quarta-feira, 30 de setembro de 2015

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NO DIA EM QUE Florentino Ariza viu Fermina Daza no adro da catedral, grávida de seis meses e com pleno domínio de sua nova condição de mulher do mundo, tomou a decisão feroz de ganhar nome e fortuna para merecê-la. Sequer perdeu tempo em pensar no inconveniente de ser ela casada, porque ao mesmo tempo resolveu, como se dependesse dele, que o doutor Juvenal Urbino tinha que morrer. Não sabia quando nem como, mas estabeleceu como inelutável o acontecimento,  que estava resolvido a esperar sem pressas  nem arrebatamentos, ainda que  fosse  até o fim dos séculos.
Começou pelo princípio. Apresentou-se sem aviso no escritório do tio Leão XII, presidente da Junta Diretora e Diretor Geral da Companhia Fluvial do Caribe, e manifestou a disposição de se submeter ao seus desígnios. O tio estava sentido com ele devido à maneira por que malbaratara o bom emprego de telegrafista na Vila de Leyva, mas se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão  à luz, e sim que a vida os obriga outra   vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos. Além disso, a viúva do irmão tinha morrido no ano anterior, com os rancores em carne viva mas sem deixar herdeiros. Por isso deu o emprego ao sobrinho errante.
Era uma decisão típica do senhor Leão XII Loayza. Dentro de sua casca grossa de traficante sem alma, carregava escondido um lunático genial, que tanto fazia brotar um manancial de limonada no deserto da Guajira como inundava de pranto um funeral solene com seu canto lancinante de In questa tomba oscura. Com  seu  cabelo crespo e seus beiços de fauno, só lhe faltavam a lira e a coroa de louros para ser idêntico ao Nero incendiário da mitologia cristã. As horas que lhe ficavam livres entre a administração de seus navios decrépitos, ainda flutuantes por pura distração da fatalidade, e os problemas cada dia mais críticos da navegação fluvial, ele as consagrava a enriquecer seu repertório lírico. Nada lhe agradava mais do que cantar em enterros. Tinha uma voz de galeote, sem nenhuma disciplina acadêmica, mas capaz de registros impressionantes. Alguém lhe contara que Enrico Caruso podia fazer um jarro de flores em pedaços com o simples poder de sua voz, e durante anos tratou de imitá-lo até com o vidro das janelas. Os amigos traziam os jarros mais tênues que encontravam em viagens pelo mundo, e organizavam festas especiais para que ele conseguisse por fim a culminação do seu sonho. Não conseguiu nunca. Contudo, no fundo do seu trovão havia uma luzinha de ternura que fendia o  coração


dos ouvintes como o grande  Caruso as ânforas de  cristal, e era isto que o tornava  tão venerável nos enterros. Com exceção de um, no qual teve a boa idéia de cantar When I Wake up in Glory, um canto fúnebre da Luisiana, formoso e aterrador, e foi silenciado pêlo capelão que não conseguiu entender aquela intromissão luterana dentro da sua igreja.
Assim, entre bises de ópera e serenatas napolitanas, seu talento criador e seu invencível espírito de empreendimento o converteram no prócer da navegação fluvial em sua época de maior esplendor. Tinha saído do nada, como os dois irmãos mortos, e todos chegaram até onde quiseram apesar do estigma de serem filhos naturais, e com o agravante de jamais terem sido reconhecidos. Eram a flor do que então se chamava a aristocracia de balcão, cujo santuário era o Clube do Comércio. No entanto, mesmo quando dispôs de recursos para viver como o imperador  romano que parecia ser, tio Leão XII morava na cidade velha por comodidade de trabalho, com a esposa e três filhos, e de maneira tão austera e numa casa tão despojada que nunca conseguiu se livrar de uma injusta reputação de avarento. Mas seu único luxo era ainda mais simples: uma casa de mar, a duas léguas dos escritórios, que não tinha como móveis nada além de seis tamboretes artesanais, a talha de filtrar água e uma rede na varanda para dormir e pensar aos domingos. Ninguém o definiu melhor do que ele próprio quando alguém o acusou de ser  rico:
— Rico não — disse: — sou um pobre com dinheiro, o que não é o  mesmo.
Esse curioso modo de ser, que alguém certa vez elogiou num discurso como uma demência lúcida, permitiu que visse na hora o que ninguém via antes  nem  viu depois em Florentino Ariza. A partir do momento em que este se apresentou  pedindo emprego nos seus escritórios, com seu aspecto lúgubre e seus vinte e sete anos inúteis, ele o pôs à prova na dureza de um regime de quartel capaz de dobrar o mais valente. Mas não conseguiu amedrontá-lo. O que tio Leão XII nunca suspeitou foi que essa tempera do sobrinho não lhe vinha de necessidade de subsistir, nem de uma pachorra de bruto herdada do pai, e sim de uma ambição de amor que  nenhuma contrariedade deste mundo ou do outro conseguiria  desalentar.
Os piores anos foram os primeiros, quando o nomearam escrevente da Direção Geral, que parecia um ofício inventado sob medida para ele. Lotário Thugut, antigo professor de música do tio Leão XII, foi quem aconselhou este a nomear o sobrinho para um emprego de escrever, porque era um consumidor incansável de literatura a granel, embora não tanto da boa quanto da pior. Tio Leão XII não fez caso da observação quanto à classe das leituras do sobrinho, pois também dele dizia Lotário Thugut que tinha sido seu pior aluno de canto, e apesar disso fazia chorar  até as lápides dos cemitérios. Em todo caso, o alemão teve razão naquilo em que menos pensara, e era que Florentino Ariza escrevia qualquer coisa com tanta paixão que até os documentos oficiais pareciam de amor. Os manifestos de embarque lhe saíam rimados por mais que se esforçasse em evitá-lo, e as cartas comerciais de rotina tinham um sopro lírico que lhe cerceava a autoridade. O tio em pessoa lhe


apareceu  um dia no escritório com um pacote de  correspondência que não tinha  tido coragem de assinar como sua, e lhe deu a última oportunidade de salvar a alma.
— Se você não é capaz de escrever uma carta comercial, vai recolher o lixo do  cais
   disse.
Florentino Ariza aceitou o desafio. Fez um esforço supremo para aprender a simplicidade terrena da prosa mercantil, imitando modelos de arquivos notariais com tanta aplicação como a que dedicava antes aos poetas da moda. Era essa a  época em que passava suas horas livres no Portal dos Escrivães, ajudando os enamorados implumes a escrever suas missivas perfumadas, para descarregar o coração de tantas palavras de amor que ficavam dentro dele por falta de uso nos informes de alfândega. Mas ao fim de seis meses, por mais voltas que lhe desse, não lograra torcer o pescoço do seu cisne empedernido. Por isso, quando o tio Leão XII   o repreendeu pela segunda vez, ele se deu por vencido, mas com uma certa  altivez.
   A única coisa que me interessa é o amor — disse.
   O mau — disse o tio — é que sem navegação fluvial não  amor.
Cumpriu a ameaça de mandá-lo recolher o lixo no cais, mas lhe deu a palavra de fazê-lo subir passo a passo pela escada do bom serviço até que  encontrasse  seu lugar. Assim foi. Nenhuma espécie de trabalho conseguiu derrubá-lo, por duro ou humilhante que fosse, nem o desmoralizou a miséria do soldo, nem perdeu por um instante sua impavidez essencial diante das insolências dos superiores. Tampouco foi inocente: todo aquele que se atravessou em seu caminho  sofreu  as conseqüências de uma determinação arrasadora, capaz  de  qualquer coisa, por trás de uma aparência desvalida. Tal como tio Leão XII previra e desejara para que ele não ficasse sem conhecer qualquer segredo da empresa, passou por todos os cargos em trinta anos de consagração e tenacidade a toda prova. Desempenhou-os todos com uma capacidade admirável, estudando cada fio daquela  urdidura  misteriosa que tanto tinha a ver com os ofícios da poesia, mas sem conseguir a medalha de guerra mais anelada por ele, que era escrever uma carta comercial  aceitável: uma  só. Sem propor a si mesmo, sem nem saber, demonstrou com sua vida a razão que tinha o pai, que repetiu até o último suspiro que não havia ninguém com mais sentido prático, nem pedreiros mais obstinados nem gerentes mais lúcidos e perigosos do que os poetas. Isso, pelo menos, foi o que lhe contou o tio Leão XII,  que costumava falar-lhe no pai durante os ócios do coração, e que lhe deu dele a  idéia mais de um sonhador que de um  empresário.
Contou-lhe que Pio Quinto Loayza dava aos escritórios um uso mais prazenteiro que o do trabalho, e os arranjava sempre para sair de casa aos domingos, a pretexto de que tinha de receber ou despachar um navio. Mais ainda: tinha feito instalar no pátio das mercadorias uma caldeira fora de uso, com uma sereia a vapor que apitava em claves de navegação, para o caso da esposa estar atenta. Fazendo as contas, tio Leão XII estava certo de que Florentino Ariza fora concebido em cima da escrivaninha de  algum  escritório mal fechado numa tarde  de  bochorno   dominical,


enquanto a esposa de seu pai ouvia em casa os adeuses de um navio que jamais partiu. Quando o descobriu já era tarde para cobrar a infâmia, porque o marido estava morto. Sobreviveu a ele muitos anos, destruída pelo azedume de não ter um filho, e pedindo a Deus em suas orações maldição eterna para o bastardo.
A imagem do pai perturbava Florentino Ariza. A mãe falava nele como  num grande homem sem vocação comercial, que acabara nos negócios do rio porque o irmão mais velho fora colaborador muito próximo do comodoro alemão João B. Elbers, precursor da navegação fluvial. Eram filhos naturais da mesma mãe, cozinheira de ofício, que os tivera de homens diferentes, e todos traziam o sobrenome dela por trás do nome de um Papa escolhido ao acaso no santoral, salvo   o do tio Leão XII, que era o nome do que reinava quando ele nasceu. O que se chamava Florentino era o avô materno de todos, por isso o nome chegara até o filho de Trânsito Ariza saltando por cima de toda uma geração de pontífices.
Florentino conservou sempre um caderno no qual o pai escrevia versos de amor, alguns inspirados por Trânsito Ariza, e as folhas estavam adornadas com desenhos de corações feridos. Duas coisas o surpreenderam. Uma era a personalidade da caligrafia do pai, idêntica à sua, apesar do fato de que a escolhera por ser a de que mais gostara entre muitas de um manual. A outra foi encontrar-se com uma frase que julgava sua, e que o pai escrevera num caderno muito antes dele nascer: Só me dói morrer se não for de amor.
Tinha visto também os dois últimos retratos do pai. Um tirado em Santa Fé, muito moço, na idade que ele tinha quando o viu pela primeira vez, com um sobretudo que era como estar metido dentro dum urso, e recostado num pedestal    de cuja estátua só restavam as perneiras decepadas. A criança ao seu lado era tio Leão XII com um gorrinho de capitão de navio. Na outra fotografia aparecia o pai com um grupo de guerreiros, em quem sabe qual de tantas guerras, e tinha o fuzil maior e uns bigodes cujo cheiro de pólvora se exalava da imagem. Era liberal e maçom, assim como os irmãos, e no entanto queria que o filho entrasse para o seminário. Florentino Ariza não achava que fossem parecidos, mas segundo o tio Leão XII, também a Pio Quinto criticavam o lirismo dos documentos. Em todo caso, nem nos retratos se parecia com ele, não correspondia às suas lembranças nem à imagem que pintava a mãe, transfigurada pelo amor, nem à que dele despintava tio Leão XII com sua graciosa crueldade. Contudo, Florentino Ariza descobriu a parecença muitos anos depois, enquanto se penteava na frente do espelho, então compreendeu que. Um homem sabe quando começa a envelhecer porque começa a parecer com o pai.
Não se lembrava dele na Rua das Janelas. Julgava saber que por um tempo dormira ali, muito no princípio dos seus amores com Trânsito Ariza, mas que não tinha tornado a visitá-la depois do seu nascimento. A certidão de batismo  foi durante muitos anos nosso único instrumento válido de identificação, e a de Florentino  Ariza, assentada  na  paróquia  de  Santo  Toríbio, só  dizia  que  era  filho


natural de outra filha natural solteira que se chamava Trânsito Ariza. Esta condição social fechou a Florentino Ariza as portas do seminário, mas fez também com que escapasse ao serviço militar na época mais sangrenta de nossas  guerras, por ser  filho único de mãe solteira.
Todas as sextas-feiras depois da escola se sentava na frente dos escritórios da Companhia Fluvial do Caribe, repassando um livro de estampas de animais tantas vezes repassado que caía aos pedaços. O pai entrava sem olhá-lo, vestido com as sobrecasacas de casimira que Trânsito Ariza devia ajustar depois para ele, e com  uma cara idêntica à do São João Evangelista dos altares. Quando saía, depois de muitas horas e procurando não ser visto nem pelo próprio cocheiro, lhe dava o dinheiro para os gastos de uma semana. Não se falavam, não porque o pai não tentava como porque ele tinha terror do pai. Um dia, depois de esperar muito mais que de costume, o pai lhe deu as moedas, dizendo:
— Tome e não volte mais.
Foi a última vez que o viu. Com o tempo veio a saber que tio Leão XII, que era  uns dez anos mais moço, continuou levando o dinheiro a Trânsito Ariza, e foi quem se ocupou dela quando Pio Quinto morreu de uma eólica mal tratada, sem deixar nada escrito, e sem tempo para tomar qualquer providência em favor do filho   único
   um filho da rua.
O drama de Florentino Ariza enquanto foi calígrafo da Companhia Fluvial do Caribe era que não podia afastar seu lirismo porque não deixava de pensar em Fermina Daza, e nunca aprendeu a escrever sem pensar nela. Depois, quando o passaram a outros cargos, sobrava-lhe tanto amor por dentro que não sabia que  fazer com ele, e dava-o de presente aos enamorados implumes escrevendo para eles cartas de amor gratuitas no Portal dos Escrivães. Para lá ia depois do trabalho.  Tirava a sobrecasaca com seus gestos discretos e a pendurava no espaldar da cadeira, colocava os punhos postiços para não sujar a camisa, desabotoava o colete para pensar melhor, e às vezes até muito tarde da noite reanimava os  desvalidos  com umas cartas enlouquecedoras. De vez em quando encontrava uma pobre  mulher que tinha um problema com um filho, um veterano de guerra que insistia  em reclamar o pagamento de sua pensão, alguém que tivera algo roubado e queria fazer queixa ao governo, mas por mais que se esmerasse não podia satisfazê-los, porque a única coisa com que lograva convencer alguém eram as cartas de amor. Nem mesmo fazia perguntas aos clientes novos, pois bastava ver o branco do olho deles para ter noção do seu estado, e escrevia folha após folha de amores desarvorados, mediante a fórmula infalível de escrever pensando sempre em Fermina Daza, e nada mais do que nela. No fim do primeiro mês teve que estabelecer uma ordem antecipada de reservas, para que não o submergissem as ânsias dos enamorados.
Sua lembrança mais grata daquela época foi de uma mocinha muito  tímida, quase  uma menina, que  lhe  pediu  tremendo  que  escrevesse  uma resposta  a uma


