quarta-feira, 30 de setembro de 2015

FLORENTINO ARIZA, por outro lado, não deixara de pensar nela um único instante desde que Fermina Daza o rechaçou sem apelação depois de uns amores longos e contrariados, e haviam transcorrido a partir de então cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias. Não tivera que manter a conta do esquecimento fazendo uma risca diária nas paredes de um calabouço, porque não se havia passado um dia sem que acontecesse alguma coisa que o fizesse lembrar-se dela. Na época do rompimento ele vivia com a mãe, Trânsito Ariza, numa meia casa alugada da Rua das Janelas, onde ela desde jovem tinha um negócio de armarinho e  onde  além  disso desfiava camisas e panos velhos que vendia como algodão para os feridos de guerra. Foi seu filho único, tido de uma aliança ocasional com o conhecido armador senhor Pio Quinto Loayza, um dos três irmãos fundadores da Companhia Fluvial do Caribe, com a qual deram um impulso novo à navegação a vapor no rio Madalena.
O senhor Pio Quinto Loayza morreu quando o filho tinha dez anos. Embora sempre se houvesse ocupado em segredo de seus gastos, nunca o reconheceu como seu perante a lei nem lhe deixou resolvido o futuro, de modo que Florentino Ariza ficou apenas com o sobrenome da mãe, ainda que sua verdadeira filiação tenha sempre sido de domínio público. Depois da morte do pai, Florentino Ariza teve que renunciar ao colégio para se empregar como aprendiz na Agência dos Correios, onde o encarregaram de abrir os sacos e arrumar as cartas, e de avisar ao público da chegada do correio içando à porta do escritório a bandeira do país de procedência.
Sua capacidade chamou a atenção do telegrafista, o emigrado alemão Lotário Thugut, que além do mais tocava órgão nas cerimônias extraordinárias da catedral e dava aulas de música a domicílio. Lotário Thugut lhe ensinou o código Morse e o manejo do sistema telegráfico, e bastaram as primeiras lições de violino para que Florentino Ariza continuasse a tocá-lo de ouvido como um profissional. Quando conheceu Fermina Daza era o moço mais requisitado do seu meio social, o que melhor dançava música da moda e recitava de cor a poesia sentimental, e estava sempre à disposição dos amigos para fazer a suas noivas serenatas de solo de  violino. Era escaveirado desde então, com um cabelo de índio amansado a brilhantina, e com os óculos de míope que aumentavam seu aspecto de desamparo. Além do defeito da vista, sofria de uma prisão de ventre crônica que o obrigou a tomar lavagens purgativas a vida inteira. Só tinha uma roupa para visitas e missas, herdada  do  pai  morto,  mas  Trânsito  Ariza  a  mantinha  tão  cuidada  que  a   cada


domingo parecia nova. Apesar do seu ar enfezadinho, do seu acanhamento e de seu traje sombrio, as moças do seu grupo faziam rifas secretas no jogo de ver quem  ficava com ele, e ele aceitava o jogo de ficar com elas, até o dia em que conheceu Fermina Daza e se acabou sua inocência.
Ele a vira pela primeira vez uma tarde em que Lotário Thugut o encarregou de levar um telegrama a alguém sem domicílio conhecido que se chamava Lorenzo Daza. Encontrou-o na pracinha dos Evangelhos, numa das casas mais antigas, meio arruinada, cujo pátio interior parecia o claustro de uma abadia, com tiririca nos canteiros e um repuxo de pedra sem água. Florentino Ariza não percebeu nenhum ruído humano quando seguiu a criada descalça por baixo dos arcos do corredor,  onde havia caixotes de mudança ainda por abrir, e ferramentas de pedreiro entre restos de cal e sacos de cimento alinhados, pois  a casa estava sendo submetida a  uma reforma radical. No fundo do pátio havia um escritório provisório, onde  dormia a sesta sentado diante da escrivaninha um homem muito gordo de suíças crespas que se confundiam com os bigodes. Chamava-se, de fato, Lorenzo Daza, e não era muito conhecido na cidade porque chegara menos de dois anos e não era homem de muitos amigos.
Recebeu o telegrama como se fosse a continuação de um sonho aziago. Florentino Ariza observou os olhos aflitos com uma espécie de compaixão oficial, observou os dedos incertos procurando descolar o papel, o medo visceral que tinha visto tantas vezes em tantos destinatários que ainda não conseguiam pensar em telegrama sem pensar em morte. Quando o leu, recobrou o domínio de si mesmo. Deu um suspiro: "Boas notícias." E entregou a Florentino Ariza os cinco réis de uso, dando-lhe a entender com um sorriso de alívio que não os teria dado se as notícias tivessem sido más. Depois se despediu com um forte aperto de mão, que não era de costume com um mensageiro do telégrafo, e a criada o acompanhou até o portão da rua, não tanto para conduzi-lo como para vigiá-lo. Percorreram o mesmo caminho em sentido contrário pelo corredor de arcadas, mas desta vez viu Florentino Ariza que havia alguém mais na casa, porque a claridade do pátio estava ocupada por uma voz de mulher que repetia uma lição de leitura. Ao passar diante do quarto  de costura viu pela janela uma mulher mais velha e uma menina, sentadas em duas cadeiras muito juntas, as duas acompanhando a leitura no mesmo livro que a mulher mantinha aberto no colo. Pareceu-lhe uma visão estranha:  a  filha ensinando a mãe a ler. A dedução era incorreta só em parte, porque a mulher era tia e não mãe da menina, embora a tivesse criado como se mãe fosse. A aula não se interrompeu, mas a menina levantou a vista para ver quem passava pela janela, e esse olhar casual foi a origem de um cataclismo de amor que  meio século depois  não tinha terminado ainda.
A única coisa que Florentino Ariza pôde averiguar sobre Lorenzo Daza foi que tinha vindo de São João da Ciénaga com a filha única e a irmã solteira pouco depois da peste do cólera, e os que o viram desembarcar não duvidaram que ele vinha para ficar, pois  trazia todo  o  necessário  para  uma casa bem  guarnecida. A esposa tinha


morrido quando a filha era muito pequenina. A irmã se chamava Escolástica, tinha quarenta anos e estava cumprindo promessa ao usar o hábito de São Francisco quando saía à rua, e o cordão na cintura quando estava em casa. A menina tinha treze anos e atendia pelo mesmo nome que a mãe morta:  Fermina.
Supunha-se que Lorenzo Daza era homem de recursos porque vivia bem sem ofício conhecido, e comprara com moeda sonante a casa dos Evangelhos, cuja restauração devia ter custado pelo menos o dobro dos duzentos pesos ouro que  pagou por ela. A filha estudava no Colégio da Apresentação da Santíssima Virgem, onde as senhoritas da sociedade aprendiam dois séculos a arte e o ofício  de  serem esposas diligentes e submissas. Durante a Colônia e os primeiros anos da República recebiam as herdeiras de sobrenomes ilustres. Mas as velhas famílias arruinadas pela independência tiveram que submeter-se à realidade dos novos tempos, e o colégio abriu as portas a todas as candidatas que pudessem pagar por  ele, sem levar em conta seus pergaminhos, mas com a condição essencial de que fossem filhas legítimas de casais católicos. De todas as maneiras era um colégio  caro, e o fato de que Fermina Daza estudava ali era por si só um indício da situação econômica da família, embora não fosse de sua condição social. Estas notícias animaram Florentino Ariza, pois lhe indicavam que a bela adolescente de olhos amendoados estava ao alcance de seus sonhos. Não obstante, o regime estrito em que a mantinha o pai se revelou dentro de pouco como  um obstáculo  intransponível. Ao contrário das outras alunas, que iam ao colégio em grupos ou acompanhadas por uma criada mais velha, Fermina Daza ia sempre com a tia solteira, e sua conduta indicava que não lhe era permitida nenhuma distração.
Foi desse modo inocente que Florentino Ariza iniciou sua vida sigilosa  de caçador solitário. A partir das sete da manhã se sentava sozinho no banco menos visível da praça, fingindo ler um livro de versos à sombra das amendoeiras, até que via passar a donzela impossível com o uniforme de listras azuis, as meias  presas  com ligas nos joelhos, as botinas masculinas de cordões cruzados e uma  única trança grossa com um laço na ponta que se estendia pelas costas até a cintura. Andava com uma altivez natural, a cabeça erguida, a vista imóvel, o passo rápido, o nariz afilado, com a pasta dos livros apertada nos braços em cruz contra o peito, e com um modo de andar de corça que fazia com que ela parecesse imune  à gravidade. A seu lado, acompanhando-a a duras penas, a tia com o hábito pardo e o cordão de São Francisco não deixava a menor fresta para que  alguém  chegasse perto. Florentino Ariza as via passar de ida e volta quatro vezes por dia, e uma vez aos domingos à saída da missa solene, e ver a menina lhe bastava. Pouco a pouco a foi idealizando, atribuindo-lhe virtudes improváveis, sentimentos imaginários, e ao fim de duas semanas a única coisa em que pensava era ela. Por isso, resolveu mandar-lhe um recado simples escrito dos dois lados de  uma folha de  papel com  sua caprichada letra de escrivão. Mas guardou-a vários dias no bolso, pensando em como entregá-la, e enquanto pensava escrevia várias páginas mais antes de  se  deitar,  de  modo  que  a  carta  original  foi  virando  um  dicionário  de     galanteios,


inspirado nos livros que havia decorado de tanto lê-los nas esperas da  praça.
Buscando o modo de entregar a carta procurou travar conhecimento com algumas alunas do Apresentação, mas estavam longe demais do seu mundo. Além disso, depois de muito refletir achou que não era prudente que alguém ficasse sabendo de suas pretensões. Mesmo assim, conseguiu saber que Fermina  Daza tinha sido convidada a um baile de sábado uns dias depois da sua chegada, e que o pai não lhe havia dado consentimento com uma frase terminante: "Cada  coisa se  fará em seu devido tempo." A carta tinha mais de sessenta páginas escritas dos dois lados quando Florentino Ariza não pôde resistir mais à opressão do  seu segredo, e  se abriu sem reservas à mãe, a única pessoa com quem se permitia algumas confidencias. Trânsito Ariza se comoveu até as lágrimas com a candura do filho em assuntos de amor, e tratou de orientá-lo com suas luzes. Começou por convencê-lo   a não entregar seu cartapácio lírico, com o qual  conseguiria assustar a menina  dos seus sonhos, que supunha tão verde quanto ele nos negócios do coração. O primeiro passo, lhe disse, era fazer com que ela se desse conta do  seu  interesse,  para que a declaração não a pegasse de supetão e ela tivesse tempo de  pensar.
— Mas sobretudo — lhe disse — a primeira conquista que você tem a fazer não é   a dela, e sim a da tia.
Ambos os conselhos eram sábios, sem dúvida, mas tardios. Em verdade, no dia em que Fermina Daza se descuidou um instante da aula de leitura que estava dando à tia, e levantou a vista para ver quem passava pelo corredor, Florentino Ariza a impressionou pela aura de desamparo que o envolvia. À noite, durante a refeição,  seu pai lhe havia falado do telegrama e foi assim que ela soube o que é que  Florentino Ariza tinha ido fazer na casa, e qual era seu ofício. Estas notícias aumentaram seu interesse, pois para ela, como para tanta gente da época,  a invenção do telégrafo tinha algo a ver com a magia. Por isso reconheceu Florentino Ariza desde a primeira vez em que o viu lendo debaixo das árvores da pracinha, embora não lhe desse qualquer inquietação até que a tia a fizesse saber que várias semanas ele se postava ali. Depois, quando o viram também aos domingos à saída da missa, a tia acabou de se convencer de  que tantos encontros não podiam  ser casuais. Disse: "Não de ser por minha causa que se tanto trabalho." Pois apesar de sua conduta austera e seu hábito de penitente, a  tia  Escolástica  Daza tinha um instinto da vida e uma vocação de cumplicidade que eram suas melhores virtudes, e a simples idéia de que um homem se interessasse pela sobrinha lhe causava uma emoção irresistível. Contudo, Fermina Daza estava ainda a salvo da mera curiosidade do amor, e a única coisa que lhe inspirava Florentino Ariza era  uma certa pena, porque lhe pareceu que estava doente. Mas a tia lhe disse que era necessário ter vivido muito para conhecer a índole verdadeira de um  homem, e estava convencida de que aquele que se sentava no jardim para vê-las passar só  podia estar doente de amor.
Tia Escolástica era um  refúgio  de  compreensão  e  afeto  para  a filha solitária de


um casamento sem amor. Ela a criara desde a morte da mãe, e em relação a Lorenzo Daza se comportava mais como cúmplice do que como tia. Por isso a aparição de Florentino Ariza foi para elas mais uma das muitas diversões íntimas que costumavam inventar para entreter suas horas mortas. Quatro vezes por  dia,  quando passavam pela pracinha dos Evangelhos, ambas se apressavam  a  buscar com um olhar instantâneo o sentinela escaveirado, tímido, coisinha pouca, quase sempre vestido de preto apesar do calor, que fingia ler debaixo das  árvores. "Lá está", dizia a que o descobria primeiro, reprimindo o riso, antes que ele levantasse a vista e visse as duas mulheres rígidas, distantes de sua vida, que atravessavam o parque sem olhá-lo.
   Pobrezinho — tinha dito a tia. — Não se atreve a se aproximar porque eu estou com você, mas um dia tentará, se suas intenções são sérias, e então vai entregar a você uma carta.
Prevendo toda classe de adversidades, ensinou-a a se comunicar com sinais alfabéticos de mão, recurso indispensável aos amores  proibidos.  Aquelas travessuras ingênuas, quase pueris, despertavam em Fermina  Daza  uma curiosidade novidadeira, mas não lhe ocorreu durante vários meses que fossem  mais longe. Nunca soube em que momento a diversão se converteu em ansiedade, e sentia o sangue virando espuma na urgência de vê-lo, e uma noite acordou espavorida porque o viu olhando-a no escuro aos pés da cama. Então desejou no fundo da alma que se cumprissem os prognósticos da tia, e rogava a Deus nas suas orações que ele tivesse a coragem de lhe entregar a carta para ela saber o que dizia.
Mas seus rogos não foram atendidos. Ao contrário. Isto sucedia na época em que Florentino Ariza se confessou à mãe e ela o dissuadiu de entregar as setenta páginas de galanteios, e por isso Fermina Daza continuou esperando todo o resto  do  ano. Sua ansiedade se convertia em desespero à medida que se aproximavam as férias de dezembro, pois se perguntava sem sossego o que ia fazer para vê-lo, e para que ele a visse, durante os três meses em que não iria ao colégio. As dúvidas continuavam  sem solução na noite de Natal, quando estremeceu com a sensação de que ele a olhava do meio da multidão da missa do galo, e essa inquietação lhe sufocou o coração. Não se atreveu a voltara cabeça, porque estava sentada entre o pai e a tia, e teve que se dominar para que não percebessem sua perturbação. Mas na desordem da saída sentiu-o tão iminente, tão nítido no tumulto, que uma força irresistível a obrigou a olhar por cima do ombro quando abandonava o templo pela nave central,   e então viu a dois palmos de seus olhos os outros olhos de gelo, o rosto lívido, os lábios petrificados pelo susto do amor. Transtornada por sua própria audácia, se agarrou ao braço da tia Escolástica para não cair, e esta sentiu o suor glacial da mão através da mitene de renda, e a reconfortou com um sinal imperceptível de cumplicidade sem condições. Em meio ao estrondo dos foguetes e dos  tambores,  das lanternas coloridas nos portais e clamor das multidões sedentas de paz, Florentino Ariza vagou feito um sonâmbulo até o raiar do dia vendo a festa através


das lágrimas, aturdido pela alucinação de que era ele e não Deus que tinha nascido aquela noite.
O delírio aumentou a semana seguinte, à hora da sesta, quando passou sem esperanças pela casa de Fermina Daza, e viu que ela e a tia estavam sentadas embaixo das amendoeiras do portal. Era a repetição ao ar livre do quadro que tinha visto naquela primeira tarde no quarto de costura: a menina tomando a lição de leitura da tia. Mas Fermina Daza estava mudada sem o uniforme escolar, pois vestia uma túnica de linho com muitas pregas que lhe caía dos ombros feito um peplo, e tinha na cabeça uma grinalda de gardênias naturais que lhe dava  a aparência de uma deusa coroada. Florentino Ariza se sentou na praça, onde tinha certeza de ser visto, e então não apelou para o recurso da leitura fingida, permanecendo com o   livro aberto e os olhos fixos na donzela ilusória, que não lhe retribuiu sequer com  um olhar de caridade.
A princípio pensou que a aula debaixo das amendoeiras era uma mudança  casual, devida talvez às obras intermináveis da casa, mas nos dias seguintes compreendeu que Fermina Daza estaria ali, ao alcance da sua vista, todas as tardes   à mesma hora dos três meses das férias, e essa certeza lhe infundiu ânimo novo.  Não teve a impressão de ser visto, não notou nenhum sinal de interesse ou repúdio, mas na frieza dela havia um resplendor diferente que o animava a persistir. Em breve, uma tarde de finais de janeiro, a tia pôs o trabalho na cadeira e deixou a sobrinha no portal, no tapete de folhas amarelas caídas das amendoeiras. Animado pela suposição irrefletida de que aquela era uma oportunidade combinada, Florentino Ariza atravessou a rua e se colocou na frente de Fermina Daza, e tão  perto dela que sentiu a trilha, a forma de sua respiração e o hálito floral com que havia de identificá-la pelo resto da vida. Falou a ela com  a cabeça erguida e  com  uma determinação que voltaria a ter meio século depois, e pelo mesmo motivo.
   A única coisa que lhe peço é que receba uma carta minha lhe disse.
Não era a voz que Fermina Daza esperava dele: era nítida, e com uma autoridade que não tinha nada a ver com suas maneiras lânguidas. Sem afastar a vista do bordado, respondeu: "Não posso recebê-la sem permissão do meu  pai."
Florentino Ariza estremeceu com  o calor daquela voz, cujos timbres graves não  ia esquecer pelo resto da vida. Mas se manteve firme, e respondeu sem perda de tempo: "Consiga a permissão." Depois adoçou a ordem com uma súplica: "É um assunto de vida ou morte." Fermina Daza não o olhou, não interrompeu o bordado, mas sua decisão entreabriu uma porta por onde cabia o mundo inteiro.
   Volte todas as tardes — lhe disse — e espere que eu mude de  cadeira.
Florentino Ariza não entendeu o que ela quis dizer, até a segunda-feira da semana seguinte, quando viu do seu banco da praça a mesma cena de sempre com uma única variação: quando tia Escolástica entrou na casa, Fermina Daza se levantou e sentou na outra cadeira. Florentino Ariza, com uma camélia branca na botoeira da sobrecasaca, atravessou então a rua e parou diante dela. Disse: "Este é  o


maior momento de minha vida." Fermina Daza não ergueu a vista para ele, examinando, isto sim, os arredores com um olhar circular, e viu as ruas desertas na modorra da estação seca e um remoinho de folhas mortas arrastadas pelo  vento.
   Entregue-a — disse.
Florentino Ariza tinha pensado em levar-lhe as setenta folhas que então já poderia declamar de memória de tanto que as lera, mas se decidiu por uma meia página sóbria e explícita, em que prometia o essencial: sua fidelidade a  toda  prova e seu amor para sempre. Tirou-a do bolso interno da sobrecasaca e a colocou diante dos olhos da bordadeira atribulada que ainda não tinha ousado olhá-lo. Ela viu o envelope azul tremendo na mão petrificada de terror, e levantou o bastidor  para que ele ali pusesse a carta, pois não podia admitir que também nos dedos dela se notasse o tremor. aconteceu: um pássaro se sacudiu na folhagem da amendoeira, e sua cagada caiu bem em cima do bordado. Fermina Daza afastou o bastidor, escondeu-o atrás da cadeira para que Florentino Ariza não descobrisse o que tinha acontecido, e o olhou pela primeira vez com o rosto em chamas. Impassível, carta na mão, Florentino Ariza disse: "Dá sorte." Ela lhe agradeceu com seu primeiro sorriso, e quase lhe arrebatou a carta, que dobrou e escondeu no corpinho. Ele lhe ofereceu então a camélia que trazia na lapela. Ela a recusou: uma flor de compromisso." Em seguida, consciente de que seu tempo se esgotava, refugiou-se de novo em sua compostura.
   Agora vá embora — disse — e não volte mais até que eu lhe  avise.
Antes que Florentino Ariza lhe contasse que a tinha visto, sua mãe já o descobriria, porque ele perdeu a fala e o apetite e passava as noites em claro rolando na cama. Mas quando começou a esperar a resposta à sua primeira carta, sua ansiedade se complicou com caganeiras e vômitos verdes, perdeu o sentido da orientação e passou a sofrer desmaios repentinos, e a mãe  se  aterrorizou  porque seu estado não se parecia com as desordens do amor e sim com os  estragos  do cólera. O padrinho de Florentino Ariza, antigo homeopata que tinha sido confidente de Trânsito Ariza desde seus tempos de amante oculta, se alarmou também à primeira vista com o estado do enfermo, porque tinha o pulso tênue, a respiração rascante e os suores pálidos dos moribundos. Mas o exame revelou que não tinha febre, nem dor em nenhuma parte, e a única coisa que sentia de concreto era uma necessidade urgente de morrer. Bastou ao médico um interrogatório insidioso, primeiro a ele e depois à mãe, para comprovar uma vez mais que os sintomas do amor são os mesmos do cólera. Receitou infusões de flores de tília para entreter os nervos e sugeriu uma mudança de ares para buscar consolo na distância, mas aquilo por que anelava Florentino Ariza era todo o contrário: gozar seu martírio.
Trânsito Ariza era uma quadrarona livre com um instinto da felicidade frustrado pela pobreza, e se deleitava com as penas do filho como se fossem suas. Fazia com que bebesse as poções quando o sentia delirar e o enroupava em mantas de para enganar os calafrios, mas ao mesmo tempo lhe dava ânimo para confortá-lo em   sua


prostração.
— Aproveite agora que você é jovem para sofrer o mais que puder — lhe dizia — que estas coisas não duram toda a vida.
Na Agência Postal, é claro, não pensavam o mesmo. Florentino Ariza estava entregue à desídia, e andava tão distraído que confundia as bandeiras com que anunciava a chegada do correio, e numa quarta-feira içava a alemã quando o navio aportado era o da Companhia Leyland com o correio de Liverpool, e içava em qualquer dia a dos Estados Unidos quando o navio que chegava era o da Compagnie Générale Transatlantique com o correio de Saint-Nazaire. As confusões do amor causavam tais transtornos na separação das  cartas e provocavam tantos protestos   do público que se Florentino Ariza não ficou sem emprego foi porque  Lotário  Thugut o manteve no telégrafo e o levou a tocar violino no coro da catedral. Tinham uma aliança difícil de entender devido à diferença de idades, pois podiam  ter sido avô e neto, mas se davam tão bem no trabalho quanto nas tascas do porto, onde iam parar os tresnoitados, sem escrúpulos de classe, desde os beberrões sem eira nem beira até os rapazes de família, vestidos a rigor, que fugiam das festas elegantes do Clube Social para comer peixe frito com arroz de coco. Lotário Thugut costumava ir para lá depois do último turno do telégrafo, e muitas vezes amanhecia bebendo ponche da Jamaica e tocando acordeão com as tripulações de loucos das goletas das Antilhas. Era corpulento, parrudo, com uma barba dourada e um barrete frígio que usava para sair à noite, e lhe faltava uma réstia de campânulas para ser idêntico a Papai Noel. Ao menos uma vez por semana acabava com uma pássara da noite,  como ele as chamava, das muitas que vendiam amores de emergência num hotel de dormida para marinheiros. Quando conheceu Florentino Ariza, a primeira coisa que fez com um certo deleito magistral foi iniciá-lo nos segredos do seu paraíso.  Escolhia para ele as pássaras que lhe pareciam melhores, discutia com elas o preço   e o modo, e se prontificava a pagar adiantado e com o seu dinheiro o serviço. Mas Florentino Ariza não aceitava: era virgem, e havia proposto a si mesmo não deixar   de sê-lo, se não fosse por amor.
O hotel era um palácio colonial que já conhecera dias melhores, e os grandes salões e os aposentos de mármore estavam divididos em cubículos de papelão com buracos de alfinete, pois tanto se alugavam para fazer como para ver. Falava-se de enxeridos cujos olhos tinham sido furados com agulhas de tricô, de outro que reconheceu a própria esposa naquela que estava espionando, e de cavalheiros de prosápia que entravam fantasiados de verdureiros para se aliviarem com os contramestres de passagem, e de tantos outros percalços de bisbilhoteiros e bisbilhotados, que a mera idéia de se expor dentro de um quarto parecia pavorosa a Florentino Ariza. Por isso Lotário Thugut não conseguiu persuadi-lo de que ver e se deixar ver eram requintes de príncipes na Europa.
Ao contrário do que fazia crer sua corpulência, Lotário Thugut tinha um bilro de querubim que parecia um botão de rosa, mas isto devia ser um defeito afortunado,


porque as pássaras mais experientes se disputavam a sorte  de  dormir com  ele, e seus alaridos de esfaqueadas abalavam as fundações do palácio e faziam tremer de espanto seus fantasmas. Diziam que usava uma pomada de veneno de víbora que excitava a sela turca das mulheres, mas ele jurava não dispor de recursos diferentes daqueles que Deus lhe havia dado. Dizia, morto de rir: "É puro amor." Muitos anos tiveram que passar para que Florentino Ariza compreendesse que talvez o dissesse com razão. Acabou de se convencer num tempo mais avançado de sua educação sentimental, quando conheceu um homem que se dava uma vida de rei explorando três mulheres ao mesmo tempo. As três lhe prestavam contas ao amanhecer, humilhadas a seus pés para se fazerem perdoar pelas coletas exíguas, e a única gratificação por que anelavam era que ele fosse para a cama com a que  mais  dinheiro trouxesse. Florentino Ariza achava que o terror podia induzir a tamanha indignidade. Contudo, uma das três moças o surpreendeu com a verdade  contrária.
— Estas coisas — lhe disse — podem ser feitas por amor.
Não foi tanto por suas virtudes de fornicador como por sua graça pessoal que Lotário Thugut chegou a ser um dos clientes mais apreciados do hotel. Florentino Ariza, com seu jeito silencioso e escorregadiço, ganhou também o apreço do dono, e na época mais árdua de seus quebrantos costumava se trancar para ler versos e folhetins lacrimosos nos quartinhos sufocantes, e seus sonhos deixavam ninhos de escuras andorinhas nos balcões e rumores de  beijos e bater de  asas nos marasmos  da sesta. Ao entardecer, quando baixava o calor, era impossível não escutar as conversações dos homens que vinham buscar um desafogo para o dia num amor apressado. Assim se inteirou Florentino Ariza de muitas infidelidades e mesmo de alguns segredos de estado que os clientes importantes e as próprias autoridades locais confiavam a suas amantes efêmeras sem o cuidado de não serem ouvidos nos quartos vizinhos. Foi também assim que se inteirou de que a quatro léguas marítimas ao norte do arquipélago de Sotavento jazia afundado desde o  século  XVIII um galeão espanhol carregado com mais de quinhentos bilhões de pesos em ouro puro e pedras preciosas. O relato o assombrou, mas não voltou a pensar nele  até uns meses depois, quando sua loucura de amor lhe alvoroçou as ânsias de resgatar a fortuna submersa para que Fermina Daza se banhasse em tanques de ouro.
Anos mais tarde, quando procurava lembrar como era na realidade a donzela idealizada com a alquimia da poesia, não conseguia separá-la  das tardes  dilacerantes daqueles tempos. Mesmo quando a espreitava sem ser visto, nos  dias  de ansiedade em que esperava a resposta à sua primeira carta, a via transfigurada na reverberação das duas da tarde sob o chuvisco de flores das amendoeiras, que estavam sempre em abril qualquer que fosse o tempo do ano. Só lhe interessava então acompanhar Lotário Thugut ao violino no mirante privilegiado do coro  porque dali via ondular a túnica dela com a brisa dos cânticos. Mas seu próprio desvario acabou por estragar-lhe o prazer, pois a música mística era tão inócua para seu estado de alma que tratava de avivá-la com valsas de amor, e Lotário Thugut se


viu obrigado a despedi-lo do coro. Foi essa a época em que cedeu aos ímpetos de comer as gardênias que Trânsito Ariza cultivava nos canteiros do pátio, e  desse  modo conheceu o sabor de Fermina Daza. Foi também a época em que encontrou  por acaso num baú de sua mãe um frasco de um litro da água-de-colônia que vendiam de contrabando os marinheiros da Hamburg American Line e não resistiu   à tentação de prová-la para buscar outros sabores da mulher amada. Continuou bebendo do frasco até o amanhecer, embebedando-se de Fermina Daza com goles abrasivos, primeiro nas tascas do porto e depois absorto no mar, que contemplava  do cais onde faziam amores precários os amantes sem teto, até que sucumbiu à inconsciência. Trânsito Ariza, que o havia esperado até as seis da manhã com a alma por um fio, buscou-o nos esconderijos menos imagináveis, e pouco depois do meio- dia o encontrou chafurdando num charco de vômitos fragrantes num remanso da baía onde vinham aportar os afogados.
Aproveitou a pausa da convalescença para repreendê-lo pela passividade  com  que esperava a resposta à carta. Lembrou a ele que os fracos não entram jamais no reino do amor, que é um reino impiedoso e mesquinho, e que as mulheres só se entregam aos homens de ânimo resoluto, porque lhes infundem a segurança pela qual tanto anseiam para enfrentar a vida. Florentino Ariza assimilou a lição talvez mais do que devia. Trânsito Ariza não pôde dissimular um sentimento de orgulho, mais concupiscente do que maternal, quando o viu sair do  armarinho com o terno  de lã negra, o chapéu duro e o laço lírico no colarinho de celulóide, e lhe perguntou  de brincadeira se ia a um enterro. Ele respondeu com as orelhas em fogo: "É quase    a mesma coisa." Notou que ele mal podia respirar, de medo, mas sua determinação era invencível. Fez as advertências finais, deu a bênção, e  lhe prometeu  morrendo de rir outra garrafa de água-de-colônia para celebrarem juntos a conquista.
Desde a entrega da carta, um mês antes, ele havia contrariado muitas vezes a promessa de não voltar à pracinha, mas tinha tomado boas precauções para não se deixar ver. Tudo continuava no mesmo. A aula de leitura debaixo das árvores terminava por volta das duas da tarde, quando a cidade acordava da sesta, e Fermina Daza continuava bordando com a tia até que declinava o calor. Florentino Ariza não esperou que a tia entrasse na casa e foi atravessando a rua com umas passadas marciais que lhe permitiram dominar o desalento dos joelhos. Mas não se dirigiu a Fermina Daza, e sim à tia.
   Faça-me o favor de me deixar a sós um momento com a senhorita — disse. — Tenho uma coisa importante a dizer a ela.
   Atrevido! — disse a tia. — Não há assunto dela que eu não conheça.
   Então não falo — disse ele — mas aviso que a senhora será responsável pelo que aconteça.
Não eram essas as maneiras que Escolástica Daza esperava do  noivo ideal, mas  se levantou assustada, porque teve pela primeira vez a impressão avassaladora de que  Florentino  Ariza  estava  falando  por  inspiração  do  Espírito  Santo.  Por    isso


