levantar a vista para comprová-lo durante a missa, um domingo teve a revelação de que enquanto os outros instrumentos tocavam para todos o violino tocava para ela. Não era o tipo de homem que houvesse escolhido. Seus óculos de menino enjeitado, sua postura clerical, seus recursos misteriosos haviam suscitado nela uma curiosidade difícil de resistir, mas nunca imaginara que a curiosidade fosse outra das tantas ciladas do amor.
Ela própria não sabia explicar a si mesma por que havia aceito a carta. Não é que se culpasse por isso, mas o compromisso cada vez mais premente de dar uma resposta acabara convertido num empecilho à vida. Cada palavra do seu pai, cada olhar casual, seus gestos mais triviais lhe pareciam semeados de truques para descobrir seu segredo. Era tal seu estado de alarma que evitava falar à  mesa, de modo que um descuido pudesse delatá-la, e se tornou evasiva até com a tia Escolástica, que compartilhava de sua ansiedade reprimida como se fosse dela própria. Trancava-se no banheiro a qualquer hora, sem necessidade, e tornava a ler   a carta procurando descobrir um código secreto, uma fórmula mágica escondida em alguma das trezentas e quatorze letras de suas cinqüenta e oito palavras, na esperança de que dissessem mais do que diziam. Mas não encontrou nada além do que havia entendido da primeira leitura, quando correu a se trancar no banheiro  com o coração enlouquecido, e despedaçou o envelope na ilusão de que fosse uma carta abundante e febril, encontrando um bilhete perfumado cuja determinação a assustou.
A princípio não havia pensado a sério que estivesse obrigada a dar uma resposta, mas a carta era tão explícita que não havia maneira de contorná-la. Enquanto isso, na tempestade das dúvidas, surpreendeu-se pensando em Florentino Ariza  com mais freqüência e mais interesse do que queria permitir a si mesma, e até perguntava atribulada por que não estava ele na pracinha à hora de sempre, sem lembrar que ela é que havia pedido que ele não voltasse enquanto ela pensava na resposta. Acabou pensando nele como jamais imaginara que se pudesse pensar em alguém, pressentindo-o onde não estava, desejando-o onde não podia estar, acordando de súbito com a sensação física de que ele a contemplava na escuridão enquanto ela dormia, de maneira que na tarde em que sentiu    seus passos resolutos

no tapete de folhas amarelas da pracinha custou a crer que não fosse outro embuste da sua fantasia. Mas quando ele lhe exigiu a resposta com uma autoridade que nada tinha a ver com suas maneiras lânguidas, conseguiu dominar o espanto e tratou de se evadir pela verdade: não sabia o que responder. No entanto, Florentino Ariza não havia transposto um abismo para se amedrontar com os  seguintes.
— Se aceitou a carta — lhe disse — é falta de educação não respondê-la.
Esse foi o final do labirinto. Fermina Daza, senhora de si mesma, se desculpou pela demora, e lhe deu sua palavra de honra de que teria uma resposta antes do fim das férias. Cumpriu. Na última sexta-feira de fevereiro, três dias antes da reabertura dos colégios, tia Escolástica foi ao telégrafo perguntar quanto custava um telegrama para o povoado de Pedras de Moer, que sequer figurava na lista, e se deixou atender por Florentino Ariza como se nunca se tivessem visto, mas ao sair fingiu esquecer em cima do balcão um breviário encadernado em couro de lagarto dentro do qual havia um envelope de papel de linho com arabescos dourados. Transtornado pela ventura, Florentino Ariza passou o resto da tarde comendo rosas e lendo a carta, repassando-a letra por letra uma vez e mais outra e comendo mais rosas quanto  mais lia a carta, e à meia-noite já a lera tanto e comera tantas rosas que a mãe teve que subjugá-lo e prender-lhe a cabeça por trás, como a um bezerro, para que engolisse uma poção de óleo de rícino.
Foi o ano do namoro encarniçado. Nem ele nem ela tinham vida para nada que não fosse pensar no outro, para sonhar com o outro, para esperar as cartas com a mesma ansiedade com que as respondiam. Jamais, naquela primavera de delírio, ou no ano seguinte, tiveram ocasião de se comunicarem de viva voz. E mais:  do instante em que se viram pela primeira vez até o instante em que ele reiterou sua determinação meio século depois, jamais tiveram uma oportunidade de se verem a sós nem de falar do seu amor. Mas nos três primeiros meses não se passou um só  dia sem que se escrevessem, e em certa época até duas vezes por dia, até que tia Escolástica se assustou com a voracidade da fogueira que ela própria ajudara a  atear.
Depois da primeira carta, que levou ao telégrafo sentindo algum rescaldo de vingança contra sua própria sorte, permitira a troca de recados quase diários em encontros de rua que pareciam casuais, mas não teve coragem de patrocinar uma conversa, por banal e momentânea que fosse. Contudo, ao fim de três meses compreendeu que a sobrinha não estava à mercê de um capricho juvenil, como lhe parecera a princípio, e que sua própria vida estava ameaçada por aquele incêndio de amor. Na verdade, Escolástica Daza tinha como modo de subsistência a caridade do irmão, que com seu caráter tirânico jamais perdoaria semelhante abuso da sua confiança, Mas na hora da decisão final não teve coração para lançar a sobrinha no mesmo infortúnio irreparável com que tivera de viver desde a juventude, e deixou que ela usasse de um recurso que lhe deixava uma ilusão de inocência. Foi um método simples. Fermina Daza punha sua caria em algum    esconderijo no percurso

diário entre a casa e o colégio, e nessa mesma carta indicava a Florentino Ariza onde esperava receber a resposta, Florentino Ariza fazia o mesmo. Desse modo os conflitos de consciência de tia Escolástica foram transferidos pelo resto do ano para os batistérios das igrejas, o oco das árvores, as fendas das fortalezas coloniais em ruínas. Às vezes encontravam as cartas empapadas de chuva, sujas de lama, raspadas pela adversidade, e algumas se perderam por motivos diversos, mas  os  dois sempre descobriram os meios e modos de reatar o  contato.
Florentino Ariza escrevia todas as noites sem piedade consigo mesmo, envenenando-se letra a letra com a fumaça das candeias de óleo de coco no cômodo de trás do armarinho, e suas cartas iam ficando mais extensas e lunáticas à medida que ele se esforçava por imitar seus poetas preferidos da Biblioteca Popular, que já por essa época ia chegando aos oitenta volumes. Sua mãe, que com tanto ardor o havia incitado a desfrutar do seu tormento, começou a se alarmar por sua saúde. "Você vai gastar o siso", gritava para ele do quarto de dormir quando ouvia cantar os primeiros gaios. "Não mulher que mereça tanto." Não se lembrava de ter conhecido ninguém em tal cotado de perdição. Mas ele não ligava. Às vezes chegava ao escritório sem dormir, os cabelos desgrenhados de amor, depois de ter deixado a carta no esconderijo previsto para que Fermina Daza a encontrasse a caminho do colégio. Ela, por sua vez, submetida à vigilância do pai e à tocaia viciosa das freiras, mal chegava a completar meia folha do caderno escolar trancada nos banheiros ou fingindo tomar notas durante as aulas. Mas não apenas devido às pressas e sustos, como também por seu caráter, as cartas dela se desviavam de escolhos sentimentais e se limitavam a contar incidentes de sua vida cotidiana no estilo utilitário de um diário de bordo. Na realidade, eram cartas de distração, destinadas a manter as brasas vivas mas sem botar a mão no fogo, enquanto Florentino Ariza se incinerava  a cada linha. Aflito por contagiá-la com sua própria loucura, mandava-lhe versos de miniaturista gravados com a ponta de um alfinete na pétala das camélias. Foi ele e não ela quem teve a audácia de pôr um cacho de cabelo dentro de uma carta, mas não recebeu nunca a resposta ambicionada, que era um fio completo da trança de Fermina Daza. Conseguiu pelo menos que ela desse mais um passo, pois a partir daí começou a lhe mandar nervuras de folhas ressecadas em dicionários, asas de borboleta, penas de pássaros mágicos, e lhe deu de aniversário um centímetro quadrado do hábito de São Pedro Claver, dos que se vendiam então às escondidas a um preço inatingível para uma colegial da sua idade. Uma noite, sem qualquer  aviso, Fermina Daza acordou assustada por uma serenata de uma valsa só em solo de violino. Iluminou-a a clarividência de que cada nota era uma ação de graças pelas pétalas dos seus herbários, pelo tempo roubado à aritmética para escrever suas cartas, pelo susto dos exames pensando mais nele do  que nas Ciências Naturais,  mas não se atreveu a acreditar que Florentino Ariza fosse capaz de semelhante imprudência.
No dia seguinte, ao café da manhã, Lorenzo Daza não  agüentava a curiosidade. Em  primeiro  lugar, porque  não  sabia o  que  significava uma peça na linguagem

das serenatas, e em segundo porque, apesar da atenção com que escutara, não tinha conseguido descobrir de que casa vinha a música. Tia Escolástica, com um sangue- frio que devolveu o fôlego à sobrinha, assegurou ter visto através das frestas da cortina do quarto que o violinista solitário estava do outro lado da praça, e disse que em todo o caso uma peça única era uma notificação de rompimento. Na sua carta desse dia, Florentino Ariza confirmou que ele tinha feito a serenata, e que a valsa tinha sido composta por ele e tinha o nome pelo qual conhecia Fermina Daza em  seu coração: A Deusa Coroada. Não voltou a tocá-la na praça, mas continuou a fazê- lo em noites de luar em lugares escolhidos de  propósito para que ela o escutasse sem sobressaltos no quarto. Um de seus lugares preferidos era o cemitério dos pobres, exposto ao sol e à chuva numa colina indigente onde dormiam os urubus, e onde a música adquiria sonoridades sobrenaturais. Mais tarde aprendeu a conhecer  a direção dos ventos, e assim ficou seguro de que sua voz chegava onde  devia.
Em agosto desse ano, uma nova guerra civil das tantas que assolavam o país mais de meio século ameaçou generalizar-se, e o governo impôs a lei marcial e o toque de recolher às seis da tarde nos estados do litoral caribe. Embora já houvessem ocorrido alguns distúrbios e a tropa cometesse toda espécie de abusos a título de escarmento, Florentino Ariza continuava tão confuso que não se inteirava da condição do mundo, e uma patrulha militar o surpreendeu certa madrugada perturbando a castidade dos mortos com suas provocações de amor. Escapou por milagre de uma exclusão sumária acusado de ser um espião que mandava mensagem em clave de sol aos navios liberais que esquadrinhavam as águas vizinhas.
    Que espião porra nenhuma — disse Florentino Ariza — eu não passo de um pobre apaixonado.
Dormiu três noites acorrentado pelos tornozelos nos calabouços da guarnição local. Mas quando o soltaram se sentiu lesado pela brevidade do cativeiro, e mesmo nos tempos da sua velhice, quando outras tantas guerras se embaralhavam em sua memória, continuava achando que era o único homem da cidade, talvez do país, que arrastara grilhões de cinco libras por uma causa de amor.
Iam completar-se dois anos de correios frenéticos quando Florentino Ariza, em carta de um parágrafo, fez a Fermina Daza a proposta formal de casamento. Nos seis meses anteriores lhe havia enviado várias vezes uma camélia branca, mas ela a devolvia na carta seguinte, para que ele não duvidasse de que estava disposta a continuar escrevendo mas sem a gravidade de um compromisso. A verdade é que sempre encarara as idas e vindas da camélia como uma travessura de amor, e nunca pensara em encará-las como uma encruzilhada do destino. Mas quando chegou a proposta formal se sentiu lanhada pelo primeiro arranhão da morte. Num medo pânico, desabafou com tia Escolástica, que enfrentou a confidencia com a valentia e  a lucidez que não tivera aos vinte anos quando se viu forçada a decidir sua própria sorte.

