FLORENTINO ARIZA, por outro lado, não deixara de pensar nela um único instante desde que Fermina Daza o
rechaçou sem apelação depois de uns amores
longos e contrariados, e haviam transcorrido a partir de então cinqüenta e um anos,
nove meses e quatro dias. Não tivera que manter a conta do esquecimento
fazendo uma risca diária nas
paredes de um calabouço, porque não se havia
passado um dia sem que acontecesse
alguma coisa que o fizesse lembrar-se
dela. Na época do rompimento
ele vivia só com a mãe, Trânsito Ariza, numa
meia casa alugada da Rua das Janelas, onde ela desde jovem tinha um negócio
de armarinho e onde
além disso desfiava camisas e
panos velhos que vendia como algodão para os feridos de guerra. Foi seu filho único,
tido de uma aliança ocasional com o conhecido armador senhor Pio Quinto Loayza, um dos três
irmãos fundadores da Companhia
Fluvial do Caribe, com a qual deram um impulso
novo à navegação a vapor no rio Madalena.
O senhor
Pio Quinto Loayza morreu quando
o filho tinha dez anos. Embora sempre
se houvesse
ocupado em segredo de seus gastos,
nunca o reconheceu como seu perante a
lei nem
lhe deixou resolvido o futuro, de
modo que Florentino Ariza ficou apenas com o sobrenome da mãe, ainda que sua verdadeira filiação tenha sempre
sido de domínio público. Depois da morte do
pai, Florentino Ariza teve que renunciar ao colégio para se empregar
como aprendiz na Agência dos Correios, onde o encarregaram de abrir os sacos e arrumar as cartas, e de avisar ao público da chegada do correio içando à porta do escritório
a bandeira do país de procedência.
Sua capacidade chamou a atenção do
telegrafista, o emigrado alemão Lotário Thugut, que além do mais tocava órgão nas cerimônias
extraordinárias da catedral e dava aulas de música a domicílio.
Lotário Thugut lhe ensinou o código Morse e o manejo do sistema telegráfico, e bastaram as
primeiras lições de violino para que Florentino Ariza continuasse
a tocá-lo de ouvido como um profissional. Quando conheceu Fermina
Daza era o moço mais requisitado do seu meio social, o que melhor dançava música da moda e
recitava de cor a poesia sentimental, e estava sempre à disposição
dos amigos para fazer a suas
noivas serenatas de solo de violino. Era escaveirado desde então,
com um cabelo de índio amansado a
brilhantina, e com os óculos de míope que aumentavam seu aspecto de desamparo. Além do defeito
da vista, sofria de uma prisão de
ventre crônica que o obrigou a tomar lavagens purgativas a vida inteira.
Só tinha uma roupa para visitas e missas, herdada do pai morto, mas
Trânsito Ariza a
mantinha tão cuidada
que a cada
domingo parecia
nova. Apesar do seu ar enfezadinho, do seu acanhamento e de seu traje
sombrio, as moças do seu grupo faziam rifas secretas no jogo de ver quem ficava com ele, e ele aceitava o
jogo de ficar com elas, até o dia em que conheceu
Fermina Daza e se acabou sua inocência.
Ele a vira pela primeira vez uma tarde
em que Lotário Thugut o
encarregou de levar um telegrama a
alguém sem domicílio conhecido que se chamava Lorenzo Daza. Encontrou-o na
pracinha dos Evangelhos, numa das casas mais antigas, meio arruinada, cujo pátio interior parecia
o claustro de uma abadia, com
tiririca nos canteiros e um repuxo de pedra
sem água. Florentino Ariza não
percebeu nenhum ruído humano quando seguiu a criada descalça
por baixo dos arcos do corredor, onde havia caixotes de mudança ainda por abrir, e ferramentas de pedreiro entre restos de cal
e sacos de cimento alinhados,
pois a casa estava sendo submetida
a uma reforma
radical. No fundo do pátio
havia um escritório provisório,
onde dormia a sesta sentado diante da escrivaninha
um homem muito gordo de
suíças crespas que se confundiam
com os bigodes. Chamava-se, de fato,
Lorenzo Daza, e não era muito conhecido
na cidade porque chegara há menos de dois anos e não era homem de
muitos amigos.
Recebeu o telegrama como se fosse a
continuação de um sonho aziago.
Florentino Ariza observou os olhos aflitos com uma espécie de compaixão
oficial, observou os dedos incertos procurando descolar o papel, o medo
visceral que tinha visto tantas vezes em tantos
destinatários que ainda não conseguiam pensar em
telegrama sem pensar em morte. Quando o leu, recobrou o domínio de si mesmo.
Deu um suspiro: "Boas
notícias." E entregou a Florentino Ariza os cinco réis de uso, dando-lhe
a entender com um sorriso de alívio que não os teria dado se as
notícias tivessem sido más. Depois se despediu com um forte aperto de mão,
que não era de costume com um mensageiro do telégrafo,
e a criada o acompanhou até o portão
da rua, não tanto para conduzi-lo como para vigiá-lo. Percorreram o mesmo caminho em sentido contrário pelo corredor de arcadas, mas desta vez viu Florentino Ariza que havia alguém
mais na casa, porque a claridade do pátio estava ocupada por uma voz de
mulher que repetia uma lição de
leitura. Ao passar diante do quarto
de costura viu pela janela uma mulher mais velha e uma menina,
sentadas em duas cadeiras muito juntas,
as duas acompanhando a leitura no
mesmo livro que a mulher mantinha aberto no colo. Pareceu-lhe uma visão estranha: a filha ensinando a mãe a ler. A dedução era
incorreta só em parte, porque a mulher era tia e não mãe da menina, embora a tivesse criado como se mãe fosse.
A aula não se interrompeu, mas a menina levantou a vista para ver quem
passava pela janela, e esse olhar
casual foi a origem de um cataclismo
de amor que meio
século depois não tinha terminado ainda.
A única coisa que Florentino Ariza pôde averiguar sobre Lorenzo Daza foi que tinha vindo de São João da Ciénaga com a filha única e a irmã solteira pouco
depois da peste do cólera, e os que o viram desembarcar não
duvidaram que ele vinha para ficar, pois trazia todo
o necessário para uma casa
bem guarnecida. A esposa tinha
morrido quando a filha era muito
pequenina. A irmã se chamava
Escolástica, tinha quarenta anos e estava cumprindo promessa ao usar o hábito de São Francisco quando
saía à rua, e só o cordão na cintura
quando estava em casa. A menina tinha treze anos e atendia pelo mesmo nome
que a mãe morta: Fermina.
Supunha-se que Lorenzo Daza era homem de
recursos porque vivia bem sem ofício
conhecido, e comprara com moeda sonante a casa dos Evangelhos, cuja restauração
devia ter custado pelo menos o dobro dos duzentos pesos ouro que pagou por ela. A filha estudava no Colégio da Apresentação
da Santíssima Virgem, onde as
senhoritas da sociedade aprendiam há dois séculos
a arte e o ofício de serem esposas diligentes e submissas. Durante a Colônia e os primeiros anos da República
só recebiam as herdeiras de sobrenomes
ilustres. Mas as velhas famílias arruinadas pela independência tiveram
que submeter-se à realidade dos novos tempos, e o colégio abriu as portas a
todas as candidatas que pudessem pagar por ele, sem levar
em conta seus pergaminhos, mas com a condição essencial de que fossem filhas
legítimas de casais católicos.
De todas as maneiras era um colégio caro, e o fato de que Fermina Daza estudava ali era por si só um indício da situação econômica da família, embora não fosse de sua condição social. Estas notícias animaram
Florentino Ariza, pois lhe indicavam
que a bela adolescente de olhos amendoados estava ao alcance de seus sonhos. Não
obstante, o regime estrito em que
a mantinha o pai se revelou dentro de pouco como um obstáculo intransponível. Ao contrário das outras
alunas, que iam ao colégio em grupos
ou acompanhadas por uma criada mais velha, Fermina Daza ia sempre
com a tia solteira, e sua conduta
indicava que não lhe era permitida nenhuma distração.
Foi desse modo inocente que
Florentino Ariza iniciou sua vida sigilosa de caçador
solitário. A partir das sete da manhã
se sentava sozinho no banco menos visível
da praça,
fingindo ler um livro de versos à sombra das amendoeiras, até que via passar a donzela impossível com o uniforme de
listras azuis, as meias presas
com ligas nos joelhos, as
botinas masculinas de cordões
cruzados e uma única trança grossa com um laço na ponta que se estendia pelas costas até a cintura. Andava com uma altivez natural, a cabeça erguida, a vista imóvel, o passo rápido, o nariz afilado, com a pasta dos livros apertada nos
braços em cruz contra o peito, e com um modo de andar de corça que fazia com que ela parecesse imune à gravidade. A seu lado, acompanhando-a a duras penas, a
tia com o hábito pardo e o cordão de São Francisco
não deixava a menor fresta para
que alguém chegasse perto. Florentino Ariza as via
passar de ida e volta quatro vezes por
dia, e uma vez aos domingos à saída da missa
solene, e ver a menina lhe bastava. Pouco a pouco a foi idealizando, atribuindo-lhe virtudes
improváveis, sentimentos imaginários,
e ao fim de duas semanas a única coisa em
que pensava era ela. Por isso, resolveu mandar-lhe um recado simples escrito dos dois lados de uma folha de papel com
sua caprichada letra de escrivão. Mas guardou-a vários dias no
bolso, pensando em como entregá-la, e
enquanto pensava escrevia várias páginas mais antes de se deitar, de modo que
a carta original
foi
virando um dicionário de galanteios,
inspirado nos livros que havia decorado de tanto lê-los nas esperas da praça.
Buscando o modo de entregar
a carta procurou travar conhecimento com
algumas alunas do Apresentação, mas
estavam longe demais do seu mundo. Além disso, depois de muito
refletir achou que não era
prudente que alguém ficasse sabendo de suas pretensões.
Mesmo assim, conseguiu saber que Fermina
Daza tinha sido convidada a um baile
de sábado uns dias depois da sua chegada, e que o pai não lhe havia dado consentimento
com uma frase terminante: "Cada
coisa se fará em
seu devido tempo." A
carta tinha mais de sessenta páginas escritas dos dois lados
quando Florentino Ariza não pôde resistir mais à opressão do seu segredo, e se abriu
sem reservas à mãe, a única pessoa
com quem se permitia algumas
confidencias. Trânsito Ariza se comoveu
até as lágrimas com a candura do filho em
assuntos de amor, e tratou de orientá-lo com suas luzes. Começou por convencê-lo a não entregar seu cartapácio lírico, com o qual
só conseguiria assustar a menina dos seus
sonhos, que supunha tão verde quanto ele nos negócios do coração. O primeiro passo, lhe
disse, era fazer com que ela se desse
conta do
seu interesse, para
que a declaração não a pegasse de supetão
e ela tivesse tempo de pensar.
— Mas sobretudo — lhe disse — a primeira conquista que você
tem a fazer não é a dela, e sim
a da tia.
Ambos os conselhos eram sábios, sem dúvida,
mas tardios. Em verdade, no dia em que Fermina Daza se descuidou um instante
da aula
de leitura que estava dando à tia, e levantou a vista para ver quem
passava pelo corredor, Florentino Ariza a impressionou pela aura de desamparo que o envolvia. À noite, durante a refeição, seu pai lhe
havia falado do telegrama e foi assim que ela soube o que é
que Florentino Ariza tinha ido fazer
na casa, e qual era seu ofício. Estas notícias aumentaram seu interesse,
pois para ela, como para tanta gente da época, a invenção do
telégrafo tinha algo a ver com a magia. Por isso reconheceu Florentino Ariza desde a primeira vez em que o viu lendo debaixo das árvores da pracinha, embora não lhe desse
qualquer inquietação até que a tia a fizesse
saber que há várias semanas ele se postava ali.
Depois, quando o viram também aos domingos à saída da missa, a tia acabou de se convencer
de que
tantos encontros não podiam ser casuais. Disse: "Não há de ser por minha
causa que se dá tanto trabalho." Pois apesar de sua conduta
austera e seu hábito de penitente, a tia
Escolástica Daza tinha um instinto da vida e uma vocação de cumplicidade que eram suas melhores
virtudes, e a simples idéia de que
um homem se interessasse pela sobrinha lhe
causava uma emoção
irresistível. Contudo, Fermina Daza estava ainda a salvo da mera
curiosidade do amor, e a única coisa
que lhe inspirava Florentino Ariza
era uma
certa pena, porque lhe pareceu
que estava doente. Mas a tia lhe disse
que era necessário ter vivido muito para conhecer a índole verdadeira de um homem, e estava convencida de que aquele que se sentava no jardim para vê-las
passar só
podia estar doente de amor.
Tia Escolástica era um refúgio de compreensão e afeto para a
filha solitária de
um
casamento sem amor. Ela a criara desde a morte da mãe, e em relação a
Lorenzo Daza se comportava mais como
cúmplice do que como tia. Por isso a aparição de Florentino Ariza foi para elas mais uma das muitas diversões
íntimas que costumavam inventar para entreter
suas horas mortas. Quatro vezes por
dia, quando passavam pela
pracinha dos Evangelhos, ambas se apressavam a
buscar com um olhar
instantâneo o sentinela escaveirado,
tímido, coisinha pouca, quase sempre
vestido de preto apesar do calor, que fingia ler debaixo das árvores. "Lá
está", dizia a que o descobria primeiro, reprimindo o riso, antes
que ele levantasse a vista e visse as duas mulheres rígidas, distantes de
sua vida, que atravessavam o
parque sem olhá-lo.
—
Pobrezinho — tinha dito a tia. — Não se atreve
a se aproximar porque eu estou com você, mas um dia tentará,
se suas intenções são sérias, e então
vai entregar a você uma carta.
Prevendo toda classe de adversidades, ensinou-a a se comunicar com sinais alfabéticos de mão, recurso indispensável aos
amores proibidos. Aquelas travessuras ingênuas, quase pueris,
despertavam em Fermina Daza uma curiosidade novidadeira, mas não lhe ocorreu durante vários meses que fossem mais longe. Nunca soube em que momento a diversão se converteu
em ansiedade, e sentia o sangue virando espuma na urgência de vê-lo, e uma noite acordou espavorida porque o viu
olhando-a no escuro aos pés da cama.
Então desejou no fundo da alma que se cumprissem os prognósticos da tia, e rogava a Deus nas suas orações
que ele tivesse a coragem de lhe entregar a carta só para ela saber o que dizia.
Mas seus rogos não foram atendidos. Ao
contrário. Isto sucedia na
época em que Florentino Ariza se confessou
à mãe e ela o dissuadiu de entregar as setenta páginas de galanteios,
e por isso Fermina Daza continuou
esperando todo o resto do ano.
Sua ansiedade se convertia em desespero à medida que se aproximavam as férias de dezembro, pois se perguntava sem sossego o que ia fazer para vê-lo, e para que ele
a visse, durante os três meses em que
não iria ao colégio. As dúvidas
continuavam sem solução na noite de Natal, quando estremeceu com a sensação de que
ele a olhava do meio da multidão da missa do galo, e essa inquietação lhe sufocou o
coração. Não se atreveu a voltara cabeça, porque estava sentada entre o pai e a tia, e teve que se dominar para
que não percebessem sua perturbação.
Mas na desordem da saída sentiu-o tão
iminente, tão nítido no tumulto, que uma força irresistível a obrigou a olhar por cima do ombro quando abandonava o templo pela
nave central, e então viu a dois palmos
de seus
olhos os outros olhos de
gelo, o rosto lívido, os lábios petrificados pelo susto do
amor. Transtornada por sua própria audácia, se agarrou ao braço da tia
Escolástica para não cair, e esta sentiu o suor glacial da mão
através da mitene de renda,
e a reconfortou com um sinal
imperceptível de cumplicidade sem condições. Em meio ao estrondo dos foguetes e
dos tambores, das lanternas coloridas nos portais e clamor das multidões sedentas de paz, Florentino Ariza vagou feito um sonâmbulo até o raiar do dia vendo a festa através
das lágrimas, aturdido pela alucinação de que era ele e não Deus que
tinha nascido aquela noite.
O delírio aumentou a semana seguinte, à
hora da sesta, quando passou sem esperanças
pela casa de Fermina Daza, e viu que ela e a tia estavam sentadas embaixo das amendoeiras do portal. Era a repetição ao ar livre do quadro que tinha visto naquela primeira tarde no quarto de costura: a menina tomando
a lição de leitura da tia. Mas
Fermina Daza estava mudada sem o uniforme escolar, pois vestia uma
túnica de linho com muitas
pregas que lhe caía dos ombros
feito um peplo, e tinha na cabeça uma grinalda de gardênias naturais que lhe dava a
aparência de uma deusa coroada.
Florentino Ariza se sentou na praça, onde tinha certeza de ser visto,
e então não apelou para o recurso da leitura
fingida, permanecendo com o livro
aberto e os olhos fixos na donzela
ilusória, que não lhe retribuiu sequer com
um olhar de caridade.
A princípio pensou que a aula debaixo das amendoeiras era uma mudança casual, devida talvez às obras intermináveis da casa,
mas nos dias seguintes compreendeu que
Fermina Daza estaria ali, ao alcance da sua vista, todas as tardes à mesma hora
dos três meses das férias, e essa certeza
lhe infundiu ânimo novo. Não teve
a impressão de ser visto, não notou nenhum sinal de interesse ou repúdio,
mas na frieza dela havia um resplendor diferente que o animava a
persistir. Em breve, uma tarde de
finais de janeiro, a tia pôs o
trabalho na cadeira e deixou a sobrinha só no
portal, no tapete de folhas amarelas
caídas das amendoeiras. Animado pela suposição irrefletida de que aquela era uma oportunidade combinada, Florentino Ariza atravessou a rua e se colocou na frente de Fermina Daza, e tão
perto dela que sentiu a trilha,
a forma de sua respiração e o
hálito floral com que havia de identificá-la
pelo resto da vida. Falou a ela com
a cabeça erguida e com uma determinação
que só voltaria a ter meio século depois, e pelo mesmo motivo.
— A única coisa que
lhe peço é que receba uma carta minha
— lhe disse.
Não era a voz que Fermina Daza esperava dele: era
nítida, e com uma autoridade que não
tinha nada a ver com suas maneiras
lânguidas. Sem afastar a vista do bordado, respondeu: "Não posso recebê-la sem permissão do meu pai."
Florentino Ariza estremeceu com o calor daquela voz, cujos timbres graves
não ia esquecer
pelo resto da vida. Mas se manteve firme,
e respondeu sem perda de
tempo: "Consiga a permissão." Depois adoçou a ordem com uma súplica: "É um assunto de vida ou morte." Fermina Daza não o olhou, não interrompeu o bordado, mas sua decisão entreabriu uma porta
por onde cabia o mundo inteiro.
— Volte todas as
tardes — lhe disse — e espere que eu mude de
cadeira.
Florentino Ariza não entendeu o que
ela quis dizer, até a segunda-feira da semana seguinte, quando viu do seu banco
da praça
a mesma cena de sempre com uma única variação: quando tia Escolástica entrou na casa, Fermina
Daza se levantou e sentou na outra cadeira. Florentino Ariza,
com uma camélia branca na botoeira da sobrecasaca, atravessou então a rua e
parou diante dela. Disse: "Este é
o
maior momento de minha vida." Fermina Daza não ergueu a
vista para ele, examinando, isto sim, os
arredores com um olhar circular, e
viu as ruas desertas na modorra da estação
seca e um remoinho de folhas mortas arrastadas pelo vento.
—
Entregue-a — disse.
Florentino Ariza tinha pensado em levar-lhe as setenta folhas que então já poderia declamar de memória
de tanto que as lera, mas se decidiu por uma meia página sóbria e
explícita, em que só prometia o essencial: sua fidelidade
a toda
prova e seu amor para sempre. Tirou-a do bolso interno da sobrecasaca e a colocou diante dos olhos da bordadeira
atribulada que ainda não tinha ousado olhá-lo. Ela viu o envelope azul tremendo
na mão petrificada de terror, e
levantou o bastidor para que ele
ali pusesse a carta, pois não
podia admitir que também nos dedos dela se notasse
o tremor. Aí aconteceu: um pássaro se sacudiu na folhagem da amendoeira,
e sua cagada caiu bem em cima
do bordado.
Fermina Daza afastou o bastidor, escondeu-o atrás da cadeira para que Florentino Ariza não descobrisse o que tinha
acontecido, e o olhou pela primeira
vez com o rosto em chamas. Impassível,
carta na mão, Florentino Ariza disse: "Dá sorte." Ela lhe agradeceu com seu primeiro sorriso, e quase lhe
arrebatou a carta, que dobrou e escondeu no corpinho. Ele lhe ofereceu
então a camélia que trazia na lapela. Ela a recusou: "É uma flor de compromisso."
Em seguida, consciente de que seu tempo se
esgotava, refugiou-se de novo em sua compostura.
— Agora vá embora —
disse — e não volte mais até que eu lhe avise.
Antes que Florentino Ariza lhe contasse que a tinha visto, sua mãe já o descobriria, porque ele perdeu a fala e o apetite e passava as noites
em claro rolando na cama. Mas quando começou a esperar a resposta à sua primeira carta, sua ansiedade se complicou
com caganeiras e vômitos verdes, perdeu o sentido da orientação e passou a sofrer
desmaios repentinos, e a mãe se aterrorizou porque seu
estado não se parecia com as
desordens do amor e sim com os
estragos do cólera. O padrinho de Florentino
Ariza, antigo homeopata que tinha sido confidente de Trânsito Ariza desde seus tempos
de amante oculta, se alarmou também à primeira vista com o
estado do enfermo, porque tinha o pulso tênue,
a respiração rascante e os suores pálidos
dos moribundos. Mas o exame revelou que não tinha febre, nem dor em
nenhuma parte, e a única coisa
que sentia de concreto era uma necessidade
urgente de morrer. Bastou ao médico um interrogatório insidioso, primeiro a ele e depois à mãe, para comprovar uma vez
mais que os sintomas do amor são os mesmos do cólera.
Receitou infusões de flores
de tília para entreter os nervos e sugeriu uma mudança de ares para buscar consolo na distância, mas aquilo por que
anelava Florentino Ariza era todo o contrário: gozar seu martírio.
Trânsito Ariza era uma quadrarona livre com um instinto da felicidade frustrado pela pobreza, e se deleitava com as penas do filho como se fossem suas. Fazia com que bebesse as poções
quando o sentia delirar e o enroupava em mantas de
lã para enganar os calafrios,
mas ao mesmo tempo lhe dava
ânimo para confortá-lo em sua
prostração.
— Aproveite agora que você é jovem para sofrer
o mais que puder — lhe dizia —
que estas coisas não duram toda a vida.
Na Agência Postal, é claro, não pensavam o mesmo. Florentino Ariza estava entregue à
desídia, e andava tão distraído que confundia as bandeiras com que anunciava a
chegada do correio, e numa quarta-feira içava a alemã quando o navio aportado era o da Companhia
Leyland com o correio de Liverpool, e
içava em qualquer dia a dos Estados Unidos quando o navio que
chegava era o da Compagnie Générale Transatlantique com o correio de Saint-Nazaire. As confusões do amor causavam tais transtornos na
separação das cartas e provocavam tantos
protestos do público que se Florentino
Ariza não ficou sem emprego foi porque
Lotário Thugut o manteve no
telégrafo e o levou a tocar violino no
coro da catedral. Tinham uma aliança difícil de entender devido à diferença de
idades, pois podiam ter sido avô
e neto, mas se davam tão bem no
trabalho quanto nas tascas do porto,
onde iam parar os tresnoitados, sem escrúpulos de classe, desde os
beberrões sem eira nem beira até os rapazes de família, vestidos a rigor, que fugiam das festas
elegantes do Clube Social para comer peixe frito
com arroz de coco. Lotário Thugut
costumava ir para lá depois do último
turno do telégrafo, e muitas vezes amanhecia bebendo ponche da Jamaica e tocando acordeão com as
tripulações de loucos das
goletas das Antilhas. Era corpulento, parrudo, com uma barba
dourada e um barrete frígio
que usava para sair à noite, e só
lhe faltava uma réstia de
campânulas para ser idêntico a Papai Noel. Ao menos uma
vez por semana acabava com uma pássara da noite, como ele
as chamava, das muitas que vendiam amores de emergência num hotel de dormida
para marinheiros. Quando conheceu
Florentino Ariza, a primeira coisa que fez com
um certo deleito magistral foi iniciá-lo nos segredos do seu paraíso. Escolhia para
ele as pássaras que lhe pareciam melhores, discutia com elas o preço e o modo, e se prontificava a pagar adiantado
e com o seu dinheiro o serviço. Mas
Florentino Ariza não aceitava: era virgem, e havia proposto a si mesmo não
deixar de sê-lo, se não fosse por
amor.
O hotel
era um palácio colonial que já
conhecera dias melhores, e os grandes
salões e os aposentos de mármore estavam divididos em cubículos de papelão com buracos de alfinete, pois tanto se alugavam para fazer como para
ver. Falava-se de enxeridos
cujos olhos tinham sido furados com
agulhas de tricô, de outro que reconheceu a própria esposa naquela que estava
espionando, e de cavalheiros de prosápia que entravam fantasiados de verdureiros
para se aliviarem com os contramestres de passagem, e de tantos
outros percalços de bisbilhoteiros e bisbilhotados, que a mera
idéia de se expor dentro de um quarto parecia pavorosa a Florentino
Ariza. Por isso Lotário Thugut não conseguiu persuadi-lo de que ver e se deixar ver eram requintes de
príncipes na Europa.
Ao contrário do
que fazia crer sua corpulência,
Lotário Thugut tinha um bilro de querubim que parecia um botão de rosa, mas isto devia ser um defeito afortunado,
porque as pássaras
mais experientes se disputavam a
sorte de dormir com ele, e
seus alaridos de esfaqueadas abalavam as fundações do palácio e faziam tremer de espanto seus fantasmas. Diziam que usava uma
pomada de veneno de
víbora que excitava a sela turca
das mulheres,
mas ele jurava não dispor de recursos diferentes daqueles que Deus lhe havia dado. Dizia, morto de rir:
"É puro amor." Muitos anos
tiveram que passar para que
Florentino Ariza compreendesse que talvez o dissesse
com razão. Acabou de se convencer num tempo mais avançado de sua educação sentimental, quando conheceu um
homem que se dava uma
vida de rei explorando três mulheres ao mesmo tempo. As três lhe
prestavam contas ao amanhecer, humilhadas a seus pés para se fazerem perdoar pelas coletas exíguas, e
a única gratificação por que anelavam era que ele
fosse para a cama com a que
mais dinheiro trouxesse. Florentino Ariza achava que só o terror podia induzir a tamanha
indignidade. Contudo, uma das três moças o surpreendeu com a verdade contrária.
— Estas coisas — lhe disse — só podem ser feitas
por amor.
Não foi tanto por suas
virtudes de fornicador como
por sua graça pessoal que Lotário
Thugut chegou a ser um dos clientes mais apreciados do hotel.
Florentino Ariza, com seu jeito
silencioso e escorregadiço, ganhou
também o apreço do dono, e na época
mais árdua de seus quebrantos costumava se trancar
para ler versos e folhetins lacrimosos
nos quartinhos sufocantes, e seus sonhos
deixavam ninhos de escuras andorinhas nos balcões e rumores
de beijos
e bater de
asas nos marasmos da sesta.
Ao entardecer, quando baixava
o calor, era impossível não escutar as conversações dos homens que vinham buscar um desafogo
para o dia num amor apressado.
Assim se inteirou Florentino Ariza de muitas
infidelidades e mesmo de alguns segredos de estado que os clientes importantes
e as próprias autoridades locais
confiavam a suas amantes efêmeras sem
o cuidado de não serem ouvidos nos quartos vizinhos. Foi também assim que se inteirou de que a quatro léguas
marítimas ao norte do arquipélago de Sotavento jazia afundado desde o século XVIII um galeão espanhol carregado com mais de quinhentos bilhões de pesos em
ouro puro e pedras preciosas.
O relato o assombrou, mas não voltou a pensar nele até uns
meses depois, quando sua loucura
de amor lhe alvoroçou as ânsias de resgatar a fortuna submersa para que
Fermina Daza se banhasse em tanques de ouro.
Anos mais tarde, quando procurava
lembrar como era na realidade a donzela idealizada com a alquimia da poesia, não conseguia separá-la das tardes dilacerantes daqueles tempos. Mesmo quando a espreitava sem ser visto, nos dias de ansiedade em que esperava a resposta à sua
primeira carta, a via transfigurada na reverberação das duas da
tarde sob o chuvisco de flores das
amendoeiras, que estavam sempre em abril
qualquer que fosse o tempo do ano. Só lhe interessava então acompanhar Lotário Thugut ao violino no
mirante privilegiado do coro
porque dali via ondular a túnica dela com a brisa dos cânticos. Mas seu próprio
desvario acabou por estragar-lhe o prazer, pois a música mística era tão inócua para seu estado
de alma que tratava
de avivá-la com valsas de amor, e Lotário Thugut se
viu obrigado a
despedi-lo do coro. Foi essa a época em que cedeu aos ímpetos de comer as
gardênias que Trânsito Ariza cultivava nos canteiros do pátio, e desse modo conheceu o sabor de Fermina Daza. Foi também a época em que encontrou por acaso num baú de
sua mãe um frasco de um litro da
água-de-colônia que vendiam de contrabando
os marinheiros da Hamburg American
Line e não resistiu à tentação de prová-la para buscar
outros sabores da mulher amada. Continuou bebendo do frasco
até o amanhecer, embebedando-se de Fermina
Daza com goles abrasivos, primeiro nas tascas do
porto e depois absorto no mar, que contemplava do cais
onde faziam amores precários os amantes sem teto,
até que sucumbiu à inconsciência.
Trânsito Ariza, que o havia esperado até as seis
da manhã com a alma por um fio, buscou-o nos esconderijos menos imagináveis, e pouco depois do meio-
dia o encontrou chafurdando num charco de vômitos fragrantes num remanso
da
baía onde vinham aportar os afogados.
Aproveitou a pausa da convalescença para repreendê-lo pela passividade com
que esperava a resposta à carta. Lembrou a ele que os fracos não entram jamais no reino do amor, que é um reino impiedoso e mesquinho,
e que as mulheres só se entregam aos homens de ânimo resoluto, porque lhes infundem a
segurança pela qual tanto anseiam para enfrentar
a vida. Florentino Ariza assimilou a
lição talvez mais do que devia.
Trânsito Ariza não pôde dissimular um sentimento
de orgulho, mais concupiscente
do que maternal, quando o viu sair do armarinho
com o terno de lã negra, o chapéu duro e o laço lírico no colarinho de celulóide, e lhe perguntou de brincadeira se ia a um enterro. Ele
respondeu com as orelhas em fogo:
"É quase a mesma coisa." Notou que ele mal podia respirar, de medo, mas sua determinação era invencível. Fez as advertências finais, deu a bênção, e lhe prometeu morrendo de
rir outra garrafa de água-de-colônia
para celebrarem juntos a conquista.
Desde a entrega da carta, um
mês antes, ele havia
contrariado muitas vezes a promessa de não voltar à pracinha, mas tinha tomado
boas precauções para não se deixar ver. Tudo continuava no mesmo. A aula
de leitura debaixo das árvores
terminava por volta das duas da tarde, quando a cidade acordava da sesta, e Fermina Daza continuava bordando com a tia até que declinava o
calor. Florentino Ariza não esperou que a tia entrasse na casa e foi atravessando a rua com umas passadas marciais que lhe permitiram dominar o desalento dos joelhos. Mas não se dirigiu a Fermina Daza, e sim
à tia.
—
Faça-me o favor de me deixar a sós um
momento com a senhorita —
disse. — Tenho uma coisa importante a
dizer a ela.
— Atrevido! — disse
a tia. — Não há assunto dela que eu não conheça.
—
Então não falo
— disse ele — mas aviso que a senhora será responsável pelo que aconteça.
Não eram essas as
maneiras que Escolástica Daza esperava do noivo ideal, mas se levantou
assustada, porque teve pela primeira vez a impressão avassaladora de que Florentino
Ariza estava falando
por inspiração do Espírito Santo.
Por isso
entrou na casa para trocar de agulhas
e deixou sós os dois jovens debaixo das amendoeiras do portal.