carta irresistível que acabava de receber, e que Florentino Ariza reconheceu como escrita por ele a tarde anterior. Respondeu-a num estilo diferente, de acordo com a emoção e a idade da menina, e com uma letra que também  parecesse  dela, pois sabia fingir uma escrita para cada ocasião segundo o caráter de cada qual. Escreveu imaginando o que Fermina Daza teria respondido a ele se o amasse tanto quanto aquela criatura desamparada amava seu pretendente. Dois dias depois, é claro, teve que escrever também a réplica do noivo com a caligrafia, o estilo e a classe de amor que lhe havia atribuído na primeira carta, e foi assim que acabou comprometido numa correspondência febril consigo mesmo. Antes de um mês ambos, cada um por seu lado, foram lhe agradecer o que ele próprio propusera na carta do noivo e aceito com devoção na resposta da garota: iam se casar.
Só quando tiveram o primeiro filho descobriram, numa conversa casual, que as cartas de ambos tinham sido escritas pelo mesmo escrivão, e pela  primeira  vez foram juntos ao portal para designá-lo padrinho do menino. Florentino Ariza se entusiasmou tanto com a prova prática dos seus sonhos que tirou tempo de onde não tinha para escrever um Secretário dos Enamorados mais poético  e  amplo  do que aquele que até então se vendia por vinte centavos nos portais,  e  que  meia cidade conhecia de memória. Pôs em ordem as situações imagináveis em que poderiam se encontrar Fermina Daza e ele, e para todas escreveu tantos modelos quantas alternativas de ida e volta lhe pareceram possíveis. No fim teve umas mil cartas em três tomos tão quadrados quanto o dicionário de Covarrubias, mas nenhum impressor da cidade se arriscou a publicá-los, e acabaram em  algum  desvão da casa, com outros papéis da casa, pois Trânsito Ariza se negou de plano a desenterrar as botijas para malbaratar suas poupanças da vida inteira numa loucura editorial. Anos depois, quando Florentino Ariza teve recursos próprios para publicar o livro, foi-lhe duro admitir a realidade de que as cartas de amor já tinham passado de moda.
Enquanto ele dava os primeiros passos na Companhia Fluvial do Caribe e escrevia cartas grátis no Portal dos Escrivães, os amigos de Florentino Ariza tinham  a certeza de que o perdiam pouco a pouco, sem retorno. Assim era. Ao voltar da viagem pelo rio ainda via alguns deles na esperança de atenuar as lembranças de Fermina Daza, jogava bilhar com eles, foi aos últimos bailes, prestava-se aos azares de ser rifado entre as moças, prestava-se a tudo que lhe parecesse bom para voltar a ser o que tinha sido. Depois, quando tio Leão XII o acreditou como empregado, jogava dominó com os companheiros de escritório no Clube do Comércio, e estes começaram a reconhecê-lo como um dos seus, pois agora ele lhes falava da empresa de navegação, que nunca mencionava pelo nome completo e sim pelas iniciais: a CF.C Mudou até seus hábitos de comer. De indiferente e irregular que tinha sido até então à mesa, tornou-se regular e austero até o fim dos  seus dias:  uma xícara grande de café puro pela manhã, uma posta de peixe cozido com arroz branco ao almoço, e uma xícara de café com leite com um pedaço de queijo antes de dormir.  Tomava  café  puro  a  qualquer  hora,  em  qualquer  lugar  e  em    qualquer


circunstância, e até trinta xicrinhas por dia: uma infusão que mais parecia petróleo cru, que preferia preparar ele mesmo e que sempre tinha numa garrafa térmica ao alcance da mão. Era outro, a despeito do seu propósito firme e seus esforços ansiosos de continuar sendo o mesmo que tinha sido antes do tropeção mortal do amor.
A verdade é que jamais tornaria a ser. Recuperar Fermina Daza foi o objetivo único de sua vida, e estava tão certo de atingi-lo mais cedo ou mais tarde que convenceu Trânsito Ariza a prosseguir na restauração da casa para que estivesse em condições de recebê-la a qualquer momento em que ocorresse o milagre. Ao contrário de sua reação diante da proposta editorial do Secretário dos Enamorados, Trânsito Ariza foi então muito mais longe: comprou a casa à vista e empreendeu a renovação completa. Fizeram uma sala de recepção do que tinha sido a alcova, construíram no sobrado um quarto de dormir para os esposos e outro para os filhos que iam ter, ambos muito amplos e bem iluminados, e no espace da antiga feitoria  de tabaco fizeram um extenso jardim de toda classe de rosas, no qual Florentino Ariza em pessoa consagrou seus ócios do amanhecer. A única coisa que  ficou  intacta, como um testemunho de gratidão pelo passado, foi a loja do armarinho. A parte de trás, onde dormia Florentino Ariza, foi deixada como sempre estivera, com  a rede pendurada e a grande mesa de escrever atulhada de livros em desordem, mas ele se mudou  para o quarto previsto como alcova matrimonial no andar de  cima.  Era o quarto mais amplo e fresco da casa, e tinha um terraço interno onde era agradável estar à noite na brisa do mar e no vapor dos rosais, mas era também o que correspondia melhor ao rigor trapista de Florentino Ariza. As paredes eram lisas e ásperas, de cal viva, e tinha como móveis um leito de  presidiário, uma mesinha de cabeceira com uma vela num gargalo de garrafa, um guarda-roupa antigo e um gomil d'água em seu prato, ao lado da bacia.
Os trabalhos duraram quase três anos, e coincidiram com um restabelecimento momentâneo da cidade, devido ao auge da navegação fluvial e ao comércio de passagem, os mesmos fatores que tinham sustentado sua grandeza durante a  Colônia e a tinham convertido durante mais de dois séculos em porta da América. Mas também foi essa a época em que Trânsito Ariza manifestou os primeiros sintomas de sua enfermidade sem remédio. Suas clientes de  sempre vinham cada  vez mais velhas ao armarinho, mais pálidas e fugidias, e ela não  as  reconhecia depois de ter tratado com elas durante meia vida, ou confundia os assuntos de umas com os de outras. O que era muito grave em negócios como o seu, nos quais não se assinavam papéis para proteger a honra, a própria e a alheia, e a palavra de honra  era dada e aceita como garantia bastante. A princípio pareceu que estava ficando surda, mas em breve ficou evidente que era sua memória que ia escorrendo pelas goteiras. De modo que liquidou o negócio de penhor, e com o tesouro das botijas chegou a terminar e mobiliar a casa, e ainda lhe sobraram muitas das jóias antigas mais prezadas da cidade, pois os donos não tiveram recursos para resgatá-las.
Florentino Ariza tinha que atender então a demasiados compromissos ao  mesmo


tempo, mas nunca lhe fraquejou o ânimo para fomentar seus negócios de caçador furtivo. Depois da experiência errática com a viúva de Nazaret, que lhe abriu o caminho dos amores rueiros, continuou caçando as passarinhas órfãs da noite durante vários anos, ainda na ilusão de encontrar alívio para a dor que era Fermina Daza. Mas depois não sabia mais dizer se seu costume de fornicar sem esperanças era uma necessidade da consciência ou simples vício do corpo. Ia cada vez menos ao hotel suspeito, não porque seus interesses tomavam outros rumos,  como também por não gostar de ser visto ali em andanças diferentes das tão domésticas e castas que já eram conhecidas a seu respeito. No entanto, em três casos de aperto apelou para o recurso fácil de uma época que não tinha vivido: fantasiava  de homens as amigas temerosas de serem reconhecidas, e entravam juntos no hotel com fumaças de pândegos tresnoitados. Não faltou quem reparasse em pelo menos duas das ocasiões em que ele e o suposto acompanhante não iam ao bar e sim ao quarto, e a reputação já bastante alquebrada de Florentino Ariza sofreu o golpe de misericórdia. Afinal deixou de ir, e as pouquíssimas vezes em que ainda o fez não eram para que ele pusesse em dia os atrasos, e sim pelo contrário: buscando um refúgio para se recompor dos excessos.
Não era para menos. Nem bem tinha saído do escritório, por volta das cinco da tarde, e já andava em suas volatarias de gavião frangueiro. No princípio se conformava com o que a noite lhe oferecia. Recolhia criadas nos parques, negras no mercado, morenas nas praias, gringas nos navios de Nova Orleans. Levava-as aos diques, onde metade da cidade fazia o mesmo desde o pôr-do-sol, levava-as para onde podia, e às vezes onde não podia, pois não foram poucas as ocasiões em que teve que se meter às carreiras num saguão escuro e fazer o que fosse possível, do jeito possível, atrás da porta.
A torre do farol foi sempre um refúgio afortunado que ele evocava com saudade quando já tinha tudo resolvido nos albores da velhice, porque  era um lugar bom  para ser feliz, sobretudo de noite, e achava que algo dos seus amores daquela época chegava aos navegantes a cada volta do feixe de luz. De maneira que continuou indo lá, mais do que a qualquer outra parte, enquanto seu amigo faroleiro o recebia encantado, com uma cara de bobo que era o melhor atestado de discrição para as passarinhas assustadas. Havia uma casa embaixo, junto ao estrondo das ondas estourando contra os alcantis, onde o amor era mais intenso, porque tinha alguma coisa de naufrágio. Mas Florentino Ariza preferia a torre da luz depois de cair a  noite, porque se divisava a cidade inteira e a esteira de luzes dos pescadores do mar, e mesmo dos pântanos distantes.
Vinham dessa época suas teorias um tanto simplistas sobre a relação entre o físico das mulheres e suas aptidões para o amor. Desconfiava do  tipo sensual, as  que pareciam capazes de comer cru um jacaré-açu, e que costumavam ser as mais passivas na cama. Seu tipo era o contrário: essas rãzinhas sumidas, que ninguém se dava ao trabalho de olhar duas vezes na rua, que pareciam reduzidas a nada quando tiravam a roupa, que davam pena porque seus ossos rangiam ao primeiro impacto, e


que no entanto podiam deixar pronto para a lata do lixo o maior dos gargantas.  Tinha tomado notas dessas observações prematuras com a intenção de escrever um suplemento prático do Secretário dos Enamorados, mas o projeto sofreu a mesma sorte do anterior depois que Ausência Santander o revirou pelo direito e o avesso com sua sabedoria de cachorro velho, o aparou de cabeça, levantou e abaixou, pariu- o como novo, fez em tiras seus virtuosismos teóricos, e lhe ensinou a única coisa  que tinha que aprender para o amor: que à vida ninguém ensina.
Ausência Santander tinha tido um casamento convencional durante  vinte  anos, do qual lhe ficaram três filhos que por sua vez tinham casado e tido filhos, de modo que ela se prezava de ser a avó com a melhor cama da cidade. Nunca ficou claro se foi ela que abandonou o marido, ou se foi este que a abandonou, ou se ambos se abandonaram ao mesmo tempo quando ele foi morar com sua amante de sempre, e ela se sentiu livre para receber em pleno dia pela porta principal Rosendo de  La Rosa, comandante de navio fluvial, a quem recebera de noite muitas vezes  pela porta traseira. Foi ele mesmo, sem pensar duas vezes, quem levou lá Florentino Ariza.
Levou-o para almoçar. Levou além dele um garrafão de aguardente caseira e os ingredientes de melhor qualidade para uma panelada épica, como era possível com galinhas de quintal, carne de osso mole, porco de monturo e os legumes e hortaliças dos povoados do rio. No entanto, Florentino Ariza não se mostrou entusiasmado desde o primeiro momento com as excelências da cozinha, nem com   a exuberância da dona, e sim com a beleza da casa. Gostou da casa em si mesma, luminosa e fresca, com quatro janelas grandes abertas ao mar, e no fundo a vista completa da cidade antiga. Gostou da quantidade e esplendor das coisas, que davam  à sala um aspecto confuso e ao mesmo tempo rigoroso, com toda classe de primores artesanais que o comandante Rosendo de Ia Rosa tinha ido trazendo de cada viagem até que não havia mais lugar para um que fosse. No terraço do mar, parada em seu aro privado, havia uma cacatua da Malásia com uma plumagem de uma brancura inverossímil e uma quietude pensativa que dava muito que pensar: o bicho mais formoso que Florentino Ariza jamais vira. O comandante Rosendo de Ia Rosa se entusiasmou com o entusiasmo do convidado, e lhe contou em detalhe a história de cada coisa. Enquanto isso, bebia aguardente a goles curtos mas sem trégua. Parecia de cimento armado: enorme, peludo de corpo inteiro com exceção da cabeça, com  um bigode de vasta broxa e uma voz de cabrestante que a ele podia pertencer, e   de uma gentileza requintada. Mas não havia corpo capaz de resistir ao seu modo de beber. Antes de se sentar à mesa tinha acabado com metade do garrafão, e caiu de bruços em cima da bandeja de copos e garrafas com um lento estrépito de demolição. Ausência Santander precisou pedir a ajuda de Florentino Ariza para arrastar até a cama o corpo inerte de baleia encalhada, e para despi-lo adormecido. Em seguida, num clarão de inspiração que os dois agradeceram à conjunção de seus astros, se despiram ambos no quarto do lado sem se porem de acordo, sem sequer uma sugestão, sem uma proposta, e continuaram se despindo sempre que podiam