   Responda a ele que sim — disse. — Ainda que você esteja morrendo de medo, ainda que depois se arrependa, porque seja como for você se arrependerá a vida inteira se disser a ele que não.
Mesmo assim, Fermina Daza se sentia tão confusa que pediu um prazo para pensar. Pediu primeiro um mês, depois outro e outro, e quando se completou o quarto mês sem resposta voltou a receber a camélia branca, mas não sozinha no envelope como das outras vezes, e sim com a notificação peremptória de que era a última: ou agora ou nunca. Então foi Florentino Ariza quem viu a cara da morte, nessa mesma tarde, quando recebeu um envelope com uma tira de papel arrancada da margem de um caderno de escola, com uma resposta escrita a lápis numa linha  só: Está bem, me caso com o senhor se me promete que não me fará comer  berinjela.
Florentino Ariza não estava preparado para essa resposta, mas sua mãe estava. Desde que ele falara pela primeira vez na intenção de se casar, seis meses antes, Trânsito Ariza iniciara gestões para alugar toda a casa, que até então compartilhava com duas famílias mais. Era uma construção civil do século XVII, de dois blocos, onde funcionava o Monopólio do Tabaco sob o domínio espanhol, e cujos proprietários arruinados tinham tido que alugar aos pedaços por falta de recursos para mantê-la. Tinha uma seção que dava para a rua, onde se faziam as vendas do tabaco, outra no fundo de um pátio de pedras onde estivera a fábrica, e uma cavalariça muito grande que os inquilinos atuais usavam em comum para  lavar roupa e estendê-la na corda. Trânsito Ariza ocupava a primeira parte, que era a mais útil e mais conservada, embora fosse também a menor. Na antiga sala de vendas ficava o armarinho, com um portão para a rua, e ao lado o antigo depósito, onde dormia Trânsito Ariza e cuja única ventilação era uma clara bóia. O cômodo de trás da loja era a metade da sala, dividida com um biombo de madeira. Havia ali uma mesa e quatro cadeiras que serviam ao mesmo tempo para se comer e escrever, e ali Florentino Ariza dependurava a rede quando o despontar do dia não o surpreendia escrevendo. Era um espaço bom para os dois, mas insuficiente para qualquer pessoa mais, menos ainda para uma senhorita do Colégio da Apresentação da Santíssima Virgem, cujo pai restaurara até deixá-la como nova uma casa em escombros, enquanto famílias de sete títulos iam para a cama com o pavor de que o teto de suas mansões lhes desabasse na cabeça enquanto dormiam. De maneira que Trânsito Ariza conseguira que o proprietário lhe permitisse ocupar também a  galeria  do pátio, com a condição de que ela mantivesse a casa em bom estado por cinco anos.
Tinha recursos para isso. Além da renda real do armarinho e das fiações hemostáticas, que lhe teriam bastado para a vida modesta, multiplicara  as poupanças emprestando-as a uma clientela de novos pobres envergonhados que aceitavam seus juros excessivos em troca de sua discrição. Senhoras com ares de rainha desciam das carruagens no portão do armarinho, sem governantas nem criados incômodos, e fingindo comprar rendas da Holanda e debruns de passamanaria empenhavam entre dois soluços os últimos ouropéis de seu paraíso

perdido. Trânsito Ariza as tirava de apuros com tanta consideração por sua estirpe que muitas iam embora mais gratas pelos cumprimentos que pelos proventos. Em menos de dez anos conhecia como suas as jóias tantas vezes resgatadas e de novo empenhadas com lágrimas, e os ganhos convertidos em ouro de lei estavam enterrados numa botija debaixo da cama quando o filho tomou a decisão  de  se casar. Então fez as contas e descobriu que não podia fazer o negócio de  manter   de pé a casa alheia durante cinco anos como ainda que, com igual astúcia e um pouco mais de sorte, podia talvez comprá-la antes de morrer para os doze netos que desejava ter. Florentino Ariza, por sua parte, fora nomeado primeiro ajudante do telégrafo, em caráter interino, e Lotário Thugut queria deixá-lo como chefe do escritório quando partisse para dirigir a Escola de Telegrafia e Magnetismo, prevista para o ano seguinte.
Desta forma, o lado prático do casamento estava resolvido, mas Trânsito Ariza achou prudentes duas condições finais. A primeira, averiguar quem era na realidade Lorenzo Daza, cujo sotaque não deixava nenhuma dúvida sobre sua origem, mas de cuja identidade e de cujos meios de vida ninguém tinha informação certa. A segunda, que o noivado fosse longo, para que os noivos se  conhecessem  a fundo pelo trato pessoal, e que se mantivesse a mais estrita reserva até que ambos se sentissem muito seguros de seus afetos. Sugeriu que esperassem até o final da guerra. Florentino Ariza concordou com o segredo absoluto, tanto pelas razões  de sua mãe como pelo hermetismo próprio de seu caráter. Concordou também com a demora do noivado, mas o término da guerra lhe pareceu irreal, pois em mais de meio século de vida independente não tivera o país nem um dia de paz  civil.
   Vamos ficar velhos esperando — disse.
Seu padrinho o homeopata, que participava por casualidade da conversação, não achava que as guerras fossem um inconveniente. Achava que não passavam de pendências de pobres jungidos como bois pelos senhores da terra, contra soldados descalços jungidos pelo governo.
    A guerra está na montanha —disse — Desde que eu sou eu, nas  cidades  não nos matam com tiros, e sim com decretos.
De qualquer maneira, os pormenores do noivado se resolveram nas cartas da semana seguinte. Fermina Daza, aconselhada pela tia  Escolástica, aceitou  o  prazo de dois anos e a reserva absoluta, e sugeriu que Florentino Ariza lhe pedisse a mão quando ela terminasse a escola secundária nas férias de Natal. No momento próprio se poriam de acordo sobre o modo de formalizar o compromisso segundo o grau de aceitação que ela houvesse conseguido do pai. Enquanto isso, continuaram a se escrever com o mesmo ardor e a mesma freqüência, mas sem os sobressaltos de antes, e as cartas foram derivando para um tom familiar que já parecia de esposos. Nada lhes perturbava os sonhos.
A vida de Florentino Ariza tinha mudado. O amor correspondido lhe havia dado uma segurança e uma força que não conhecera antes, e foi tão eficiente no   trabalho

que Lotário Thugut conseguiu sem esforços que o nomeassem seu  substituto  oficial. Nessas alturas, o projeto da Escola de Telegrafia e Magnetismo tinha malogrado, e o alemão consagrava seu tempo livre à única coisa que  na realidade  lhe agradava, que era ir ao porto tocar acordeão e tomar cerveja com  os  marinheiros, e tudo acabava no hotel suspeito. Transcorreu muito tempo até que Florentino Ariza percebesse que a influência de Lotário Thugut naquele lugar de prazer se devia ao fato de que ele terminara dono do estabelecimento, além de empresário das pássaras do porto. Fizera a compra pouco a pouco, com as economias de muitos anos, mas seu testa-de-ferro era um homenzinho magro e torto, de cabelo aparado rente e de coração tão manso que ninguém compreendia como podia ser tão bom gerente. Mas era. Pelo menos, assim pareceu a Florentino Ariza quando o gerente lhe disse, sem que ele tivesse pedido, que podia dispor de um quarto permanente no hotel, não para resolver os problemas do baixo-ventre, quando se decidisse a tê-los, como também para contar com um  lugar  mais tranqüilo para suas leituras e suas cartas de amor. Por isso, enquanto transcorriam os longos meses que faltavam para a formalização do compromisso, passou mais tempo ali do que no escritório ou em casa, e houve épocas em que Trânsito Ariza só  o via quando ia trocar de roupa.
A leitura se tornou para ele um vício insaciável. Desde que o ensinara a ler, sua mãe lhe comprava os livros ilustrados dos autores nórdicos,  vendidos  como histórias infantis mas que na realidade eram os contos mais cruéis e perversos que alguém pudesse ler em qualquer idade. Florentino Ariza os recitava de cor aos cinco anos, tanto nas aulas como nas festas da escola, mas a familiaridade com eles não aliviava o terror que lhe infundiam. Ao contrário, tornava-o mais aguçado. Passar dali para a poesia foi um repouso. na puberdade consumira por ordem de publicação todos os volumes da Biblioteca Popular que Trânsito Ariza comprava nos livreiros de ocasião do Portal dos Escrivães, e nos quais havia de  tudo, de  Homero  ao menos meritório dos poetas locais. Mas ele não fazia distinção: lia o volume que chegasse, como uma ordem da fatalidade, e todos os seus anos de leitura não foram suficientes para que soubesse o que era bom e o que não prestava no muito que tinha lido. A única coisa que sabia com clareza era que entre a prosa e os versos preferia os versos, e entre estes preferia os de amor, que decorava mesmo  sem querer a partir da segunda leitura, o que lhe era ainda mais fácil quanto mais se tratasse de versos bem rimados, bem medidos, bem  desesperados.
Esta foi a fonte original das primeiras cartas a Fermina Daza, nas quais apareciam montões de parágrafos tomados sem qualquer cozimento aos românticos espanhóis, e continuou sendo até que a vida real o obrigou a se ocupar de assuntos mais terrenos do que as penas do coração. Nessas alturas dera um passo adiante rumo aos folhetins chorosos e outras prosas ainda mais profanas do seu tempo. Aprendera a chorar com a mãe lendo os poetas locais que se vendiam em praças e portas de loja em folhetos de dois centavos. Mas ao mesmo tempo era capaz de recitar de cor a poesia castelhana mais seleta do Século de Ouro. Em geral lia tudo