entrou na casa para trocar de agulhas e deixou sós os dois jovens debaixo das amendoeiras do portal.
Na realidade, era muito pouco o que sabia Fermina Daza daquele pretendente taciturno que aparecera em sua vida feito uma andorinha de inverno, e de  quem  não saberia sequer o nome se não fosse a assinatura da carta. Apurara desde então que era filho sem pai de uma solteira laboriosa e séria, mas marcada sem remédio pelo estigma de fogo de um único mau passo juvenil. Descobrira que não era mensageiro do telégrafo, como supunha, e sim um assistente bem qualificado e de futuro promissor, e achou que levara o telegrama a seu pai apenas como um pretexto para vê-la. Essa suposição a comoveu. Também sabia que era um dos músicos do coro, e embora nunca tivesse ousado levantar a vista para comprová-lo durante a missa, um domingo teve a revelação de que enquanto os outros instrumentos tocavam para todos o violino tocava para ela. Não era o tipo de homem que houvesse escolhido. Seus óculos de menino enjeitado, sua postura clerical, seus recursos misteriosos haviam suscitado nela uma curiosidade difícil de resistir, mas nunca imaginara que a curiosidade fosse outra das tantas ciladas do amor.
Ela própria não sabia explicar a si mesma por que havia aceito a carta. Não é que se culpasse por isso, mas o compromisso cada vez mais premente de dar uma resposta acabara convertido num empecilho à vida. Cada palavra do seu pai, cada olhar casual, seus gestos mais triviais lhe pareciam semeados de truques para descobrir seu segredo. Era tal seu estado de alarma que evitava falar à  mesa, de modo que um descuido pudesse delatá-la, e se tornou evasiva até com a tia Escolástica, que compartilhava de sua ansiedade reprimida como se fosse dela própria. Trancava-se no banheiro a qualquer hora, sem necessidade, e tornava a ler   a carta procurando descobrir um código secreto, uma fórmula mágica escondida em alguma das trezentas e quatorze letras de suas cinqüenta e oito palavras, na esperança de que dissessem mais do que diziam. Mas não encontrou nada além do que havia entendido da primeira leitura, quando correu a se trancar no banheiro  com o coração enlouquecido, e despedaçou o envelope na ilusão de que fosse uma carta abundante e febril, encontrando um bilhete perfumado cuja determinação a assustou.
A princípio não havia pensado a sério que estivesse obrigada a dar uma resposta, mas a carta era tão explícita que não havia maneira de contorná-la. Enquanto isso, na tempestade das dúvidas, surpreendeu-se pensando em Florentino Ariza  com mais freqüência e mais interesse do que queria permitir a si mesma, e até perguntava atribulada por que não estava ele na pracinha à hora de sempre, sem lembrar que ela é que havia pedido que ele não voltasse enquanto ela pensava na resposta. Acabou pensando nele como jamais imaginara que se pudesse pensar em alguém, pressentindo-o onde não estava, desejando-o onde não podia estar, acordando de súbito com a sensação física de que ele a contemplava na escuridão enquanto ela dormia, de maneira que na tarde em que sentiu    seus passos resolutos


no tapete de folhas amarelas da pracinha custou a crer que não fosse outro embuste da sua fantasia. Mas quando ele lhe exigiu a resposta com uma autoridade que nada tinha a ver com suas maneiras lânguidas, conseguiu dominar o espanto e tratou de se evadir pela verdade: não sabia o que responder. No entanto, Florentino Ariza não havia transposto um abismo para se amedrontar com os  seguintes.
— Se aceitou a carta — lhe disse — é falta de educação não respondê-la.
Esse foi o final do labirinto. Fermina Daza, senhora de si mesma, se desculpou pela demora, e lhe deu sua palavra de honra de que teria uma resposta antes do fim das férias. Cumpriu. Na última sexta-feira de fevereiro, três dias antes da reabertura dos colégios, tia Escolástica foi ao telégrafo perguntar quanto custava um telegrama para o povoado de Pedras de Moer, que sequer figurava na lista, e se deixou atender por Florentino Ariza como se nunca se tivessem visto, mas ao sair fingiu esquecer em cima do balcão um breviário encadernado em couro de lagarto dentro do qual havia um envelope de papel de linho com arabescos dourados. Transtornado pela ventura, Florentino Ariza passou o resto da tarde comendo rosas e lendo a carta, repassando-a letra por letra uma vez e mais outra e comendo mais rosas quanto  mais lia a carta, e à meia-noite já a lera tanto e comera tantas rosas que a mãe teve que subjugá-lo e prender-lhe a cabeça por trás, como a um bezerro, para que engolisse uma poção de óleo de rícino.
Foi o ano do namoro encarniçado. Nem ele nem ela tinham vida para nada que não fosse pensar no outro, para sonhar com o outro, para esperar as cartas com a mesma ansiedade com que as respondiam. Jamais, naquela primavera de delírio, ou no ano seguinte, tiveram ocasião de se comunicarem de viva voz. E mais:  do instante em que se viram pela primeira vez até o instante em que ele reiterou sua determinação meio século depois, jamais tiveram uma oportunidade de se verem a sós nem de falar do seu amor. Mas nos três primeiros meses não se passou um só  dia sem que se escrevessem, e em certa época até duas vezes por dia, até que tia Escolástica se assustou com a voracidade da fogueira que ela própria ajudara a  atear.
Depois da primeira carta, que levou ao telégrafo sentindo algum rescaldo de vingança contra sua própria sorte, permitira a troca de recados quase diários em encontros de rua que pareciam casuais, mas não teve coragem de patrocinar uma conversa, por banal e momentânea que fosse. Contudo, ao fim de três meses compreendeu que a sobrinha não estava à mercê de um capricho juvenil, como lhe parecera a princípio, e que sua própria vida estava ameaçada por aquele incêndio de amor. Na verdade, Escolástica Daza tinha como modo de subsistência a caridade do irmão, que com seu caráter tirânico jamais perdoaria semelhante abuso da sua confiança, Mas na hora da decisão final não teve coração para lançar a sobrinha no mesmo infortúnio irreparável com que tivera de viver desde a juventude, e deixou que ela usasse de um recurso que lhe deixava uma ilusão de inocência. Foi um método simples. Fermina Daza punha sua caria em algum    esconderijo no percurso


diário entre a casa e o colégio, e nessa mesma carta indicava a Florentino Ariza onde esperava receber a resposta, Florentino Ariza fazia o mesmo. Desse modo os conflitos de consciência de tia Escolástica foram transferidos pelo resto do ano para os batistérios das igrejas, o oco das árvores, as fendas das fortalezas coloniais em ruínas. Às vezes encontravam as cartas empapadas de chuva, sujas de lama, raspadas pela adversidade, e algumas se perderam por motivos diversos, mas  os  dois sempre descobriram os meios e modos de reatar o  contato.
Florentino Ariza escrevia todas as noites sem piedade consigo mesmo, envenenando-se letra a letra com a fumaça das candeias de óleo de coco no cômodo de trás do armarinho, e suas cartas iam ficando mais extensas e lunáticas à medida que ele se esforçava por imitar seus poetas preferidos da Biblioteca Popular, que já por essa época ia chegando aos oitenta volumes. Sua mãe, que com tanto ardor o havia incitado a desfrutar do seu tormento, começou a se alarmar por sua saúde. "Você vai gastar o siso", gritava para ele do quarto de dormir quando ouvia cantar os primeiros gaios. "Não mulher que mereça tanto." Não se lembrava de ter conhecido ninguém em tal cotado de perdição. Mas ele não ligava. Às vezes chegava ao escritório sem dormir, os cabelos desgrenhados de amor, depois de ter deixado a carta no esconderijo previsto para que Fermina Daza a encontrasse a caminho do colégio. Ela, por sua vez, submetida à vigilância do pai e à tocaia viciosa das freiras, mal chegava a completar meia folha do caderno escolar trancada nos banheiros ou fingindo tomar notas durante as aulas. Mas não apenas devido às pressas e sustos, como também por seu caráter, as cartas dela se desviavam de escolhos sentimentais e se limitavam a contar incidentes de sua vida cotidiana no estilo utilitário de um diário de bordo. Na realidade, eram cartas de distração, destinadas a manter as brasas vivas mas sem botar a mão no fogo, enquanto Florentino Ariza se incinerava  a cada linha. Aflito por contagiá-la com sua própria loucura, mandava-lhe versos de miniaturista gravados com a ponta de um alfinete na pétala das camélias. Foi ele e não ela quem teve a audácia de pôr um cacho de cabelo dentro de uma carta, mas não recebeu nunca a resposta ambicionada, que era um fio completo da trança de Fermina Daza. Conseguiu pelo menos que ela desse mais um passo, pois a partir daí começou a lhe mandar nervuras de folhas ressecadas em dicionários, asas de borboleta, penas de pássaros mágicos, e lhe deu de aniversário um centímetro quadrado do hábito de São Pedro Claver, dos que se vendiam então às escondidas a um preço inatingível para uma colegial da sua idade. Uma noite, sem qualquer  aviso, Fermina Daza acordou assustada por uma serenata de uma valsa só em solo de violino. Iluminou-a a clarividência de que cada nota era uma ação de graças pelas pétalas dos seus herbários, pelo tempo roubado à aritmética para escrever suas cartas, pelo susto dos exames pensando mais nele do  que nas Ciências Naturais,  mas não se atreveu a acreditar que Florentino Ariza fosse capaz de semelhante imprudência.
No dia seguinte, ao café da manhã, Lorenzo Daza não  agüentava a curiosidade. Em  primeiro  lugar, porque  não  sabia o  que  significava uma peça na linguagem


das serenatas, e em segundo porque, apesar da atenção com que escutara, não tinha conseguido descobrir de que casa vinha a música. Tia Escolástica, com um sangue- frio que devolveu o fôlego à sobrinha, assegurou ter visto através das frestas da cortina do quarto que o violinista solitário estava do outro lado da praça, e disse que em todo o caso uma peça única era uma notificação de rompimento. Na sua carta desse dia, Florentino Ariza confirmou que ele tinha feito a serenata, e que a valsa tinha sido composta por ele e tinha o nome pelo qual conhecia Fermina Daza em  seu coração: A Deusa Coroada. Não voltou a tocá-la na praça, mas continuou a fazê- lo em noites de luar em lugares escolhidos de  propósito para que ela o escutasse sem sobressaltos no quarto. Um de seus lugares preferidos era o cemitério dos pobres, exposto ao sol e à chuva numa colina indigente onde dormiam os urubus, e onde a música adquiria sonoridades sobrenaturais. Mais tarde aprendeu a conhecer  a direção dos ventos, e assim ficou seguro de que sua voz chegava onde  devia.
Em agosto desse ano, uma nova guerra civil das tantas que assolavam o país mais de meio século ameaçou generalizar-se, e o governo impôs a lei marcial e o toque de recolher às seis da tarde nos estados do litoral caribe. Embora já houvessem ocorrido alguns distúrbios e a tropa cometesse toda espécie de abusos a título de escarmento, Florentino Ariza continuava tão confuso que não se inteirava da condição do mundo, e uma patrulha militar o surpreendeu certa madrugada perturbando a castidade dos mortos com suas provocações de amor. Escapou por milagre de uma exclusão sumária acusado de ser um espião que mandava mensagem em clave de sol aos navios liberais que esquadrinhavam as águas vizinhas.
    Que espião porra nenhuma — disse Florentino Ariza — eu não passo de um pobre apaixonado.
Dormiu três noites acorrentado pelos tornozelos nos calabouços da guarnição local. Mas quando o soltaram se sentiu lesado pela brevidade do cativeiro, e mesmo nos tempos da sua velhice, quando outras tantas guerras se embaralhavam em sua memória, continuava achando que era o único homem da cidade, talvez do país, que arrastara grilhões de cinco libras por uma causa de amor.
Iam completar-se dois anos de correios frenéticos quando Florentino Ariza, em carta de um parágrafo, fez a Fermina Daza a proposta formal de casamento. Nos seis meses anteriores lhe havia enviado várias vezes uma camélia branca, mas ela a devolvia na carta seguinte, para que ele não duvidasse de que estava disposta a continuar escrevendo mas sem a gravidade de um compromisso. A verdade é que sempre encarara as idas e vindas da camélia como uma travessura de amor, e nunca pensara em encará-las como uma encruzilhada do destino. Mas quando chegou a proposta formal se sentiu lanhada pelo primeiro arranhão da morte. Num medo pânico, desabafou com tia Escolástica, que enfrentou a confidencia com a valentia e  a lucidez que não tivera aos vinte anos quando se viu forçada a decidir sua própria sorte.


   Responda a ele que sim — disse. — Ainda que você esteja morrendo de medo, ainda que depois se arrependa, porque seja como for você se arrependerá a vida inteira se disser a ele que não.
Mesmo assim, Fermina Daza se sentia tão confusa que pediu um prazo para pensar. Pediu primeiro um mês, depois outro e outro, e quando se completou o quarto mês sem resposta voltou a receber a camélia branca, mas não sozinha no envelope como das outras vezes, e sim com a notificação peremptória de que era a última: ou agora ou nunca. Então foi Florentino Ariza quem viu a cara da morte, nessa mesma tarde, quando recebeu um envelope com uma tira de papel arrancada da margem de um caderno de escola, com uma resposta escrita a lápis numa linha  só: Está bem, me caso com o senhor se me promete que não me fará comer  berinjela.
Florentino Ariza não estava preparado para essa resposta, mas sua mãe estava. Desde que ele falara pela primeira vez na intenção de se casar, seis meses antes, Trânsito Ariza iniciara gestões para alugar toda a casa, que até então compartilhava com duas famílias mais. Era uma construção civil do século XVII, de dois blocos, onde funcionava o Monopólio do Tabaco sob o domínio espanhol, e cujos proprietários arruinados tinham tido que alugar aos pedaços por falta de recursos para mantê-la. Tinha uma seção que dava para a rua, onde se faziam as vendas do tabaco, outra no fundo de um pátio de pedras onde estivera a fábrica, e uma cavalariça muito grande que os inquilinos atuais usavam em comum para  lavar roupa e estendê-la na corda. Trânsito Ariza ocupava a primeira parte, que era a mais útil e mais conservada, embora fosse também a menor. Na antiga sala de vendas ficava o armarinho, com um portão para a rua, e ao lado o antigo depósito, onde dormia Trânsito Ariza e cuja única ventilação era uma clara bóia. O cômodo de trás da loja era a metade da sala, dividida com um biombo de madeira. Havia ali uma mesa e quatro cadeiras que serviam ao mesmo tempo para se comer e escrever, e ali Florentino Ariza dependurava a rede quando o despontar do dia não o surpreendia escrevendo. Era um espaço bom para os dois, mas insuficiente para qualquer pessoa mais, menos ainda para uma senhorita do Colégio da Apresentação da Santíssima Virgem, cujo pai restaurara até deixá-la como nova uma casa em escombros, enquanto famílias de sete títulos iam para a cama com o pavor de que o teto de suas mansões lhes desabasse na cabeça enquanto dormiam. De maneira que Trânsito Ariza conseguira que o proprietário lhe permitisse ocupar também a  galeria  do pátio, com a condição de que ela mantivesse a casa em bom estado por cinco anos.
Tinha recursos para isso. Além da renda real do armarinho e das fiações hemostáticas, que lhe teriam bastado para a vida modesta, multiplicara  as poupanças emprestando-as a uma clientela de novos pobres envergonhados que aceitavam seus juros excessivos em troca de sua discrição. Senhoras com ares de rainha desciam das carruagens no portão do armarinho, sem governantas nem criados incômodos, e fingindo comprar rendas da Holanda e debruns de passamanaria empenhavam entre dois soluços os últimos ouropéis de seu paraíso


perdido. Trânsito Ariza as tirava de apuros com tanta consideração por sua estirpe que muitas iam embora mais gratas pelos cumprimentos que pelos proventos. Em menos de dez anos conhecia como suas as jóias tantas vezes resgatadas e de novo empenhadas com lágrimas, e os ganhos convertidos em ouro de lei estavam enterrados numa botija debaixo da cama quando o filho tomou a decisão  de  se casar. Então fez as contas e descobriu que não podia fazer o negócio de  manter   de pé a casa alheia durante cinco anos como ainda que, com igual astúcia e um pouco mais de sorte, podia talvez comprá-la antes de morrer para os doze netos que desejava ter. Florentino Ariza, por sua parte, fora nomeado primeiro ajudante do telégrafo, em caráter interino, e Lotário Thugut queria deixá-lo como chefe do escritório quando partisse para dirigir a Escola de Telegrafia e Magnetismo, prevista para o ano seguinte.
Desta forma, o lado prático do casamento estava resolvido, mas Trânsito Ariza achou prudentes duas condições finais. A primeira, averiguar quem era na realidade Lorenzo Daza, cujo sotaque não deixava nenhuma dúvida sobre sua origem, mas de cuja identidade e de cujos meios de vida ninguém tinha informação certa. A segunda, que o noivado fosse longo, para que os noivos se  conhecessem  a fundo pelo trato pessoal, e que se mantivesse a mais estrita reserva até que ambos se sentissem muito seguros de seus afetos. Sugeriu que esperassem até o final da guerra. Florentino Ariza concordou com o segredo absoluto, tanto pelas razões  de sua mãe como pelo hermetismo próprio de seu caráter. Concordou também com a demora do noivado, mas o término da guerra lhe pareceu irreal, pois em mais de meio século de vida independente não tivera o país nem um dia de paz  civil.
   Vamos ficar velhos esperando — disse.
Seu padrinho o homeopata, que participava por casualidade da conversação, não achava que as guerras fossem um inconveniente. Achava que não passavam de pendências de pobres jungidos como bois pelos senhores da terra, contra soldados descalços jungidos pelo governo.
    A guerra está na montanha —disse — Desde que eu sou eu, nas  cidades  não nos matam com tiros, e sim com decretos.
De qualquer maneira, os pormenores do noivado se resolveram nas cartas da semana seguinte. Fermina Daza, aconselhada pela tia  Escolástica, aceitou  o  prazo de dois anos e a reserva absoluta, e sugeriu que Florentino Ariza lhe pedisse a mão quando ela terminasse a escola secundária nas férias de Natal. No momento próprio se poriam de acordo sobre o modo de formalizar o compromisso segundo o grau de aceitação que ela houvesse conseguido do pai. Enquanto isso, continuaram a se escrever com o mesmo ardor e a mesma freqüência, mas sem os sobressaltos de antes, e as cartas foram derivando para um tom familiar que já parecia de esposos. Nada lhes perturbava os sonhos.
A vida de Florentino Ariza tinha mudado. O amor correspondido lhe havia dado uma segurança e uma força que não conhecera antes, e foi tão eficiente no   trabalho


que Lotário Thugut conseguiu sem esforços que o nomeassem seu  substituto  oficial. Nessas alturas, o projeto da Escola de Telegrafia e Magnetismo tinha malogrado, e o alemão consagrava seu tempo livre à única coisa que  na realidade  lhe agradava, que era ir ao porto tocar acordeão e tomar cerveja com  os  marinheiros, e tudo acabava no hotel suspeito. Transcorreu muito tempo até que Florentino Ariza percebesse que a influência de Lotário Thugut naquele lugar de prazer se devia ao fato de que ele terminara dono do estabelecimento, além de empresário das pássaras do porto. Fizera a compra pouco a pouco, com as economias de muitos anos, mas seu testa-de-ferro era um homenzinho magro e torto, de cabelo aparado rente e de coração tão manso que ninguém compreendia como podia ser tão bom gerente. Mas era. Pelo menos, assim pareceu a Florentino Ariza quando o gerente lhe disse, sem que ele tivesse pedido, que podia dispor de um quarto permanente no hotel, não para resolver os problemas do baixo-ventre, quando se decidisse a tê-los, como também para contar com um  lugar  mais tranqüilo para suas leituras e suas cartas de amor. Por isso, enquanto transcorriam os longos meses que faltavam para a formalização do compromisso, passou mais tempo ali do que no escritório ou em casa, e houve épocas em que Trânsito Ariza só  o via quando ia trocar de roupa.
A leitura se tornou para ele um vício insaciável. Desde que o ensinara a ler, sua mãe lhe comprava os livros ilustrados dos autores nórdicos,  vendidos  como histórias infantis mas que na realidade eram os contos mais cruéis e perversos que alguém pudesse ler em qualquer idade. Florentino Ariza os recitava de cor aos cinco anos, tanto nas aulas como nas festas da escola, mas a familiaridade com eles não aliviava o terror que lhe infundiam. Ao contrário, tornava-o mais aguçado. Passar dali para a poesia foi um repouso. na puberdade consumira por ordem de publicação todos os volumes da Biblioteca Popular que Trânsito Ariza comprava nos livreiros de ocasião do Portal dos Escrivães, e nos quais havia de  tudo, de  Homero  ao menos meritório dos poetas locais. Mas ele não fazia distinção: lia o volume que chegasse, como uma ordem da fatalidade, e todos os seus anos de leitura não foram suficientes para que soubesse o que era bom e o que não prestava no muito que tinha lido. A única coisa que sabia com clareza era que entre a prosa e os versos preferia os versos, e entre estes preferia os de amor, que decorava mesmo  sem querer a partir da segunda leitura, o que lhe era ainda mais fácil quanto mais se tratasse de versos bem rimados, bem medidos, bem  desesperados.
Esta foi a fonte original das primeiras cartas a Fermina Daza, nas quais apareciam montões de parágrafos tomados sem qualquer cozimento aos românticos espanhóis, e continuou sendo até que a vida real o obrigou a se ocupar de assuntos mais terrenos do que as penas do coração. Nessas alturas dera um passo adiante rumo aos folhetins chorosos e outras prosas ainda mais profanas do seu tempo. Aprendera a chorar com a mãe lendo os poetas locais que se vendiam em praças e portas de loja em folhetos de dois centavos. Mas ao mesmo tempo era capaz de recitar de cor a poesia castelhana mais seleta do Século de Ouro. Em geral lia tudo


que lhe caísse nas mãos, e na ordem em que caía, até o extremo de que  mesmo depois daqueles duros anos do seu primeiro amor, quando já não era moço, punha- se a ler da primeira à última página os vinte volumes do Tesouro da Juventude, o catálogo completo de clássicos dos irmãos Garnier, traduzidos, e as  obras  mais fáceis que publicava Vicente Blasco Ibánez, na coleção Prometeu.
Em todo caso, seus jovens anos no hotel suspeito não se reduziram à leitura e à redação de cartas febris, pois também o iniciaram nos segredos do amor sem amor.  A vida da casa começava depois do meio-dia, quando suas amigas as pássaras se levantavam como suas mães as pariram, de modo que quando Florentino Ariza chegava do emprego se encontrava num palácio povoado de ninfas em pêlo, que comentavam aos gritos os segredos da cidade, conhecidos pelas indiscrições dos próprios protagonistas. Muitas exibiam em suas nudezas as pegadas do passado: cicatrizes de punhaladas no ventre, estrelas de balaços, sulcos de facadas de amor, costuras de cesarianas de açougueiros. Algumas recebiam durante o dia os filhos menores, frutos desventurados de desenganos ou descuidos juvenis, e tratavam de despi-los logo que chegavam para que não se sentissem diferentes no paraíso da nudez. Cada uma cozinhava o que comia, e ninguém comia melhor do  que Florentino Ariza quando o convidavam, porque escolhia o melhor de cada uma. Era uma festa diária que durava até o entardecer, quando as desnudas desfilavam cantando para os banheiros, pedindo uma a outra o sabonete emprestado, a escova de dentes, a tesoura, cortavam-se o cabelo umas às outras, se vestiam permutando roupas, se besuntavam de pintura como palhaças lúgubres, e saíam a caçar as primeiras presas da noite. A partir daí a vida da casa se tornava impessoal, desumanizada, e era impossível compartilhar dela sem pagar.
Em nenhum outro lugar Florentino Ariza se sentia melhor desde que conhecera Fermina Daza, porque era o único onde não se sentia só. E mais: acabou por ser o único onde se sentia com ela. Era talvez pelos mesmos motivos que vivia ali uma mulher mais velha, elegante, de formosa cabeça prateada, que não participava da vida natural das desnudas, e por quem estas professavam um respeito sacramentai. Um noivo prematuro a havia levado lá quando jovem, e depois de desfrutá-la um tempo a abandonou à sua sorte. Contudo, apesar do seu estigma, conseguiu bom casamento. bem mais velha, quando ficou só, dois filhos e três filhas disputaram entre si o prazer de levá-la a viver com eles, mas a ela não ocorreu lugar mais digno para viver do que aquele hotel de ternas perdulárias. Seu  quarto permanente era  sua única casa, e isto a identificou de pronto com Florentino Ariza, de quem dizia  que chegaria a ser um sábio conhecido no mundo inteiro, por ser capaz de enriquecer a alma com a leitura no paraíso da salacidade. Florentino Ariza, de sua parte, chegou a nutrir por ela tanta afeição que a ajudava nas compras do mercado,   e costumava passar tardes conversando com ela. Achava que era uma mulher sábia no amor, pois lhe deu muitas luzes sobre o seu, sem que ele precisasse revelar-lhe seu segredo.
Se antes de conhecer o amor de Fermina Daza não caíra em tantas tentações ao


alcance da mão, muito menos o faria quando já tinha sua prometida oficial. Por isso Florentino Ariza convivia com as moças, compartilhava seus gozos e suas misérias, mas nem a ele nem a elas ocorreria ir mais longe. Um fato imprevisto demonstrou a severidade de sua determinação. Certo dia às seis da tarde, quando as moças se vestiam para receber os clientes da noite, entrou no seu quarto a encarregada da limpeza no andar: uma mulher jovem mas envelhecida e macilenta, como uma penitente vestida em meio à glória das desnudas. Ele a via todos os dias sem se sentir visto: andava pelos quartos com as vassouras, um balde para o lixo e  um trapo especial para recolher do chão os preservativos usados. Entrou  no cubículo  em que Florentino Ariza lia, como sempre, e como sempre varreu com um cuidado extremo, para não perturbá-lo. De repente chegou perto da cama, e ele sentiu a mão quente e macia na cruz do seu ventre, a buscá-lo, sentiu que o achava, sentiu-a que  ia desabotoando os botões e que a respiração dela ia ocupando o quarto inteiro. Ele fingiu ler até que não agüentou mais, e teve que esquivar o  corpo.
Ela se assustou, pois a primeira advertência que lhe haviam feito para que obtivesse o emprego de varredora foi o de não tentar ir para a cama com os clientes. Não precisavam dizê-lo, pois ela era das que achavam que prostituição não era entregar-se por dinheiro e sim entregar-se a desconhecidos. Tinha dois filhos, cada um de um marido diferente, e não porque fossem aventuras casuais e sim porque não conseguira amar ninguém que voltasse depois da terceira vez. Tinha sido até então uma mulher sem ardores, preparada pela natureza para esperar sem desesperar, mas a vida daquela casa era mais forte que suas virtudes. Chegava para trabalhar às seis da tarde, e passava a noite inteira de quarto em quarto, varrendo-  os com quatro vassouradas, recolhendo os preservativos, mudando os lençóis. Não era fácil imaginar a quantidade de coisas que os homens deixavam depois do amor. Deixavam vômitos e lágrimas, o que parecia compreensível, mas deixavam também muitos enigmas da intimidade: poças de sangue, panos com excremento, olhos de vidro, relógios de ouro, dentaduras postiças, relicários com cabelo louro, cartas de amor, de negócios, de pêsames: cartas de tudo. Alguns vinham buscar suas coisas perdidas, mas a maioria delas ali ficava, e Lotário Thugut as guardava debaixo de chave, pensando que mais cedo ou mais tarde aquele palácio caído em  desgraça,  com os milhares de objetos pessoais esquecidos, seria um museu do   amor.
O trabalho era duro e mal pago, mas ela o fazia bem. O que não conseguia suportar eram os soluços, os lamentos, o ranger das molas das camas que iam se depositando em seu sangue com tanto ardor e dor que ao amanhecer não agüentava a necessidade de se entregar ao primeiro mendigo que encontrasse na rua, ou a algum bêbado sem rumo que lhe fizesse o favor sem luxos nem perguntas. A aparição de um homem sem mulher como Florentino Ariza, moço e limpo, foi para ela um presente do céu, porque a partir do primeiro momento percebeu que era  igual a ela: um carente de amor. Mas ele foi insensível ao seu cerco. Mantivera-se virgem para Fermina Daza, e não havia força nem razão neste mundo que pudesse desviá-lo do caminho.


Essa era sua vida, quatro meses antes da data prevista para formalizar o compromisso, quando Lorenzo Daza apareceu às sete da manhã no escritório do telégrafo, e perguntou por ele. Como ainda não havia chegado, esperou-o  sentado  no banco até as oito e dez, tirando de um dedo e colocando-o no outro o pesado anel de ouro coroado por uma opala nobre, e quando o viu entrar  o  reconheceu  de pronto como o empregado do telégrafo, e pegou-o pelo braço.
— Venha comigo, mocinho — disse. — O senhor e eu temos que falar cinco minutos, de homem para homem.
Florentino Ariza, verde como um morto, se deixou conduzir. Não estava preparado para esse encontro, porque Fermina Daza não encontrara a ocasião nem   a maneira de avisá-lo. O caso é que no sábado anterior, a irmã Franca de Ia Luz, superiora do Colégio da Apresentação da Santíssima Virgem, entrara na aula de Noções de Cosmogonia com o sigilo de uma serpente, e espiando as alunas por cima do ombro descobriu que Fermina Daza fingia tomar notas no caderno quando na realidade escrevia uma carta de amor. A falta, de acordo com os regulamentos do colégio, era motivo de expulsão. Chamado de urgência à reitoria, Lorenzo Daza descobriu a goteira por onde escorria seu regime de ferro. Fermina Daza, com sua integridade congênita, admitiu a culpa da carta, mas se negou a revelar a identidade do noivo secreto, e negou de novo perante o Tribunal de Ordem, que  por  esse motivo confirmou a sentença de expulsão. Contudo, o pai fez uma devassa  do  quarto dela, que até então tinha sido um santuário inviolável, e num fundo falso do baú encontrou os pacotes de três anos de cartas, escondidas com tanto amor quanto  o amor que as ditara. A assinatura era inequívoca, mas Lorenzo Daza não pôde crer nem então nem nunca que a filha soubesse do  noivo oculto que era telegrafista  de ofício e aficionado do violino.
Convencido de que uma relação tão difícil era compreensível graças à cumplicidade da irmã, não deu a esta nem a graça de uma explicação, embarcando-a sem apelação na goleta de São João da Ciénaga. Fermina Daza  não  se  libertou nunca da última lembrança dela, na tarde em que ela lhe disse adeus no portal ardendo em febre dentro do hábito pardo, ossuda e cinzenta, e a viu desaparecer na garoa da pracinha com a única coisa que lhe restava na vida: a trouxinha de solteira, e o dinheiro para sobreviver um mês, enrolado num lenço dentro do punho fechado. Logo que se livrou da autoridade do pai mandou procurá-la pelas províncias do Caribe, perguntando por ela a todos que pudessem conhecê-la, e não  encontrou sinal do seu rastro até quase trinta anos depois, quando recebeu uma carta que passara por muitas mãos durante muito tempo, e na qual lhe informavam que morrera no lazareto de Água de Deus. Lorenzo Daza não previu a ferocidade com  que a filha reagiria ao castigo injusto de que foi vítima tia Escolástica, que identificava sempre com a mãe de quem mal se lembrava. Fechou-se com tranca no quarto, sem comer nem beber, e quando ele conseguiu por fim que ela abrisse a porta, primeiro com ameaças e depois com súplicas mal disfarçadas, esbarrou numa pantera ferida que jamais voltaria a ter quinze anos.