Na realidade, era muito pouco o que sabia Fermina Daza daquele pretendente
taciturno que aparecera em sua vida feito
uma andorinha de inverno, e de quem não saberia sequer o nome
se não fosse a assinatura da carta. Apurara
desde então que era filho sem pai de uma solteira
laboriosa e séria, mas marcada sem remédio
pelo estigma de fogo de um único mau passo juvenil. Descobrira que não era mensageiro do telégrafo, como supunha, e
sim um
assistente bem qualificado e de futuro promissor, e achou que levara o
telegrama a seu pai apenas como um pretexto para vê-la. Essa suposição a comoveu. Também
sabia que era um dos músicos do
coro, e embora nunca tivesse ousado
levantar a vista para comprová-lo
durante a missa, um domingo teve a revelação de que
enquanto os outros instrumentos tocavam
para todos o violino tocava só para ela.
Não era o tipo de homem
que houvesse escolhido. Seus óculos de
menino enjeitado, sua postura clerical, seus recursos misteriosos haviam suscitado nela
uma curiosidade difícil de resistir,
mas nunca imaginara que a curiosidade fosse outra
das tantas ciladas do amor.
Ela própria não sabia explicar a si
mesma por que havia aceito a
carta. Não é que se culpasse por isso, mas o compromisso cada vez
mais premente de dar uma resposta acabara convertido num empecilho à vida. Cada palavra do seu pai,
cada olhar casual, seus gestos mais triviais lhe pareciam semeados de truques para descobrir seu segredo.
Era tal seu estado de alarma que evitava falar à mesa, de modo que um descuido pudesse delatá-la, e se tornou evasiva até com a tia Escolástica, que compartilhava de sua ansiedade
reprimida como se fosse dela própria.
Trancava-se no banheiro a qualquer hora, sem necessidade, e tornava a ler a carta procurando descobrir um código secreto, uma fórmula mágica
escondida em alguma das trezentas
e quatorze letras de suas cinqüenta
e oito palavras, na esperança de que dissessem mais do que diziam. Mas não encontrou nada além do que
havia entendido da primeira leitura,
quando correu a se trancar no
banheiro com o coração enlouquecido, e
despedaçou o envelope na ilusão de que fosse
uma carta abundante e febril, só encontrando
um bilhete perfumado cuja
determinação a assustou.
A princípio não havia pensado a
sério que estivesse obrigada a dar uma resposta,
mas a carta era tão explícita que não havia maneira de contorná-la. Enquanto isso, na tempestade das dúvidas, surpreendeu-se pensando em Florentino Ariza com
mais freqüência e mais interesse do que
queria permitir a si mesma, e até perguntava atribulada por que
não estava ele na pracinha à hora de sempre, sem lembrar que ela é
que havia pedido que ele não voltasse enquanto ela pensava na resposta. Acabou pensando nele como jamais imaginara que se pudesse pensar em alguém, pressentindo-o onde não estava, desejando-o onde não
podia estar, acordando de súbito com a sensação física de
que ele a contemplava na
escuridão enquanto ela dormia, de maneira que na tarde em que sentiu seus passos resolutos
no tapete de folhas
amarelas da pracinha custou a crer que não fosse outro embuste da sua fantasia. Mas quando ele lhe exigiu a resposta com uma autoridade que nada tinha a ver com suas maneiras lânguidas, conseguiu dominar o espanto e tratou de se evadir pela verdade: não sabia o que
responder. No entanto, Florentino
Ariza não havia transposto um abismo para se amedrontar
com os seguintes.
— Se aceitou a carta — lhe disse — é falta de educação
não respondê-la.
Esse foi o final do labirinto.
Fermina Daza, senhora de si mesma, se
desculpou pela demora, e lhe deu
sua palavra de honra de que teria uma resposta antes do fim das férias. Cumpriu. Na última
sexta-feira de fevereiro, três dias antes da reabertura dos colégios, tia Escolástica
foi ao telégrafo perguntar quanto
custava um telegrama para o povoado de Pedras de Moer, que sequer
figurava na lista, e se deixou
atender por Florentino Ariza como se nunca
se tivessem visto, mas ao sair fingiu esquecer em cima do balcão um breviário
encadernado em couro de lagarto dentro do qual havia um envelope
de papel
de linho com arabescos dourados. Transtornado pela ventura,
Florentino Ariza passou o resto da tarde comendo rosas e lendo a carta,
repassando-a letra por letra uma vez e
mais outra e comendo mais rosas quanto
mais lia a carta, e à
meia-noite já a lera tanto e comera tantas rosas que a mãe teve que subjugá-lo
e prender-lhe a cabeça por trás, como a um bezerro,
para que engolisse uma poção de óleo de rícino.
Foi o ano do namoro encarniçado. Nem ele
nem ela tinham vida para nada
que não fosse pensar no outro, para sonhar
com o outro, para esperar as
cartas com a mesma ansiedade com que
as respondiam. Jamais, naquela primavera de delírio,
ou no ano seguinte, tiveram ocasião de se comunicarem
de viva voz. E mais: do instante em
que se viram pela primeira vez
até o instante em que ele reiterou sua determinação meio século depois,
jamais tiveram uma oportunidade de se verem
a sós nem de falar do seu amor. Mas nos três primeiros meses não se
passou um só dia sem que
se escrevessem, e em certa época até duas vezes por dia, até que tia Escolástica se assustou
com a voracidade da fogueira que ela própria ajudara
a atear.
Depois da primeira carta, que levou ao
telégrafo sentindo algum rescaldo de vingança
contra sua própria sorte, permitira a troca de recados quase diários em encontros
de rua que pareciam casuais, mas não
teve coragem de patrocinar uma conversa, por banal e momentânea que fosse. Contudo, ao fim de três meses
compreendeu que a sobrinha não estava à mercê de um capricho juvenil, como lhe parecera a princípio, e que sua
própria vida estava ameaçada
por aquele incêndio de amor. Na verdade, Escolástica Daza só tinha como modo de subsistência a caridade do
irmão, que com seu caráter
tirânico jamais perdoaria semelhante abuso
da sua
confiança, Mas na hora da decisão
final não teve coração para lançar a
sobrinha no mesmo infortúnio irreparável com que tivera de viver desde a juventude, e deixou que ela
usasse de um recurso que lhe deixava uma ilusão de
inocência. Foi um método simples. Fermina Daza punha sua caria em
algum esconderijo no percurso
diário entre a casa
e o colégio, e nessa mesma carta indicava a Florentino Ariza onde
esperava receber a resposta, Florentino Ariza fazia o mesmo. Desse modo os conflitos de consciência de tia Escolástica foram transferidos pelo resto do ano para
os batistérios das igrejas, o
oco das árvores, as fendas das fortalezas coloniais em ruínas. Às vezes encontravam
as cartas empapadas de chuva, sujas
de lama, raspadas pela
adversidade, e algumas se perderam por
motivos diversos, mas os dois sempre descobriram os meios e modos de reatar o contato.
Florentino Ariza escrevia todas as noites sem
piedade consigo mesmo, envenenando-se letra a letra com a fumaça das
candeias de óleo de coco
no cômodo de trás do armarinho, e suas cartas iam ficando mais extensas e lunáticas à medida que ele se esforçava
por imitar seus poetas preferidos da Biblioteca Popular, que já por essa época ia chegando aos oitenta volumes. Sua mãe, que com tanto ardor o
havia incitado a desfrutar do seu tormento, começou a se alarmar por sua saúde. "Você vai gastar o siso", gritava para ele
do quarto de dormir quando ouvia cantar os primeiros gaios. "Não
há mulher que mereça tanto." Não
se lembrava de ter
conhecido ninguém em tal cotado de perdição. Mas ele não ligava. Às vezes chegava ao escritório sem dormir, os cabelos desgrenhados de amor, depois de ter deixado a carta no esconderijo previsto para que Fermina Daza a encontrasse a
caminho do colégio. Ela, por sua vez, submetida à vigilância do pai e
à tocaia viciosa das freiras, mal
chegava a completar meia folha do caderno escolar trancada nos banheiros
ou fingindo tomar notas durante as aulas. Mas não apenas devido às pressas e sustos, como também por seu caráter, as cartas dela se desviavam de escolhos sentimentais e
se limitavam a contar incidentes de sua vida
cotidiana no estilo utilitário de um diário
de bordo. Na realidade, eram cartas de distração,
destinadas a manter as brasas vivas mas sem botar
a mão no fogo, enquanto Florentino Ariza se incinerava a cada linha.
Aflito por contagiá-la com sua própria loucura, mandava-lhe versos de miniaturista
gravados com a ponta de um alfinete
na pétala das camélias. Foi ele e não ela
quem teve a audácia de pôr um
cacho de cabelo dentro de uma carta,
mas não recebeu nunca a resposta ambicionada, que era um fio completo da trança
de Fermina Daza. Conseguiu pelo menos que ela desse
mais um passo, pois a partir daí começou a lhe mandar nervuras de folhas ressecadas
em dicionários, asas de borboleta, penas de pássaros mágicos, e lhe deu
de aniversário um centímetro quadrado do hábito de São Pedro
Claver, dos que se vendiam então às
escondidas a um preço inatingível para uma
colegial da sua idade. Uma noite, sem qualquer aviso, Fermina Daza acordou assustada por uma serenata de uma valsa só em solo de violino.
Iluminou-a a clarividência de que cada
nota era uma ação de graças pelas pétalas dos seus herbários, pelo tempo roubado à
aritmética para escrever suas cartas, pelo susto dos exames pensando mais nele
do
que nas Ciências Naturais,
mas não se atreveu a acreditar
que Florentino Ariza fosse capaz de
semelhante imprudência.
No dia seguinte, ao café da manhã,
Lorenzo Daza não agüentava a
curiosidade. Em primeiro lugar, porque
não sabia o que
significava uma só peça na
linguagem
das
serenatas, e em segundo porque, apesar da atenção com que escutara, não tinha
conseguido descobrir de que casa
vinha a música. Tia Escolástica, com um sangue- frio que devolveu o fôlego à sobrinha, assegurou ter visto
através das frestas da cortina do quarto que o violinista solitário
estava do outro lado da praça,
e disse que em todo o caso uma peça única era uma notificação de rompimento.
Na sua
carta desse dia, Florentino Ariza confirmou que ele tinha feito a
serenata, e que a valsa tinha sido composta por ele e tinha o nome pelo
qual conhecia Fermina Daza em seu coração: A Deusa Coroada. Não voltou
a tocá-la na praça, mas continuou a fazê- lo em
noites de luar em lugares escolhidos de propósito
para que ela o escutasse sem sobressaltos
no quarto. Um de seus lugares preferidos era o cemitério dos
pobres, exposto ao sol e à chuva numa
colina indigente onde dormiam os urubus,
e onde a música adquiria
sonoridades sobrenaturais. Mais tarde aprendeu
a conhecer a direção dos ventos, e assim ficou seguro de que sua
voz chegava onde devia.
Em agosto desse ano, uma nova guerra civil das tantas que assolavam o país há mais de
meio século ameaçou
generalizar-se, e o governo impôs a lei marcial
e o toque de recolher às seis da tarde nos
estados do litoral caribe. Embora já houvessem
ocorrido alguns distúrbios e a tropa cometesse
toda espécie de abusos a título de
escarmento, Florentino Ariza continuava tão confuso que não se inteirava
da condição do mundo, e uma patrulha
militar o surpreendeu certa madrugada perturbando a castidade dos mortos com suas provocações de amor. Escapou por milagre de uma exclusão
sumária acusado de ser um espião
que mandava mensagem em clave de sol aos navios liberais que esquadrinhavam
as águas vizinhas.
—
Que espião porra nenhuma — disse
Florentino Ariza — eu não passo de um pobre apaixonado.
Dormiu três noites acorrentado pelos tornozelos nos calabouços da guarnição local. Mas quando o soltaram se sentiu lesado pela brevidade do cativeiro, e mesmo nos tempos da sua velhice,
quando outras tantas guerras se embaralhavam
em sua
memória, continuava achando que era o único homem da cidade, talvez
do país, que arrastara grilhões de cinco libras por uma causa de amor.
Iam completar-se dois anos de correios frenéticos quando Florentino
Ariza, em carta de um só parágrafo, fez a Fermina Daza a proposta formal de casamento. Nos seis meses anteriores lhe havia enviado várias vezes uma camélia branca, mas ela a devolvia na carta seguinte, para
que ele não duvidasse de que estava disposta a continuar
escrevendo mas sem a gravidade de um compromisso. A verdade é que sempre encarara as idas e
vindas da camélia como uma travessura de amor, e nunca pensara em encará-las
como uma encruzilhada do destino. Mas quando chegou a proposta
formal se sentiu lanhada pelo primeiro
arranhão da morte. Num medo pânico,
desabafou com tia Escolástica, que enfrentou a
confidencia com a valentia e a lucidez
que não tivera aos vinte anos quando se viu
forçada a decidir sua própria sorte.
—
Responda a ele
que sim — disse. — Ainda que
você esteja morrendo de medo, ainda que depois se arrependa, porque seja como for você se arrependerá a vida inteira se disser a ele que não.
Mesmo assim, Fermina Daza se
sentia tão confusa que pediu um prazo
para pensar. Pediu primeiro um mês, depois
outro e outro, e quando se completou o
quarto mês sem resposta voltou a
receber a camélia branca, mas não sozinha no
envelope como das outras vezes, e sim
com a notificação peremptória de que
era a última: ou agora ou nunca. Então
foi Florentino Ariza quem viu a cara da morte, nessa mesma tarde, quando recebeu um envelope com uma tira de papel arrancada da margem de um caderno de escola, com uma resposta
escrita a lápis numa linha só: Está
bem, me caso com o senhor se
me promete que não me fará comer berinjela.
Florentino Ariza não estava preparado para essa resposta, mas sua mãe
estava. Desde que ele falara pela
primeira vez na intenção de se casar, seis
meses antes, Trânsito Ariza
iniciara gestões para alugar toda a casa, que até então
compartilhava com duas famílias mais. Era uma
construção civil do século XVII, de dois blocos, onde funcionava o Monopólio do Tabaco
sob o domínio espanhol, e cujos
proprietários arruinados tinham tido que alugar aos pedaços por falta de recursos para mantê-la. Tinha uma seção
que dava para a rua, onde se faziam as vendas do tabaco, outra no fundo de um pátio de
pedras onde estivera a
fábrica, e uma cavalariça muito grande
que os inquilinos atuais usavam
em comum para lavar roupa e
estendê-la na corda. Trânsito Ariza ocupava a primeira parte, que era a mais útil e mais conservada, embora fosse também a menor. Na antiga sala de vendas ficava o armarinho, com um portão para a rua,
e ao lado o antigo depósito, onde dormia Trânsito Ariza e cuja única ventilação
era uma clara bóia. O cômodo de trás da
loja era a metade da sala, dividida
com um biombo de madeira. Havia ali uma mesa e
quatro cadeiras que serviam ao mesmo tempo
para se comer e escrever, e ali Florentino Ariza dependurava a rede
quando o despontar do dia não o surpreendia escrevendo. Era um espaço bom para os dois, mas insuficiente
para qualquer pessoa mais, menos ainda para uma senhorita do
Colégio da Apresentação da Santíssima Virgem, cujo pai restaurara até deixá-la como nova uma casa em
escombros, enquanto famílias de sete títulos iam para a cama com o pavor de que
o teto de suas mansões lhes desabasse
na cabeça enquanto dormiam. De maneira que Trânsito Ariza conseguira que o
proprietário lhe permitisse ocupar
também a galeria do pátio,
com a condição de que ela mantivesse
a casa em bom estado por cinco anos.
Tinha recursos para isso.
Além da renda real do armarinho e das fiações
hemostáticas, que lhe teriam bastado para a vida modesta, multiplicara as poupanças emprestando-as a uma clientela
de novos pobres envergonhados
que aceitavam seus juros excessivos em troca de sua discrição.
Senhoras com ares de rainha desciam das carruagens no portão do armarinho, sem governantas nem criados
incômodos, e fingindo comprar rendas da Holanda
e debruns de passamanaria empenhavam entre dois soluços os últimos ouropéis de seu paraíso
perdido. Trânsito
Ariza as tirava de apuros com tanta
consideração por sua estirpe que muitas iam embora mais gratas pelos cumprimentos
que pelos proventos. Em menos de dez anos conhecia como suas as jóias tantas vezes resgatadas e de novo
empenhadas com lágrimas, e os ganhos convertidos em ouro de lei estavam
enterrados numa botija debaixo da cama quando o filho tomou a
decisão de se casar. Então fez as
contas e descobriu que não só podia fazer o negócio de manter de pé a
casa alheia durante cinco anos como
ainda que, com igual astúcia e um pouco
mais de sorte, podia talvez comprá-la
antes de morrer para os doze netos que desejava ter. Florentino Ariza, por sua parte, fora nomeado primeiro ajudante do telégrafo, em caráter interino, e Lotário Thugut queria deixá-lo como chefe do
escritório quando partisse para dirigir
a Escola de Telegrafia e Magnetismo, prevista para o ano seguinte.
Desta forma, o lado prático do casamento estava resolvido, mas Trânsito Ariza achou prudentes
duas condições finais. A primeira,
averiguar quem era na realidade
Lorenzo Daza, cujo sotaque não deixava nenhuma
dúvida sobre sua origem, mas de cuja
identidade e de cujos meios
de vida ninguém tinha
informação certa. A segunda, que o noivado fosse
longo, para que os noivos se
conhecessem a fundo pelo
trato pessoal, e que se mantivesse a
mais estrita reserva até que ambos se sentissem muito seguros de seus afetos. Sugeriu que esperassem até o final da guerra. Florentino Ariza concordou com o
segredo absoluto, tanto pelas razões de sua mãe
como pelo hermetismo próprio de
seu caráter. Concordou também
com a demora do noivado, mas o
término da guerra lhe pareceu irreal, pois em mais de
meio século de vida independente não tivera o país nem um dia de paz civil.
— Vamos ficar velhos esperando — disse.
Seu padrinho o homeopata, que
participava por casualidade da conversação,
não achava que as guerras fossem um inconveniente.
Achava que não passavam de pendências
de pobres jungidos como bois pelos senhores da
terra, contra soldados descalços jungidos pelo governo.
—
A guerra está
na montanha —disse — Desde que eu sou eu, nas
cidades não nos matam com tiros,
e sim com decretos.
De qualquer maneira, os pormenores do noivado se resolveram nas cartas da semana seguinte. Fermina Daza, aconselhada
pela tia Escolástica, aceitou o prazo de
dois anos e a reserva absoluta, e sugeriu que Florentino Ariza lhe pedisse a mão quando ela terminasse a escola secundária nas férias de
Natal. No momento próprio
se poriam de acordo
sobre o modo de formalizar o
compromisso segundo o grau de aceitação
que ela houvesse conseguido do pai. Enquanto isso, continuaram a se escrever
com o mesmo ardor e a mesma freqüência, mas sem os sobressaltos de antes, e as cartas
foram derivando para um tom familiar que já parecia de esposos.
Nada lhes perturbava os sonhos.
A vida de Florentino Ariza tinha mudado. O amor correspondido lhe havia dado
uma segurança e uma força que não conhecera antes, e foi tão eficiente
no trabalho
que Lotário Thugut conseguiu sem
esforços que o nomeassem seu
substituto oficial. Nessas alturas, o projeto da Escola
de
Telegrafia e Magnetismo tinha
malogrado, e o alemão consagrava seu tempo
livre à única coisa que na
realidade lhe agradava, que era
ir ao porto tocar acordeão e tomar cerveja com
os marinheiros, e tudo acabava no
hotel suspeito. Transcorreu muito tempo até que Florentino Ariza
percebesse que a influência de Lotário Thugut naquele lugar de prazer
se devia ao fato de que ele
terminara dono do estabelecimento, além de empresário das pássaras do porto.
Fizera a compra pouco a pouco, com as economias de muitos anos, mas seu testa-de-ferro era um homenzinho magro e torto, de cabelo aparado
rente e de coração tão manso
que ninguém compreendia como podia ser tão bom gerente. Mas era. Pelo menos, assim pareceu a Florentino Ariza
quando o gerente lhe disse, sem que ele
tivesse pedido, que podia
dispor de um quarto permanente
no hotel, não só para resolver os problemas do baixo-ventre, quando se decidisse a tê-los, como também para contar com um lugar mais tranqüilo para suas leituras e suas cartas de amor. Por isso, enquanto
transcorriam os longos meses que
faltavam para a formalização do compromisso, passou mais tempo ali do que no escritório ou em casa, e houve
épocas em que Trânsito Ariza só o
via quando ia trocar de roupa.
A leitura
se tornou para ele um vício insaciável. Desde que o
ensinara a ler, sua mãe lhe comprava os livros ilustrados dos
autores nórdicos, vendidos como histórias infantis mas que na realidade
eram os contos mais cruéis e perversos que alguém pudesse ler em qualquer
idade. Florentino Ariza os recitava de cor
aos cinco anos, tanto nas aulas como nas festas
da escola, mas a familiaridade
com eles não aliviava o terror que lhe infundiam. Ao contrário, tornava-o mais aguçado. Passar dali para a poesia foi um repouso. Já na puberdade
consumira por ordem de publicação todos os volumes da
Biblioteca Popular que Trânsito Ariza comprava nos livreiros de ocasião do Portal dos Escrivães, e nos quais havia de tudo,
de Homero ao menos meritório
dos poetas locais. Mas ele não fazia
distinção: lia o volume que chegasse, como uma ordem da
fatalidade, e todos os seus anos
de leitura
não foram suficientes para que soubesse
o que era bom e o que não prestava no muito
que tinha lido. A única coisa que sabia com clareza era que entre a
prosa e os versos preferia os versos, e
entre estes preferia os de amor, que decorava mesmo sem querer a partir da segunda leitura, o que lhe era
ainda mais fácil quanto mais se tratasse
de versos bem rimados, bem medidos,
bem desesperados.
Esta foi a fonte original das primeiras
cartas a Fermina Daza, nas quais apareciam montões
de parágrafos tomados sem qualquer cozimento aos românticos
espanhóis, e continuou sendo até que a vida real o obrigou a se ocupar de
assuntos mais terrenos do que as penas do coração. Nessas alturas dera um
passo adiante rumo aos folhetins chorosos e outras prosas ainda
mais profanas do seu tempo. Aprendera a chorar com a mãe
lendo os poetas locais que se vendiam em praças
e portas de loja em folhetos
de dois centavos. Mas ao mesmo tempo era capaz de recitar de cor a poesia castelhana mais seleta do Século de Ouro. Em geral lia tudo
que lhe caísse nas mãos, e na ordem em que
caía, até o extremo de que mesmo depois
daqueles duros anos do seu primeiro amor, quando já não era moço,
punha- se a ler da primeira à última página os vinte volumes do
Tesouro da Juventude, o
catálogo completo de clássicos dos
irmãos Garnier, traduzidos, e as
obras mais fáceis que publicava
Vicente Blasco Ibánez, na coleção Prometeu.
Em todo caso, seus jovens anos no hotel suspeito não se reduziram
à leitura e à redação de cartas febris, pois também o iniciaram
nos segredos do amor sem amor.
A vida da casa começava depois
do meio-dia, quando suas amigas as pássaras se levantavam como suas mães as pariram, de modo
que quando Florentino Ariza chegava do emprego
se encontrava num palácio povoado de ninfas em
pêlo, que comentavam aos gritos os segredos da cidade, conhecidos pelas indiscrições dos próprios
protagonistas. Muitas exibiam em suas nudezas as pegadas do passado:
cicatrizes de punhaladas no ventre,
estrelas de balaços, sulcos de
facadas de amor, costuras de cesarianas de açougueiros. Algumas recebiam durante o dia os filhos
menores, frutos desventurados de desenganos ou descuidos juvenis, e tratavam de despi-los logo que chegavam para
que não se sentissem diferentes no paraíso da nudez. Cada uma cozinhava o que comia, e ninguém
comia melhor do que Florentino Ariza quando o
convidavam, porque escolhia o melhor de
cada uma. Era uma festa diária que durava até o entardecer,
quando as desnudas desfilavam cantando para
os banheiros, pedindo uma a
outra o sabonete emprestado, a escova de dentes,
a tesoura, cortavam-se o cabelo umas às
outras, se vestiam permutando roupas, se besuntavam de pintura como palhaças lúgubres,
e saíam a caçar as primeiras presas da noite. A
partir daí a vida da casa se tornava
impessoal, desumanizada, e era impossível compartilhar dela sem pagar.
Em nenhum outro lugar Florentino Ariza se sentia melhor desde
que conhecera Fermina Daza, porque era o único onde não se sentia só. E mais: acabou por ser
o único onde se sentia com ela.
Era talvez pelos mesmos motivos que
vivia ali uma mulher mais velha,
elegante, de formosa cabeça prateada, que não participava da vida natural das desnudas, e por quem estas
professavam um respeito sacramentai.
Um noivo prematuro a havia levado lá quando jovem,
e depois de desfrutá-la um tempo a abandonou à sua sorte. Contudo, apesar do seu estigma,
conseguiu bom casamento. Já bem mais velha, quando ficou só, dois filhos
e três filhas disputaram entre si o prazer de levá-la a viver com eles, mas
a ela não ocorreu lugar mais digno para viver do que aquele hotel de ternas perdulárias. Seu quarto permanente era sua única
casa, e isto a identificou de pronto
com Florentino Ariza, de quem dizia
que chegaria a ser um sábio
conhecido no mundo inteiro, por ser capaz de enriquecer a alma com a leitura no paraíso da salacidade. Florentino Ariza, de sua parte, chegou a
nutrir por ela tanta afeição que a
ajudava nas compras do mercado, e costumava passar tardes conversando com
ela. Achava que era uma mulher sábia no
amor, pois lhe deu muitas luzes
sobre o seu, sem que ele
precisasse revelar-lhe seu segredo.
Se antes de conhecer
o amor de Fermina
Daza não caíra
em tantas tentações ao
alcance da mão, muito
menos o faria quando já tinha sua prometida
oficial. Por isso Florentino Ariza
convivia com as moças, compartilhava seus gozos
e suas misérias, mas nem a ele
nem a elas ocorreria ir mais
longe. Um fato imprevisto demonstrou a severidade de sua determinação.
Certo dia às seis da tarde, quando
as moças se vestiam para receber os clientes da noite, entrou no seu quarto a encarregada da limpeza
no andar: uma mulher jovem mas envelhecida e macilenta, como uma penitente vestida em meio à
glória das desnudas. Ele a via todos
os dias sem se sentir visto: andava pelos quartos com as vassouras, um balde para
o lixo e um trapo especial para recolher do chão os preservativos usados.
Entrou no cubículo em que
Florentino Ariza lia, como sempre, e como sempre varreu com um cuidado extremo, para não perturbá-lo. De repente chegou perto da cama, e ele sentiu a mão quente
e macia na cruz do seu ventre, a buscá-lo, sentiu que o achava, sentiu-a que ia desabotoando os botões e que a respiração
dela ia ocupando o quarto inteiro. Ele fingiu ler
até que não agüentou mais, e teve que esquivar o corpo.
Ela se assustou, pois a
primeira advertência que lhe haviam feito para
que obtivesse o emprego de varredora
foi o de não tentar ir para a
cama com os clientes. Não precisavam dizê-lo, pois ela era das
que achavam que prostituição não era entregar-se por dinheiro e sim entregar-se a desconhecidos. Tinha dois filhos, cada
um de um marido diferente,
e não porque fossem aventuras casuais
e sim porque não conseguira amar ninguém que voltasse depois da terceira vez. Tinha sido até então uma mulher sem
ardores, preparada pela
natureza para esperar sem desesperar, mas a vida daquela casa era
mais forte que suas virtudes. Chegava para trabalhar às seis da tarde, e
passava a noite inteira de quarto em quarto, varrendo- os com quatro vassouradas, recolhendo os
preservativos, mudando os lençóis. Não era fácil imaginar a quantidade de coisas que os homens deixavam depois do amor.
Deixavam vômitos e lágrimas, o que parecia compreensível, mas deixavam também muitos enigmas da intimidade: poças de sangue,
panos com excremento, olhos de vidro, relógios de ouro, dentaduras postiças, relicários com cabelo louro, cartas de amor, de negócios, de pêsames: cartas de tudo. Alguns vinham buscar suas
coisas perdidas, mas a maioria delas ali ficava, e Lotário Thugut as
guardava debaixo de chave, pensando
que mais cedo ou mais tarde aquele
palácio caído em desgraça, com os milhares de objetos pessoais esquecidos, seria um museu do amor.
O trabalho era duro e mal pago, mas
ela o fazia bem. O que não conseguia suportar eram os soluços, os lamentos, o ranger das molas das
camas que iam se depositando em seu sangue
com tanto ardor e dor que ao amanhecer não agüentava a necessidade de se entregar
ao primeiro mendigo que encontrasse na rua, ou a algum bêbado sem rumo que
lhe fizesse o favor sem luxos
nem perguntas. A aparição de um homem sem mulher como Florentino Ariza, moço e limpo, foi para
ela um presente do céu, porque
a partir do primeiro momento percebeu que era igual a ela: um carente de amor. Mas
ele foi insensível ao seu cerco.
Mantivera-se virgem para Fermina
Daza, e não havia força nem razão neste mundo que pudesse desviá-lo do caminho.
Essa era sua vida,
quatro meses antes da data prevista para formalizar o compromisso, quando Lorenzo Daza apareceu às sete da manhã
no escritório do telégrafo, e perguntou por ele. Como
ainda não havia chegado, esperou-o
sentado no banco até as oito e
dez, tirando de um dedo
e colocando-o no outro o pesado anel de
ouro coroado por uma opala
nobre, e quando o viu entrar o reconheceu
de pronto como o empregado do telégrafo, e pegou-o pelo braço.
— Venha comigo, mocinho — disse. — O senhor e eu temos que
falar cinco minutos, de homem
para homem.
Florentino Ariza, verde como um morto, se
deixou conduzir. Não estava preparado para esse encontro, porque Fermina Daza não encontrara a ocasião nem a
maneira de avisá-lo. O caso é que no
sábado anterior, a irmã Franca de Ia
Luz, superiora do Colégio da Apresentação da Santíssima Virgem, entrara na aula de Noções de
Cosmogonia com o sigilo de uma serpente,
e espiando as alunas por cima do ombro
descobriu que Fermina Daza fingia tomar notas no caderno quando na realidade
escrevia uma carta de amor. A falta, de acordo com os
regulamentos do colégio, era motivo de expulsão. Chamado de urgência à reitoria, Lorenzo Daza
descobriu a goteira por onde escorria seu regime
de ferro. Fermina Daza, com sua integridade congênita, admitiu a culpa da carta, mas se negou a revelar a identidade do
noivo secreto, e negou de novo
perante o Tribunal de Ordem, que por esse motivo confirmou a sentença de
expulsão. Contudo, o pai fez uma devassa do quarto dela, que até então tinha sido um santuário inviolável, e num fundo falso
do baú encontrou os pacotes de três anos de cartas, escondidas com tanto amor quanto o amor que as ditara. A assinatura era
inequívoca, mas Lorenzo Daza não pôde crer
nem então nem nunca que a filha só soubesse
do
noivo oculto que era
telegrafista de ofício e aficionado do violino.
Convencido de que uma relação tão difícil só era compreensível graças à cumplicidade da irmã, não deu a esta nem a graça de uma explicação, embarcando-a sem apelação na goleta de São João
da Ciénaga. Fermina Daza não se libertou
nunca da última lembrança dela, na tarde em
que ela lhe disse adeus no
portal ardendo em febre dentro do hábito pardo,
ossuda e cinzenta, e a viu desaparecer na garoa da pracinha com a única coisa que lhe restava na vida: a trouxinha de solteira, e o dinheiro para
sobreviver um mês, enrolado num lenço dentro do punho fechado. Logo que se livrou
da autoridade do pai mandou
procurá-la pelas províncias do Caribe, perguntando por ela a todos que pudessem conhecê-la, e
não encontrou sinal do seu rastro
até quase trinta anos depois, quando recebeu uma
carta que passara por muitas mãos
durante muito tempo, e na qual lhe informavam que morrera no lazareto de Água de
Deus. Lorenzo Daza não previu
a ferocidade com que a filha reagiria ao castigo injusto de que foi
vítima tia Escolástica, que identificava sempre com a mãe de quem mal
se lembrava. Fechou-se com tranca no
quarto, sem comer nem beber, e quando ele conseguiu por fim que ela abrisse a
porta, primeiro com ameaças e depois com súplicas mal disfarçadas, esbarrou numa pantera ferida que jamais voltaria a
ter quinze anos.