que lhe caísse nas mãos, e na ordem em que caía, até o extremo de que  mesmo depois daqueles duros anos do seu primeiro amor, quando já não era moço, punha- se a ler da primeira à última página os vinte volumes do Tesouro da Juventude, o catálogo completo de clássicos dos irmãos Garnier, traduzidos, e as  obras  mais fáceis que publicava Vicente Blasco Ibánez, na coleção Prometeu.
Em todo caso, seus jovens anos no hotel suspeito não se reduziram à leitura e à redação de cartas febris, pois também o iniciaram nos segredos do amor sem amor.  A vida da casa começava depois do meio-dia, quando suas amigas as pássaras se levantavam como suas mães as pariram, de modo que quando Florentino Ariza chegava do emprego se encontrava num palácio povoado de ninfas em pêlo, que comentavam aos gritos os segredos da cidade, conhecidos pelas indiscrições dos próprios protagonistas. Muitas exibiam em suas nudezas as pegadas do passado: cicatrizes de punhaladas no ventre, estrelas de balaços, sulcos de facadas de amor, costuras de cesarianas de açougueiros. Algumas recebiam durante o dia os filhos menores, frutos desventurados de desenganos ou descuidos juvenis, e tratavam de despi-los logo que chegavam para que não se sentissem diferentes no paraíso da nudez. Cada uma cozinhava o que comia, e ninguém comia melhor do  que Florentino Ariza quando o convidavam, porque escolhia o melhor de cada uma. Era uma festa diária que durava até o entardecer, quando as desnudas desfilavam cantando para os banheiros, pedindo uma a outra o sabonete emprestado, a escova de dentes, a tesoura, cortavam-se o cabelo umas às outras, se vestiam permutando roupas, se besuntavam de pintura como palhaças lúgubres, e saíam a caçar as primeiras presas da noite. A partir daí a vida da casa se tornava impessoal, desumanizada, e era impossível compartilhar dela sem pagar.
Em nenhum outro lugar Florentino Ariza se sentia melhor desde que conhecera Fermina Daza, porque era o único onde não se sentia só. E mais: acabou por ser o único onde se sentia com ela. Era talvez pelos mesmos motivos que vivia ali uma mulher mais velha, elegante, de formosa cabeça prateada, que não participava da vida natural das desnudas, e por quem estas professavam um respeito sacramentai. Um noivo prematuro a havia levado lá quando jovem, e depois de desfrutá-la um tempo a abandonou à sua sorte. Contudo, apesar do seu estigma, conseguiu bom casamento. bem mais velha, quando ficou só, dois filhos e três filhas disputaram entre si o prazer de levá-la a viver com eles, mas a ela não ocorreu lugar mais digno para viver do que aquele hotel de ternas perdulárias. Seu  quarto permanente era  sua única casa, e isto a identificou de pronto com Florentino Ariza, de quem dizia  que chegaria a ser um sábio conhecido no mundo inteiro, por ser capaz de enriquecer a alma com a leitura no paraíso da salacidade. Florentino Ariza, de sua parte, chegou a nutrir por ela tanta afeição que a ajudava nas compras do mercado,   e costumava passar tardes conversando com ela. Achava que era uma mulher sábia no amor, pois lhe deu muitas luzes sobre o seu, sem que ele precisasse revelar-lhe seu segredo.
Se antes de conhecer o amor de Fermina Daza não caíra em tantas tentações ao

alcance da mão, muito menos o faria quando já tinha sua prometida oficial. Por isso Florentino Ariza convivia com as moças, compartilhava seus gozos e suas misérias, mas nem a ele nem a elas ocorreria ir mais longe. Um fato imprevisto demonstrou a severidade de sua determinação. Certo dia às seis da tarde, quando as moças se vestiam para receber os clientes da noite, entrou no seu quarto a encarregada da limpeza no andar: uma mulher jovem mas envelhecida e macilenta, como uma penitente vestida em meio à glória das desnudas. Ele a via todos os dias sem se sentir visto: andava pelos quartos com as vassouras, um balde para o lixo e  um trapo especial para recolher do chão os preservativos usados. Entrou  no cubículo  em que Florentino Ariza lia, como sempre, e como sempre varreu com um cuidado extremo, para não perturbá-lo. De repente chegou perto da cama, e ele sentiu a mão quente e macia na cruz do seu ventre, a buscá-lo, sentiu que o achava, sentiu-a que  ia desabotoando os botões e que a respiração dela ia ocupando o quarto inteiro. Ele fingiu ler até que não agüentou mais, e teve que esquivar o  corpo.
Ela se assustou, pois a primeira advertência que lhe haviam feito para que obtivesse o emprego de varredora foi o de não tentar ir para a cama com os clientes. Não precisavam dizê-lo, pois ela era das que achavam que prostituição não era entregar-se por dinheiro e sim entregar-se a desconhecidos. Tinha dois filhos, cada um de um marido diferente, e não porque fossem aventuras casuais e sim porque não conseguira amar ninguém que voltasse depois da terceira vez. Tinha sido até então uma mulher sem ardores, preparada pela natureza para esperar sem desesperar, mas a vida daquela casa era mais forte que suas virtudes. Chegava para trabalhar às seis da tarde, e passava a noite inteira de quarto em quarto, varrendo-  os com quatro vassouradas, recolhendo os preservativos, mudando os lençóis. Não era fácil imaginar a quantidade de coisas que os homens deixavam depois do amor. Deixavam vômitos e lágrimas, o que parecia compreensível, mas deixavam também muitos enigmas da intimidade: poças de sangue, panos com excremento, olhos de vidro, relógios de ouro, dentaduras postiças, relicários com cabelo louro, cartas de amor, de negócios, de pêsames: cartas de tudo. Alguns vinham buscar suas coisas perdidas, mas a maioria delas ali ficava, e Lotário Thugut as guardava debaixo de chave, pensando que mais cedo ou mais tarde aquele palácio caído em  desgraça,  com os milhares de objetos pessoais esquecidos, seria um museu do   amor.
O trabalho era duro e mal pago, mas ela o fazia bem. O que não conseguia suportar eram os soluços, os lamentos, o ranger das molas das camas que iam se depositando em seu sangue com tanto ardor e dor que ao amanhecer não agüentava a necessidade de se entregar ao primeiro mendigo que encontrasse na rua, ou a algum bêbado sem rumo que lhe fizesse o favor sem luxos nem perguntas. A aparição de um homem sem mulher como Florentino Ariza, moço e limpo, foi para ela um presente do céu, porque a partir do primeiro momento percebeu que era  igual a ela: um carente de amor. Mas ele foi insensível ao seu cerco. Mantivera-se virgem para Fermina Daza, e não havia força nem razão neste mundo que pudesse desviá-lo do caminho.

Essa era sua vida, quatro meses antes da data prevista para formalizar o compromisso, quando Lorenzo Daza apareceu às sete da manhã no escritório do telégrafo, e perguntou por ele. Como ainda não havia chegado, esperou-o  sentado  no banco até as oito e dez, tirando de um dedo e colocando-o no outro o pesado anel de ouro coroado por uma opala nobre, e quando o viu entrar  o  reconheceu  de pronto como o empregado do telégrafo, e pegou-o pelo braço.
— Venha comigo, mocinho — disse. — O senhor e eu temos que falar cinco minutos, de homem para homem.
Florentino Ariza, verde como um morto, se deixou conduzir. Não estava preparado para esse encontro, porque Fermina Daza não encontrara a ocasião nem   a maneira de avisá-lo. O caso é que no sábado anterior, a irmã Franca de Ia Luz, superiora do Colégio da Apresentação da Santíssima Virgem, entrara na aula de Noções de Cosmogonia com o sigilo de uma serpente, e espiando as alunas por cima do ombro descobriu que Fermina Daza fingia tomar notas no caderno quando na realidade escrevia uma carta de amor. A falta, de acordo com os regulamentos do colégio, era motivo de expulsão. Chamado de urgência à reitoria, Lorenzo Daza descobriu a goteira por onde escorria seu regime de ferro. Fermina Daza, com sua integridade congênita, admitiu a culpa da carta, mas se negou a revelar a identidade do noivo secreto, e negou de novo perante o Tribunal de Ordem, que  por  esse motivo confirmou a sentença de expulsão. Contudo, o pai fez uma devassa  do  quarto dela, que até então tinha sido um santuário inviolável, e num fundo falso do baú encontrou os pacotes de três anos de cartas, escondidas com tanto amor quanto  o amor que as ditara. A assinatura era inequívoca, mas Lorenzo Daza não pôde crer nem então nem nunca que a filha soubesse do  noivo oculto que era telegrafista  de ofício e aficionado do violino.
Convencido de que uma relação tão difícil era compreensível graças à cumplicidade da irmã, não deu a esta nem a graça de uma explicação, embarcando-a sem apelação na goleta de São João da Ciénaga. Fermina Daza  não  se  libertou nunca da última lembrança dela, na tarde em que ela lhe disse adeus no portal ardendo em febre dentro do hábito pardo, ossuda e cinzenta, e a viu desaparecer na garoa da pracinha com a única coisa que lhe restava na vida: a trouxinha de solteira, e o dinheiro para sobreviver um mês, enrolado num lenço dentro do punho fechado. Logo que se livrou da autoridade do pai mandou procurá-la pelas províncias do Caribe, perguntando por ela a todos que pudessem conhecê-la, e não  encontrou sinal do seu rastro até quase trinta anos depois, quando recebeu uma carta que passara por muitas mãos durante muito tempo, e na qual lhe informavam que morrera no lazareto de Água de Deus. Lorenzo Daza não previu a ferocidade com  que a filha reagiria ao castigo injusto de que foi vítima tia Escolástica, que identificava sempre com a mãe de quem mal se lembrava. Fechou-se com tranca no quarto, sem comer nem beber, e quando ele conseguiu por fim que ela abrisse a porta, primeiro com ameaças e depois com súplicas mal disfarçadas, esbarrou numa pantera ferida que jamais voltaria a ter quinze anos.