Tratou de seduzi-la com toda espécie de agrados. Tratou de fazê-la entender que   o amor na sua idade era uma miragem, tratou de convencê-la por bem a devolver as cartas e regressar ao colégio para pedir perdão de joelhos, e lhe deu a palavra de honra de que seria o primeiro a ajudá-la a ser feliz com um pretendente digno. Mas era como falar a um morto. Derrotado, acabou por perder as estribeiras no almoço  de segunda-feira, e enquanto se engasgava de impropérios e blasfêmias à beira da congestão, ela pôs o gume da faca no próprio pescoço, sem dramas mas com pulso firme, e com uns olhos atônitos ele não se atreveu a desafiá-la. Foi aí que assumiu o risco de falar cinco minutos, de homem para homem, com o adventício infausto que não se lembrava de jamais ter visto, e que em hora tão má se havia atravessado em sua vida. Por puro costume pegou o revólver antes de sair, mas teve o cuidado de escondê-lo debaixo da camisa.
Florentino Ariza não tinha recuperado o fôlego quando Lorenzo Daza o carregou pelo braço pela Praça da Catedral até a galeria de arcos do Café da Paróquia, e o convidou a sentar-se no terraço. Não havia outros fregueses a essa hera, e uma matrona preta esfregava os ladrilhos do enorme salão de vitrais lascados e empoeirados, cujas cadeiras ainda estavam de pés para cima sobre as mesas de mármore. Florentino Ariza tinha visto ali muitas vezes Lorenzo Daza jogando e bebendo vinho de barril com os asturianos do mercado público, enquanto brigavam aos berros devido a outras guerras crônicas que não eram as nossas. Muitas vezes, consciente do fatalismo do amor, perguntava a si mesmo como seria o encontro que mais cedo ou mais tarde teria que ter com ele, e que nenhum poder humano havia   de impedir, porque estava desde sempre inscrito no destino de ambos. Imaginava-o um exaltado cheio de asperezas, não porque Fermina Daza lhe prevenira nas cartas quanto ao caráter tempestuoso do pai, como porque ele próprio notara que seus olhos pareciam coléricos até quando ria às gargalhadas na mesa de jogo. Ele todo era um tributo à vulgaridade: a pança ignóbil, a fala enfática, as suíças de lince, as mãos pesadas, o anular sufocado no aro grosso e a opala. Seu único traço enternecedor, que Florentino Ariza descobriu da primeira vez que o viu caminhar, é que tinha o mesmo andar de corça da filha. Contudo, quando ele lhe apontou a cadeira para que se sentasse, achou-o menos áspero do que parecia, e respirou desafogado quando o convidou a tomar um cálice de anis. Florentino Ariza nunca tinha bebido às oito da manhã, mas aceitou agradecido, de muito necessitado que estava.
Lorenzo Daza, com efeito, não levou mais de cinco minutos para dar suas razões, o que fez com uma sinceridade absoluta que acabou de confundir Florentino Ariza. Ao morrer sua esposa tinha imposto a si mesmo o propósito único de fazer da filha uma grande dama. O caminho era longo e incerto para um traficante de mulas que não sabia ler nem escrever, e cuja reputação de ladrão de cavalos não estava tão provada como difundida na província de São João da Ciénaga. Acendeu um charuto de tropeiro, e se queixou; "A única coisa pior do que a saúde é a fama." Contudo, disse, o  verdadeiro  segredo  da  sua fortuna era  que  nenhuma das     suas


mulas trabalhava tanto e com tanta disposição quanto ele próprio, mesmo nos tempos mais duros das guerras, quando os povoados amanheciam em cinzas e os campos devastados. Embora a filha nunca tivesse estado ao corrente da premeditação do seu destino, comportava-se como um cúmplice entusiasta. Era inteligente e metódica, ao ponto de haver ensinado o pai a ler logo que ela própria aprendera, e aos doze anos tinha um domínio da realidade mais do que bastante  para dirigir a casa sem necessidade da tia Escolástica. Suspirou: "É uma mula de ouro." Quando a filha terminou a escola primária, com grau dez em tudo e  louvor  no ato de encerramento, ele compreendeu que o âmbito de São João da Ciénaga era estreito demais para seus sonhos. Então liquidou terras e bestas, e se mudou com ímpetos novos e setenta mil pesos ouro para esta cidade em ruínas e com  suas glórias carcomidas, mas onde uma mulher bela e educada à antiga tinha ainda a possibilidade de nascer de novo num casamento de fortuna. A irrupção de Florentino Ariza tinha sido um tropeço imprevisto naquele plano encarniçado. "Por isso vim fazer-lhe uma súplica", disse Lorenzo Daza. Molhou a ponta do charuto no anis, deu-lhe uma chupada sem fumo, e concluiu com a voz aflita:
   Afaste-se de nosso caminho.
Florentino Ariza o ouvira bebendo aos goles a aguardente de anis, e tão absorto na revelação do passado de Fermina Daza que nem pensou no que ia dizer quando tivesse que falar. Mas chegado o momento reparou que qualquer coisa que dissesse comprometeria seu destino.
   O senhor falou com ela? — perguntou.
   isso não lhe diz respeito — disse Lorenzo Daza.
    Estou perguntando — disse Florentino Ariza — porque me parece que quem tem que decidir é ela.
   Nada disso — disse Lorenzo Daza: — é assunto de homens e se resolve entre homens.
O tom se tornara ameaçador, e um freguês numa mesa próxima se voltou para olhá-los. Florentino Ariza falou com a voz mais tênue mas com a resolução mais imperiosa de que foi capaz:
    De todas as maneiras — disse  — não  posso responder nada  sem saber o que ela pensa. Seria uma traição.
Então Lorenzo Daza se encostou brusco no assento com as pálpebras avermelhadas e úmidas, seu olho esquerdo girou na órbita e ficou torcido para fora. Também baixou a voz.
   Não me obrigue a lhe dar um tiro — disse.
Florentino Ariza sentiu as tripas se encherem de uma espuma fria. Mas sua voz não tremeu, porque também ele se sentiu iluminado pelo Espírito  Santo.
   o tiro disse, com a mão no peito. Não maior glória do que morrer


por amor.
Lorenzo Daza teve que olhá-lo de lado, como os papagaios, para encontrá-lo com  o olho torto. Mais do que pronunciar as três palavras, pareceu cuspi-las sílaba por sílaba:
   Fi-lho-da-pu-ta!
Naquela mesma semana empurrou a filha para a viagem do esquecimento. Não lhe deu explicação nenhuma, limitando-se a irromper no quarto dela com  os  bigodes sujos de cólera misturada ao fumo mastigado, e lhe mandou que arrumasse a mala. Ela perguntou para onde iam, e ele respondeu: "Para a morte." Assustada com aquela resposta que se parecia demais com a verdade, tratou de  enfrentá-lo  com a coragem dos dias anteriores, mas ele tirou da cintura a correia com o fivelão  de cobre maciço, enroscou-a no pulso, e deu na mesa uma lambada que  ressoou  pela casa feito um disparo de rifle. Fermina Daza conhecia muito bem o alcance e a ocasião de sua própria força, de modo que fez uma trouxa com duas esteiras e uma rede, e arrumou dois baús grandes com toda a sua roupa, certa de que era uma viagem sem retorno. Antes de se vestir, se trancou no banheiro e  conseguiu  escrever a Florentino Ariza uma breve carta de adeus numa folha arrancada ao pacotinho de Papel higiênico. Depois cortou sua trança completa na altura da nuca com a tesoura de podar, enfiou-a num rolo dentro de um estojo de veludo bordado a fio de ouro, e a mandou junto com a carta.
Foi uma viagem demente. Só a etapa inicial numa caravana de tropeiros andinos durou onze dias em lombo de mula pelas cornijas da Serra Nevada, embrutecidos todos por sóis nus ou ensopados pelas chuvas horizontais de outubro, e quase  sempre com o alento petrificado pela exalação de dormência que sobe dos precipícios. No terceiro dia de caminho, uma mula enlouquecida pelas varejeiras rolou pelo barranco com seu cavaleiro e arrastou consigo a fieira inteira, e o alarido do homem e de sua penca de sete bestas amarradas entre si continuou reboando pelas gargantas e alcantis várias horas depois do desastre, e continuou reboando durante anos e anos na memória de Fermina Daza. Toda a sua bagagem despencou com as mulas, mas no instante de séculos que durou a queda até se extinguir nas profundezas o alarido de pavor ela não pensou no pobre muleteiro morto nem na recua despedaçada, e sim na desgraça de que sua própria mula não estivesse também amarrada às outras.
Montava pela primeira vez, mas o terror e as canseiras incontáveis da  viagem  não lhe teriam parecido tão amargos se não se acompanhassem da certeza de que nunca mais veria Florentino Ariza nem teria o consolo de suas cartas. Desde o começo da viagem não tinha tornado a dirigir a palavra ao pai, e este andava tão confuso que apenas lhe falava em casos indispensáveis, ou lhe mandava recados pelos muleteiros. Em momentos de melhor sorte achavam alguma casa de pasto à beira das  veredas onde havia comidas dali mesmo, que ela se negava a comer, e  onde se alugavam camas-de-vento entranhadas de urinas e suores azedos. O mais


freqüente, contudo, era passar a noite em rancharias de índios, hospedarias  públicas ao relento, construídas à beira dos caminhos com fileiras de forquilhas e tetos de palma, onde quem quer que chegasse tinha o direito de ficar até raiar o dia. Fermina Daza não conseguiu, dormir uma noite completa, sentindo na escuridão o bulício dos retardatários que iam chegando e atando os animais às forquilhas e pendurando as redes onde podiam.
Ao entardecer, quando chegavam os primeiros, o lugar era amplo e  tranqüilo, mas amanhecia transformado em praça de feira, com feixes de  redes  penduradas  em níveis diferentes, e índios da serra dormindo de cócoras, e o balir dos cabritos amarrados e a algazarra dos gaios de briga em seus engradados de faraós, e a mudez arquejante dos cachorros monteses amestrados para não ladrar devido aos riscos da guerra. Essas privações eram familiares a Lorenzo Daza, que tinha negociado pela região durante a metade da vida, e quase sempre deparava com velhos amigos ao amanhecer. Para a filha era uma agonia perpétua. A fedentina das cargas de bagre salgado, somada à inapetência própria à saudade, acabaram por lhe atropelar o hábito de comer, e se não enlouqueceu de desespero foi porque sempre encontrou alívio na lembrança de Florentino Ariza. Não duvidou de que aquela fosse a terra do esquecimento.
Outro terror constante era o da guerra. Desde o princípio da viagem se mencionara o perigo de encontrar patrulhas dispersas, e os tropeiros os haviam instruído sobre os diversos modos de saber a que bando pertenciam para que  agissem de acordo. Era freqüente encontrar um bando de soldados a cavalo, sob o comando de um oficial, que recolhia os novos recrutas laçando-os  como novilhos  em plena carreira. Angustiada por tantos  horrores, Fermina Daza tinha esquecido  de coisas que lhe pareciam mais lendas do que ameaças de verdade, até a noite em que uma patrulha sem filiação conhecida seqüestrou dois membros da caravana e   os enforcou numa árvore a meia légua da rancharia. Lorenzo Daza não tinha nada a ver com eles, mas os fez baixar e lhes deu sepultura cristã em ação de graças  por  não ter sofrido destino igual. Não era para menos. Os  assaltantes  o  haviam acordado com um cano de escopeta na barriga, e um comandante em andrajos, com uma cara que parecia tisnada a tição, iluminou-o com a lanterna e lhe perguntou se era liberal ou conservador.
   Nem um nem outro — disse Lorenzo Daza. — Sou um súdito  espanhol.
    Que sorte! — disse o comandante, e se despediu dele com a mão no alto: —  Viva o rei!
Dois dias mais tarde desceram à planície luminosa onde se assentava o alegre povoado de Valledupar. Havia brigas de galo nos pátios, música de sanfona nas esquinas, cavaleiros em cavalos de bom sangue, foguetes e sinos. Estavam armando um castelo de pirotecnia. Fermina Daza nem reparou nos festejos. Hospedaram-se na casa do tio Lisímaco Sánchez, irmão de sua mãe, que veio recebê-los na estrada real à frente de uma buliçosa cavalgata de jovens membros da família montados   em


animais da melhor raça da província, e foram conduzidos pelas ruas do povoado em meio ao fragor do foguetório. A casa estava no centro da Praça Grande, junto  à  igreja colonial várias vezes remendada, e dava mais a impressão de uma feitoria de fazenda com seus aposentos espaçosos e sombrios, e o corredor recendente a garapa quente debruçado sobre o pomar.
Mal haviam apeado das montarias e os salões de visita já transbordavam, com os numerosos parentes desconhecidos que fustigavam Fermina  Daza  com  suas efusões insuportáveis, pois estava impedida de amar a qualquer outra pessoa que fosse neste mundo, escaldada pela montaria, morta de sono e com o intestino solto, e implorava a bênção de um lugar solitário e quieto para chorar. Sua prima Hildebranda Sánchez, dois anos mais velha do que ela e com sua mesma altivez imperial, foi a única que compreendeu seu estado logo que a viu pela primeira vez, por que também ela se consumia nas brasas de um amor temerário. Ao cair a noite conduziu-a ao quarto que havia preparado para ambas, e não entendeu como estava ainda viva com as úlceras de fogo que tinha no traseiro. Ajudada por sua mãe, uma mulher muito doce e parecida com o marido como se fossem gêmeos, preparou-lhe um banho de assento e lhe mitigou as ardências com compressas de arnica, enquanto os trovões do castelo de pólvora abalavam os alicerces da  casa.
À meia-noite já tinham saído as visitas, a festa pública se dissolveu em festinhas dispersas, e a prima Hildebranda emprestou a Fermina Daza uma camisola de morim, e a ajudou a se deitar numa cama de lençóis esticados e travesseiros de penas que lhe infundiram de pronto o pânico instantâneo da felicidade. Quando afinal ficaram sós no quarto, fechou a porta a tranca e tirou de baixo do colchão de sua cama um envelope pardo lacrado com os emblemas do Telégrafo Nacional. Bastou a Fermina Daza ver a expressão de radiante malícia da prima para brotar de novo na memória do seu coração o odor pensativo das gardênias brancas, antes de triturar o sinete de lacre com os dentes e ficar chapinhando até o raiar do dia no charco de lágrimas dos onze telegramas desatinados.
Então ficou sabendo. Antes de empreender a viagem Lorenzo Daza tinha cometido o erro de anunciá-la pelo  telégrafo a seu cunhado Lisímaco  Sánchez, e  este por sua vez mandara a notícia a sua vasta e complicada parentela, disseminada em numerosos povoados e caminhos da província. De maneira que Florentino Ariza pôde não averiguar o itinerário completo como estabelecer uma  grande irmandade de telegrafistas para seguir o rastro de Fermina Daza até a última rancharia do Cabo da Vela. Isto lhe permitiu manter com ela uma comunicação intensa desde que chegou a Valledupar, onde ficou três meses, até o fim da viagem em Riohacha, ano e meio depois, quando Lorenzo Daza aceitou como fato  que  a filha havia afinal esquecido, e resolveu voltar para casa. Talvez ele mesmo não estivesse consciente de quanto relaxara sua vigilância, distraído como estava com os agrados dos parentes políticos, que depois de tantos anos haviam abdicado de seus preconceitos tribais, admitindo-o de coração aberto como um dos seus. Embora não tivesse esse propósito, a visita foi uma reconciliação tardia. Com efeito, a família  de


Fermina Sánchez se opusera a todo custo a que ela se casasse com um imigrante  sem origem, falador e bruto, que estava sempre de passagem em todos os lugares, com um negócio de mulas xucras que parecia demasiado simples para ser limpo. Lorenzo Daza se empenhava a fundo, porque sua pretendida era a mais apreciada de uma família típica da região: uma cáfila intrincada de mulheres corajosas e homens de coração terno e gatilho fácil, perturbados até a demência pelo sentido da honra. Contudo, Fermina Sánchez se sentou em seu capricho com a determinação cega dos amores contrariados, e se casou com ele a despeito da família, com tanta pressa e tantos mistérios que dava a impressão de fazê-lo menos por amor  do  que  para cobrir com um manto sacramentai algum descuido prematuro.
Vinte e cinco anos depois, Lorenzo Daza não se dava conta de que sua intransigência com os amoricos da filha era uma repetição viciosa de sua própria história, e se lamentava de sua desgraça perante os mesmos cunhados que  se  haviam oposto a ele como estes se haviam lamentado outrora perante os seus. Mas   o tempo que ele perdia em lamentações, sua filha o ganhava nos amores. Enquanto ele andava castrando bezerros e amansando mulas nas terras felizes dos cunhados, ela passeava à rédea solta num tropel de primas comandadas por Hildebranda Sánchez, a mais bela e prestimosa, cuja paixão sem futuro por um homem vinte  anos mais velho, casado e com filhos, se conformava com olhares  furtivos.
Depois da prolongada estada em Valledupar prosseguiram viagem pelas quebradas da serra, através de campinas floridas e mesetas de sonho, e em todos os povoados foram recebidos como no primeiro, com músicas e petardos, e com novas primas confabuladas e mensagens pontuais nas agências telegráficas. Em breve Fermina Daza viu que a tarde de sua chegada a Valledupar não tinha sido extraordinária e sim que naquela província feraz todos os dias da semana eram vividos como se fossem de festa. Os visitantes dormiam onde os apanhasse a noite e comiam onde a fome os achava, pois eram casas de portas abertas onde sempre  havia uma rede pendurada e um cozido de três carnes  fervendo no fogão, para o  caso de alguém chegar antes do seu telegrama de aviso, como em geral acontecia. Hildebranda Sánchez acompanhou a prima o resto da viagem, guiando-a com pulso alegre através dos carrascais do sangue até suas fontes de origem. Fermina Daza se reconheceu, se sentiu senhora de si mesma pela primeira vez, se sentiu acompanhada e protegida, os pulmões cheios de um ar de liberdade que lhe restituiu o sossego e a vontade de viver. Nos seus últimos anos  ainda  evocava aquela viagem, cada vez mais recente na memória, com a lucidez perversa da nostalgia.
Uma noite voltou do passeio diário aturdida pela revelação de  que não só se podia ser feliz sem amor como também contra o amor. A revelação a alarmou, porque uma de suas primas tinha surpreendido uma conversa dos pais com Lorenzo Daza na qual este tinha sugerido a idéia de concertar o casamento da filha com o herdeiro único da fortuna fabulosa de Cleofás Moscote, Fermina Daza o conhecia. Vira-o  caracolando  pelas  praças  seus  cavalos  perfeitos,  com  jaezes  tão  ricos que


pareciam paramentos de missa, e era elegante e destro, e tinha umas pestanas de sonhador que faziam suspirar as próprias pedras, mas ela o comparou à lembrança que tinha de Florentino Ariza sentado embaixo das amendoeiras da pracinha, pobre  e escaveirado, com o livro de versos no colo, e não encontrou sombra de dúvida no seu coração.
Naqueles dias, Hildebranda Sánchez andava delirando de ilusões depois de visitar uma pitonisa cuja clarividência a havia assombrado. Preocupada com as intenções do pai, Fermina Daza também foi consultá-la. As cartas do baralho lhe anunciaram que não havia em seu futuro nenhum obstáculo a um casamento longo  e feliz, e o prognóstico lhe devolveu o ânimo, pois não concebia que um destino tão venturoso pudesse ser com homem que não fosse o que amava. Exaltada por essa certeza, assumiu o comando do seu arbítrio. E por isso a  correspondência telegráfica com Florentino Ariza deixou de ser um concerto de intenções e promessas ilusórias, tornando-se metódica e prática, e mais intensa do que nunca. Marcaram datas, estabeleceram meios e modos, empenharam suas vidas na determinação comum de se casarem sem consultar ninguém, onde fosse e como fosse, logo que se reencontrassem. Fermina Daza considerava tão severo este compromisso que a noite em que seu pai lhe deu permissão para  que  assistisse seu primeiro baile de adultos, na aldeia de Fonseca, a ela não  pareceu  decente aceitar sem o consentimento de seu prometido. Florentino Ariza estava aquela noite no hotel suspeito, jogando baralho com Lotário Thugut, quando lhe avisaram da chegada de mensagem telegráfica urgente.
Era o telegrafista de Fonseca que havia conjugado sete postos  intermediários  para que Fermina Daza pedisse licença para ir ao baile. Obteve-a, mas não se conformou com a simples resposta afirmativa, pedindo prova de que na realidade  era Florentino Ariza quem estava operando o manipulador no outro extremo  da linha. Mais atônito do que lisonjeado, ele compôs uma frase de identificação: Diga- lhe que eu juro pela deusa coroada. Fermina Daza reconheceu o santo e senha, e ficou no seu primeiro baile de gente grande até as sete da manhã, quando teve de trocar de roupa às carreiras para não chegar tarde à missa. Nessas alturas, tinha no fundo do baú mais cartas e telegramas do que os que o pai lhe tirara, e já se comportava com atitudes de mulher casada. Lorenzo Daza interpretou aquelas mudanças no seu modo de ser como prova de que a distância e o tempo a haviam curado das fantasias juvenis, mas nunca lhe apresentou o projeto do casamento combinado. As relações dos dois ficaram  fluidas, dentro das  reservas formais que  ela lhe havia imposto desde a expulsão da tia Escolástica, o que lhes permitiu uma convivência tão cômoda que ninguém teria duvidado que se alicerçava no  carinho.
Foi nessa época que Florentino Ariza resolveu lhe contar nas cartas que se empenhava em resgatar para ela o tesouro do galeão submerso. Era coisa  certa, como tinha sentido num sopro de inspiração, uma tarde luminosa em que o mar parecia calçado de alumínio, tal a quantidade de peixes postos a boiar por plantas narcóticas usadas pelos pescadores. Todas as aves do céu se haviam alvoroçado  com


a matança, e os pescadores precisavam afugentá-las com os  remos  para  que  não lhes disputassem os frutos daquele milagre proibido. O emprego do barbasco, que apenas adormecia os peixes, estava interditado por lei desde os tempos da Colônia, mas continuou sendo prática comum em pleno dia entre os pescadores do Caribe,  até que foi substituído pela dinamite. Uma das diversões de Florentino Ariza, enquanto durou a viagem de Fermina Daza, era ver do cais como os pescadores carregavam as canoas com redes inchadas de peixes adormecidos. Ao mesmo tempo, uma malta de meninos que nadavam como tubarões pedia aos curiosos que atirassem moedas para que as fossem fisgar no fundo da água. Eram os  mesmos que nadavam com igual propósito ao encontro dos transatlânticos, e sobre os quais se haviam escrito tantos relatos de  viagem nos Estados Unidos e na Europa, pela   sua mestria na arte de nadar debaixo d'água. Florentino Ariza os conhecia da vida inteira, de antes de conhecer o amor, mas nunca lhe havia ocorrido que  talvez fossem capazes de pôr à tona a fortuna do galeão. Ocorreu-lhe essa tarde, e do domingo seguinte até o regresso de Fermina Daza, quase um ano depois, teve um motivo adicional de delírio.
Euclides, um dos meninos nadadores, se animou tanto quanto ele com a idéia de uma exploração submarina, depois de uma conversa de não mais de dez minutos. Florentino Ariza não lhe revelou o verdadeiro objeto do empreendimento, mas se informou a fundo sobre suas habilidades de mergulho e navegação. Perguntou-lhe  se conseguia descer sem ar a vinte metros de profundidade, e Euclides disse que  sim. Perguntou se estava em condições de levar sozinho uma canoa de  pescador  pelo mar alto em plena borrasca, sem instrumentos além do próprio instinto, e Euclides disse que sim. Perguntou se seria capaz de localizar um lugar exato dezesseis milhas marítimas a noroeste da ilha maior do arquipélago de Sotavento, e Euclides disse que sim. Perguntou se era capaz de navegar à noite orientando-se pelas estrelas, e Euclides disse que sim. Perguntou se estava disposto a fazê-lo recebendo a mesma diária que lhe pagavam os pescadores para ajudá-los a pescar, e Euclides disse que sim, mas com uma sobretaxa de cinco réis aos domingos. Perguntou se sabia se defender dos tubarões, e Euclides disse que sim, pois tinha artes mágicas de afugentá-los. Perguntou se era capaz de guardar um segredo ainda que o pusessem nas máquinas de tormentos do palácio da Inquisição, e Euclides disse que sim, pois não dizia que não a nada, e sabia dizer sim com tanta convicção que não havia jeito de duvidar dele. No fim, fez as contas das despesas: o aluguel da canoa, o aluguel dos remos, o aluguel de instrumentos de pesca para que ninguém desconfiasse da verdadeira intenção das excursões. Era ainda preciso levar comida, um garrafão de água doce, uma lamparina, um maço de velas de sebo e um chifre de caçador para pedir auxílio em caso de emergência.
Tinha uns doze anos, e era ligeiro e astuto, e falava sem parar e tinha um corpo  de enguia que parecia feito para que ele se esgueirasse por qualquer escotilha. A  vida ao ar livre lhe havia curtido tanto a pele que era impossível imaginar sua cor original,  o  que  tornava  mais  radiantes  seus  grandes  olhos  amarelos.  Florentino


Ariza resolveu de pronto que era o cúmplice perfeito para uma aventura de semelhantes possibilidades, e a atacaram sem mais delongas no domingo seguinte.
Zarparam do porto dos pescadores ao amanhecer, bem providos e melhor dispostos. Euclides quase nu, com a tanga que vestia sempre, e Florentino Ariza com a sobrecasaca, o chapéu de trevas, as botinas de verniz e o laço de poeta no pescoço, e um livro para se entreter na travessia até as ilhas. Desde o primeiro domingo viu que Euclides era de fato perito navegante e bom mergulhador, e que tinha uma prática assombrosa da natureza do mar e da sucata da baía. Podia contar com mínimos pormenores a história de cada casco velho de navio roído de oxido, sabia a idade de cada bóia, a origem de qualquer escombro, o número de elos da corrente com que os espanhóis fechavam a entrada da baía. Temendo que soubesse também qual o propósito de sua expedição, Florentino Ariza lhe fez algumas perguntas insidiosas, comprovando que Euclides não tinha a menor suspeita acerca do galeão afundado.
Ao ouvir pela primeira vez a história do tesouro no hotel, Florentino Ariza se informara o mais possível sobre a crônica dos galeões. Ficou sabendo  que  o  San José não estava só em seu leito de corais. Era a nave capitania da Frota de Terra Firme, e chegara aqui depois de maio de 1708, procedente da feira legendária de Portobello, no Panamá, onde carregara parte de sua fortuna: trezentos baús com prata do Peru e Veracruz, e cento e dez baús de pérolas juntadas e contadas na ilha  de Contadora. Durante o longo mês em que aqui permaneceu, de dias e noites de festas populares, puseram a bordo o resto do tesouro destinado a tirar da pobreza o reino da Espanha: cento e dezesseis baús de esmeraldas de Muzo e Somondoco, e trinta milhões de moedas de ouro.
A Frota de Terra Firme estava integrada por nada menos que doze embarcações de diferentes tamanhos, e zarpou deste porto comboiada por uma esquadra francesa, muito bem armada, que mesmo assim não pôde salvar a expedição diante dos canhonaços certeiros da esquadra inglesa, sob as ordens do comandante Carlos Wager, que a esperou no arquipélago de Sotavento, à saída da baía. De modo que o San José não era a única nave afundada, embora não houvesse certeza documental de quantas haviam sucumbido e quantas escapado ao fogo dos ingleses. Do que não havia dúvida era que a nave capitania fora das primeiras a ir a pique, com a tripulação completa e o comandante imóvel em seu castelo de proa, e que levava a carga principal.
Florentino Ariza tinha conhecido a rota dos galeões nas cartas de navegar da época, e acreditava haver determinado o lugar do naufrágio. Saíram da baía por  entre as duas fortalezas da Boca Chica, e ao fim de quatro horas de navegação entraram nas águas interiores do arquipélago, em cujo fundo de coral podiam ser colhidas com a mão as lagostas adormecidas. O ar era tão leve, e o mar tão sereno e diáfano, que Florentino Ariza se sentiu como se não passasse de seu próprio reflexo na  água.  Para  lá  do  remanso,  a  duas  horas  da  ilha  maior,  estava  o  lugar      do


naufrágio.
Congestionado em sua indumentária fúnebre pelo sol infernal, Florentino Ariza explicou a Euclides que ali devia descer a vinte metros e trazer qualquer coisa que encontrasse no fundo. A água era tão clara que o viu mover-se no fundo, como um tubarão entre os tubarões azuis que se cruzavam com ele sem tocá-lo. Depois o viu desaparecer num matagal de corais, e bem quando achou que ele não podia ter mais ar ouviu a voz às suas costas. Euclides estava parado no fundo, com os braços levantados e água pela cintura. Por isso continuaram buscando lugares  mais  fundos, sempre para o norte, navegando por cima das arraias lentas, das lulas tímidas, dos roseirais tenebrosos, até que Euclides compreendeu que estavam perdendo tempo.
— Se não me disser o que quer que eu encontre, não sei como vou encontrá-lo — disse.
Mas ele não falou. Então Euclides lhe propôs que tirasse a roupa e descesse com ele, ainda que para ver esse outro céu debaixo do mundo que eram os fundos de corais. Mas Florentino Ariza costumava dizer que Deus tinha feito o mar para olhá-lo pela janela, e nunca aprendeu a nadar. Pouco depois a tarde nublou, o ar  ficou frio e úmido, e escureceu tão depressa que precisaram se guiar pelo farol para encontrar o porto. Antes de entrar na baía, viram passar muito perto o  transatlântico da França com todas as luzes acesas, enorme e branco, que ia deixando um rastro de guisado mole e couve-flor fervida.
Desta forma perderam três domingos, e teriam continuado a perdê-los todos se Florentino Ariza não tivesse resolvido partilhar seu segredo com Euclides. Este modificou então todo o plano da  busca, e puseram-se a navegar pelo antigo canal  dos galeões, que estava a mais de vinte léguas marítimas a oriente do lugar previsto por Florentino Ariza. Antes de passados dois meses, certa tarde de chuva no mar, Euclides permaneceu muito tempo no fundo, e a canoa tinha derivado tanto  que  teve que nadar quase meia hora para alcançá-la, já que Florentino Ariza não conseguiu aproximá-la com os remos. Quando por fim pôde abordá-la, tirou da boca e mostrou como triunfo da perseverança dois adereços de  mulher.
O que contou era tão fascinante que Florentino Ariza prometeu a si mesmo aprender a nadar, e afundar até onde pudesse para comprová-lo com os próprios olhos. Contou que naquele lugar, a apenas dezoito metros de profundidade, havia tantos veleiros antigos deitados entre os bancos de coral que era impossível sequer calcular a quantidade, e estavam disseminados por um espaço tão extenso que eram de perder de vista. Contou que o mais surpreendente era que das tantas carcaças de navios que ainda flutuavam na baía nenhuma estava em tão bom estado quanto as naves submersas. Contou que havia várias caravelas ainda com as velas intactas, e que as naves afundadas eram visíveis no fundo, pois parecia que haviam afundado com seu espaço e seu tempo, de maneira que ali continuavam alumiadas pelo mesmo sol das onze da manhã do sábado 9 de junho em que foram a pique.  Contou,