durante mais de sete anos, quando o comandante estava de viagem.  Não  havia riscos de surpresas, porque ele tinha o costume de bom navegante de avisar sua chegada ao porto com a sereia do navio, mesmo de madrugada, primeiro com três bramidos grandes para a esposa e seus nove filhos, e depois com dois entrecortados  e melancólicos para a amante.
Ausência Santander tinha quase cinqüenta anos, e se notava, mas tinha também um instinto tão pessoal para o amor que não havia  teorias  artesanais  nem científicas capazes de amortecê-lo. Florentino Ariza sabia pelos itinerários dos navios quando podia visitá-la, e sempre ia sem se anunciar na hora que quisesse do dia ou  da noite, e não houve uma vez em que ela não o estivesse esperando.  Abria a porta como a mãe a criou até os sete anos: nua em pêlo, mas com um laço    de organdi na cabeça. Não deixava que ele desse um passo mais antes de lhe tirar a roupa, pois sempre achou que dava azar ter um homem vestido dentro de casa. Isto foi causa de discórdia constante com o comandante Rosendo de Ia Rosa, porque ele tinha a superstição de que fumar nu era de mau agouro, e às vezes preferia atrasar o amor do que apagar seu infalível charuto cubano. Em compensação,  Florentino Ariza era muito dado aos encantos da nudez, e ela tirava a roupa dele com invariável deleite mal a porta se fechava, sem lhe dar sequer tempo de  cumprimentá-la, nem  de tirar o chapéu ou os óculos, beijando-o e deixando-se beijar com beijos desenfreados, e soltando-lhe os botões de baixo para cima, primeiro os da braguilha, um por um depois de cada beijo, depois a fivela do cinto, e por último o colete e a camisa, até deixá-lo como um peixe que se fende ao meio. Depois o sentava na sala   e lhe tirava as botas, puxava-lhe a calça pelos pernis para que saísse ao mesmo tempo que as ceroulas, e por último desprendia as ligas de elástico da barriga da perna e lhe tirava as meias. Florentino Ariza parava então de beijá-la e de se deixar beijar para fazer a única coisa que lhe competia naquela cerimônia pontual: soltava   o relógio de corrente da botoeira do colete e tirava os óculos, e enfiava ambos nas botas para ter certeza de não esquecê-los. Sempre tomava essa precaução, sempre, sem falta, quando se desnudava em casa alheia.
Mal acabava de fazê-lo e ela já o assaltava sem dar tempo de nada, no próprio  sofá onde acabava de desnudá-lo, e de vez em quando na cama. Metia-se debaixo dele, e se apoderava dele todo para ela, encerrada dentro de si mesma, tateando com os olhos fechados em sua absoluta escuridão interior, avançando por aqui, retrocedendo, corrigindo seu rumo invisível, tentando outra via mais intensa, outra forma de andar sem naufragar no alagado de mucilagem que fluía do seu ventre, se perguntando e se respondendo a si mesma com um zumbido de varejeira em seu jargão nativo onde ficava essa alguma coisa nas trevas que ela conhecia e ansiava para ela, até que sucumbia sem esperar ninguém, se desbarrancava só em seu abismo com uma explosão jubilosa de vitória total que fazia tremer o mundo. Florentino Ariza ficava exausto, incompleto, flutuando no charco dos suores de ambos, mas com a impressão de não passar de um instrumento de  gozo. Dizia: "Você me trata como se eu fosse um a mais." Ela dava uma risada de fêmea livre, e


dizia: "Pelo contrário: como se você fosse um a menos." E ele ficava com a  impressão de que ela ficava com tudo, com uma voracidade mesquinha, e o orgulho se rebelava e saía da casa com a determinação de não voltar mais. Mas  logo  acordava sem motivo, com a lucidez tremenda da solidão no meio da noite, e a lembrança do amor ensimesmado de Ausência Santander lhe aparecia como aquilo que era: uma armadilha da felicidade que o entediava e atraía ao  mesmo tempo,  mas da qual era impossível escapar.
Um certo domingo, dois anos depois de se haverem conhecido, a primeira coisa que ela fez quando ele chegou, em lugar de despi-lo, foi tirar os óculos dele para melhor beijá-lo, e desse modo Florentino Ariza soube que ela começara a  gostar dele. Apesar de se sentir tão bem desde o primeiro dia naquela casa que já amava como sua, jamais permanecera mais de duas horas de cada vez, nunca para dormir,   e uma vez para comer, por ter recebido dela convite formal. Lá ia na realidade para o que ia, trazendo sempre o presente único de uma rosa solitária, e desaparecia até a seguinte ocasião imprevisível. Mas no domingo em que ela lhe tirou os óculos para beijá-lo, em parte por isso, e em parte porque ficaram dormindo depois de um amor repousado, passaram a tarde nus na enorme cama do comandante. Ao despertar da sesta, Florentino Ariza conservava ainda a lembrança dos grasnidos da cacatua, cujos metais estridentes iam no sentido contrário da sua beleza. Mas o silêncio era diáfano no calor das quatro, e pela janela do quarto se via o perfil da cidade antiga com o sol da tarde nas costas, suas cúpulas douradas, seu mar de chamas até a Jamaica. Ausência Santander estendeu a mão aventureira buscando às tontas o animal jacente, mas Florentino Ariza a afastou. Disse: "Agora não: sinto  uma coisa esquisita, como se estivessem nos vendo." Ela tornou a alvoroçar a cacatua com seu riso feliz. Disse: "Esse pretexto nem a mulher de Jonas engole." Tampouco ela, diga-se logo, mas o admitiu como válido, e ambos se  amaram  durante longo tempo em silêncio sem repetir o amor. Às cinco, com o sol ainda alto, ela se levantou da cama, nua até a eternidade
e com o laço de organdi na cabeça, e foi à cozinha buscar alguma coisa de beber. Mas não chegou a dar um passo fora do quarto quando lançou um grito de  espanto.
Não conseguia acreditar. Os únicos objetos que restavam na casa eram as luzes fixas. Os demais, os móveis assinados, os tapetes indianos, as estátuas e  os gobelinos, as miudezas incontáveis de pedrarias e metais preciosos, tudo quanto tinha feito de sua casa uma das mais aprazíveis e bem guarnecidas da cidade, tudo, até a cacatua sagrada, tudo se havia evaporado. Tudo carregado pelo terraço marinho sem perturbar o amor. Só ficaram os salões desertos com quatro janelas abertas, e um letreiro a broxa grossa na parede do fundo: Isto acontece a vocês por andarem trepando. O comandante Rosendo de Ia Rosa jamais compreendeu por que Ausência Santander não denunciou a pilhagem, nem tentou estabelecer qualquer contato com os traficantes de coisas roubadas, nem permitiu que se tornasse a falar de sua desgraça.


Florentino Ariza continuou a visitá-la na casa saqueada, cujo mobiliário ficou reduzido a três tamboretes de couro que os ladrões esqueceram na cozinha, e ao quarto de dormir onde eles estavam. Mas veio com menos freqüência do que antes, não pela desolação da casa, como supôs e disse ela, e sim pela novidade do bonde de burros em princípios do  novo século, que foi para ele um ninho pródigo e original   de passarinhas soltas. Tomava-o quatro vezes por dia, duas para ir ao escritório e duas para voltar para casa, e às vezes enquanto lia de verdade e na maioria das vezes fingindo ler, conseguia estabelecer pelo menos os primeiros contatos para um encontro posterior. Mais tarde, quando tio Leão XII pôs à sua disposição um carro puxado por duas mulinhas pardas de gualdrapas douradas, iguais às do presidente Rafael Núnez, sentiria saudades dos tempos do bonde como os mais fecundos de  suas andanças de falcoeiro. Tinha razão: não havia pior inimigo dos amores secretos do que um carro esperando na porta. Tanto assim que quase sempre o deixava escondido em casa e ia a em suas rondas de altanaria, para não deixar sequer o sulco das rodas no pó. Por isso evocava com tanta saudade o velho bonde com seus burros macilentos, roídos de peladuras, dentro do qual bastava um olhar de soslaio para saber onde estava o amor. Contudo, entre tantas lembranças enternecedoras, não conseguia afastar a de uma passarinha desamparada cujo nome nunca soube e com a qual apenas conseguiu viver uma metade frenética de noite, mas que tinha bastado para lhe deixar pelo resto da vida um travo amargo nas desordens inocentes do carnaval.
Tinha chamado sua atenção no bonde pela impavidez com que viajava em meio ao escândalo da pândega pública. Não devia ter mais de vinte anos, e não parecia  com ânimo de carnaval, a menos que estivesse fantasiada de inválida: tinha o cabelo muito claro, comprido e liso, solto ao natural s*obre os ombros, e usava uma túnica de pano ordinário sem nenhum enfeite. Estava alheia por completo ao rodopio da música das ruas, aos punhados de pó-de-arroz, aos jorros de  anilina que atiravam  aos passageiros do bonde em marcha, cujos burros iam brancos de polvilho e com chapéus de flores durante aqueles três dias de loucura. Aproveitando-se da confusão, Florentino Ariza a convidou a tomar um sorvete, pois não  achou  que desse para mais. Ela o olhou sem surpresa. Disse: "Aceito  com  muito prazer, mas lhe aviso que estou louca." Ele riu do gracejo, e a levou para assistir ao desfile de carros da sacada da sorveteria. Enfiou depois um dominó alugado, e ambos se meteram na ronda de bailes da Praça da Alfândega, e se divertiram juntos como noivos acabados de nascer, pois a indiferença dela foi parar no extremo contrário no fragor da noite: dançava feito uma profissional, e era imaginativa e audaz para a pândega, e de um encanto arrasador.
— Você nem sabe a encrenca em que se meteu comigo — gritava morta de rir na febre do carnaval. — Sou uma louca de hospício.
Para Florentino Ariza, aquela era uma noite de regresso aos desmandos cândidos da adolescência, quando o amor ainda não o havia desgraçado. Mas sabia, mais por escarmento que por experiência, que uma felicidade tão fácil não podia durar  muito


tempo. Por isso é que antes que a noite começasse a decair, como sempre acontecia depois da distribuição dos prêmios às melhores fantasias, propôs à moça  que  fossem contemplar o amanhecer no farol. Ela aceitou agradecida, mas depois que acabassem de distribuir os prêmios.
Florentino Ariza ficou com a certeza de que aquela demora lhe salvou a vida.  Com efeito, a moça tinha feito um sinal de que fossem para o farol, quando dois cérberos e uma enfermeira do manicômio da Divina Pastora lhe caíram em cima. Estavam à procura dela desde que tinha fugido às três da tarde, não  eles como toda a força pública. Tinha decapitado um guarda e ferido com gravidade  outros  dois com um facão arrebatado ao jardineiro, porque queria sair para brincar no carnaval. Mas ninguém imaginou que estivesse dançando na rua, e sim escondida em alguma das tantas casas onde tinham revistado até as  cisternas.
Não foi fácil prendê-la. Defendeu-se com tesouras de podar que tinha escondidas no corpinho, e foram necessários seis homens para pôr-lhe a camisa-de-força, enquanto a multidão apinhada na Praça da Alfândega aplaudia e assobiava de júbilo, pensando que a captura sangrenta era uma das farsas do carnaval. Florentino Ariza ficou desarvorado, e na Quarta-Feira de Cinzas, foi pela primeira vez à rua da Divina Pastora com uma caixa de bombons ingleses para ela. Ficava olhando as  reclusas que lhe gritavam toda sorte de impropérios e piadas pelas janelas, enquanto ele as alvoroçava com a caixa de bombons para ver se tinha a sorte de fazer com que ela assomasse também às barras de ferro. Mas nunca a viu. Meses depois, ao saltar do bonde de burro, uma meninazinha que estava com o pai lhe pediu um  dos chocolates da caixa que carregava na mão. O pai ralhou com ela e pediu desculpas a Florentino Ariza. Mas ele deu a caixa completa à menina achando que aquele gesto   o redimia de todo amargor, e acalmou o papai com um tapinha no  ombro.
— Eram para um amor que foi para o caralho — segredou-lhe.
Como compensação do destino, foi também no bonde de burro que Florentino Ariza conheceu Leona Cassiani, que foi a verdadeira mulher da  sua vida, embora nem ele nem ela jamais o soubessem, ou jamais fizessem o amor. Ele a sentiu antes de vê-la quando voltava a casa no bonde das cinco: foi um olhar material que tocou nele como se fosse um dedo. Ergueu a vista e a viu, no extremo oposto, mas muito bem definida entre os outros passageiros. Ela não desviou o olhar. Pelo contrário: manteve-o com tamanho descaramento que ele não podia pensar senão o que pensou: negra, jovem e bonita, mas puta sem sombra de dúvida. Descartou-a da sua vida, porque não podia conceber nada mais indigno do que pagar pelo amor: não o fez nunca.
Florentino Ariza saltou na Praça dos Carros, que era o ponto final dos bondes, escafedeu-se a toda pressa pelo labirinto do comércio porque a mãe o esperava às seis, e quando saiu do outro lado da multidão ouviu ressoarem os saltos de mulher alegre nas pedras, e se voltou para olhar e para se convencer do que já sabia: era ela. Estava vestida como as escravas das estampas, com uma saia rodada que levantava


com um gesto de dança para passar sobre as poças da rua, um decote que deixava os ombros descobertos, um maço de colares de cor e um turbante branco. Ele as conhecia do hotel suspeito. Sucedia amiúde que às seis da tarde ainda estavam com o café da manhã, e então o único recurso que lhes restava era usar o sexo como um punhal de salteador de estrada, e o colocavam contra a garganta do primeiro que encontrassem na rua: a piroca ou a vida. Em busca de uma prova final, Florentino Ariza mudou de direção, meteu-se pela ruela deserta do Candeeiro, e ela o seguiu cada vez mais de perto. Então ele parou, se virou, fechou a passagem dela apoiado  no guarda-chuva com as duas mãos. Ela ficou firme na frente  dele.
   Você se enganou, linda — disse ele: eu não dou.
   Claro que sim — disse ela: — vê-se na sua cara.
Florentino Ariza se lembrou de uma frase que ouvira menino do médico da família, seu padrinho, a propósito da sua prisão de ventre crônica: "O mundo está dividido entre os que cagam bem e os que cagam mal." Sobre esse dogma o médico elaborara toda uma teoria do caráter, que considerava mais certeira do que a astrologia. Mas com as lições dos anos, Florentino Ariza a formulou de outro modo: "O mundo está dividido entre os que trepam e os que não trepam." Desconfiava dos últimos: quando saíam dos trilhos, era para eles tão insólito que alardeavam o amor como se tivessem acabado de inventá-lo. Os que o faziam amiúde, em compensação, viviam para isso. Sentiam-se tão bem que se comportavam como sepulcros lacrados, por saberem que da discrição dependia sua vida. Nunca falavam de suas proezas, não confiavam em ninguém, bancavam os distraídos até o ponto de ganharem fama de impotentes, de frígidos, e sobretudo de  maricás  tímidos, como era o caso de Florentino Ariza. Mas se compraziam no equívoco, porque o equívoco também os protegia. Eram uma loja maçônica hermética, cujos sócios se reconheciam entre si no mundo inteiro, sem necessidade  de  um idioma comum. Daí o fato de Florentino Ariza não se surpreender com a resposta da moça: era uma dos seus, e portanto sabia que ele sabia que ela sabia.
Foi o erro da sua vida, tal como sua consciência ia fazer com que se lembrasse a cada hora de cada dia, até o último dia. Ela não queria lhe suplicar amor, menos ainda amor pago, e sim um emprego no que fosse, qualquer que fosse e com o  salário que fosse?, na Companhia Fluvial do Caribe. Florentino Ariza ficou tão envergonhado com sua própria conduta que a levou ao chefe do pessoal, e este lhe deu um posto de ínfima categoria na seção geral, que ela desempenhou com seriedade, modéstia e consagração durante três anos.
Os escritórios da C.F.C. estavam desde sua fundação diante do cais fluvial, sem nada em comum com o porto dos transatlânticos no lado oposto da baía, nem com o atracadouro do mercado na baía das Animas. Era um edifício de madeira com telhado de zinco de duas águas, um único balcão grande com colunas na fachada e várias janelas com telas de arame nos quatro costados, das quais se viam completos os navios no cais como quadros pendurados na parede. Quando o construíram, os