Tratou de seduzi-la com toda espécie de
agrados. Tratou de fazê-la
entender que o amor na sua idade
era uma miragem, tratou de convencê-la por bem a devolver as cartas
e regressar ao colégio para pedir perdão de
joelhos, e lhe deu a palavra de honra de que seria o
primeiro a ajudá-la a ser feliz com um pretendente digno. Mas era como falar a um morto. Derrotado, acabou por perder as
estribeiras no almoço de segunda-feira, e enquanto se engasgava de impropérios e blasfêmias à
beira da congestão, ela pôs o gume
da faca no próprio pescoço, sem dramas mas com pulso firme,
e com uns olhos atônitos ele não se atreveu a
desafiá-la. Foi aí que assumiu o
risco de falar cinco minutos, de
homem para homem, com o
adventício infausto que não se lembrava de jamais ter visto, e que em hora
tão má se havia atravessado em sua vida.
Por puro costume pegou o revólver
antes de sair, mas teve o cuidado de escondê-lo debaixo da camisa.
Florentino Ariza não tinha recuperado
o fôlego quando Lorenzo Daza o
carregou pelo braço pela Praça da Catedral
até a galeria de arcos do Café da
Paróquia, e o convidou a sentar-se no terraço. Não havia outros fregueses a
essa hera, e uma matrona preta esfregava os ladrilhos do enorme salão de vitrais
lascados e empoeirados, cujas cadeiras ainda estavam de pés para cima sobre
as mesas de mármore. Florentino
Ariza tinha visto ali muitas vezes Lorenzo Daza jogando e bebendo
vinho de barril com os asturianos do mercado público, enquanto brigavam aos
berros devido a outras guerras crônicas que não eram as nossas. Muitas vezes, consciente do
fatalismo do amor, perguntava a si mesmo como
seria o encontro que mais cedo ou mais tarde
teria que ter com ele, e que nenhum poder humano havia de impedir, porque estava desde sempre
inscrito no destino de ambos.
Imaginava-o um exaltado cheio de asperezas, não só porque Fermina Daza lhe prevenira
nas cartas quanto ao caráter tempestuoso do pai, como porque ele próprio notara que
seus olhos
pareciam coléricos até quando ria às gargalhadas na mesa de jogo.
Ele todo era um tributo à
vulgaridade: a pança ignóbil, a fala enfática,
as suíças de lince, as mãos pesadas,
o anular sufocado no aro grosso e a opala. Seu único traço enternecedor, que
Florentino Ariza descobriu da primeira
vez que o viu caminhar, é que tinha o mesmo andar
de corça da filha. Contudo,
quando ele lhe apontou a cadeira para que se
sentasse, achou-o menos áspero
do que parecia, e respirou desafogado
quando o convidou a tomar um cálice de anis. Florentino Ariza nunca tinha
bebido às oito da manhã, mas aceitou
agradecido, de muito necessitado que estava.
Lorenzo Daza, com efeito, não levou mais de cinco minutos para
dar suas razões, o que fez com
uma sinceridade absoluta que acabou de confundir Florentino Ariza. Ao morrer sua
esposa tinha imposto a si mesmo o propósito único de fazer da filha
uma grande dama. O caminho era longo e incerto para um
traficante de mulas que não sabia ler nem escrever, e cuja
reputação de ladrão de cavalos não estava tão provada como difundida na província de São João
da Ciénaga. Acendeu um charuto de tropeiro, e se queixou; "A
única coisa pior do que a má saúde é a má fama." Contudo, disse, o
verdadeiro segredo da sua fortuna era
que nenhuma das suas
mulas
trabalhava tanto e com tanta
disposição quanto ele próprio, mesmo nos tempos mais duros das guerras, quando os povoados amanheciam em cinzas e os campos devastados. Embora a filha nunca tivesse estado ao corrente da premeditação do seu destino,
comportava-se como um cúmplice entusiasta. Era inteligente e metódica, ao
ponto de haver ensinado o pai a ler
logo que ela própria aprendera, e aos doze anos tinha um domínio da realidade mais do que
bastante para dirigir a casa sem necessidade
da tia Escolástica. Suspirou: "É
uma mula de ouro." Quando a
filha terminou a escola primária, com grau dez em tudo e
louvor
no ato de encerramento,
ele compreendeu que o âmbito de São João
da Ciénaga era estreito demais para seus
sonhos. Então liquidou terras
e bestas, e se mudou com ímpetos novos
e setenta mil pesos ouro para esta
cidade em ruínas e com suas glórias
carcomidas, mas onde uma mulher bela e
educada à antiga tinha ainda a possibilidade de nascer de novo num
casamento de fortuna. A irrupção de Florentino
Ariza tinha sido um tropeço
imprevisto naquele plano encarniçado. "Por isso vim fazer-lhe uma súplica",
disse Lorenzo Daza. Molhou a ponta do charuto no anis, deu-lhe uma chupada sem fumo, e concluiu com
a voz aflita:
— Afaste-se de nosso caminho.
Florentino Ariza o ouvira bebendo
aos goles a aguardente de anis, e tão
absorto na revelação do passado de Fermina Daza que nem pensou no que ia dizer quando tivesse que falar. Mas chegado o momento
reparou que qualquer coisa que dissesse
comprometeria seu destino.
— O senhor falou
com ela? — perguntou.
— isso não lhe diz respeito — disse Lorenzo Daza.
—
Estou perguntando — disse Florentino Ariza —
porque me parece que quem tem que decidir é ela.
—
Nada disso — disse Lorenzo Daza: — é assunto
de homens e se resolve
entre homens.
O tom se tornara ameaçador, e um freguês numa
mesa próxima se voltou para olhá-los. Florentino Ariza falou com a voz mais tênue mas com a resolução mais imperiosa de que foi capaz:
—
De todas as maneiras — disse — não
posso responder nada sem
saber o que ela pensa. Seria uma traição.
Então Lorenzo Daza se encostou brusco no assento com as pálpebras avermelhadas e
úmidas, seu olho esquerdo girou na
órbita e ficou torcido para fora. Também baixou a voz.
— Não me obrigue a lhe
dar um tiro — disse.
Florentino Ariza sentiu as tripas se encherem de uma espuma
fria. Mas sua voz não tremeu, porque também ele se
sentiu iluminado pelo Espírito Santo.
— Dê o tiro — disse, com a mão no peito. — Não há maior glória do que morrer
por amor.
Lorenzo Daza teve que olhá-lo de lado, como os papagaios, para encontrá-lo com o olho torto.
Mais do que pronunciar as três
palavras, pareceu cuspi-las sílaba por sílaba:
— Fi-lho-da-pu-ta!
Naquela mesma semana empurrou a filha para
a viagem do esquecimento. Não lhe deu explicação
nenhuma, limitando-se a irromper no
quarto dela com os bigodes sujos
de cólera misturada ao fumo mastigado, e lhe mandou que arrumasse a mala. Ela perguntou para onde iam, e ele respondeu: "Para a
morte." Assustada com aquela resposta que se parecia demais com a verdade, tratou de enfrentá-lo com a coragem dos dias anteriores, mas ele tirou da
cintura a correia com o fivelão de cobre
maciço, enroscou-a no pulso, e deu na mesa uma lambada que ressoou pela casa feito um disparo de rifle. Fermina Daza conhecia muito bem o alcance e a ocasião de sua própria força, de modo que fez uma trouxa com duas esteiras e uma rede, e arrumou dois baús grandes com
toda a sua roupa, certa de que era uma viagem sem retorno.
Antes de se vestir, se trancou no banheiro e conseguiu escrever a Florentino Ariza uma breve carta de adeus numa folha arrancada ao pacotinho de Papel higiênico. Depois cortou sua trança completa na altura da nuca com a tesoura de podar, enfiou-a
num rolo dentro de um estojo de
veludo bordado a fio de ouro,
e a mandou junto com a carta.
Foi uma viagem demente. Só a etapa inicial numa caravana de tropeiros
andinos durou onze dias em lombo de mula pelas cornijas da Serra Nevada, embrutecidos todos por sóis nus ou ensopados
pelas chuvas horizontais de outubro,
e quase sempre com o alento petrificado
pela exalação de dormência que sobe dos precipícios. No terceiro dia de caminho, uma mula enlouquecida pelas varejeiras rolou
pelo barranco com seu cavaleiro e
arrastou consigo a fieira inteira, e o
alarido do homem e de sua penca de
sete bestas amarradas entre si
continuou reboando pelas gargantas e alcantis várias horas depois do desastre, e continuou reboando durante
anos e anos na memória de Fermina Daza. Toda a sua bagagem
despencou com as mulas, mas no
instante de séculos que durou a queda até se
extinguir nas profundezas o alarido de
pavor ela não pensou no pobre muleteiro morto nem na recua despedaçada, e
sim na desgraça de que
sua própria
mula não estivesse também amarrada às outras.
Montava pela primeira vez, mas o
terror e as canseiras incontáveis da viagem
não lhe teriam parecido tão
amargos se não se acompanhassem da certeza
de que nunca mais veria Florentino
Ariza nem teria o consolo de
suas cartas. Desde o começo da viagem não tinha tornado a dirigir a
palavra ao pai, e este andava tão confuso que apenas lhe falava em casos
indispensáveis, ou lhe mandava
recados pelos muleteiros. Em momentos de
melhor sorte achavam alguma
casa de pasto à beira das veredas
onde havia comidas dali mesmo, que ela se negava
a comer, e onde se alugavam
camas-de-vento entranhadas de urinas
e suores azedos. O mais
freqüente,
contudo, era passar a noite em rancharias de índios,
hospedarias públicas ao relento, construídas à beira dos caminhos
com fileiras de forquilhas e tetos de palma, onde quem quer que chegasse tinha o direito de ficar até raiar o dia. Fermina Daza não conseguiu, dormir uma noite completa, sentindo na escuridão o bulício dos
retardatários que iam chegando e atando os animais às forquilhas e pendurando
as redes onde podiam.
Ao entardecer, quando chegavam os primeiros, o
lugar era amplo e tranqüilo, mas
amanhecia transformado em praça de
feira, com feixes de redes penduradas
em níveis diferentes, e índios da serra dormindo de cócoras, e o balir dos cabritos amarrados e a algazarra dos
gaios de briga em seus engradados
de faraós, e a mudez arquejante dos
cachorros monteses amestrados para não ladrar devido aos riscos da guerra. Essas privações eram familiares
a Lorenzo Daza, que tinha negociado pela região durante a metade da vida, e quase sempre deparava com velhos amigos ao amanhecer. Para a filha era uma agonia
perpétua. A fedentina das cargas de bagre
salgado, somada à inapetência própria
à saudade, acabaram por lhe atropelar
o hábito de comer, e se não enlouqueceu
de desespero foi porque sempre encontrou alívio na
lembrança de Florentino Ariza. Não duvidou de que aquela fosse a
terra do esquecimento.
Outro terror constante era o da guerra.
Desde o princípio da viagem se
mencionara o perigo de encontrar
patrulhas dispersas, e os tropeiros os haviam instruído sobre os diversos modos
de saber a que bando pertenciam para que agissem de acordo. Era freqüente encontrar um bando de
soldados a cavalo, sob o
comando de um oficial, que recolhia os novos recrutas laçando-os como novilhos em plena carreira. Angustiada por
tantos horrores, Fermina Daza tinha
esquecido de coisas que lhe pareciam
mais lendas do que ameaças de verdade, até a noite em que uma
patrulha sem filiação
conhecida seqüestrou dois membros da caravana e os enforcou numa árvore a meia légua da rancharia.
Lorenzo Daza não tinha nada a ver com eles, mas
os fez baixar e lhes deu sepultura
cristã em ação de graças por
não ter sofrido destino igual. Não era
para menos. Os assaltantes o
haviam acordado com um cano de
escopeta na barriga, e um comandante
em andrajos, com uma cara que parecia tisnada a tição, iluminou-o com a lanterna e lhe perguntou se era liberal ou conservador.
— Nem um nem outro
— disse Lorenzo Daza. — Sou um súdito
espanhol.
—
Que sorte! — disse o comandante, e se despediu
dele com a mão no alto: — Viva o rei!
Dois dias mais tarde desceram à planície luminosa onde se assentava o alegre povoado de
Valledupar. Havia brigas de galo
nos pátios, música de sanfona
nas esquinas, cavaleiros em cavalos de
bom sangue, foguetes e sinos. Estavam armando um castelo de pirotecnia. Fermina Daza nem
reparou nos festejos. Hospedaram-se
na casa do tio Lisímaco Sánchez,
irmão de sua mãe, que veio recebê-los na estrada real à frente de uma buliçosa
cavalgata de jovens membros da família
montados em
animais da melhor
raça da província, e foram
conduzidos pelas ruas do povoado em meio ao
fragor do foguetório. A casa estava no centro da Praça Grande, junto à
igreja colonial várias vezes remendada,
e dava mais a impressão de uma feitoria de
fazenda com seus aposentos
espaçosos e sombrios, e o corredor recendente a garapa quente debruçado sobre o
pomar.
Mal haviam apeado das montarias e
os salões de visita já transbordavam, com os numerosos parentes desconhecidos que fustigavam Fermina Daza
com suas efusões insuportáveis,
pois estava impedida de amar a
qualquer outra pessoa que fosse neste mundo, escaldada pela montaria, morta de sono e
com o intestino solto, e só implorava a bênção de um lugar
solitário e quieto para chorar. Sua prima Hildebranda
Sánchez, dois anos mais velha do que ela
e com sua mesma altivez
imperial, foi a única que compreendeu
seu estado logo que a viu pela
primeira vez, por que também ela se consumia nas brasas de um amor
temerário. Ao cair a noite conduziu-a
ao quarto que havia preparado para ambas,
e não entendeu como estava ainda viva com as úlceras de fogo que tinha no traseiro. Ajudada
por sua mãe, uma mulher muito
doce e parecida com o marido como se fossem gêmeos,
preparou-lhe um banho de assento e lhe
mitigou as ardências com compressas de arnica, enquanto os trovões do castelo de pólvora abalavam os alicerces da casa.
À meia-noite já tinham saído as
visitas, a festa pública se dissolveu em festinhas dispersas, e a prima Hildebranda emprestou a Fermina
Daza uma camisola de morim, e a ajudou a se deitar numa
cama de lençóis esticados e
travesseiros de penas que lhe infundiram de pronto
o pânico instantâneo da felicidade.
Quando afinal ficaram sós no quarto, fechou a porta a tranca e tirou de baixo do
colchão de sua cama um
envelope pardo lacrado com os emblemas do
Telégrafo Nacional. Bastou a Fermina Daza ver a expressão de radiante malícia da prima para brotar de novo na memória do seu coração o odor pensativo das gardênias brancas, antes de triturar o sinete de lacre com os
dentes e ficar chapinhando até o raiar do dia no charco de lágrimas dos onze telegramas
desatinados.
Então ficou sabendo. Antes de empreender
a viagem Lorenzo Daza tinha cometido o erro de
anunciá-la pelo telégrafo a seu cunhado Lisímaco Sánchez, e
este por sua vez mandara a notícia a sua vasta e complicada parentela,
disseminada em numerosos povoados e caminhos da
província. De maneira que Florentino Ariza pôde não só averiguar o
itinerário completo como estabelecer uma grande irmandade de telegrafistas para seguir o rastro de Fermina Daza até a última rancharia
do Cabo da Vela. Isto lhe permitiu manter com ela uma comunicação intensa desde que chegou a Valledupar, onde ficou três meses, até o fim da viagem em Riohacha, ano e meio depois, quando Lorenzo Daza aceitou como fato que a filha havia afinal esquecido, e resolveu voltar para casa. Talvez ele mesmo não estivesse
consciente de quanto relaxara sua vigilância, distraído como estava com os
agrados dos parentes políticos, que
depois de tantos anos haviam abdicado de seus preconceitos tribais, admitindo-o de coração aberto como um dos
seus. Embora não tivesse esse
propósito, a visita foi uma reconciliação tardia. Com efeito, a família
de
Fermina Sánchez se opusera a todo custo a que ela se casasse com um imigrante sem origem, falador e bruto, que estava
sempre de passagem em todos os lugares, com um negócio de mulas xucras que
parecia demasiado simples para ser limpo. Lorenzo Daza se empenhava a fundo, porque sua pretendida era a mais apreciada de uma família típica da região: uma cáfila
intrincada de mulheres corajosas e homens de coração terno e gatilho fácil,
perturbados até a demência pelo sentido da honra.
Contudo, Fermina Sánchez se sentou em seu capricho com a determinação cega dos
amores contrariados, e se casou com ele a despeito da família, com tanta
pressa e tantos mistérios que dava a impressão de fazê-lo menos por
amor do que
para cobrir com um manto sacramentai algum descuido prematuro.
Vinte e cinco anos depois, Lorenzo
Daza não se dava conta de que sua intransigência
com os amoricos da filha era uma
repetição viciosa de sua própria
história, e se lamentava de sua desgraça
perante os mesmos cunhados que se haviam oposto a ele como estes
se haviam lamentado outrora
perante os seus. Mas o tempo que ele perdia em lamentações, sua filha
o ganhava nos amores. Enquanto ele andava
castrando bezerros e amansando mulas nas
terras felizes dos cunhados, ela passeava à rédea solta num
tropel de primas comandadas
por Hildebranda Sánchez, a mais bela e prestimosa, cuja paixão sem futuro por um homem vinte anos mais velho, casado e com filhos, se conformava
com olhares furtivos.
Depois da prolongada estada em Valledupar prosseguiram viagem pelas
quebradas da serra, através de campinas floridas e mesetas de
sonho, e em todos os povoados foram recebidos como no
primeiro, com músicas e petardos, e
com novas primas confabuladas e mensagens pontuais
nas agências telegráficas. Em breve Fermina Daza viu que a tarde de sua chegada
a Valledupar não tinha sido extraordinária e sim
que naquela província feraz todos os dias da semana eram vividos
como se fossem de festa. Os visitantes dormiam onde os
apanhasse a noite e comiam onde a fome os
achava, pois eram casas de portas
abertas onde sempre havia uma rede pendurada e um cozido de três
carnes fervendo no fogão, para o
caso de alguém chegar antes do seu telegrama
de aviso, como em geral acontecia. Hildebranda Sánchez
acompanhou a prima o resto da viagem,
guiando-a com pulso alegre através dos carrascais do sangue até suas fontes de origem. Fermina Daza se reconheceu, se sentiu senhora de si mesma pela primeira vez, se sentiu acompanhada e protegida, os pulmões cheios de um ar de liberdade que lhe restituiu o sossego e a vontade de viver. Nos seus últimos anos ainda
evocava aquela viagem, cada vez
mais recente na memória, com a lucidez perversa da nostalgia.
Uma noite voltou do passeio diário aturdida pela revelação de que
não só se podia ser feliz sem amor
como também contra o amor. A revelação a alarmou, porque uma de suas primas tinha surpreendido uma conversa dos pais com Lorenzo Daza na
qual este tinha sugerido a idéia de concertar o casamento da filha
com o herdeiro único da fortuna fabulosa de Cleofás Moscote, Fermina
Daza o conhecia. Vira-o caracolando pelas praças seus cavalos perfeitos,
com jaezes tão
ricos que
pareciam paramentos
de missa,
e era elegante e destro, e tinha umas pestanas
de
sonhador que faziam suspirar as próprias
pedras, mas ela o comparou à
lembrança que tinha de Florentino
Ariza sentado embaixo das amendoeiras
da pracinha, pobre e escaveirado, com o livro de versos no colo, e não encontrou sombra de dúvida no seu coração.
Naqueles dias, Hildebranda Sánchez
andava delirando de ilusões
depois de visitar uma
pitonisa cuja clarividência a havia assombrado. Preocupada com as
intenções do pai, Fermina Daza também
foi consultá-la. As cartas do
baralho lhe anunciaram que não
havia em seu futuro nenhum obstáculo a um
casamento longo e feliz, e o prognóstico lhe devolveu o ânimo, pois não concebia que
um destino tão venturoso pudesse ser com homem que não fosse o que amava. Exaltada por essa certeza, assumiu o comando do seu arbítrio.
E por isso a correspondência telegráfica com Florentino
Ariza deixou de ser um concerto
de
intenções e promessas ilusórias, tornando-se
metódica e prática, e mais intensa do que nunca. Marcaram datas, estabeleceram
meios e modos, empenharam suas vidas na determinação comum de se casarem sem
consultar ninguém, onde fosse e como fosse, logo que se reencontrassem.
Fermina Daza considerava tão severo este compromisso
que a noite em que seu pai
lhe deu permissão para que assistisse a seu primeiro
baile de adultos, na aldeia de Fonseca, a ela não pareceu decente aceitar sem o consentimento de seu prometido.
Florentino Ariza estava aquela noite no hotel
suspeito, jogando baralho com Lotário Thugut, quando lhe avisaram da chegada de mensagem telegráfica urgente.
Era o telegrafista de Fonseca que havia conjugado sete postos
intermediários para que Fermina Daza pedisse licença para ir ao baile. Obteve-a, mas não se conformou com a simples resposta
afirmativa, pedindo prova de que na
realidade era Florentino Ariza quem estava operando o manipulador no outro
extremo da linha. Mais atônito do que
lisonjeado, ele compôs uma frase de
identificação: Diga- lhe que eu juro pela deusa coroada. Fermina Daza
reconheceu o santo e senha, e ficou no
seu primeiro baile de gente grande
até as sete da manhã, quando teve de trocar de
roupa às carreiras para não
chegar tarde à missa. Nessas alturas, tinha no fundo do baú mais cartas e telegramas do que os que o pai lhe tirara, e já se comportava com atitudes de mulher
casada. Lorenzo Daza interpretou aquelas mudanças no seu modo de
ser como prova de que a distância e o tempo a haviam
curado das fantasias juvenis, mas nunca lhe apresentou o projeto do casamento
combinado. As relações dos dois
ficaram fluidas, dentro das reservas
formais que ela lhe havia imposto desde a expulsão da tia Escolástica, o que lhes
permitiu uma convivência tão
cômoda que ninguém teria duvidado que se alicerçava no carinho.
Foi nessa época que Florentino Ariza resolveu lhe contar nas
cartas que se empenhava em resgatar para ela o tesouro do
galeão submerso. Era coisa certa, como tinha sentido num sopro de
inspiração, uma tarde luminosa
em que o mar parecia calçado de alumínio,
tal a quantidade de peixes
postos a boiar por plantas narcóticas usadas pelos pescadores. Todas as aves do céu se haviam alvoroçado com
a matança, e os
pescadores precisavam afugentá-las com os
remos para que não lhes disputassem
os frutos daquele milagre proibido. O
emprego do barbasco, que apenas
adormecia os peixes, estava interditado por lei
desde os tempos da Colônia,
mas continuou sendo prática comum em pleno
dia entre os pescadores do Caribe,
até que foi substituído pela
dinamite. Uma das diversões de Florentino
Ariza, enquanto durou a viagem de Fermina
Daza, era ver do cais como os
pescadores carregavam as canoas com redes inchadas de peixes adormecidos. Ao mesmo tempo, uma malta de meninos que nadavam como tubarões pedia aos
curiosos que atirassem moedas para que
as fossem fisgar no fundo da água. Eram os mesmos que nadavam com igual propósito ao
encontro dos transatlânticos, e sobre os quais se haviam escrito tantos relatos de viagem nos Estados Unidos e na Europa,
pela sua
mestria na arte de nadar debaixo d'água. Florentino Ariza
os conhecia da vida inteira, de antes de
conhecer o amor, mas nunca lhe havia
ocorrido que talvez fossem capazes de pôr à tona a fortuna do galeão. Ocorreu-lhe essa tarde, e do domingo seguinte até
o regresso de Fermina Daza, quase um ano depois, teve um motivo adicional de delírio.
Euclides, um dos meninos nadadores,
se animou tanto quanto ele com a idéia de uma exploração
submarina, depois de uma conversa de não mais de dez minutos. Florentino Ariza não lhe revelou o verdadeiro objeto do empreendimento, mas se informou a fundo sobre suas habilidades de mergulho e navegação.
Perguntou-lhe se conseguia descer sem ar
a vinte metros de profundidade, e
Euclides disse que sim. Perguntou se estava em condições de levar sozinho
uma canoa de pescador pelo mar alto em plena borrasca, sem instrumentos além do próprio instinto, e
Euclides disse que sim. Perguntou se seria capaz
de localizar um lugar
exato dezesseis milhas marítimas a
noroeste da ilha maior do arquipélago
de Sotavento, e Euclides disse que sim. Perguntou se era capaz de navegar à noite orientando-se pelas estrelas, e Euclides disse que sim. Perguntou se estava disposto a fazê-lo recebendo a mesma diária que lhe pagavam os pescadores para ajudá-los a pescar, e Euclides disse
que sim, mas com uma sobretaxa de cinco réis aos
domingos. Perguntou se sabia se defender dos tubarões, e Euclides disse
que sim, pois tinha artes mágicas de afugentá-los. Perguntou se era capaz
de guardar um segredo ainda que o pusessem nas máquinas de tormentos do palácio da Inquisição,
e Euclides disse que sim, pois não
dizia que não a nada, e sabia dizer sim com
tanta convicção que não havia jeito de duvidar
dele. No fim, fez as contas das despesas: o aluguel da canoa, o aluguel
dos remos, o aluguel de
instrumentos de pesca para
que ninguém desconfiasse da verdadeira intenção das excursões.
Era ainda preciso levar comida, um garrafão
de água doce, uma lamparina, um maço de velas de
sebo e um chifre de caçador para pedir auxílio em caso
de
emergência.
Tinha uns doze anos, e era ligeiro e astuto,
e falava sem parar e tinha um corpo de enguia
que parecia feito para que ele
se esgueirasse por qualquer escotilha. A
vida ao ar livre lhe havia
curtido tanto a pele que era impossível imaginar sua cor original, o que
tornava mais radiantes
seus
grandes olhos amarelos.
Florentino
Ariza resolveu
de pronto que era o cúmplice perfeito para uma aventura de semelhantes possibilidades, e a atacaram sem mais delongas no domingo seguinte.
Zarparam do porto dos pescadores ao amanhecer, bem providos
e melhor dispostos. Euclides quase nu, só com
a tanga que vestia sempre, e
Florentino Ariza com a sobrecasaca, o chapéu de
trevas, as botinas de verniz e
o laço de poeta no pescoço, e um livro para
se entreter na travessia até as
ilhas. Desde o primeiro domingo viu
que Euclides era de fato perito
navegante e bom mergulhador, e que tinha uma prática
assombrosa da natureza do mar e da
sucata da baía. Podia contar
com mínimos pormenores a história de cada
casco velho de navio roído de oxido, sabia a idade de cada bóia, a origem de qualquer escombro, o número de
elos da corrente com que os espanhóis fechavam a entrada da baía. Temendo que soubesse também qual o propósito de sua expedição, Florentino Ariza lhe fez algumas
perguntas insidiosas, comprovando que Euclides não tinha a menor suspeita
acerca do galeão afundado.
Ao ouvir pela primeira vez a história do tesouro
no hotel, Florentino Ariza se informara o mais possível sobre a crônica
dos galeões. Ficou sabendo que o San José
não estava só em seu leito
de corais. Era a nave
capitania da Frota de Terra Firme, e chegara aqui depois de maio de
1708, procedente da feira legendária de Portobello, no
Panamá, onde carregara parte de sua fortuna:
trezentos baús com prata do Peru e Veracruz, e cento e dez baús de pérolas juntadas e contadas na ilha de Contadora. Durante o longo mês em que
aqui permaneceu, de dias e noites de
festas populares, puseram a bordo o resto do tesouro destinado a
tirar da pobreza o reino da Espanha: cento e dezesseis baús de esmeraldas
de Muzo
e Somondoco, e trinta milhões de moedas de ouro.
A Frota de Terra Firme estava integrada por nada menos que doze embarcações de diferentes tamanhos, e zarpou deste porto
comboiada por uma esquadra francesa, muito bem armada, que mesmo assim não pôde salvar a expedição diante dos canhonaços certeiros da esquadra inglesa, sob as ordens do comandante Carlos Wager, que a esperou no arquipélago de Sotavento, à saída da baía. De modo que o San José não era a única nave afundada,
embora não houvesse certeza
documental de quantas haviam
sucumbido e quantas escapado ao fogo dos ingleses.
Do que não havia dúvida era que a nave capitania fora das primeiras a ir a pique, com a
tripulação completa e o comandante imóvel em seu castelo de proa, e que levava a carga
principal.
Florentino Ariza tinha conhecido a
rota dos galeões nas cartas de navegar
da época, e acreditava haver
determinado o lugar do naufrágio.
Saíram da baía por entre as duas fortalezas da Boca Chica, e ao fim de quatro horas de navegação entraram nas águas interiores do arquipélago, em cujo fundo de coral
podiam ser colhidas com a mão as
lagostas adormecidas. O ar era tão leve, e
o mar tão sereno e diáfano, que
Florentino Ariza se sentiu como se não passasse de seu próprio reflexo
na água. Para
lá do remanso, a
duas horas da ilha maior,
estava o lugar
do
naufrágio.
Congestionado em sua indumentária
fúnebre pelo sol infernal, Florentino Ariza explicou a Euclides que ali devia
descer a vinte metros e trazer qualquer coisa que encontrasse no fundo. A água
era tão clara que o viu mover-se no fundo, como um tubarão entre os tubarões azuis que se cruzavam com ele sem tocá-lo.
Depois o viu desaparecer num matagal de corais, e bem quando achou que ele não podia ter mais ar ouviu a voz às suas costas. Euclides estava parado
no fundo, com os braços levantados e água pela cintura. Por isso continuaram buscando lugares mais fundos, sempre para o norte, navegando por cima das arraias lentas, das lulas
tímidas, dos roseirais tenebrosos, até
que Euclides compreendeu que estavam perdendo
tempo.
— Se não me disser o que quer que eu encontre, não sei como vou encontrá-lo — disse.
Mas ele não falou. Então
Euclides lhe propôs que tirasse a
roupa e descesse com ele, ainda que só para ver
esse outro céu debaixo do mundo que eram os fundos de corais. Mas Florentino Ariza costumava
dizer que Deus tinha feito o mar só para olhá-lo pela
janela, e nunca aprendeu a nadar. Pouco
depois a tarde nublou, o ar
ficou frio e úmido, e escureceu tão
depressa que precisaram se guiar pelo
farol para encontrar o porto. Antes de entrar
na baía, viram passar muito perto
o transatlântico da França com todas as luzes acesas, enorme e branco, que ia
deixando um rastro de guisado mole e couve-flor fervida.
Desta forma perderam três domingos, e teriam continuado a
perdê-los todos se Florentino Ariza
não tivesse resolvido partilhar seu segredo com Euclides. Este modificou então
todo o plano da busca, e puseram-se a navegar pelo
antigo canal dos galeões, que estava a mais de vinte
léguas marítimas a oriente do lugar
previsto por Florentino Ariza. Antes de passados
dois meses, certa tarde de
chuva no mar, Euclides permaneceu muito
tempo no fundo, e a canoa tinha derivado tanto que
teve que nadar quase meia hora
para alcançá-la, já que Florentino
Ariza não conseguiu aproximá-la com os
remos. Quando por fim pôde
abordá-la, tirou da boca e
mostrou como triunfo da perseverança dois adereços de mulher.
O que contou era tão fascinante que
Florentino Ariza prometeu a si mesmo aprender a nadar, e afundar até onde pudesse só para comprová-lo com
os próprios olhos. Contou que naquele
lugar, a apenas dezoito metros de profundidade,
havia tantos veleiros antigos deitados entre os bancos de coral que era impossível sequer
calcular a quantidade, e estavam disseminados por um espaço tão extenso que eram de perder
de vista. Contou que o mais
surpreendente era que das tantas
carcaças de navios que ainda flutuavam na baía nenhuma estava em tão
bom estado quanto as naves submersas. Contou
que havia várias caravelas ainda com as velas intactas, e que as naves
afundadas eram visíveis no fundo, pois parecia que haviam afundado com seu espaço e seu tempo, de maneira
que ali continuavam alumiadas pelo mesmo sol das onze
da manhã do sábado 9 de junho em que
foram a pique. Contou,
afogando-se no próprio ímpeto da sua imaginação, que o
mais fácil de distinguir era o galeão San
José, cujo nome era visível na popa com letras de ouro, mas que ao mesmo tempo
era a nave mais danificada pela artilharia dos ingleses. Contou ter visto dentro um polvo de mais de três séculos
de idade, cujos tentáculos
saíam pelas seteiras dos canhões, mas havia crescido tanto na sala de refeições
de
bordo que para
libertá-lo só desmantelando a
nave. Contou que vira o corpo do comandante
com seu uniforme de guerra
flutuando de
lado dentro do aquário do castelo, e que se não
baixara até os porões do tesouro foi
porque o ar dos pulmões não
dera para tanto. Ali estavam as
provas: um brinco com uma esmeralda, e uma medalha da Virgem
com seu cordão carcomido pelo salitre.
Essa foi a primeira menção ao tesouro que Florentino Ariza fez
a Fermina Daza numa carta que lhe mandou a Fonseca pouco antes do seu regresso.