afogando-se no próprio ímpeto da sua imaginação, que o mais fácil de distinguir era  o galeão San José, cujo nome era visível na popa com letras de ouro, mas que ao mesmo tempo era a nave mais danificada pela artilharia dos ingleses. Contou ter visto dentro um polvo de mais de três séculos de idade, cujos tentáculos saíam pelas seteiras dos canhões, mas havia crescido tanto na sala de refeições de  bordo  que para libertá-lo desmantelando a nave. Contou que vira o corpo do comandante com seu uniforme de guerra flutuando de  lado dentro do aquário do castelo, e que  se não baixara até os porões do tesouro foi porque o ar dos pulmões não dera para tanto. Ali estavam as provas: um brinco com uma esmeralda, e uma medalha da Virgem com seu cordão carcomido pelo salitre.
Essa foi a primeira menção ao tesouro que Florentino Ariza fez a Fermina Daza numa carta que lhe mandou a Fonseca pouco antes do seu regresso. A história do galeão afundado lhe era familiar, pois a tinha ouvido sendo contada a Lorenzo Daza muitas vezes. Ele perdera tempo e dinheiro tratando de convencer uma companhia de mergulhadores alemães a se associar com ele para resgatarem o tesouro submerso. Teria insistido no empreendimento, se não tivesse sido convencido por vários membros da Academia da História de que a lenda do galeão naufragado era invenção de um certo vice-rei bandoleiro, que para encontrar o navio conseguira dinheiros da Coroa. Em todo o caso, Fermina Daza sabia que o galeão estava a uma profundidade de duzentos metros, onde nenhum ser humano poderia  atingi-lo, e não aos vinte metros que dizia Florentino Ariza. Mas estava tão acostumada a seus excessos poéticos que celebrou a aventura do galeão como um dos mais belos. Contudo, ao receber outras cartas com pormenores ainda mais  fantásticos,  e escritos com tanta seriedade como seus protestos de amor, teve de confessar a Hildebranda seu temor de que o noivo alucinado tivesse perdido o juízo.
Naqueles dias, Euclides já tinha emergido das águas com tais provas de  sua fábula que não se tratava mais de continuar ciscando brincos e anéis  semeados  entre os corais, e sim de capitalizar uma empresa grande para recuperar a meia centena de naves com a fortuna babilônica que continham. Aconteceu então o que mais cedo ou mais tarde aconteceria, e foi que Florentino Ariza pediu ajuda à mãe para levar a bom porto sua aventura. A ela bastou-lhe morder o metal das jóias, e olhar contra a luz as pedras de vidro, para concluir que alguém andava abusando da boa do filho. Euclides jurou de joelhos a Florentino Ariza que não havia nada de escuso em sua atividade, mas não deu nenhum ar de sua graça domingo seguinte no porto dos pescadores, nem nunca mais em nenhuma parte.
A única coisa que aquele descalabro rendeu a Florentino Ariza foi o refúgio de amor do farol. Ali chegara na canoa de Euclides, uma noite que os surpreendeu a tempestade em mar aberto, e a partir de então costumava ir lá à tarde  conversar  com o faroleiro sobre as incontáveis maravilhas da terra e da água que o faroleiro sabia. Esse foi o início de uma amizade que sobreviveu às muitas mudanças do mundo. Florentino Ariza aprendeu a alimentar a luz, primeiro com feixes de lenha e depois com botijões de óleo, antes que nos chegasse a energia elétrica. Aprendeu a


dirigi-la e a aumentá-la com espelhos, e nas várias ocasiões em que o faroleiro não pôde fazê-lo, ficou ali, vigiando da torre as noites do mar. Aprendeu a conhecer os navios pelas suas vozes, pelo tamanho de suas luzes no horizonte, e a perceber que algo deles lhe chegava de volta nos relâmpagos do  farol.
Durante o dia o prazer era outro, sobretudo aos domingos. No bairro dos Vice- Reis, onde moravam os ricos da cidade velha, as praias das mulheres estavam separadas das dos homens por um muro de argamassa: uma à direita, outra à esquerda do farol. O faroleiro havia instalado uma luneta pela qual se podia contemplar, mediante o pagamento de um centavo, a praia das mulheres. Sem se saberem observadas, as senhoritas da sociedade se mostravam o melhor que  podiam dentro de suas roupas de banho de largos panos, mais os sapatinhos de borracha e os chapéus, tudo isso ocultando os corpos quase tanto quanto a roupa de rua, que de forma menos atraente. Das margens as  mães as  vigiavam, sentadas ao sol de rachar em cadeiras de balanço de vime com os mesmos vestidos, os  mesmos chapéus de plumas, as mesmas sombrinhas de renda com que tinham ido    à missa solene, por temor de que os homens das praias vizinhas as seduzissem por baixo d'água. A realidade era que através da luneta não se podia ver mais nada, nem mais excitante do que se podia ver na rua, mas eram muitos os clientes  que  acudiam cada domingo para se disputarem o telescópio no puro deleite de provar os frutos insípidos do quintal alheio.
Florentino Ariza era um deles, mais por tédio do que por prazer, mas não foi esse atrativo adicional que o tornou tão bom amigo do faroleiro. O motivo real foi que a partir do menosprezo de Fermina Daza, quando ele contraiu a febre dos amores dispersos na ânsia de substituí-la, mesmo no farol viveu horas felizes e  encontrou consolo para suas desditas. De tal forma que durante anos procurou convencer sua mãe, e mais tarde seu tio Leão XII, a ajudá-lo  a comprar o  farol. É que os faróis do Caribe eram então propriedade privada, e seus donos cobravam o direi to de passagem até o porto segundo o tamanho dos navios. Florentino Ariza achava que era essa a única maneira honesta de fazer um bom negócio  com  a poesia, mas nem a mãe nem o tio achavam o mesmo, e quando ele pôde fazê-lo com recursos próprios os faróis já tinham passado à propriedade do  estado.
Nenhuma dessas ilusões foi vã, não obstante. A fábula do galeão, e em seguida a novidade do farol, foram aliviando para ele a ausência de Fermina Daza, e quando  ele menos o pressentia chegou a notícia do regresso. Com efeito, depois de uma estada prolongada em Riohacha, Lorenzo Daza tinha resolvido voltar. Não era a época mais benigna do mar, devido aos alíseos de dezembro, e a goleta histórica, a única que se arriscava à travessia, podia amanhecer de volta ao porto de origem, arrastada por um vento contrário. Assim foi. Fermina Daza passara uma noite de agonia, vomitando bílis, amarrada ao beliche de um camarote que parecia uma privada de botequim, não pela estreiteza opressiva como pela pestilência e  o  calor. O balanço era tão forte que várias vezes teve a impressão de que iam arrebentar  as  correias  da  cama,  do  convés  lhe  chegavam  gritos  doloridos     que


pareciam de naufrágio, e os roncos de tigre do pai no beliche contíguo eram um ingrediente a mais do terror. Pela primeira vez em quase três anos  passou  uma  noite em claro sem pensar um instante em Florentino Ariza, enquanto que ele permaneceu insone na rede da loja de trás contando um a um os minutos eternos que faltavam para que ela voltasse. Ao amanhecer, o vento cessou de súbito e o mar se tornou plácido, e Fermina Daza percebeu que dormira apesar dos estragos do enjôo, porque a despertou o estrépito das correntes da âncora. Então se livrou das correias e olhou pela escotilha na ilusão de descobrir Florentino Ariza no tumulto do porto, mas o que viu foram os armazéns da alfândega entre as palmeiras  douradas pelos primeiros sóis, e o molhe de barrotes apodrecidos de Riohacha, de onde a goleta zarpara a noite anterior.
O resto do dia foi como uma alucinação, na mesma casa em que tinha estado até  a véspera, recebendo as mesmas visitas que dela se haviam despedido, falando as mesmas coisas, e aturdida pela impressão de estar vivendo de novo um pedaço de vida já vivida. Era uma repetição tão fiel que Fermina Daza estremecia à simples idéia de que assim também tinha sido com a viagem da goleta, cuja simples lembrança lhe causava pavor. No entanto, a única alternativa de voltar para casa eram duas semanas em lombo de mula pelas cornijas da serra,  e  em  condições ainda mais perigosas que da primeira vez, pois uma nova guerra civil iniciada no estado andino do Cauca já se ramificava pelas províncias do Caribe. Por isso, às oito da noite foi acompanhada outra vez até o porto pelo mesmo cortejo de parentes barulhentos, com as mesmas lágrimas de adeus e os mesmos volumes de pilhas de presentes de última hora que não cabiam nos camarotes. No momento de zarpar, os homens da família se despediram da goleta com uma salva de disparos para o ar, e Lorenzo Daza retribuiu do convés com os cinco tiros do seu revólver. A ansiedade    de Fermina Daza se dissipou em breve, porque o vento foi favorável a noite inteira,    e o mar tinha um cheiro de flores que a ajudou a dormir bem sem as correias de segurança. Sonhou que tornava a ver Florentino Ariza, e este despiu a cara que ela sempre tinha visto, porque na realidade era uma máscara, mas a cara real era idêntica. Levantou-se muito cedo, intrigada pelo enigma do  sonho, e  encontrou  o pai tomando café com conhaque na cantina do capitão, com o olho torcido pelo álcool, mas sem o menor indício de preocupação pelo regresso.
Estavam entrando no porto. A goleta deslizava em silêncio pelo labirinto de veleiros ancorados na enseada do mercado público, cuja pestilência se sentia a  léguas de distância no mar, e a madrugada estava saturada de um chuvisco firme  que em breve despencou num aguaceiro dos grandes. A postos no balcão da telegrafia, Florentino Ariza reconheceu a goleta quando atravessava a baía das Animas com as velas desanimadas pela chuva e ancorou diante do embarcadouro do mercado. Tinha esperado na véspera até as onze da manhã, quando soube por um telegrama casual do atraso da goleta devido aos ventos contrários, e voltara  a  esperar aquele dia desde as quatro da madrugada. Continuou esperando sem arredar a vista das chalupas que conduziam até a terra os escassos passageiros que


resolviam desembarcar apesar da tempestade. Em sua maioria eles tinham que abandonar na metade do caminho a chalupa encalhada, e chegavam ao embarcadouro chapinhando no lodaçal. Às oito, depois de esperar em vão que estiasse, um carregador negro com água pela cintura recebeu Fermina Daza na amurada da goleta e a levou nos braços até a margem, mas estava tão ensopada que Florentino Ariza não conseguiu reconhecê-la.
Ela própria não estava consciente do quanto amadurecera na viagem, até que entrou na casa fechada e empreendeu de pronto a tarefa heróica de torná-la de novo habitável, com a ajuda de Gala Placídia, a criada preta, que voltou à sua antiga senzala logo que lhe avisaram do regresso. Fermina Daza não era mais a filha única, ao mesmo tempo mimada e tiranizada pelo pai, e sim a dona e senhora de um império de poeira e teias de  aranha que podia ser recuperado graças à força de um amor invencível. Não se acovardou, pois sentia em si um sopro de levitação que lhe daria a força de mover o mundo. Na própria noite da volta, quando tomavam chocolate com bolinhos de queijo na grande mesa da cozinha, seu pai lhe delegou os poderes de governo da casa, e o fez com o formalismo de um ato  sacramental.
— Entrego a você as chaves da sua própria vida — disse.
Ela, com dezessete anos feitos, assumia-a com um  pulso  firme, consciente  de que cada palmo da liberdade ganha era para o amor. No dia seguinte, depois de uma noite de maus sonhos, padeceu pela primeira vez o enfado do  regresso, quando abriu a janela da sacada e tornou a ver o chuvisco triste da pracinha, a estátua do herói decapitado, o banco de mármore em que Florentino Ariza costumava sentar-  se com um livro de versos. não pensava nele como o noivo  impossível  e  sim como o marido certo a quem se devia dos pés à cabeça. Sentiu quanto pesava o tempo desperdiçado desde o dia em que partira, quanto custava estar viva, quanto amor lhe ia faltar para amar ao seu homem como Deus mandava. Surpreendeu-a  que ele não estivesse na pracinha, como tantas vezes estivera apesar da chuva, e que não houvesse recebido qualquer sinal dele, por qualquer meio que fosse, nem mesmo um presságio, e de pronto abalou-a a idéia de que houvesse morrido. Mas  em seguida descartou o mau pensamento, porque no frenesi dos telegramas dos últimos dias, ante a iminência da volta, tinham esquecido de combinar um modo de continuarem se comunicando quando ela voltasse.
A verdade é que Florentino Ariza estava certo de que ela não  tinha voltado, até que o telegrafista de Riohacha lhe confirmou que havia embarcado sexta-feira na mesma goleta que não chegara na véspera devido aos ventos contrários. No fim da semana esteve tentando divisar qualquer sinal de vida na casa dela, e a partir do anoitecer de segunda-feira viu pelas janelas uma luz ambulante que pouco depois  das nove se apagou no quarto de dormir da sacada. Não dormiu, presa das mesmas ansiedades de náuseas que perturbaram suas primeiras noites de amor. Trânsito Ariza se levantou com os primeiros gaios, alarmada porque não voltara o filho que saíra ao  pátio  à meia-noite, e  não  o  encontrou  na casa. Tinha ido  errar pelo   cais,


recitando versos de amor contra o vento, chorando de júbilo, até que acabou de amanhecer. Às oito estava sentado sob os arcos do Café da Paróquia, alucinado pela vigília, tratando de descobrir um jeito de fazer chegar seus votos de boas-vindas a Fermina Daza, quando se sentiu sacudido  por um abalo sísmico que lhe dilacerou  as entranhas.
Era ela. Atravessava a Praça da Catedral acompanhada por Gala Placídia, que carregava os cestos para as compras, e pela primeira vez não trajava o uniforme escolar. Estava mais alta do que ao partir, mais perfilada e intensa, e com a beleza depurada por um domínio de pessoa mais velha. A trança lhe havia  crescido  de novo, mas não lhe pendia mais pelas costas, atirada agora sobre o ombro esquerdo,   e esta simples mudança a despojara de todo traço infantil. Florentino Ariza permaneceu atônito em seu lugar, até que aquela aparição acabou de atravessar a praça sem afastar a vista do seu caminho. Mas o mesmo poder irresistível que o paralisara obrigou-o em seguida a se precipitar atrás dela quando dobrou a esquina da catedral e se perdeu no tumulto ensurdecedor das ruelas do  comércio.
Seguiu-a sem se deixar ver, descobrindo os gestos cotidianos, a graça, a maturidade prematura do ser que mais  amava no mundo, e que via pela primeira  vez em seu estado natural. Assombrou-o a fluidez com que abria caminho na multidão. Enquanto Gala Placídia ia aos encontrões, e se embaraçava com os cestos  e tinha que correr para não perdê-la de vista, ela navegava na desordem da rua num espaço seu e num tempo diferente, sem esbarrar em  ninguém, feito um  morcego nas trevas. Tinha estado muitas vezes no comércio com tia Escolástica, mas eram sempre compras miúdas, pois o pai em pessoa se encarregava de abastecer a casa, e não de móveis e comida mas inclusive de roupas de mulher. Por isso aquela primeira saída foi para ela uma aventura fascinante, idealizada em seus sonhos de menina.
Não prestou atenção à insistência dos ambulantes que lhe ofereciam o jarabe, o xarope do amor eterno, nem às súplicas dos mendigos atirados às portas com suas chagas ao sol, nem ao falso índio que tentava vender-lhe um jacaré amestrado. Deu uma volta grande e minuciosa, sem rumo calculado, com paradas que tinham como motivo um prazer sem pressa diante do espírito das coisas. Entrou em cada portal onde houvesse alguma coisa a vender, e por toda parte encontrou alguma  coisa que aumentava sua ânsia de viver. Deliciou-se com o hálito de vetiver dos  panos nos arcões, enrolou-se em sedas estampadas, riu-se do próprio riso vendo-se fantasiada de madrilenha com sua travessa e o leque de flores pintadas diante do espelho de corpo inteiro de O Arame de Ouro. Na loja de importados destapou um barril de arenques em salmoura que lhe lembrou noites de nordeste, muito menina ainda, em São João da Ciénaga. Deram-lhe uma prova de morcela de alicante que tinha gosto de alcaçuz, e comprou duas para a refeição matinal de sábado, além de postas de bacalhau e um frasco de groselhas em aguardente. No balcão de especiarias, pelo puro prazer do olfato, macerou folhas de sálvia e de orégano nas palmas   das  mãos,  e   comprou   um  punhado   de  cravos-da-índia,  outro   de anis


estrelado, e outros dois de gengibre e de zimbro, e saiu banhada em lágrimas de riso de tanto espirrar com os vapores da pimenta de Caiena. Na botica francesa, enquanto comprava sabonete de Reuter e água de benjoim, puseram-lhe atrás da orelha um toque do perfume que estava na moda em Paris, e lhe deram uma  pastilha desodorante para depois de fumar.
Brincava de fazer compras, sem dúvida, mas aquilo que de verdade estava precisando comprava na hora, com uma autoridade que não deixava ninguém  pensar que o fazia pela primeira vez, pois estava consciente de que não comprava para ela e sim para ele também, doze jardas de linho para as toalhas de mesa dos dois, o percal para os lençóis de bodas que teriam ao amanhecer o orvalho dos humores de ambos, o mais delicioso de cada uma das coisas que  desfrutariam  juntos na casa do amor. Pedia abatimento e sabia fazê-lo, discutia com graça e dignidade até conseguir o melhor, e pagava com moedas de ouro que os lojistas testavam pelo puro prazer de ouvi-las cantar no mármore do balcão.
Florentino Ariza a espiava maravilhado, a perseguia sem tomar fôlego, tropeçou várias vezes nos cestos da criada que respondeu às suas desculpas com um sorriso,    e ela havia passado tão perto que ele sentira a brisa do seu cheiro, e se nem então o viu não foi porque não pudesse e sim pela altivez do seu modo de andar. Ela lhe parecia tão bela, tão sedutora, tão diferente da gente comum, que não compreendia que ninguém se transtornasse como ele com as castanholas dos seus saltos nas pedras do calçamento, ou  tivesse o coração descompassado com os ares e suspiros  de suas mangas, ou não ficasse louco de amor o mundo inteiro com os  ventos  de sua trança, o vôo de suas mãos, o ouro do seu riso. Não perdera um gesto seu, nem um indício do seu caráter, mas não se atrevia a se aproximar dela pelo medo de desfazer o encanto. Contudo, quando ela se meteu na balbúrdia do Portal dos Escrivães, ele descobriu que se arriscava a perder a ocasião que aguardara durante anos.
Fermina Daza compartilhava com suas companheiras de colégio a idéia estranha de que o Portal dos Escrivães era um lugar de perdição, vedado, é claro, às senhoritas decentes. Era uma galeria de arcadas diante de  um largo onde paravam  os carros de aluguel e as carretas de carga puxadas por burros, e onde se tornava mais denso e ruidoso o comércio popular. O nome lhe vinha dos tempos da Colônia, porque ali se sentavam desde então os calígrafos taciturnos, de paletós de lã e meias mangas postiças, que escreviam por profissão toda classe de  documentos a preços  de pobre: requerimentos de agravo ou de súplica, arrazoados jurídicos, cartões de cumprimentos ou de luto, missivas de amor em qualquer das suas idades. Não era dos escrivães, diga-se logo, que vinha a reputação daquele mercado fragoroso, e sim de bufarinheiros mais atuais, que ofereciam por baixo do balcão os muitos artifícios equívocos que chegavam de contrabando nos navios da Europa, dos postais obscenos às pomadas tônicas e até aos célebres preservativos catalães com cristas de iguanas que pulsavam quando era o caso, ou com flores na extremidade para  que  soltassem  pétalas  de  acordo  com  a  vontade  do  usuário.  Fermina Daza,


pouco perita no uso da rua, meteu-se no portal sem muito ver por onde andava, buscando uma sombra que aliviasse o sol bravo das onze.
Afundou na algaravia quente dos engraxates e dos vendedores de pássaros, dos livreiros de segunda mão e dos curandeiros e das doceiras que anunciavam  aos berros por cima da bulha as cocadas de pinhas para as mocinhas, de cocos para os loucos, de panela para Micaela. Mas ela ficou indiferente ao estrondo, cativada de pronto por um papeleiro que fazia demonstrações de tintas mágicas de escrever, tintas vermelhas com a sugestão do sangue, tintas de reflexos tristes para recados fúnebres, tintas fosforescentes para se ler no escuro, tintas invisíveis que o pleno resplendor da luz revelava. Ela as queria todas para brincar com Florentino Ariza, para impressioná-lo com seu engenho, mas ao fim de várias experiências decidiu-se por um vidrinho de tinta de ouro. Foi depois às doceiras sentadas por trás de suas grandes redomas, e comprou seis doces de cada espécie, apontando-os com o dedo pelo cristal porque não conseguia fazer-se ouvir na gritaria: seis de fios d'ovos, seis de leite, seis tijolinhos de gergelim, seis de iúca e amêndoa, seis de  chocolate  envolto em papel de sorte, seis piononos de biscoito, seis bons-bocados de goiaba, seis disto e seis daquilo, seis de tudo e os ia amontoando nos cestos da criada com uma graça irresistível, alheia por completo às grossas nuvens de moscas em cima do melado, alheia à algazarra contínua, alheia ao bafo de suores azedos suspensos no calor mortal. Despertou-a do feitiço uma preta feliz, com um pano colorido na cabeça, redonda e formosa, que lhe ofereceu um triângulo de abacaxi fisgado na ponta de uma faca de açougueiro. Ela o pegou, meteu-o inteiro na boca, saboreando-o, e continuou a saboreá-lo, a vista errando pela multidão, quando uma comoção a pregou no lugar em que estava. Às suas costas, tão perto de sua orelha que ela pôde escutá-la no tumulto, tinha ouvido a voz:
   Este não é um bom lugar para uma deusa coroada.
Voltou a cabeça e viu  a dois palmos de  seus olhos os outros olhos glaciais, o  rosto lívido, os lábios petrificados de medo, tal como os vira no tumulto da missa do galo pela primeira vez em que ele estivera tão perto dela, mas ao contrário daquela vez não sentiu agora a comoção do amor e sim o abismo do desencanto. Num instante teve a revelação completa da magnitude do próprio engano, e perguntou a   si mesma, aterrada, como tinha podido incubar durante tanto tempo e com tanta ferocidade semelhante quimera no coração. Mal conseguiu pensar: "Deus meu, pobre homem!" Florentino Ariza sorriu, procurou dizer alguma coisa, procurou acompanhá-la, mas ela o apagou de sua vida com um gesto da mão.
   Não, por favor — disse. — Esqueça.
Naquela tarde, enquanto o pai dormia a sesta, mandou-lhe por  Gala  Placídia uma carta de duas linhas: Hoje, ao vê-lo, descobri que nos unia uma ilusão. A criada levou também os telegramas dele, os versos, as camélias secas, e lhe pediu  que devolvesse as cartas e os presentes que ela lhe havia mandado: o missal de tia Escolástica, as  rendas  de  folhas  secas  do  seu  herbário, o  centímetro  quadrado do


hábito de São Pedro Claver, as medalhas de santos, a trança dos seus quinze anos com o laço de seda do uniforme escolar. Nos dias seguintes, à beira da loucura, ele lhe escreveu numerosas cartas de desespero, e assediou a criada para que  as  levasse, mas esta cumpriu as instruções terminantes de não receber nada além dos presentes devolvidos. Insistiu com tanto afinco que Florentino Ariza os mandou todos, salvo a trança, que não queria devolver enquanto Fermina Daza não o recebesse em pessoa para conversar ainda que fosse um instante. Não conseguiu. Temendo alguma determinação fatal do filho, Trânsito Ariza desceu do seu orgulho  e pediu a Fermina Daza que lhe concedesse a ela uma graça de cinco minutos, e Fermina Daza a atendeu um instante no saguão de sua casa, de pé, sem convidá-la a entrar e sem um pingo de fraqueza. Dois dias depois, ao término de uma discussão com a mãe, Florentino Ariza desprendeu da parede do seu quarto o empoeirado  nicho de cristal onde mantinha exposta a trança feito uma relíquia sagrada, e a própria Trânsito Ariza a devolveu no estojo de veludo bordado com fios de ouro. Florentino Ariza nunca mais teve a oportunidade  de  ver a sós  Fermina Daza, nem de falar a sós com ela nos tantos encontros de suas mui longas vidas, até cinqüenta   e um anos, nove meses e quatro dias mais tarde, quando lhe reiterou  o juramento  de fidelidade eterna e amor para todo o sempre em sua primeira noite de  viúva.










O DOUTOR JUVENAL URBINO tinha sido aos vinte e oito anos o mais cobiçado dos solteiros. Voltava de uma longa estada em Paris, onde fez estudos superiores de medicina e cirurgia, e logo que pisou terra firme deu mostras definitivas de que não perdera um minuto de seu tempo. Voltou muito mais atilado e senhor de  sua  índole, e se nenhum dos seus companheiros de geração parecia tão severo e tão  sábio quanto ele em sua ciência, também nenhum havia, por outro lado, que dançasse melhor a música da moda ou improvisasse melhor ao  piano. Seduzidas  por suas graças pessoais e pela certeza de sua fortuna familiar, as moças do  seu meio faziam rifas secretas no jogo de ver quem o prenderia, e ele também fazia suas apostas em relação às moças, mas conseguiu manter-se em estado de graça, intacto  e tentador, até que sucumbiu sem resistência aos encantos plebeus  de  Fermina Daza.
Gostava de dizer que aquele amor tinha sido fruto de um equívoco clínico. Ele mesmo custava a crer que tivesse acontecido, menos ainda naquele momento de sua vida, quando todas as suas reservas passionais se concentravam na sorte de sua cidade, da qual dissera com demasiada freqüência e sem pensar duas vezes que não havia outra igual no mundo. Em Paris, passeando de braço dado com uma noiva casual num outono tardio, quase não conseguia conceber felicidade mais pura que a daquelas tardes douradas, com cheiro rústico das castanhas nos braseiros, os acordeões sentimentais, os namorados insaciáveis que não acabavam de se beijar nunca na calçada dos cafés, mas mesmo assim dizia a si mesmo com a mão no coração que não se dispunha a trocar por tudo aquilo um único instante do seu Caribe em abril. Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a esse artifício conseguimos suportar o passado. Mas quando voltou a ver do convés do navio o promontório branco do bairro colonial, os urubus imóveis nos telhados, a roupa dos pobres estendida a secar nas sacadas, compreendeu até que ponto tinha sido uma vítima fácil das burlas caritativas da saudade.
O navio abriu passagem na baía através de uma colcha flutuante de animais afogados, e em sua maioria os passageiros se abrigaram nos camarotes fugindo à pestilência. O jovem médico desceu a ponte do navio vestido de alpaca perfeita, guarda-pó sobre o terno, com uma barba de Pasteur juvenil e o cabelo repartido em risca nítida e pálida, e com bastante domínio de si para dissimular o nó   na garganta


que não era de tristeza e sim de terror. No molhe quase deserto, guardado por soldados descalços e sem farda, esperavam-no as irmãs e a mãe com os amigos mais queridos. Achou todos macilentos e sem futuro, apesar dos ares mundanos, e falavam da crise e da guerra civil como algo remoto e alheio, mas todos tinham um tremor evasivo na voz e uma incerteza nas pupilas que desmentiam as palavras. Quem mais o comoveu foi a mãe, uma mulher ainda moça que se havia imposto na vida com sua elegância e seu ímpeto social, e que agora murchava a fogo lento na aura de cânfora dos seus crepes de viúva. Ela sem dúvida se reconheceu no constrangimento do filho, tomando a dianteira de lhe perguntar em defesa própria por que vinha ele com essa pele transparente como parafina.
   É a vida, mãe — disse ele. — Fica-se verde em Paris.
Pouco depois, derretendo-se de calor junto a ela na carruagem fechada, não agüentou mais a inclemência da realidade que se metia aos borbotões pelo postigo.  O mar parecia de cinza, os antigos palácios de marqueses estavam a ponto de sucumbir à proliferação dos mendigos, e era impossível encontrar a fragrância ardente dos jasmins por trás das emanações mortais dos esgotos abertos. Tudo lhe pareceu mais mesquinho do que quando partira, mais indigente e lúgubre, e havia tantas ratazanas famintas na lixeira das ruas que os cavalos do carro tropeçavam assustados. Do longo caminho do porto até sua casa, no coração do bairro dos Vice- Reis, não viu nada que lhe parecesse digno de suas saudades. Derrotado, virou a cabeça para que a mãe não o visse, e se pôs a chorar em silêncio.
O antigo palácio do Marquês de  Casalduero, residência histórica dos Urbino de Ia Calle, não era o que se mantinha mais altivo no meio do naufrágio. O doutor Juvenal Urbino fez essa descoberta com o coração em pedaços logo que entrou no saguão tenebroso e viu o repuxo poeirento do jardim interior, e os canteiros sem flores por onde andavam lagartos, e reparou que faltavam muitas lajes de mármore,  e que outras estavam partidas, na vasta escada de balaústres  de  cobre  que  levava aos aposentos principais. Seu pai, um médico mais abnegado do  que  eminente, tinha morrido na epidemia de cólera asiático que assolou a população seis anos antes, e com ele morrera o espírito da casa. Dona Blanca, a mãe, sufocada por um luto previsto para ser eterno, substituíra por novenas vespertinas os célebres saraus líricos e os concertos de câmara do marido morto. As duas irmãs, contra suas graças naturais e sua vocação festiva, eram carne de convento.
O doutor Juvenal Urbino não dormiu nem um instante da noite da chegada, assustado pela escuridão e o silêncio, e rezou três terços ao Espírito Santo e quantas orações ainda sabia para conjurar calamidades e naufrágios c toda  classe  de ameaças da noite, enquanto uma saracura que se enfiou pela porta mal fechada cantava a cada hora, na hora em ponto, dentro do quarto. Foi atormentado pelos gritos alucinados das loucas no vizinho manicômio da Divina Pastora, a gota inclemente da talha na bacia com uma ressonância que enchia o âmbito da casa, os passos  da  saracura perdida  no  quarto, seu  medo  congênito  do  escuro, a presença


invisível do pai morto na vasta mansão adormecida. Quando a saracura cantou as cinco, junto com os gaios da vizinhança, o doutor Juvenal Urbino se encomendou    de corpo e alma à Divina Providência, porque não se sentia com ânimo para viver  um dia mais em sua pátria de escombros. Contudo, o afeto dos seus, os domingos campestres, os agrados cobiçosos das  solteiras de  sua classe acabaram por mitigar  as amarguras de primeira impressão. Foi pouco a pouco se habituando aos bochornos de outubro, aos odores excessivos, aos juízos prematuros dos amigos, ao amanhã veremos, doutor, não se preocupe, e terminou por se render aos sortilégios do hábito. Não tardou a conceber uma explicação fácil para sua entrega. Aquele era seu mundo, disse a si mesmo, o mundo triste e opressivo que Deus lhe destinara, e   a ele se devia.
A primeira coisa que fez foi tomar posse do consultório do pai. Conservou no lugar os móveis ingleses, duros e sérios, cujas madeiras suspiravam com os gelos do amanhecer, mas despachou para o sótão os tratados da ciência vice-reinal e da medicina romântica, e colocou nas estantes cobertas de vidro os da nova escola da França. Tirou da parede os cromos desbotados, com exceção daquele em que se vê o médico disputando à morte uma doente nua, e o juramento hipocrático impresso  em letras góticas, e pendurou em seus lugares, ao lado do diploma único do pai, os muitos e muitos variados que obtivera com qualificações ótimas em diferentes escolas da Europa.
Tratou de impor critérios atualizados no Hospital da Misericórdia, mas  não  achou a tarefa tão fácil como imaginara em seus entusiasmos juvenis, pois a bolorenta casa de saúde se agarrava às superstições atávicas, como a de colocar os pés das camas em potes com água para impedir que as doenças subissem, ou a de exigir traje de etiqueta e luvas de camurça na sala de cirurgia, visto que se dava por axiomático que a elegância era condição essencial da assepsia. Não podiam suportar que o jovem recém-chegado provasse a urina do  doente para descobrir a presença   de açúcar, que citasse Charcot e Trousseau como se fossem seus companheiros de quarto, que fazia na aula severas advertências sobre os riscos mortais das vacinas e por outro lado nutria uma suspeita no novo invento dos supositórios. Esbarrava em tudo: seu espírito renovador, seu civismo maníaco, seu humor sutil numa terra de famosos chalaceiros, todas as suas virtudes mais apreciáveis suscitavam o receio dos colegas mais velhos e as troças que pelas costas lhe faziam os  jovens.
Sua obsessão era o perigoso estado sanitário da cidade. Fez apelos às instâncias superiores para que desativassem as cloacas espanholas, que eram um imenso viveiro de ratos, e construíssem em seu lugar esgotos fechados cujos despejos não desembocassem na enseada do mercado, como sempre ocorrera, e sim em algum desaguadouro distante. As casas coloniais bem equipadas tinham latrinas com  fossas sépticas, mas dois terços da população amontoada em barracas à margem dos charcos faziam suas necessidades ao ar livre. As fezes secavam ao sol, viravam poeira, e eram respiradas por iodos com regozijos natalinos nas frescas e venturosas brisas  de  dezembro. O  doutor Juvenal  Urbino  criou  na Municipalidade  um curso