precursores alemães pintaram de vermelho o zinco dos telhados e de branco brilhante os tabiques de madeira, de maneira que o próprio edifício tinha algo de navio fluvial. Mais tarde pintaram-no todo de azul, e pelos tempos em que Florentino Ariza começou a trabalhar na empresa era um galpão poeirento sem cor definida, e nos telhados oxidados havia emendas de folhas de zinco novas sobre as folhas originais. Por trás do edifício, num pátio de caliça cercado de tela de galinheiro, havia dois armazéns amplos de construção mais recente, e  no  fundo havia um desaguadouro fechado, sujo e fedorento, onde apodreciam os despejos de meio século de navegação fluvial: escombros de navios históricos, desde os primitivos de uma chaminé, inaugurados por Simão Bolívar, até alguns tão recentes que já tinham ventiladores elétricos nos camarotes. Tinham sido em sua maioria desmantelados para a utilização dos materiais em outros navios, mas  muitos estavam em tão bom estado que parecia possível dar-lhes uma mão de pintura e botá-los para navegar, sem espantar as iguanas  nem derrubar as árvores  de grandes flores amarelas que os faziam mais  nostálgicos.
No andar de cima do edifício ficava a seção administrativa, em escritórios pequenos mas cômodos e bem aparelhados, como os  camarotes  dos  navios, pois não tinham sido feitos por arquitetos civis e sim por engenheiros navais. No fim do corredor, como mais um empregado, despachava o tio Leão XII num escritório igual a todos, com a única diferença de que ele encontrava pela manhã em sua secretária um jarro de vidro com alguma espécie de flores de cheiro bom. No andar de baixo ficava a seção de passageiros, com uma sala de espera de bancos rústicos e  um balcão para a emissão de passagens e o manuseio de bagagens. No fim de  tudo  ficava a confusa seção geral, cujo mero nome dava uma idéia do vago de seus atributos, e onde morriam de morte os problemas que permaneciam por  resolver no resto da empresa. Ali estava Leona Cassiani, perdida atrás de uma carteira escolar entre um montão de sacos de milho arrumados e papéis sem solução, no dia em que o tio Leão XII em pessoa foi ver que diabo lhe ocorreria para fazer com que a seção geral servisse para alguma coisa. Ao fim de três horas de perguntas, de suposições teóricas e averiguações concretas com todos  os  empregados em plenário, voltou ao seu escritório atormentado pela certeza de não haver encontrado nenhuma solução para tantos problemas, e sim o contrário: novos e variados problemas para solução nenhuma.
No dia seguinte, quando Florentino Ariza entrou  no  seu  escritório, encontrou um memorando de Leona Cassiani, com o pedido de  que o estudasse e mostrasse  em seguida a seu tio, se lhe parecesse pertinente. Era a única que não tinha dito   uma palavra durante a inspeção da tarde anterior. Mantivera-se de  propósito  em  sua digna condição de empregada por caridade, mas no memorando fazia notar que não o fizera por negligência e sim por respeito às hierarquias da seção. Era de uma simplicidade alarmante. Tio Leão XII propusera uma reorganização a fundo, mas Leona Cassiani pensava o contrário, pela lógica simples de que a seção geral não existia na realidade: era a lixeira dos  problemas  encrencados  mas     insignificantes


que as outras seções passavam adiante. A solução, em conseqüência, era eliminar a seção geral, e devolver os problemas para serem resolvidos em suas seções de origem.
Tio Leão XII não tinha a menor idéia de quem era Leona Cassiani nem recordava ter visto alguém que pudesse ser ela na reunião da tarde anterior, mas quando leu o memorando chamou-a ao seu escritório e conversou com ela a portas fechadas durante duas horas. Falaram um pouco de tudo, de acordo com o método que ele usava para conhecer as pessoas. O memorando era de simples senso comum, e a solução deu, com efeito, o resultado apetecido. Mas isso não importava para tio  Leão XII: importava ela. O que mais lhe chamou a atenção foi que seus únicos estudos depois do primário tinham sido na Escola de Chapelaria. Além disso, estava aprendendo inglês em casa por um rápido método sem mestre, e três meses  tinha aulas noturnas de datilografia, um ofício moderno de grande futuro, como antes se dizia do telégrafo e se dissera antes das máquinas a  vapor.
Quando saiu da entrevista já tio Leão XII tinha começado a chamá-la como a chamaria sempre: xará Leona. Resolvera eliminar de uma penada a seção conflituosa e repartir os problemas de maneira a que fossem resolvidos pelos mesmos que os criavam, de acordo com a sugestão de Leona Cassiani, e inventara para ela um posto sem nome e sem funções específicas, que na prática era o de assistente pessoal sua. Essa tarde, depois do enterro sem flores da seção geral, tio Leão XII perguntou a Florentino Ariza de onde havia tirado Leona Cassiani, e ele respondeu com a verdade.
— Pois volte ao bonde e me traga todas as que encontrar como esta — disse o   tio.
   Com mais duas ou três assim botamos o seu galeão a  flutuar.
Florentino Ariza entendeu isso como uma piada típica de tio Leão XII, mas no  dia seguinte se viu sem o carro que lhe haviam designado seis meses antes, e que agora lhe tiravam para que continuasse buscando talentos ocultos nos bondes.  Leona Cassiani, por sua parte, perdeu em breve seus escrúpulos iniciais, e tirou de dentro de si tudo que tinha guardado com tanta astúcia nos primeiros três anos. Em três mais abarcara o controle de tudo, e nos quatro seguintes chegou às portas da secretaria geral, mas se negou a entrar porque estava apenas um escalão abaixo de Florentino Ariza. Até então tinha estado sob suas ordens, e queria  continuar estando, embora a realidade fosse outra: o próprio Florentino Ariza não se dava  conta de que era ele quem estava debaixo das ordens dela. Assim era: ele não fizera mais do que cumprir o que ela sugeria na Direção Geral para ajudá-lo a subir contra os ardis de seus inimigos ocultos.
Leona Cassiani tinha um talento diabólico para manejar segredos,  e  sempre  sabia estar onde devia no momento justo. Era dinâmica, silenciosa, de uma doçura sábia. Mas quando era indispensável, com a dor na alma, soltava as rédeas a um caráter de ferro maciço. Contudo, nunca o usou para si mesma. Seu único objetivo  foi varrer a escada a qualquer preço, com sangue se não havia outro jeito, para que


Florentino Ariza subisse até onde se havia proposto sem calcular muito bem a própria força. Ela teria feito o mesmo de qualquer maneira, é claro, por sua indomável vocação de poder, mas a verdade é que o fez de forma consciente e por pura gratidão. Era tal sua determinação que o próprio Florentino  Ariza se perdeu  em seus manejos, e num momento de pouca sorte procurou fechar-lhe o caminho pensando que ela procurava fechar o dele. Leona Cassiani colocou-o .em seu lugar.
   Não se engane — disse. — Eu me afasto de tudo isso quando você quiser, mas pense bem antes.
Florentino Ariza, que na Verdade não tinha pensado bem, pensou então  o  melhor que pôde, e lhe entregou suas armas. O certo é que em meio àquela guerra sórdida dentro de uma empresa em crise perpétua, em meio a seus desastres de falcoeiro sem sossego e à ilusão cada vez mais incerta de Fermina Daza,  o  impassível Florentino Ariza não tivera um instante de paz interior diante do espetáculo fascinante daquela negra brava besuntada de merda e de amor na febre  da peleja. Tanto assim que muitas vezes lamentou em segredo que ela não tivesse sido na realidade o que ele acreditava que fosse na tarde  em que a conheceu, para  ter limpado o traseiro com seus princípios e ter feito o amor com ela ainda que pago com pepitas de ouro vivo. Pois Leona Cassiani continuava sendo igual à daquela  tarde no bonde, com as mesmas roupas de roceira espaventosa, seus turbantes loucos, seus brincos e pulseiras de osso, seu maço de colares e seus anéis de pedras falsas em todos os dedos: uma leoa de rua. O muito pouco que os anos lhe haviam acrescentado por fora era para seu bem. Navegava numa maturidade esplêndida, seus encantos de mulher eram mais inquietantes, e seu ardoroso corpo de africana se ia fazendo mais denso com a madureza. Florentino Ariza não tinha tornado a se insinuar em dez anos, pagando assim a dura penitência do erro original, e ela o ajudara em tudo, menos nisso.
Uma noite em que ficou trabalhando até muito tarde, como fazia com freqüência depois da morte da mãe, Florentino Ariza já saía quando viu luz no escritório de Leona Cassiani. Abriu a porta sem bater, e ali estava: no escritório, absorta, séria, com uns óculos novos que lhe davam um semblante acadêmico. Florentino Ariza constatou com um pavor ditoso que estavam os dois sós na casa, estavam os cais desertos, a cidade adormecida, a noite eterna no mar tenebroso, o bramido triste de um navio que ainda levaria mais de uma hora a chegar. Florentino Ariza se apoiou no guarda-chuva com as duas mãos, tal como havia feito na ruela do Candeeiro para lhe fechar o caminho, que agora o fazia para não demonstrar a desarticulação dos joelhos.
   Diga-me uma coisa, leoa de minh'alma — disse: — quando vamos sair disto?
Ela tirou os óculos sem surpresa, com um domínio absoluto, e  o deslumbrou  com seu riso solar. Nunca o chamara de você.
   Ai, Florentino Ariza — disse — estou há dez anos sentada aqui esperando que você me pergunte. Era tarde: a ocasião ia com ela no bonde de burro, tinha estado


sempre com ela na mesma cadeira em que estava sentada, mas agora tinha ido para sempre. A verdade era que depois de tantas cachorradas subterrâneas que  tinha  feito por ele, depois de tanta sordidez suportada para ele, ela se adiantava na vida e estava muito para lá dos vinte anos de idade que ele tinha de vantagem: tinha envelhecido para ele. Ela o queria tanto que em vez de enganá-lo, preferiu continuar no seu amor por ele ainda que tivesse que fazê-lo saber disso de uma forma  brutal.
   Não — disse a ele. — Eu me sentiria como se estivesse indo para a cama com o filho que nunca tive.
Florentino Ariza guardou em si o espinho de que não tivesse sido sua a última palavra. Pensava que quando uma mulher diz que não, está esperando que insistam com ela antes de tomar a decisão final, mas com ela era diferente: não podia brincar com o risco de se equivocar uma segunda vez. Retirou-se de boa vontade, e mesmo com uma certa graça que não lhe era fácil manter. A partir dessa noite, qualquer sombra que pudesse haver entre eles se dissipou sem ressentimento, e Florentino Ariza compreendeu por fim que se pode ser amigo de uma mulher sem ir para a cama com ela.
Leona Cassiani foi o único ser humano a quem Florentino Ariza esteve tentado a revelar o segredo de Fermina Daza. As poucas pessoas que o conheciam começavam  a esquecê-lo por motivo de força maior. Três delas o haviam levado consigo para o túmulo sem dúvida nenhuma: sua mãe, que desde muito antes de morrer já o havia apagado da memória; Gala Placídia, morta de boa velhice a serviço da que lhe foi quase uma filha; e a inesquecível Escolástica Daza, a que lhe havia levado dentro de um livro de missa a primeira carta de amor que recebeu na vida, e que não podia mais estar viva depois de tantos anos. Lorenzo Daza, de quem não se sabia então se vivia ou estava morto, podia tê-lo revelado à irmã Franca de Ia Luz procurando  evitar a expulsão, mas era pouco provável que o houvessem divulgado. Restava contar onze telegrafistas da província longínqua de Hildebranda Sánchez, que tinham manipulado telegramas com seus nomes completos e endereços exatos, e ainda Hildebranda Sánchez e sua corte de primas indômitas.
O que Florentino Ariza ignorava era que o doutor Juvenal Urbino devia ser incluído na conta. Hildebranda Sánchez lhe havia revelado o segredo em algumas de suas tantas visitas dos primeiros anos. Mas o fez de forma tão casual e num momento tão inoportuno que, ao contrário do que ela pensou, não entrou por um ouvido do doutor Urbino e saiu pelo outro, pois não entrou por ouvido nenhum. Hildebranda, na verdade, tinha mencionado Florentino Ariza como um dos poetas escondidos que segundo ela tinham possibilidades de ganhar os Jogos Florais. O doutor Urbino teve de fazer um esforço para se lembrar quem era, e  ela lhe disse sem que fosse indispensável mas sem um pingo de malícia que  ele fora o único  noivo que Fermina Daza tinha tido antes de se casar. Falou convencida de que se tratara de algo tão inocente e efêmero que era mais comovente do que outra coisa qualquer. O doutor Urbino respondeu sem olhá-la: "Não sabia que esse sujeito era