A história do galeão afundado lhe era familiar, pois a tinha ouvido sendo
contada a Lorenzo Daza muitas vezes. Ele
perdera tempo e dinheiro tratando de convencer
uma companhia de mergulhadores alemães a se
associar com ele para resgatarem o tesouro submerso. Teria insistido no empreendimento, se não tivesse
sido convencido por vários membros da
Academia da História de que a lenda do galeão naufragado era invenção de um certo vice-rei
bandoleiro, que para encontrar o
navio conseguira dinheiros da Coroa.
Em todo o caso, Fermina Daza sabia que o galeão estava a uma profundidade de duzentos metros, onde
nenhum ser humano poderia atingi-lo, e
não aos vinte metros que dizia Florentino Ariza. Mas estava tão acostumada a seus excessos
poéticos que celebrou a aventura do galeão
como um dos mais belos. Contudo, ao receber outras cartas com
pormenores ainda mais fantásticos, e escritos com tanta seriedade como seus protestos de amor, teve de confessar a Hildebranda seu temor
de que o noivo alucinado tivesse perdido
o juízo.
Naqueles dias, Euclides já tinha
emergido das águas com tais provas de sua fábula
que não se tratava mais de continuar ciscando brincos e anéis semeados
entre os corais, e sim de capitalizar uma empresa grande para recuperar
a meia centena de naves com a fortuna babilônica que continham. Aconteceu então o que mais cedo
ou mais tarde aconteceria, e foi que Florentino Ariza pediu ajuda à mãe para levar a bom porto sua aventura. A ela bastou-lhe morder o metal das
jóias, e olhar contra a luz as
pedras de vidro, para concluir
que alguém andava abusando da boa fé do filho.
Euclides jurou de joelhos a Florentino Ariza que não havia
nada de escuso em sua atividade, mas não deu nenhum ar de
sua graça domingo seguinte no porto dos pescadores, nem nunca mais em nenhuma parte.
A única coisa que aquele descalabro
rendeu a Florentino Ariza foi o refúgio de amor do
farol. Ali chegara na canoa de Euclides,
uma noite que os surpreendeu a
tempestade em mar aberto, e a partir de então costumava ir lá à tarde conversar com o faroleiro sobre as incontáveis
maravilhas da terra e da água que o faroleiro sabia. Esse foi o
início de uma amizade que sobreviveu às muitas
mudanças do mundo. Florentino
Ariza aprendeu a alimentar a luz, primeiro
com feixes de lenha e depois com botijões de óleo, antes que nos chegasse a energia elétrica.
Aprendeu a
dirigi-la e a
aumentá-la com espelhos, e nas várias
ocasiões em que o faroleiro não pôde fazê-lo, ficou ali, vigiando da torre as noites do mar. Aprendeu
a conhecer os navios pelas suas vozes, pelo
tamanho de suas luzes no horizonte,
e a perceber que algo deles lhe chegava
de volta nos relâmpagos do farol.
Durante o dia o prazer era outro, sobretudo aos domingos. No bairro dos Vice- Reis, onde moravam os ricos da cidade
velha, as praias das mulheres estavam separadas das dos homens
por um muro de argamassa: uma à direita, outra à esquerda do farol.
O faroleiro havia instalado uma luneta pela qual se podia contemplar, mediante o pagamento de um centavo, a praia das mulheres.
Sem se saberem observadas, as
senhoritas da sociedade se mostravam
o melhor que podiam dentro de suas roupas de banho de
largos panos, mais os sapatinhos de borracha
e os chapéus, tudo isso ocultando os
corpos quase tanto quanto a roupa de rua,
só que de forma menos atraente. Das margens as mães as
vigiavam, sentadas ao sol de rachar em
cadeiras de balanço de vime com os mesmos vestidos, os mesmos chapéus de plumas, as mesmas sombrinhas
de renda com que tinham ido à
missa solene, por temor de que
os homens das praias vizinhas as seduzissem
por baixo d'água. A realidade era que através da luneta não se podia ver mais nada, nem mais excitante do que se podia ver na
rua, mas eram muitos os clientes que acudiam cada
domingo para se disputarem o telescópio no puro deleite de provar os frutos insípidos do quintal alheio.
Florentino Ariza era um deles, mais por tédio do que por prazer, mas não foi esse atrativo adicional que o tornou
tão bom amigo do faroleiro. O motivo
real foi que a partir do menosprezo de Fermina Daza, quando ele contraiu
a febre dos amores dispersos na ânsia de substituí-la, só mesmo no farol viveu
horas felizes e encontrou consolo
para suas desditas. De tal forma que
durante anos procurou convencer sua mãe,
e mais tarde seu tio Leão XII, a ajudá-lo
a comprar o farol. É que os
faróis do Caribe eram então propriedade privada, e seus donos cobravam o direi to de passagem até o porto segundo o tamanho
dos navios. Florentino Ariza achava que era essa
a única maneira honesta de fazer um bom negócio com a
poesia, mas nem a mãe nem o tio achavam o mesmo, e quando ele pôde fazê-lo com recursos próprios os
faróis já tinham passado à propriedade do estado.
Nenhuma dessas ilusões
foi vã, não obstante. A fábula do galeão, e em seguida a novidade do farol,
foram aliviando para ele a ausência
de Fermina Daza, e quando ele menos o
pressentia chegou a notícia do regresso.
Com efeito, depois de uma estada
prolongada em Riohacha, Lorenzo Daza
tinha resolvido voltar. Não era a
época mais benigna do mar, devido aos
alíseos de dezembro, e a goleta histórica, a única que se arriscava à travessia, podia amanhecer de volta ao porto de origem, arrastada por um vento
contrário. Assim foi. Fermina Daza
passara uma noite de agonia, vomitando bílis, amarrada ao
beliche de um camarote que parecia uma privada de
botequim, não só pela estreiteza opressiva como pela pestilência
e o
calor. O balanço era tão forte que várias vezes teve a impressão de que iam arrebentar as
correias da cama, do convés lhe chegavam gritos
doloridos que
pareciam de naufrágio, e os roncos de tigre do
pai no beliche contíguo eram um ingrediente a mais do terror. Pela primeira vez em quase três anos passou
uma
noite em claro sem pensar um instante em Florentino
Ariza, enquanto que ele permaneceu insone na rede da loja de trás contando um a um os minutos eternos que faltavam para que ela
voltasse. Ao amanhecer, o vento cessou de
súbito e o mar se tornou
plácido, e Fermina Daza percebeu que dormira apesar dos estragos do enjôo,
porque a despertou o estrépito das correntes
da âncora. Então se livrou das
correias e olhou pela escotilha na ilusão de descobrir Florentino
Ariza no tumulto do porto, mas o que viu foram os armazéns da alfândega entre as palmeiras douradas pelos primeiros sóis, e o molhe
de barrotes apodrecidos de Riohacha, de onde a goleta zarpara a
noite anterior.
O resto do dia foi como uma
alucinação, na mesma casa em que tinha estado até a véspera, recebendo as mesmas visitas que dela se haviam despedido, falando as mesmas coisas, e aturdida pela impressão de estar vivendo de novo um pedaço de
vida já vivida. Era uma repetição
tão fiel que Fermina Daza estremecia à simples idéia de que
assim também tinha sido com a viagem da goleta,
cuja simples lembrança lhe causava
pavor. No entanto, a única
alternativa de voltar para casa eram duas semanas em lombo de
mula pelas cornijas da serra,
e em condições ainda mais
perigosas que da primeira vez, pois uma nova guerra civil iniciada no estado
andino do Cauca já se ramificava pelas províncias do Caribe. Por isso, às oito da noite foi acompanhada outra vez até o porto pelo mesmo cortejo de parentes barulhentos, com as mesmas
lágrimas de adeus e os mesmos volumes de pilhas de presentes de última
hora que não cabiam nos camarotes. No
momento de zarpar,
os homens da família
se despediram da goleta com uma salva de
disparos para o ar, e Lorenzo
Daza retribuiu do convés com os cinco
tiros do seu revólver. A ansiedade
de Fermina Daza se dissipou em breve, porque o vento foi favorável
a noite inteira, e o mar tinha um cheiro de
flores que a ajudou a dormir
bem sem as correias de segurança.
Sonhou que tornava a ver Florentino Ariza, e este
despiu a cara que ela sempre
tinha visto, porque na realidade era uma máscara,
mas a cara real era idêntica. Levantou-se muito
cedo, intrigada pelo enigma do sonho,
e encontrou o pai tomando
café com conhaque na cantina do capitão,
com o olho torcido pelo álcool, mas sem o menor
indício de preocupação pelo regresso.
Estavam entrando no porto. A goleta
deslizava em silêncio pelo labirinto de veleiros ancorados na enseada do mercado público, cuja pestilência se sentia a
léguas de distância no mar, e
a madrugada estava saturada de um chuvisco firme que em breve despencou num aguaceiro dos grandes. A postos no balcão da telegrafia,
Florentino Ariza reconheceu a goleta quando atravessava a baía das Animas
com as velas desanimadas pela chuva e ancorou diante do embarcadouro do mercado.
Tinha esperado na véspera até as onze da manhã,
quando soube por um telegrama casual do atraso da goleta
devido aos ventos contrários, e voltara
a esperar aquele dia desde as quatro da madrugada. Continuou esperando sem arredar a vista das chalupas que conduziam até a terra os escassos passageiros que
resolviam
desembarcar apesar da tempestade. Em sua maioria eles tinham que abandonar na metade do caminho a chalupa encalhada, e chegavam ao embarcadouro
chapinhando no lodaçal. Às oito,
depois de esperar em vão que estiasse,
um carregador negro com água
pela cintura recebeu Fermina Daza na amurada da
goleta e a levou nos braços até
a margem, mas estava tão ensopada que Florentino Ariza não conseguiu
reconhecê-la.
Ela própria não estava consciente do
quanto amadurecera na viagem, até que entrou na casa fechada e
empreendeu de pronto a tarefa heróica
de torná-la de novo habitável, com a ajuda de
Gala Placídia, a criada preta, que voltou à sua antiga senzala
logo que lhe avisaram do regresso. Fermina Daza não era mais a filha única, ao mesmo tempo mimada e tiranizada pelo pai, e sim a dona e senhora de um império de poeira e teias de aranha que só podia ser recuperado
graças à força de um amor
invencível. Não se acovardou, pois sentia em si um sopro de levitação que lhe daria a força de mover
o mundo. Na própria noite da volta, quando tomavam chocolate com
bolinhos de queijo na grande mesa da cozinha,
seu pai
lhe delegou os poderes de governo da casa, e o fez com o formalismo de
um ato sacramental.
— Entrego a você as chaves da sua própria vida — disse.
Ela, com dezessete anos feitos, assumia-a
com um
pulso firme, consciente de que
cada palmo da liberdade ganha era para o
amor. No dia seguinte, depois de uma noite
de maus
sonhos, padeceu pela primeira
vez o enfado do regresso, quando abriu a janela da sacada e tornou a ver o chuvisco triste da pracinha, a estátua do herói
decapitado, o banco de mármore em que Florentino Ariza costumava
sentar- se com um livro de versos.
Já não pensava nele como o noivo impossível
e sim como o marido certo a quem
se devia dos pés à cabeça. Sentiu quanto pesava o tempo desperdiçado
desde o dia em que partira, quanto custava estar viva, quanto amor lhe ia faltar para amar ao seu homem como
Deus mandava. Surpreendeu-a que ele não
estivesse na pracinha, como tantas vezes estivera apesar da chuva, e que não houvesse recebido qualquer sinal dele, por qualquer meio que fosse,
nem mesmo um presságio, e de pronto abalou-a a idéia de que houvesse
morrido. Mas em seguida descartou o mau pensamento,
porque no frenesi dos telegramas dos últimos dias, ante a iminência da volta, tinham esquecido de combinar um modo de continuarem se comunicando quando ela voltasse.
A verdade
é que Florentino Ariza estava certo de
que ela não tinha voltado, até que o telegrafista de Riohacha lhe confirmou que havia embarcado sexta-feira na mesma goleta que não chegara na véspera
devido aos ventos contrários. No fim da semana
esteve tentando divisar qualquer sinal de
vida na casa dela, e a partir do anoitecer
de segunda-feira viu pelas janelas uma luz ambulante
que pouco depois das nove se apagou no
quarto de dormir da sacada. Não dormiu, presa das mesmas ansiedades de náuseas que
perturbaram suas primeiras noites de
amor. Trânsito Ariza se levantou
com os primeiros gaios, alarmada porque não voltara o filho que saíra ao
pátio à meia-noite, e não
o encontrou na casa. Tinha ido errar pelo cais,
recitando versos de amor contra o vento, chorando de júbilo,
até que acabou de amanhecer. Às oito estava sentado sob os arcos do Café da Paróquia,
alucinado pela vigília, tratando de descobrir
um jeito de fazer chegar seus votos de
boas-vindas a Fermina Daza, quando se
sentiu sacudido por um abalo sísmico
que lhe dilacerou as entranhas.
Era ela. Atravessava a Praça da Catedral acompanhada por Gala Placídia, que carregava os cestos para as compras, e pela primeira vez não
trajava o uniforme escolar. Estava
mais alta do que ao partir, mais
perfilada e intensa, e com a beleza depurada
por um domínio de pessoa mais velha. A trança lhe havia
crescido de novo, mas não lhe pendia
mais pelas costas, atirada agora sobre o ombro esquerdo, e esta simples
mudança a despojara de todo traço infantil. Florentino Ariza permaneceu atônito em seu lugar,
até que aquela aparição acabou de atravessar
a praça sem afastar a vista do seu caminho. Mas o mesmo poder irresistível que o paralisara obrigou-o em seguida a se precipitar atrás dela quando dobrou a esquina da catedral e se perdeu no tumulto ensurdecedor das ruelas
do comércio.
Seguiu-a sem se deixar ver,
descobrindo os gestos cotidianos, a graça, a maturidade prematura do ser que
mais amava no mundo, e que via pela
primeira vez em seu estado natural.
Assombrou-o a fluidez com que abria
caminho na multidão. Enquanto Gala Placídia
ia aos encontrões, e se embaraçava com
os cestos e tinha que correr para não perdê-la de vista, ela navegava
na desordem da rua num espaço seu e num tempo
diferente, sem esbarrar em ninguém, feito um morcego
nas trevas. Tinha estado muitas vezes no
comércio com tia Escolástica, mas eram sempre compras miúdas, pois o pai em pessoa
se encarregava de abastecer a casa, e não só de móveis
e comida mas inclusive de roupas de
mulher. Por isso aquela primeira saída foi para
ela uma aventura fascinante, idealizada em seus sonhos de
menina.
Não prestou atenção à insistência dos ambulantes que lhe
ofereciam o jarabe, o xarope do amor
eterno, nem às súplicas dos mendigos
atirados às portas com suas chagas ao sol, nem ao
falso índio que tentava vender-lhe um jacaré amestrado. Deu uma volta grande
e minuciosa, sem rumo calculado,
com paradas que só tinham como motivo um prazer sem
pressa diante do espírito das coisas. Entrou em cada portal onde houvesse alguma coisa a vender, e por toda parte encontrou alguma coisa que aumentava sua ânsia de viver.
Deliciou-se com o hálito de vetiver
dos panos nos arcões, enrolou-se em sedas estampadas, riu-se do próprio
riso vendo-se fantasiada de madrilenha
com sua travessa e o leque de flores pintadas diante do espelho
de corpo inteiro de O Arame de Ouro. Na loja de importados
destapou um barril de arenques em salmoura que lhe lembrou
noites de nordeste, muito menina ainda, em São João da Ciénaga. Deram-lhe uma prova de
morcela de alicante que tinha
gosto de alcaçuz, e comprou duas para a refeição matinal de sábado, além de postas de bacalhau e um frasco de groselhas em aguardente. No balcão
de especiarias, pelo puro prazer do olfato,
macerou folhas de sálvia e de orégano nas palmas das mãos, e
comprou um punhado de cravos-da-índia, outro
de anis
estrelado, e outros
dois de gengibre e de zimbro, e saiu banhada em lágrimas de riso de tanto espirrar com os vapores da pimenta
de
Caiena. Na botica francesa,
enquanto comprava sabonete de Reuter e água de benjoim, puseram-lhe atrás da
orelha um toque do perfume que
estava na moda em Paris, e lhe deram uma pastilha desodorante para depois de fumar.
Brincava de fazer compras, sem dúvida, mas aquilo que de verdade
estava precisando comprava na hora, com uma autoridade que não deixava ninguém pensar que o fazia pela primeira vez,
pois estava consciente de que não
comprava para ela só e
sim para
ele também, doze jardas de
linho para as toalhas de mesa dos dois, o percal para os lençóis de bodas que teriam ao amanhecer o orvalho dos humores de
ambos, o mais delicioso de cada uma
das coisas que desfrutariam
juntos na casa do amor. Pedia abatimento e sabia fazê-lo,
discutia com graça e dignidade até conseguir o melhor, e pagava com
moedas de ouro que os lojistas
testavam pelo puro prazer de ouvi-las
cantar no mármore do balcão.
Florentino Ariza a espiava
maravilhado, a perseguia sem tomar fôlego, tropeçou várias vezes nos cestos da criada que
respondeu às suas desculpas com um sorriso, e ela havia
passado tão perto que ele sentira a
brisa do seu cheiro, e se nem então
o viu não foi porque não pudesse e sim pela altivez do seu modo de andar.
Ela lhe parecia tão bela, tão
sedutora, tão diferente da gente comum, que não compreendia que ninguém se transtornasse como ele com as castanholas dos seus saltos nas pedras do calçamento,
ou tivesse
o coração descompassado com os ares e suspiros de suas mangas, ou não ficasse louco de amor o
mundo inteiro com os ventos de sua trança,
o vôo de suas mãos, o ouro do seu riso. Não
perdera um gesto seu, nem um indício do seu caráter, mas não
se atrevia a se aproximar dela pelo medo de desfazer
o encanto. Contudo, quando ela se meteu na
balbúrdia do Portal dos Escrivães, ele descobriu que se arriscava a perder a ocasião que aguardara durante anos.
Fermina Daza compartilhava com suas companheiras de colégio a idéia estranha de que o Portal dos Escrivães era um lugar de perdição, vedado, é claro, às senhoritas
decentes. Era uma galeria de arcadas
diante de um largo
onde paravam os carros de aluguel e as carretas
de carga puxadas por burros, e onde se tornava mais denso e ruidoso o comércio
popular. O nome lhe vinha dos tempos da Colônia, porque ali se sentavam desde então os calígrafos
taciturnos, de paletós de lã e meias mangas postiças, que
escreviam por profissão toda classe de documentos a preços de pobre:
requerimentos de agravo ou de súplica, arrazoados jurídicos, cartões de cumprimentos ou de luto, missivas de
amor em qualquer das suas idades.
Não era dos escrivães, diga-se logo,
que vinha a má reputação daquele
mercado fragoroso, e sim de bufarinheiros mais atuais, que ofereciam
por baixo do balcão os muitos artifícios equívocos que chegavam de contrabando
nos navios da Europa, dos postais obscenos às pomadas tônicas e até aos
célebres preservativos catalães com cristas de
iguanas que pulsavam quando era o caso, ou com flores na extremidade para que
soltassem pétalas de acordo com
a vontade do usuário. Fermina Daza,
pouco perita no uso da rua, meteu-se no portal sem muito ver por onde andava, buscando uma sombra que aliviasse o sol bravo
das
onze.
Afundou na algaravia quente dos
engraxates e dos vendedores de pássaros,
dos livreiros de segunda mão e dos
curandeiros e das doceiras que
anunciavam aos berros por cima da bulha as
cocadas de pinhas para as mocinhas, de cocos para os loucos, de
panela para Micaela. Mas ela ficou indiferente ao estrondo, cativada
de pronto por um papeleiro que fazia demonstrações de tintas mágicas de escrever,
tintas vermelhas com a sugestão do
sangue, tintas de reflexos tristes para recados fúnebres, tintas
fosforescentes para se ler no escuro,
tintas invisíveis que o pleno resplendor da luz revelava. Ela as
queria todas para brincar com
Florentino Ariza, para impressioná-lo
com seu engenho, mas ao fim de várias experiências decidiu-se por um vidrinho de tinta de ouro. Foi
depois às doceiras sentadas por trás de suas grandes redomas, e comprou seis doces de cada espécie,
apontando-os com o dedo pelo cristal
porque não conseguia fazer-se ouvir na gritaria: seis de fios d'ovos, seis de leite, seis
tijolinhos de gergelim, seis de iúca e amêndoa,
seis de chocolate envolto em papel de
sorte, seis piononos de biscoito, seis bons-bocados de goiaba,
seis disto e seis daquilo, seis de tudo e os ia amontoando nos cestos da criada com uma graça irresistível, alheia por
completo às grossas nuvens de moscas em
cima do melado, alheia à algazarra contínua, alheia ao bafo de suores azedos suspensos no calor mortal. Despertou-a do feitiço
uma preta feliz, com um pano colorido na cabeça, redonda e formosa, que lhe ofereceu um
triângulo de abacaxi fisgado
na ponta de uma faca de açougueiro.
Ela o pegou, meteu-o inteiro na boca,
saboreando-o, e continuou a saboreá-lo, a vista errando pela multidão, quando uma comoção a pregou no lugar em que estava. Às suas costas, tão
perto de sua orelha que só ela pôde escutá-la no tumulto, tinha ouvido a voz:
— Este não é um bom
lugar para uma deusa coroada.
Voltou a cabeça e viu a dois palmos de seus olhos os outros olhos glaciais, o rosto lívido, os lábios petrificados de medo, tal como os vira no tumulto da
missa do galo pela primeira vez em que
ele estivera tão perto dela, mas ao
contrário daquela vez não sentiu agora
a comoção do amor e sim o abismo do desencanto. Num instante teve a revelação completa da magnitude do próprio engano, e
perguntou a si mesma, aterrada, como
tinha podido incubar durante tanto
tempo e com tanta ferocidade semelhante quimera
no coração. Mal conseguiu pensar:
"Deus meu, pobre homem!" Florentino Ariza sorriu,
procurou dizer alguma coisa, procurou acompanhá-la, mas ela o apagou de sua vida com um gesto da mão.
— Não, por favor —
disse. — Esqueça.
Naquela tarde, enquanto o pai dormia a sesta, mandou-lhe por Gala Placídia
uma carta de duas linhas: Hoje, ao
vê-lo, descobri que só nos unia uma ilusão. A criada
levou também os telegramas
dele, os versos, as camélias secas, e lhe pediu
que devolvesse as cartas e os presentes que ela lhe havia mandado: o missal
de tia Escolástica, as rendas
de
folhas secas
do
seu herbário, o centímetro
quadrado do
hábito de São Pedro
Claver, as medalhas de santos, a
trança dos seus quinze anos com o laço
de seda do uniforme escolar. Nos
dias seguintes, à beira da loucura, ele lhe escreveu numerosas cartas
de
desespero, e assediou a criada para que as levasse, mas esta cumpriu as instruções terminantes de não receber nada além dos presentes devolvidos. Insistiu com tanto afinco que Florentino
Ariza os mandou todos, salvo a trança, que não queria devolver enquanto Fermina
Daza não o recebesse em pessoa para conversar ainda que fosse um instante.
Não conseguiu. Temendo alguma determinação fatal do filho,
Trânsito Ariza desceu do seu orgulho
e pediu a Fermina Daza que lhe concedesse
a ela uma graça de cinco minutos, e Fermina Daza a atendeu um instante no saguão de sua casa,
de pé, sem convidá-la a entrar e sem
um pingo de fraqueza. Dois dias
depois, ao término de uma discussão com a mãe, Florentino Ariza
desprendeu da parede do seu quarto o empoeirado nicho de cristal
onde mantinha exposta a trança feito uma relíquia sagrada, e a própria Trânsito Ariza a devolveu no estojo de
veludo bordado com fios de ouro.
Florentino Ariza nunca mais teve a oportunidade
de
ver a sós Fermina Daza, nem de falar a sós com ela
nos tantos encontros de suas mui longas
vidas, até cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias mais tarde, quando lhe reiterou o
juramento de fidelidade eterna e amor para
todo o sempre em sua primeira noite de viúva.
O DOUTOR JUVENAL URBINO tinha sido aos vinte e oito
anos o mais cobiçado dos solteiros. Voltava
de uma
longa estada em Paris, onde fez estudos superiores de medicina
e cirurgia, e logo que pisou terra firme deu
mostras definitivas de que não
perdera um minuto de seu tempo. Voltou muito mais atilado e senhor de sua índole,
e se nenhum
dos seus companheiros de geração parecia tão severo e tão sábio quanto ele em sua ciência, também nenhum havia, por outro lado, que dançasse melhor a música
da moda ou improvisasse melhor ao
piano. Seduzidas por suas graças pessoais e pela certeza de sua fortuna familiar, as moças do seu meio faziam rifas secretas no jogo de ver quem
o prenderia, e ele também
fazia suas apostas em relação às moças, mas conseguiu manter-se em estado de graça,
intacto e tentador, até que sucumbiu sem
resistência aos encantos plebeus de Fermina
Daza.
Gostava de dizer que aquele amor tinha sido fruto de um equívoco clínico. Ele mesmo custava a crer que tivesse acontecido, menos ainda naquele momento de sua vida, quando todas as suas reservas passionais se concentravam na sorte de sua cidade,
da qual dissera com demasiada
freqüência e sem pensar duas vezes que não havia outra igual no mundo. Em
Paris, passeando de braço dado com uma
noiva casual num outono tardio, quase não conseguia conceber felicidade mais pura que
a daquelas tardes douradas, com cheiro rústico das castanhas nos
braseiros, os acordeões sentimentais, os
namorados insaciáveis que não acabavam de se beijar nunca na calçada dos cafés, mas mesmo
assim dizia a si mesmo com a mão no coração que não se dispunha a trocar por tudo aquilo um único instante do seu Caribe em abril. Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas
e que graças a esse artifício conseguimos suportar o passado. Mas quando
voltou a ver do convés do navio o promontório branco do bairro colonial, os urubus imóveis nos telhados, a roupa dos
pobres estendida a secar nas sacadas, compreendeu até que ponto tinha sido uma vítima fácil das burlas caritativas da saudade.
O navio abriu passagem na baía
através de uma colcha flutuante de animais afogados, e em sua maioria
os passageiros se abrigaram nos
camarotes fugindo à pestilência. O jovem médico desceu a ponte do navio vestido de alpaca perfeita, guarda-pó
sobre o terno, com uma barba de
Pasteur juvenil e o cabelo
repartido em risca nítida e pálida, e
com bastante domínio de si para dissimular
o nó na garganta
que não era de tristeza e sim de terror. No molhe
quase deserto, guardado por
soldados descalços e sem farda,
esperavam-no as irmãs e a mãe com os amigos mais queridos. Achou todos
macilentos e sem futuro, apesar dos
ares mundanos, e falavam da crise e da guerra civil como algo remoto e alheio, mas todos tinham um tremor evasivo na voz e uma incerteza nas pupilas que desmentiam as
palavras. Quem mais o comoveu foi a mãe, uma mulher ainda moça que se havia
imposto na vida com sua elegância e seu ímpeto social, e que agora murchava a
fogo lento na aura de cânfora
dos seus crepes de viúva.
Ela sem dúvida se reconheceu no constrangimento do filho,
tomando a dianteira de lhe perguntar em defesa própria por
que vinha ele com essa pele transparente como parafina.
— É a vida, mãe —
disse ele. — Fica-se verde em Paris.
Pouco depois, derretendo-se de calor junto
a ela na carruagem fechada,
não agüentou mais a inclemência da realidade que se metia aos borbotões pelo postigo. O mar parecia de cinza, os antigos palácios de
marqueses estavam a ponto de sucumbir
à proliferação dos mendigos, e era impossível encontrar a fragrância
ardente dos jasmins por trás das emanações
mortais dos esgotos abertos. Tudo lhe pareceu
mais mesquinho do que quando partira, mais indigente e
lúgubre, e havia tantas ratazanas famintas na lixeira das ruas que os cavalos do carro
tropeçavam assustados. Do longo caminho do porto
até sua casa, no coração do bairro dos Vice- Reis, não viu nada que lhe parecesse
digno de suas saudades. Derrotado, virou a cabeça para que a mãe não o visse, e
se pôs a chorar em silêncio.
O antigo palácio do Marquês de Casalduero, residência
histórica dos Urbino de Ia Calle,
não era o que se mantinha mais
altivo no meio do naufrágio. O doutor Juvenal Urbino fez essa descoberta
com o coração em pedaços logo que
entrou no saguão tenebroso e viu o repuxo poeirento do jardim interior, e os canteiros sem flores por onde
andavam lagartos, e reparou que faltavam muitas
lajes de mármore, e que outras estavam partidas, na vasta
escada de balaústres de cobre
que levava aos aposentos
principais. Seu pai, um médico mais
abnegado do
que eminente, tinha morrido na epidemia de cólera asiático que assolou a população seis anos antes, e com ele morrera
o espírito da casa. Dona Blanca, a
mãe, sufocada por um luto previsto para ser
eterno, substituíra por novenas
vespertinas os célebres saraus líricos e os concertos de câmara do marido
morto. As duas irmãs, contra suas graças naturais e sua vocação festiva, eram carne de convento.
O doutor Juvenal Urbino não dormiu nem um instante
da noite da chegada, assustado pela escuridão e o silêncio, e rezou três terços ao Espírito Santo e quantas orações
ainda sabia para conjurar
calamidades e naufrágios c toda
classe de ameaças da noite, enquanto uma saracura que se enfiou pela porta mal fechada cantava a cada hora, na hora em ponto, dentro do quarto.
Foi atormentado pelos gritos alucinados das loucas no vizinho manicômio da Divina
Pastora, a gota inclemente da talha na bacia com uma ressonância que enchia o âmbito da casa, os passos da saracura perdida no quarto, seu medo
congênito do escuro, a presença
invisível do pai morto
na vasta mansão adormecida. Quando a saracura cantou as cinco, junto com os gaios da vizinhança, o doutor Juvenal Urbino se encomendou de corpo e alma à Divina Providência,
porque não se sentia com ânimo para viver
um dia mais em sua pátria de
escombros. Contudo, o afeto dos
seus, os domingos campestres, os agrados cobiçosos das solteiras de sua classe acabaram por mitigar as amarguras de primeira impressão.
Foi pouco a pouco se habituando aos
bochornos de outubro, aos odores excessivos, aos juízos prematuros dos amigos, ao amanhã veremos, doutor, não se preocupe,
e terminou por se render aos
sortilégios do hábito. Não tardou a conceber uma explicação fácil para sua entrega.
Aquele era seu mundo, disse a si mesmo,
o mundo triste e opressivo que Deus
lhe destinara, e a ele se devia.
A primeira coisa que fez foi tomar posse do consultório do pai.
Conservou no lugar os móveis ingleses, duros
e sérios, cujas madeiras suspiravam
com os gelos do amanhecer, mas
despachou para o sótão os tratados da ciência vice-reinal e da medicina romântica, e colocou nas estantes cobertas de vidro os da nova escola da
França. Tirou da parede os cromos desbotados, com exceção
daquele em que se vê o médico disputando à morte uma doente nua, e o juramento hipocrático impresso em letras
góticas, e pendurou em seus lugares, ao lado do diploma único do pai, os muitos e muitos variados que obtivera com qualificações
ótimas em diferentes escolas da Europa.
Tratou de impor critérios atualizados no Hospital da Misericórdia, mas não
achou a tarefa tão fácil como imaginara em seus entusiasmos juvenis, pois a bolorenta casa de
saúde se agarrava às
superstições atávicas, como a de colocar
os pés das camas em potes com água para impedir que as doenças subissem,
ou a de exigir traje de etiqueta e luvas de camurça na sala de cirurgia,
visto que se dava por axiomático que a elegância era condição essencial da
assepsia. Não podiam suportar
que o jovem recém-chegado provasse a urina do doente para descobrir a presença
de açúcar, que citasse Charcot
e Trousseau como se fossem seus companheiros de quarto, que fazia na aula severas advertências sobre os riscos
mortais das vacinas e por outro lado
nutria uma fé suspeita no novo
invento dos supositórios. Esbarrava em tudo:
seu espírito renovador, seu civismo maníaco, seu humor
sutil numa terra de famosos
chalaceiros, todas as suas virtudes
mais apreciáveis suscitavam o receio dos colegas mais velhos e as troças que pelas costas lhe faziam os jovens.