obrigatório para ensinar os pobres a construírem suas próprias latrinas. Lutou em vão para que o lixo não fosse atirado aos manguezais, convertidos séculos em tanques de putrefação, e para que fosse recolhido pelo menos duas vezes por dia e incinerado em algum lugar despovoado.
Tinha consciência da ameaça mortal que era a água de beber. A mera idéia de construir um aqueduto parecia fantástica, pois os que teriam podido impulsioná-la dispunham de cisternas subterrâneas onde se armazenavam debaixo de uma espessa nata de limo as águas chovidas durante anos. Entre os móveis mais apreciados da época estavam as talhas de madeira lavrada cujos filtros de pedra gotejavam dia e noite para dentro de bacias. Para impedir que alguém bebesse do próprio jarro de alumínio com que se apanhava a água, este tinha as bordas denteadas feito a coroa de um rei de brincadeira. A água era vítrea e fresca na penumbra da argila cozida, e deixava na boca um sabor de floresta. Mas o doutor Juvenal Urbino não caía nesses embustes de purificação, pois sabia que apesar de tantas precauções o fundo das talhas era um refúgio de vermes. Havia passado as vagarosas horas da infância a contemplá-los com um assombro quase místico, convencido como tanta gente naquele tempo de que esses vermes eram alminhas, criaturas sobrenaturais que cortejavam donzelas nos sedimentos das águas pasmadas, e eram capazes de furiosas vinganças de amor. Tinha visto quando menino os escombros da casa de Lázara Conde, uma professora que se atreveu a fazer pouco dessas alminhas, e tinha visto a esteira de vidro partido na rua e o montão de pedras  que atiraram durante três dias e três noites contra suas janelas.  De maneira que passou muito tempo até aprender que os vermes eram na realidade as larvas dos pernilongos, mas aprendeu para nunca mais esquecer, porque desde então compreendeu que não eles como muitas outras alminhas danadas podiam passar intactos através dos nossos ingênuos filtros de  pedra.
À água das cisternas se atribuiu durante muito tempo, e com muita honra, a hérnia rio escroto que tantos homens da cidade suportavam não  só  sem  pudor como inclusive com certa insolência patriótica. Quando Juvenal Urbino ia à escola primária não conseguia reprimir um arrepio de horror ao ver os potrosos sentados à porta de suas casas nas tardes de calor, abanando o testículo enorme como se tivessem uma criança adormecida entre as pernas. Dizia-se que a hérnia emitia um pio de pássaro lúgubre nas noites de tempestade e se retorcia com uma dor insuportável se queimavam por perto uma pena de urubu, mas ninguém  se queixava de tais percalços porque uma hérnia grande e bem tratada se ostentava antes de mais nada como um apanágio de homem. Quando o doutor Juvenal Urbino voltou da Europa já conhecia muito bem a falácia científica de tais crendices, mas estavam tão arraigadas na superstição local que muitos se opunham ao enriquecimento mineral da água das cisternas por temerem tirar dela a virtude de causar uma hérnia nobilitante.
Tanto quanto com as impurezas da água, alarmava-se o doutor Juvenal Urbino com o estado higiênico do mercado público, um vasto descampado fronteiro à baía


das Animas, onde atracavam os veleiros das Antilhas. Um viajante ilustre da época o descreveu como um dos mais variados do mundo. Era rico, sem dúvida, profuso e ruidoso, mas era também talvez o mais assustador. Assentava-se em sua própria cloaca, à mercê das veleidades da maré, e era ali que os arrotos da baía devolviam à terra as imundícies dos esgotos. Também se atiravam ali os restos do matadouro contíguo, cabeças decepadas, vísceras podres, e estéreo de animais, que ficavam boiando ao sol e ao sereno num pântano de sangue. Os urubus os disputavam com  os ratos e os cachorros numa contenda perpétua, entre os veados e os capões saborosos que vinham de Sotavento e se dependuravam nos barrotes dos barracões,  e os legumes primaveris de Arjona expostos em cima de esteiras, no  chão.
O doutor Juvenal Urbino queria sanear o lugar, queria que pusessem o matadouro em outra parte, que construíssem um mercado coberto com cúpulas de vidraças como o que conhecera nas antigas feiras de Barcelona, onde as provisões eram tão vistosas e limpas que dava para comê-las. Mas mesmo os mais compreensivos dos seus amigos notáveis se compadeciam de sua paixão ilusória. Eram assim: passavam a vida proclamando o orgulho de sua origem, os méritos históricos da cidade, o valor de suas relíquias, seu heroísmo e sua beleza, mas eram cegos ao caruncho dos anos. Enquanto que o doutor Juvenal Urbino lhe tinha amor bastante para vê-la com os olhos da verdade.
   Muito nobre será esta cidade — dizia — se há quatrocentos anos procuramos acabar com ela e ainda não conseguimos.
Estavam quase, no entanto. A epidemia de cólera morbo, cujas primeiras vítimas tombaram fulminadas nos charcos do mercado, causara em onze semanas a maior mortandade da nossa história. Até então, alguns mortos insignes eram sepultados debaixo das lajes das igrejas, na vizinhança esquiva dos  arcebispos  e  dignitários, e os menos ricos eram enterrados nos pátios dos conventos. Os pobres iam para o cemitério colonial, numa colina ventosa separada da cidade por um canal de águas áridas, cuja ponte de argamassa tinha uma marquise com um letreiro esculpido por ordem de algum prefeito clarividente: Lasciate ogni speranza voi ch 'entrate. Nas duas primeiras semanas do cólera o cemitério transbordou, e não ficou um único lugar nas igrejas, apesar de haverem passado ao ossuário comum os restos carcomidos de numerosos próceres sem nome. O ar da catedral ficou rarefeito com os vapores das criptas mal lacradas, e suas portas vieram a se abrir três anos depois, por volta da época em que Fermina Daza viu Florentino Ariza de perto pela primeira vez na missa do galo. Na terceira semana o claustro do convento de Santa Clara ficou à cunha até nas alamedas, e foi preciso habilitar como cemitério o horto da comunidade, que era duas vezes maior. Ali escavaram sepulturas profundas para enterrar em três níveis, às pressas e sem caixões, mas foi preciso desistir delas porque o solo revolvido ficou feito uma esponja que ressumava debaixo dos  pés  uma sangueira nauseabunda. Determinou-se então prosseguir com  os enterramentos em A Mão de Deus, uma fazenda de gado de corte a menos de uma légua da cidade, que mais tarde foi consagrada como Cemitério Universal.


A partir do momento em que se afixou o édito do cólera, no quartel da guarnição local começou o disparo de um tiro de canhão a cada quarto de hora, de dia e de noite, de acordo com a superstição cívica de que a pólvora purificava o ambiente. O cólera se encarniçou muito mais contra a população negra, por ser a mais numerosa e pobre, mas na realidade não teve contemplação com cores nem linhagens. Parou  de chofre como havia começado, e nunca se soube o número de suas vítimas, não porque fosse impossível estabelecê-lo, e sim porque uma de nossas virtudes corriqueiras era o pudor das próprias desgraças. O doutor Marco Aurélio Urbino, pai de Juvenal, foi um herói civil daqueles dias infaustos, e também sua vítima mais notável. Por determinação oficial concebeu e dirigiu em pessoa a  estratégia  sanitária, mas de sua própria iniciativa acabou por intervir em todos os assuntos da ordem social, a ponto de que nos instantes mais críticos da peste não parecia existir nenhuma autoridade mais alta do que a sua. Anos depois, revendo a crônica daqueles dias, o doutor Juvenal Urbino comprovou que o método do pai tinha sido mais caritativo do que científico, e que de muitas maneiras era contrário à razão, favorecendo assim em grande parte a voracidade da peste. Fez essa constatação com a com paixão dos filhos que a vida foi convertendo pouco a pouco em pais dos próprios pais, e pela primeira vez doeu-lhe não ter estado ao lado do seu na solidão dos erros que cometeu. Mas não lhe regateou os méritos: a diligência e a abnegação, e sobretudo sua valentia pessoal, tornaram-no digno das muitas homenagens que lhe prestaram quando a cidade se restabeleceu do desastre, e seu nome se inseriu com justiça entre os de tantos outros próceres de outras guerras menos recomendáveis.
Não desfrutou sua glória. Quando reconheceu em si mesmo os transtornos irreparáveis que tinha visto e lamentado nos outros, sequer tentou travar uma batalha inútil,
limitando-se a se afastar do mundo para não contaminar ninguém. Fechado sozinho num quarto de serviço do Hospital da Misericórdia, surdo ao chamado dos colegas e à súplica dos seus, alheio ao horror dos pestíferos que agonizavam no assoalho dos corredores apinhados, escreveu à esposa e aos filhos uma carta de amor febril, de gratidão por haver existido, na qual revelava quanto e com quanta avidez amara a vida. Foi um adeus de vinte folhas desatinadas nas quais se notavam os progressos do mal pelo declínio da escrita, e não era preciso ter conhecido quem escrevera aquilo para saber que a assinatura foi colocada ali com o último suspiro.  De acordo com suas disposições, o corpo cinzento se confundiu no cemitério  comum, e não foi visto por ninguém entre os que o haviam amado.
O doutor Juvenal Urbino recebeu o telegrama três dias depois em Paris, durante um jantar de amigos, e fez um brinde com champanha à  memória do  pai. Disse: "Era um homem bom." Mais tarde haveria de criticar a si mesmo por sua falta de maturidade: negaceava com a realidade para não chorar. Mas três semanas depois recebeu uma cópia da carta póstuma, e então se rendeu à verdade. De um golpe revelou-se a ele a imagem do homem que conhecera antes de qualquer outro, que o


havia criado e instruído e havia dormido e fornicado trinta e dois anos  com  sua  mãe, e que no entanto, antes da última carta, nunca se mostrara tal como era de corpo e alma, por timidez rira e simples. Até então o doutor Juvenal Urbino e sua família tinham concebido a morte como um percalço que acontecia aos outros, aos pais dos outros, aos irmãos e cônjuges alheios e nunca aos próprios. Eram pessoas  de vidas lentas, às quais ninguém via envelhecer, nem adoecer e morrer, que se desvaneciam aos poucos no seu tempo, transformando-se em lembranças, brumas  de outra época, até serem assimiladas pelo esquecimento. No entanto, uma de suas lembranças mais antigas, talvez dos nove anos, dos onze anos talvez, era de certo modo um sinal prematuro da morte através do seu pai. Tinham ficado os dois no escritório da casa uma tarde chuvosa, ele desenhando calhandras e  girassóis  com  giz de cor nos ladrilhos do chão, e o pai lendo contra a luz da janela, colete desabotoado e braçadeiras de elástico nas mangas da camisa. De repente interrompeu a leitura para cocar as costas com um coçador de cabo comprido e mãozinha de prata na ponta. Como não conseguiu, pediu ao filho que o cocasse com as unhas, o que ele fez com a sensação curiosa de não sentir o próprio corpo sendo cocado. Quando parou o pai o olhou por cima do ombro com um sorriso  triste.
    Se eu caísse morto agora — disse — você mal se lembraria de mim quando tivesse minha idade.
Disse isto sem qualquer motivo visível, e o anjo da morte flutuou um instante na penumbra fresca do escritório, e tornou a sair pela janela deixando ao passar um rastro de penas, mas o menino não as viu. Mais de vinte anos haviam passado desde então, e Juvenal Urbino ia ter em breve a idade que tinha o pai aquela tarde. Sabia- se idêntico a ele, e à consciência disso se somava agora a consciência surpreendente de ser tão mortal quanto ele.
O cólera se transformou em obsessão. Não sabia a respeito mais do que aprendera na rotina de algum curso marginal, e lhe parecera inverossímil que apenas trinta anos tivesse causado na França, inclusive em Paris, mais de cento e quarenta mil mortes. Mas depois da morte do pai aprendeu tudo que se podia aprender sobre as diversas formas do cólera, quase como uma penitência para dar descanso à sua memória, e foi aluno do epidemiólogo mais destacado do seu tempo  e criador dos cordões sanitários, o professor Adrien Proust, pai do grande romancista. De modo que quando voltou à sua terra e sentiu vinda do mar a pestilência do mercado, e viu os ratos nos esgotos expostos e os meninos se revolvendo nus nas poças das ruas, não compreendeu que a desgraça tivesse acontecido como teve a certeza de que se repetiria a qualquer  momento.
Não passou muito tempo. Antes de um ano, seus alunos do Hospital da Misericórdia lhe pediram que os ajudasse com um enfermo indigente que apresentava uma estranha coloração azul em todo o corpo. Bastou ao  doutor  Juvenal Urbino vê-lo da porta para reconhecer o inimigo. Mas a sorte ajudou: o doente tinha chegado três dias antes numa goleta de Curaçau e    tinha ido à consulta


externa do hospital por seus próprios meios, não parecendo provável que houvesse contaminado ninguém. Por via das dúvidas, o doutor Juvenal Urbino preveniu os colegas, conseguiu que as autoridades transmitissem o alarma aos portos vizinhos com o fim de localizar e pôr em quarentena a goleta empestada, e teve que moderar  o chefe militar da praça, que queria decretar a lei marcial a aplicar de pronto a terapêutica do tiro de canhão a cada quarto de hora.
    Economize a pólvora para quando venham os liberais — lhe disse com bom humor. Não estamos mais na Idade Média.
O doente morreu quatro dias depois, sufocado por um vômito branco e  granuloso, mas nas semanas seguintes não se descobriu nenhum outro caso, apesar do alerta constante. Pouco depois, o Diário do Comércio publicou a notícia de que duas crianças tinham morrido de cólera em diferentes lugares da cidade. Comprovou-se que uma delas tinha disenteria comum, mas a outra, uma menina de cinco anos, parecia ter sido, com efeito, vítima do cólera. Seus pais e três irmãos foram separados e postos de quarentena individual, e todo o bairro foi submetido a uma vigilância médica estrita. Uma das crianças contraiu o cólera e se recuperou muito depressa, e toda a família voltou para casa quando passou o  perigo. Onze casos mais se registraram no curso de três meses, e no quinto houve um recrudescimento alarmante, mas no final do ano considerou-se que  os  riscos  de uma epidemia tinham sido conjurados. Ninguém pôs em dúvida que o rigor  sanitário do doutor Juvenal Urbino, mais do que a eficiência de sua pregação, tinha tornado possível o prodígio. Desde então, e quando já avançara muito este século, o cólera ficou endêmico não na cidade como em quase todo o litoral do Caribe e a bacia do Madalena, sem tornar a recrudescer como epidemia. O alarma serviu para que as advertências do doutor Juvenal Urbino fossem atendidas com  mais  seriedade pelo poder público. Foi imposta a cátedra obrigatória do cólera e da febre amarela, e reconheceu-se a urgência de cobrir os esgotos e construir um mercado distante do despejo do lixo. Contudo, o doutor Urbino não se preocupou na ocasião em proclamar vitória nem se sentiu com ânimo de perseverar em suas missões sociais, porque ele mesmo tinha então uma asa quebrada, aturdido e disperso, e decidido a mudar tudo e a esquecer tudo mais na vida frente ao relâmpago de amor de Fermina Daza.
Foi, em verdade, fruto de um equívoco clínico. Um médico amigo, que julgou vislumbrar os sintomas premonitórios do cólera numa paciente de dezoito anos, pediu ao doutor Juvenal Urbino que fosse visitá-la. Foi na mesma tarde, alarmado pela possibilidade de que a peste tivesse entrado no santuário da cidade  velha, já  que todos os casos até então tinham ocorrido nos bairros marginais, e quase todos entre a população negra. Encontrou outras surpresas menos ingratas. A casa, à sombra das amendoeiras do parque dos Evangelhos, vista de fora parecia tão arruinada como as outras do recinto colonial, mas dentro dela havia uma ordem de beleza e uma luz atônita que parecia de outra idade do mundo. O saguão dava direto num pátio sevilhano, quadrado e branco de cal recente, com laranjeiras floridas e o


piso empedrado com os mesmos azulejos das paredes. Havia um rumor invisível de água contínua, potes de cravos nas cornijas e gaiolas de pássaros raros nas arcadas. Os mais raros, numa gaiola muito grande, eram três corvos que ao sacudir as asas saturavam o pátio de um perfume equívoco. Vários cães acorrentados em algum  lugar da casa começaram logo a ladrar, enlouquecidos pelo cheiro do estranho, mas um grito de mulher os fez calar na hora, e numerosos gatos saltaram de todos os cantos e se esconderam entre as flores, assustados pela autoridade da voz. Então se fez um silêncio tão diáfano que através da desordem dos pássaros e das sílabas da água na pedra se percebia o alento desolado do mar.
Abalado pela certeza da presença física de Deus, o doutor Juvenal Urbino pensou que uma casa como aquela era imune à peste. Seguiu Gala Placídia pelo corredor de arcos, passou pela janela do quarto de costura onde Florentino Ariza viu pela primeira vez Fermina Daza, quando o pátio estava ainda em escombros, subiu pelas escadas de mármores novos até o segundo andar, e esperou ser anunciado antes de entrar no quarto da doente. Mas Gala Placídia tornou a sair com um recado:
— A senhorita disse que não pode entrar agora porque seu pai não está em casa. Por isso voltou às cinco da tarde, de acordo com a indicação da criada,  Lorenzo
Daza em pessoa lhe abriu o portão e o conduziu até o quarto da filha. Ficou   sentado
na penumbra dum canto do quarto, com os braços cruzados e fazendo esforços vãos para dominar a respiração penosa, enquanto durou o exame. Não era fácil saber quem estava mais constrangido, se o médico com seu tato pudico ou a enferma com seu recato de virgem dentro do camisolão de seda, mas nenhum olhou o outro nos olhos, enquanto ele fazia perguntas com voz impessoal e ela respondia com voz trêmula, ambos pendentes do homem sentado na penumbra. Por fim o doutor Juvenal Urbino pediu à doente que se sentasse, e lhe abriu a camisola até a cintura com mil cuidados: o peito intacto e altivo, de bicos infantis, resplandeceu um instante feito uma labareda nas sombras da alcova, antes que ela se apressasse a ocultá-lo com os braços cruzados. Imperturbável, o médico lhe afastou  os  braços sem olhá-la, e fez a auscultação direta com a orelha contra a pele, primeiro o peito e depois as costas.
O doutor Juvenal Urbino costumava contar que não experimentou nenhuma emoção quando conheceu a mulher com quem havia de viver até o dia da morte. Lembrava a camisola azul clara com bainha de renda, os olhos febris, o cabelo comprido, solto sobre os ombros, mas estava tão obnubilado pela irrupção da peste no quarteirão colonial que não reparou em nada do muito que tinha ela de adolescente em flor, concentrado no mais íntimo que pudesse ter de empestada. Ela foi mais explícita: o jovem médico de quem tanto ouvira falar a propósito do cólera lhe pareceu um pedante incapaz de amar qualquer pessoa além dele mesmo. O diagnóstico foi uma infecção intestinal de origem alimentar que cedeu com um tratamento caseiro de três dias. Aliviado com a constatação de que a filha não contraíra o cólera, Lorenzo Daza acompanhou o doutor Juvenal Urbino até o  estribo


do carro, pagou-lhe o peso ouro da visita que lhe pareceu excessivo mesmo para um médico de gente rica, mas dele se despediu com demonstrações exageradas de gratidão. Estava deslumbrado com o esplendor dos seus nomes de família, e não não o disfarçava como teria feito qualquer coisa que fosse para vê-lo outra vez, e em circunstâncias menos formais.
O caso devia dar-se por encerrado. Contudo, na terça-feira da semana seguinte, sem ser chamado e sem se anunciar de qualquer forma, o doutor Juvenal Urbino lá voltou à hora inoportuna de três da tarde. Fermina Daza estava no quarto  de costura, tendo uma lição de pintura a óleo junto com duas amigas, quando ele apareceu à janela de sobrecasaca branca, imaculada, e o chapéu também branco, de copa alta, e lhe fez sinal para que se aproximasse. Ela pôs o bastidor na cadeira e se dirigiu à janela caminhando na ponta dos pés com a cauda do vestido levantada até os tornozelos para que não arrastasse. Usava um diadema com uma pequena jóia pendente da testa, de luminosa pedra da mesma cor fugidia dos seus olhos, e ela  toda exalava uma aura de frescor. Chamou a atenção do médico que ela se vestisse para pintar em casa como se fosse a uma festa. Tomou-lhe o pulso do lado de fora   da janela, fez com que mostrasse a língua, examinou-lhe a garganta com uma espátula de alumínio, olhou por dentro a parte inferior da pálpebra, fazendo de cada vez um gesto de aprovação. Estava menos constrangido do que na visita anterior, mas ela mais, por não entender a razão daquele exame imprevisto, quando ele próprio tinha dito que não voltaria a menos que o chamassem devido a alguma novidade. E havia outra coisa: não queria tornar a vê-lo nunca mais. Quando terminou o exame, o médico guardou a espátula na maleta atulhada de instrumentos e vidros de remédio, e fechou-a com um golpe seco.
   Está como uma rosa recém-nascida — disse ele.
   Obrigada.
   Agradeça a Deus — disse ele, e citou São Tomás mal: — Lembre que tudo que    é bom, venha de onde vier, provém do Espírito Santo. Gosta de música?
Fez a pergunta com um sorriso encantador, de um modo natural, mas ela não retribuiu.
   Qual o motivo da pergunta? — perguntou por sua vez.
   A música é importante para a saúde — disse ele.
Acreditava mesmo, e ela ia ver muito em breve e pelo resto da vida que o tema   da música era quase uma fórmula mágica que ele usava para propor uma amizade, mas naquele momento ela entendeu que era uma brincadeira. Além disso, as duas amigas que tinham fingido pintar enquanto eles conversavam na janela  deram  umas risadinhas abafadas e taparam a cara com os bastidores, o que acabou de desorientar Fermina Daza. Cega de fúria, bateu a janela com um golpe seco. O médico, perplexo diante das cortininhas de renda, virou-se e procurou o caminho do portão, mas se enganou de rumo, e na sua atrapalhação deu com a gaiola dos  corvos


perfumados. Estes lançaram uns pios vis, voejaram assustados, e a roupa do médico se impregnou de um cheiro de mulher. O trovão da voz de  Lorenzo Daza pregou-o  no lugar em que estava:
   Doutor: espere aí.
Avistara-o do andar de cima e descia as escadas abotoando a camisa, balofo e rubicundo, as suíças ainda revoltas devido a um sonho mau da sesta. O médico tentou dominar a situação.
   Acabo de dizer à sua filha que está feito uma rosa.
   E tem razão — disse Lorenzo Daza — mas com espinhos  demais.
Passou junto do doutor Urbino sem cumprimentá-lo. Empurrou as duas folhas  da janela do quarto de costura e gritou bronco para a  filha:
   Venha pedir desculpas ao doutor.
O médico quis intervir para impedi-lo, mas Lorenzo Daza não lhe deu atenção. Insistiu: "Depressa." Ela olhou as amigas com uma súplica recôndita de compreensão, e respondeu ao pai que não tinha de que se desculpar, pois tinha fechado a janela para impedir que continuasse entrando o sol. O doutor Urbino procurou justificar essas razões, mas Lorenzo Daza persistiu na ordem. Então Fermina Daza voltou à janela, pálida de raiva, e adiantando o direito enquanto levantava a cauda do vestido com a ponta dos dedos, fez ao médico uma reverência teatral.
   Apresento-lhe minhas mais humildes desculpas, cavalheiro —  disse.
O doutor Juvenal Urbino a imitou de bom humor, fazendo com o chapéu de copa alta uma mesura de mosqueteiro, mas não obteve o sorriso de piedade que  esperava. Lorenzo Daza o convidou então a tomar no escritório um café de desagravo, e ele aceitou grato, para que não houvesse nenhuma dúvida de que não lhe ficava na alma qualquer resquício de  ressentimento.
A verdade era que o doutor Juvenal Urbino não tomava café, a não  ser uma  xícara em jejum. Também não tomava álcool, salvo um copo de vinho com a comida em ocasiões solenes, mas não só tomou o café que lhe ofereceu Lorenzo Daza como aceitou além disso um cálice de aguardente de anis. Depois aceitou outro  café  e outro cálice, e depois outro e outro, apesar de ter ainda algumas visitas a fazer. A princípio escutou com atenção as desculpas que Lorenzo Daza continuava a dar em nome da filha, que definiu como menina inteligente e séria, digna de um príncipe daqui ou de qualquer parte, e cujo único defeito, segundo disse, era seu caráter de mula. Mas depois do  segundo cálice julgou ouvir a voz de  Fermina Daza no fundo  do pátio, e sua imaginação foi atrás dela, perseguiu-a pela noite recente da casa enquanto acendia as luzes do corredor, fumigava os quartos de dormir com a bomba de inseticida, destapava no fogão a panela da sopa que ia tomar essa noite com  o  pai, ele e ela sós à mesa, sem erguer a vista, sem sorver a sopa para não quebrar o encanto do rancor, até que ele acabasse por se render e pedir perdão pelo rigor que


tivera à tarde.
O doutor Urbino conhecia bastante as mulheres para saber que Fermina Daza  não passaria pelo escritório enquanto ele não fosse embora, mas deixava-se ficar porque sentia que o orgulho ferido não lhe daria paz depois  das  afrontas  dessa tarde. Lorenzo Daza, já quase bêbado, não parecia notar sua falta de atenção, pois se bastava a si mesmo com sua loquacidade indomável. Falava à rédea solta, mastigando a ponta do charuto apagado, tossindo aos gritos, escarrando, acomodando-se a duras penas na poltrona giratória cujas molas soltavam gemidos  de animal no cio. Tinha bebido três cálices para cada um do convidado, e fez uma pausa ao perceber que já não se viam um ao outro e se levantou para acender a lâmpada. O doutor Juvenal Urbino o olhou de frente com a nova luz, viu que tinha um olho torto feito olho de peixe e que suas palavras não correspondiam ao movimento dos lábios, e achou que eram alucinações suas por abusar do álcool. Então se levantou com a sensação fascinante de que estava dentro de um corpo que não era o seu e sim o de alguém que continuava sentado no assento onde ele estava,  e teve que fazer um grande esforço para não perder a razão.
Passava das sete quando saiu do escritório precedido de Lorenzo Daza. Havia lua cheia. O pátio transfigurado pelo anis flutuava no fundo de um aquário, e as gaiolas cobertas com panos pareciam fantasmas adormecidos debaixo do odor quente de flores desabrochadas. A janela da sala de costura estava aberta, e havia uma candeia acesa na mesa de trabalho, e os quadros por terminar estavam nos cavaletes como numa exposição. "Onde está você que não está", disse o doutor Urbino ao passar, mas Fermina Daza não o ouviu, não podia ouvi-lo, porque chorava de raiva no quarto, largada de borco na cama e esperando o pai para lhe cobrar a humilhação da tarde. O médico não renunciava à ilusão de se despedir dela, mas Lorenzo Daza não mencionou tal coisa. Relembrou com saudade a marcha inocente do seu pulso, sua língua de gata, suas amígdalas suaves, mas desanimou-o a idéia de que ela não queria vê-lo nunca mais nem permitiria que ele o tentasse. Quando Lorenzo Daza entrou no saguão, os corvos acordados debaixo dos lençóis emitiram pios fúnebres. "Arrancarão teus olhos", disse o médico em voz alta, pensando nela, e Lorenzo Daza se voltou para perguntar o que é que ele tinha  dito.
   Não fui eu ele disse. — Foi o anis.
Lorenzo Daza acompanhou-o até o carro se esforçando para  fazê-lo  receber o peso ouro da segunda visita, mas ele não aceitou. Deu instruções corretas ao cocheiro para que o levasse até a casa de dois dos doentes  que  lhe faltava ver, e subiu ao carro sem ajuda. Mas começou a se sentir mal com os solavancos nas ruas empedradas, por isso mandou o cocheiro mudar de rumo. Olhou-se por um instante no espelho do carro e viu que também sua imagem continuava pensando em Fermina Daza. Deu de ombros. Afinal soltou um arroto, inclinou a cabeça contra o peito e adormeceu, e no sono começou a ouvir os sinos do luto. Ouviu primeiro os   da  catedral, e  depois  os  de  todas  as  igrejas, uma após  outra, até  o  som  de metal


rachado de São Julião o Hospitaleiro.
   Merda — murmurou dormindo — morreram os mortos.
Sua mãe e suas irmãs estavam jantando café com leite e bolinhos na mesa de festa da sala de jantar principal, quando o viram assomar à porta com o rosto desfeito e todo ele desmoralizado pelo perfume de  putas dos corvos. O sino maior   da catedral contígua ressoava na imensa cisterna da casa. A mãe lhe perguntou alarmada onde se havia metido, pois o haviam procurado em toda parte para que atendesse ao general Ignacio Maria, último neto do Marquês de Jaraíz de Ia Vera, derrubado à tarde por uma congestão cerebral: era por ele que os sinos dobravam. O doutor Juvenal Urbino escutou a mãe sem ouvi-la, apoiado no umbral da porta, em seguida deu meia-volta, procurando chegar ao seu quarto, mas caiu de bruços numa explosão de vômitos de anis  estrelado.
      Maria Santíssima — gritou sua mãe. — Coisa muito estranha deve ter acontecido para que você se apresente em casa nesse estado.
O mais curioso, contudo, não tinha acontecido ainda. Aproveitando a visita do conhecido pianista Romeo Lussich, que tocou um ciclo de sonatas de Mozart logo que a cidade se refez do luto do general Ignacio Maria, o doutor Juvenal Urbino fez subir o piano da Escola de Música numa carreta de mulas, e levou até Fermina Daza uma serenata que marcou época. Ela acordou com os primeiros compassos e não  teve que assomar aos rendilhados do balcão para saber quem era o promotor  daquela homenagem insólita. Só lamentou não ter a coragem de outras donzelas geniosas que tinham esvaziado o urinol na cabeça do pretendente indesejável. Lorenzo Daza, em compensação, vestiu-se às carreiras no transcurso da serenata, e no fim fez entrar na sala de visitas o doutor Juvenal Urbino e o pianista, ainda enfarpelados no traje de rigor do concerto, e agradeceu-lhes a serenata  com  um copo de bom conhaque.
Fermina Daza percebeu em breve que o pai estava procurando amolecer seu coração. No dia seguinte da serenata tinha dito, de modo casual: "Imagine como se sentiria sua mãe se soubesse que você é requestada por um Urbino de Ia Calle." Ela replicou com secura: "Morreria de novo dentro do caixão." As amigas que pintavam com ela lhe contaram que Lorenzo Daza tinha sido convidado a almoçar  no Clube Social pelo doutor Juvenal Urbino, e que este tinha sido objeto de uma notificação severa por contrariar normas do regulamento. Só então ficou sabendo também que o pai tentara várias vezes tornar-se membro do Clube  Social, e  em todas tinha sido barrado com uma quantidade de bolas pretas que não  possibilitavam qualquer tentativa nova. Mas Lorenzo Daza absorvia humilhações com um fígado de bom bebedor, e continuou dando tratos à bola para se encontrar por acaso com Juvenal Urbino, sem perceber que era Juvenal Urbino quem fazia mais do que o possível para se deixar encontrar. Às vezes passavam horas conversando no escritório, enquanto a casa permanecia como que suspensa à margem do tempo, porque Fermina Daza não permitia que nada seguisse seu   curso


na vida enquanto ele não fosse embora. O Café da Paróquia foi um bom porto intermediário. Ali Lorenzo Daza deu a Juvenal Urbino lições primárias de xadrez, e ele foi um aluno tão aplicado que o xadrez se converteu num vicio incurável que o perseguiu até o dia de sua morte.
Urna noite, pouco tempo depois da serenata de piano, Lorenzo Daza encontrou uma carta com o envelope lacrado no saguão da casa, dirigido à sua filha e com o monograma de J.U.C. impresso no lacre. Deslizou-a por baixo da poria ao passar diante do quarto de Fermina, e ela não entendeu como chegara até ali, pois lhe parecia inconcebível que o pai tivesse mudado ao ponto de lhe levar carta de um pretendente. Deixou-a em cima da mesa de cabeceira, sem saber de fato que fazer com ela, e ali permaneceu fechada durante vários dias, até uma tarde de chuva em que Fermina Daza sonhou que Juvenal Urbino tinha reaparecido para presenteá-la com a espátula com que lhe examinara a garganta. A espátula do sonho não era de alumínio e sim de um metal apetitoso que ela havia saboreado com deleite em  outros sonhos, de modo que quebrou em duas partes desiguais, dando a ele  a  menor.
Ao acordar abriu a carta. Era breve e pulcra, e a única coisa que Juvenal Urbino lhe suplicava era que lhe permitisse pedir ao pai permissão para visitá-la. Impressionaram-na sua simplicidade e sua seriedade, e a raiva cultivada com tanto amor durante tantos dias se apaziguou de pronto. Guardou  a carta num cofre fora  de uso no fundo do baú, mas lembrou que ali guardara as cartas perfumadas de Florentino Ariza, e tirou-a do cofre para trocá-la de lugar, abalada por um sopro de vergonha. Achou então que o mais decente era dá-la como não recebida, e queimou- a na candeia, vendo como as gotas de lacre arrebentavam em borbulhas azuis sobre   a chama. Suspirou: "Pobre homem." Reparou logo que era a segunda vez que dizia isso em pouco mais de um ano, e por um instante pensou em Florentino Ariza, e se surpreendeu ao ver como ele estava longe de sua vida: pobre homem.
Em outubro, com as últimas chuvas, chegaram três cartas mais, acompanhada a primeira de uma caixinha de pastilhas de violeta da Abadia de Flavigny.  Duas  tinham sido entregues no portão da casa pelo cocheiro do doutor Juvenal Urbino, e este cumprimentara Gala Placídia da janela do carro, primeiro para que não houvesse dúvida de que as cartas eram suas, e segundo para que ninguém pudesse lhe dizer que não tinham sido recebidas. Além disso, ambas estavam seladas com o sinete do monograma no lacre, e escritas com as garatujas crípticas que Fermina Daza já conhecia: letra de médico. Ambas diziam em substância o mesmo que a primeira, e estavam concebidas com o mesmo espírito de submissão, mas no fundo de sua decência começava a se vislumbrar uma ansiedade que nunca fora evidente nas cartas circunspectas de Florentino Ariza. Fermina Daza as leu logo que foram entregues, com duas semanas de intervalo, e sem explicá-lo a si mesma mudou de opinião quando estava a ponto de atirá-las ao fogo. Mas nem por isso pensou em respondê-las.