poeta." E o apagou da memória no mesmo instante, entre outras coisas porque sua profissão o acostumara a um manejo ético do  esquecimento.
Florentino Ariza observou que os depositários do segredo, com exceção de sua mãe, pertenciam ao mundo de Fermina Daza. No seu estava ele, com o peso esmagador de uma carga que muitas vezes necessitara compartilhar, mas ninguém até então lhe merecera tanta confiança. Leona Cassiani era a única possível, e ele estava esperando a maneira e a ocasião. Nisto pensava na tarde de bochorno estivai em que o doutor Juvenal Urbino subiu as escadas empinadas da  C.F.C., fazendo  uma pausa em cada degrau para sobreviver ao calor das três, e apareceu arquejante no escritório de Florentino Ariza empapado de suor até nas calças, e disse com o último alento: "Acho que vem para cima de nós um ciclone." Florentino Ariza o vira ali muitas vezes, em busca do tio Leão XII, mas nunca tivera como agora a impressão tão nítida de que aquela aparição indesejável tinha algo a ver com sua vida.
Era a época em que também o doutor Juvenal Urbino tinha superado  os  escolhos da profissão, e andava quase de porta em porta feito um mendigo  de chapéu na mão, buscando contribuições para suas promoções artísticas. Um  dos seus contribuintes mais assíduos e pródigos foi sempre tio Leão XII, que naquele justo momento começara a fazer sua sesta diária de dez minutos, sentado na poltrona de molas da mesa de trabalho. Florentino Ariza pediu ao doutor Juvenal Urbino o favor de esperar em seu escritório, contíguo ao do tio Leão XII e que de certa forma lhe servia de sala de espera.
Em diversas ocasiões se haviam visto, mas nunca tinham estado assim, frente a frente, e Florentino Ariza padeceu mais uma vez a náusea de se sentir inferior. Foram dez minutos eternos, durante os quais se levantou  três vezes na esperança   de que o tio tivesse acordado antes do tempo, e tomou uma garrafa térmica inteira   de café puro. O doutor Urbino não aceitou nem uma xícara. Disse: "Café é veneno."  E continuou encadeando um tema ao outro sem sequer se preocupar em ser escutado. Florentino Ariza não podia suportar sua distinção natural, a fluidez e precisão de suas palavras, seu hálito recôndito de cânfora, seu encanto pessoal, a maneira tão fácil e elegante com que conseguia que mesmo as frases mais frívolas,  porque ele as dizia, parecessem essenciais. De repente, o médico mudou de tema de um modo abrupto.
   Gosta de música?
Pegou-o de surpresa. Na realidade, Florentino Ariza assistia a quantos concertos ou representações de ópera houvesse na cidade, mas não se sentia capaz de manter uma conversação crítica ou bem informada. Tinha um xodó pela música da moda, sobretudo as valsas sentimentais, cuja afinidade com as que ele mesmo compunha quando adolescente, ou com seus versos secretos, não era possível negar. Bastava ouvi-las uma vez de passagem para que logo não houvesse força de Deus que lhe tirasse  da  cabeça o fio da  melodia durante noites inteiras. Mas  isso não seria   uma


resposta séria para uma pergunta tão séria de um especialista.
   Gosto de Gardel — disse.
O doutor Urbino compreendeu. "Sei", disse. "Está na moda." E se embarafustou pelo relato de seus novos e numerosos projetos, que havia de realizar como sempre sem subsídio oficial. Acentuou que era de cortar o coração a inferioridade dos espetáculos que era possível trazer agora diante dos esplêndidos do século anterior. Assim era: um ano vendia assinaturas para trazer o trio Cortot-CasalsThibaud ao Teatro da Comédia, e não havia ninguém no governo que soubesse quem eram, enquanto para aquele mesmo mês estavam esgotados os lugares para a companhia  de peças policiais Ramón Caralt, para a Companhia de Operetas e Zarzuelas de Manolo de Ia Presa, para os Santane-las, inefáveis transformistas mímico- fantásticos que trocavam de roupa em cena aberta no instante de um relâmpago fosforescente, para Danyse d'Altaine, que se apresentava como antiga bailarina do Folies Bergère, e até para o abominável Ursus, um energúmeno basco que lutava corpo a corpo com um touro de tourada. No entanto, não era o caso de nos queixarmos, quando os próprios europeus davam uma vez mais o mau exemplo de uma guerra bárbara, quando nós começávamos a viver em paz depois de nove guerras civis em meio século, as quais bem contadas podiam ser uma só: sempre a mesma. O que mais chamou a atenção de Florentino Ariza naquele discurso cativante foi a possibilidade de retomar os Jogos Florais, a mais conhecida e duradoura das iniciativas que o doutor Juvenal Urbino concebera no passado. Teve que morder a língua para não contar que ele próprio fora participante assíduo daquele concurso anual que chegou a interessar poetas de grande nome, não no resto do país como em outros do  Caribe.
Apenas começada a conversa, o vapor quente do ar esfriou de repente, e uma tempestade de ventos cruzados sacudiu portas e janelas com fortes estampidos, e o escritório rangeu até os alicerces feito um veleiro à deriva. O doutor Juvenal Urbino não pareceu reparar. Fez alguma referência casual aos ciclones lunáticos de junho, e de repente, sem que viesse ao caso, falou na esposa. Não a tinha como sua colaboradora mais entusiasta, como era a própria alma de suas iniciativas. Disse:  "Eu não seria ninguém sem ela." Florentino Ariza o escutou impassível, aprovando tudo com um movimento leve da cabeça, sem se atrever a dizer nada por medo de ser traído pela voz. No entanto, duas ou três frases mais lhe bastaram para compreender que o doutor Juvenal Urbino, em meio a tantos compromissos absorventes, ainda encontrava tempo para adorar a esposa quase tanto quanto ele, e essa verdade o aturdiu. Mas não pôde reagir como teria querido, porque o coração lhe pregou então uma dessas putas peças que mesmo ao coração ocorrem: revelou-lhe que ele e aquele homem que considerara sempre como o  inimigo  pessoal eram vítimas de um mesmo destino e partilhavam o azar de uma paixão comum: dois animais de canga jungidos ao mesmo jugo. Pela primeira vez nos vinte e sete anos intermináveis que passava esperando, Florentino Ariza não pôde resistir à pontada de dor de que aquele homem admirável tivesse que morrer para que ele


fosse feliz.
O ciclone passou ao largo, mas suas lufadas destroçaram em quinze minutos os bairros dos pântanos e causaram estragos em metade da cidade. O doutor Juvenal Urbino, satisfeito uma vez mais com a generosidade do tio Leão XII, não esperou que amainasse por completo e carregou por distração o guarda-chuva pessoal que Florentino Ariza lhe emprestou para chegar ao carro. Mas ele não ligou.  Ao contrário: alegrou-se de pensar no que Fermina Daza ia pensar quando soubesse quem era o dono do guarda-chuva. Sentia ainda a comoção da entrevista quando Leona Cassiani passou pelo seu escritório, e a ocasião lhe pareceu  única  para  revelar o segredo sem mais rodeios, que era como arrebentar um cacho de furúnculos que não o deixava viver: agora ou nunca. Começou por lhe perguntar  que achava do doutor Juvenal Urbino. Ela respondeu quase sem pensar: "É um homem que faz muitas coisas, demasiadas talvez, mas acho que ninguém sabe o   que pensa." Depois refletiu, despedaçando a borracha do lápis com os  dentes  afiados e grandes, de negra grande, e afinal deu de ombros para liquidar um assunto que não a preocupava.
    Vai ver que é por isso que faz tantas coisas — dis- se: para não ter que pensar.
Florentino Ariza tentou retê-la.
   O que me dói é que tem de morrer —  disse.
   Todo mundo tem de morrer — disse ela.
   Sim — disse ele — mas este mais que todo  mundo.
Ela não entendeu nada: tornou a dar de ombros sem falar, e foi embora. Então Florentino Ariza soube que em alguma noite incerta do futuro, num leito feliz com Fermina Daza, ia contar-lhe que não revelara o segredo de seu amor nem mesmo à única pessoa que conquistara o direito de sabê-lo. Não: não havia de  revelá-lo  nunca, nem à própria Leona Cassiani, não porque não quisesse abrir para ela o cofre onde o guardara tão bem ao longo de meia vida, mas porque então percebeu que tinha perdido a chave.
Não era isso, contudo, o mais perturbador daquela tarde. Ficava-lhe a saudade dos seus tempos de moço, a lembrança vivida dos Jogos Florais, cujo estrondo repercutia cada 15 de abril no âmbito das Antilhas. Ele foi sempre um dos seus protagonistas, mas sempre, como em quase tudo, um protagonista secreto. Participara várias vezes desde o concurso inaugural, e nunca obtivera nem a última menção. Mas não lhe importava, pois não concorria pela ambição do prêmio e sim porque o certame tinha para ele uma atração adicional: Fermina Daza foi a encarregada de abrir os envelopes lacrados e proclamar o nome dos vencedores na primeira sessão, e desde então ficou estabelecido que  continuasse  a  fazê-lo  nos anos seguintes.
Escondido  na  penumbra  das  poltronas,  com  uma  camélia  viva  pulsando    na


botoeira da lapela com a força da sua ansiedade, Florentino Ariza viu Fermina Daza abrindo os três envelopes lacrados no palco do antigo Teatro Nacional, na noite do primeiro concurso. A si mesmo perguntou o que ia suceder no coração dela quando descobrisse que era ele o ganhador da Orquídea de Ouro. Tinha certeza de que ela reconheceria a letra, e que naquele instante havia de evocar as tardes de bordados debaixo das amendoeiras da pracinha, o odor das gardênias murchas nas cartas, a valsa confidencial da deusa coroada nas madrugadas de vento. Não aconteceu. Pior ainda: a Orquídea de Ouro, o galardão mais cobiçado da poesia nacional, foi concedida a um imigrante chinês. O escândalo público que a decisão insólita provocou pôs em dúvida a seriedade do certame. Mas a sentença foi justa e a unanimidade do júri tinha sua justificação na excelência do  soneto.
Ninguém acreditou que o autor fosse o chinês premiado. Chegara em fins do século anterior fugindo ao flagelo de febre amarela que assolou o Panamá durante a construção da estrada de ferro dos dois oceanos, junto com muitos outros que aqui ficaram até morrer, vivendo em chinês, proliferando em chinês, e tão parecidos uns com os outros que não havia quem os distinguisse. De início não passavam de dez, alguns com as mulheres e os filhos e os cachorros de comer, mas em poucos anos inundaram quatro vielas dos arrabaldes do porto com novos chineses intempestivos que entravam no país sem deixar rastro nos registros alfandegários. Alguns dos jovens se converteram em patriarcas veneráveis com tanta precipitação  que  ninguém explicava como tinham tido tempo de envelhecer. A intuição popular dividiu-os em duas classes: os chineses maus e os chineses bons. Os maus eram os das estalagens lúgubres do porto, onde tanto se comia como um rei ou se morria de repente na mesa diante de um prato de rato com girassóis, e das quais se suspeitava que não passavam de biombos do comércio de brancas e do tráfico de tudo. Os bons eram os chineses das lavanderias, herdeiros de uma ciência sagrada, que devolviam as camisas mais limpas do que se fossem novas, com colarinhos e punhos feito hóstias recém engomadas. Foi um desses chineses bons que derrotou nos Jogos Florais setenta e dois rivais bem apetrechados.
Ninguém entendeu o nome quando Fermina Daza o leu espantada. Não por  ser um nome insólito, como porque de toda maneira ninguém sabia de ciência certa como se chamavam os chineses. Mas não havia muito que pensar, porque o chinês premiado surgiu do fundo da platéia com esse sorriso celestial que têm os chineses quando chegam cedo em casa. Tinha ido tão seguro da vitória que vestia para  receber o prêmio a camisola de seda amarela dos ritos da primavera. Recebeu a Orquídea de Ouro de dezoito quilates, e a beijou de ventura em meio às troças estrondosas dos incrédulos. Não se alterou. Esperou no centro da cena, imperturbável como o apóstolo de uma Divina Providência menos dramática do que a nossa, e no primeiro silêncio leu o poema premiado. Ninguém o entendeu. Mas quando passou o novo bombardeio de vaias, Fermina Daza leu-o de novo, impassível, com sua afônica voz insinuante, e o assombro se  impôs  desde  o primeiro   verso.   Era   um   soneto   da  mais   pura   estirpe   parnasiana,     perfeito,


atravessado por uma brisa de inspiração que delatava a cumplicidade de alguma  mão de mestre. A única explicação plausível era que algum poeta dos  grandes  tivesse concebido aquela troça para zombar dos Jogos Florais, e que o chinês se prestara a ela com a determinação de guardar segredo até a morte. O Diário do Comércio, nosso jornal tradicional, tratou de remendar o prestígio cívico com um ensaio erudito e mais para indigesto sobre a antigüidade e a influência cultural dos chineses no Caribe, e seu merecido direito de participar nos Jogos Florais. Quem escreveu o ensaio não duvidava de que o autor do soneto fosse na realidade quem dizia ser e o justificava sem rodeios desde o título: Todos os chineses são poetas. Os promotores da conjura, se houve, apodreceram em seus sepulcros com  o segredo.  De sua parte, o chinês premiado morreu sem confissão numa idade oriental, e foi enterrado com a Orquídea de Ouro dentro do ataúde, mas com a amargura de  não  ter conseguido em vida a única coisa a que aspirava, que era seu crédito de poeta.  Por motivo da morte se evocou na imprensa o incidente esquecido dos  Jogos  Florais, se reproduziu o soneto com uma vinheta modernista de donzelas r urgi d as com cornucópias de ouro, e os deuses custódios da  poesia se valeram  da  ocasião para pôr as coisas em seu lugar: o soneto pareceu tão ruim à nova geração que já ninguém pôs em dúvida que na realidade fora escrito pelo chinês  morto.
Florentino Ariza associou sempre aquele escândalo à lembrança de uma desconhecida opulenta que se sentava ao seu lado. Reparara nela no princípio do  ato, mas depois a esquecera no susto da espera. Ela lhe chamou a atenção por sua brancura de nácar, sua fragrância de gorda feliz, seu grande peito de soprano  coroado por uma magnólia artificial. Usava um vestido de veludo preto muito apertado, tão preto quanto os olhos ansiosos e cálidos, e tinha o cabelo mais preto ainda, estirado na nuca com uma travessa de cigana. Usava brincos pendentes, colar do mesmo estilo e anéis iguais em vários dedos, todos de placas brilhantes, e um sinal pintado a lápis na face direita. Na confusão dos aplausos finais, olhou Florentino Ariza com uma aflição sincera.
   Acredite que sinto muito disse.
Florentino Ariza se impressionou, não pelas condolências que na realidade merecia e sim pelo assombro de que alguém conhecesse seu segredo.  Ela esclareceu: "Percebi pela maneira como tremia a flor da sua lapela enquanto se abriam os envelopes." Mostrou-lhe a magnólia de pelúcia que tinha na mão, e lhe abriu o coração:
   Eu por isso tirei a minha disse.
Estava a ponto de chorar devido à derrota, mas Florentino Ariza lhe mudou o ânimo com seu instinto de caçador noturno.
   Vamos a algum lugar para chorar juntos disse.
Acompanhou-a à casa dela. na porta, e em vista de ser quase meia-noite e não haver ninguém na rua, convenceu-a a convidá-lo para um conhaque enquanto viam os álbuns de recortes e fotografias de mais de dez anos de acontecimentos públicos,