Sua obsessão era o perigoso estado sanitário da cidade. Fez apelos
às instâncias superiores para que
desativassem as cloacas espanholas, que eram um
imenso viveiro de ratos, e construíssem em seu lugar
esgotos fechados cujos despejos não desembocassem na enseada do mercado, como sempre ocorrera, e sim em algum desaguadouro distante. As casas
coloniais bem equipadas tinham latrinas com
fossas sépticas, mas dois
terços da população amontoada em barracas
à margem dos charcos faziam suas necessidades
ao ar livre. As fezes secavam ao sol, viravam poeira, e eram respiradas por iodos com regozijos
natalinos nas frescas e venturosas brisas
de
dezembro. O doutor
Juvenal Urbino criou
na Municipalidade um curso
obrigatório para ensinar os pobres a construírem suas próprias
latrinas. Lutou em vão para que o lixo não fosse atirado aos manguezais, convertidos há séculos
em tanques de putrefação, e para que fosse recolhido
pelo menos duas vezes por dia
e incinerado em algum lugar despovoado.
Tinha consciência da ameaça mortal que era a água de beber. A mera idéia de construir um aqueduto parecia fantástica, pois os que teriam podido impulsioná-la dispunham de cisternas
subterrâneas onde se armazenavam
debaixo de uma espessa nata de limo as águas chovidas durante anos. Entre
os móveis mais apreciados da época estavam as talhas de madeira lavrada cujos filtros de pedra
gotejavam dia e noite para dentro de bacias. Para impedir que alguém bebesse do próprio
jarro de alumínio
com que se apanhava a água, este tinha as bordas denteadas feito a
coroa de um rei de brincadeira.
A água era vítrea e fresca na penumbra da argila
cozida, e deixava na boca um sabor de floresta.
Mas o doutor Juvenal Urbino não caía nesses
embustes de purificação, pois
sabia que apesar de tantas precauções o fundo das talhas era um refúgio de vermes.
Havia passado as vagarosas horas da infância
a contemplá-los com um assombro quase
místico, convencido como tanta gente naquele tempo de que esses vermes eram
alminhas, criaturas sobrenaturais que
cortejavam donzelas nos sedimentos das águas pasmadas, e eram capazes de furiosas
vinganças de amor. Tinha visto
quando menino os escombros da casa de
Lázara Conde, uma professora
que se atreveu a fazer pouco dessas alminhas, e tinha visto a esteira
de vidro partido na rua e o montão de pedras que atiraram durante três dias e três noites contra suas janelas. De maneira
que passou muito tempo até aprender
que os vermes eram na realidade as larvas dos pernilongos, mas aprendeu para nunca mais esquecer, porque desde
então compreendeu que não só eles como muitas
outras alminhas danadas podiam
passar intactos através dos nossos ingênuos filtros de pedra.
À água das cisternas se atribuiu
durante muito tempo, e com muita honra, a hérnia rio escroto que
tantos homens da cidade suportavam
não só sem pudor como inclusive com certa insolência patriótica.
Quando Juvenal Urbino ia à escola primária
não conseguia reprimir um arrepio de horror ao ver os potrosos sentados à porta de suas casas
nas tardes de calor, abanando o testículo enorme como se tivessem uma criança adormecida entre as pernas. Dizia-se que a hérnia emitia um
pio de pássaro lúgubre nas noites de tempestade
e se retorcia com uma dor insuportável se queimavam por perto uma pena
de
urubu, mas ninguém se queixava
de tais percalços porque uma hérnia grande
e bem tratada se ostentava antes
de mais nada como um apanágio de homem. Quando o
doutor Juvenal Urbino voltou da Europa
já conhecia muito bem a falácia
científica de tais crendices, mas
estavam tão arraigadas na
superstição local que muitos se opunham ao enriquecimento mineral da água das
cisternas por temerem tirar
dela a virtude de causar uma
hérnia nobilitante.
Tanto quanto com as impurezas da água, alarmava-se o doutor Juvenal
Urbino com o estado higiênico do mercado
público, um vasto descampado fronteiro à baía
das
Animas, onde atracavam os veleiros
das Antilhas. Um viajante ilustre da
época o descreveu como um dos
mais variados do mundo. Era rico, sem dúvida, profuso e ruidoso, mas era
também talvez o mais assustador. Assentava-se em
sua própria cloaca, à mercê das veleidades
da maré, e era ali que os arrotos da baía devolviam à terra as imundícies dos
esgotos. Também se atiravam ali os restos do matadouro contíguo, cabeças decepadas,
vísceras podres, e estéreo de animais, que ficavam boiando ao sol e ao sereno
num pântano de sangue. Os urubus os disputavam com os
ratos e os cachorros numa contenda
perpétua, entre os veados e os capões saborosos que vinham de Sotavento e se dependuravam nos barrotes dos barracões, e os legumes
primaveris de Arjona expostos em cima de
esteiras, no chão.
O doutor Juvenal Urbino queria
sanear o lugar, queria que pusessem o
matadouro em outra parte, que construíssem um mercado coberto com cúpulas de
vidraças como o que conhecera nas antigas feiras de Barcelona, onde as provisões eram tão vistosas e limpas que dava para comê-las. Mas mesmo os mais compreensivos dos seus amigos notáveis se compadeciam de sua paixão ilusória. Eram assim: passavam a vida proclamando o orgulho
de sua
origem, os méritos históricos da cidade,
o valor de suas relíquias, seu heroísmo e sua
beleza, mas eram cegos ao caruncho dos anos. Enquanto que o doutor
Juvenal Urbino lhe tinha amor
bastante para vê-la com os olhos da verdade.
—
Muito nobre será esta cidade — dizia — se há quatrocentos anos procuramos acabar com ela e ainda não conseguimos.
Estavam quase, no entanto. A
epidemia de cólera morbo, cujas
primeiras vítimas tombaram fulminadas nos charcos do mercado, causara em onze
semanas a maior mortandade da nossa história. Até então, alguns mortos
insignes eram sepultados debaixo das lajes
das igrejas, na vizinhança esquiva dos
arcebispos e dignitários, e os menos ricos eram enterrados nos pátios dos conventos. Os pobres
iam para o cemitério colonial, numa colina ventosa separada da cidade por um canal de águas áridas,
cuja ponte de argamassa tinha uma marquise com um letreiro esculpido por ordem de
algum prefeito clarividente: Lasciate ogni speranza voi ch 'entrate. Nas duas primeiras semanas do cólera o cemitério transbordou, e não
ficou um único lugar nas igrejas,
apesar de haverem passado ao ossuário
comum os restos carcomidos de numerosos próceres sem nome. O ar da catedral
ficou rarefeito com os vapores das criptas
mal lacradas, e suas portas só vieram a se abrir três anos depois, por volta da época em que Fermina
Daza viu Florentino Ariza de perto
pela primeira vez na missa do galo. Na
terceira semana o claustro do convento de Santa Clara ficou à cunha até
nas alamedas, e foi preciso habilitar
como cemitério o horto da comunidade,
que era duas vezes maior. Ali
escavaram sepulturas profundas para enterrar
em três níveis, às pressas e sem caixões,
mas foi preciso desistir delas porque
o solo revolvido ficou feito uma
esponja que ressumava debaixo
dos pés
uma sangueira nauseabunda.
Determinou-se então prosseguir com os
enterramentos em A Mão de Deus,
uma fazenda de gado de corte a menos de uma légua da cidade, que mais tarde foi consagrada
como Cemitério Universal.
A partir do momento em que se afixou
o édito do cólera, no quartel da guarnição local começou o disparo de um tiro
de canhão a cada quarto de hora, de dia e
de
noite, de acordo com a
superstição cívica de que a pólvora
purificava o ambiente. O cólera se encarniçou
muito mais contra a população negra,
por ser a mais numerosa e pobre, mas na realidade não teve
contemplação com cores nem linhagens.
Parou de
chofre como havia começado, e nunca se
soube o número de suas vítimas,
não porque fosse impossível
estabelecê-lo, e sim porque uma de nossas virtudes
corriqueiras era o pudor das próprias desgraças. O doutor Marco Aurélio
Urbino, pai de Juvenal, foi um herói
civil daqueles dias infaustos, e
também sua vítima mais notável. Por
determinação oficial concebeu e dirigiu em pessoa
a estratégia sanitária, mas de sua própria iniciativa acabou por intervir em todos os assuntos da ordem social, a ponto de que nos instantes mais críticos da peste não parecia existir nenhuma autoridade mais alta do que
a sua. Anos depois, revendo a crônica
daqueles dias, o doutor Juvenal Urbino comprovou que o método do pai tinha
sido mais caritativo do que
científico, e que de muitas maneiras era contrário à razão,
favorecendo assim em grande parte a voracidade da peste. Fez essa constatação com a com paixão dos filhos que a vida foi convertendo
pouco a pouco em pais dos próprios
pais, e pela primeira vez doeu-lhe não ter estado ao lado do seu na
solidão dos erros que cometeu. Mas
não lhe regateou os méritos: a diligência e a abnegação, e
sobretudo sua valentia pessoal,
tornaram-no digno das muitas homenagens que lhe prestaram quando a cidade se
restabeleceu do desastre, e seu nome
se inseriu com justiça entre os
de
tantos outros próceres de outras guerras menos recomendáveis.
Não desfrutou sua
glória. Quando reconheceu em si mesmo os transtornos irreparáveis que tinha
visto e lamentado nos outros, sequer tentou travar uma batalha
inútil,
limitando-se a se afastar do
mundo para não contaminar ninguém. Fechado sozinho num quarto de serviço do Hospital da Misericórdia,
surdo ao chamado dos colegas e à súplica dos seus,
alheio ao horror dos pestíferos
que agonizavam no assoalho dos
corredores apinhados, escreveu à esposa e aos filhos
uma carta de amor
febril, de gratidão por haver
existido, na qual revelava quanto e com quanta avidez amara a vida. Foi um adeus de
vinte folhas desatinadas nas
quais se notavam os progressos do mal pelo declínio da escrita, e não era preciso ter conhecido
quem escrevera aquilo para saber que a assinatura foi colocada ali com o último suspiro. De acordo com
suas disposições, o corpo cinzento se confundiu no cemitério comum, e
não foi visto por ninguém entre os que o haviam amado.
O doutor Juvenal Urbino recebeu o
telegrama três dias depois em Paris,
durante um jantar de amigos, e fez um brinde com
champanha à memória do pai. Disse:
"Era um homem bom."
Mais tarde haveria de criticar a si mesmo por sua falta de
maturidade: negaceava com a realidade para
não chorar. Mas três semanas depois recebeu uma cópia da carta
póstuma, e então se rendeu à verdade.
De um só golpe revelou-se a ele a imagem do homem que conhecera antes de qualquer outro, que o
havia criado e instruído e havia dormido e
fornicado trinta e dois anos com sua mãe, e que no entanto, antes da última
carta, nunca se mostrara tal
como era de corpo e alma, por timidez
rira e simples. Até então o doutor
Juvenal Urbino e sua família tinham concebido a morte como um percalço que acontecia aos outros, aos pais dos outros, aos irmãos e cônjuges alheios
e nunca aos próprios. Eram pessoas
de vidas lentas, às quais ninguém via envelhecer, nem adoecer
e morrer, que se desvaneciam aos
poucos no seu tempo, transformando-se
em lembranças, brumas de outra
época, até serem assimiladas pelo esquecimento. No entanto, uma de suas lembranças
mais antigas, talvez dos nove anos, dos onze anos talvez, era de certo modo um sinal prematuro da morte
através do seu pai. Tinham ficado os dois no escritório da casa uma
tarde chuvosa, ele desenhando calhandras e girassóis
com giz de cor nos ladrilhos do chão,
e o pai lendo contra a luz da janela,
colete desabotoado e braçadeiras de elástico nas mangas da camisa.
De repente interrompeu a leitura para cocar as costas com um coçador de cabo comprido e mãozinha de
prata na ponta. Como não conseguiu,
pediu ao filho que o cocasse
com as unhas, o que ele fez com
a sensação curiosa de não sentir o próprio
corpo sendo cocado. Quando parou o pai
o olhou por cima do ombro com um sorriso triste.
—
Se eu caísse
morto agora — disse — você mal se lembraria
de mim
quando tivesse minha idade.
Disse isto sem qualquer
motivo visível, e o anjo da morte flutuou
um instante na penumbra fresca
do escritório, e tornou a sair pela
janela deixando ao passar um rastro de penas, mas o menino não as viu. Mais de vinte anos haviam passado desde então, e
Juvenal Urbino ia ter em breve a idade que tinha o pai aquela tarde. Sabia- se idêntico
a ele, e à consciência disso se somava agora a consciência surpreendente de ser tão
mortal quanto ele.
O cólera se transformou em obsessão. Não sabia a respeito mais do que
aprendera na rotina de algum curso
marginal, e lhe parecera inverossímil que há apenas trinta anos tivesse causado
na França, inclusive em Paris, mais de cento e quarenta mil mortes. Mas depois da morte
do pai
aprendeu tudo que se podia
aprender sobre as diversas formas do cólera,
quase como uma penitência para dar
descanso à sua memória, e foi aluno
do epidemiólogo mais destacado
do seu
tempo e criador dos cordões
sanitários, o professor Adrien Proust, pai do grande romancista. De modo que quando
voltou à sua terra e sentiu vinda do mar a pestilência do mercado, e viu os ratos nos esgotos
expostos e os meninos se revolvendo nus nas poças das ruas, não só compreendeu
que a desgraça tivesse acontecido como
teve a certeza de que se repetiria a qualquer momento.
Não passou muito
tempo. Antes de um ano,
seus alunos
do Hospital da Misericórdia
lhe pediram que os ajudasse com um enfermo indigente que apresentava uma estranha coloração azul em todo o corpo. Bastou ao doutor
Juvenal Urbino vê-lo da porta para reconhecer o inimigo. Mas a sorte
ajudou: o doente tinha chegado três dias antes numa goleta de Curaçau
e tinha ido
à consulta
externa do hospital por seus próprios meios, não
parecendo provável que houvesse contaminado
ninguém. Por via das dúvidas, o doutor Juvenal Urbino
preveniu os colegas, conseguiu que as
autoridades transmitissem o alarma aos
portos vizinhos com o fim de localizar e pôr em quarentena a goleta empestada, e teve que moderar o chefe militar
da praça,
que queria decretar a lei marcial
a aplicar de pronto a terapêutica do tiro de
canhão a cada quarto de hora.
—
Economize a pólvora para quando venham os liberais — lhe disse com bom humor. —
Não estamos mais na Idade Média.
O doente morreu quatro dias depois,
sufocado por um vômito branco e granuloso, mas nas semanas seguintes não se descobriu nenhum outro
caso, apesar do alerta constante.
Pouco depois, o Diário do Comércio
publicou a notícia de que duas
crianças tinham morrido de cólera em
diferentes lugares da cidade. Comprovou-se que uma delas tinha disenteria comum, mas a outra, uma menina de cinco anos, parecia ter sido, com efeito, vítima do cólera. Seus pais e três irmãos foram separados e postos de quarentena individual, e todo o bairro foi submetido a uma vigilância médica estrita. Uma das crianças contraiu o cólera e se recuperou muito depressa,
e toda a família voltou para casa quando passou o perigo. Onze casos mais se registraram no curso de três
meses, e no quinto houve um recrudescimento alarmante, mas no
final do ano considerou-se que os
riscos de uma epidemia tinham
sido conjurados. Ninguém pôs em dúvida
que o rigor sanitário do doutor Juvenal Urbino, mais do que a eficiência
de sua pregação, tinha tornado possível o prodígio. Desde então, e
quando já avançara muito este século,
o cólera ficou endêmico não só na
cidade como em quase todo o litoral do Caribe
e a bacia do Madalena, sem tornar a recrudescer como epidemia. O
alarma serviu para que as
advertências do doutor Juvenal Urbino fossem atendidas com mais
seriedade pelo poder público. Foi imposta a cátedra obrigatória do cólera e da febre amarela, e reconheceu-se a urgência de cobrir os esgotos e construir um mercado distante do despejo do lixo.
Contudo, o doutor Urbino não se preocupou
na ocasião em proclamar vitória nem se sentiu com ânimo de perseverar em suas missões sociais,
porque ele mesmo tinha então uma asa
quebrada, aturdido e disperso, e decidido a
mudar tudo e a esquecer tudo mais na
vida frente ao relâmpago de amor de Fermina
Daza.
Foi, em verdade, fruto de um equívoco
clínico. Um médico amigo, que julgou vislumbrar
os sintomas premonitórios do cólera numa paciente de dezoito anos, pediu ao doutor Juvenal Urbino que fosse visitá-la. Foi na mesma tarde, alarmado pela possibilidade de que a peste tivesse entrado no santuário da
cidade velha, já que todos os casos até então tinham ocorrido
nos bairros marginais, e quase todos entre a população negra. Encontrou outras
surpresas menos ingratas. A casa, à
sombra das amendoeiras do parque dos Evangelhos, vista de fora
parecia tão arruinada como as outras do recinto
colonial, mas dentro dela havia uma ordem
de beleza
e uma luz atônita que parecia de outra
idade do mundo. O saguão dava direto num pátio sevilhano, quadrado e branco de cal recente, com laranjeiras floridas
e o
piso empedrado com
os mesmos azulejos das paredes.
Havia um rumor invisível de água contínua, potes de cravos nas cornijas e gaiolas de pássaros raros nas arcadas. Os mais
raros, numa gaiola muito grande, eram três corvos que ao
sacudir as asas saturavam o pátio de um perfume equívoco. Vários cães
acorrentados em algum lugar da casa
começaram logo a ladrar, enlouquecidos pelo cheiro do estranho, mas um grito
de mulher
os fez calar na hora, e numerosos gatos saltaram de todos os cantos e se esconderam entre as flores, assustados pela autoridade da voz. Então se fez um silêncio
tão diáfano que através da desordem
dos pássaros e das sílabas da água
na pedra se percebia o alento desolado do mar.
Abalado pela certeza da
presença física de Deus,
o doutor Juvenal Urbino pensou que uma
casa como aquela era imune à
peste. Seguiu Gala Placídia pelo
corredor de arcos, passou pela janela do quarto
de costura onde Florentino Ariza viu
pela primeira vez Fermina Daza, quando o pátio estava ainda em escombros, subiu pelas escadas de mármores
novos até o segundo andar, e esperou
ser anunciado antes de entrar no quarto da doente. Mas Gala Placídia
tornou a sair com um recado:
— A senhorita disse que não pode entrar
agora porque seu pai não está
em casa. Por isso voltou às
cinco da tarde, de acordo
com a indicação da criada, e
Lorenzo
Daza em pessoa lhe abriu o
portão e o conduziu até o quarto da filha. Ficou
sentado
na penumbra dum
canto do quarto, com os braços
cruzados e fazendo esforços vãos para dominar a respiração penosa, enquanto
durou o exame. Não era fácil saber quem estava mais constrangido, se o médico com seu tato pudico ou a enferma com
seu recato de virgem dentro do camisolão
de seda, mas nenhum olhou o outro nos olhos,
enquanto ele fazia perguntas
com voz impessoal e ela respondia com
voz trêmula, ambos pendentes do homem
sentado na penumbra. Por fim o
doutor Juvenal Urbino pediu à doente que se
sentasse, e lhe abriu a
camisola até a cintura com mil cuidados:
o peito intacto e altivo, de bicos infantis, resplandeceu um instante feito uma labareda nas
sombras da alcova, antes que ela se apressasse a ocultá-lo com os braços
cruzados. Imperturbável, o médico lhe afastou os
braços sem olhá-la, e fez a auscultação direta com a orelha contra a pele, primeiro o peito e
depois as costas.
O doutor Juvenal Urbino costumava
contar que não experimentou nenhuma emoção
quando conheceu a mulher com quem havia de
viver até o dia da morte. Lembrava a camisola azul clara
com bainha de renda, os olhos febris, o cabelo comprido, solto sobre os ombros, mas estava tão
obnubilado pela irrupção da peste no
quarteirão colonial que não reparou em nada do muito que
tinha ela de adolescente em flor, concentrado
no mais íntimo que pudesse ter de empestada.
Ela foi mais explícita: o jovem
médico de quem tanto ouvira falar a propósito do cólera lhe pareceu um pedante incapaz de amar qualquer pessoa além dele mesmo. O diagnóstico foi uma infecção intestinal de origem alimentar que cedeu com um tratamento caseiro de três dias. Aliviado com a constatação de que a filha
não contraíra o cólera, Lorenzo Daza acompanhou o doutor Juvenal Urbino
até o estribo
do
carro, pagou-lhe o peso ouro da visita que lhe pareceu excessivo mesmo para um
médico de gente rica, mas dele
se despediu com demonstrações
exageradas de gratidão. Estava
deslumbrado com o esplendor dos seus nomes de
família, e não só não o
disfarçava como teria feito qualquer
coisa que fosse para vê-lo outra vez, e em circunstâncias menos formais.
O caso devia dar-se por encerrado. Contudo, na
terça-feira da semana seguinte, sem ser chamado e sem se anunciar de qualquer forma, o doutor Juvenal Urbino lá voltou à hora
inoportuna de três da tarde. Fermina Daza estava no
quarto de costura, tendo uma lição de pintura a óleo junto com duas amigas, quando ele apareceu à janela de sobrecasaca branca, imaculada, e o
chapéu também branco, de copa alta, e lhe fez sinal para que se
aproximasse. Ela pôs o bastidor na cadeira e se dirigiu à janela caminhando na ponta dos pés com a cauda do vestido levantada até os tornozelos para que não arrastasse. Usava um diadema com uma pequena jóia pendente da testa,
de luminosa
pedra da mesma cor fugidia dos
seus olhos,
e ela
toda exalava uma aura de frescor. Chamou a atenção do médico
que ela se vestisse para pintar
em casa como se fosse a uma festa.
Tomou-lhe o pulso do lado de fora
da janela, fez com que mostrasse a língua, examinou-lhe a garganta com uma espátula de alumínio, olhou por dentro a parte inferior da pálpebra, fazendo de cada
vez um gesto de aprovação. Estava menos constrangido do que na visita anterior, mas ela
mais, por não entender a razão daquele exame imprevisto, quando ele próprio
tinha dito que não voltaria a menos que
o chamassem devido a alguma novidade.
E havia outra coisa: não queria tornar a vê-lo nunca mais. Quando terminou o
exame, o médico guardou a espátula na maleta atulhada
de
instrumentos e vidros de remédio, e fechou-a com um golpe seco.
— Está como uma rosa recém-nascida — disse ele.
—
Obrigada.
—
Agradeça a Deus — disse ele, e citou São Tomás mal: — Lembre que tudo que é bom, venha
de onde vier, provém do Espírito Santo. Gosta de música?
Fez a pergunta com um sorriso encantador, de um modo
natural, mas ela não retribuiu.
— Qual o motivo da pergunta? — perguntou por sua vez.
— A música é importante para a saúde — disse ele.
Acreditava mesmo, e ela ia ver muito em breve
e pelo resto da vida que o tema da música
era quase uma fórmula mágica que ele usava para propor uma amizade, mas naquele momento ela entendeu que era uma brincadeira. Além disso, as duas amigas
que tinham fingido pintar enquanto eles conversavam
na janela deram umas risadinhas
abafadas e taparam a cara com os
bastidores, o que acabou de desorientar
Fermina Daza. Cega de fúria, bateu a
janela com um golpe seco. O médico, perplexo diante das cortininhas de renda, virou-se e procurou o caminho do portão, mas se enganou
de rumo,
e na sua atrapalhação deu com a
gaiola dos corvos
perfumados. Estes
lançaram uns pios vis, voejaram
assustados, e a roupa do médico se impregnou de um cheiro de mulher.
O trovão da voz de Lorenzo
Daza pregou-o no lugar em que estava:
—
Doutor: espere aí.
Avistara-o do andar de cima e
descia as escadas abotoando a camisa, balofo e rubicundo, as suíças ainda
revoltas devido a um sonho mau da sesta.
O médico tentou dominar a situação.
— Acabo de dizer à sua filha que está
feito uma rosa.
— E tem razão —
disse Lorenzo Daza — mas com espinhos demais.
Passou junto do doutor Urbino sem cumprimentá-lo. Empurrou as duas folhas da janela do
quarto de costura e gritou
bronco para a filha:
— Venha pedir desculpas ao doutor.
O médico quis intervir para impedi-lo, mas Lorenzo Daza não lhe deu atenção. Insistiu: "Depressa." Ela olhou as amigas com uma súplica
recôndita de compreensão, e respondeu
ao pai que não tinha de que se
desculpar, pois só tinha
fechado a janela para impedir que continuasse entrando o sol. O doutor Urbino procurou justificar essas razões, mas Lorenzo Daza
persistiu na ordem. Então Fermina Daza voltou à janela, pálida de raiva, e adiantando o pé direito enquanto levantava a cauda do vestido com a ponta dos dedos, fez ao médico uma reverência teatral.
— Apresento-lhe
minhas mais humildes desculpas,
cavalheiro — disse.
O doutor Juvenal Urbino a imitou de
bom humor, fazendo com o chapéu
de copa alta uma mesura de mosqueteiro, mas não obteve o sorriso de piedade que esperava. Lorenzo Daza o convidou então a
tomar no escritório um café de desagravo, e ele aceitou grato, para que
não houvesse nenhuma dúvida de que não lhe ficava na alma qualquer resquício de ressentimento.
A verdade
era que o doutor Juvenal Urbino não tomava café, a não ser uma xícara
em jejum.
Também não tomava álcool, salvo um copo
de vinho com a comida em ocasiões solenes, mas não só tomou o
café que lhe ofereceu Lorenzo Daza como aceitou além disso um cálice de
aguardente de anis. Depois
aceitou outro café e outro cálice, e depois outro e outro,
apesar de ter ainda algumas visitas a
fazer. A princípio escutou com atenção
as desculpas que Lorenzo Daza continuava a dar
em nome da filha, que definiu
como menina inteligente e séria, digna
de um
príncipe daqui ou de qualquer
parte, e cujo único defeito, segundo disse, era seu caráter de mula. Mas depois do segundo cálice julgou ouvir a voz de Fermina Daza no
fundo do
pátio, e sua imaginação foi atrás dela, perseguiu-a pela noite
recente da casa enquanto acendia as luzes do
corredor, fumigava os quartos de dormir
com a bomba de inseticida, destapava
no fogão a panela da sopa que ia
tomar essa noite com o pai,
ele e ela sós à mesa, sem
erguer a vista, sem sorver a sopa
para não quebrar o encanto do rancor,
até que ele acabasse
por se render e pedir perdão pelo rigor que
tivera à tarde.
O doutor Urbino conhecia bastante
as mulheres para saber que Fermina Daza
não passaria pelo escritório enquanto ele
não fosse embora, mas
deixava-se ficar porque sentia que o
orgulho ferido não lhe daria paz depois das afrontas dessa tarde. Lorenzo Daza, já quase bêbado,
não parecia notar sua falta de atenção, pois se bastava a si mesmo com sua
loquacidade indomável. Falava à rédea solta, mastigando a ponta do charuto apagado, tossindo aos gritos, escarrando, acomodando-se a duras
penas na poltrona giratória cujas molas soltavam
gemidos de animal no cio. Tinha bebido três cálices para cada um do convidado, e só fez uma
pausa ao perceber que já não se viam
um ao outro e se levantou para acender
a lâmpada. O doutor Juvenal Urbino o olhou de frente com a nova luz, viu que tinha um olho torto feito olho de peixe e que suas palavras não correspondiam ao movimento dos lábios, e achou que eram alucinações suas por abusar do álcool. Então se levantou
com a sensação fascinante de que
estava dentro de um corpo que não era o seu e sim
o de alguém que continuava
sentado no assento onde ele estava,
e teve que fazer um grande
esforço para não perder a razão.
Passava das sete quando saiu do escritório precedido de Lorenzo Daza. Havia lua cheia. O pátio transfigurado pelo anis flutuava no fundo de um aquário, e as
gaiolas cobertas com panos pareciam fantasmas adormecidos debaixo do odor quente de flores desabrochadas.
A janela da sala de costura estava aberta, e havia uma candeia acesa na mesa de trabalho, e os
quadros por terminar estavam nos cavaletes como numa exposição. "Onde está
você que não está", disse o doutor Urbino ao passar, mas Fermina
Daza não o ouviu, não podia ouvi-lo,
porque chorava de raiva no quarto,
largada de borco na cama e esperando
o pai para lhe cobrar a humilhação da tarde. O médico não renunciava à ilusão de
se despedir dela, mas Lorenzo
Daza não mencionou tal coisa.
Relembrou com saudade a marcha inocente do seu pulso, sua língua de gata, suas amígdalas suaves, mas desanimou-o a idéia de
que ela não queria vê-lo nunca
mais nem permitiria que ele o tentasse.
Quando Lorenzo Daza entrou no saguão, os corvos acordados debaixo dos lençóis emitiram pios fúnebres. "Arrancarão
teus olhos", disse o médico em voz
alta, pensando nela, e Lorenzo Daza se voltou
para perguntar o que é que ele tinha dito.
— Não fui eu — ele disse. — Foi o anis.
Lorenzo Daza acompanhou-o até o
carro se esforçando para fazê-lo receber o peso ouro da segunda visita, mas ele não
aceitou. Deu instruções corretas ao cocheiro para
que o levasse até a casa de dois dos doentes que lhe faltava ver, e subiu ao carro sem ajuda.
Mas começou a se sentir mal com os
solavancos nas ruas empedradas, por isso mandou
o cocheiro mudar de rumo. Olhou-se por um instante no espelho do carro e viu que também sua imagem continuava pensando em Fermina Daza. Deu de ombros. Afinal soltou um arroto, inclinou a cabeça contra o peito
e adormeceu, e no sono começou a ouvir os sinos
do luto. Ouviu primeiro os da catedral,
e depois
os de todas as
igrejas, uma após outra, até
o som de metal
rachado de São Julião o Hospitaleiro.
— Merda — murmurou dormindo — morreram os mortos.
Sua mãe e suas irmãs estavam jantando café com leite e bolinhos na mesa de festa da
sala de jantar principal,
quando o viram assomar à porta com o rosto desfeito
e todo ele desmoralizado pelo
perfume de
putas dos corvos. O sino maior da catedral
contígua ressoava na imensa cisterna da casa. A mãe lhe perguntou alarmada onde se havia
metido, pois o haviam procurado em toda
parte para que atendesse ao general
Ignacio Maria, último neto do Marquês de Jaraíz de Ia Vera,
derrubado à tarde por uma congestão cerebral: era por ele que os sinos dobravam. O doutor Juvenal Urbino escutou a mãe sem ouvi-la,
apoiado no umbral da porta, em seguida deu meia-volta, procurando chegar
ao seu quarto, mas caiu de bruços numa
explosão de vômitos de anis estrelado.
—
Maria Santíssima — gritou sua mãe. — Coisa
muito estranha deve ter
acontecido para que você se apresente em casa nesse estado.
O mais curioso, contudo, não tinha
acontecido ainda. Aproveitando a visita do conhecido
pianista Romeo Lussich, que tocou um ciclo de
sonatas de Mozart logo que a cidade se
refez do luto do general
Ignacio Maria, o doutor Juvenal Urbino fez subir o piano da Escola de Música numa carreta de mulas, e levou até Fermina Daza uma serenata que marcou época. Ela acordou
com os primeiros compassos e não teve
que assomar aos rendilhados do balcão
para saber quem era o promotor daquela
homenagem insólita. Só lamentou não ter a coragem de outras donzelas geniosas que tinham
esvaziado o urinol na cabeça do pretendente
indesejável. Lorenzo Daza, em compensação,
vestiu-se às carreiras no transcurso da serenata,
e no fim fez entrar na sala de visitas
o doutor Juvenal Urbino e o pianista, ainda enfarpelados no traje de rigor do
concerto, e agradeceu-lhes a serenata
com um copo de bom conhaque.
Fermina Daza percebeu em breve que o pai estava procurando amolecer
seu coração. No dia seguinte da
serenata tinha dito, de modo
casual: "Imagine só como se sentiria sua mãe se soubesse que você é requestada por um Urbino de
Ia Calle." Ela replicou com secura: "Morreria de novo dentro do caixão." As amigas
que pintavam com ela lhe contaram que
Lorenzo Daza tinha sido convidado a almoçar
no Clube Social pelo doutor Juvenal Urbino, e que este tinha sido objeto de uma notificação
severa por contrariar normas do regulamento.