A terceira carta de outubro tinha sido introduzida por baixo do portão, e era em tudo diferente das anteriores. A escrita era tão pueril  que sem dúvida tinha sido  feita com a mão esquerda, mas Fermina Daza só se deu conta disso  quando  o próprio texto provou seu anonimato infame. Quem a escrevera dava como fato que Fermina Daza tinha encantado com seus filtros o doutor Juvenal Urbino, e dessa suposição tirava conclusões sinistras. Acabava com uma ameaça: se Fermina Daza não renunciasse à sua pretensão de se apropriar do homem mais cobiçado da  cidade, seria exposta à vergonha pública.
Sentiu-se vítima de uma injustiça grave, mas sua reação não foi vingativa e sim o oposto: teria gostado de descobrir o autor da carta anônima para provar-lhe o erro com quantas explicações fossem pertinentes, pois estava certa de que nunca, por motivo nenhum, seria sensível aos galanteios de Juvenal Urbino.  Nos  dias seguintes recebeu mais duas cartas sem assinatura, tão pérfidas quanto a primeira, mas nenhuma das três parecia escrita pela mesma pessoa. Ou bem era vítima de uma conjura, ou a falsa versão dos seus amores secretos tinha ido mais  longe  do que se poderia supor. Inquietava-se com a idéia de que tudo aquilo fosse conseqüência de uma simples indiscrição de Juvenal Urbino. Ocorreu-lhe que talvez fosse homem diferente da sua aparência digna, que talvez desse com a língua nos dentes durante suas visitas e fizesse alarde de conquistas imaginárias, como tantos outros de sua classe. Pensou em escrever a ele para censurar o ultraje que fazia à sua honra, mas desistiu depois, achando que talvez fosse isso que ele queria. Procurou informar-se com as amigas que iam pintar com ela no quarto de costura, mas a única coisa que tinham ouvido eram comentários benignos sobre a serenata   de piano. Sentiu-se furiosa, impotente, humilhada. Ao contrário da sua reação  inicial, quando teria gostado de encontrar o inimigo invisível para convencê-lo de seus erros, agora gostaria de fazê-lo em pedaços com a tesoura de podar. Passava as noites em claro, analisando detalhes e expressões das cartas anônimas, na ilusão de encontrar o consolo de uma pista. Ilusão vã: Fermina Daza era alheia por natureza  ao mundo interior dos Urbino de Ia Calle, e tinha armas para se defender de suas boas intenções, mas não das más.
Esta convicção se tornou ainda mais amarga depois do pavor da  boneca preta  que chegou às suas mãos naqueles dias sem nenhuma carta, mas cuja origem lhe pareceu fácil de imaginar: o doutor Juvenal Urbino podia tê-la mandado. Tinha sido comprada na Martinica, de acordo com a etiqueta original, e trazia um vestido primoroso e fios de ouro no cabelo crespo, e fechava os olhos quando a deitavam. Pareceu a Fermina Daza tão divertida que dominou os escrúpulos  e  a deitava em  seu próprio travesseiro durante o dia. Acostumou-se a dormir com ela. Passado algum tempo, porém, depois de um sono sem repouso, descobriu que a boneca  estava crescendo: a linda roupa original que vestia ao chegar agora lhe deixava as coxas à mostra, e seus sapatos tinham arrebentado com a pressão dos pés. Fermina Daza ouvira falar de malefícios africanos, mas nenhum tão pavoroso como esse. Por outro lado, não podia conceber que um homem como Juvenal Urbino fosse capaz  de


semelhante atrocidade. Tinha razão: a boneca não tinha sido levada pelo cocheiro e sim por um vendedor ocasional de camarão, sobre quem ninguém conseguira dar uma informação certa. Procurando decifrar o enigma, Fermina Daza pensou por um momento em Florentino Ariza, cuja condição sombria a assustava, mas a vida se encarregou de convencê-la do erro. Nunca se esclareceu o mistério e sua simples evocação lhe dava um arrepio de pavor até muito depois de se haver casado, tido filhos e de se acreditar a eleita do destino: a mais feliz.
A última tentativa do doutor Urbino foi a mediação da irmã Franca de Ia Luz, superiora do Colégio da Apresentação da Santíssima Virgem, que não podia se esquivar aos apelos de uma família que favorecera sua comunidade desde seu estabelecimento nas Américas. Apareceu acompanhada de uma noviça às nove da manhã, e ambas precisaram se entreter com as gaiolas de pássaros enquanto Fermina Daza acabava de tomar banho. Era uma alemã viril, de timbre de voz metálico e olhar imperioso que não tinham relação nenhuma com suas paixões pueris. Não havia nada neste mundo que Fermina Daza odiasse mais do que ela, ou qualquer coisa a ver com ela, e a simples lembrança de sua falsa piedade lhe dava uma comichão de escorpiões nas entranhas. Bastou reconhecê-la da porta do banheiro para viver de  novo de  chofre os suplícios do  colégio, o sono insuportável  da missa diária, o terror dos exames, a diligência servil das noviças, a vida inteira pervertida pelo prisma da pobreza de espírito. A irmã Franca de Ia Luz, em compensação, cumprimentou-a com um júbilo que parecia sincero. Espantou-se de vê-la tão crescida e amadurecida, e elogiou a competência com que mantinha a casa, o bom gosto do pátio, as árvores floridas. Mandou a noviça esperá-la ali, sem se aproximar demais dos corvos, que num momento de descuido podiam lhe arrancar os olhos, e procurou um lugar afastado onde pudesse se sentar e  conversar a sós com Fermina, que a convidou à sala.
Foi uma visita breve e áspera. A irmã Franca de Ia Luz, sem perder tempo com preâmbulos, ofereceu a Fermina Daza uma reabilitação honrosa. O motivo da expulsão seria apagado não das atas como da memória da comunidade, o que lhe permitiria terminar os estudos e obter o diploma de Bacharel em Letras. Fermina Daza, perplexa, quis saber a razão.
É a petição de alguém que merece tudo, e cujo único desejo é fazer você feliz
   disse a freira. — Sabe quem é?
Então compreendeu. Perguntou a si mesma com que autoridade servia de emissária do amor uma mulher que lhe havia prejudicado a vida por causa de uma carta inocente, mas não se atreveu a falar assim. Disse, em resposta, que sim, que conhecia esse homem, e que ele não tinha o menor direito de se imiscuir em sua vida.
   A única coisa que implora é que você lhe permita que venha conversar cinco minutos — disse a freira. — Tenho certeza de que seu pai estará de  acordo.
A  raiva  de  Fermina  Daza  ficou  mais  intensa  com  a  idéia  de  que  o  pai fosse


cúmplice daquela visita.
    Nós nos vimos duas vezes quando estive doente — disse. — Agora não nenhuma razão.
   Para qualquer mulher com dois dedos de juízo esse homem é um presente da Divina Providência — disse a freira.
Continuou falando de suas virtudes, de sua devoção, de sua consagração ao serviço dos aflitos. Enquanto falava tirou da manga um rosário de  ouro  com  o Cristo talhado em marfim, e o moveu diante dos olhos de Fermina Daza. Era uma relíquia de família, antiga de mais de cem anos, talhada por um ourives de Siena e benta por Clemente IV.
   É seu disse.
Fermina Daza sentiu a torrente do sangue que rugia em suas veias e então se atreveu.
    Não consigo entender como a senhora se presta a isso — disse — se na sua opinião o amor é pecado.
A irmã Franca de La Luz não deu mostras de ter ouvido, mas suas pálpebras se incendiaram. Continuou balançando o rosário diante dos seus olhos.
   É melhor você se entender comigo — disse — por- que depois de mim vem o senhor arcebispo, e com ele as coisas são diferentes.
   Que venha — disse Fermina Daza.
A irmã Franca de Ia Luz escondeu o terço de ouro na manga. Depois tirou da outra um lenço muito usado, feito uma bola, e o manteve apertado no punho, olhando Fermina de muito longe com um sorriso de  comiseração.
     Pobre filha minha — suspirou — você ainda continua pensando naquele homem.
Fermina Daza ruminou a impertinência olhando a freira sem pestanejar, olhou-a bem nos olhos, sem falar, ruminando em silêncio, até ver com infinito prazer que seus olhos de homem se anuviaram de lágrimas. Irmã Franca de Ia Luz as enxugou com a bola do lenço e se pôs de pé.
   Tem razão seu pai quando diz que você é uma mula disse.
O arcebispo não foi. De maneira que o assédio teria acabado naquele dia, não fosse o fato de Hildebranda Sánchez ter vindo passar o Natal com a prima, o que mudou a vida de ambas. Foi recebida na roleta de Riohacha às cinco da manhã, em meio a uma turba de passageiros agonizantes de enjôo, mas ela desembarcou radiosa, mulher da cabeça aos pés, e com o espírito alvoroçado pela noite no  mar. Veio carregada de jacas de perus vivos e de quantos frutos brotavam em suas prósperas veigas, para que ninguém sentisse falta do que comer durante sua visita. Lisímaco Sánchez, o pai, mandava perguntar se eram necessários músicos para as festas  de  Natal, pois  ele  tinha  os  melhores  à  sua disposição, e  prometia  mandar


mais para a frente um carregamento de fogos de artifício. Acrescentava ainda que não podia vir buscar a filha antes de março, de modo que havia tempo de sobra para se viver.
As duas primas começaram sem perda de tempo. Tomaram banho juntas desde a primeira tarde, nuas, fazendo-se abluções recíprocas com a água da banheira de pedra. Ensaboavam-se, catavam lêndeas uma na outra, comparavam as nádegas, os seios imóveis, uma se olhando no espelho da outra para avaliar com quanta crueldade o tempo as tratara desde a última vez que tinham se visto nuas. Hildebranda era grande e maciça, de pele dourada, mas todo o pêlo do seu corpo era de mulata, curto e enroscado feito palha de aço. Fermina Daza, de sua parte, tinha uma nudez pálida, de linhas grandes, de pele serena, de pêlos macios. Gala Placídia tinha mandado pôr duas camas iguais para as duas no quarto, mas às vezes  dormiam numa e conversavam com as luzes apagadas até raiar o dia. Fumavam uns charutões de bandido que Hildebranda tinha trazido escondidos no forro  do  baú, e depois tinham que queimar folhas de papel da Armênia para purificar o ar de tugúrio que deixavam no quarto. Fermina Daza tinha fumado pela primeira vez em Valledupar, e tinha continuado a fazê-lo em Fonseca, em Riohacha, onde se trancavam até dez primas num quarto a falar de homens e a fumar às escondidas. Aprendeu a fumar ao contrário, com a brasa dentro da boca, como fumavam os homens nas noites das guerras para não serem denunciados pela ponta incandescente do charuto. Mas nunca tinha fumado sozinha. Com Hildebranda na casa passou a fazê-lo todas as noites antes de dormir, e desde então adquiriu  o hábito de fumar, embora sempre às escondidas, mesmo do marido e dos filhos, não porque era mal visto que mulher fumasse em público, como porque tinha  o prazer associado à clandestinidade.
A viagem de Hildebranda também tinha sido imposta pelos pais para ver se a afastavam de seu amor impossível, embora a tivessem convencido de que era para ajudar Fermina a se decidir por um bom partido. Hildebranda aceitara na esperança de enganar o esquecimento, como fizera a prima no  seu  momento, e  combinara com o telegrafista de Fonseca para que enviasse suas mensagens debaixo do maior sigilo. Por isso foi tão amarga sua desilusão quando soube que Fermina Daza repudiara Florentino Ariza. Além disso, Hildebranda tinha uma concepção universal do amor, e achava que qualquer coisa que acontecesse com uma pessoa  afetava todos os amores do mundo inteiro. Contudo, não renunciou ao projeto. Com uma audácia que provocou em Fermina Daza uma crise de espanto, foi sozinha à agência do telégrafo disposta a conquistar a boa vontade de Florentino  Ariza.
Não o teria identificado, pois não tinha um traço que correspondesse à imagem que ela formara através de Fermina Daza. À primeira vista lhe pareceu impossível que a prima tivesse estado a ponto de enlouquecer por aquele empregado quase invisível, com um ar de cachorro batido, cuja indumentária de rabino caído em desgraça e cujas maneiras solenes não podiam alterar o coração de ninguém. Mas logo  se  arrependeu  da  primeira  impressão,  pois  Florentino  Ariza  se  pôs  a    seu


serviço incondicional sem saber quem era: não soube nunca. Ninguém a teria compreendido melhor do que ele, por isso não lhe exigiu que se identificasse nem lhe pediu endereço algum. Sua solução foi muito simples: ela passaria toda quarta- feira à tarde na agência do telégrafo para que ele lhe entregasse as respostas em sua mão, e nada mais. Por outro lado, quando ele leu a mensagem que Hildebranda trazia escrita, perguntou a ela se aceitava uma sugestão, e ela concordou. Florentino Ariza fez primeiro umas correções entre linhas, suprimiu-as, tornou  a  escrever, ficou sem espaço, e afinal rasgou a folha e escreveu completa uma mensagem diferente que a ela pareceu enternecedora. Quando saiu do escritório do telégrafo, Hildebranda estava à beira das lágrimas.
— É feio e triste — disse a Fermina Daza — mas é todo  amor.
O que mais chamou a atenção de Hildebranda foi a solidão da prima. Parecia, lhe disse, uma solteirona de vinte anos. Acostumada a uma família numerosa e dispersa, em casas onde ninguém sabia de ciência certa quantos  moravam  nem quem ia comer a cada refeição, Hildebranda nem podia imaginar uma moça da sua idade reduzida ao claustro da vida privada. Assim era: desde que se levantava às seis da manhã até que apagava a luz do quarto, se consagrava à perda do tempo. A vida lhe era imposta de fora. Primeiro, com os últimos gaios, o leiteiro a acordava com a aldraba do portão. Depois tocava a peixeira com um caixote de pargos moribundos num leito de algas, as quitandeiras com os cestos tornados suntuosos com as hortaliças de Maria La Baja e as frutas de São Jacinto. Em seguida, durante todo o dia, tocavam todos: os mendigos, as moças das rifas, as irmãs de caridade, o amolador, o garrafeiro, o que comprava ouro quebrado, o que comprava papel de jornal, as falsas ciganas que se ofereciam para ler a sorte nas cartas, nas linhas da mão, na borra do café, nas águas das bacias. A semana de Gala Placídia se esvaía no abrir e fechar do portão para dizer que não, volte outro dia, ou gritando da sacada já sem paciência que não amolem mais, porra, que já compramos tudo que não tinha na casa. Substituíra tia Escolástica com tanto fervor e tanta graça que Fermina a confundia com a outra até para gostar mais dela. Tinha obsessões de escrava. Logo que encontrava um tempo livre ia para o quarto de serviço para passar a roupa branca, que deixava perfeita, que guardava nos armários com flores de alfazema, e não passava e dobrava a que acabava de lavar como também a que  tivesse  perdido seu esplendor pela falta de uso. Com o mesmo cuidado continuava conservando o vestuário de Fermina Sánchez, mãe de Fermina,  morta  quatorze anos antes. Mas era Fermina Daza quem tomava as decisões. Resolvia o que  se  havia de comer, o que se havia de comprar, o que se tinha que fazer em cada caso, e desta forma determinava a vida de uma casa que na realidade não tinha nada que determinar. Quando acabava de lavar as gaiolas e pôr a comida dos pássaros, e  de ver que nada faltasse às flores, ficava sem rumo. Muitas vezes, depois de  ser expulsa do colégio, adormeceu na hora da sesta e foi acordar no dia seguinte. As aulas de pintura eram apenas uma forma mais entretida de perder o  tempo.
As relações com o pai careciam de afeto desde o exílio de tia Escolástica, embora


ambos tivessem encontrado o modo de viver juntos sem se atrapalhar. Quando ela se levantava, ele já tinha ido aos seus negócios. Poucas vezes faltava ao rito do almoço, embora quase nunca comesse, pois lhe bastavam os aperitivos  e  os acepipes galegos do Café da Paróquia. Tampouco jantava: deixavam sua porção na mesa, toda num prato e tapada com outro, embora soubessem que ele a comeria no dia seguinte requentada na hora do café. Uma vez por semana dava à filha o dinheiro da despesa, que ele calculava muito bem e que  ela administrava  com rigor, mas atendia com gosto a qualquer pedido que ela fizesse para gastos imprevistos. Nunca lhe regateava um vintém, nunca lhe pedia contas, mas ela se comportava como se tivesse que prestá-las perante o tribunal do Santo  Ofício.  Nunca lhe falara da índole ou estado dos seus negócios, nunca a levara a conhecer seus escritórios do porto, que estavam num lugar vedado a senhoritas decentes mesmo que acompanhadas do pai. Lorenzo Daza não chegava a casa antes das  dez  da noite, que era a hora do toque de recolher nas épocas menos críticas das guerras. Ficava até essa hora no Café da Paróquia, jogando o que fosse, porque era especialista em todos os jogos de salão, além de bom professor  deles.  Sempre  entrou em casa em seu perfeito juízo, sem despertar a filha, apesar de tomar a primeira pinga de anis ao acordar e de continuar mastigando a ponta do charuto apagado e tomando tragos espaçados durante o resto do dia. Uma noite, contudo, Fermina percebeu que ele entrava. Ouviu seus passos de cossaco nas escadas, ouviu seu arquejo enorme no corredor do segundo andar, seus golpes  com  a palma da mão na porta do quarto. Ela lhe abriu a porta, e pela primeira vez se assustou com seu olho torto e o engrolamento de suas palavras.
— Estamos na ruína — disse ele. — Ruína total, pode ficar sabendo.
Foi tudo que disse, e nunca mais tornou a dizê-lo nem aconteceu nada que indicasse se dissera a verdade, mas depois daquela noite Fermina Daza ficou consciente de que estava no mundo. Vivia num limbo social. Suas antigas companheiras de colégio estavam num céu proibido para ela, muito mais ainda depois da desonra da expulsão, mas nem por isso ela era vizinha dos  vizinhos, porque estes a haviam conhecido sem passado e com  o uniforme da Apresentação  da Santíssima Virgem. O mundo de seu pai era de traficantes e estivadores, de refugiados de guerras no albergue público do Café da Paróquia, de homens sós. No último ano, as aulas de pintura haviam aliviado um pouco sua reclusão, porque a professora preferia as aulas coletivas e costumava trazer outras alunas ao quarto de costura. Mas eram moças de condições sociais dispersas e mal definidas, e para Fermina Daza não passavam de amigas emprestadas cujo afeto acabava com cada aula. Hildebranda queria abrir a casa, ventilá-la, trazer os músicos e os foguetes e fogueteiros de seu pai e fazer um baile de carnaval cujas ventanias varressem o desânimo e as traças que roíam a vida da prima, mas em pouco tempo percebeu que seus propósitos eram inúteis. Por uma razão simples: não havia com quem.
De qualquer maneira, foi ela quem a pôs a viver. À tarde, depois das aulas de pintura, ela se fazia levar à rua para conhecer a cidade. Fermina Daza lhe mostrou   o


caminho que fazia todos os dias com tia Escolástica, o banco da pracinha onde Florentino Ariza fingia ler para esperá-la, as ruelas por onde a seguia,  os esconderijos das cartas, o palácio sinistro que abrigara o cárcere do Santo Ofício, e que depois tinha sido restaurado e convertido no Colégio da Apresentação da Santíssima Virgem, que ela odiava com toda a sua alma. Subiram a colina do cemitério dos pobres, onde Florentino Ariza tocava violino segundo o rumo dos ventos para que ela o escutasse na cama, e dali viram inteira a cidade histórica, os telhados quebrados e os muros carcomidos, os escombros das fortalezas entre os matagais, a fileira de ilhas na baía, os barracões da miséria ao redor dos pântanos, o Caribe imenso.
Na noite de Natal, foram à missa do galo na catedral. Fermina ocupou o assento onde lhe chegava melhor a música confidencial de Florentino Ariza, e mostrou à prima o lugar exato em que uma noite como aquela tinha visto de perto pela  primeira vez seus olhos espantados. Arriscaram-se sozinhas até o Portal dos Escrivães, compraram doces, se divertiram na loja dos papéis de fantasia, e Fermina Daza assinalou para a prima o lugar em que descobrira de golpe que seu amor não passava de uma miragem. Não tinha percebido ela própria que cada passo seu  da casa ao colégio, cada lugar da cidade, cada instante de seu passado recente pareciam existir por obra e graça de Florentino Ariza. Foi o que Hildebranda a fez ver, mas ela não admitiu, pois jamais reconheceria como realidade que Florentino Ariza, para o bem ou para o mal, era a única coisa que lhe acontecera na  vida.
Por aqueles dias chegou um fotógrafo belga que instalou seu estúdio no Portal  dos Escrivães, e quem quer que tivesse com que pagar-lhe o trabalho aproveitou a ocasião para tirar um retrato. Fermina e Hildebranda foram das primeiras. Esvaziaram o guarda-roupa de Fermina Sánchez, repartiram as roupas mais vistosas, as sombrinhas, os sapatos de festa, os chapéus, e se vestiram de damas da metade do século. Gala Placídia as ajudou a apertar os corpetes, ensinou-as a andar dentro das armações de arame das anquinhas, a calçar as luvas, a abotoar os botins de salto alto. Hildebranda preferiu um chapéu de abas grandes com penas de avestruz que lhe caíam sobre as costas. Fermina pôs um mais recente, enfeitado de frutas de gesso pintado e flores de crinolina. Acabaram troçando de si mesmas vendo-se no espelho tão semelhantes aos daguerreótipos das avós e saíram felizes, mortas de rir, para tirarem retrato de suas vidas. Gala Placídia as viu da sacada atravessando o parque com as sombrinhas abertas, se equilibrando como podiam  nos saltos, e empurrando as anquinhas com o corpo inteiro feito criança aprendendo a andar com andadeiras, e lhes deu a bênção para que Deus as ajudasse em seus retratos.
Havia um tumulto diante do estúdio do belga, porque  estavam  fotografando Beny Centeno, que naqueles dias tinha ganho o campeonato de boxe no Panamá. Estava de calções de luta, com as luvas calçadas e a coroa na cabeça, e não foi fácil fotografá-lo porque precisava ficar em posição de assalto durante um minuto e respirando  o  menos  possível,  mas   logo  que   armava  a  guarda  seus      fanáticos


prorrompiam em ovações, e ele não resistia à tentação  de  satisfazê-los  exibindo suas artes. Quando chegou a vez das primas o céu nublara e a chuva parecia iminente, mas elas se deixaram enfarinhar a cara com polvilho e se apoiaram com tanta naturalidade numa coluna de alabastro que conseguiram ficar imóveis por mais tempo do que parecia racional. Foi um retrato eterno. Quando Hildebranda morreu, quase centenária em sua fazenda de Flores de Maria,  encontraram  sua cópia debaixo de chave no armário do quarto, escondida entre as dobras dos lençóis perfumados, junto com o fóssil de um pensamento numa carta apagada pelos anos. Fermina Daza guardou a sua muitos anos na primeira folha de um álbum de  família, de onde desapareceu sem que se soubesse como, nem quando, e chegou às mãos de Florentino Ariza por uma série de casualidades inverossímeis, quando ambos já passavam dos sessenta anos.
A praça diante do Portal dos Escrivães estava apinhada até os sobrados quando Fermina e Hildebranda saíram do estúdio do belga. Tinham esquecido que  suas caras estavam brancas de polvilho e os lábios pintados com uma pomada cor de chocolate, e que suas roupas não eram apropriadas nem à hora nem à época. A rua  as recebeu com vaias e apupos. Estavam acuadas, procurando escapar à zombaria pública, quando abriu caminho pelo tumulto o landô dos alazães dourados. A vaia cessou e os grupos hostis debandaram. Hildebranda não esqueceria jamais a primeira visão do homem que apareceu no estribo, o casaco de seda, o colete de brocado, seus ademanes sábios, a doçura dos olhos, a autoridade da presença.
Embora nunca o tivesse visto, reconheceu-o logo. Fermina Daza tinha falado  nele, quase por casualidade e sem nenhum interesse, uma tarde do mês anterior em que não tinha querido passar pela casa do Marquês de Casalduero porque o landô  dos cavalos de ouro estava estacionado à porta. Disse a ela quem era o dono e procurou explicar as causas de sua antipatia, embora não dissesse palavra quanto às pretensões dele. Hildebranda esqueceu. Mas quando o identificou à porta do carro como uma aparição de fábula, um pé  em terra outro no estribo, não compreendeu  os motivos da prima.
— Façam-me o favor de subir — disse o doutor Juvenal Urbino. — Levo-as para onde mandarem.
Fermina Daza esboçou um gesto de dúvida, mas Hildebranda já havia aceito. O doutor Juvenal Urbino saltou, e com a ponta dos dedos, quase sem tocá-la, ajudou-a a subir no carro. Fermina, sem escolha, subiu depois dela, a cara ardendo de contrariedade.
A casa ficava a apenas três quarteirões. As primas não notaram que o doutor Urbino tivesse entrado em acordo com o cocheiro, mas deve ter sido assim, porque   o carro levou mais de meia hora para chegar. Iam sentadas no assento principal, e  ele diante delas, de costas para o sentido da marcha do carro. Fermina virou a cara para a janela e mergulhou no vazio. Hildebranda, em compensação, estava encantada, e o doutor Urbino mais encantado ainda com o encantamento dela.  Logo


que o carro se pôs a andar, ela sentiu o cheiro cálido do couro natural dos assentos,   a intimidade do interior acolchoado, e disse que aquilo lhe parecia um lugar bom da gente ficar vivendo. Começaram logo a rir, a trocar chistes de velhos amigos, e acabaram no jogo de um jargão inventado, que consistia em intercalar entre cada sílaba uma sílaba convencional. Fingiam acreditar que Fermina não compreendia o que diziam, embora não soubessem que sim como que estava presa ao  que diziam, e por isso insistiam. Ao fim de um momento, depois de muito rir, Hildebranda confessou que não agüentava mais o suplício dos botins.
   Nada mais fácil — disse o doutor Urbino. — Vamos ver quem acaba primeiro.
Começou a soltar o cordão das botas, e Hildebranda aceitou o repto. Não achou fácil, por causa do corpete de varetas que não permitiam que se curvasse, mas o doutor Urbino demorou de propósito, até que ela tirou os botins de  debaixo  das saias com uma gargalhada de triunfo, como se acabasse de pescá-los num tanque. Ambos olharam então para Fermina, e viram seu magnífico perfil de  ave  mais  afiado do que nunca contra o incêndio do entardecer. Estava três vezes furiosa: pela situação imerecida em que se encontrava, pela conduta libertina de Hildebranda, e pela certeza de que o carro dava voltas sem sentido para retardar a chegada. Mas Hildebranda corria sem madrinha.
   Agora estou vendo — disse — que o que me atrapalhava não eram os sapatos, e sim esta gaiola de arame.
O doutor Urbino compreendeu que se referia às anquinhas, e pegou a ocasião no vôo. "Nada mais simples", disse. "Tire fora." Com um rápido passe de prestidigitador puxou o lenço do bolso e com ele vendou os  olhos.
   Não estou olhando — disse.
A venda realçou a pureza dos seus lábios entre a barba redonda e negra e  o  bigode de guias afiadas, e ela se sentiu sacudida por uma vergastada de pânico. Olhou Fermina e agora não a viu furiosa e sim apavorada com a idéia de que ela fosse capaz de tirar a saia. Hildebranda ficou séria e lhe perguntou em linguagem de dedos: "Que fazemos?" Fermina Daza respondeu no mesmo código que se não fossem diretamente a casa se atiraria do carro em marcha.
   Estou esperando — disse o médico.
   Já pode olhar — disse Hildebranda.
O doutor Juvenal Urbino a viu diferente quando tirou a venda, e compreendeu que o jogo tinha terminado, e terminado mal. A um sinal seu o cocheiro fez o carro dar uma volta completa, e entrou na praça dos Evangelhos no momento em que o acendedor municipal acendia as luminárias. Todas as igrejas deram o ângelus. Hildebranda desceu depressa, um pouco preocupada com a idéia de ter desgostado a prima, e se despediu do médico com um aperto de mãos sem cerimônias. Fermina a imitou, mas quando quis retirar a mão com a luva de seda, o doutor Urbino lhe apertou com força o dedo médio, o do coração.