que ela dizia ter. O truque já então era velho, mas dessa vez foi involuntário, porque ela é que falara nos álbuns enquanto caminhavam depois de deixar o Teatro Nacional. Entraram. A primeira coisa que observou Florentino Ariza ao  chegar à  sala foi que a porta do único quarto estava aberta, e que a cama era vasta  e  suntuosa, com uma colcha de brocado e cabeceira de ramagens de bronze.  Esta  visão o perturbou. Ela deve ter percebido, pois se adiantou pela sala e fechou a porta do quarto. Convidou-o em seguida a se sentar num canapé de cretone florido onde dormia um gato, e colocou na mesa de centro sua coleção de álbuns. Florentino  Ariza começou a folheá-los sem pressa, pensando mais nos passos seguintes do que no que via, e de repente levantou o rosto e viu que os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Aconselhou-a a chorar quanto quisesse, sem pudor, pois nada aliviava como o pranto, mas sugeriu que afrouxasse o corpinho para chorar. Apressou-se a ajudá-la, porque o corpinho se ajustava à força nas costas com uma grande costura  de cordões cruzados. Não precisou acabar, pois o corpinho acabou de se soltar pela pura pressão interna, e a tetaria astronômica respirou a seu bel-prazer.
Florentino Ariza, que nunca perdera o susto da primeira vez, mesmo nas  ocasiões mais fáceis, arriscou-se a uma carícia epidérmica no pescoço com a ponta dos dedos, e ela se retorceu com um gemido de menina que consente sem deixar de chorar. Então ele a beijou no mesmo lugar, como fizera com os dedos, e não pôde fazê-lo uma segunda vez porque ela se voltou para ele com todo o seu corpo monumental, ávido e quente, e ambos rolaram pelo chão abraçados. O gato acordou no sofá com um guincho, e saltou para cima deles. Eles se buscaram às tontas como novatos apressados e se encontraram de qualquer jeito, se revirando sobre  os  álbuns desfolhados, vestidos, ensopados de suor, e mais inclinados a evitar as unhadas furiosas cio gato coque o desastre de amor que estavam cometendo. Mas a parti: da noite seguinte, com as feridas ainda sangrando, continuaram a fazê-lo por vários anos.
Quando percebeu que tinha começado a amá-la, ela já estava na plenitude dos quarenta, e ele ia fazer trinta. Chamava-se Sara Noriega, e tivera um quarto de hora de celebridade na juventude, ao ganhar um concurso com um livro de versos sobre    o amor dos pobres, que nunca foi publicado. Era professora de Urbanidade e Instrução Cívica em escolas oficiais, e vivia do seu ordenado numa casa alugada no multicolorido conjunto da Passagem dos Noivos, no antigo bairro de Getsêmani. Tivera vários amantes de ocasião, mas nenhum com ilusões matrimoniais, porque era difícil que algum homem do seu meio e do seu tempo se casasse com uma  mulher com quem tivesse dormido. Tampouco ela tornou a alimentar essa ilusão depois que seu primeiro noivo formal, a quem amou  com a paixão quase demente  de que era capaz aos dezoito anos, escapou ao compromisso uma semana antes da data prevista para as bodas, e a deixou perdida num limbo de noiva enganada. Ou de solteira usada, como se dizia então. Contudo, aquela primeira experiência, ainda  que cruel e efêmera, não lhe deixou nenhum azedume, a convicção deslumbrante de que com casamento ou sem ele, sem Deus ou sem lei, não valia a pena viver se


não fosse para ter um homem na cama. O que mais Florentino Ariza apreciava nela era que enquanto fazia o amor tinha que chuchar uma chupeta para  alcançar a  glória plena. Chegaram a ter uma réstia de todos os tamanhos, formas e cores encontradiços no mercado, e Sara Noriega pendurava as chupetas na cabeceira da cama para encontrá-las às cegas nos momentos de extrema  urgência.
Embora ela fosse tão livre quanto ele, e talvez não se opusesse a que suas  relações fossem públicas, Florentino Ariza as arrumou desde o princípio como aventura clandestina. Esgueirava-se pela porta de serviço, quase sempre tarde da noite, e escapava na ponta do pé pouco antes de raiar o dia. Tanto ela quanto ele sabiam que numa moradia compartilhada e populosa como aquela, os vizinhos no fim das contas deviam estar mais inteirados do que davam a entender. Mas ainda  que fosse uma simples fórmula, Florentino Ariza era assim, e assim seria com todas até o fim da vida. Nunca cometeu um erro, nem com ela nem com qualquer outra, nunca incorreu numa deslealdade. Não exagerava: numa ocasião deixou um rastro comprometedor ou prova escrita, o que teria podido custar-lhe a vida. Na realidade, comportou-se sempre como se fosse o esposo eterno de  Fermina Daza,  um esposo infiel mas tenaz, que lutava sem tréguas para se libertar da sua servidão, mas sem causar o desgosto de uma traição.
Semelhante hermetismo não podia prosperar sem equívocos. A própria Trânsito Ariza morreu convencida de que o filho concebido por amor e criado para o amor estava imune a toda forma de amor devido a sua primeira adversidade juvenil. Contudo, muitas pessoas menos benévolas que estiveram muito próximas dele, que conheciam seu caráter misterioso e sua predileção por indumentárias místicas e loções raras, partilhavam da suspeita de que ele não era imune ao amor, e sim à mulher. Florentino Ariza sabia disto e nunca fez nada para desmenti-lo. Isso tampouco preocupou Sara Noriega. Tal como as outras mulheres incontáveis que amou, e mesmo as que lhe agradavam e o achavam agradável sem amá-lo, aceitou-o como aquilo que era na realidade: um homem de passagem.
Acabou por aparecer em sua casa a qualquer hora, sobretudo nas manhãs de domingo, que eram as mais pacatas. Ela abandonava o que estivesse fazendo, fosse   o que fosse, e se consagrava de corpo inteiro a fazê-lo feliz na enorme cama  enfeitada que esteve sempre à disposição dele, e na qual nunca permitiu a adoção    de formalismos litúrgicos. Florentino Ariza não compreendia como  uma solteira sem passado podia ser tão sábia em assuntos de homens, nem como podia manejar seu doce corpo de delfina com tanta leveza e tanta ternura, como se se movesse por baixo d'água. Ela se defendia dizendo que o amor, antes de mais nada, era um talento natural. Dizia: "Ou se nasce sabendo ou não se sabe  nunca." Florentino  Ariza se retorcia de ciúmes regressivos pensando que talvez ela fosse mais passeada do que dizia ser, mas tinha que engolir as suspeitas inteiras porque também ele lhe dizia, como dizia a todas, que ela fora sua única amante. Entre muitas outras coisas que lhe apraziam menos, precisou resignar-se a ter na cama o gato furioso, cujas garras eram embotadas por Sara Noriega para que não dilacerasse os dois a  unhadas


enquanto faziam amor.
Contudo, quase tanto quanto gostava de folgar na cama até o esgotamento, ela gostava de consagrar as fadigas do amor ao culto da poesia. Não tinha uma memória assombrosa para os versos sentimentais do seu tempo, cujas novidades se vendiam em folhetos populares de dois centavos, como gravara com alfinetes na parede os poemas de que gostava mais, para lê-los em voz alta a qualquer hora.  Tinha feito uma versão em endecassílabos pares dos textos de Urbanidade e Instrução Cívica, como os que se usavam para a ortografia, mas não conseguiu a aprovação oficial. Era tal seu arrebatamento declamatório que às vezes continuava recitando aos gritos enquanto fazia amor, e Florentino Ariza tinha que pôr-lhe a chupeta na boca à viva força, como se fazia com as crianças para que parassem de chorar.
Na plenitude de suas relações, Florentino Ariza se perguntara qual dos dois estados seria o amor, o da cama turbulenta ou o das tardes aprazíveis dos domingos, e Sara Noriega o tranqüilizou com o argumento singelo de que tudo que fizessem nus era amor. Disse: "Amor da alma da cintura para cima e amor  do  corpo  da cintura para baixo." Esta definição pareceu a Sara Noriega boa para um poema sobre o amor dividido, que escreveram a quatro mãos, e que ela apresentou nos quintos Jogos Florais, convencida de que ninguém participara até então com um poema tão original. Mas tornou a perder.
Estava furibunda enquanto Florentino Ariza a acompanhava a casa. Por alguma razão que não sabia explicar, tinha a convicção de que a manobra fora urdida contra ela por Fermina Daza, para não premiar seu poema. Florentino Ariza não lhe prestou atenção. Estava de um humor sombrio desde a entrega dos prêmios, pois muito tempo não via Fermina Daza e aquela noite teve a impressão de que sofrerá uma mudança profunda: pela primeira vez notava-se a um simples olhar sua condição de mãe. Não era novidade para ele, pois sabia que o filho já ia à escola. Contudo, sua idade maternal não lhe parecera antes tão evidente quanto naquela noite, tanto pelo diâmetro da cintura e seu andar um tanto incerto como pelas hesitações de voz quando leu a lista dos prêmios.
Procurando documentar suas lembranças, tornou a folhear os álbuns dos Jogos Florais enquanto Sara Noriega preparava algo de comer. Viu cromos de revistas, postais amarelecidos dos que se vendiam como lembrança nos portais de loja, e foi como uma reprise fantasmagórica da falácia de sua própria vida. Até então fora sustentado pela ficção de que era o mundo que passava, os costumes, a moda: tudo menos ela. Mas naquela noite viu pela primeira vez de forma consciente  como  a vida de Fermina Daza estava passando, e como passava a sua própria, enquanto ele nada fazia além de esperar. Nunca falara dela com ninguém, porque se  sabia  incapaz de pronunciar o nome sem que se notasse a palidez dos  seus lábios. Mas  esta noite, enquanto folheava os álbuns como em outras tantas noitadas de tédio dominical, Sara Noriega teve um desses acertos casuais que eram de gelar o  sangue.


   É uma puta — disse.
Disse de passagem, vendo uma gravura de Fermina Daza fantasiada de pantera negra num baile de máscaras, e não teve que especificar ninguém para que Florentino Ariza soubesse de quem falava. Temendo alguma revelação que o fosse perturbar pelo resto da vida, avançou uma defesa cautelosa. Alegou que conhecia Fermina Daza de longe, que nunca tinham passado dos cumprimentos formais  e  não tinha notícia nenhuma de sua intimidade, mas cava como certo que era uma mulher admirável, surgida do nada e enaltecida por seus próprios méritos.
   Por obra e graça de um casamento, de interesse com um homem que não   ama
   interrompeu Sara Noriega. — É a maneira mais baixa de ser puta.
Com menos crueza mas igual rigidez morai, a mãe tinha dito o mesmo a Florentino Ariza procurando consolá-lo de suas desventuras. Perturbado até o tutano dos ossos, não achou uma resposta oportuna para a inclemência de Sara Noriega, e tratou de se esquivar ao tema. Mas Sara Noriega não deixou, até que acabasse de desabafar contra Fermina Daza. Por um golpe de intuição que não teria podido explicar, estava convencida de que ela fora autora da conspiração para lhe escamotear o prêmio. Não havia nenhuma razão para  isso: não  se  conheciam, não se tinham visto nunca, e Fermina Daza não tinha nada a ver com as decisões do concurso, embora estivesse ao corrente dos seus segredos. Sara Noriega disse de um modo terminante: "Nós mulheres somos adivinhas." E pôs fim à discussão.
A partir desse momento, Florentino Ariza a viu com outros olhos. Também para ela passavam os anos. Sua natureza feraz murchava sem glória, seu amor perdurava em soluços, e suas pálpebras começavam a mostrar a sombra das velhas tristezas. Era uma flor de ontem. Além disso, na fúria da derrota perdera a conta dos conhaques. Não estava em uma boa noite: enquanto comiam o arroz de coco requentado, procurou estabelecer qual tinha sido a contribuição de cada um no poema derrotado, para saber quantas pétalas da Orquídea de Ouro teriam correspondido a cada qual. Não era a primeira vez que se entretinham em torneios bizantinos, mas ele aproveitou a ocasião para se vingar do golpe recente e se enredaram numa discussão mesquinha que revolveu em ambos os rancores  de  quase cinco anos de amor dividido.
Quando faltavam dez minutos para as doze, Sara Noriega trepou numa cadeira para dar corda no relógio de pêndulo, e o colocou de memória na hora certa, talvez querendo dizer sem dizê-lo que era hora de ir embora. Florentino Ariza sentiu então a urgência de cortar pela raiz aquela relação sem amor, e buscou a ocasião de tomar ele a iniciativa: como faria sempre. Rogando a Deus que Sara Noriega o convidasse   a ficar na cama dela de modo que ele pudesse dizer que não, que estava  tudo acabado entre eles, pediu-lhe que se sentasse ao seu lado quando acabou de dar corda no relógio. Mas ela preferiu manter-se à distância na poltrona das visitas. Florentino Ariza lhe estendeu então o dedo empapado de conhaque para que ela o chupasse, como  gostava de  fazer nos  preâmbulos  do  amor de  outra época. Ela     o


afastou.
— Agora não — disse. — Estou esperando alguém.
Desde que foi repudiado por Fermina Daza, Florentino Ariza aprendera a ficar sempre com a última palavra. Em circunstâncias  menos penosas  teria persistido  nos assédios a Sara Noriega, certo de terminar a noite rolando com  ela na cama,  pois estava convencido de que uma mulher que vai para a cama com um homem uma vez continuará indo para a cama com ele cada vez que ele queira, desde que saiba enternecê-la a cada vez. Tinha suportado tudo em nome  dessa  convicção, tinha passado por cima de tudo mesmo nos negócios mais sujos do amor, com o fim de não conceder a nenhuma mulher nascida de mulher a oportunidade da última palavra. Mas aquela noite se sentiu tão humilhado que tomou o conhaque de um trago, fazendo todo o possível para que transparecesse seu rancor, e foi embora sem se despedir. Não tornaram a se ver.