Tratou de seduzi-la com toda espécie de agrados. Tratou de fazê-la entender que   o amor na sua idade era uma miragem, tratou de convencê-la por bem a devolver as cartas e regressar ao colégio para pedir perdão de joelhos, e lhe deu a palavra de honra de que seria o primeiro a ajudá-la a ser feliz com um pretendente digno. Mas era como falar a um morto. Derrotado, acabou por perder as estribeiras no almoço  de segunda-feira, e enquanto se engasgava de impropérios e blasfêmias à beira da congestão, ela pôs o gume da faca no próprio pescoço, sem dramas mas com pulso firme, e com uns olhos atônitos ele não se atreveu a desafiá-la. Foi aí que assumiu o risco de falar cinco minutos, de homem para homem, com o adventício infausto que não se lembrava de jamais ter visto, e que em hora tão má se havia atravessado em sua vida. Por puro costume pegou o revólver antes de sair, mas teve o cuidado de escondê-lo debaixo da camisa.
Florentino Ariza não tinha recuperado o fôlego quando Lorenzo Daza o carregou pelo braço pela Praça da Catedral até a galeria de arcos do Café da Paróquia, e o convidou a sentar-se no terraço. Não havia outros fregueses a essa hera, e uma matrona preta esfregava os ladrilhos do enorme salão de vitrais lascados e empoeirados, cujas cadeiras ainda estavam de pés para cima sobre as mesas de mármore. Florentino Ariza tinha visto ali muitas vezes Lorenzo Daza jogando e bebendo vinho de barril com os asturianos do mercado público, enquanto brigavam aos berros devido a outras guerras crônicas que não eram as nossas. Muitas vezes, consciente do fatalismo do amor, perguntava a si mesmo como seria o encontro que mais cedo ou mais tarde teria que ter com ele, e que nenhum poder humano havia   de impedir, porque estava desde sempre inscrito no destino de ambos. Imaginava-o um exaltado cheio de asperezas, não porque Fermina Daza lhe prevenira nas cartas quanto ao caráter tempestuoso do pai, como porque ele próprio notara que seus olhos pareciam coléricos até quando ria às gargalhadas na mesa de jogo. Ele todo era um tributo à vulgaridade: a pança ignóbil, a fala enfática, as suíças de lince, as mãos pesadas, o anular sufocado no aro grosso e a opala. Seu único traço enternecedor, que Florentino Ariza descobriu da primeira vez que o viu caminhar, é que tinha o mesmo andar de corça da filha. Contudo, quando ele lhe apontou a cadeira para que se sentasse, achou-o menos áspero do que parecia, e respirou desafogado quando o convidou a tomar um cálice de anis. Florentino Ariza nunca tinha bebido às oito da manhã, mas aceitou agradecido, de muito necessitado que estava.
Lorenzo Daza, com efeito, não levou mais de cinco minutos para dar suas razões, o que fez com uma sinceridade absoluta que acabou de confundir Florentino Ariza. Ao morrer sua esposa tinha imposto a si mesmo o propósito único de fazer da filha uma grande dama. O caminho era longo e incerto para um traficante de mulas que não sabia ler nem escrever, e cuja reputação de ladrão de cavalos não estava tão provada como difundida na província de São João da Ciénaga. Acendeu um charuto de tropeiro, e se queixou; "A única coisa pior do que a saúde é a fama." Contudo, disse, o  verdadeiro  segredo  da  sua fortuna era  que  nenhuma das     suas

mulas trabalhava tanto e com tanta disposição quanto ele próprio, mesmo nos tempos mais duros das guerras, quando os povoados amanheciam em cinzas e os campos devastados. Embora a filha nunca tivesse estado ao corrente da premeditação do seu destino, comportava-se como um cúmplice entusiasta. Era inteligente e metódica, ao ponto de haver ensinado o pai a ler logo que ela própria aprendera, e aos doze anos tinha um domínio da realidade mais do que bastante  para dirigir a casa sem necessidade da tia Escolástica. Suspirou: "É uma mula de ouro." Quando a filha terminou a escola primária, com grau dez em tudo e  louvor  no ato de encerramento, ele compreendeu que o âmbito de São João da Ciénaga era estreito demais para seus sonhos. Então liquidou terras e bestas, e se mudou com ímpetos novos e setenta mil pesos ouro para esta cidade em ruínas e com  suas glórias carcomidas, mas onde uma mulher bela e educada à antiga tinha ainda a possibilidade de nascer de novo num casamento de fortuna. A irrupção de Florentino Ariza tinha sido um tropeço imprevisto naquele plano encarniçado. "Por isso vim fazer-lhe uma súplica", disse Lorenzo Daza. Molhou a ponta do charuto no anis, deu-lhe uma chupada sem fumo, e concluiu com a voz aflita:
   Afaste-se de nosso caminho.
Florentino Ariza o ouvira bebendo aos goles a aguardente de anis, e tão absorto na revelação do passado de Fermina Daza que nem pensou no que ia dizer quando tivesse que falar. Mas chegado o momento reparou que qualquer coisa que dissesse comprometeria seu destino.
   O senhor falou com ela? — perguntou.
   isso não lhe diz respeito — disse Lorenzo Daza.
    Estou perguntando — disse Florentino Ariza — porque me parece que quem tem que decidir é ela.
   Nada disso — disse Lorenzo Daza: — é assunto de homens e se resolve entre homens.
O tom se tornara ameaçador, e um freguês numa mesa próxima se voltou para olhá-los. Florentino Ariza falou com a voz mais tênue mas com a resolução mais imperiosa de que foi capaz:
    De todas as maneiras — disse  — não  posso responder nada  sem saber o que ela pensa. Seria uma traição.
Então Lorenzo Daza se encostou brusco no assento com as pálpebras avermelhadas e úmidas, seu olho esquerdo girou na órbita e ficou torcido para fora. Também baixou a voz.
   Não me obrigue a lhe dar um tiro — disse.
Florentino Ariza sentiu as tripas se encherem de uma espuma fria. Mas sua voz não tremeu, porque também ele se sentiu iluminado pelo Espírito  Santo.
   o tiro disse, com a mão no peito. Não maior glória do que morrer

por amor.
Lorenzo Daza teve que olhá-lo de lado, como os papagaios, para encontrá-lo com  o olho torto. Mais do que pronunciar as três palavras, pareceu cuspi-las sílaba por sílaba:
   Fi-lho-da-pu-ta!
Naquela mesma semana empurrou a filha para a viagem do esquecimento. Não lhe deu explicação nenhuma, limitando-se a irromper no quarto dela com  os  bigodes sujos de cólera misturada ao fumo mastigado, e lhe mandou que arrumasse a mala. Ela perguntou para onde iam, e ele respondeu: "Para a morte." Assustada com aquela resposta que se parecia demais com a verdade, tratou de  enfrentá-lo  com a coragem dos dias anteriores, mas ele tirou da cintura a correia com o fivelão  de cobre maciço, enroscou-a no pulso, e deu na mesa uma lambada que  ressoou  pela casa feito um disparo de rifle. Fermina Daza conhecia muito bem o alcance e a ocasião de sua própria força, de modo que fez uma trouxa com duas esteiras e uma rede, e arrumou dois baús grandes com toda a sua roupa, certa de que era uma viagem sem retorno. Antes de se vestir, se trancou no banheiro e  conseguiu  escrever a Florentino Ariza uma breve carta de adeus numa folha arrancada ao pacotinho de Papel higiênico. Depois cortou sua trança completa na altura da nuca com a tesoura de podar, enfiou-a num rolo dentro de um estojo de veludo bordado a fio de ouro, e a mandou junto com a carta.
Foi uma viagem demente. Só a etapa inicial numa caravana de tropeiros andinos durou onze dias em lombo de mula pelas cornijas da Serra Nevada, embrutecidos todos por sóis nus ou ensopados pelas chuvas horizontais de outubro, e quase  sempre com o alento petrificado pela exalação de dormência que sobe dos precipícios. No terceiro dia de caminho, uma mula enlouquecida pelas varejeiras rolou pelo barranco com seu cavaleiro e arrastou consigo a fieira inteira, e o alarido do homem e de sua penca de sete bestas amarradas entre si continuou reboando pelas gargantas e alcantis várias horas depois do desastre, e continuou reboando durante anos e anos na memória de Fermina Daza. Toda a sua bagagem despencou com as mulas, mas no instante de séculos que durou a queda até se extinguir nas profundezas o alarido de pavor ela não pensou no pobre muleteiro morto nem na recua despedaçada, e sim na desgraça de que sua própria mula não estivesse também amarrada às outras.
Montava pela primeira vez, mas o terror e as canseiras incontáveis da  viagem  não lhe teriam parecido tão amargos se não se acompanhassem da certeza de que nunca mais veria Florentino Ariza nem teria o consolo de suas cartas. Desde o começo da viagem não tinha tornado a dirigir a palavra ao pai, e este andava tão confuso que apenas lhe falava em casos indispensáveis, ou lhe mandava recados pelos muleteiros. Em momentos de melhor sorte achavam alguma casa de pasto à beira das  veredas onde havia comidas dali mesmo, que ela se negava a comer, e  onde se alugavam camas-de-vento entranhadas de urinas e suores azedos. O mais

freqüente, contudo, era passar a noite em rancharias de índios, hospedarias  públicas ao relento, construídas à beira dos caminhos com fileiras de forquilhas e tetos de palma, onde quem quer que chegasse tinha o direito de ficar até raiar o dia. Fermina Daza não conseguiu, dormir uma noite completa, sentindo na escuridão o bulício dos retardatários que iam chegando e atando os animais às forquilhas e pendurando as redes onde podiam.
Ao entardecer, quando chegavam os primeiros, o lugar era amplo e  tranqüilo, mas amanhecia transformado em praça de feira, com feixes de  redes  penduradas  em níveis diferentes, e índios da serra dormindo de cócoras, e o balir dos cabritos amarrados e a algazarra dos gaios de briga em seus engradados de faraós, e a mudez arquejante dos cachorros monteses amestrados para não ladrar devido aos riscos da guerra. Essas privações eram familiares a Lorenzo Daza, que tinha negociado pela região durante a metade da vida, e quase sempre deparava com velhos amigos ao amanhecer. Para a filha era uma agonia perpétua. A fedentina das cargas de bagre salgado, somada à inapetência própria à saudade, acabaram por lhe atropelar o hábito de comer, e se não enlouqueceu de desespero foi porque sempre encontrou alívio na lembrança de Florentino Ariza. Não duvidou de que aquela fosse a terra do esquecimento.
Outro terror constante era o da guerra. Desde o princípio da viagem se mencionara o perigo de encontrar patrulhas dispersas, e os tropeiros os haviam instruído sobre os diversos modos de saber a que bando pertenciam para que  agissem de acordo. Era freqüente encontrar um bando de soldados a cavalo, sob o comando de um oficial, que recolhia os novos recrutas laçando-os  como novilhos  em plena carreira. Angustiada por tantos  horrores, Fermina Daza tinha esquecido  de coisas que lhe pareciam mais lendas do que ameaças de verdade, até a noite em que uma patrulha sem filiação conhecida seqüestrou dois membros da caravana e   os enforcou numa árvore a meia légua da rancharia. Lorenzo Daza não tinha nada a ver com eles, mas os fez baixar e lhes deu sepultura cristã em ação de graças  por  não ter sofrido destino igual. Não era para menos. Os  assaltantes  o  haviam acordado com um cano de escopeta na barriga, e um comandante em andrajos, com uma cara que parecia tisnada a tição, iluminou-o com a lanterna e lhe perguntou se era liberal ou conservador.
   Nem um nem outro — disse Lorenzo Daza. — Sou um súdito  espanhol.
    Que sorte! — disse o comandante, e se despediu dele com a mão no alto: —  Viva o rei!
Dois dias mais tarde desceram à planície luminosa onde se assentava o alegre povoado de Valledupar. Havia brigas de galo nos pátios, música de sanfona nas esquinas, cavaleiros em cavalos de bom sangue, foguetes e sinos. Estavam armando um castelo de pirotecnia. Fermina Daza nem reparou nos festejos. Hospedaram-se na casa do tio Lisímaco Sánchez, irmão de sua mãe, que veio recebê-los na estrada real à frente de uma buliçosa cavalgata de jovens membros da família montados   em