   Estou esperando sua resposta — disse.
Fermina deu então um puxão mais forte, e a luva vazia ficou pendurada da mão do médico, mas não esperou para recuperá-la. Foi se deitar sem comer.  Hildebranda, como se nada houvesse acontecido, entrou no quarto depois de jantar com Gala Placídia na cozinha, e comentou com sua graça natural os incidentes da tarde. Não disfarçou seu entusiasmo pelo doutor Urbino, por sua elegância e sua simpatia, e Fermina não correspondeu com nenhum comentário, mas estava refeita do aborrecimento. A um certo momento, Hildebranda confessou: quando o doutor Juvenal Urbino vendou os olhos e ela viu o brilho dos seus dentes perfeitos entre os lábios rosados, tinha tido um desejo irresistível de comê-lo  aos  beijos.  Fermina Daza se virou para a parede e pôs fim à conversa sem intuito de ofender, até sorrindo, mas com todo o coração.
   Que puta que você é! disse.
Dormiu sobressaltada, vendo o doutor Juvenal Urbino em todos os cantos, vendo-o rir, cantar, despedindo chispas de enxofre pelos dentes com os olhos vendados, troçando dela numa língua sem regras fixas num carro diferente que  subia até o cemitério dos pobres. Acordou muito antes de raiar o  dia, exausta, e  ficou acordada com os olhos fechados pensando nos anos incontáveis que ainda lhe faltavam viver. Depois, enquanto Hildebranda tomava banho, escreveu uma carta a toda pressa, dobrou-a a toda pressa, enfiou-a a toda pressa no envelope, e antes que Hildebranda saísse do banheiro mandou-a por Gala Placídia ao doutor Juvenal Urbino. Era uma carta das suas, sem uma letra a mais ou a menos, na qual dizia que sim, doutor, que falasse com seu pai.
Quando Florentino Ariza soube que Fermina Daza ia se casar com um médico de linhagem e fortuna, educado na Europa e com uma reputação rara em  sua idade, não houve força capaz de levantá-lo de sua prostração. Trânsito Ariza fez mais do que o possível para consolá-lo com atenções de noiva quando viu que ele tinha perdido a fala e o. apetite e passava as noites em claro chorando sem sossego, e ao fim de uma semana conseguiu que comesse de novo. Falou então com  o  senhor Leão XII Loayza, o único sobrevivente dos três irmãos, e sem dizer o motivo pediu- lhe que desse ao sobrinho um emprego para fazer qualquer coisa na companhia de navegação, contanto que fosse em algum porto perdido nos matos do  Madalena, onde não houvesse correio nem telégrafo, nem visse ninguém  que  lhe  contasse nada a respeito desta cidade de perdição. O tio não lhe deu o emprego por consideração com a viúva do irmão, que mal suportava a simples existência do bastardo, mas arranjou para ele o posto de telegrafista na Vila de Leyva, uma cidade de sonho a mais de vinte dias e a quase três mil metros de altura acima do nível da Rua das Janelas.
Florentino Ariza nunca teve noção clara daquela viagem medicinal. Sempre a lembraria, assim como tudo que aconteceu naquela época, através dos cristais rarefeitos de sua desventura. Ao receber o telegrama da nomeação nem pensou em


levá-lo em consideração, mas Lotário Thugut o  convenceu  com  argumentos alemães de que um porvir radiante esperava por ele na administração  pública.  Disse: "O telégrafo é a profissão do futuro." Deu-lhe de presente um par de luvas forradas com pêlo de coelho, um gorro das estepes e um sobretudo com gola de pele provado nos janeiros glaciais da Baviera. O tio Leão XII o presenteou com  dois ternos de casimira e umas botas impermeáveis que tinham sido do  irmão  mais velho, e lhe deu uma passagem com camarote para o próximo navio. Trânsito Ariza reduziu as roupas às medidas do filho, que era menos corpulento que o pai e muito mais baixo que o alemão, e lhe comprou meias de lã e umas ceroulas de  corpo  inteiro para que não lhe faltasse nada contra os rigores do páramo. Florentino Ariza, endurecido de tanto sofrer, assistia aos preparativos da viagem como  um  morto teria assistido às disposições tomadas para suas exéquias. Não disse a ninguém que ia embora, não se despediu de ninguém, no mesmo hermetismo férreo com que só   à mãe revelou o segredo de sua paixão reprimida, mas na véspera da viagem  cometeu consciente uma última loucura do coração que bem poderia ter-lhe  custado a vida. Vestiu à meia-noite seu traje de domingo e tocou em solo debaixo do balcão de Fermina Daza a valsa de amor que compusera para ela, que eles dois conheciam, e que foi durante três anos o emblema de sua cumplicidade contrariada. Tocou-a murmurando a letra, o violino banhado em lágrimas, e com uma inspiração tão intensa que aos primeiros compassos começaram a ladrar os cachorros da rua, e em seguida os da cidade, mas depois se foram calando pouco a pouco graças ao feitiço da música, e a valsa terminou em meio a um silêncio sobrenatural. O balcão não se abriu, nem ninguém assomou à rua, nem mesmo o  guarda-noturno  que quase sempre acudia com sua lanterna para ver se colhia algum benefício com as sobras das serenatas. O ato foi uma invocação de alívio para Florentino Ariza, pois quando guardou o violino na caixa e se afastou pelas ruas mortas  sem olhar para  trás já não achava que ia embora na manhã seguinte, e sim que tinha ido embora muitos anos com a disposição inabalável de não voltar nunca  mais.
O navio, um dos três iguais da Companhia Fluvial do Caribe, tinha sido rebatizado em homenagem ao fundador: Pio Quinto Loayza. Era uma casa flutuante de dois andares de madeira sobre um casco de ferro, largo e chato, com um calado máximo de cinco pés que lhe permitia evitar melhor os fundos variáveis do rio. Os navios mais antigos tinham sido fabricados em Cincinnati em meados do século, no modelo legendário dos que faziam o comércio do  Ohio e Mississippi, e tinham  a  cada lado uma roda de propulsão movida por caldeira de lenha. Como estes, os navios da Companhia Fluvial do Caribe tinham no convés inferior, quase à tona d'água, as máquinas de vapor e as cozinhas, e os grandes cercados  de  galinheiro onde as tripulações dependuravam as redes, entrecruzadas em diferentes níveis. Tinham no andar superior a cabine de comando, os camarotes do capitão e seus oficiais, e uma sala de recreio e um refeitório, onde os passageiros notáveis eram convidados pelo menos uma vez para jantar e jogar cartas. No andar intermediário havia seis camarotes de primeira classe em ambos os lados de um passadiço que


servia de refeitório comum, e na proa uma sala de estar aberta sobre o rio  com  gradis de madeira rendada e pilastras de ferro, onde dependuravam à noite suas redes os passageiros da plebe. No entanto, ao contrário dos mais antigos,  estes navios não tinham as pás de propulsão a cada lado, e sim uma enorme roda na popa com pás horizontais debaixo dos reservados sufocantes do convés de passageiros. Florentino Ariza não se dera o trabalho de explorar o navio logo que subiu a bordo, um domingo de julho às sete da manhã, como faziam quase por instinto os que viajavam pela primeira vez. Só teve noção de sua nova realidade ao entardecer, navegando diante do casario de Calamar, quando foi urinar na popa e viu pela vigia do reservado a gigantesca roda de grandes tábuas girando debaixo de seus pés num estrondo vulcânico de espumas e vapores  ardentes.
Nunca tinha feito uma viagem. Carregava um baú de folha com as roupas do páramo, os romances ilustrados que comprava em folhetins mensais e que ele próprio costurava em capas de papelão, e os livros de versos de amor que recitava de cor e que estavam a ponto de virar pó de tanto ser relidos. Deixara para trás  o violino, que se identificava demasiado com sua desgraça, mas a mãe o obrigara a levar o chamado petate, trouxa de dormir muito popular e prática: um travesseiro, um lençol, uma bacia de estanho e um toldo de filo contra os mosquitos, tudo isso enrolado numa esteira amarrada com duas cordas de pita para se pendurar uma  rede em caso de urgência. Florentino Ariza não queria levá-lo, pois achava que seria uma inutilidade num camarote que incluía o uso de camas, mas desde a primeira noite teve que agradecer uma vez mais o bom senso da  mãe.
Com efeito, à última hora subiu a bordo um passageiro em traje de etiqueta que havia chegado em navio da Europa aquela madrugada, e estava acompanhado do governador da província em pessoa. Queria continuar a viagem sem perda de tempo com a esposa e a filha, e com o criado de libré e os sete baús com frisos dourados equilibrados a duras penas pelas escadas. O capitão, um gigante de Curaçau, conseguiu tocar o sentido patriótico dos naturais da terra para acomodar os viajores imprevistos. A Florentino Ariza explicou numa salada de castelhano e dialeto de Curaçau que o homem vestido a rigor era o novo ministro plenipotenciário da Inglaterra em viagem para a capital da república, lembrou que aquele reino fornecera recursos decisivos para nossa independência do domínio espanhol, e por conseguinte qualquer sacrifício era pouco para que uma família de tão  alta dignidade se sentisse em nossa casa melhor do que na própria. Florentino Ariza, é claro, renunciou ao camarote.
No princípio não se queixou, pois o caudal do rio era abundante naquela época  do ano, e o navio navegou sem tropeços as duas primeiras noites. Depois do jantar, às cinco da tarde, a tripulação distribuía entre os passageiros camas de armar com fundo de lona, e cada um abria a sua onde podia, a arrumava com os panos do seu petate e instalava por cima o mosquiteiro de filo. Os que tinham rede penduravam- na no salão, e os que não tinham nada dormiam em cima das mesas do refeitório e  se  cobriam  com  as  toalhas  de  mesa que  não  eram  mudadas  mais  de  duas vezes


durante a viagem. Florentino Ariza velava a maior parte da noite, acreditando ouvir  a voz de Fermina Daza na brisa fresca do rio, apascentando a solidão com a lembrança dela, ouvindo-a cantar na respiração do navio que avançava nas trevas com passos de bicho grande, até que apareciam as primeiras franjas rosadas no horizonte e o novo dia rebentava de repente sobre campinas desertas e pântanos de névoa. A viagem lhe parecia então mais uma prova da sabedoria de sua mãe, e se sentia com ânimo de sobreviver ao esquecimento.
Ao fim de três dias de boas águas, porém, a navegação ficou mais difícil entre bancos de areia intempestivos e turbulências enganosas. O rio ficou turvo e foi estreitando mais e mais numa selva emaranhada de árvores colossais, onde só se encontrava de vez em quando uma choça de palha junto às pilhas de lenha para a caldeira dos navios. A algaravia dos louros e o escândalo dos micos invisíveis pareciam aumentar o mormaço do meio-dia. Mas de noite era preciso amarrar o navio para dormir, e então se tornava insuportável o simples fato de estar vivo. Ao calor e aos pernilongos se acrescentava o mau cheiro das tiras de carne  salgada postas a secar pela balaustrada do navio. A maioria dos passageiros, sobretudo os europeus, abandonavam o podredouro dos camarotes e passavam a noite andando pelos conveses, espantando toda a classe de insetos com a mesma toalha com que secavam o suor incessante, e amanheciam exaustos e alastrados de picadas.
Além disso, naquele ano estourara mais um episódio da guerra civil intermitente entre liberais e conservadores, e o capitão tomara precauções muito severas para a ordem interna e a segurança dos passageiros. Procurando evitar equívocos e provocações, proibiu a distração favorita das viagens daquele tempo, que era atirar contra os jacarés que apanhavam sol nas praias da beira do rio. Mais adiante,  quando alguns passageiros se dividiram em dois bandos inimigos no curso de uma discussão, confiscou as armas de todos com o compromisso de honra de devolvê-las ao término da viagem. Foi inflexível inclusive com o ministro britânico, que no dia seguinte à partida amanheceu vestido de caçador, com uma carabina de precisão e um fuzil de dois canos de matar tigres. As restrições se tornaram ainda mais  drásticas para do porto de Tenerife, onde cruzaram com um navio  que desfraldava a bandeira amarela da peste. O capitão não conseguiu obter nenhuma informação sobre aquele sinal alarmante, porque o outro navio não respondeu aos seus sinais. Mas nesse mesmo dia encontraram outro com carga de gado para a Jamaica, e este informou que o navio com a bandeira da peste levava dois doentes   de cólera, e que a epidemia causava estragos no trecho do rio que ainda lhes faltava navegar. Então foi proibido aos passageiros deixar o navio não nos portos seguintes como ainda nos lugares despovoados onde arribava para carregar lenha. De modo que no restante da viagem até o porto final, que durou outros seis dias, os passageiros contraíram hábitos carcerários. Entre estes, a contemplação perniciosa de um pacote de postais pornográficos holandeses que circulou  de  mão  em mão sem que se soubesse de onde saíra, ainda que nenhum veterano do  rio  ignorasse que  os  cartões  não passavam  de  mostruário da  legendária coleção do capitão, Mas


até essa distração sem futuro acabou por aumentar o tédio.
Florentino Ariza agüentou os rigores da viagem com a paciência mineral que desolava sua mãe e exasperava seus amigos. Não se relacionou com ninguém. Os  dias lhe corriam fáceis enquanto se sentava junto à amurada olhando os jacarés imóveis tomando sol nas praias com as mandíbulas abertas para pegar borboletas, olhando os bandos de garças assustadas que erguiam vôo nos charcos, os peixes-boi que amamentavam as crias nas grandes tetas maternais e surpreendiam os passageiros com seus prantos de mulher. Num único dia viu passarem boiando três corpos humanos, inchados e verdes, com vários urubus em  cima.  Passaram primeiro os corpos de dois homens, um deles sem cabeça, em seguida o de uma menina de poucos anos cujos cabelos de medusa ficaram ondulando na esteira do navio. Nunca soube, porque nunca se sabia, se eram vítimas do cólera ou da guerra, mas as exalações nauseabundas contaminaram em sua memória a lembrança de Fermina Daza.
Era sempre assim: qualquer acontecimento, bom ou mau, tinha alguma relação com ela. À noite, quando se atracava o navio e a maioria dos passageiros caminhava sem alívio pelos conveses, ele repassava quase de memória os folhetins ilustrados debaixo do lampião de gás do refeitório, que era a única luz acesa até o amanhecer,    e os dramas tantas vezes relidos recobravam a magia original quando substituía os protagonistas imaginários por conhecidos seus da vida real, e reservava para ele mesmo e para Fermina Daza os papéis de amores impossíveis. Outras noites lhe escrevia cartas de angústia, cujos fragmentos espargia em seguida nas águas que corriam sem cessar para ela. E assim passava as horas mais duras, encarnado às vezes num príncipe tímido ou num paladino do amor, e por outras vezes na sua própria pele escaldada de amante esquecido, até que se levantavam as primeiras brisas e ele se punha a dormitar sentado nas poltronas da amurada.
Certa noite em que interrompeu a leitura mais cedo que de costume, dirigia-se distraído para as privadas quando uma porta se abriu ao passar ele pelo refeitório deserto, e uma mão de falcão o agarrou pela manga da camisa e o fechou num camarote. Mal chegou a sentir o corpo sem idade de uma mulher nua nas trevas, empapada em suor quente e com a respiração ofegante, que o empurrou de barriga para cima no beliche, lhe abriu a fivela do cinturão, soltou os botões e se desmembrou toda, acavalada em cima dele, e o despojou sem glória da virgindade. Ambos rolaram agonizantes no vazio de um abismo sem fundo que cheirava como um alagado de camarões. Ela se deixou ficar em seguida jazendo sobre ele, resfolegando sem ar, e deixou de existir na escuridão.
— Agora, vá embora e esqueça — disse. — Isto não sucedeu nunca.
O ataque tinha sido tão rápido  e triunfante que  não se podia explicá-lo como  uma loucura súbita do tédio, e sim como fruto de um plano elaborado com todo o vagar e até nos seus pormenores minuciosos. Esta certeza esmagadora aumentou a ansiedade  de  Florentino  Ariza, que  no  auge  do  gozo  tinha tido  uma revelação na


qual não podia acreditar, que se negava mesmo a admitir, e era que o amor ilusório de Fermina Daza podia ser substituído por uma paixão terrena. Por isso se empenhou em descobrir a identidade da violadora mestra em cujo instinto de pantera encontraria talvez o remédio para sua desventura. Mas não conseguiu. Ao contrário, quanto mais aprofundava a pesquisa mais longe se sentia da verdade.
O ataque tinha sido no último camarote, mas este se comunicava com o penúltimo por uma porta intermediaria, de maneira que os dois se convertiam num dormitório familiar com quatro beliches. Ali viajavam duas mulheres jovens, outra bastante mais velha mas muito atraente à vista, e uma criança de poucos meses. Haviam embarcado em Barranco de Loba, o porto onde se recolhia a carga e os passageiros da cidade de Mompox desde que esta ficou à margem dos itinerários de vapores devido às veleidades do rio, e Florentino Ariza tinha reparado nelas porque traziam o menino adormecido dentro de uma grande gaiola de pássaros.
Viajavam vestidas como nos transatlânticos da moda, com armação debaixo das saias de seda, golas de renda e chapéus de abas grandes enfeitadas com flores de crinolina, e as duas mais moças mudavam o traje completo várias vezes por dia, de modo que pareciam carregar em si mesmas sua própria atmosfera primaveril, enquanto os demais passageiros sufocavam de calor. As três eram destras no manejo das sombrinhas e dos leques de plumas, mas com os propósitos indecifráveis das moças de Mompox da época. Florentino Ariza não conseguiu  sequer precisar a relação entre elas, embora fossem sem dúvida da mesma família.  A princípio achou que a mais velha podia ser mãe das outras, mas  logo  percebeu que não tinha idade para tanto, e além disso guardava um meio luto que as outras não compartilhavam. Não concebia que uma delas tivesse feito o que fez enquanto  as outras dormiam nos beliches contíguos, e a única suposição razoável era de que aproveitara um momento casual, ou talvez combinado, em que ficara sozinha no camarote. Comprovou que às vezes saíam duas a tomar a fresca até muito tarde enquanto a terceira ficava cuidando da criança, mas certa noite de mais calor saíram as três juntas com o menino adormecido na gaiola de vime coberta com um toldo de gaze.
Apesar daquele emaranhado de indícios, Florentino Ariza se apressou em descartar a possibilidade de que a mais velha das três fosse a autora do ataque, e depois absolveu também a mais moça, que era a mais bela e atrevida. Chegou a isso sem razões válidas, porque a vigilância ansiosa que exercia sobre as três o  induzira a transformar em certeza seu arraigado desejo de que a  amante  instantânea fosse a mãe do menino engaiolado. Tanto o seduziu essa suposição que começou a pensar nela com mais intensidade do que em Fermina Daza, sem fazer caso da evidência de que aquela mãe recente vivia para a criança. Não tinha mais de vinte e cinco anos, e era esbelta e dourada, com umas pálpebras portuguesas que  a tornavam mais distante, e a qualquer homem teriam bastado as meras migalhas   da ternura com que cumulava o filho. Do café da manhã à hora de ir deitar se ocupava  dele  no  salão,  enquanto  as  outras  jogavam  xadrez  chinês,  e       quando


conseguia fazê-lo dormir pendurava do teto a gaiola de vime no lado mais fresco do convés. Mas nem quando estava dormindo se descuidava dele, pois balançava então a gaiola cantando entre dentes canções de noiva, enquanto seus pensamentos voavam por cima das privações da viagem. Florentino Ariza se aferrou à ilusão de quem mais cedo ou mais tarde se denunciaria, por um único gesto que  fosse.  Vigiava até a mudança de sua respiração no ritmo do relicário que trazia pendente sobre a blusa de batista, olhando-a sem dissimulação por cima do  livro que fingia  ler, e cometeu a impertinência calculada de trocar de lugar no refeitório para se sentar diante dela. Mas não obteve o mínimo indício de que ela fosse na realidade a depositária da outra metade do seu segredo.
A única coisa que guardou dela, porque sua companheira mais moça a chamou, foi o nome sem sobrenome: Rosalba.
No oitavo dia o navio navegou a duras penas por um turbulento estreito murado entre alcantis de mármore, e depois do almoço atracou em Porto Nare. Ali ficavam  os passageiros que seguiriam viagem para o interior da província de Antioquia, uma das mais afetadas pela nova guerra civil. O porto era formado por meia dúzia de choças de palmas e um botequim de madeira com teto de zinco, e estava protegido por várias patrulhas de soldados descalços e mal armados, porque havia notícias de um plano dos insurretos para saquear os navios. Por trás das casas subia até o céu um promontório de montanhas agrestes com uma cornija de ferradura talhada à beira do precipício. Ninguém a bordo dormiu tranqüilo, mas não houve assalto durante a noite e o porto amanheceu transformado em feira dominical, com índios que vendiam amuletos de marfim vegetal e beberagens de amor, no meio das recuas de mulas preparadas para a ascensão de seis dias até as selvas de orquídeas da cordilheira central.
Florentino Ariza se havia entretido vendo a descarga do navio a lombo de negro, vira baixar os engradados de porcelana, os pianos de cauda para as solteiras de Envigado, e reparou tarde demais que entre os passageiros que ficavam estava o grupo de Rosalba. Viu-as quando já iam montadas à amazona, com botas de mulher e sombrinhas de  cores equatoriais, e então deu o passo que não se atrevera a dar  nos dias anteriores: fez a Rosalba um gesto de adeus com a mão, e as três lhe responderam do mesmo modo, com uma familiaridade que lhe doeu nas entranhas por sua audácia tardia. Viu-as dar a volta por trás do  botequim,  seguidas  pelas mulas carregadas com os baús, as caixas de chapéu e a gaiola da criança, e pouco depois viu-as subindo feito uma fila de formigas carregadeiras à beira do abismo, e desapareceram da sua vida. Então se sentiu só no mundo, e a lembrança de Fermina Daza, que ficara na tocaia durante os últimos dias, lhe desferiu a patada  mortal.
Sabia que ela se casava no sábado seguinte, em bodas de estrondo, e o ser que mais a amava e havia de amá-la por todo o sempre não teria sequer o direito de morrer por ela. Os ciúmes, até agora afogados em pranto, tornaram-se donos de sua alma. Rogava  a  Deus  que  a  centelha da  justiça  divina  fulminasse  Fermina  Daza


quando se dispusesse a jurar amor e obediência a um homem que a queria para esposa como um enfeite social, e se extasiava na visão da noiva, ou sua ou de ninguém, estendida de costas sobre as lousas da catedral, a flor de laranjeira nevada pelo orvalho da morte, e a cascata de espuma do véu sobre os mármores fúnebres   de quatorze bispos sepultados diante do altar-mor. No entanto, uma vez consumada a vingança, arrependia-se da própria malvadez, e então via Fermina Daza levantando-se com seu alento de sempre, alheia mas viva, pois não conseguia imaginar o mundo sem ela. Não dormiu mais, e se às vezes se sentava para beliscar alguma coisa era para criar a ilusão de que Fermina Daza estivesse à mesa, ou ao contrário, para lhe recusar a homenagem de estar jejuando por causa dela. Às vezes se consolava com a certeza de que na embriaguez da festa de bodas, e até nas noites febris da lua-de-mel, Fermina Daza havia de padecer um instante, um ao menos, mas um de  todas as maneiras, em que se ergueria em sua consciência o fantasma   do noivo burlado, humilhado, cuspido, o que a faria perder a felicidade.
Na véspera da chegada ao porto de Caracolí, que era o ponto final da viagem, o capitão ofereceu a festa tradicional de despedida, com uma orquestra de sopro formada pelos membros da tripulação, e fogos de artifício coloridos espocando da cabine de comando. O ministro da Grã-Bretanha sobrevivera à odisséia com um estoicismo exemplar, caçando com a câmara fotográfica os animais que não lhe permitiam matar a fuzil, e não houve noite em que não viesse jantar vestido a rigor. Mas na festa final apareceu com o traje escocês do clã MacTavish, e tocou a gaita à vontade e ensinou quem se interessou a dançar suas danças nacionais, e antes de raiar o dia tiveram, que levá-lo quase arrastado para o camarote. Florentino Ariza, prostrado de dor, tinha ido para o canto mais afastado da coberta, onde não chegavam nem notícias da pândega, e enrolou-se no capote de Lotário Thugut tratando de resistir ao calafrio dos ossos. Despertara às cinco da manhã, como desperta o condenado à morte na madrugada da execução, e em todo o sábado nada fizera além de imaginar minuto a minuto cada uma das fases das núpcias de Fermina Daza. Mais tarde, quando regressou a casa, descobriu que havia  embrulhado as datas e que tudo tinha sido diferente de como imaginara, e teve até o bom senso de rir da própria fantasia.
Seja como for, viveu um sábado de paixão que culminou com uma nova crise de febre, quando lhe pareceu que era o momento em que os recém-casados fugiam em segredo por uma porta falsa para se entregarem às delícias da primeira noite.  Alguém que o viu tiritando de febre avisou o capitão, e este abandonou a festa com    o médico de bordo temendo que fosse um caso de  cólera, e o médico o despachou  por precaução para o camarote de quarentena com uma boa carga de brometos. No dia seguinte, porém, quando avistaram as escarpas de Caracolí, a febre desaparecera e tinha o ânimo exaltado, porque no marasmo dos sedativos resolvera de uma vez  por todas e sem mais aquela que mandava ao caralho o radiante futuro do telégrafo  e regressava no mesmo navio à sua velha Rua das Janelas.
Não  foi difícil fazer com  que  o levassem de  regresso em troca do  camarote  que


havia cedido ao representante da rainha Vitória. O capitão também procurou dissuadi-lo com o argumento de que o telégrafo era a ciência do futuro. Tanto era assim, lhe disse, que já se inventava um sistema para instalá-lo nos navios. Mas ele resistiu a todo argumento, o capitão acabou por levá-lo de volta, não pela dívida do camarote, e sim porque conhecia seus vínculos reais com a Companhia Fluvial do Caribe.
A viagem de descida se fez em menos de seis dias, e Florentino Ariza se sentiu de novo em casa logo que entraram de madrugada na laguna de Mercedes, e viu a esteira de luzes das canoas pesqueiras ondulando na marola do navio. Era noite ainda quando atracaram na enseada do Menino Perdido, que era o último porto dos vapores fluviais, a nove léguas da baía, antes de dragarem e botarem em condições a antiga passagem dos espanhóis. Os passageiros tinham que esperar até as seis da manhã para abordar a flotilha de chalupas de aluguel que os levariam até seu  destino final. Mas Florentino Ariza estava tão aflito que saiu muito  antes  na  chalupa do correio, cujos empregados o reconheciam como um dos seus. Antes de abandonar o navio cedeu à tentação de um ato simbólico: atirou n'água o petate, e o acompanhou com a vista em meio às tochas dos pescadores invisíveis, até que saiu da laguna e desapareceu no oceano. Tinha certeza de que não precisaria mais dele pelo resto dos seus dias. Nunca mais, porque nunca mais havia de abandonar a cidade de Fermina Daza.
A baía era um remanso ao amanhecer. Por cima da névoa flutuante, Florentino Ariza viu a cúpula da catedral dourada pelas primeiras luzes, viu os pombais nos eirados, e guiando-se por eles localizou o balcão do palácio do Marquês de Casalduero, onde supunha que a mulher da sua desventura dormitava  apoiada  ainda no ombro do esposo saciado. Essa visão o dilacerou, mas não fez nada para reprimi-la, pelo contrário: desfrutou sua dor. O sol começava a esquentar quando a chalupa do correio abriu caminho pelo labirinto de veleiros ancorados, onde os cheiros incontáveis do mercado público, remexidos com a podridão do fundo, se confundiam numa pestilência. A goleta de Riohacha acabava de chegar, e os grupos de estivadores com água pela cintura recebiam os passageiros na amurada e os carregavam até a margem. Florentino Ariza foi o primeiro a tocar terra saltando  da chalupa do correio, e a partir de então não sentiu mais o fedor da  baía mas  apenas o cheiro pessoal de Fermina Daza no recinto da cidade. Tudo cheirava a  ela.
Não voltou à agência do telégrafo. Sua preocupação única eram os folhetins de amor e os volumes da Biblioteca Popular que a mãe continuava a comprar para ele,   e que ele lia e tornava a ler enterrado numa rede até decorá-los. Sequer perguntou onde estava o violino. Reatou os contatos com seus amigos mais  próximos, e  às vezes jogavam bilhar ou conversavam nos cafés ao ar livre debaixo dos arcos da Praça da Catedral, mas não voltou aos bailes dos sábados: não podia concebê-los  sem ela.
Na mesma manhã em que voltou    da viagem inacabada soube que Fermina Daza


estava passando a lua-de-mel na Europa, e seu coração atordoado aceitou como fato que ela passaria a morar lá, se não para sempre ao menos por muitos anos. Esta certeza lhe trouxe as primeiras esperanças de esquecimento. Pensava em Rosalba, cuja lembrança se fazia mais ardente à medida que se apaziguavam  as  outras. Foi por essa época que deixou crescer o bigode de guias engomadas que não rasparia pelo resto da vida e que mudou seu modo de ser, e a idéia da substituição do amor o enfiou por caminhos imprevistos. O cheiro de Fermina Daza se foi tornando pouco   a pouco menos freqüente e intenso, e por fim ficou apenas nas gardênias brancas.
Andava à deriva, sem saber por onde continuar a vida, certa noite de guerra em que a célebre viúva de Nazaret se refugiou aterrada em sua casa, porque a dela tinha sido destruída por um canhonaço, durante o sítio do general rebelde Ricardo Gaitán Obeso. Foi Trânsito Ariza que pegou a ocasião no vôo e mandou a viúva para o  quarto do filho, a pretexto de que no seu não havia lugar, mas na verdade com a esperança de que outro amor o curasse daquele que não o deixava viver. Florentino Ariza não tinha tornado a fazer amor desde que foi desvirginado por Rosalba no camarote do navio, e lhe pareceu natural, numa noite de emergência, que a viúva dormisse na cama e ele na rede. Mas ela já tinha tomado a decisão por ele. Sentada na beira da cama em que Florentino Ariza estava deitado sem saber o que fazer, começou a falar com ele sobre a dor inconsolável da morte do marido três anos  antes, e enquanto isso ia despindo e jogando pelos ares os crepes da viuvez, até que não guardou mais em si nem o anel de núpcias. Tirou a blusa de tafetá com  bordados de vidrilho e a jogou através do quarto na poltrona do canto, atirou o corpinho por cima do ombro para o outro lado da cama, arrancou com um puxão  a saia talar de babados, as tiras de cetim das ligas e as fúnebres meias de seda, e espalhou tudo pelo chão, até atapetar o quarto com os últimos farrapos do seu luto. Fez tudo com tanto alvoroço, e com umas pausas tão bem medidas, que cada gesto seu parecia celebrado pelos canhonaços das tropas de assalto, que abalavam  a  cidade até os alicerces. Florentino Ariza procurou ajudá-la com o fecho do porta- seios, mas ela se antecipou com uma manobra destra, pois em cinco anos de devoção matrimonial aprendera a se bastar a si mesma em todos os trâmites do amor, inclusive seus preâmbulos, sem ajuda de ninguém. Por fim  tirou  os  calções de renda, fazendo-os resvalar pernas abaixo com um movimento rápido de nadadora, e ficou em carne viva.
Tinha vinte e oito anos e parira três vezes, mas sua nudez conservava intacta a vertigem de solteira. Florentino Ariza jamais compreenderia como umas roupas de penitente tinham podido dissimular os ímpetos daquela potranca xucra que o desnudou sufocada pela própria febre, como não podia fazer com o esposo para que não a considerasse uma corrompida, e que tratou de saciar num assalto a abstinência férrea do luto, com o estouvamento e a inocência de cinco anos de fidelidade conjugai. Antes dessa noite, e a partir da hora solene em que a mãe a pariu, jamais estivera sequer na mesma cama com um homem que não fosse o esposo morto.