A relação com Sara Noriega foi uma das mais longas e estáveis de Florentino Ariza, embora não fosse a única que manteve naqueles cinco anos. Quando compreendeu que se sentia bem com ela, sobretudo na cama, mas que jamais conseguiria substituir Fermina Daza por ela, recrudesceram suas noites de caçador solitário, e dava um jeito de repartir seu tempo e suas forças para que bem rendessem. Contudo, Sara Noriega operou o milagre de aliviá-lo durante algum tempo. Ao menos pôde viver sem ver Fermina Daza, ao contrário do que acontecia antes, quando interrompia a qualquer hora o que estivesse fazendo para buscá-la pelos rumos incertos dos seus presságios, nas ruas menos imagináveis, em lugares irreais onde era impossível que estivesse, vagando sem sentido com umas ânsias no peito que não lhe davam trégua até que a visse por um instante que fosse. O rompimento com Sara Noriega, pelo contrário, alvoroçou de novo suas saudades adormecidas, e se sentiu outra vez como nas tardes da pracinha e das leituras intermináveis, agora agravadas pela urgência da noção de que o doutor Juvenal Urbino tinha que morrer.
Sabia havia algum tempo que estava predestinado a fazer feliz uma viúva, e a ser feito feliz por ela, e isso não o preocupava. Pelo contrário: estava preparado. De tanto conhecê-las em suas incursões de caçador solitário, Florentino Ariza acabaria por saber que o mundo estava cheio de viúvas felizes. Ele as vira enlouquecer de dor diante do cadáver do marido, suplicando que as enterrassem vivas dentro do mesmo caixão para não enfrentar sem ele os azares do futuro, mas à medida que se reconciliavam com a realidade do seu novo estado ele as vira surgir das cinzas com uma vitalidade reverdecida. Começavam vivendo feito parasitas de sombra nos casarões desertos, viravam confidentes das criadas, amantes dos próprios travesseiros, sem nada que fazer depois de tantos anos de cativeiro estéril. Desperdiçavam as horas de sobra cosendo na roupa do morto os botões que nunca tinham tido tempo de pregar, passavam e tornavam a passar a ferro suas camisas  de


punhos e colarinhos de goma para que estivessem sempre perfeitos. Continuavam botando seu sabonete no banheiro, a colcha com suas iniciais na cama, o prato e os talheres em seu lugar na mesa, caso voltassem da morte sem avisar, como costumavam fazer em vida. Mas naquelas missas de solidão iam tomando consciência de que eram outra vez donas de seu arbítrio, depois de terem renunciado não ao seu nome de família como à própria identidade, e tudo isso em troca de uma segurança que não foi mais do que mais uma  de  suas  tantas ilusões de noivas. Só elas sabiam como pesava o homem que amavam com loucura,   e que talvez as amasse, mas que tinham tido que continuar a criar até o último suspiro, dando-lhe de mamar, mudando-lhe as fraldas borradas, distraindo-o com historinhas de mãe para lhe aliviar o terror de sair de manhã e dar de cara com a realidade. E no entanto, quando o viam sair de casa instigado por elas próprias a enfrentar o mundo, então eram elas que ficavam com o terror de que o homem não voltasse nunca. Isso era a vida. O amor, caso houvesse, era uma coisa à parte: outra vida.
No ócio reparador da solidão, em compensação, as viúvas descobriam que  a forma honrada de viver era à mercê do corpo, comendo por fome, amando sem mentir, dormindo sem ter que fingir que dormiam para escapar à indecência do amor oficial, donas por fim do direito a uma cama inteira para elas, na qual ninguém lhes disputasse a metade do lençol, a metade do ar de  respirar, a metade  da noite, até que o corpo se fartava de sonhar seus sonhos próprios, e despertava só. No seu madrugar de caçador furtivo, Florentino Ariza as encontrava à  saída  da missa das cinco, amortalhadas de preto e com o corvo do destino no ombro. Logo  que o vislumbravam na claridade da alba atravessavam a rua e mudavam de calçada com passos miúdos e entrecortados, passos de passarinho, pois o mero passar perto de um homem podia enodoar-lhes a honra. Contudo, era sua convicção que uma viúva desconsolada, mais do que qualquer outra mulher, podia carregar em si a semente da felicidade.
As muitas viúvas de sua vida, a partir da viúva de Nazaret, tinham tornado possível que ele vislumbrasse como eram as casadas felizes depois da morte dos maridos. O que até então tinha sido para ele mera ilusão se converteu graças a elas numa possibilidade que se podia colher com a mão. Não encontrava razões para que Fermina Daza não fosse uma viúva igual, preparada pela vida a aceitá-lo tal como era, sem fantasias de culpa pelo marido morto, resolvida a descobrir com ele a outra felicidade de ser feliz duas vezes, com um amor de uso cotidiano que convertesse cada instante num milagre de viver, e com outro amor, dela só, preservado de todo contágio pela imunidade da morte.
Não teria sido talvez tão entusiástico se tivesse sequer suspeitado como Fermina Daza estava longe daqueles cálculos ilusórios, quando mal começava a vislumbrar o horizonte de um mundo em que tudo estava previsto, menos a adversidade. Ser rico naquele tempo tinha muitas vantagens, e também muitas  desvantagens, é  claro, mas  meio  mundo  aspirava  à  riqueza  como  a  maior  possibilidade  de  ser  eterno.


Fermina Daza tinha repelido Florentino Ariza num rasgo de maturidade que pagou de pronto com uma crise de pena, mas jamais duvidou de que sua decisão tinha sido certa. No momento não pôde explicar a si mesma que causas ocultas da razão lhe haviam dado aquela clarividência, mas muitos anos mais tarde, já nas vésperas da velhice, descobriu-as de repente e sem saber como numa conversação casual sobre Florentino Ariza. Todos os interlocutores conheciam sua condição de delfim da Companhia Fluvial do Caribe em sua época culminante, todos estavam certos de havê-lo visto muitas vezes, inclusive de haverem tratado com ele, mas nenhum conseguia identificá-lo na memória. Foi então que Fermina Daza teve a intuição dos motivos inconscientes que tinham impedido que o amasse. Disse: "É como se não fosse uma pessoa e sim uma sombra." Era isso: a sombra de alguém que ninguém jamais conhecera. Mas enquanto resistia aos assédios do doutor  Juvenal  Urbino, que era o homem contrário, se sentia atormentada pelo fantasma da culpa: o único sentimento que era incapaz de suportar. Quando o sentia vir se apoderava dela uma espécie de pânico que só conseguia controlar quando encontrava alguém para lhe aliviar a consciência. Desde muito menina, quando se quebrava um prato na  cozinha, quando alguém caía, quando ela própria espremia o dedo na porta, voltava- se assustada para o adulto que estivesse mais perto, e se  apressava em  acusá-lo: "Foi sua culpa." Embora na realidade não lhe importasse  quem fosse o culpado,  nem quisesse se convencer da própria inocência: bastava deixá-la estabelecida.
Era um fantasma tão notório que o doutor Urbino percebeu em tempo até que ponto ameaçava a harmonia de sua casa, e logo que o vislumbrava se apressava em dizer à mulher: "Não se preocupe, meu amor, a culpa foi minha." Pois não  havia nada que temesse mais do que as decisões súbitas e definitivas da mulher, e estava convencido de que sempre tinham origem num sentimento de culpa. Contudo, a confusão proveniente do repúdio a Florentino Ariza não se resolvia com alguma  frase de consolo. Fermina Daza continuou abrindo o balcão de manhã  durante  vários meses, e sempre notava a falta do fantasma solitário que a vigiava da pracinha deserta, via a árvore que foi sua, o banco menos visível em que se sentava para ler pensando nela, sofrendo por ela, e tinha que fechar a janela, suspirando: "Pobre homem." Sofreu inclusive a decepção de ver que ele não era tão pertinaz quanto supusera, quando já era tarde demais para remendar o passado,  e  não  deixou de sentir de vez em quando a ansiedade tardia de uma carta que não chegou nunca. Mas quando teve que enfrentar a decisão de se casar com Juvenal Urbino sucumbiu a uma crise maior, ao perceber que não tinha razões válidas para preferi- lo depois de ter repudiado Florentino Ariza sem razões válidas. Na realidade, amava-o tão pouco quanto ao outro, e além disso o conhecia muito menos, e suas cartas não tinham a febre das cartas do outro, nem lhe dera tantas provas comovedoras de sua determinação. A verdade é que as pretensões de  Juvenal  Urbino nunca tinham sido formuladas em termos de amor, e era  pelo  menos curioso que um militante católico como ele lhe oferecesse bens terrenos: a segurança, a ordem, a felicidade, cifras  imediatas  que  uma vez  somadas  poderiam


talvez se assemelhar ao amor: quase amor. Mas não eram, e estas dúvidas aumentavam sua confusão, porque também estava convencida de que o amor era na realidade aquilo que mais falta lhe fazia para viver.
Em todo caso, o fator principal contra o doutor Juvenal Urbino era sua semelhança mais que suspeita com o homem ideal que Lorenzo Daza desejara com tanta ansiedade para a filha. Era impossível não vê-lo como a criatura de uma conspiração paterna, ainda que na verdade não fosse, e Fermina Daza estava convencida de que era logo que o viu entrar em sua casa pela segunda vez para uma visita médica não solicitada. As conversações com a prima Hildebranda acabaram de confundi-la. Por sua própria situação de vítima, esta tendia a se identificar com Florentino Ariza, esquecendo inclusive de  que  talvez Lorenzo Daza a tivesse feito vir para que influísse a favor do doutor. Deus sabia do esforço feito por Fermina Daza para não acompanhá-la quando a prima foi conhecer Florentino Ariza na agência do telégrafo. Ela também teria gostado de vê-lo outra vez para confrontá-lo com suas dúvidas, falar com ele a sós, conhecê-lo a fundo para estar segura de que sua decisão impulsiva não ia precipitá-la em outra mais grave, que era capitular na guerra pessoal contra o pai. Mas foi o que fez no minuto crucial da sua vida, sem levar em conta para nada a beleza viril do pretendente, nem sua riqueza lendária, nem sua glória precoce, nem nenhum dos seus méritos reais, e sim aturdida pelo medo da  oportunidade que lhe escapava e da iminência dos  vinte e um anos, que  era seu limite confidencial para se render ao destino. Bastou-lhe esse minuto único para assumir a decisão como estava previsto nas leis de Deus e dos homens: até a morte. Então se dissiparam todas as dúvidas, e pôde fazer sem remorsos o que a razão lhe indicou como o mais decente: passou uma esponja sem lágrimas por cima da lembrança de Florentino Ariza, apagou-o por completo, e no espaço que ele ocupava em sua memória deixou que florescesse uma campina de papoulas. A única coisa que permitiu a si mesma foi um suspiro mais fundo que de costume, o último: "Pobre homem!"
As dúvidas mais temíveis, contudo, começaram logo que voltou da viagem de núpcias. Mal haviam acabado de abrir os baús, de desencaixotar os móveis e esvaziar as onze caixas que trouxera para tomar posse como ama e  senhora  do antigo palácio do Marquês de Casalduero, e já percebera numa vertigem mortal que estava aprisionada na casa errada, e o que era ainda pior, com  o homem que não  era. Precisou de seis anos para sair. Os piores da sua vida, desesperada com o azedume de dona Blanca, sua sogra, e o atraso mental das cunhadas, que se não tinham ido apodrecer vivas numa cela de claustro é porque já a carregavam dentro  de si.
O doutor Urbino, resignado a pagar os tributos da estirpe, se fez surdo às suas súplicas, confiando em que a sabedoria de Deus e a infinita capacidade de adaptação da esposa haviam de pôr as coisas no seu devido lugar. Doía-lhe o declínio da mãe, cuja alegria de viver infundia outrora o desejo de estar vivos até nos mais  incrédulos.  Era  certo:  aquela  mulher  formosa,  inteligente,  de  uma sensibilidade


humana nada comum em seu meio, tinha sido durante quase quarenta anos a alma  e o corpo do seu paraíso social. A viuvez a perturbara a ponto de  não se acreditar  que fosse a mesma, e a tornara balofa e ácida, e inimiga do mundo. A única explicação possível de sua degradação era seu rancor por achar que o marido se sacrificara em sã consciência por uma montoeira de negros, como dizia ela, quando  o único sacrifício justo teria sido o de sobreviver para ela. Em todo caso, o casamento feliz de Fermina Daza tinha tido a duração da viagem de núpcias, e a única pessoa que podia ajudá-la a impedir o naufrágio final vivia  paralisada  de terror perante a potestade da mãe. Era a ele, e não às cunhadas imbecis e à sogra meio doida, que Fermina Daza atribuía a culpa pela armadilha de morte  em  que  fora apanhada. Tarde demais, desconfiava de que, por trás da sua autoridade profissional e seu fascínio mundano, o homem com quem se casara era um fraco sem redenção: um pobre-diabo avalentoado pelo peso social de um  sobrenome.
Refugiou-se no filho recém-nascido. Ela o sentira sair do seu corpo com o alívio de se livrar de algo que não era seu, e tinha sofrido com o próprio espanto ao comprovar que não sentia o menor afeto pôr aquele bezerro nonato que a parteira lhe mostrou em carne viva, sujo de sebo e de sangue, e com a tripa umbilical enrolada no pescoço. Mas na solidão do palácio aprendeu a conhecê-lo, se conheceram, e descobriu com uma grande emoção que os filhos não são queridos  por serem filhos e sim pela amizade que surge quando os criamos. Acabou por não suportar nada nem ninguém que não fosse ele na casa da sua desventura. A solidão  a deprimia, o jardim de cemitério, a desídia do tempo nos enormes aposentos sem janelas. Sentia-se enlouquecer nas noites dilatadas pelos gritos das loucas no manicômio vizinho. Tinha vergonha do costume de pôr a mesa de banquetes todos  os dias, com toalhas bordadas, serviços de prata e candelabros de funeral, para que cinco fantasmas jantassem uma xícara de café com leite e bolinhos de queijo. Detestava o terço ao entardecer, as posturas afetadas à mesa, as críticas constantes   à sua maneira de pegar o talher, de andar com essas passadas misteriosas de  mulher da rua, de se vestir como no circo, e até seu jeito matuto de tratar o marido   e de dar de mamar ao filho sem tapar o seio com a mantilha. Quando fez os primeiros convites para o chá das cinco da tarde, com biscoitinhos imperiais e  geléias de flores, de acordo com uma moda recente na Inglaterra, dona Blanca se opôs a que em sua casa fossem bebidos remédios para suar a febre em lugar do chocolate com queijo frito e roscas de pão de iúca. Não lhe escaparam nem  os sonhos. Certa manhã em que Fermina Daza contou que sonhara com um desconhecido que passeava nu semeando punhados de cinza pelos salões do  palácio, dona Blanca a interrompeu com secura:
— Uma mulher direita não pode ter essa classe de sonhos.
À sensação de estar sempre em casa alheia, acrescentaram-se duas desgraças maiores. Uma era a dieta quase diária de berinjelas em todas as suas formas, que dona Blanca se negava a variar em respeito ao marido morto, e que Fermina Daza recusava   comer.   Detestava   berinjelas   desde   menina,   mesmo   antes   de   tê-las