animais da melhor raça da província, e foram conduzidos pelas ruas do povoado em meio ao fragor do foguetório. A casa estava no centro da Praça Grande, junto  à  igreja colonial várias vezes remendada, e dava mais a impressão de uma feitoria de fazenda com seus aposentos espaçosos e sombrios, e o corredor recendente a garapa quente debruçado sobre o pomar.
Mal haviam apeado das montarias e os salões de visita já transbordavam, com os numerosos parentes desconhecidos que fustigavam Fermina  Daza  com  suas efusões insuportáveis, pois estava impedida de amar a qualquer outra pessoa que fosse neste mundo, escaldada pela montaria, morta de sono e com o intestino solto, e implorava a bênção de um lugar solitário e quieto para chorar. Sua prima Hildebranda Sánchez, dois anos mais velha do que ela e com sua mesma altivez imperial, foi a única que compreendeu seu estado logo que a viu pela primeira vez, por que também ela se consumia nas brasas de um amor temerário. Ao cair a noite conduziu-a ao quarto que havia preparado para ambas, e não entendeu como estava ainda viva com as úlceras de fogo que tinha no traseiro. Ajudada por sua mãe, uma mulher muito doce e parecida com o marido como se fossem gêmeos, preparou-lhe um banho de assento e lhe mitigou as ardências com compressas de arnica, enquanto os trovões do castelo de pólvora abalavam os alicerces da  casa.
À meia-noite já tinham saído as visitas, a festa pública se dissolveu em festinhas dispersas, e a prima Hildebranda emprestou a Fermina Daza uma camisola de morim, e a ajudou a se deitar numa cama de lençóis esticados e travesseiros de penas que lhe infundiram de pronto o pânico instantâneo da felicidade. Quando afinal ficaram sós no quarto, fechou a porta a tranca e tirou de baixo do colchão de sua cama um envelope pardo lacrado com os emblemas do Telégrafo Nacional. Bastou a Fermina Daza ver a expressão de radiante malícia da prima para brotar de novo na memória do seu coração o odor pensativo das gardênias brancas, antes de triturar o sinete de lacre com os dentes e ficar chapinhando até o raiar do dia no charco de lágrimas dos onze telegramas desatinados.
Então ficou sabendo. Antes de empreender a viagem Lorenzo Daza tinha cometido o erro de anunciá-la pelo  telégrafo a seu cunhado Lisímaco  Sánchez, e  este por sua vez mandara a notícia a sua vasta e complicada parentela, disseminada em numerosos povoados e caminhos da província. De maneira que Florentino Ariza pôde não averiguar o itinerário completo como estabelecer uma  grande irmandade de telegrafistas para seguir o rastro de Fermina Daza até a última rancharia do Cabo da Vela. Isto lhe permitiu manter com ela uma comunicação intensa desde que chegou a Valledupar, onde ficou três meses, até o fim da viagem em Riohacha, ano e meio depois, quando Lorenzo Daza aceitou como fato  que  a filha havia afinal esquecido, e resolveu voltar para casa. Talvez ele mesmo não estivesse consciente de quanto relaxara sua vigilância, distraído como estava com os agrados dos parentes políticos, que depois de tantos anos haviam abdicado de seus preconceitos tribais, admitindo-o de coração aberto como um dos seus. Embora não tivesse esse propósito, a visita foi uma reconciliação tardia. Com efeito, a família  de

Fermina Sánchez se opusera a todo custo a que ela se casasse com um imigrante  sem origem, falador e bruto, que estava sempre de passagem em todos os lugares, com um negócio de mulas xucras que parecia demasiado simples para ser limpo. Lorenzo Daza se empenhava a fundo, porque sua pretendida era a mais apreciada de uma família típica da região: uma cáfila intrincada de mulheres corajosas e homens de coração terno e gatilho fácil, perturbados até a demência pelo sentido da honra. Contudo, Fermina Sánchez se sentou em seu capricho com a determinação cega dos amores contrariados, e se casou com ele a despeito da família, com tanta pressa e tantos mistérios que dava a impressão de fazê-lo menos por amor  do  que  para cobrir com um manto sacramentai algum descuido prematuro.
Vinte e cinco anos depois, Lorenzo Daza não se dava conta de que sua intransigência com os amoricos da filha era uma repetição viciosa de sua própria história, e se lamentava de sua desgraça perante os mesmos cunhados que  se  haviam oposto a ele como estes se haviam lamentado outrora perante os seus. Mas   o tempo que ele perdia em lamentações, sua filha o ganhava nos amores. Enquanto ele andava castrando bezerros e amansando mulas nas terras felizes dos cunhados, ela passeava à rédea solta num tropel de primas comandadas por Hildebranda Sánchez, a mais bela e prestimosa, cuja paixão sem futuro por um homem vinte  anos mais velho, casado e com filhos, se conformava com olhares  furtivos.
Depois da prolongada estada em Valledupar prosseguiram viagem pelas quebradas da serra, através de campinas floridas e mesetas de sonho, e em todos os povoados foram recebidos como no primeiro, com músicas e petardos, e com novas primas confabuladas e mensagens pontuais nas agências telegráficas. Em breve Fermina Daza viu que a tarde de sua chegada a Valledupar não tinha sido extraordinária e sim que naquela província feraz todos os dias da semana eram vividos como se fossem de festa. Os visitantes dormiam onde os apanhasse a noite e comiam onde a fome os achava, pois eram casas de portas abertas onde sempre  havia uma rede pendurada e um cozido de três carnes  fervendo no fogão, para o  caso de alguém chegar antes do seu telegrama de aviso, como em geral acontecia. Hildebranda Sánchez acompanhou a prima o resto da viagem, guiando-a com pulso alegre através dos carrascais do sangue até suas fontes de origem. Fermina Daza se reconheceu, se sentiu senhora de si mesma pela primeira vez, se sentiu acompanhada e protegida, os pulmões cheios de um ar de liberdade que lhe restituiu o sossego e a vontade de viver. Nos seus últimos anos  ainda  evocava aquela viagem, cada vez mais recente na memória, com a lucidez perversa da nostalgia.
Uma noite voltou do passeio diário aturdida pela revelação de  que não só se podia ser feliz sem amor como também contra o amor. A revelação a alarmou, porque uma de suas primas tinha surpreendido uma conversa dos pais com Lorenzo Daza na qual este tinha sugerido a idéia de concertar o casamento da filha com o herdeiro único da fortuna fabulosa de Cleofás Moscote, Fermina Daza o conhecia. Vira-o  caracolando  pelas  praças  seus  cavalos  perfeitos,  com  jaezes  tão  ricos que

pareciam paramentos de missa, e era elegante e destro, e tinha umas pestanas de sonhador que faziam suspirar as próprias pedras, mas ela o comparou à lembrança que tinha de Florentino Ariza sentado embaixo das amendoeiras da pracinha, pobre  e escaveirado, com o livro de versos no colo, e não encontrou sombra de dúvida no seu coração.
Naqueles dias, Hildebranda Sánchez andava delirando de ilusões depois de visitar uma pitonisa cuja clarividência a havia assombrado. Preocupada com as intenções do pai, Fermina Daza também foi consultá-la. As cartas do baralho lhe anunciaram que não havia em seu futuro nenhum obstáculo a um casamento longo  e feliz, e o prognóstico lhe devolveu o ânimo, pois não concebia que um destino tão venturoso pudesse ser com homem que não fosse o que amava. Exaltada por essa certeza, assumiu o comando do seu arbítrio. E por isso a  correspondência telegráfica com Florentino Ariza deixou de ser um concerto de intenções e promessas ilusórias, tornando-se metódica e prática, e mais intensa do que nunca. Marcaram datas, estabeleceram meios e modos, empenharam suas vidas na determinação comum de se casarem sem consultar ninguém, onde fosse e como fosse, logo que se reencontrassem. Fermina Daza considerava tão severo este compromisso que a noite em que seu pai lhe deu permissão para  que  assistisse seu primeiro baile de adultos, na aldeia de Fonseca, a ela não  pareceu  decente aceitar sem o consentimento de seu prometido. Florentino Ariza estava aquela noite no hotel suspeito, jogando baralho com Lotário Thugut, quando lhe avisaram da chegada de mensagem telegráfica urgente.
Era o telegrafista de Fonseca que havia conjugado sete postos  intermediários  para que Fermina Daza pedisse licença para ir ao baile. Obteve-a, mas não se conformou com a simples resposta afirmativa, pedindo prova de que na realidade  era Florentino Ariza quem estava operando o manipulador no outro extremo  da linha. Mais atônito do que lisonjeado, ele compôs uma frase de identificação: Diga- lhe que eu juro pela deusa coroada. Fermina Daza reconheceu o santo e senha, e ficou no seu primeiro baile de gente grande até as sete da manhã, quando teve de trocar de roupa às carreiras para não chegar tarde à missa. Nessas alturas, tinha no fundo do baú mais cartas e telegramas do que os que o pai lhe tirara, e já se comportava com atitudes de mulher casada. Lorenzo Daza interpretou aquelas mudanças no seu modo de ser como prova de que a distância e o tempo a haviam curado das fantasias juvenis, mas nunca lhe apresentou o projeto do casamento combinado. As relações dos dois ficaram  fluidas, dentro das  reservas formais que  ela lhe havia imposto desde a expulsão da tia Escolástica, o que lhes permitiu uma convivência tão cômoda que ninguém teria duvidado que se alicerçava no  carinho.
Foi nessa época que Florentino Ariza resolveu lhe contar nas cartas que se empenhava em resgatar para ela o tesouro do galeão submerso. Era coisa  certa, como tinha sentido num sopro de inspiração, uma tarde luminosa em que o mar parecia calçado de alumínio, tal a quantidade de peixes postos a boiar por plantas narcóticas usadas pelos pescadores. Todas as aves do céu se haviam alvoroçado  com