Só então ficou sabendo também que o pai tentara
várias vezes tornar-se membro do Clube
Social, e em todas tinha sido barrado com
uma quantidade de bolas pretas que não
possibilitavam qualquer tentativa nova. Mas Lorenzo Daza absorvia humilhações com um fígado de bom
bebedor, e continuou dando tratos à
bola para se encontrar por acaso com Juvenal Urbino, sem perceber que era Juvenal Urbino quem fazia mais do que o possível para se deixar
encontrar. Às vezes passavam horas
conversando no escritório, enquanto a casa permanecia como que suspensa à margem do tempo, porque Fermina Daza não permitia que nada seguisse seu
curso
na vida enquanto ele não fosse
embora. O Café da Paróquia foi um bom porto intermediário. Ali Lorenzo
Daza deu a Juvenal Urbino lições primárias
de xadrez, e ele foi um aluno tão
aplicado que o xadrez se converteu num vicio incurável que o perseguiu até o dia de sua morte.
Urna noite, pouco tempo depois da serenata
de piano, Lorenzo Daza encontrou uma carta com o envelope lacrado no saguão da casa, dirigido
à sua filha e com o monograma de J.U.C. impresso no lacre. Deslizou-a por
baixo da poria ao passar diante do quarto de
Fermina, e ela não entendeu
como chegara até ali, pois lhe parecia
inconcebível que o pai tivesse mudado ao ponto de lhe levar
carta de um pretendente. Deixou-a em cima
da mesa
de cabeceira, sem saber de
fato que fazer com ela, e ali
permaneceu fechada durante vários dias, até uma
tarde de chuva em que Fermina
Daza sonhou que Juvenal Urbino tinha
reaparecido para presenteá-la com a
espátula com que lhe examinara a
garganta. A espátula do sonho não era de alumínio e sim
de um metal apetitoso que ela havia
saboreado com deleite em outros sonhos, de modo que
quebrou em duas partes desiguais, dando a ele a
menor.
Ao acordar abriu a carta. Era breve e pulcra, e a
única coisa que Juvenal Urbino lhe suplicava
era que lhe permitisse pedir ao pai permissão para visitá-la. Impressionaram-na sua simplicidade e sua seriedade,
e a raiva cultivada com tanto amor durante tantos dias se apaziguou de pronto.
Guardou a carta num cofre fora de uso no
fundo do baú, mas lembrou que ali
guardara as cartas perfumadas de Florentino
Ariza, e tirou-a do cofre para trocá-la de lugar, abalada por um sopro
de vergonha. Achou então que o mais
decente era dá-la como não recebida,
e queimou- a na candeia, vendo como
as gotas de lacre arrebentavam em borbulhas azuis sobre a chama. Suspirou: "Pobre homem." Reparou logo que era a segunda
vez que dizia isso em pouco mais de um ano, e por um instante pensou em Florentino Ariza, e se surpreendeu ao ver como ele estava longe de sua vida: pobre homem.
Em outubro, com as últimas chuvas, chegaram três cartas mais,
acompanhada a primeira de uma caixinha de pastilhas de violeta da
Abadia de Flavigny. Duas
tinham sido entregues no portão
da casa pelo cocheiro do doutor Juvenal Urbino, e este cumprimentara Gala Placídia da janela do carro, primeiro para que não houvesse dúvida
de que as cartas eram suas, e segundo para que ninguém pudesse
lhe dizer que não tinham sido
recebidas. Além disso, ambas estavam seladas com o sinete do monograma no lacre,
e escritas com as garatujas crípticas que Fermina Daza já conhecia: letra de médico. Ambas diziam em substância o mesmo que a primeira, e estavam concebidas com o mesmo espírito de submissão, mas no
fundo de sua decência começava a se vislumbrar uma ansiedade que nunca fora evidente nas cartas circunspectas de Florentino Ariza. Fermina Daza as leu logo que foram entregues, com duas semanas de intervalo,
e sem explicá-lo a si mesma mudou
de opinião quando estava a ponto de atirá-las ao fogo. Mas nem por isso
pensou em respondê-las.
A terceira carta de outubro tinha sido introduzida por baixo
do portão, e era em tudo diferente das anteriores. A escrita era tão pueril que sem dúvida
tinha sido feita com a mão esquerda, mas Fermina Daza só se deu conta disso quando
o próprio texto provou seu anonimato infame. Quem a escrevera
dava como fato que Fermina Daza
tinha encantado com seus filtros o
doutor Juvenal Urbino, e dessa suposição tirava conclusões sinistras. Acabava com
uma ameaça: se Fermina Daza não renunciasse à sua pretensão de se apropriar
do homem mais cobiçado da cidade,
seria exposta à vergonha pública.
Sentiu-se vítima de uma injustiça grave, mas sua reação não foi vingativa
e sim o oposto: teria gostado de descobrir o autor da carta anônima para provar-lhe o erro com quantas explicações fossem pertinentes, pois estava certa de que nunca, por motivo nenhum, seria sensível aos galanteios de Juvenal Urbino. Nos
dias seguintes recebeu mais
duas cartas sem assinatura, tão
pérfidas quanto a primeira, mas nenhuma das três parecia escrita pela mesma pessoa. Ou bem era vítima de uma conjura, ou a falsa versão dos seus amores
secretos tinha ido mais longe do que se
poderia supor. Inquietava-se com a idéia de que tudo aquilo fosse conseqüência
de uma simples indiscrição
de
Juvenal Urbino. Ocorreu-lhe que talvez fosse
homem diferente da sua aparência
digna, que talvez desse com a língua nos dentes durante suas visitas e fizesse alarde
de conquistas imaginárias, como
tantos outros de sua classe.
Pensou em escrever a ele para censurar o ultraje que fazia à sua honra, mas desistiu depois, achando que
talvez fosse isso que ele queria. Procurou informar-se com as
amigas que iam pintar com ela no
quarto de costura, mas a única coisa
que tinham ouvido eram comentários benignos sobre a serenata de piano.
Sentiu-se furiosa, impotente,
humilhada. Ao contrário da sua reação inicial, quando teria gostado de encontrar o inimigo invisível para convencê-lo de seus erros, agora gostaria
de fazê-lo em pedaços com a tesoura de podar.
Passava as noites em claro,
analisando detalhes e expressões das cartas
anônimas, na ilusão de encontrar
o consolo de uma pista. Ilusão vã: Fermina Daza era alheia por natureza ao mundo interior dos Urbino de Ia Calle,
e tinha armas para se defender de suas boas intenções, mas não das más.
Esta convicção se tornou ainda mais amarga depois do pavor da boneca preta que chegou às suas mãos naqueles dias sem nenhuma carta, mas cuja origem lhe pareceu fácil de imaginar: só o doutor
Juvenal Urbino podia tê-la mandado. Tinha sido comprada na Martinica, de acordo com a etiqueta original, e trazia um vestido
primoroso e fios de ouro no cabelo crespo, e fechava os olhos quando a deitavam. Pareceu a Fermina
Daza tão divertida que dominou os escrúpulos
e a deitava em seu próprio
travesseiro durante o dia. Acostumou-se a dormir com ela. Passado algum
tempo, porém, depois de um sono sem repouso, descobriu que a boneca estava crescendo: a linda roupa original que vestia ao chegar agora lhe deixava as coxas à mostra, e seus sapatos tinham arrebentado com a
pressão dos pés. Fermina Daza ouvira falar de
malefícios africanos, mas nenhum tão pavoroso como esse. Por outro lado, não podia conceber que
um homem como Juvenal Urbino fosse capaz
de
semelhante
atrocidade. Tinha razão: a boneca
não tinha sido levada pelo cocheiro e sim por
um vendedor ocasional de camarão, sobre quem ninguém conseguira dar uma informação certa. Procurando decifrar o
enigma, Fermina Daza pensou por um momento em Florentino Ariza, cuja condição sombria a
assustava, mas a vida se encarregou de convencê-la do erro. Nunca se esclareceu
o mistério e sua simples evocação lhe dava um
arrepio de pavor até muito depois de se haver casado, tido
filhos e de se acreditar a eleita do
destino: a mais feliz.
A última
tentativa do doutor Urbino foi a mediação da irmã Franca de Ia
Luz, superiora do Colégio da Apresentação da Santíssima Virgem, que não podia se esquivar aos apelos de uma família
que favorecera sua comunidade
desde seu estabelecimento nas Américas. Apareceu acompanhada de uma noviça
às nove da manhã, e ambas precisaram se entreter com as gaiolas de pássaros
enquanto Fermina Daza acabava de tomar
banho. Era uma alemã viril, de timbre de voz metálico e olhar imperioso que não
tinham relação nenhuma com suas paixões pueris. Não havia nada neste mundo
que Fermina Daza odiasse mais do que
ela, ou qualquer coisa a ver com ela, e a simples lembrança de sua falsa piedade
lhe dava uma comichão de escorpiões
nas entranhas. Bastou reconhecê-la da porta
do banheiro para viver de novo de chofre os suplícios do colégio,
o sono insuportável da missa diária, o terror dos exames, a diligência servil das noviças, a vida inteira pervertida pelo
prisma da pobreza de espírito. A irmã Franca de Ia
Luz, em compensação, cumprimentou-a
com um júbilo que parecia sincero.
Espantou-se de vê-la tão crescida e
amadurecida, e elogiou a competência com que mantinha a casa, o bom gosto do pátio, as árvores floridas. Mandou a
noviça esperá-la ali, sem se aproximar demais dos corvos, que num momento de descuido podiam lhe arrancar
os olhos, e procurou um lugar afastado onde pudesse se sentar e
conversar a sós com Fermina,
que a convidou à sala.
Foi uma visita breve e áspera. A irmã Franca de Ia Luz, sem perder
tempo com preâmbulos, ofereceu a
Fermina Daza uma reabilitação honrosa.
O motivo da expulsão seria apagado não só das atas como da memória
da comunidade, o que lhe permitiria terminar os estudos e obter
o diploma de Bacharel em Letras. Fermina Daza, perplexa, quis
saber a razão.
— É a petição de alguém
que merece tudo, e cujo único desejo é fazer você feliz
—
disse a freira. — Sabe quem é?
Então compreendeu. Perguntou a si mesma com
que autoridade servia de emissária do
amor uma mulher que lhe havia prejudicado a vida por causa de uma carta
inocente, mas não se atreveu a falar assim. Disse, em resposta, que sim, que conhecia esse homem, e que ele não
tinha o menor direito de se
imiscuir em sua vida.
—
A única coisa que implora é que você lhe permita que venha conversar cinco minutos —
disse a freira. — Tenho certeza de que
seu pai
estará de acordo.
A
raiva de Fermina Daza
ficou mais intensa com
a idéia de que
o pai fosse
cúmplice daquela visita.
—
Nós nos vimos duas vezes quando estive doente
— disse. — Agora não há nenhuma razão.
—
Para qualquer mulher com dois dedos de juízo esse
homem é um presente da Divina Providência — disse a freira.
Continuou falando de suas virtudes, de sua devoção, de sua consagração
ao serviço dos aflitos. Enquanto
falava tirou da manga um rosário de ouro com o
Cristo talhado em marfim, e o moveu diante dos olhos de Fermina Daza.
Era uma relíquia de família, antiga de mais de cem anos,
talhada por um ourives de Siena e benta por Clemente IV.
—
É seu — disse.
Fermina Daza sentiu a torrente do sangue que rugia em suas veias
e então se atreveu.
—
Não consigo entender como a senhora se presta
a isso — disse — se na sua opinião
o amor é pecado.
A irmã Franca de La Luz não deu mostras de ter ouvido, mas suas pálpebras se incendiaram.
Continuou balançando o rosário diante dos seus olhos.
—
É melhor você
se entender comigo — disse — por- que
depois de mim vem o senhor arcebispo,
e com ele as coisas são diferentes.
— Que venha — disse Fermina Daza.
A irmã Franca de Ia Luz escondeu o terço de ouro na manga. Depois tirou da outra
um lenço muito usado, feito uma bola, e o manteve apertado no punho, olhando
Fermina de muito longe com um sorriso
de comiseração.
—
Pobre filha
minha — suspirou — você ainda
continua pensando naquele homem.
Fermina Daza ruminou a impertinência olhando a freira sem pestanejar, olhou-a bem nos olhos, sem falar, ruminando em silêncio, até ver com infinito prazer que seus olhos de homem
se anuviaram de lágrimas. Irmã Franca de Ia Luz as enxugou com a bola do lenço e se pôs de pé.
— Tem razão seu pai
quando diz que você é uma mula —
disse.
O arcebispo não foi. De maneira que o assédio teria acabado naquele dia, não fosse o fato de Hildebranda Sánchez ter vindo passar o Natal com a prima, o
que mudou a vida de ambas. Foi
recebida na roleta de Riohacha às
cinco da manhã, em meio a
uma turba de passageiros agonizantes de enjôo, mas ela
desembarcou radiosa, mulher da cabeça aos pés, e com o espírito
alvoroçado pela má noite no mar. Veio carregada de jacas de perus vivos
e de quantos frutos brotavam em suas prósperas
veigas, para que ninguém sentisse
falta do que comer durante sua visita. Lisímaco Sánchez, o pai, mandava perguntar se eram necessários músicos para as festas de Natal,
pois ele tinha
os melhores à sua disposição,
e prometia mandar
mais para a frente um carregamento de fogos
de artifício. Acrescentava ainda que
não podia vir buscar a filha antes de março, de modo que havia tempo de sobra
para se viver.
As duas primas começaram sem perda de tempo. Tomaram banho juntas desde a
primeira tarde, nuas, fazendo-se
abluções recíprocas com a água da banheira
de pedra.
Ensaboavam-se, catavam lêndeas uma na
outra, comparavam as nádegas, os seios imóveis, uma
se olhando no espelho da outra para
avaliar com quanta crueldade o tempo as tratara desde a última vez que tinham se visto nuas.
Hildebranda era grande e
maciça, de pele dourada, mas todo o
pêlo do seu corpo era de mulata,
curto e enroscado feito palha de aço. Fermina Daza, de sua parte,
tinha uma nudez pálida, de linhas grandes, de pele serena, de pêlos
macios. Gala Placídia tinha mandado
pôr duas camas iguais para as duas
no quarto, mas às vezes dormiam numa só e conversavam
com as luzes apagadas até raiar o dia. Fumavam uns charutões de bandido que Hildebranda tinha trazido
escondidos no forro do baú,
e depois tinham que queimar folhas de papel da
Armênia para purificar o ar de tugúrio que deixavam no quarto. Fermina
Daza tinha fumado pela primeira vez em Valledupar,
e tinha continuado a fazê-lo em Fonseca,
em Riohacha, onde se trancavam até dez primas num quarto a falar de homens e a fumar às escondidas. Aprendeu a fumar ao contrário, com a brasa dentro da boca, como fumavam os homens nas noites das
guerras para não serem denunciados pela ponta incandescente do charuto. Mas nunca tinha fumado sozinha.
Com Hildebranda na casa passou a fazê-lo todas as noites antes de dormir,
e desde então adquiriu o hábito de fumar,
embora sempre às escondidas, mesmo do marido e dos filhos, não só porque
era mal visto que mulher fumasse em
público, como porque tinha o
prazer associado à clandestinidade.
A viagem de Hildebranda também tinha sido imposta pelos pais para ver se
a afastavam de seu amor impossível,
embora a tivessem convencido de que era para ajudar Fermina a se decidir
por um bom partido. Hildebranda
aceitara na esperança de enganar o esquecimento, como fizera a prima no seu momento, e combinara com o telegrafista de Fonseca para que enviasse suas
mensagens debaixo do maior
sigilo. Por isso foi tão amarga sua desilusão quando soube que Fermina Daza repudiara Florentino Ariza. Além disso,
Hildebranda tinha uma concepção
universal do amor, e achava que
qualquer coisa que acontecesse com uma pessoa afetava todos os amores do mundo inteiro. Contudo, não renunciou ao
projeto. Com uma audácia que provocou em Fermina Daza uma crise de espanto, foi sozinha
à agência do telégrafo
disposta a conquistar a boa vontade de Florentino
Ariza.
Não o teria identificado, pois não tinha um traço que correspondesse à imagem que ela formara através de Fermina Daza. À primeira vista lhe pareceu impossível que a prima tivesse estado a ponto de enlouquecer por aquele empregado quase invisível, com um ar de cachorro
batido, cuja indumentária de rabino
caído em desgraça e cujas maneiras solenes não podiam alterar o coração de ninguém.
Mas logo se arrependeu da primeira impressão,
pois Florentino Ariza se pôs a seu
serviço
incondicional sem saber quem era: não soube nunca. Ninguém a teria compreendido melhor do que ele, por isso
não lhe exigiu que se identificasse nem lhe pediu endereço
algum. Sua solução foi muito simples:
ela passaria toda quarta- feira à tarde
na agência do telégrafo para que ele
lhe entregasse as respostas em sua mão, e nada mais. Por outro lado, quando
ele leu a mensagem que Hildebranda trazia escrita, perguntou a ela se aceitava
uma sugestão,
e ela concordou. Florentino
Ariza fez primeiro umas correções entre linhas, suprimiu-as, tornou
a escrever, ficou sem espaço, e afinal rasgou a folha e escreveu completa uma mensagem
diferente que a ela pareceu
enternecedora. Quando saiu do escritório
do telégrafo, Hildebranda estava à
beira das lágrimas.
— É feio e
triste — disse a Fermina Daza — mas é todo
amor.
O que mais chamou a atenção de Hildebranda foi a solidão da prima.
Parecia, lhe disse, uma solteirona
de vinte anos. Acostumada a uma família numerosa
e dispersa, em casas onde ninguém sabia de ciência certa quantos
moravam nem quem ia comer a cada refeição, Hildebranda nem podia imaginar uma moça da sua idade
reduzida ao claustro da vida privada. Assim era: desde que se levantava às seis da manhã até que apagava a luz do quarto, se consagrava à perda do tempo. A vida lhe era imposta de fora.
Primeiro, com os últimos gaios, o
leiteiro a acordava com a aldraba do portão.
Depois tocava a peixeira com um caixote
de pargos moribundos num leito
de algas, as quitandeiras com
os cestos tornados suntuosos com as
hortaliças de Maria La Baja e as
frutas de São Jacinto. Em seguida, durante todo o dia, tocavam todos: os
mendigos, as moças das rifas, as
irmãs de caridade, o amolador, o
garrafeiro, o que comprava ouro quebrado, o que comprava papel de
jornal, as falsas ciganas que se ofereciam
para ler a sorte nas cartas, nas linhas da mão, na borra do café,
nas águas das bacias. A semana de
Gala Placídia se esvaía no abrir e fechar do portão para dizer que não, volte outro dia, ou
gritando da sacada já sem paciência que não amolem mais, porra, que já compramos tudo
que não tinha na casa. Substituíra tia Escolástica com tanto fervor e tanta
graça que Fermina a confundia com a outra até para
gostar mais dela. Tinha obsessões de escrava. Logo que encontrava um tempo livre ia para o quarto de serviço
para passar a roupa branca, que
deixava perfeita, que guardava nos armários com flores de alfazema, e
não só passava e dobrava a que acabava
de lavar como também a que tivesse perdido
seu esplendor pela falta de uso. Com o mesmo cuidado continuava conservando o vestuário de Fermina Sánchez, mãe de Fermina,
morta quatorze anos antes. Mas
era Fermina Daza quem tomava as
decisões. Resolvia o que se havia de comer, o que se havia
de comprar, o que se tinha que fazer em cada caso, e
desta forma determinava a vida de uma casa
que na realidade não tinha nada que determinar. Quando acabava de lavar as gaiolas e pôr a comida dos
pássaros, e de ver que nada faltasse às
flores, ficava sem rumo.
Muitas vezes, depois de ser expulsa do
colégio, adormeceu na hora da sesta e só
foi acordar no dia seguinte.
As aulas de pintura eram apenas uma forma mais
entretida de perder o tempo.
As relações com o pai careciam de afeto desde o exílio de tia Escolástica, embora
ambos tivessem encontrado o modo de viver juntos
sem se atrapalhar. Quando ela se levantava,
ele já tinha ido aos seus negócios.
Poucas vezes faltava ao rito do almoço, embora quase nunca comesse, pois lhe bastavam os aperitivos
e os acepipes galegos do Café da
Paróquia. Tampouco jantava: deixavam sua
porção na mesa, toda num prato
só e tapada com outro, embora soubessem
que ele só a comeria no dia seguinte requentada
na hora do café. Uma vez por semana dava
à filha o dinheiro da despesa, que ele calculava muito bem
e que ela
administrava com rigor, mas
atendia com gosto a qualquer pedido que
ela fizesse para gastos imprevistos. Nunca lhe
regateava um vintém, nunca lhe pedia contas, mas ela se comportava como se tivesse que prestá-las perante o tribunal do Santo
Ofício. Nunca lhe falara da índole ou estado dos seus negócios,
nunca a levara a conhecer seus escritórios do porto, que estavam num lugar
vedado a senhoritas decentes mesmo que acompanhadas do pai. Lorenzo Daza não chegava a casa
antes das
dez da noite,
que era a hora do toque de recolher
nas épocas menos críticas das guerras. Ficava até essa hora no Café da Paróquia, jogando o que fosse,
porque era especialista em todos
os jogos de salão, além de bom professor deles.
Sempre entrou em casa em
seu perfeito juízo, sem
despertar a filha, apesar de tomar a primeira pinga de anis ao acordar e de continuar mastigando a ponta do charuto apagado e tomando tragos espaçados durante o resto do dia. Uma noite, contudo, Fermina percebeu que ele entrava. Ouviu seus passos de cossaco nas escadas, ouviu seu arquejo enorme no corredor do segundo andar, seus golpes com a
palma da mão na porta do quarto.
Ela lhe abriu a porta, e pela
primeira vez se assustou com seu olho torto e o engrolamento de suas palavras.
— Estamos na ruína — disse ele. — Ruína total, pode ficar sabendo.
Foi tudo que disse, e nunca mais
tornou a dizê-lo nem aconteceu nada
que indicasse se dissera a verdade,
mas depois daquela noite Fermina Daza ficou consciente de que estava só no mundo. Vivia num limbo social. Suas antigas companheiras de colégio estavam num céu proibido para ela,
muito mais ainda depois da desonra da expulsão, mas nem por
isso ela era vizinha dos vizinhos, porque
estes a haviam conhecido sem passado e com o uniforme da Apresentação da Santíssima
Virgem. O mundo de seu pai
era de traficantes e
estivadores, de refugiados de guerras no albergue público do Café da
Paróquia, de homens sós. No último ano, as
aulas de pintura haviam aliviado um pouco sua
reclusão, porque a professora preferia as aulas coletivas e costumava
trazer outras alunas ao quarto de costura.
Mas eram moças de condições sociais
dispersas e mal definidas, e para Fermina
Daza não passavam de amigas
emprestadas cujo afeto acabava com cada aula. Hildebranda queria abrir a
casa, ventilá-la, trazer os músicos e
os foguetes e fogueteiros de seu pai
e fazer um baile de carnaval
cujas ventanias varressem o desânimo e as traças que roíam a vida da prima, mas em pouco tempo percebeu que seus
propósitos eram inúteis. Por uma razão simples:
não havia com quem.
De qualquer maneira, foi ela quem
a pôs a viver. À tarde, depois das aulas
de pintura, ela se fazia levar à rua
para conhecer a cidade. Fermina Daza
lhe mostrou o
caminho que fazia
todos os dias com tia Escolástica, o banco da
pracinha onde Florentino Ariza fingia ler
para esperá-la, as ruelas por
onde a seguia, os esconderijos das cartas, o palácio sinistro que abrigara
o cárcere do Santo Ofício, e que
depois tinha sido restaurado e convertido no Colégio da Apresentação da Santíssima
Virgem, que ela odiava com toda a sua alma. Subiram a colina do cemitério
dos pobres, onde Florentino Ariza tocava violino segundo o rumo dos ventos para que ela o escutasse na cama, e dali viram inteira a cidade histórica, os telhados quebrados e
os muros carcomidos, os escombros das fortalezas entre os matagais, a fileira de
ilhas na baía, os barracões da miséria ao redor dos pântanos, o Caribe imenso.
Na noite de Natal,
foram à missa do galo na catedral. Fermina ocupou o assento onde lhe chegava
melhor a música confidencial de Florentino
Ariza, e mostrou à prima o lugar exato em que
uma noite como aquela tinha visto de perto pela primeira vez seus olhos espantados.
Arriscaram-se sozinhas até o Portal dos Escrivães, compraram doces, se
divertiram na loja dos papéis de fantasia, e Fermina Daza assinalou para a prima o lugar em que descobrira de golpe que seu amor
não passava de uma miragem. Não tinha percebido ela própria que cada passo seu da casa
ao colégio, cada lugar da cidade, cada instante de seu passado recente só pareciam existir por obra e graça de Florentino Ariza. Foi o que Hildebranda a fez ver, mas ela não admitiu, pois jamais reconheceria como realidade que
Florentino Ariza, para o bem ou para o mal, era a única coisa que lhe acontecera na vida.
Por aqueles dias chegou um fotógrafo
belga que instalou seu estúdio no
Portal dos Escrivães, e quem quer que tivesse com que pagar-lhe o trabalho aproveitou a ocasião para tirar um retrato. Fermina e Hildebranda foram das primeiras.
Esvaziaram o guarda-roupa de Fermina Sánchez, repartiram as roupas mais
vistosas, as sombrinhas, os sapatos de festa,
os chapéus, e se vestiram de damas da
metade do século. Gala
Placídia as ajudou a apertar os corpetes, ensinou-as a andar dentro das armações de arame das anquinhas,
a calçar as luvas, a abotoar os botins
de salto alto. Hildebranda preferiu um chapéu de
abas grandes com penas de avestruz que lhe caíam sobre as costas. Fermina pôs um mais recente, enfeitado de frutas
de gesso
pintado e flores de crinolina. Acabaram troçando de si mesmas
vendo-se no espelho tão semelhantes aos daguerreótipos das avós e saíram felizes, mortas de rir,
para tirarem retrato de suas vidas.
Gala Placídia as viu da sacada atravessando o parque com as
sombrinhas abertas, se equilibrando
como podiam nos saltos, e empurrando as anquinhas com o corpo inteiro feito criança
aprendendo a andar com andadeiras, e lhes deu
a bênção para que Deus as ajudasse em seus retratos.
Havia um tumulto diante do estúdio
do belga, porque estavam
fotografando Beny Centeno, que naqueles dias tinha ganho o campeonato de boxe no Panamá. Estava de calções de luta, com as luvas
calçadas e a coroa na cabeça, e não foi fácil
fotografá-lo porque precisava ficar em posição
de assalto durante um minuto
e respirando o menos possível, mas
logo que armava
a guarda seus fanáticos
prorrompiam em ovações, e ele não resistia à
tentação de satisfazê-los exibindo suas
artes. Quando chegou a vez das primas
o céu nublara e a chuva parecia iminente, mas
elas se deixaram enfarinhar a cara com
polvilho e se apoiaram com tanta
naturalidade numa coluna de
alabastro que conseguiram ficar imóveis
por mais tempo do que parecia
racional. Foi um retrato eterno.
Quando Hildebranda morreu, quase centenária em
sua fazenda de Flores de
Maria, encontraram sua cópia
debaixo de chave no armário do quarto, escondida entre as dobras dos lençóis perfumados, junto com o fóssil de um pensamento numa carta apagada pelos
anos. Fermina Daza guardou a sua muitos anos na primeira folha de
um álbum de família, de onde desapareceu sem que
se soubesse
como, nem quando, e chegou às
mãos de Florentino Ariza por uma série de
casualidades inverossímeis, quando
ambos já passavam dos sessenta anos.
A praça
diante do Portal dos Escrivães
estava apinhada até os sobrados quando Fermina e Hildebranda saíram do estúdio do belga. Tinham esquecido que
suas caras estavam brancas de polvilho e os lábios pintados com uma pomada cor de chocolate, e que suas roupas
não eram apropriadas nem à hora nem
à época. A rua as recebeu com
vaias e apupos. Estavam acuadas, procurando escapar à zombaria pública, quando
abriu caminho pelo tumulto o landô
dos alazães dourados. A vaia cessou e
os grupos hostis debandaram.
Hildebranda não esqueceria jamais a
primeira visão do homem que apareceu no estribo, o casaco de seda, o colete de brocado, seus ademanes
sábios, a doçura dos olhos, a
autoridade da presença.
Embora nunca o tivesse visto, reconheceu-o logo. Fermina
Daza tinha falado nele, quase por casualidade e sem nenhum interesse, uma tarde do
mês anterior em que não tinha querido passar pela casa do Marquês de Casalduero porque o landô
dos cavalos de ouro estava
estacionado à porta. Disse a ela quem era
o dono e procurou explicar as causas de sua antipatia, embora não dissesse palavra quanto às pretensões dele.
Hildebranda esqueceu. Mas quando o
identificou à porta do carro como uma aparição de fábula, um pé em terra outro no estribo, não
compreendeu os motivos da prima.
— Façam-me o favor de subir —
disse o doutor Juvenal Urbino. — Levo-as para
onde mandarem.
Fermina Daza esboçou um gesto de
dúvida, mas Hildebranda já havia aceito. O doutor Juvenal Urbino saltou, e com a ponta dos dedos, quase sem tocá-la, ajudou-a a subir no carro. Fermina, sem escolha,
subiu depois dela, a cara ardendo de contrariedade.
A casa ficava a apenas três
quarteirões. As primas não notaram
que o doutor Urbino tivesse entrado em acordo
com o cocheiro, mas deve ter sido assim,
porque o carro levou mais de
meia hora para chegar. Iam sentadas no assento principal, e ele diante
delas, de costas para o sentido da marcha do carro.
Fermina virou a cara para a janela e
mergulhou no vazio. Hildebranda, em compensação, estava encantada, e o doutor
Urbino mais encantado ainda com o encantamento dela. Logo
que o carro se pôs a andar, ela sentiu o cheiro
cálido do couro natural dos assentos, a
intimidade do interior acolchoado, e
disse que aquilo lhe parecia um lugar bom da gente ficar vivendo.
Começaram logo a rir, a trocar chistes de velhos
amigos, e acabaram no jogo de um jargão inventado, que consistia em intercalar entre cada sílaba uma sílaba
convencional. Fingiam acreditar que Fermina não compreendia o que diziam,
embora não só soubessem que sim como
que estava presa ao que diziam, e por isso insistiam.
Ao fim de um momento, depois de muito rir, Hildebranda confessou que não agüentava mais o suplício
dos botins.
— Nada mais fácil — disse o doutor Urbino. — Vamos ver quem acaba primeiro.
Começou a soltar o cordão das botas, e Hildebranda aceitou o repto. Não achou fácil, por causa do
corpete de varetas que não
permitiam que se curvasse, mas o
doutor Urbino demorou de propósito,
até que ela tirou os botins de debaixo das saias
com uma gargalhada de triunfo,
como se acabasse de pescá-los num tanque. Ambos olharam então para
Fermina, e viram seu magnífico
perfil de
ave mais afiado do que
nunca contra o incêndio do entardecer.
Estava três vezes furiosa: pela
situação imerecida em que se encontrava, pela conduta libertina de Hildebranda, e pela certeza de que o carro dava voltas sem sentido
para retardar a chegada. Mas Hildebranda corria sem madrinha.
—
Agora estou vendo
— disse — que o que me atrapalhava não
eram os sapatos, e sim esta gaiola de arame.
O doutor Urbino compreendeu que se referia às anquinhas, e pegou a ocasião
no vôo. "Nada mais
simples", disse. "Tire fora."
Com um rápido passe de prestidigitador
puxou o lenço do bolso e com ele vendou os olhos.
—
Não estou olhando — disse.
A venda realçou a pureza dos seus lábios entre a barba redonda e negra e
o bigode de guias afiadas, e ela se sentiu sacudida por uma vergastada de pânico. Olhou Fermina
e agora não a viu furiosa e sim apavorada
com a idéia de que ela fosse
capaz de tirar a saia. Hildebranda ficou séria e lhe perguntou em linguagem de dedos:
"Que fazemos?" Fermina Daza
respondeu no mesmo código que se não fossem
diretamente a casa se atiraria do carro em marcha.
— Estou esperando —
disse o médico.
— Já pode olhar — disse Hildebranda.
O doutor Juvenal Urbino a viu
diferente quando tirou a venda, e compreendeu que o jogo tinha terminado, e
terminado mal. A um sinal seu o cocheiro fez o carro dar uma volta completa, e entrou na praça dos Evangelhos no momento em
que o acendedor municipal acendia as luminárias. Todas as igrejas deram o ângelus.
Hildebranda desceu depressa, um pouco
preocupada com a idéia de ter
desgostado a prima, e se despediu do médico com um aperto de mãos sem cerimônias. Fermina a imitou, mas quando quis retirar a mão com a luva de seda,
o doutor Urbino lhe apertou com força
o dedo médio, o do coração.
— Estou esperando sua resposta — disse.