Não se permitiu o mau gosto de um remorso. Pelo contrário. Mantida em vigília pelas bolas de fogo que passavam zunindo por cima dos telhados, continuou evocando até o amanhecer as excelências do marido, lhe censurando  a deslealdade de haver morrido sem ela, e redimida pela certeza de  que  ele jamais  fora tão seu quanto agora, dentro de um caixão cravado com doze cravos de três polegadas, e a dois metros debaixo da terra.
— Sou feliz — disse — porque agora sei com certeza onde está quando  não  está em casa.
Aquela noite tirou o luto, de um golpe, sem passar pelo intervalo ocioso das blusas de florinhas cinzentas, e sua vida se encheu de canções de amor e trajes provocantes com araras e borboletas pintadas, e começou a repartir o corpo com todos aqueles que o pedissem. Derrotadas as tropas do general Gaitán Obeso, ao cabo de sessenta e três dias de sítio, reconstruiu a casa arrasada pelo canhoneio, e lhe pôs um formoso terraço marinho por cima dos cais, martelados em tempo de borrasca pela fúria assanhada da ressaca. Esse foi seu ninho de amor, como o chamava sem ironia, onde recebeu quem lhe agradou, quando quis e como quis,   e sem cobrar de ninguém um só vintém, por achar que eram os homens que lhe faziam o favor. Em casos muito especiais aceitava um presente, desde que não fosse de ouro, e era tão hábil em seus manejos que ninguém teria podido apresentar uma prova concludente de sua conduta imprópria. Só numa ocasião esteve à beira do escândalo público, quando correu o boato de que o arcebispo Dante de Luna não morrera por acidente ao comer um prato de cogumelos equivocado, mas que os comera de propósito, porque ela o ameaçara de se degolar se ele insistisse em seus assédios sacrílegos. Ninguém lhe perguntou se era verdade, nem lhe falou nisso, nem isso mudou nada em sua vida. Era, como dizia ela própria morrendo de rir, a única mulher livre da província.
A viúva de Nazaret nunca faltou aos encontros ocasionais com Florentino Ariza, nem nos seus tempos mais atarefados, e nunca teve pretensões a amar e ser amada, embora sempre nutrisse a esperança de encontrar algo que fosse como o amor, mas sem os problemas do amor. Algumas vezes era ele quem ia à sua casa, e então gostavam de se empapar de espuma de salitre no terraço do mar, contemplando o amanhecer do mundo inteiro no horizonte. Ele se empenhou a fundo em ensinar a ela todas as safadezas que tinha visto outros fazerem pelos buracos nas paredes do hotel suspeito, assim como as fórmulas teóricas apregoadas por Lotário Thugut em suas noites de farra. Incitou-a a se deixar ver enquanto faziam o amor, a trocar a posição convencional do missionário pela da bicicleta de mar, ou do frango assado, ou do anjo esquartejado, e estiveram a pique de acabar com a vida ao se arrebentarem os punhos quando procuravam inventar algo diferente numa rede. Foram lições estéreis. Pois a verdade é que ela era uma aprendiz temerária, mas carecia do talento mínimo para a fornicação dirigida. Nunca entendeu  os  encantos da serenidade na cama, nem teve um instante de inspiração, e seus orgasmos eram inoportunos e epidérmicos: uma trepada triste. Florentino Ariza viveu muito  tempo


na ilusão de ser o único, e ela lhe dava o gosto de acreditar nisso, até que teve a sorte de falar dormindo. Pouco a pouco, ouvindo-a dormir, ele foi recompondo aos pedaços a carta de navegação dos seus sonhos, e se meteu por entre as ilhas numerosas de sua vida secreta. Assim ficou informado de que ela não pretendia se casar com ele, mas se sentia ligada à sua vida pela gratidão imensa que lhe devia por tê-la pervertido. Muitas vezes disse a ele:
Adoro você porque você me tornou puta.
Dito de outra maneira, não lhe faltava razão. Florentino Ariza a despojara da virgindade de um casamento convencional, mais perniciosa do que a virgindade congênita e a abstinência da viuvez. Ele lhe ensinara que nada do que se faça na cama é imoral se contribui para perpetuar o amor. E algo que havia de ser desde então a razão de sua vida: convenceu-a de que a gente vem ao mundo com as trepadas contadas, e as que não se usam por qualquer motivo, próprio ou alheio, voluntário ou forçado, se perdem para sempre. O mérito dela foi tomá-lo ao pé da letra. Contudo, porque acreditava conhecê-la melhor do que ninguém, Florentino Ariza não compreendia por que era tão solicitada uma mulher de recursos  tão pueris, que além disso não parava de  falar na cama das  saudades do esposo morto.  A única explicação que lhe ocorreu, e que ninguém pôde desmentir, foi que à viúva  de Nazaret sobrava em ternura o que faltava em artes marciais. Começaram a se ver com menos freqüência à medida que ela alargava seus domínios, e à medida que ele explorava os seus tratando de encontrar alívio para seus velhos padecimentos em outros corações desarvorados, e por fim se esqueceram sem dor.
Foi o primeiro amor de cama de Florentino Ariza. Mas em lugar de fazer com ela uma união estável, como sonhava sua mãe, aproveitavam-no ambos para se lançarem à vida. Florentino Ariza desenvolveu métodos que pareciam inverossímeis num homem como ele, taciturno e macilento, e além disso vestido feito um ancião  de tempos idos. Não obstante, tinha duas vantagens a seu favor. Uma era um olho certeiro para identificar de imediato a mulher que o esperava, ainda que no meio de uma multidão, e mesmo assim a cortejava com cautela, pois sabia que nada causava mais vergonha nem era mais humilhante do que uma negativa. A outra vantagem é que elas o identificavam de imediato como um solitário carente de amor, um indigente das ruas com uma humildade de cão batido que as submetia sem condições, sem pedir nada, sem nada esperar dele, exceto a tranqüilidade de consciência de lhe haverem feito um favor. Eram suas únicas armas, e com elas travou batalhas históricas mas em segredo absoluto, que foi registrando com um rigor de notário num caderno cifrado, colocado entre muitos outros com um título que dizia tudo: Elas. A primeira anotação foi feita com a viúva de Nazaret.  Cinqüenta anos mais tarde, quando Fermina Daza ficou livre de sua sentença sacramentai, tinha uns vinte e cinco cadernos com seiscentos e vinte  e  dois  registros de amores continuados, à parte as aventuras fugazes que não mereceram uma nota de caridade que fosse.


O próprio Florentino Ariza estava convencido, ao fim de seis meses de amores descomedidos com a viúva de Nazaret, de que conseguira sobreviver ao tormento de Fermina Daza. Não acreditou como comentou várias vezes o fato com Trânsito Ariza durante os quase dois anos que durou a viagem de núpcias, e continuou acreditando com uma sensação de libertação sem fronteiras até o domingo de sua  má estrela em que a viu de chofre sem qualquer aviso do coração, quando saía da missa solene pelo braço do marido e assediada pela curiosidade e as lisonjas do seu novo mundo. As mesmas damas de alta linhagem que no  princípio  a menosprezavam e zombavam dela por ser uma adventícia sem nome se esmeravam para que ela se sentisse uma delas, enquanto se embriagavam com seu encanto.* Assumira com tanta naturalidade sua condição de esposa mundana que Florentino Ariza precisou de um instante de reflexão para reconhecê-la. Era outra: a compostura de pessoa adulta, os botins altos, o chapéu de velilho com a pena colorida de algum pássaro oriental, tudo nela era correto e fácil, como  se  tudo tivesse sido seu desde sua origem. Achou-a mais bela e viçosa do que nunca, mas irrecuperável, como nunca, embora não tenha compreendido a razão até notar a curva do seu ventre debaixo da túnica de seda: estava grávida de seis meses. Entretanto, o que mais o impressionou foi que ela e o marido formavam um par admirável, e ambos manejavam o mundo cora tanta fluidez que pareciam flutuar acima dos escolhos da realidade. Florentino Ariza não sentiu ciúme nem  raiva, e  sim um grande desprezo por si mesmo. Sentiu-se pobre, feio, inferior, e não indigno dela como de qualquer outra mulher sobre a terra.
Lá estava ela de volta. Regressava sem nenhum motivo para se arrepender da guinada que tinha dado era sua vida. Pelo contrário: cada vez teve menos, sobretudo depois de sobreviver aos íngremes primeiros anos. Mais meritório ainda no caso dela, que chegara à noite de núpcias ainda nas brumas da inocência. Tinha começado a perdê-la no curso de sua viagem pela província da prima Hildebranda. Em Valledupar compreendeu enfim por que os gaios corriam atrás das galinhas, presenciou a cerimônia brutal dos burros, viu nascerem os bezerros, e ouviu as primas dizerem com naturalidade quais os casais da família que  continuavam  a fazer amor, e quais e quando e por que tinham deixado de fazê-lo embora continuassem morando juntos. Foi então que se iniciou nos amores solitários, com   a rara sensação de estar descobrindo algo que seus instintos tinham sempre sabido, primeiro na cama, com a respiração amordaçada para não se delatar no quarto compartilhado com meia dúzia de primas, e depois a duas mãos, largada à vontade no chão do banheiro, com o cabelo solto e fumando seus primeiros cigarros de tropeiro. Sempre o fez com umas dúvidas de consciência que conseguiu superar depois de casada, e sempre num segredo absoluto, enquanto as primas alardeavam entre si não a quantidade de vezes num dia, como inclusive a forma e o tamanho dos orgasmos. No entanto, apesar da bruxaria daqueles ritos iniciais, continuou carregando a convicção de que a perda da virgindade era um sacrifício sangrento.
De  maneira  que  sua festa de  bodas, uma das  mais  ruidosas  de  fins  do  século


passado, transcorreu para ela nas vésperas do horror. A angústia da lua-de-mel afetou-a muito mais do que o escândalo social do seu casamento com um galã como não havia dois naqueles anos. Logo que começaram a correr os proclamas na missa solene da catedral, Fermina Daza voltou a receber cartas anônimas, algumas com ameaças de morte, mas mal passava os olhos nelas, pois todo o medo de que era capaz estava ocupado pela iminência da violação. Era o modo correto de tratar os missivistas anônimos, embora ela não o fizesse de propósito, numa classe acostumada, pelas reviravoltas históricas, a curvar a cabeça diante dos fatos consumados. Por isso tudo quanto lhe era contrário ia ficando a seu favor à medida que a boda se tornava irrevogável. Ela notava isso nas mudanças graduais do cortejo de mulheres lívidas. degradadas pelo artritismo e os ressentimentos, que um dia se convenciam de que eram vãs suas intrigas e apareciam sem se anunciar na pracinha dos Evangelhos como se estivessem em casa, carregadas de receitas de cozinha e de presentes augurais. Trânsito Ariza conhecia aquele mundo, embora dessa vez o sofresse na própria carne, e sabia que suas clientes apareciam na véspera das festas grandes pedindo-lhe o favor de desenterrar as botijas e emprestar as jóias empenhadas, por vinte e quatro horas, mediante o pagamento de um juro adicional. muito tempo não acontecia como dessa vez, quando as botijas ficaram vazias para que as senhoras de extensos sobrenomes  abandonassem  seus  santuários de sombras para aparecerem radiantes, com suas próprias jóias tomadas de empréstimo, numa boda como não se viu outra de tanto esplendor no resto do século, e cuja glória final foi a de ostentar como padrinho o doutor Rafael  Núfiez, três vezes presidente da república, filósofo, poeta e autor da letra do Hino Nacional, como se podia ver desde então em alguns dicionários recentes. Fermina  Daza  chegou ao altar-mor da catedral pelo braço do pai, a quem o traje de cerimônia conferiu por um dia um ar equívoco de respeitabilidade. Casou-se para sempre perante o altar-mor da catedral  numa missa concelebrada por três  bispos, às  onze da manhã da sexta-feira de glória da Santíssima Trindade, e sem um pensamento de caridade para Florentino Ariza, que a essa hora delirava de febre, morrendo por ela,  à intempérie num navio que não havia de levá-lo ao esquecimento. Durante a cerimônia, e depois na festa, manteve um sorriso que parecia fixado com alvaiade, uma expressão sem alma que alguns interpretaram como o sorriso de zombaria da vitória, mas que na realidade era um pobre recurso para dissimular seu terror de virgem recém-casada.
Por sorte, as circunstâncias imprevistas, junto com a compreensão do marido, resolveram suas três primeiras noites sem dor. Foi providencial. O navio da Compagnie Générale Transatlantique, com o itinerário transtornado pelo mau tempo do Caribe, anunciou com apenas três dias de antecipação que avançava a partida vinte e quatro horas, de modo que não zarparia para La Rochelle no dia seguinte à boda, como estava previsto seis meses, e sim na mesma noite. Ninguém acreditou que aquela alteração não fosse mais uma das tantas surpresas elegantes   da   boda,   pois   a   festa   acabou   depois   da  meia-noite   a   bordo     do


transatlântico iluminado, com uma orquestra de Vieña que estreava naquela viagem as valsas mais recentes de Johann Strauss. De modo que os vários padrinhos ensopados de champanha foram arrastados para terra pelas esposas atribuladas, quando já andavam perguntando aos camareiros se não haveria camarotes disponíveis para que continuasse o pagode até Paris. Os últimos a desembarcar viram Lorenzo Daza diante das tavernas do porto, sentado no chão em plena rua e com a roupa de cerimônia em farrapos. Chorava à goela solta, como choram  os árabes seus mortos, sentado num fio de águas podres que bem podia ter sido um charco de lágrimas.
Nem na primeira noite de mar ruim, nem nas seguintes de navegação aprazível, nem nunca em sua mui longa vida matrimonial aconteceram os atos de  barbárie  que temia Fermina Daza. A primeira, apesar do tamanho do navio e dos luxos do camarote, foi uma repetição horrível da goleta de Riohacha, e o marido foi um médico serviçal que não dormiu um instante para confortá-la, que era a única coisa que um médico demasiado eminente sabia fazer contra o enjôo. Mas a borrasca amainou no terceiro dia, passado o porto da Güayra, e então já  tinham  estado juntos tanto tempo e conversado tanto que se sentiam amigos antigos. A quarta noite, quando ambos retomaram a vida habitual, o doutor Juvenal Urbino se surpreendeu com o fato de sua jovem esposa não rezar antes de dormir. Ela foi sincera: a duplicidade das freiras provocara nela uma resistência aos ritos, mas sua  estava intacta, e aprendera a mantê-la em silêncio. Disse: "Prefiro me entender direto com Deus." Ele compreendeu suas razões, e desde então cada um praticou à sua maneira a mesma religião. Tinham tido um noivado breve, mas bastante informal para a época, pois o doutor Urbino a visitava em sua casa, sem vigilância, todos os dias ao entardecer. Ela não teria permitido que ele lhe tocasse nem na  ponta dos dedos antes da bênção episcopal, mas tampouco ele tentara. Foi na primeira noite de bom mar, já na cama mas ainda vestidos, que ele iniciou as primeiras carícias, e o fez com tanto cuidado que a ela pareceu natural a sugestão de que vestisse a camisola. Foi trocar de roupa no banheiro, mas antes apagou as luzes do camarote, e quando saiu com o camisolão calafetou com panos as  fendas  da porta, para deixar a cama em escuridão absoluta. Enquanto agia, falou de bom humor:
— O que é que você quer, doutor? É a primeira vez que durmo com um desconhecido.
O doutor Juvenal Urbino sentiu que se esgueirava junto a ele feito um bichinho assustado, procurando se manter o mais longe possível num leito onde era difícil estarem dois sem se tocar. Tomou-lhe a mão, fria e crispada de terror, entrelaçou seus dedos nos dela, e quase num sussurro começou a contar suas lembranças de outras viagens por mar. Ela estava tensa outra vez, porque ao voltar à cama  percebeu que ele se desnudara por completo enquanto ela estava no banheiro, o que fez renascer seu terror do passo seguinte. Mas o passo seguinte demorou várias horas,  pois   o   doutor   Urbino   continuou   falando   muito   devagar,  enquanto  se


apoderava milímetro a milímetro da confiança de seu corpo. Falou-lhe de Paris, do amor em Paris, dos namorados de Paris que se beijavam na rua, no ônibus, nos terraços floridos dos cafés abertos ao hálito de fogo e aos acordeões lânguidos do verão, e faziam o amor de pé nos cais do Sena sem que ninguém os incomodasse. Enquanto falava nas sombras, acariciou-lhe a curva do pescoço com a ponta dos dedos, lhe acariciou a penugem de seda dos braços, o ventre evasivo, e  quando  sentiu que a tensão cedera, fez uma primeira tentativa de lhe levantar a camisola, mas ela o deteve com um impulso típico do seu caráter. Disse: "Sei fazer isso sozinha." Tirou-a, de fato, e depois ficou tão imóvel que o doutor Urbino poderia pensar que já não estava ali, não fosse o calor de sol do seu corpo nas  trevas.
Ao fim de um momento tornou a lhe agarrar a mão, e então sentiu-a quente e solta, embora úmida ainda de um orvalho suave. Ficaram outro momento silenciosos e imóveis, ele aguardando a ocasião para o passo seguinte, ela a esperá-  lo sem saber por onde, enquanto a escuridão se ampliava com sua respiração cada vez mais intensa. Ele a soltou de repente e deu o salto  no  vácuo: umedeceu  na língua a ponta do dedo médio e lhe tocou apenas no bico desprevenido do seio, e ela sentiu uma descarga de morte, como se tocada num nervo vivo. Alegrou-se de estar às escuras para que ele não visse o rubor esbraseado que lhe fez tremer até as raízes do crânio. "Calma", disse ele, muito calmo. "Não esqueça que os conheço." Sentiu que ela sorria, e sua voz soou doce e nova nas trevas.
   Lembro muito bem — disse — e ainda não passou minha raiva.
Então ele soube que tinham passado o cabo da boa esperança, e tornou a pegar- lhe na mão grande e macia, e cobriu-a de beijinhos órfãos, primeiro o metacarpo áspero, os grandes dedos clarividentes, as unhas diáfanas, e depois o hieróglifo do seu destino na palma suada. Ela não soube como foi que sua mão chegou até o peito dele, e esbarrou em algo que não soube adivinhar o que fosse. Ele disse: "É um escapulário." Ela lhe acariciou os pêlos do peito, e depois agarrou o matagal completo com os cinco dedos para arrancá-lo pela raiz. "Mais forte", disse ele. Ela tentou, até o ponto em que sabia que não ia machucá-lo, e depois foi sua mão que buscou a dele perdida nas trevas. Mas ele não deixou que os dedos de novo se entrelaçassem, agarrando-lhe o pulso e conduzindo a mão dela ao longo do próprio corpo com uma força invisível mas muito bem dirigida, até que ela sentiu o sopro ardente de um animal em carne viva, sem forma corporal, mas ansioso e arvorado. Ao contrário do que ele imaginou, mesmo ao contrário do que ela própria teria imaginado, não retirou a mão, nem a deixou inerte onde ele a pôs, mas, encomendando-se de corpo e alma à Santíssima Virgem, cerrou os  dentes  com  medo de rir da própria loucura, e começou a identificar pelo tato o inimigo empinado, tomando conhecimento do seu tamanho, a força do seu talo, a extensão de suas asas, assustada com sua determinação mas compadecida de sua solidão, tornando-o seu com uma curiosidade minuciosa que alguém menos experiente que seu esposo teria confundido com carícias. Ele fez apelo às suas últimas forças para resistir à vertigem do escrutínio mortal, até que ela o largou com uma graça  infantil,


como se o tivesse jogado no lixo.
   Nunca pude entender como é esse aparelho — disse.
Então ele o explicou a sério com seu método magistral, enquanto lhe carregava a mão pelos lugares que mencionava, e ela a deixava entregue com uma obediência de aluna exemplar. Ele sugeriu num momento propício que tudo aquilo era mais fácil com a luz acesa. Ia acendê-la, mas ela lhe deteve o braço, dizendo: "Eu vejo melhor com as mãos." Na realidade queria acender a luz, mas queria fazê-lo ela própria  e não recebendo ordens, e assim foi. Ele a viu então em posição fetal, e além do mais coberta com o lençol, sob a claridade repentina. Mas viu-a agarrar outra vez sem afetações o animal da sua curiosidade, virou-o do direito e do avesso, observou-o com um interesse que já começava a parecer mais do que científico, e disse em conclusão: "Para de feio, mais feio que o das mulheres." Ele concordou, e assinalou outros inconvenientes mais graves que a feiúra. Disse: "É como o filho mais velho, que a gente passa a vida trabalhando para ele, sacrificando tudo por ele, e na hora da verdade acaba fazendo o que lhe na veneta." Ela continuou a examiná-lo, perguntando para que servia isso, e para que servia aquilo, e quando se considerou bem informada sopesou-o com ambas as mãos, como para concluir que nem pelo peso valia a pena, e o deixou cair com um muxoxo de  menosprezo.
   Além de tudo, acho que tem muita coisa de sobra —  disse.
Ele ficou perplexo. A proposta original de sua tese de graduação tinha sido essa:   a conveniência de simplificar o organismo humano. Parecia-lhe antiquado, com muitas funções inúteis ou repetidas que foram imprescindíveis para outras idades   do gênero humano, mas não para a nossa. Sim: podia ser mais simples e por isso mesmo menos vulnerável. Concluiu: "É coisa que Deus pode fazer, sem dúvida, mas todas as maneiras seria bom deixá-lo estabelecido em termos teóricos." Ela riu divertida, de um modo tão natural que ele aproveitou a ocasião para abraçá-la e lhe deu o primeiro beijo na boca. Ela correspondeu, e ele continuou a lhe dar beijos muito suaves nas faces, no nariz, nas pálpebras, enquanto deslizava a mão por baixo do lençol, e lhe acariciou o púbis redondo e liso: um púbis de japonesa. Ela não lhe afastou a mão, mas conservou a sua em estado de alerta, caso ele avançasse um  passo mais.
   Não vamos continuar com a aula de medicina —  disse.
   Não — disse ele. — Esta vai ser de amor.
Então, tirou o lençol de cima dela e ela não não se opôs como o atirou para longe do beliche com um golpe rápido dos pés, pois já não agüentava o calor. Mais   do que parecia quando ela estava vestida, seu corpo era ondulante  e  elástico, com um cheiro próprio de animal montes que permitia distingui-la entre todas as mulheres do mundo. Indefesa à plena luz, uma onda de sangue fervente lhe subiu à cara, e a única coisa que lhe ocorreu como disfarce foi se grudar ao pescoço do seu homem, e beijá-lo a fundo, bem forte, até que gastaram no beijo todo o ar de respirar.


Ele tinha consciência de que não a amava. Casara-se porque gostava da sua altivez, sua seriedade, sua força e também por um tico de vaidade, mas enquanto ela o beijava pela primeira vez teve a certeza de  que  não haveria nenhum obstáculo  para inventar um bom amor. Não falaram a respeito nessa primeira noite em que falaram de tudo até o amanhecer, nem falariam nunca. Mas de um modo geral, nenhum dos dois se equivocou.
Ao despontar do dia, quando adormeceram, ela continuava virgem, mas não o seria por muito tempo. A noite seguinte, com efeito, depois que ele lhe ensinou a dançar as valsas de Vieña debaixo do céu sideral do Caribe, ele teve que ir ao banheiro depois dela, e quando voltou ao camarote encontrou-a esperando por ele nua na cama. Então foi ela quem tomou a iniciativa, e se entregou sem medo, sem dor, com a alegria de uma aventura de alto mar, e sem vestígios de cerimônia sangrenta além da rosa da honra no lençol. Ambos o fizeram bem, quase como um milagre, e continuaram a fazê-lo bem de  noite e de  dia e cada vez melhor no resto   da viagem, e quando chegaram a La Rochelle se entendiam como amantes  antigos.
Permaneceram dezesseis meses na Europa, com base em Paris, e  fazendo viagens curtas pelos países vizinhos. Durante esse tempo fizeram amor todos  os  dias, e mais de uma vez nos domingos de inverno, quando ficavam até a hora do almoço preguiçando na cama. Ele era homem de bons ímpetos, além de bem treinado, e ela não fora feita para aceitar vantagem de ninguém, de maneira que tiveram que se conformar com o poder compartilhado na cama. Depois  de  três meses de amores febris ele compreendeu que um dos dois era estéril, e ambos se submeteram a exames severos no Hospital de La Salpêtrière, onde ele fora interno. Foi uma diligência árdua mas infrutífera. Contudo, quando menos o esperavam, e sem nenhuma mediação científica, aconteceu o milagre. Em fins do ano seguinte, quando voltaram a casa, Fermina estava grávida de seis meses, e se julgava a  mulher mais feliz da terra. O filho tão desejado por ambos, que nasceu sem novidades sob o signo de Aquário, foi batizado em homenagem ao avô morto de cólera.
Era impossível saber se foi a Europa ou o amor que os tornou diferentes, pois as duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Ambos estavam mudados, e  a fundo,  não só em si mesmos como em relação aos demais, como percebeu Florentino Ariza ao vê-los à saída da missa duas semanas depois da volta, naquele domingo da sua desgraça. Voltaram com uma concepção nova da vida, carregados de novidades do mundo, e prontos para mandar. Ele com as primícias da literatura, da música, e sobretudo as de sua ciência. Trouxe uma assinatura de Le Fígaro, para não perder o fio da realidade, e outra da Revue des Deux Mondes para não perder o fio da poesia. Tinha feito além disso um acordo com seu livreiro de Paris para receber as novidades dos escritores mais lidos, entre eles Anatole France e Pierre Loti, e daqueles de que gostava mais, como Remy de Gourmont e Paul Bourget, mas em nenhum caso Émile Zola, que lhe parecia insuportável, apesar de sua valente irrupção  no  julgamento de  Dreyfus. mesmo livreiro  se comprometeu  a mandar


pelo correio as partituras mais sedutoras do catálogo de Ricordi, sobretudo de música de câmara, para manter o título bem ganho por seu pai de primeiro promotor de concertos na cidade.
Fermina Daza, sempre contrária aos rigores da moda, trouxe seis baús com roupas de tempos diversos, pois não a convenceram as grandes marcas.  Tinha  estado nas Tulherias, em pleno inverno, para o lançamento da coleção de Worth, o indiscutível tirano da alta costura, e a única coisa que conseguiu foi uma bronquite que a derrubou por cinco dias na cama. Laferrière lhe pareceu menos pretensioso e voraz, mas sua decisão sábia foi arrebanhar o que mais lhe agradava nas lojas de liquidação, ainda que o esposo jurasse aterrado que eram roupas de defunto. Da mesma forma, trouxe quantidades de sapatos italianos sem marca, que preferiu aos afamados e extravagantes de Ferry, trouxe uma sombrinha de Dupuy,  vermelha como os fogos do inferno, que deu muito que escrever aos nossos assustadiços cronistas sociais. Só comprou um chapéu de Madame Reboux,  mas  em compensação encheu um baú de cachos de cerejas artificiais, ramalhetes de quantas flores de feltro conseguiu encontrar, feixes de penas de avestruz, morriões de pavões, rabos de gaios asiáticos, faisões inteiros, colibris, e uma  variedade incontável de pássaros exóticos dissecados em pleno vôo, em pleno grito, em plena agonia: tudo quanto servira nos últimos vinte anos para que os mesmos chapéus parecessem outros. Trouxe uma coleção de leques de diversos países do mundo, e  um diferente e apropriado para cada ocasião. Trouxe uma essência perturbadora escolhida entre muitas na perfumaria do Bazar de La Charité, antes que os ventos primaveris dispersassem suas cinzas, mas usou-a uma vez só, porque se  desconheceu a si mesma com o perfume trocado. Trouxe também um estojo de cosméticos que era a última novidade no mercado da sedução, e foi a primeira mulher que apareceu com ele nas festas, quando o simples ato de  retocar o rosto  em público era considerado indecente.
Traziam, ademais, três lembranças inesquecíveis: a estréia sem precedentes dos Contos de Hoffmann, em Paris, o incêndio pavoroso de quase todas as gôndolas de Veneza diante da Praça de São Marcos, que haviam presenciado com o coração dolorido da janela de seu hotel, e a visão fugaz de Oscar Wilde na primeira nevada   de janeiro. Mas no meio dessas e de tantas outras lembranças, o doutor Juvenal Urbino conservava uma que sempre lamentou não compartilhar com a esposa, pois vinha de seus tempos de estudante solteiro em Paris. Era a lembrança de Victor Hugo, que desfrutava aqui de uma celebridade comovente a margem de seus livros, porque alguém disse que ele tinha dito, sem que jamais alguém o ouvisse dizer na realidade, que nossa Constituição não era para um país de homens e sim de anjos. Desde então foi-lhe rendido um culto especial, e a maioria dos numerosos compatriotas que viajavam para a França morria de vontade de vê-lo. Uma meia dúzia de estudantes, entre eles Juvenal Urbino, montaram guarda por um tempo diante da sua residência na avenida Eylau, e nos cafés onde se dizia  que  ele  ia chegar sem  falta e  nunca  chegou, e  por último tinham  solicitado  por escrito  uma


audiência privada, em nome dos anjos da Constituição de Rionegro. Nunca receberam resposta. Um dia qualquer, Juvenal Urbino  passou  por acaso  na frente do Jardim do Luxemburgo e o viu sair do Senado com uma mulher moça que lhe dava o braço. Achou-o muito velho, movendo-se a duras penas, com a barba e o cabelo menos radiantes que nos retratos, e dentro de um sobretudo que parecia de alguém mais corpulento. Não quis estragar a lembrança com um cumprimento impertinente: bastava essa visão quase irreal que havia de durar-lhe a vida toda. Quando voltou casado a Paris, em condição de vê-lo de um modo mais  formal,  Victor Hugo já morrera.
Como consolo, Juvenal e Fermina traziam a lembrança compartilhada de uma tarde de neves em que ficaram intrigados pelo grupo que desafiava a tempestade diante de uma pequena livraria do Boulevard des Capucines, e era que Oscar Wilde estava lá dentro. Quando por fim saiu, elegante deveras, mas talvez demasiado consciente disso, o grupo o cercou para pedir autógrafos em seus livros. O doutor Urbino se detivera para vê-lo, mas sua impulsiva esposa quis atravessar  o  bulevar para que ele autografasse a única coisa que  lhe pareceu  apropriada  à falta de um livro: sua formosa luva de gazela, grande, macia, suave, e da mesma cor de sua pele de recém-casada. Estava certa de que um homem tão refinado ia apreciar aquele gesto. Mas o marido se opôs com firmeza, e quando ela procurou fazê-lo apesar de suas razões, ele sentiu que não sobreviveria à  vergonha.
   Se atravessar essa rua — lhe disse — ao voltar aqui você me encontrará  morto.
Era algo natural a ela. Antes de um ano de casada se movimentava pelo mundo com o mesmo desembaraço com que o fazia desde menina no morredouro de São João da Ciénaga, como se tivesse nascido sabendo, e tinha uma facilidade de trato com os desconhecidos que deixava o marido perplexo, e um talento misterioso para se entender em castelhano com quem fosse e em qualquer parte. "A gente precisa Saber os idiomas quando vai vender alguma coisa", dizia com risos de troça. "Mas quando vai comprar, todo o mundo um jeito de entender." Era difícil imaginar alguém que tivesse assimilado tão depressa e com tanta animação a vida cotidiana  de Paris, que aprendeu a amar na lembrança apesar de suas chuvas eternas. No entanto, quando regressou a casa esmagada por tantas experiências juntas, cansada de viajar e meio sonolenta com a gravidez, a primeira coisa que lhe perguntaram no porto foi o que achara das maravilhas da Europa, e ela resumiu dezesseis meses de ventura com três palavras, no seu modo de falar caribe:

   É mais onda.

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