a matança, e os pescadores precisavam afugentá-las com os  remos  para  que  não lhes disputassem os frutos daquele milagre proibido. O emprego do barbasco, que apenas adormecia os peixes, estava interditado por lei desde os tempos da Colônia, mas continuou sendo prática comum em pleno dia entre os pescadores do Caribe,  até que foi substituído pela dinamite. Uma das diversões de Florentino Ariza, enquanto durou a viagem de Fermina Daza, era ver do cais como os pescadores carregavam as canoas com redes inchadas de peixes adormecidos. Ao mesmo tempo, uma malta de meninos que nadavam como tubarões pedia aos curiosos que atirassem moedas para que as fossem fisgar no fundo da água. Eram os  mesmos que nadavam com igual propósito ao encontro dos transatlânticos, e sobre os quais se haviam escrito tantos relatos de  viagem nos Estados Unidos e na Europa, pela   sua mestria na arte de nadar debaixo d'água. Florentino Ariza os conhecia da vida inteira, de antes de conhecer o amor, mas nunca lhe havia ocorrido que  talvez fossem capazes de pôr à tona a fortuna do galeão. Ocorreu-lhe essa tarde, e do domingo seguinte até o regresso de Fermina Daza, quase um ano depois, teve um motivo adicional de delírio.
Euclides, um dos meninos nadadores, se animou tanto quanto ele com a idéia de uma exploração submarina, depois de uma conversa de não mais de dez minutos. Florentino Ariza não lhe revelou o verdadeiro objeto do empreendimento, mas se informou a fundo sobre suas habilidades de mergulho e navegação. Perguntou-lhe  se conseguia descer sem ar a vinte metros de profundidade, e Euclides disse que  sim. Perguntou se estava em condições de levar sozinho uma canoa de  pescador  pelo mar alto em plena borrasca, sem instrumentos além do próprio instinto, e Euclides disse que sim. Perguntou se seria capaz de localizar um lugar exato dezesseis milhas marítimas a noroeste da ilha maior do arquipélago de Sotavento, e Euclides disse que sim. Perguntou se era capaz de navegar à noite orientando-se pelas estrelas, e Euclides disse que sim. Perguntou se estava disposto a fazê-lo recebendo a mesma diária que lhe pagavam os pescadores para ajudá-los a pescar, e Euclides disse que sim, mas com uma sobretaxa de cinco réis aos domingos. Perguntou se sabia se defender dos tubarões, e Euclides disse que sim, pois tinha artes mágicas de afugentá-los. Perguntou se era capaz de guardar um segredo ainda que o pusessem nas máquinas de tormentos do palácio da Inquisição, e Euclides disse que sim, pois não dizia que não a nada, e sabia dizer sim com tanta convicção que não havia jeito de duvidar dele. No fim, fez as contas das despesas: o aluguel da canoa, o aluguel dos remos, o aluguel de instrumentos de pesca para que ninguém desconfiasse da verdadeira intenção das excursões. Era ainda preciso levar comida, um garrafão de água doce, uma lamparina, um maço de velas de sebo e um chifre de caçador para pedir auxílio em caso de emergência.
Tinha uns doze anos, e era ligeiro e astuto, e falava sem parar e tinha um corpo  de enguia que parecia feito para que ele se esgueirasse por qualquer escotilha. A  vida ao ar livre lhe havia curtido tanto a pele que era impossível imaginar sua cor original,  o  que  tornava  mais  radiantes  seus  grandes  olhos  amarelos.  Florentino

Ariza resolveu de pronto que era o cúmplice perfeito para uma aventura de semelhantes possibilidades, e a atacaram sem mais delongas no domingo seguinte.
Zarparam do porto dos pescadores ao amanhecer, bem providos e melhor dispostos. Euclides quase nu, com a tanga que vestia sempre, e Florentino Ariza com a sobrecasaca, o chapéu de trevas, as botinas de verniz e o laço de poeta no pescoço, e um livro para se entreter na travessia até as ilhas. Desde o primeiro domingo viu que Euclides era de fato perito navegante e bom mergulhador, e que tinha uma prática assombrosa da natureza do mar e da sucata da baía. Podia contar com mínimos pormenores a história de cada casco velho de navio roído de oxido, sabia a idade de cada bóia, a origem de qualquer escombro, o número de elos da corrente com que os espanhóis fechavam a entrada da baía. Temendo que soubesse também qual o propósito de sua expedição, Florentino Ariza lhe fez algumas perguntas insidiosas, comprovando que Euclides não tinha a menor suspeita acerca do galeão afundado.
Ao ouvir pela primeira vez a história do tesouro no hotel, Florentino Ariza se informara o mais possível sobre a crônica dos galeões. Ficou sabendo  que  o  San José não estava só em seu leito de corais. Era a nave capitania da Frota de Terra Firme, e chegara aqui depois de maio de 1708, procedente da feira legendária de Portobello, no Panamá, onde carregara parte de sua fortuna: trezentos baús com prata do Peru e Veracruz, e cento e dez baús de pérolas juntadas e contadas na ilha  de Contadora. Durante o longo mês em que aqui permaneceu, de dias e noites de festas populares, puseram a bordo o resto do tesouro destinado a tirar da pobreza o reino da Espanha: cento e dezesseis baús de esmeraldas de Muzo e Somondoco, e trinta milhões de moedas de ouro.
A Frota de Terra Firme estava integrada por nada menos que doze embarcações de diferentes tamanhos, e zarpou deste porto comboiada por uma esquadra francesa, muito bem armada, que mesmo assim não pôde salvar a expedição diante dos canhonaços certeiros da esquadra inglesa, sob as ordens do comandante Carlos Wager, que a esperou no arquipélago de Sotavento, à saída da baía. De modo que o San José não era a única nave afundada, embora não houvesse certeza documental de quantas haviam sucumbido e quantas escapado ao fogo dos ingleses. Do que não havia dúvida era que a nave capitania fora das primeiras a ir a pique, com a tripulação completa e o comandante imóvel em seu castelo de proa, e que levava a carga principal.
Florentino Ariza tinha conhecido a rota dos galeões nas cartas de navegar da época, e acreditava haver determinado o lugar do naufrágio. Saíram da baía por  entre as duas fortalezas da Boca Chica, e ao fim de quatro horas de navegação entraram nas águas interiores do arquipélago, em cujo fundo de coral podiam ser colhidas com a mão as lagostas adormecidas. O ar era tão leve, e o mar tão sereno e diáfano, que Florentino Ariza se sentiu como se não passasse de seu próprio reflexo na  água.  Para  lá  do  remanso,  a  duas  horas  da  ilha  maior,  estava  o  lugar      do

naufrágio.
Congestionado em sua indumentária fúnebre pelo sol infernal, Florentino Ariza explicou a Euclides que ali devia descer a vinte metros e trazer qualquer coisa que encontrasse no fundo. A água era tão clara que o viu mover-se no fundo, como um tubarão entre os tubarões azuis que se cruzavam com ele sem tocá-lo. Depois o viu desaparecer num matagal de corais, e bem quando achou que ele não podia ter mais ar ouviu a voz às suas costas. Euclides estava parado no fundo, com os braços levantados e água pela cintura. Por isso continuaram buscando lugares  mais  fundos, sempre para o norte, navegando por cima das arraias lentas, das lulas tímidas, dos roseirais tenebrosos, até que Euclides compreendeu que estavam perdendo tempo.
— Se não me disser o que quer que eu encontre, não sei como vou encontrá-lo — disse.
Mas ele não falou. Então Euclides lhe propôs que tirasse a roupa e descesse com ele, ainda que para ver esse outro céu debaixo do mundo que eram os fundos de corais. Mas Florentino Ariza costumava dizer que Deus tinha feito o mar para olhá-lo pela janela, e nunca aprendeu a nadar. Pouco depois a tarde nublou, o ar  ficou frio e úmido, e escureceu tão depressa que precisaram se guiar pelo farol para encontrar o porto. Antes de entrar na baía, viram passar muito perto o  transatlântico da França com todas as luzes acesas, enorme e branco, que ia deixando um rastro de guisado mole e couve-flor fervida.
Desta forma perderam três domingos, e teriam continuado a perdê-los todos se Florentino Ariza não tivesse resolvido partilhar seu segredo com Euclides. Este modificou então todo o plano da  busca, e puseram-se a navegar pelo antigo canal  dos galeões, que estava a mais de vinte léguas marítimas a oriente do lugar previsto por Florentino Ariza. Antes de passados dois meses, certa tarde de chuva no mar, Euclides permaneceu muito tempo no fundo, e a canoa tinha derivado tanto  que  teve que nadar quase meia hora para alcançá-la, já que Florentino Ariza não conseguiu aproximá-la com os remos. Quando por fim pôde abordá-la, tirou da boca e mostrou como triunfo da perseverança dois adereços de  mulher.
O que contou era tão fascinante que Florentino Ariza prometeu a si mesmo aprender a nadar, e afundar até onde pudesse para comprová-lo com os próprios olhos. Contou que naquele lugar, a apenas dezoito metros de profundidade, havia tantos veleiros antigos deitados entre os bancos de coral que era impossível sequer calcular a quantidade, e estavam disseminados por um espaço tão extenso que eram de perder de vista. Contou que o mais surpreendente era que das tantas carcaças de navios que ainda flutuavam na baía nenhuma estava em tão bom estado quanto as naves submersas. Contou que havia várias caravelas ainda com as velas intactas, e que as naves afundadas eram visíveis no fundo, pois parecia que haviam afundado com seu espaço e seu tempo, de maneira que ali continuavam alumiadas pelo mesmo sol das onze da manhã do sábado 9 de junho em que foram a pique.  Contou,

afogando-se no próprio ímpeto da sua imaginação, que o mais fácil de distinguir era  o galeão San José, cujo nome era visível na popa com letras de ouro, mas que ao mesmo tempo era a nave mais danificada pela artilharia dos ingleses. Contou ter visto dentro um polvo de mais de três séculos de idade, cujos tentáculos saíam pelas seteiras dos canhões, mas havia crescido tanto na sala de refeições de  bordo  que para libertá-lo desmantelando a nave. Contou que vira o corpo do comandante com seu uniforme de guerra flutuando de  lado dentro do aquário do castelo, e que  se não baixara até os porões do tesouro foi porque o ar dos pulmões não dera para tanto. Ali estavam as provas: um brinco com uma esmeralda, e uma medalha da Virgem com seu cordão carcomido pelo salitre.
Essa foi a primeira menção ao tesouro que Florentino Ariza fez a Fermina Daza numa carta que lhe mandou a Fonseca pouco antes do seu regresso. A história do galeão afundado lhe era familiar, pois a tinha ouvido sendo contada a Lorenzo Daza muitas vezes. Ele perdera tempo e dinheiro tratando de convencer uma companhia de mergulhadores alemães a se associar com ele para resgatarem o tesouro submerso. Teria insistido no empreendimento, se não tivesse sido convencido por vários membros da Academia da História de que a lenda do galeão naufragado era invenção de um certo vice-rei bandoleiro, que para encontrar o navio conseguira dinheiros da Coroa. Em todo o caso, Fermina Daza sabia que o galeão estava a uma profundidade de duzentos metros, onde nenhum ser humano poderia  atingi-lo, e não aos vinte metros que dizia Florentino Ariza. Mas estava tão acostumada a seus excessos poéticos que celebrou a aventura do galeão como um dos mais belos. Contudo, ao receber outras cartas com pormenores ainda mais  fantásticos,  e escritos com tanta seriedade como seus protestos de amor, teve de confessar a Hildebranda seu temor de que o noivo alucinado tivesse perdido o juízo.
Naqueles dias, Euclides já tinha emergido das águas com tais provas de  sua fábula que não se tratava mais de continuar ciscando brincos e anéis  semeados  entre os corais, e sim de capitalizar uma empresa grande para recuperar a meia centena de naves com a fortuna babilônica que continham. Aconteceu então o que mais cedo ou mais tarde aconteceria, e foi que Florentino Ariza pediu ajuda à mãe para levar a bom porto sua aventura. A ela bastou-lhe morder o metal das jóias, e olhar contra a luz as pedras de vidro, para concluir que alguém andava abusando da boa do filho. Euclides jurou de joelhos a Florentino Ariza que não havia nada de escuso em sua atividade, mas não deu nenhum ar de sua graça domingo seguinte no porto dos pescadores, nem nunca mais em nenhuma parte.
A única coisa que aquele descalabro rendeu a Florentino Ariza foi o refúgio de amor do farol. Ali chegara na canoa de Euclides, uma noite que os surpreendeu a tempestade em mar aberto, e a partir de então costumava ir lá à tarde  conversar  com o faroleiro sobre as incontáveis maravilhas da terra e da água que o faroleiro sabia. Esse foi o início de uma amizade que sobreviveu às muitas mudanças do mundo. Florentino Ariza aprendeu a alimentar a luz, primeiro com feixes de lenha e depois com botijões de óleo, antes que nos chegasse a energia elétrica. Aprendeu a