Fermina deu então um puxão mais forte, e a luva vazia
ficou pendurada da mão do médico, mas não esperou para recuperá-la. Foi se deitar sem
comer. Hildebranda, como se nada houvesse
acontecido, entrou no quarto depois de
jantar com Gala Placídia na
cozinha, e comentou com sua graça natural os incidentes da tarde. Não
disfarçou seu entusiasmo pelo
doutor Urbino, por sua elegância e sua simpatia, e Fermina não correspondeu com
nenhum comentário, mas estava refeita do
aborrecimento. A um certo momento, Hildebranda confessou: quando o doutor Juvenal Urbino
vendou os olhos e ela viu o brilho dos seus dentes perfeitos entre os lábios
rosados, tinha tido um desejo
irresistível de comê-lo aos
beijos. Fermina Daza se virou para
a parede e pôs fim à conversa sem intuito de ofender, até sorrindo, mas com todo o coração.
— Que puta que você é! — disse.
Dormiu sobressaltada, vendo o
doutor Juvenal Urbino em todos os
cantos, vendo-o rir, cantar, despedindo chispas de enxofre pelos dentes com os olhos
vendados, troçando dela numa língua
sem regras fixas num carro diferente que subia até
o cemitério dos pobres. Acordou muito antes
de raiar o dia, exausta, e ficou acordada
com os olhos fechados pensando
nos anos incontáveis que ainda lhe faltavam
viver. Depois, enquanto Hildebranda tomava banho, escreveu uma carta a toda pressa, dobrou-a a toda
pressa, enfiou-a a toda pressa no
envelope, e antes que Hildebranda saísse do banheiro mandou-a por Gala Placídia ao doutor Juvenal Urbino. Era uma carta das
suas, sem uma letra a mais ou a menos, na qual só dizia que sim, doutor,
que falasse com seu pai.
Quando Florentino Ariza soube que Fermina Daza ia se casar com um médico de linhagem e
fortuna, educado na Europa e com uma reputação
rara em
sua idade, não houve força capaz de levantá-lo de sua prostração.
Trânsito Ariza fez mais do que
o possível para consolá-lo com
atenções de noiva quando viu que ele tinha perdido
a fala e o. apetite e passava
as noites em claro chorando sem sossego,
e ao fim de uma semana conseguiu que comesse de novo. Falou
então com o senhor Leão
XII Loayza, o único sobrevivente dos três irmãos, e sem dizer o motivo pediu- lhe que
desse ao sobrinho um emprego para fazer
qualquer coisa na companhia de navegação,
contanto que fosse em algum porto perdido nos matos do Madalena, onde não houvesse correio nem telégrafo, nem visse ninguém que
lhe
contasse nada a respeito desta cidade
de perdição. O tio não lhe deu
o emprego por consideração com a viúva do irmão,
que mal suportava a simples existência do bastardo,
mas arranjou para ele o posto de telegrafista na Vila de Leyva,
uma cidade
de sonho a mais de vinte
dias e a quase três mil metros de altura acima do nível da Rua das Janelas.
Florentino Ariza nunca teve noção
clara daquela viagem medicinal. Sempre a lembraria, assim como tudo que
aconteceu naquela época, através dos cristais rarefeitos de sua desventura. Ao receber
o telegrama da nomeação
nem pensou em
levá-lo em consideração, mas Lotário Thugut o convenceu
com argumentos alemães de
que um porvir radiante
esperava por ele na
administração pública. Disse: "O
telégrafo é a profissão do futuro."
Deu-lhe de presente um par de luvas forradas com pêlo de coelho,
um gorro das estepes e um sobretudo com gola de pele
provado nos janeiros glaciais da Baviera. O tio Leão XII o presenteou
com dois ternos de casimira e umas botas
impermeáveis que tinham sido do irmão
mais velho, e lhe deu uma
passagem com camarote para o
próximo navio. Trânsito Ariza reduziu as roupas às medidas do filho,
que era menos corpulento que o
pai e muito mais baixo que o alemão, e lhe comprou meias de lã
e umas ceroulas de corpo inteiro para
que não lhe faltasse nada contra os rigores do páramo. Florentino Ariza, endurecido de tanto sofrer, assistia aos preparativos da viagem
como um morto teria assistido às disposições
tomadas para suas exéquias. Não disse
a ninguém que ia embora, não se despediu de ninguém, no mesmo hermetismo
férreo com que só à mãe revelou o segredo de sua paixão
reprimida, mas na véspera da viagem cometeu consciente
uma última
loucura do coração que bem poderia
ter-lhe custado a vida. Vestiu à
meia-noite seu traje de domingo e tocou em solo debaixo do balcão de
Fermina Daza a valsa de amor
que compusera para ela, que só eles dois
conheciam, e que foi durante três
anos o emblema de sua cumplicidade
contrariada. Tocou-a murmurando a letra, o violino banhado em lágrimas, e com uma inspiração tão intensa que
aos primeiros compassos começaram a ladrar os cachorros da rua, e em seguida os da cidade, mas depois se foram calando pouco a pouco graças ao feitiço da
música, e a valsa terminou em meio a
um silêncio
sobrenatural. O balcão não se abriu,
nem ninguém assomou à rua, nem mesmo o guarda-noturno que quase sempre acudia com sua lanterna para ver se colhia
algum benefício com as sobras das serenatas.
O ato foi uma invocação de alívio para Florentino Ariza, pois quando guardou
o violino na caixa e se afastou pelas
ruas mortas sem olhar para trás já não achava que ia embora na
manhã seguinte, e sim que tinha ido embora há muitos
anos com a disposição inabalável de não
voltar nunca mais.
O navio, um dos três iguais da Companhia Fluvial do Caribe, tinha sido
rebatizado em homenagem ao fundador:
Pio Quinto Loayza. Era uma casa flutuante
de dois andares de madeira sobre um casco de ferro,
largo e chato, com um calado máximo de cinco pés que lhe permitia evitar melhor os
fundos variáveis do rio. Os navios
mais antigos tinham sido fabricados em Cincinnati
em meados do século, no modelo
legendário dos que faziam o comércio do Ohio e Mississippi, e tinham a cada lado uma roda de propulsão
movida por caldeira de lenha. Como estes, os navios da Companhia
Fluvial do Caribe tinham no convés
inferior, quase à tona d'água, as máquinas de
vapor e as cozinhas, e os grandes cercados de galinheiro onde as tripulações
dependuravam as redes, entrecruzadas em diferentes
níveis. Tinham no andar superior a
cabine de comando, os camarotes do capitão e seus oficiais, e uma sala
de recreio e um refeitório, onde os passageiros notáveis eram convidados pelo menos uma
vez para jantar e jogar
cartas. No andar intermediário havia seis camarotes
de primeira classe em ambos os lados de um passadiço que
servia de refeitório comum, e na proa uma sala
de estar aberta sobre o rio com gradis de
madeira rendada e pilastras de ferro,
onde dependuravam à noite suas redes
os passageiros da plebe. No entanto, ao contrário dos mais
antigos, estes navios não tinham as pás
de propulsão a cada lado, e sim uma enorme roda na popa com pás
horizontais debaixo dos reservados sufocantes
do convés de passageiros. Florentino Ariza não se dera o trabalho de explorar o navio logo que subiu a bordo, um domingo de julho às sete da manhã,
como faziam quase por instinto os que viajavam pela primeira vez. Só teve noção
de sua
nova realidade ao entardecer, navegando diante do casario de Calamar,
quando foi urinar na popa e viu pela vigia do reservado a gigantesca roda de grandes tábuas girando debaixo de seus pés
num estrondo vulcânico de espumas e vapores ardentes.
Nunca tinha feito uma viagem.
Carregava um baú de folha
com as roupas do páramo, os
romances ilustrados que comprava em folhetins mensais
e que ele próprio costurava em capas de papelão, e os livros de versos de
amor que recitava de cor e que estavam a ponto de virar pó
de tanto ser relidos. Deixara para trás
o violino, que se identificava
demasiado com sua desgraça, mas a mãe
o obrigara a levar o chamado petate, trouxa de
dormir muito popular e
prática: um travesseiro, um lençol,
uma bacia de estanho
e um toldo de filo contra
os mosquitos, tudo isso enrolado numa esteira amarrada
com duas cordas de pita para se pendurar
uma rede
em caso de urgência. Florentino Ariza não queria levá-lo, pois achava que
seria uma inutilidade num camarote que incluía o uso de camas,
mas desde a primeira noite teve que agradecer uma
vez mais o bom senso da mãe.
Com efeito, à última hora subiu a bordo
um passageiro em traje de
etiqueta que havia chegado em navio da
Europa aquela madrugada, e estava acompanhado do governador da província em pessoa. Queria continuar a viagem sem perda de tempo com a esposa e a filha, e com o criado de libré e os sete baús com frisos dourados equilibrados a duras penas pelas escadas. O
capitão, um gigante de Curaçau,
conseguiu tocar o sentido patriótico
dos naturais da terra para acomodar os viajores imprevistos. A
Florentino Ariza explicou numa salada
de castelhano e dialeto de Curaçau que o homem vestido a rigor era o novo ministro plenipotenciário da Inglaterra em viagem para a
capital da república, lembrou que aquele reino fornecera recursos decisivos
para nossa independência do domínio
espanhol, e por conseguinte qualquer sacrifício era pouco para que uma
família de tão alta dignidade
se sentisse em nossa casa melhor do que na própria. Florentino Ariza, é claro,
renunciou ao camarote.
No princípio não se
queixou, pois o caudal do rio
era abundante naquela época do ano, e o navio navegou sem tropeços as duas primeiras noites. Depois do jantar, às cinco da tarde,
a tripulação distribuía entre os passageiros camas de armar com fundo de lona,
e cada um abria a sua onde
podia, a arrumava com os panos do seu petate e instalava por cima o mosquiteiro de filo. Os que tinham
rede penduravam- na no salão, e os que não tinham nada dormiam em cima das
mesas do refeitório e se cobriam com
as toalhas de mesa
que não eram
mudadas mais de duas
vezes
durante a viagem.
Florentino Ariza velava a maior parte da noite,
acreditando ouvir a voz de Fermina Daza na
brisa fresca do rio, apascentando a
solidão com a lembrança dela, ouvindo-a cantar na respiração do navio que avançava nas trevas com passos
de bicho grande, até que apareciam as
primeiras franjas rosadas no horizonte e o novo dia rebentava de repente
sobre campinas desertas e pântanos de névoa.
A viagem lhe parecia então mais uma prova da
sabedoria de sua mãe, e se
sentia com ânimo de sobreviver
ao esquecimento.
Ao fim de três dias de boas águas, porém, a navegação ficou
mais difícil entre bancos de areia
intempestivos e turbulências enganosas. O rio ficou turvo e foi estreitando mais e mais numa selva
emaranhada de árvores colossais, onde só se encontrava de vez em quando uma
choça de palha junto às pilhas de lenha para a caldeira dos navios. A algaravia
dos louros e o escândalo dos micos
invisíveis pareciam aumentar o mormaço do meio-dia.
Mas de noite era preciso amarrar o
navio para dormir, e então se tornava insuportável o simples fato de estar vivo. Ao calor e aos pernilongos se acrescentava o mau cheiro das tiras de
carne salgada postas a secar pela
balaustrada do navio. A maioria dos
passageiros, sobretudo os europeus, abandonavam
o podredouro dos camarotes e passavam a noite andando
pelos conveses, espantando toda
a classe de insetos com a mesma toalha
com que secavam o suor incessante, e amanheciam exaustos e alastrados de picadas.
Além disso, naquele ano estourara
mais um episódio da guerra civil intermitente entre liberais
e conservadores, e o capitão tomara precauções muito severas para a
ordem interna e a segurança dos passageiros. Procurando evitar equívocos e
provocações, proibiu a distração favorita das
viagens daquele tempo, que era atirar contra os jacarés que apanhavam sol nas praias da beira do rio. Mais
adiante, quando alguns passageiros se dividiram em dois bandos inimigos no curso de uma discussão, confiscou as armas de todos com o compromisso de honra
de devolvê-las ao término da viagem. Foi inflexível inclusive com o ministro britânico, que no dia seguinte
à partida amanheceu vestido de caçador, com uma carabina de precisão
e um fuzil de dois canos de matar
tigres. As restrições se tornaram ainda mais drásticas para
lá do porto de Tenerife, onde cruzaram com um navio
que desfraldava a bandeira amarela da
peste. O capitão não conseguiu obter
nenhuma informação sobre aquele sinal
alarmante, porque o outro navio não respondeu aos seus sinais. Mas nesse mesmo dia
encontraram outro com carga de gado para a Jamaica, e este informou que o navio com a bandeira da peste levava dois doentes
de cólera, e que a epidemia
causava estragos no trecho do rio que
ainda lhes faltava navegar. Então foi proibido aos passageiros deixar o navio
não só nos portos seguintes como ainda nos lugares despovoados
onde arribava para carregar lenha. De modo que no restante da viagem até o porto final, que durou outros seis dias, os passageiros contraíram
hábitos carcerários. Entre estes, a
contemplação perniciosa de um pacote de
postais pornográficos holandeses que circulou de mão
em mão sem que se soubesse de
onde saíra, ainda que nenhum veterano
do rio ignorasse que
os cartões não passavam
de
mostruário da legendária coleção do capitão, Mas
até essa distração
sem futuro acabou por aumentar o tédio.
Florentino Ariza agüentou os
rigores da viagem com a paciência
mineral que desolava sua mãe e
exasperava seus amigos. Não se relacionou
com ninguém. Os dias lhe corriam
fáceis enquanto se sentava junto à amurada olhando os jacarés imóveis tomando sol nas praias com as mandíbulas abertas para pegar borboletas, olhando os bandos de garças assustadas que erguiam vôo nos charcos, os peixes-boi
que amamentavam as crias nas grandes tetas maternais e surpreendiam os
passageiros com seus prantos de mulher.
Num único dia viu passarem
boiando três corpos humanos, inchados
e verdes, com vários urubus em cima.
Passaram primeiro os corpos de dois
homens, um deles sem cabeça, em seguida o de uma menina
de poucos anos cujos cabelos de medusa
ficaram ondulando na esteira do navio. Nunca soube, porque nunca se sabia,
se eram vítimas do cólera ou da guerra, mas as exalações nauseabundas contaminaram em sua memória a lembrança de Fermina Daza.
Era sempre assim: qualquer acontecimento, bom ou mau, tinha alguma relação com ela. À noite, quando se atracava
o navio e a maioria dos passageiros caminhava sem
alívio pelos conveses, ele repassava quase de memória os folhetins ilustrados debaixo do lampião de gás do refeitório,
que era a única luz acesa até o
amanhecer, e os dramas tantas vezes relidos recobravam a magia original
quando substituía os protagonistas
imaginários por conhecidos seus da vida real, e reservava para ele
mesmo e para Fermina Daza os papéis de
amores impossíveis. Outras noites lhe
escrevia cartas de angústia,
cujos fragmentos espargia em seguida
nas águas que corriam sem cessar para ela. E assim passava as horas mais
duras, encarnado às vezes num príncipe tímido ou num paladino do amor, e por outras vezes na
sua própria
pele escaldada de amante
esquecido, até que se levantavam as
primeiras brisas e ele se punha a dormitar sentado nas poltronas da amurada.
Certa noite em que interrompeu a leitura mais
cedo que de costume, dirigia-se distraído para
as privadas quando uma porta se
abriu ao passar ele pelo
refeitório deserto, e uma mão de falcão o agarrou pela manga da camisa e o fechou num camarote. Mal chegou a sentir o corpo sem idade de uma
mulher nua nas trevas,
empapada em suor quente e com a respiração ofegante, que o empurrou de barriga para cima no beliche, lhe abriu
a fivela do cinturão, soltou os botões e se desmembrou toda, acavalada em
cima dele, e o despojou sem glória
da virgindade. Ambos rolaram
agonizantes no vazio de um abismo sem
fundo que cheirava como um alagado
de
camarões. Ela se deixou ficar em seguida jazendo sobre ele, resfolegando sem ar, e deixou de existir
na escuridão.
— Agora, vá embora e esqueça — disse. — Isto não
sucedeu nunca.
O ataque tinha sido tão rápido e
triunfante que não se podia explicá-lo como uma loucura súbita do tédio, e sim como fruto de um plano elaborado com todo o vagar e até
nos seus pormenores minuciosos. Esta certeza esmagadora aumentou a ansiedade de Florentino Ariza, que
no auge do gozo
tinha tido uma revelação na
qual não podia
acreditar, que se negava mesmo a admitir, e era que o amor ilusório de Fermina Daza podia ser substituído por uma paixão
terrena. Por isso se empenhou em descobrir a identidade da violadora mestra em cujo instinto de pantera encontraria talvez o remédio para sua
desventura. Mas não conseguiu. Ao contrário,
quanto mais aprofundava a pesquisa mais longe se
sentia da verdade.
O ataque tinha sido no último camarote, mas este se comunicava com o penúltimo por uma porta intermediaria, de maneira
que os dois se convertiam num dormitório familiar com quatro beliches. Ali viajavam duas mulheres jovens,
outra bastante mais velha mas muito atraente à vista, e uma criança de poucos meses. Haviam
embarcado em Barranco de Loba, o porto onde se recolhia a carga e os passageiros da cidade
de Mompox desde que esta ficou à margem dos itinerários de vapores devido às veleidades do rio, e Florentino Ariza tinha reparado nelas porque traziam o menino adormecido dentro de uma grande gaiola de pássaros.
Viajavam vestidas como nos
transatlânticos da moda, com armação
debaixo das saias de seda, golas de renda e chapéus de abas
grandes enfeitadas com flores de crinolina, e as duas mais moças mudavam
o traje completo várias vezes por dia,
de modo que pareciam carregar em si mesmas
sua própria atmosfera primaveril,
enquanto os demais passageiros sufocavam de calor. As três eram destras no manejo das sombrinhas
e dos leques de plumas, mas com os
propósitos indecifráveis das moças de Mompox da
época. Florentino Ariza não conseguiu sequer
precisar a relação entre elas, embora
fossem sem dúvida da mesma família. A princípio achou que a mais velha podia ser mãe das outras,
mas logo
percebeu que não tinha idade para tanto, e além disso guardava um meio luto que as outras não
compartilhavam. Não concebia que uma delas tivesse
feito o que fez enquanto
as outras dormiam nos beliches contíguos, e a única suposição razoável
era de que aproveitara um momento casual, ou talvez combinado, em que ficara sozinha no camarote. Comprovou que às vezes saíam duas a tomar a fresca até muito tarde enquanto a
terceira ficava cuidando da criança,
mas certa noite de mais calor saíram
as três juntas com o menino adormecido
na gaiola de vime coberta com um toldo de
gaze.
Apesar daquele emaranhado de indícios,
Florentino Ariza se apressou em descartar a possibilidade de que a mais velha das três fosse a autora do ataque, e depois absolveu também a mais moça, que era a mais
bela e atrevida. Chegou a isso sem razões
válidas, só porque a vigilância ansiosa que exercia sobre as três o induzira a transformar em certeza seu
arraigado desejo de que
a amante
instantânea fosse a mãe do menino
engaiolado. Tanto o seduziu essa suposição
que começou a pensar nela com mais
intensidade do que em Fermina Daza, sem fazer caso da evidência de que aquela mãe recente só vivia
para a criança. Não tinha mais de vinte e cinco anos, e era esbelta
e dourada, com umas pálpebras
portuguesas que a tornavam mais
distante, e a qualquer homem teriam
bastado as meras migalhas da ternura com que cumulava o filho. Do
café da manhã à hora de ir deitar se ocupava dele no
salão, enquanto as
outras jogavam xadrez
chinês, e
quando
conseguia
fazê-lo dormir pendurava do teto a gaiola de vime no lado mais fresco do
convés. Mas nem quando estava
dormindo se descuidava dele, pois
balançava então a gaiola cantando entre dentes canções de noiva, enquanto seus pensamentos voavam por cima das privações da viagem. Florentino Ariza se aferrou
à ilusão de quem mais cedo ou
mais tarde se denunciaria, por um único
gesto que fosse. Vigiava até a
mudança de sua respiração no ritmo do relicário
que trazia pendente sobre a blusa de batista, olhando-a sem dissimulação por cima do livro
que fingia ler, e cometeu a impertinência calculada de trocar de
lugar no refeitório para se sentar diante dela. Mas não obteve o mínimo indício de que ela fosse na realidade a depositária da outra metade do seu segredo.
A única coisa que guardou dela,
porque sua companheira mais moça a chamou, foi
o nome sem sobrenome: Rosalba.
No oitavo dia o
navio navegou a duras penas por um turbulento estreito murado entre alcantis de mármore, e depois do almoço atracou em Porto Nare. Ali
ficavam os passageiros que seguiriam
viagem para o interior da província de Antioquia, uma das mais afetadas pela nova guerra civil. O
porto era formado por meia dúzia de choças de
palmas e um botequim de madeira com teto de zinco, e estava protegido por várias patrulhas de soldados descalços e mal armados, porque
havia notícias de um plano dos insurretos para saquear os navios. Por trás das casas subia
até o céu um promontório de montanhas agrestes com uma cornija de ferradura talhada à beira do
precipício. Ninguém a bordo dormiu
tranqüilo, mas não houve assalto
durante a noite e o porto amanheceu transformado em feira dominical, com índios que vendiam amuletos de marfim
vegetal e beberagens de amor, no meio das
recuas de mulas preparadas
para a ascensão de seis dias até as selvas de orquídeas da cordilheira central.
Florentino Ariza se havia entretido vendo a descarga do navio a lombo de negro, vira baixar os engradados de porcelana, os pianos de cauda
para as solteiras de Envigado, e só reparou tarde demais
que entre os passageiros que ficavam estava o grupo de Rosalba. Viu-as quando já iam montadas à amazona, com botas de mulher
e sombrinhas de cores equatoriais, e então deu o passo
que não se atrevera a dar nos dias anteriores: fez a Rosalba um gesto de adeus com a
mão, e as três lhe responderam do mesmo modo,
com uma familiaridade que lhe doeu nas entranhas por sua audácia tardia. Viu-as dar a volta por trás do botequim, seguidas
pelas mulas carregadas com os
baús, as caixas de chapéu e a gaiola da criança, e pouco depois viu-as subindo feito uma
fila de formigas carregadeiras à beira do abismo, e desapareceram da sua vida. Então se sentiu só no mundo, e a lembrança de Fermina Daza, que ficara na tocaia durante os últimos dias, lhe desferiu a patada mortal.
Sabia que ela se casava no sábado seguinte, em bodas de estrondo, e o ser que
mais a amava e havia de amá-la por
todo o sempre não teria sequer o
direito de morrer por ela. Os ciúmes, até agora afogados em pranto, tornaram-se donos de sua alma.
Rogava a
Deus
que a centelha da justiça divina fulminasse Fermina Daza
quando se dispusesse a jurar amor e obediência a um homem que só a queria para esposa
como um enfeite social, e se extasiava na visão da noiva, ou sua ou de ninguém, estendida de costas sobre as lousas da catedral, a flor de laranjeira
nevada pelo orvalho da morte, e a
cascata de espuma do véu sobre os
mármores fúnebres de quatorze
bispos sepultados diante do altar-mor.
No entanto, uma vez consumada a vingança, arrependia-se da própria malvadez, e então via Fermina Daza
levantando-se com seu alento de sempre, alheia mas viva, pois não conseguia
imaginar o mundo sem ela. Não dormiu mais, e se às vezes se sentava para beliscar alguma coisa era para criar a ilusão de que Fermina
Daza estivesse à mesa, ou ao contrário, para lhe
recusar a homenagem de estar jejuando por causa dela. Às vezes
se consolava com a certeza de que
na embriaguez da festa de
bodas, e até nas noites febris da lua-de-mel, Fermina Daza havia de padecer um instante, um ao menos, mas um de todas as maneiras, em que se ergueria
em sua
consciência o fantasma do noivo burlado, humilhado, cuspido, o que a faria perder a felicidade.
Na véspera da chegada
ao porto de Caracolí, que era o ponto
final da viagem, o capitão ofereceu a festa
tradicional de despedida, com uma orquestra de sopro formada pelos membros da
tripulação, e fogos de artifício
coloridos espocando da cabine de
comando. O ministro da Grã-Bretanha
sobrevivera à odisséia com um estoicismo exemplar, caçando com a câmara
fotográfica os animais que não lhe permitiam
matar a fuzil, e não houve noite em que não viesse jantar
vestido a rigor. Mas na festa final
apareceu com o traje escocês do clã
MacTavish, e tocou a gaita à vontade e ensinou
quem se interessou a dançar suas danças
nacionais, e antes de raiar o dia tiveram, que levá-lo quase arrastado para o camarote. Florentino Ariza,
prostrado de dor, tinha ido para o canto mais afastado da coberta, onde não chegavam nem notícias da pândega, e enrolou-se no capote de Lotário Thugut tratando de resistir ao calafrio dos ossos. Despertara às cinco da manhã, como desperta o condenado à morte
na madrugada da execução, e em todo o sábado nada fizera além de imaginar minuto a minuto cada uma
das fases das núpcias de Fermina
Daza. Mais tarde, quando regressou a casa, descobriu que havia embrulhado as datas e que tudo tinha sido diferente de como imaginara, e teve até o bom senso de rir da própria fantasia.
Seja como for, viveu um sábado de
paixão que culminou com uma nova crise de febre, quando lhe pareceu
que era o momento em que os recém-casados fugiam em segredo por uma porta falsa para se entregarem
às delícias da primeira noite. Alguém
que o viu tiritando de febre avisou o
capitão, e este abandonou a festa com
o médico de bordo temendo que fosse um caso de cólera,
e o médico o despachou por precaução para o camarote de quarentena com uma boa
carga de brometos. No dia seguinte, porém, quando avistaram as
escarpas de Caracolí, a febre
desaparecera e tinha o ânimo exaltado, porque no marasmo dos sedativos
resolvera de uma vez por todas e sem mais aquela que mandava ao caralho o
radiante futuro do telégrafo e regressava no mesmo navio à sua velha Rua das Janelas.
Não foi difícil
fazer com que o levassem de regresso em troca do camarote que
havia cedido ao
representante da rainha Vitória. O capitão também procurou
dissuadi-lo com o argumento de que o
telégrafo era a ciência do futuro. Tanto era assim, lhe disse, que já
se inventava um sistema para instalá-lo
nos navios. Mas ele resistiu a todo argumento, o capitão acabou
por levá-lo de volta, não pela dívida do
camarote, e sim porque conhecia
seus vínculos reais com a Companhia
Fluvial do Caribe.
A viagem de descida se fez em menos de
seis dias, e Florentino Ariza se sentiu de
novo em casa logo que entraram de madrugada na laguna de Mercedes, e viu a esteira de
luzes das canoas pesqueiras ondulando na marola do navio. Era noite ainda quando atracaram na enseada do Menino
Perdido, que era o último porto
dos vapores fluviais, a nove léguas da baía, antes de dragarem e botarem em condições
a antiga passagem dos espanhóis. Os passageiros tinham que esperar até as seis da manhã
para abordar a flotilha de
chalupas de aluguel que os levariam até seu destino
final. Mas Florentino Ariza estava tão
aflito que saiu muito antes
na chalupa do correio, cujos empregados o reconheciam
como um dos seus. Antes de abandonar
o navio cedeu à tentação de um ato simbólico: atirou n'água o petate, e
o acompanhou com a vista em meio às tochas dos pescadores invisíveis, até que saiu da laguna e desapareceu no oceano. Tinha
certeza de que não precisaria mais
dele pelo resto dos seus dias. Nunca
mais, porque nunca mais havia de abandonar
a cidade de Fermina Daza.
A baía era um remanso ao amanhecer. Por cima da névoa flutuante, Florentino
Ariza viu a cúpula da catedral
dourada pelas primeiras luzes, viu os
pombais nos eirados, e guiando-se por eles localizou
o balcão do palácio do Marquês de Casalduero, onde supunha que a mulher da sua desventura
dormitava apoiada ainda no ombro do esposo saciado. Essa visão
o dilacerou, mas não fez nada para reprimi-la, pelo contrário: desfrutou
sua dor. O sol começava a esquentar quando
a chalupa do correio abriu caminho
pelo labirinto de veleiros ancorados,
onde os cheiros incontáveis do mercado
público, remexidos com a podridão do fundo, se
confundiam numa só pestilência. A goleta de Riohacha acabava de chegar, e os grupos de estivadores
com água pela cintura recebiam os passageiros na amurada e os carregavam até a
margem. Florentino Ariza foi o
primeiro a tocar terra saltando da chalupa do correio, e a partir de então
não sentiu mais o fedor da baía
mas apenas o cheiro pessoal de Fermina Daza no recinto da cidade. Tudo cheirava a ela.
Não voltou à agência do telégrafo. Sua preocupação única eram os folhetins de
amor e os volumes da Biblioteca Popular que a mãe continuava
a comprar para ele, e
que ele lia e tornava a ler enterrado
numa rede até decorá-los. Sequer
perguntou onde estava o violino. Reatou os contatos com seus amigos mais próximos,
e às vezes
jogavam bilhar ou conversavam nos cafés ao ar livre debaixo dos arcos da Praça
da Catedral, mas não voltou aos
bailes dos sábados: não podia concebê-los
sem ela.
Na mesma manhã em que
voltou da viagem inacabada soube que
Fermina Daza
estava passando a
lua-de-mel na Europa, e seu coração
atordoado aceitou como fato que ela passaria
a morar lá, se não para sempre ao menos por muitos anos.
Esta certeza lhe trouxe as primeiras
esperanças de esquecimento. Pensava em Rosalba,
cuja lembrança se fazia mais ardente à
medida que se apaziguavam as
outras. Foi por essa época que
deixou crescer o bigode de guias
engomadas que não rasparia pelo resto da vida
e que mudou seu modo de ser, e a idéia da substituição do amor
o enfiou por caminhos imprevistos. O
cheiro de Fermina Daza se foi tornando
pouco a pouco menos freqüente e intenso, e por fim ficou apenas nas gardênias
brancas.
Andava à deriva, sem
saber por onde continuar a vida, certa noite de guerra em que a
célebre viúva de Nazaret se refugiou aterrada em sua casa, porque a
dela tinha sido destruída por um canhonaço,
durante o sítio do general rebelde
Ricardo Gaitán Obeso. Foi Trânsito Ariza que pegou a ocasião no vôo e mandou a
viúva para o quarto do filho, a pretexto de que no seu não havia
lugar, mas na verdade com a
esperança de que outro amor o curasse
daquele que não o deixava viver. Florentino Ariza não tinha tornado a fazer amor desde que foi desvirginado por Rosalba no camarote do navio, e lhe pareceu
natural, numa noite de emergência, que a viúva dormisse na cama
e ele na rede. Mas ela já tinha tomado a decisão por ele. Sentada na beira da cama em
que Florentino Ariza estava deitado sem
saber o que fazer, começou a falar com ele
sobre a dor inconsolável da morte
do marido três anos antes, e enquanto isso ia despindo e jogando pelos ares os crepes da viuvez,
até que não guardou mais em si nem o
anel de núpcias. Tirou a blusa de tafetá com
bordados de vidrilho e a jogou através do quarto na poltrona do canto, atirou o corpinho por cima do ombro para
o outro lado da cama, arrancou
com um só puxão a saia talar de babados, as tiras de cetim das
ligas e as fúnebres meias de seda, e espalhou tudo pelo chão, até
atapetar o quarto com os últimos farrapos
do seu
luto. Fez tudo com tanto alvoroço, e com umas pausas tão bem medidas, que cada
gesto seu parecia celebrado
pelos canhonaços das tropas de assalto, que abalavam a cidade até os alicerces. Florentino Ariza
procurou ajudá-la com o fecho do porta- seios,
mas ela se antecipou com uma manobra destra, pois em cinco
anos de devoção matrimonial aprendera a se bastar a si mesma em todos
os trâmites do amor, inclusive seus
preâmbulos, sem ajuda de ninguém.
Por fim tirou
os calções de renda,
fazendo-os resvalar pernas abaixo com um movimento rápido
de nadadora, e ficou em carne viva.
Tinha vinte e oito anos e parira três vezes, mas sua nudez
conservava intacta a vertigem de solteira.
Florentino Ariza jamais compreenderia como umas
roupas de penitente tinham podido dissimular os ímpetos daquela
potranca xucra que o desnudou sufocada pela própria
febre, como não podia fazer com
o esposo para que não a considerasse
uma corrompida, e que tratou de saciar num
só assalto a abstinência férrea
do luto,
com o estouvamento e a
inocência de cinco anos de fidelidade conjugai. Antes dessa noite, e a partir da hora solene em que a mãe a pariu, jamais estivera sequer na mesma
cama com um homem que não fosse o esposo morto.
Não se permitiu o mau gosto de um remorso. Pelo
contrário. Mantida em vigília pelas
bolas de fogo que passavam zunindo por cima dos telhados, continuou
evocando até o amanhecer as excelências do marido, só
lhe censurando a deslealdade de haver morrido sem ela,
e redimida pela certeza de que
ele jamais fora tão seu
quanto agora, dentro de um caixão cravado
com doze cravos de três
polegadas, e a dois metros debaixo da terra.
— Sou feliz — disse — porque só agora
sei com certeza onde está quando
não está em casa.
Aquela noite tirou o luto, de
um só golpe, sem passar
pelo intervalo ocioso das blusas de
florinhas cinzentas, e sua vida
se encheu de canções de amor e
trajes provocantes com araras e borboletas pintadas, e começou a repartir o
corpo com todos aqueles que o
pedissem. Derrotadas as tropas do general
Gaitán Obeso, ao cabo de sessenta e três dias de sítio,
reconstruiu a casa arrasada pelo canhoneio, e lhe pôs um formoso terraço marinho por cima dos cais,
martelados em tempo de borrasca pela fúria assanhada da ressaca.
Esse foi
seu ninho de amor, como o chamava sem ironia, onde só recebeu quem lhe agradou, quando quis e como quis, e
sem cobrar de ninguém um só
vintém, por achar que eram os homens que
lhe faziam o favor. Em casos muito especiais aceitava um presente, desde que não fosse de ouro,
e era tão hábil em seus manejos
que ninguém teria podido apresentar uma prova concludente de sua conduta imprópria. Só numa ocasião esteve à beira do escândalo público, quando correu o boato de que o arcebispo Dante de Luna não morrera por acidente ao comer um prato de
cogumelos equivocado, mas que
os comera de propósito, porque ela o ameaçara de se degolar se ele insistisse em seus assédios sacrílegos. Ninguém lhe perguntou se era
verdade, nem lhe falou nisso, nem isso mudou nada em sua vida. Era, como
dizia ela própria morrendo de rir,
a única mulher livre da província.
A viúva de Nazaret nunca faltou aos
encontros ocasionais com Florentino Ariza, nem
nos seus tempos mais
atarefados, e nunca teve pretensões a amar e ser
amada, embora sempre nutrisse a
esperança de encontrar algo que fosse como o amor, mas sem os problemas do amor. Algumas vezes era
ele quem
ia à sua casa, e então gostavam
de se
empapar de espuma de
salitre no terraço do mar,
contemplando o amanhecer do mundo
inteiro no horizonte. Ele se empenhou a
fundo em ensinar a ela todas as safadezas que tinha visto
outros fazerem pelos buracos nas paredes do hotel suspeito, assim como as fórmulas teóricas apregoadas por Lotário
Thugut em suas noites de farra. Incitou-a a se deixar ver enquanto faziam o amor, a
trocar a posição convencional do missionário
pela da bicicleta de mar, ou do frango assado, ou do anjo esquartejado, e estiveram a pique de acabar
com a vida ao se arrebentarem os
punhos quando procuravam inventar algo diferente numa rede. Foram lições
estéreis. Pois a verdade é
que ela era uma aprendiz temerária, mas carecia do talento mínimo para a fornicação dirigida. Nunca entendeu
os encantos da serenidade na cama, nem teve um
instante de inspiração, e seus orgasmos eram inoportunos e
epidérmicos: uma trepada triste.
Florentino Ariza viveu muito tempo
na ilusão de
ser o único, e ela lhe dava
o gosto de acreditar nisso, até que teve a má sorte de
falar dormindo. Pouco a pouco, ouvindo-a dormir, ele foi recompondo aos pedaços a carta de navegação dos seus sonhos, e se
meteu por entre as ilhas numerosas de
sua vida secreta. Assim ficou
informado de que ela não pretendia se casar com ele, mas se sentia ligada à sua vida pela gratidão imensa que
lhe devia por tê-la pervertido. Muitas vezes disse a ele:
— Adoro você
porque você me tornou puta.
Dito de outra maneira, não lhe faltava
razão. Florentino Ariza a despojara da virgindade de um casamento
convencional, mais perniciosa do que
a virgindade congênita e a abstinência da viuvez. Ele lhe ensinara que nada do que
se faça na cama é imoral se contribui para perpetuar o amor. E algo que havia de ser desde então a
razão de sua vida: convenceu-a de que
a gente vem ao mundo com as trepadas contadas, e as que não se usam por qualquer motivo, próprio ou alheio, voluntário ou forçado, se
perdem para sempre. O mérito
dela foi tomá-lo ao pé da letra. Contudo, porque acreditava
conhecê-la melhor do que ninguém,
Florentino Ariza não compreendia por que era tão solicitada uma mulher de
recursos tão pueris, que além
disso não parava de falar
na cama das
saudades do esposo
morto. A única explicação que lhe ocorreu, e que ninguém pôde desmentir,
foi que à viúva de Nazaret
sobrava em ternura o que faltava em artes marciais. Começaram a se ver com menos
freqüência à medida que ela alargava
seus domínios, e à medida que ele explorava os seus tratando de encontrar
alívio para seus velhos padecimentos em outros corações desarvorados, e por fim se esqueceram
sem
dor.
Foi o primeiro amor de cama de
Florentino Ariza. Mas em lugar de fazer com
ela uma
união estável, como sonhava sua mãe, aproveitavam-no ambos para se lançarem
à vida. Florentino Ariza desenvolveu métodos que pareciam inverossímeis num homem como ele, taciturno
e macilento, e além disso vestido feito um ancião de tempos
idos. Não obstante, tinha duas
vantagens a seu favor. Uma era um olho certeiro para identificar de imediato
a mulher que o esperava, ainda que no meio de uma multidão,
e mesmo assim a cortejava com cautela,
pois sabia que nada causava mais vergonha nem
era mais humilhante do que uma
negativa. A outra vantagem é que elas o identificavam de imediato como um solitário carente de amor,
um indigente das ruas com uma humildade de cão batido que as submetia sem
condições, sem pedir nada, sem nada esperar dele, exceto a
tranqüilidade de consciência de lhe haverem
feito um favor. Eram suas únicas armas, e com elas travou
batalhas históricas mas em segredo
absoluto, que foi registrando com um rigor de
notário num caderno cifrado,
colocado entre muitos outros com um título
que dizia tudo: Elas. A primeira anotação foi feita com a viúva de Nazaret.
Cinqüenta anos mais tarde, quando Fermina Daza ficou livre de sua sentença sacramentai, tinha uns vinte e cinco cadernos com seiscentos e vinte e
dois registros de amores continuados, à parte as aventuras fugazes que não mereceram uma nota
de caridade
que fosse.
O próprio
Florentino Ariza estava convencido, ao fim
de seis meses de amores descomedidos com a viúva de Nazaret, de que conseguira sobreviver ao tormento de Fermina Daza. Não só acreditou
como comentou várias vezes o fato com Trânsito Ariza durante os
quase dois anos que durou a viagem de núpcias,
e continuou acreditando com uma sensação
de libertação sem fronteiras até o domingo de
sua
má estrela em que a viu de chofre sem
qualquer aviso do coração,
quando saía da missa solene pelo braço do marido e assediada pela curiosidade e as
lisonjas do seu novo mundo. As mesmas damas de alta linhagem que no
princípio a menosprezavam e
zombavam dela por ser uma adventícia sem nome se esmeravam para que ela
se sentisse uma delas,
enquanto se embriagavam com seu encanto.* Assumira com tanta
naturalidade sua condição de esposa mundana que Florentino Ariza
precisou de um instante de reflexão
para reconhecê-la. Era outra: a
compostura de pessoa adulta, os
botins altos, o chapéu de velilho com a pena colorida de algum pássaro oriental, tudo nela era correto e fácil, como se tudo tivesse
sido seu desde sua origem. Achou-a mais bela e viçosa do que nunca, mas irrecuperável, como
nunca, embora não tenha compreendido a
razão até notar a curva do seu ventre debaixo da túnica de seda:
estava grávida de seis meses.
Entretanto, o que mais o impressionou foi
que ela e o marido formavam um par admirável,
e ambos manejavam o mundo cora tanta fluidez que
pareciam flutuar acima dos escolhos da
realidade. Florentino Ariza não sentiu
ciúme nem raiva, e sim um grande
desprezo por si mesmo. Sentiu-se pobre, feio, inferior, e não só indigno dela como de qualquer outra mulher sobre
a terra.
Lá estava ela de volta.
Regressava sem nenhum motivo para se arrepender
da
guinada que tinha dado era sua vida. Pelo contrário: cada vez teve menos, sobretudo depois de sobreviver
aos íngremes primeiros anos. Mais meritório ainda no caso dela, que chegara à
noite de núpcias ainda nas brumas da inocência. Tinha começado a perdê-la no
curso de sua viagem pela província da prima
Hildebranda. Em Valledupar compreendeu enfim
por que os gaios corriam atrás das galinhas,
presenciou a cerimônia brutal dos burros, viu nascerem os bezerros, e ouviu as primas dizerem com naturalidade
quais os casais da família que
continuavam a fazer amor, e quais e quando e por que
tinham deixado de fazê-lo embora continuassem morando juntos. Foi
então que se iniciou nos amores
solitários, com a rara sensação de estar descobrindo algo que seus instintos tinham sempre sabido,
primeiro na cama, com a respiração amordaçada para
não se delatar no quarto
compartilhado com meia dúzia de primas, e depois a duas mãos, largada à vontade no chão do banheiro, com o cabelo solto e fumando seus primeiros cigarros de tropeiro. Sempre o fez com umas dúvidas de consciência que só conseguiu superar depois de casada,
e sempre num segredo absoluto,
enquanto as primas alardeavam entre si não
só a quantidade de vezes num dia, como inclusive a forma e o
tamanho dos orgasmos. No entanto,
apesar da bruxaria daqueles ritos
iniciais, continuou carregando a convicção de
que a perda da virgindade era um sacrifício sangrento.
De
maneira que sua festa de bodas, uma das mais
ruidosas de fins do século
passado,
transcorreu para ela nas vésperas do horror. A angústia da lua-de-mel
afetou-a muito mais do que o escândalo social do seu casamento
com um galã como não havia dois naqueles anos. Logo que começaram a correr
os proclamas na missa solene da catedral, Fermina Daza voltou a receber
cartas anônimas, algumas com ameaças de morte,
mas mal passava os olhos nelas, pois todo o medo de que era capaz estava ocupado pela iminência da violação. Era o modo correto de
tratar os missivistas anônimos, embora
ela não o fizesse de propósito, numa classe acostumada, pelas reviravoltas históricas, a curvar a
cabeça diante dos fatos consumados. Por isso
tudo quanto lhe era contrário
ia ficando a seu favor à medida que a
boda se tornava irrevogável. Ela
notava isso nas mudanças graduais do cortejo de mulheres lívidas. degradadas pelo artritismo e os ressentimentos, que um dia se convenciam de que eram vãs suas intrigas
e apareciam sem se anunciar na pracinha dos Evangelhos como se estivessem
em casa, carregadas de receitas de cozinha e de presentes augurais. Trânsito Ariza
conhecia aquele mundo, embora só dessa
vez o sofresse na própria carne, e sabia que suas clientes apareciam na véspera das festas
grandes pedindo-lhe o favor de desenterrar as botijas e emprestar as
jóias empenhadas, só por vinte e
quatro horas, mediante o pagamento de um juro adicional. Há muito tempo não
acontecia como dessa vez, quando as botijas ficaram vazias para que as senhoras de extensos
sobrenomes abandonassem seus santuários de sombras para aparecerem
radiantes, com suas próprias jóias tomadas de empréstimo, numa boda como não se viu
outra de tanto esplendor no resto do século, e cuja glória final foi a de
ostentar como padrinho o doutor Rafael
Núfiez, três vezes presidente da república, filósofo, poeta
e autor da letra do Hino Nacional, como se podia
ver desde então em alguns
dicionários recentes. Fermina Daza chegou ao altar-mor da catedral pelo braço do pai,
a quem o traje de cerimônia conferiu por um dia um ar
equívoco de respeitabilidade.
Casou-se para sempre perante o
altar-mor da catedral numa missa
concelebrada por três bispos,
às onze da manhã da sexta-feira
de glória da Santíssima Trindade, e sem
um pensamento de caridade para Florentino Ariza, que a essa hora delirava de febre, morrendo por ela,
à intempérie num navio que não
havia de levá-lo ao esquecimento. Durante a cerimônia, e depois
na festa, manteve um sorriso que parecia fixado com alvaiade,
uma expressão sem alma que alguns interpretaram como o sorriso de zombaria da vitória, mas que na realidade era um pobre recurso para dissimular
seu terror de virgem recém-casada.
Por sorte, as circunstâncias
imprevistas, junto com a compreensão do marido, resolveram suas três primeiras noites sem dor. Foi
providencial. O navio da Compagnie Générale Transatlantique, com o itinerário transtornado pelo mau
tempo do Caribe, anunciou com apenas
três dias de antecipação que avançava
a partida vinte e quatro horas, de modo que não zarparia para La Rochelle
no dia seguinte à boda, como estava previsto há seis meses, e sim
na mesma noite. Ninguém acreditou que aquela
alteração não fosse mais uma das tantas
surpresas elegantes da boda, pois
a festa acabou depois
da meia-noite a bordo do
transatlântico
iluminado, com uma orquestra de Vieña que estreava naquela viagem as
valsas mais recentes de Johann
Strauss. De modo que os vários padrinhos ensopados de champanha foram arrastados para
terra pelas esposas atribuladas, quando já andavam perguntando aos
camareiros se não haveria camarotes
disponíveis para que continuasse o pagode até Paris. Os últimos a
desembarcar viram Lorenzo Daza diante das tavernas
do porto, sentado no chão em plena rua e com a roupa de cerimônia em farrapos. Chorava à goela solta, como choram os árabes seus
mortos, sentado num fio de águas podres que bem podia ter sido um charco de lágrimas.
Nem na primeira noite de mar ruim,
nem nas seguintes de navegação aprazível, nem nunca em
sua mui longa vida matrimonial
aconteceram os atos de barbárie que temia Fermina
Daza. A primeira, apesar do tamanho do navio e dos luxos do camarote, foi uma repetição
horrível da goleta de Riohacha, e o marido foi um médico serviçal que não dormiu um instante para confortá-la, que era a única coisa que um médico demasiado eminente sabia fazer contra
o enjôo. Mas a borrasca amainou no
terceiro dia, passado o porto da Güayra,
e então já tinham estado juntos
tanto tempo e conversado tanto que se sentiam
amigos antigos. A quarta noite, quando
ambos retomaram a vida habitual, o doutor Juvenal Urbino se surpreendeu com o fato de sua jovem
esposa não rezar antes de dormir. Ela
foi sincera: a duplicidade das freiras provocara nela uma resistência
aos ritos, mas sua fé estava
intacta, e aprendera a mantê-la em silêncio.
Disse: "Prefiro me entender
direto com Deus." Ele compreendeu suas razões,
e desde então cada um praticou à sua maneira a mesma religião.
Tinham tido um noivado breve, mas
bastante informal para a época, pois
o doutor Urbino a visitava em sua casa, sem
vigilância, todos os dias ao entardecer. Ela não teria permitido que ele lhe tocasse nem na ponta dos dedos
antes da bênção episcopal, mas
tampouco ele tentara. Foi na primeira
noite de bom mar, já na cama mas
ainda vestidos, que ele iniciou as
primeiras carícias, e o fez com tanto
cuidado que a ela pareceu natural a sugestão de
que vestisse a camisola. Foi
trocar de roupa no banheiro, mas
antes apagou as luzes do camarote, e quando saiu com o camisolão
calafetou com panos as fendas da porta,
para deixar a cama em escuridão absoluta. Enquanto agia, falou de bom
humor:
— O que é que você quer, doutor? É
a primeira vez que durmo com um desconhecido.
O doutor Juvenal Urbino sentiu que se
esgueirava junto a ele feito um bichinho assustado, procurando
se manter o mais longe possível num leito
onde era difícil estarem dois sem se tocar. Tomou-lhe a mão, fria e crispada de terror, entrelaçou seus dedos nos dela, e quase num sussurro
começou a contar suas lembranças
de outras viagens por mar. Ela estava
tensa outra vez, porque ao voltar à
cama percebeu que ele se desnudara
por completo enquanto ela estava no
banheiro, o que fez renascer seu terror do passo seguinte. Mas o
passo seguinte demorou várias
horas, pois o
doutor Urbino continuou
falando muito devagar, enquanto se
apoderava milímetro a milímetro da confiança de seu corpo.
Falou-lhe de Paris, do amor em
Paris, dos namorados de Paris
que se beijavam na rua, no ônibus, nos terraços floridos dos cafés abertos
ao hálito de fogo e aos acordeões
lânguidos do verão, e faziam o amor de pé nos cais do Sena sem que ninguém os incomodasse. Enquanto falava nas
sombras, acariciou-lhe a curva do pescoço
com a ponta dos dedos, lhe acariciou
a penugem de seda dos braços, o
ventre evasivo, e quando sentiu que
a tensão cedera, fez uma primeira
tentativa de lhe levantar a camisola, mas ela
o deteve com um impulso típico do seu caráter. Disse: "Sei fazer isso sozinha."
Tirou-a, de fato, e depois ficou tão imóvel que o doutor Urbino poderia pensar
que já não estava ali, não fosse o
calor de sol do seu corpo nas trevas.
Ao fim de um momento tornou a lhe
agarrar a mão, e então
sentiu-a quente e solta, embora úmida ainda de um orvalho
suave. Ficaram outro momento silenciosos
e imóveis, ele aguardando a ocasião para o passo seguinte, ela a
esperá- lo sem saber por onde, enquanto a escuridão se ampliava com sua respiração
cada vez mais intensa. Ele a soltou de
repente e deu o salto no vácuo: umedeceu na língua a ponta do dedo
médio e lhe tocou apenas no
bico desprevenido do seio, e ela
sentiu uma descarga de morte,
como se tocada num nervo vivo. Alegrou-se de estar
às escuras para que ele não visse
o rubor esbraseado que lhe fez tremer
até as raízes do crânio.
"Calma", disse ele, muito calmo.
"Não esqueça que os conheço." Sentiu que ela sorria, e sua voz soou doce e nova nas trevas.
— Lembro muito bem — disse — e ainda não passou minha raiva.
Então ele soube que tinham
passado o cabo da boa esperança, e
tornou a pegar- lhe na mão grande e macia, e cobriu-a de beijinhos órfãos, primeiro o metacarpo
áspero, os grandes dedos clarividentes, as unhas
diáfanas, e depois o hieróglifo do seu destino
na palma suada. Ela não soube como foi que sua
mão chegou até o peito dele, e esbarrou em algo que não soube adivinhar
o que fosse. Ele disse: "É um escapulário." Ela lhe acariciou os pêlos do peito,
e depois agarrou o matagal completo com os cinco dedos para arrancá-lo pela raiz. "Mais forte", disse ele. Ela tentou,
até o ponto em que sabia que
não ia machucá-lo, e depois foi sua mão que buscou a dele perdida nas trevas. Mas ele não deixou que os dedos de novo se
entrelaçassem, agarrando-lhe o pulso e conduzindo a mão dela ao longo do próprio
corpo com uma força invisível
mas muito bem dirigida, até que ela sentiu o sopro ardente de um animal
em carne viva, sem forma corporal, mas ansioso e arvorado. Ao contrário do que ele imaginou, mesmo ao contrário do que
ela própria
teria imaginado, não retirou a mão, nem
a deixou inerte onde ele a
pôs, mas, encomendando-se de corpo e
alma à Santíssima Virgem, cerrou os
dentes com medo de rir da própria loucura, e começou a identificar
pelo tato o inimigo empinado, tomando conhecimento
do seu tamanho, a força do seu talo, a extensão de suas asas,
assustada com sua determinação mas
compadecida de sua solidão, tornando-o seu com uma
curiosidade minuciosa que
alguém menos experiente que seu esposo teria confundido com carícias.
Ele fez apelo às suas últimas forças para resistir à
vertigem do escrutínio mortal, até
que ela o largou com uma graça infantil,
como se o
tivesse jogado no lixo.
— Nunca pude
entender como é esse aparelho — disse.
Então ele o explicou a sério com seu
método magistral, enquanto lhe carregava
a mão pelos lugares que mencionava, e ela a
deixava entregue com uma obediência de aluna exemplar.
Ele sugeriu num momento propício que
tudo aquilo era mais fácil com a luz acesa.
Ia acendê-la, mas ela lhe deteve o
braço, dizendo: "Eu vejo melhor com
as mãos." Na realidade queria
acender a luz, mas queria fazê-lo ela própria e não recebendo ordens, e assim foi. Ele a viu então em posição fetal,
e além do mais coberta com o lençol, sob a claridade repentina. Mas viu-a agarrar
outra vez sem afetações o
animal da sua curiosidade, virou-o do direito
e do avesso, observou-o com um interesse que já começava a parecer mais do que científico, e disse em conclusão: "Para lá de feio, mais
feio que o das mulheres." Ele concordou, e assinalou
outros inconvenientes mais graves que
a feiúra. Disse: "É como o filho mais velho, que a gente passa a vida trabalhando para ele,
sacrificando tudo por ele, e
na hora da verdade acaba fazendo o que lhe
dá na veneta." Ela
continuou a examiná-lo, perguntando para que
servia isso, e para que servia aquilo, e quando se considerou bem informada sopesou-o com
ambas as mãos, como para concluir que nem pelo peso valia a pena, e o deixou cair com um muxoxo de
menosprezo.
— Além de tudo, acho que tem muita coisa de sobra — disse.
Ele ficou perplexo. A proposta
original de sua tese de graduação tinha sido essa: a
conveniência de simplificar o
organismo humano. Parecia-lhe
antiquado, com muitas funções inúteis
ou repetidas que foram imprescindíveis para
outras idades do gênero humano,
mas não para a nossa. Sim: podia ser mais simples e por isso mesmo menos
vulnerável. Concluiu: "É
coisa que só Deus pode fazer, sem dúvida, mas dê todas as maneiras seria bom deixá-lo estabelecido em termos teóricos." Ela riu divertida,
de um
modo tão natural que ele aproveitou
a ocasião para abraçá-la e lhe deu o primeiro beijo na boca. Ela correspondeu, e ele continuou a lhe dar beijos muito suaves
nas faces, no nariz, nas
pálpebras, enquanto deslizava a mão por baixo do
lençol, e lhe acariciou o púbis redondo e liso: um púbis
de japonesa. Ela não lhe afastou a mão, mas conservou a sua em estado
de alerta, caso ele avançasse um passo mais.
— Não vamos continuar com a aula de medicina — disse.
— Não — disse ele. — Esta vai ser de amor.
Então, tirou o lençol de
cima dela e ela não só não se opôs
como o atirou para longe do beliche com um golpe rápido dos
pés, pois já não agüentava o calor. Mais
do que parecia quando ela estava vestida, seu corpo era ondulante
e elástico, com um cheiro próprio
de animal montes que
permitia distingui-la entre todas as mulheres
do mundo. Indefesa à plena luz, uma onda de sangue fervente
lhe subiu à cara, e a única coisa que lhe ocorreu como disfarce foi se grudar ao pescoço do seu homem, e
beijá-lo a fundo, bem forte, até que
gastaram no beijo todo o ar de respirar.
Ele tinha consciência de que não a amava. Casara-se porque
gostava da sua altivez, sua seriedade,
sua força e também por um tico de
vaidade, mas enquanto ela o
beijava pela primeira vez teve a certeza de que
não haveria nenhum obstáculo para inventar
um bom amor. Não falaram a respeito nessa primeira
noite em que falaram de tudo até o amanhecer, nem falariam nunca. Mas de um modo
geral, nenhum dos dois se equivocou.
Ao despontar do
dia, quando adormeceram, ela continuava
virgem, mas não o seria por muito tempo.
A noite seguinte, com efeito, depois que ele lhe ensinou a dançar
as valsas de Vieña debaixo do céu sideral do Caribe, ele teve que
ir ao banheiro depois dela, e quando voltou ao camarote encontrou-a esperando
por ele nua na cama. Então foi ela quem
tomou a iniciativa, e se entregou
sem medo, sem dor, com a alegria de uma aventura de alto mar, e sem vestígios
de cerimônia sangrenta além da rosa da
honra no lençol. Ambos o
fizeram bem, quase como um milagre, e
continuaram a fazê-lo bem de noite e de dia e cada vez melhor no resto da viagem,
e quando chegaram a La Rochelle se entendiam
como amantes antigos.
Permaneceram dezesseis meses
na Europa, com base em Paris,
e fazendo viagens curtas pelos países vizinhos. Durante esse tempo fizeram amor todos
os dias, e mais de uma vez
nos domingos de inverno, quando
ficavam até a hora do almoço
preguiçando na cama. Ele era homem de bons ímpetos, além de bem treinado, e ela não fora feita para aceitar vantagem de ninguém,
de maneira que tiveram que se conformar com o poder compartilhado na
cama. Depois de três meses de amores
febris ele compreendeu que um dos dois era estéril, e ambos se submeteram
a exames severos no Hospital de La Salpêtrière, onde ele fora interno. Foi uma diligência árdua mas infrutífera. Contudo, quando menos o esperavam, e sem nenhuma mediação científica, aconteceu
o milagre. Em fins do ano seguinte,
quando voltaram a casa, Fermina estava grávida de seis meses, e se
julgava a mulher mais feliz da terra. O filho tão desejado por ambos, que nasceu sem novidades sob o
signo de Aquário, foi batizado em homenagem ao avô morto de cólera.
Era impossível saber se foi a
Europa ou o amor que os tornou diferentes, pois as duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Ambos estavam mudados, e a fundo,
não só em si mesmos como em relação aos demais, como percebeu Florentino Ariza ao vê-los à
saída da missa duas semanas depois da volta,
naquele domingo da sua desgraça. Voltaram com uma concepção nova da vida, carregados de novidades
do mundo, e prontos para mandar. Ele com as primícias da literatura, da música, e sobretudo
as de sua ciência. Trouxe uma assinatura
de Le Fígaro, para não perder o fio da realidade, e outra da Revue des
Deux Mondes para não perder o fio da poesia. Tinha feito além disso um acordo com seu livreiro de Paris para
receber as novidades dos escritores mais lidos, entre eles Anatole France e Pierre Loti, e
daqueles de que gostava mais, como Remy de Gourmont e Paul Bourget, mas em nenhum
caso Émile Zola, que lhe parecia
insuportável, apesar de sua valente
irrupção no julgamento de Dreyfus. O
mesmo livreiro se comprometeu a mandar
pelo correio as
partituras mais sedutoras do catálogo
de Ricordi, sobretudo de música de câmara, para
manter o título bem ganho por seu pai
de primeiro promotor de concertos
na cidade.
Fermina Daza, sempre contrária aos
rigores da moda, trouxe seis baús com roupas de tempos diversos, pois não a convenceram
as grandes marcas. Tinha estado nas Tulherias, em pleno inverno, para o
lançamento da coleção de Worth,
o indiscutível tirano da alta
costura, e a única coisa que conseguiu foi uma bronquite
que a derrubou por cinco dias na cama. Laferrière lhe pareceu menos pretensioso
e voraz, mas sua decisão sábia foi arrebanhar o que mais lhe agradava
nas lojas de liquidação, ainda
que o esposo jurasse aterrado que eram roupas de
defunto. Da mesma forma, trouxe quantidades de sapatos italianos sem marca, que preferiu aos afamados e
extravagantes de Ferry, trouxe uma sombrinha de Dupuy, vermelha como os fogos do inferno,
que deu muito que escrever aos
nossos assustadiços cronistas
sociais. Só comprou um chapéu de Madame Reboux, mas em compensação encheu um baú de cachos de
cerejas artificiais, ramalhetes de quantas
flores de feltro conseguiu encontrar,
feixes de penas de avestruz,
morriões de pavões, rabos de gaios asiáticos, faisões inteiros, colibris, e uma variedade incontável de pássaros exóticos dissecados em pleno vôo, em pleno grito, em plena
agonia: tudo quanto servira nos últimos vinte
anos para que os mesmos chapéus parecessem outros. Trouxe uma coleção de leques de
diversos países do mundo,
e um diferente
e apropriado para cada ocasião.
Trouxe uma essência perturbadora escolhida entre muitas na perfumaria do Bazar
de La Charité, antes que os ventos
primaveris dispersassem suas cinzas,
mas usou-a uma vez só, porque se desconheceu
a si mesma
com o perfume trocado. Trouxe também um
estojo de cosméticos que era a última
novidade no mercado da sedução,
e foi a primeira mulher que apareceu com ele nas festas,
quando o simples ato de retocar o rosto em público
era considerado indecente.
Traziam, ademais, três lembranças inesquecíveis: a estréia sem precedentes
dos Contos de Hoffmann, em Paris, o incêndio pavoroso de quase todas as gôndolas de Veneza
diante da Praça de São Marcos,
que haviam presenciado com o coração dolorido da
janela de seu hotel, e a visão fugaz de Oscar Wilde na primeira nevada de janeiro.
Mas no meio dessas e de tantas outras lembranças, o doutor
Juvenal Urbino conservava uma que
sempre lamentou não compartilhar com a
esposa, pois vinha de seus tempos de estudante solteiro em Paris.
Era a lembrança de Victor Hugo, que
desfrutava aqui de uma celebridade comovente a margem de seus livros,
porque alguém disse que ele tinha
dito, sem que jamais alguém o ouvisse dizer na realidade, que nossa Constituição não era para um
país de homens e sim
de anjos. Desde então foi-lhe
rendido um culto especial, e a
maioria dos numerosos compatriotas
que viajavam para a França morria de vontade de vê-lo. Uma meia dúzia
de estudantes, entre eles Juvenal Urbino, montaram guarda por um tempo diante da sua residência na
avenida Eylau, e nos cafés onde se dizia que ele ia
chegar sem
falta e nunca chegou, e por último
tinham solicitado por escrito uma
audiência privada, em
nome dos anjos da Constituição de Rionegro. Nunca
receberam resposta. Um dia qualquer,
Juvenal Urbino passou por acaso
na frente do Jardim do
Luxemburgo e o viu sair do Senado
com uma mulher moça que lhe dava o braço. Achou-o muito velho,
movendo-se a duras penas, com a barba
e o cabelo menos radiantes que
nos retratos, e dentro de um sobretudo que parecia de alguém mais corpulento. Não quis estragar a lembrança com um cumprimento impertinente: bastava essa visão quase irreal que havia de durar-lhe a vida toda. Quando voltou
casado a Paris, em condição de vê-lo de
um modo mais formal,
Victor Hugo já morrera.
Como consolo, Juvenal e Fermina traziam a lembrança
compartilhada de uma tarde
de neves em que ficaram
intrigados pelo grupo que desafiava a tempestade diante de uma pequena livraria do Boulevard des Capucines, e era que Oscar
Wilde estava lá dentro. Quando por fim saiu, elegante deveras, mas talvez demasiado
consciente disso, o grupo o cercou para pedir
autógrafos em seus livros. O doutor Urbino se detivera
só para
vê-lo, mas sua impulsiva esposa
quis atravessar o bulevar para
que ele autografasse a única
coisa que lhe pareceu apropriada
à falta de um livro: sua
formosa luva de gazela, grande, macia, suave, e da
mesma cor de sua pele
de recém-casada. Estava certa de que um
homem tão refinado ia apreciar aquele gesto. Mas o marido se opôs com firmeza, e quando ela procurou fazê-lo apesar de suas razões,
ele sentiu
que não sobreviveria à vergonha.
—
Se atravessar essa rua — lhe disse — ao voltar aqui você me encontrará morto.
Era algo natural a ela. Antes de um ano
de casada se movimentava pelo mundo com o mesmo
desembaraço com que o fazia desde menina
no morredouro de São João da
Ciénaga, como se tivesse nascido
sabendo, e tinha uma facilidade de trato com os desconhecidos que deixava o
marido perplexo, e um talento misterioso para
se entender em castelhano com quem fosse e em qualquer parte. "A gente precisa
Saber os idiomas quando vai vender alguma coisa", dizia com risos de troça. "Mas quando vai comprar,
todo o mundo dá um jeito de
entender." Era difícil imaginar alguém que tivesse assimilado tão depressa e com tanta animação a vida
cotidiana de Paris, que aprendeu a amar na lembrança apesar de suas chuvas
eternas. No entanto, quando
regressou a casa esmagada por tantas experiências juntas, cansada de viajar
e meio sonolenta com a gravidez, a primeira coisa que lhe perguntaram no porto foi o que achara das maravilhas da Europa,
e ela resumiu dezesseis meses de ventura com três palavras, no seu modo de
falar caribe:
—
É mais onda.
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