dirigi-la e a aumentá-la com espelhos, e nas várias ocasiões em que o faroleiro não pôde fazê-lo, ficou ali, vigiando da torre as noites do mar. Aprendeu a conhecer os navios pelas suas vozes, pelo tamanho de suas luzes no horizonte, e a perceber que algo deles lhe chegava de volta nos relâmpagos do  farol.
Durante o dia o prazer era outro, sobretudo aos domingos. No bairro dos Vice- Reis, onde moravam os ricos da cidade velha, as praias das mulheres estavam separadas das dos homens por um muro de argamassa: uma à direita, outra à esquerda do farol. O faroleiro havia instalado uma luneta pela qual se podia contemplar, mediante o pagamento de um centavo, a praia das mulheres. Sem se saberem observadas, as senhoritas da sociedade se mostravam o melhor que  podiam dentro de suas roupas de banho de largos panos, mais os sapatinhos de borracha e os chapéus, tudo isso ocultando os corpos quase tanto quanto a roupa de rua, que de forma menos atraente. Das margens as  mães as  vigiavam, sentadas ao sol de rachar em cadeiras de balanço de vime com os mesmos vestidos, os  mesmos chapéus de plumas, as mesmas sombrinhas de renda com que tinham ido    à missa solene, por temor de que os homens das praias vizinhas as seduzissem por baixo d'água. A realidade era que através da luneta não se podia ver mais nada, nem mais excitante do que se podia ver na rua, mas eram muitos os clientes  que  acudiam cada domingo para se disputarem o telescópio no puro deleite de provar os frutos insípidos do quintal alheio.
Florentino Ariza era um deles, mais por tédio do que por prazer, mas não foi esse atrativo adicional que o tornou tão bom amigo do faroleiro. O motivo real foi que a partir do menosprezo de Fermina Daza, quando ele contraiu a febre dos amores dispersos na ânsia de substituí-la, mesmo no farol viveu horas felizes e  encontrou consolo para suas desditas. De tal forma que durante anos procurou convencer sua mãe, e mais tarde seu tio Leão XII, a ajudá-lo  a comprar o  farol. É que os faróis do Caribe eram então propriedade privada, e seus donos cobravam o direi to de passagem até o porto segundo o tamanho dos navios. Florentino Ariza achava que era essa a única maneira honesta de fazer um bom negócio  com  a poesia, mas nem a mãe nem o tio achavam o mesmo, e quando ele pôde fazê-lo com recursos próprios os faróis já tinham passado à propriedade do  estado.
Nenhuma dessas ilusões foi vã, não obstante. A fábula do galeão, e em seguida a novidade do farol, foram aliviando para ele a ausência de Fermina Daza, e quando  ele menos o pressentia chegou a notícia do regresso. Com efeito, depois de uma estada prolongada em Riohacha, Lorenzo Daza tinha resolvido voltar. Não era a época mais benigna do mar, devido aos alíseos de dezembro, e a goleta histórica, a única que se arriscava à travessia, podia amanhecer de volta ao porto de origem, arrastada por um vento contrário. Assim foi. Fermina Daza passara uma noite de agonia, vomitando bílis, amarrada ao beliche de um camarote que parecia uma privada de botequim, não pela estreiteza opressiva como pela pestilência e  o  calor. O balanço era tão forte que várias vezes teve a impressão de que iam arrebentar  as  correias  da  cama,  do  convés  lhe  chegavam  gritos  doloridos     que

pareciam de naufrágio, e os roncos de tigre do pai no beliche contíguo eram um ingrediente a mais do terror. Pela primeira vez em quase três anos  passou  uma  noite em claro sem pensar um instante em Florentino Ariza, enquanto que ele permaneceu insone na rede da loja de trás contando um a um os minutos eternos que faltavam para que ela voltasse. Ao amanhecer, o vento cessou de súbito e o mar se tornou plácido, e Fermina Daza percebeu que dormira apesar dos estragos do enjôo, porque a despertou o estrépito das correntes da âncora. Então se livrou das correias e olhou pela escotilha na ilusão de descobrir Florentino Ariza no tumulto do porto, mas o que viu foram os armazéns da alfândega entre as palmeiras  douradas pelos primeiros sóis, e o molhe de barrotes apodrecidos de Riohacha, de onde a goleta zarpara a noite anterior.
O resto do dia foi como uma alucinação, na mesma casa em que tinha estado até  a véspera, recebendo as mesmas visitas que dela se haviam despedido, falando as mesmas coisas, e aturdida pela impressão de estar vivendo de novo um pedaço de vida já vivida. Era uma repetição tão fiel que Fermina Daza estremecia à simples idéia de que assim também tinha sido com a viagem da goleta, cuja simples lembrança lhe causava pavor. No entanto, a única alternativa de voltar para casa eram duas semanas em lombo de mula pelas cornijas da serra,  e  em  condições ainda mais perigosas que da primeira vez, pois uma nova guerra civil iniciada no estado andino do Cauca já se ramificava pelas províncias do Caribe. Por isso, às oito da noite foi acompanhada outra vez até o porto pelo mesmo cortejo de parentes barulhentos, com as mesmas lágrimas de adeus e os mesmos volumes de pilhas de presentes de última hora que não cabiam nos camarotes. No momento de zarpar, os homens da família se despediram da goleta com uma salva de disparos para o ar, e Lorenzo Daza retribuiu do convés com os cinco tiros do seu revólver. A ansiedade    de Fermina Daza se dissipou em breve, porque o vento foi favorável a noite inteira,    e o mar tinha um cheiro de flores que a ajudou a dormir bem sem as correias de segurança. Sonhou que tornava a ver Florentino Ariza, e este despiu a cara que ela sempre tinha visto, porque na realidade era uma máscara, mas a cara real era idêntica. Levantou-se muito cedo, intrigada pelo enigma do  sonho, e  encontrou  o pai tomando café com conhaque na cantina do capitão, com o olho torcido pelo álcool, mas sem o menor indício de preocupação pelo regresso.
Estavam entrando no porto. A goleta deslizava em silêncio pelo labirinto de veleiros ancorados na enseada do mercado público, cuja pestilência se sentia a  léguas de distância no mar, e a madrugada estava saturada de um chuvisco firme  que em breve despencou num aguaceiro dos grandes. A postos no balcão da telegrafia, Florentino Ariza reconheceu a goleta quando atravessava a baía das Animas com as velas desanimadas pela chuva e ancorou diante do embarcadouro do mercado. Tinha esperado na véspera até as onze da manhã, quando soube por um telegrama casual do atraso da goleta devido aos ventos contrários, e voltara  a  esperar aquele dia desde as quatro da madrugada. Continuou esperando sem arredar a vista das chalupas que conduziam até a terra os escassos passageiros que

resolviam desembarcar apesar da tempestade. Em sua maioria eles tinham que abandonar na metade do caminho a chalupa encalhada, e chegavam ao embarcadouro chapinhando no lodaçal. Às oito, depois de esperar em vão que estiasse, um carregador negro com água pela cintura recebeu Fermina Daza na amurada da goleta e a levou nos braços até a margem, mas estava tão ensopada que Florentino Ariza não conseguiu reconhecê-la.
Ela própria não estava consciente do quanto amadurecera na viagem, até que entrou na casa fechada e empreendeu de pronto a tarefa heróica de torná-la de novo habitável, com a ajuda de Gala Placídia, a criada preta, que voltou à sua antiga senzala logo que lhe avisaram do regresso. Fermina Daza não era mais a filha única, ao mesmo tempo mimada e tiranizada pelo pai, e sim a dona e senhora de um império de poeira e teias de  aranha que podia ser recuperado graças à força de um amor invencível. Não se acovardou, pois sentia em si um sopro de levitação que lhe daria a força de mover o mundo. Na própria noite da volta, quando tomavam chocolate com bolinhos de queijo na grande mesa da cozinha, seu pai lhe delegou os poderes de governo da casa, e o fez com o formalismo de um ato  sacramental.
— Entrego a você as chaves da sua própria vida — disse.
Ela, com dezessete anos feitos, assumia-a com um  pulso  firme, consciente  de que cada palmo da liberdade ganha era para o amor. No dia seguinte, depois de uma noite de maus sonhos, padeceu pela primeira vez o enfado do  regresso, quando abriu a janela da sacada e tornou a ver o chuvisco triste da pracinha, a estátua do herói decapitado, o banco de mármore em que Florentino Ariza costumava sentar-  se com um livro de versos. não pensava nele como o noivo  impossível  e  sim como o marido certo a quem se devia dos pés à cabeça. Sentiu quanto pesava o tempo desperdiçado desde o dia em que partira, quanto custava estar viva, quanto amor lhe ia faltar para amar ao seu homem como Deus mandava. Surpreendeu-a  que ele não estivesse na pracinha, como tantas vezes estivera apesar da chuva, e que não houvesse recebido qualquer sinal dele, por qualquer meio que fosse, nem mesmo um presságio, e de pronto abalou-a a idéia de que houvesse morrido. Mas  em seguida descartou o mau pensamento, porque no frenesi dos telegramas dos últimos dias, ante a iminência da volta, tinham esquecido de combinar um modo de continuarem se comunicando quando ela voltasse.
A verdade é que Florentino Ariza estava certo de que ela não  tinha voltado, até que o telegrafista de Riohacha lhe confirmou que havia embarcado sexta-feira na mesma goleta que não chegara na véspera devido aos ventos contrários. No fim da semana esteve tentando divisar qualquer sinal de vida na casa dela, e a partir do anoitecer de segunda-feira viu pelas janelas uma luz ambulante que pouco depois  das nove se apagou no quarto de dormir da sacada. Não dormiu, presa das mesmas ansiedades de náuseas que perturbaram suas primeiras noites de amor. Trânsito Ariza se levantou com os primeiros gaios, alarmada porque não voltara o filho que saíra ao  pátio  à meia-noite, e  não  o  encontrou  na casa. Tinha ido  errar pelo   cais,

recitando versos de amor contra o vento, chorando de júbilo, até que acabou de amanhecer. Às oito estava sentado sob os arcos do Café da Paróquia, alucinado pela vigília, tratando de descobrir um jeito de fazer chegar seus votos de boas-vindas a Fermina Daza, quando se sentiu sacudido  por um abalo sísmico que lhe dilacerou  as entranhas.
Era ela. Atravessava a Praça da Catedral acompanhada por Gala Placídia, que carregava os cestos para as compras, e pela primeira vez não trajava o uniforme escolar. Estava mais alta do que ao partir, mais perfilada e intensa, e com a beleza depurada por um domínio de pessoa mais velha. A trança lhe havia  crescido  de novo, mas não lhe pendia mais pelas costas, atirada agora sobre o ombro esquerdo,   e esta simples mudança a despojara de todo traço infantil. Florentino Ariza permaneceu atônito em seu lugar, até que aquela aparição acabou de atravessar a praça sem afastar a vista do seu caminho. Mas o mesmo poder irresistível que o paralisara obrigou-o em seguida a se precipitar atrás dela quando dobrou a esquina da catedral e se perdeu no tumulto ensurdecedor das ruelas do  comércio.
Seguiu-a sem se deixar ver, descobrindo os gestos cotidianos, a graça, a maturidade prematura do ser que mais  amava no mundo, e que via pela primeira  vez em seu estado natural. Assombrou-o a fluidez com que abria caminho na multidão. Enquanto Gala Placídia ia aos encontrões, e se embaraçava com os cestos  e tinha que correr para não perdê-la de vista, ela navegava na desordem da rua num espaço seu e num tempo diferente, sem esbarrar em  ninguém, feito um  morcego nas trevas. Tinha estado muitas vezes no comércio com tia Escolástica, mas eram sempre compras miúdas, pois o pai em pessoa se encarregava de abastecer a casa, e não de móveis e comida mas inclusive de roupas de mulher. Por isso aquela primeira saída foi para ela uma aventura fascinante, idealizada em seus sonhos de menina.
Não prestou atenção à insistência dos ambulantes que lhe ofereciam o jarabe, o xarope do amor eterno, nem às súplicas dos mendigos atirados às portas com suas chagas ao sol, nem ao falso índio que tentava vender-lhe um jacaré amestrado. Deu uma volta grande e minuciosa, sem rumo calculado, com paradas que tinham como motivo um prazer sem pressa diante do espírito das coisas. Entrou em cada portal onde houvesse alguma coisa a vender, e por toda parte encontrou alguma  coisa que aumentava sua ânsia de viver. Deliciou-se com o hálito de vetiver dos  panos nos arcões, enrolou-se em sedas estampadas, riu-se do próprio riso vendo-se fantasiada de madrilenha com sua travessa e o leque de flores pintadas diante do espelho de corpo inteiro de O Arame de Ouro. Na loja de importados destapou um barril de arenques em salmoura que lhe lembrou noites de nordeste, muito menina ainda, em São João da Ciénaga. Deram-lhe uma prova de morcela de alicante que tinha gosto de alcaçuz, e comprou duas para a refeição matinal de sábado, além de postas de bacalhau e um frasco de groselhas em aguardente. No balcão de especiarias, pelo puro prazer do olfato, macerou folhas de sálvia e de orégano nas palmas   das  mãos,  e   comprou   um  punhado   de  cravos-da-índia,  outro   de anis

estrelado, e outros dois de gengibre e de zimbro, e saiu banhada em lágrimas de riso de tanto espirrar com os vapores da pimenta de Caiena. Na botica francesa, enquanto comprava sabonete de Reuter e água de benjoim, puseram-lhe atrás da orelha um toque do perfume que estava na moda em Paris, e lhe deram uma  pastilha desodorante para depois de fumar.
Brincava de fazer compras, sem dúvida, mas aquilo que de verdade estava precisando comprava na hora, com uma autoridade que não deixava ninguém  pensar que o fazia pela primeira vez, pois estava consciente de que não comprava para ela e sim para ele também, doze jardas de linho para as toalhas de mesa dos dois, o percal para os lençóis de bodas que teriam ao amanhecer o orvalho dos humores de ambos, o mais delicioso de cada uma das coisas que  desfrutariam  juntos na casa do amor. Pedia abatimento e sabia fazê-lo, discutia com graça e dignidade até conseguir o melhor, e pagava com moedas de ouro que os lojistas testavam pelo puro prazer de ouvi-las cantar no mármore do balcão.
Florentino Ariza a espiava maravilhado, a perseguia sem tomar fôlego, tropeçou várias vezes nos cestos da criada que respondeu às suas desculpas com um sorriso,    e ela havia passado tão perto que ele sentira a brisa do seu cheiro, e se nem então o viu não foi porque não pudesse e sim pela altivez do seu modo de andar. Ela lhe parecia tão bela, tão sedutora, tão diferente da gente comum, que não compreendia que ninguém se transtornasse como ele com as castanholas dos seus saltos nas pedras do calçamento, ou  tivesse o coração descompassado com os ares e suspiros  de suas mangas, ou não ficasse louco de amor o mundo inteiro com os  ventos  de sua trança, o vôo de suas mãos, o ouro do seu riso. Não perdera um gesto seu, nem um indício do seu caráter, mas não se atrevia a se aproximar dela pelo medo de desfazer o encanto. Contudo, quando ela se meteu na balbúrdia do Portal dos Escrivães, ele descobriu que se arriscava a perder a ocasião que aguardara durante anos.
Fermina Daza compartilhava com suas companheiras de colégio a idéia estranha de que o Portal dos Escrivães era um lugar de perdição, vedado, é claro, às senhoritas decentes. Era uma galeria de arcadas diante de  um largo onde paravam  os carros de aluguel e as carretas de carga puxadas por burros, e onde se tornava mais denso e ruidoso o comércio popular. O nome lhe vinha dos tempos da Colônia, porque ali se sentavam desde então os calígrafos taciturnos, de paletós de lã e meias mangas postiças, que escreviam por profissão toda classe de  documentos a preços  de pobre: requerimentos de agravo ou de súplica, arrazoados jurídicos, cartões de cumprimentos ou de luto, missivas de amor em qualquer das suas idades. Não era dos escrivães, diga-se logo, que vinha a reputação daquele mercado fragoroso, e sim de bufarinheiros mais atuais, que ofereciam por baixo do balcão os muitos artifícios equívocos que chegavam de contrabando nos navios da Europa, dos postais obscenos às pomadas tônicas e até aos célebres preservativos catalães com cristas de iguanas que pulsavam quando era o caso, ou com flores na extremidade para  que  soltassem  pétalas  de  acordo  com  a  vontade  do  usuário.  Fermina Daza,

pouco perita no uso da rua, meteu-se no portal sem muito ver por onde andava, buscando uma sombra que aliviasse o sol bravo das onze.
Afundou na algaravia quente dos engraxates e dos vendedores de pássaros, dos livreiros de segunda mão e dos curandeiros e das doceiras que anunciavam  aos berros por cima da bulha as cocadas de pinhas para as mocinhas, de cocos para os loucos, de panela para Micaela. Mas ela ficou indiferente ao estrondo, cativada de pronto por um papeleiro que fazia demonstrações de tintas mágicas de escrever, tintas vermelhas com a sugestão do sangue, tintas de reflexos tristes para recados fúnebres, tintas fosforescentes para se ler no escuro, tintas invisíveis que o pleno resplendor da luz revelava. Ela as queria todas para brincar com Florentino Ariza, para impressioná-lo com seu engenho, mas ao fim de várias experiências decidiu-se por um vidrinho de tinta de ouro. Foi depois às doceiras sentadas por trás de suas grandes redomas, e comprou seis doces de cada espécie, apontando-os com o dedo pelo cristal porque não conseguia fazer-se ouvir na gritaria: seis de fios d'ovos, seis de leite, seis tijolinhos de gergelim, seis de iúca e amêndoa, seis de  chocolate  envolto em papel de sorte, seis piononos de biscoito, seis bons-bocados de goiaba, seis disto e seis daquilo, seis de tudo e os ia amontoando nos cestos da criada com uma graça irresistível, alheia por completo às grossas nuvens de moscas em cima do melado, alheia à algazarra contínua, alheia ao bafo de suores azedos suspensos no calor mortal. Despertou-a do feitiço uma preta feliz, com um pano colorido na cabeça, redonda e formosa, que lhe ofereceu um triângulo de abacaxi fisgado na ponta de uma faca de açougueiro. Ela o pegou, meteu-o inteiro na boca, saboreando-o, e continuou a saboreá-lo, a vista errando pela multidão, quando uma comoção a pregou no lugar em que estava. Às suas costas, tão perto de sua orelha que ela pôde escutá-la no tumulto, tinha ouvido a voz:
   Este não é um bom lugar para uma deusa coroada.
Voltou a cabeça e viu  a dois palmos de  seus olhos os outros olhos glaciais, o  rosto lívido, os lábios petrificados de medo, tal como os vira no tumulto da missa do galo pela primeira vez em que ele estivera tão perto dela, mas ao contrário daquela vez não sentiu agora a comoção do amor e sim o abismo do desencanto. Num instante teve a revelação completa da magnitude do próprio engano, e perguntou a   si mesma, aterrada, como tinha podido incubar durante tanto tempo e com tanta ferocidade semelhante quimera no coração. Mal conseguiu pensar: "Deus meu, pobre homem!" Florentino Ariza sorriu, procurou dizer alguma coisa, procurou acompanhá-la, mas ela o apagou de sua vida com um gesto da mão.
   Não, por favor — disse. — Esqueça.
Naquela tarde, enquanto o pai dormia a sesta, mandou-lhe por  Gala  Placídia uma carta de duas linhas: Hoje, ao vê-lo, descobri que nos unia uma ilusão. A criada levou também os telegramas dele, os versos, as camélias secas, e lhe pediu  que devolvesse as cartas e os presentes que ela lhe havia mandado: o missal de tia Escolástica, as  rendas  de  folhas  secas  do  seu  herbário, o  centímetro  quadrado do

hábito de São Pedro Claver, as medalhas de santos, a trança dos seus quinze anos com o laço de seda do uniforme escolar. Nos dias seguintes, à beira da loucura, ele lhe escreveu numerosas cartas de desespero, e assediou a criada para que  as  levasse, mas esta cumpriu as instruções terminantes de não receber nada além dos presentes devolvidos. Insistiu com tanto afinco que Florentino Ariza os mandou todos, salvo a trança, que não queria devolver enquanto Fermina Daza não o recebesse em pessoa para conversar ainda que fosse um instante. Não conseguiu. Temendo alguma determinação fatal do filho, Trânsito Ariza desceu do seu orgulho  e pediu a Fermina Daza que lhe concedesse a ela uma graça de cinco minutos, e Fermina Daza a atendeu um instante no saguão de sua casa, de pé, sem convidá-la a entrar e sem um pingo de fraqueza. Dois dias depois, ao término de uma discussão com a mãe, Florentino Ariza desprendeu da parede do seu quarto o empoeirado  nicho de cristal onde mantinha exposta a trança feito uma relíquia sagrada, e a própria Trânsito Ariza a devolveu no estojo de veludo bordado com fios de ouro. Florentino Ariza nunca mais teve a oportunidade  de  ver a sós  Fermina Daza, nem de falar a sós com ela nos tantos encontros de suas mui longas vidas, até cinqüenta   e um anos, nove meses e quatro dias mais tarde, quando lhe reiterou  o juramento  de fidelidade eterna e amor para todo 

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