provado, por achar que tinham cor de veneno. Só que essa vez teve de admitir que   de todas as maneiras algo havia mudado para melhor em sua vida, já que aos cinco anos tinha dito o mesmo à mesa, e o pai a obrigou a comer inteiro o ensopado previsto para seis pessoas. Pensou que ia morrer, primeiro devido vômitos da berinjela moída, e em seguida devido à caneca de óleo de rícino que a fizeram tomar à força para curá-la do castigo. As duas coisas ficaram misturadas em sua memória como um purgante, tanto pelo gosto como pelo terror do veneno, e nos almoços abomináveis do palácio do Marquês de  Casalduero tinha que  afastar a vista para  não enjoar em plena mesa com a náusea glacial do óleo de  rícino.
A outra desgraça foi a harpa. Um dia, muito consciente do que queria dizer, dona Blanca tinha dito: "Não creio em mulheres direitas que não saibam tocar piano." Foi uma ordem que até o filho tratou de discutir, pois os melhores anos de sua infância tinham transcorrido nas galeras das aulas de piano, embora já adulto se sentisse até grato por elas. Não podia imaginar a mulher submetida à mesma sentença,  aos  vinte e cinco anos e com um caráter como o seu. Mas a única concessão que obteve da mãe foi que trocasse o piano pela harpa, com o argumento pueril de que era o instrumento dos anjos. Por isso trouxeram de Vieña a harpa magnífica, que parecia de ouro e soava como se fosse, e que foi uma das relíquias mais apreciadas  do Museu da Cidade, até que o consumiram as chamas com tudo que tinha dentro. Fermina Daza se submeteu a essa sentença de luxo tratando de impedir o naufrágio com um sacrifício final. Começou com um mestre de mestres que trouxeram para isso da cidade de Mompox, e que morreu de  repente aos quinze dias, e continuou  por vários anos com o músico principal do seminário, cujo hálito de coveiro deformava os arpejos.
Ela própria se surpreendeu com sua obediência. Pois embora não o admitisse em seu foro íntimo, nem nos pleitos surdos que tinha com o marido nas  horas  que antes consagravam ao amor, enrolara-se mais depressa do que acreditava no emaranhado de convenções e preconceitos do seu novo mundo. No início tinha uma frase ritual para afirmar sua liberdade de critério: "À merda o leque que o tempo é   de brisa." Mas depois, zelosa dos seus privilégios bem conquistados, temerosa da vergonha e do escárnio, se dispunha a suportar até a humilhação, na esperança de que Deus se apiedasse por fim de dona Blanca, não se cansando de suplicar em suas orações que lhe mandasse a morte.
O doutor Urbino justificava sua própria fraqueza com argumentos de crise, sem sequer perguntar a si mesmo se não contrariavam sua igreja. Não admitia que os conflitos com a esposa tivessem origem no ar rarefeito da casa, atribuindo-os à natureza mesma do casamento: uma invenção absurda que podia existir pela graça infinita de Deus. Ia contra toda razão científica que duas pessoas apenas conhecidas, sem parentesco nenhum entre si, com caracteres diferentes, com culturas diferentes, e até com sexos diferentes, se  vissem  comprometidas  de repente a viver juntas, a dormir na mesma cama, a compartilhar dois destinos que talvez  estivessem  determinados  em  sentidos  divergentes.  Dizia:  "O  problema do


casamento é que se acaba todas as noites depois de se fazer o amor, e é  preciso tornar a reconstruí-lo todas as manhãs antes do café." Pior ainda o deles, dizia, surgido de duas classes antagônicas, e numa cidade que ainda continuava sonhando com o regresso dos vice-reis. A única argamassa possível era algo tão improvável e volúvel como o amor, se é que havia, e no caso deles não havia quando se casaram,    e o destino não fizera mais do que pô-los à frente da realidade quando estavam a ponto de inventá-lo.
Esse era o estado de suas vidas na época da harpa. Tinham ficado para trás os acasos deliciosos dela entrando enquanto ele tomava banho, e apesar das  discussões, das berinjelas venenosas, e apesar das irmãs dementes e da mãe que as pariu, ele tinha ainda bastante amor para pedir a ela que o ensaboasse. Ela  começava a fazê-lo com as migalhas de amor que ainda sobravam da Europa, e os dois iam se deixando trair pelas lembranças, abrandando sem querer, se querendo sem dizer, e acabavam morrendo de amor no chão, besuntados de espumas fragrantes, enquanto ouviam as criadas falando deles na lavanderia: "Se não têm mais filhos é porque não trepam." De vez em quando, ao voltarem de uma festa louca, a saudade agachada atrás da porta os derrubava de uma patada, e  então ocorria uma explosão maravilhosa na qual tudo era outra vez como antes, e durante cinco minutos tornavam a ser os amantes desbragados da lua-de-mel.
Mas à parte essas ocasiões raras, um dos dois estava sempre mais cansado que o outro à hora de dormir. Ela se atrasava no banheiro enrolando seus cigarros  de papel perfumado, fumando sozinha, reincidindo em seus amores de consolação  como quando era jovem e livre em sua casa, dona única do seu corpo.  Estava  sempre com dor de cabeça, ou fazia calor demais, sempre, ou fingia que estava dormindo, ou tinha a regra de novo, a regra, sempre a regra. De tal forma que o doutor Urbino se atrevera a dizer em classe, pelo exclusivo alívio de um desafogo sem confissão, que depois de dez anos de casadas as mulheres tinham a regra até  três vezes por semana.
Desgraças chamando desgraças, Fermina Daza teve que afrontar  no  pior  dos seus anos o que aconteceria mais cedo ou mais tarde sem remédio: a verdade sobre os negócios fabulosos e nunca conhecidos do pai. O governador provincial que convocou Juvenal Urbino a seu gabinete para pô-lo ao corrente dos desmandos do sogro resumiu-os numa frase: "Não lei divina nem humana que esse sujeito não tenha levado de roldão." Algumas de suas trapaças mais graves ele as fizera  à  sombra do poder do genro, e teria sido difícil pensar que este e sua esposa não estivessem ao corrente. Sabendo que a única reputação a proteger era a sua, por ser a única que ficava de pé, o doutor Juvenal Urbino interpôs todo o peso de seu poder, e conseguiu cobrir o escândalo com sua palavra de honra. E Lorenzo Daza saiu do país no primeiro navio para não voltar nunca mais. Voltou à sua terra de origem como se fosse uma dessas pequenas viagens feitas de vez em quando para enganar a saudade, e no fundo dessa aparência havia algo de verdade: havia já algum tempo subia  aos  navios  de  sua  pátria  apenas  para  tomar  um  copo  d'água  dos tanques


abastecidos nos mananciais de seu povoado natal Partiu sem dar o braço a torcer, protestando inocência, e ainda tentando convencer o genro de que fora vítima de uma conspiração política. Partiu chorando pela menina, como chamava Fermina Daza desde que se casara, chorando pelo neto, pela terra em que se fizera rico  e  livre, e onde conseguira a façanha de converter a  filha numa dama  requintada  à base de negócios turvos. Partiu envelhecido e doente, mas ainda viveu  muito mais  do que qualquer de suas vítimas  teria desejado. Fermina Daza não pôde  reprimir  um suspiro de alívio quando recebeu a notícia da morte, e não pôs luto para evitar perguntas, mas durante vários meses chorava com uma raiva surda sem saber por que quando se trancava para fumar no banheiro, e é que chorava por ele.
O mais absurdo da situação é que nunca pareceram tão felizes em público como naqueles anos de infortúnio. Pois na realidade foram os anos de suas vitórias maiores sobre a hostilidade soterrada de um meio que não se resignava a admiti-los como eram: diferentes e inovadores, e portanto transgressores da ordem  tradicional. Contudo, essa tinha sido a parte fácil para Fermina Daza. A vida mundana, que tantas incertezas lhe trazia antes de conhecê-la, não passava de um sistema de pactos atávicos, de cerimônias banais, de palavras previstas, com o qual se entretinham uns aos outros na sociedade para não se assassinarem. O signo dominante desse paraíso da frivolidade provinciana era o medo do  desconhecido.  Ela o definira de um modo mais simples: "O problema da vida pública é aprender a dominar o terror, o problema da vida conjugai é aprender a dominar o tédio." Tinha feito a descoberta de repente com a nitidez de uma revelação no instante em que entrou arrastando a interminável cauda de noiva no vasto salão do Clube Social, rarefeito pelos vapores misturados de  tantas flores, o brilho das  valsas, o tumulto de homens suarentos e mulheres trêmulas que a olhavam sem saber ainda como  iam conjurar aquela ameaça deslumbrante que lhes mandava o mundo exterior. Acabava de fazer vinte e um anos e mal tinha saído de casa para ir ao colégio, mas  lhe bastou um olhar circular para compreender que seus adversários não estavam dominados pelo ódio e sim paralisados pelo medo. Em vez de assustá-los, como estava ela assustada, fez a caridade de os ajudar a conhecê-la. Ninguém foi diferente daquilo que ela queria que fosse, como lhe ocorria com as cidades, que não lhe pareciam melhores nem piores, e sim como as construía em seu coração. De Paris, apesar da chuva perpétua, dos lojistas sórdidos e da grosseria homérica dos cocheiros, ela havia de se lembrar sempre como a cidade mais formosa do mundo, não porque na realidade fosse ou deixasse de ser, e sim porque ficara vinculada à saudade de seus anos mais felizes. O doutor Urbino, de sua parte, se impôs com armas iguais às que usavam contra ele, que manejadas com mais inteligência, e com uma solenidade calculada. Nada acontecia sem eles: os passeios cívicos, os  Jogos Florais, as manifestações artísticas, as tômbolas de caridade, os atos patrióticos, a primeira viagem em balão. Ninguém poderia imaginar, em seus anos  de desgraças, que pudesse haver alguém mais feliz do que eles nem um casamento tão harmônico quanto o seu.


A casa abandonada pelo pai deu a Fermina Daza um refúgio próprio contra a asfixia do palácio familiar. Logo que escapava à vista pública, ia às escondidas à  praça dos Evangelhos, e lá recebia as amigas novas e algumas antigas do colégio ou das aulas de pintura: um substituto inocente da infidelidade. Vivia horas aprazíveis de mãe solteira com o muito que ainda lhe restava das lembranças de menina. Tornou a comprar os corvos perfumados, recolheu gatos da rua e os colocou aos cuidados de Gala Placídia, já velha e um tanto entrevada pelo reumatismo, mas ainda com ânimo para ressuscitar a casa. Tornou a abrir o quarto de costura onde Florentino Ariza a viu pela primeira vez, onde o doutor Juvenal Urbino a fez  mostrar a língua para lhe conhecer o coração e o converteu num santuário do passado. Uma tarde de inverno foi fechar a sacada antes que desabasse a tempestade, e viu Florentino Ariza em seu banco debaixo das amendoeiras da pracinha, com o traje do pai diminuído para ele e o livro aberto no colo, mas não o viu como então o via por acaso de vez em quando, e sim na idade com que lhe ficou na memória. Sentiu o temor de que aquela visão fosse um aviso da morte, e teve pena. Atreveu-se a dizer a si mesma que talvez tivesse sido feliz com ele, com ele naquela casa que ela reformara para ele com tanto amor quanto  ele  havia  reformado a sua para ela, e a mera suposição a assustou, porque a fez perceber os extremos de desdita a que havia chegado. Então apelou para suas últimas forças e obrigou o marido a discutir sem evasivas, a lhe fazer frente, a brigar com ela, a chorarem juntos de raiva pela perda do paraíso, até que ouvissem cantar os últimos gaios, e a luz se fez pelos beirais do palácio, e se acendeu o sol, e  o  marido  inflamado de tanto falar, esgotado de não dormir, com o  coração  fortalecido  de tanto chorar, apertou os cordões das botas, apertou o cinto, apertou tudo o  que  ainda lhe restava de homem, e lhe disse que sim, meu amor, que iam buscar o amor que havia fugido deles na Europa: amanhã mesmo e para sempre. Foi uma decisão tão correta que acertou com o Banco do Tesouro, seu administrador universal, a liquidação imediata da vasta fortuna familiar, dispersa desde as origens em toda classe de negócios, investimentos e papéis sagrados e lentos, e da qual ele sabia como ciência certa que não era tão desmedida como dizia a lenda: apenas o justo para não ter que pensar nela. O que fosse, convertido em ouro registrado, devia ser transferido pouco a pouco para seus bancos no exterior, até que não restasse mais a ele e sua mulher nesta pátria inclemente nem um palmo de terra onde cair mortos.
Pois Florentino Ariza existia, na realidade, ao contrário do que ela se propusera crer. Estava no cais do transatlântico da França quando ela chegou com o marido e    o filho no landô dos cavalos de ouro, e os viu descer como tantas vezes vira nos atos públicos: perfeitos. Iam com o filho, educado de uma forma que já permitia saber como seria adulto: tal como foi. Juvenal Urbino saudou Florentino Ariza com um chapéu alegre: "Vamos à conquista de Flandres." Fermina Daza fez uma inclinação de cabeça, e Florentino Ariza se descobriu, com uma reverência ligeira, e  ela reparou nele sem um gesto de compaixão pelos estragos prematuros de sua calvície. Era ele, tal como ela o via: a sombra de alguém que jamais  conheceu.


Florentino Ariza também não estava em seu melhor momento. Ao trabalho cada dia mais intenso, a seus caprichos de caçador furtivo, à mole calma dos anos, acrescentara-se a crise final de Trânsito Ariza, cuja memória acabara sem lembranças: quase em branco. Até o ponto em que às vezes se voltava para ele, o via lendo na cadeira de braços de  sempre, e lhe perguntava espantada: "E você é filho de quem?" Ele respondia sempre a verdade, mas ela tornava a interromper.
   E me diga uma coisa, filho — perguntava: — quem sou eu?
Tinha engordado tanto que não podia se mexer, e passava o dia no armarinho onde já não havia nada a vender, enfeitando-se desde que se levantava com os primeiros gaios até a madrugada do dia seguinte, pois dormia muito poucas horas. Punha grinaldas de flores na cabeça, pintava os lábios, empoava o rosto e os braços,  e no fim perguntava a quem estivesse com ela como tinha ficado. Os  vizinhos sabiam que esperava sempre a mesma resposta: "Você é a Cucarachita Martínez." Esta identidade, usurpada à personagem de uma história infantil, era a única que a deixava satisfeita. Balançava-se na cadeira, abanava-se com o ramalhete de grandes plumas cor-de-rosa, até começar tudo de novo: a coroa de flores de papel, o almíscar nas pálpebras, o carmim nos lábios, a crosta de alvaiade na cara. E outra vez a pergunta a quem estivesse perto: "Como fiquei?" Quando se converteu na rainha de troças da vizinhança, Florentino Ariza fez desmontar numa noite o balcão e as cômodas do antigo armarinho, condenou a porta da rua, arrumou o local de acordo com a descrição que ela fazia do quarto de Cucarachita Martínez, e ela nunca mais tornou a perguntar quem era.
Por sugestão do tio Leão XII empregara uma mulher mais velha para se ocupar dela, mas a coitada andava sempre mais para dormindo que para acordada, e às  vezes dava a impressão de que também ela esquecia quem era. De modo que Florentino Ariza ficava em casa desde que saía do escritório até que conseguia botar a mãe para dormir. Não foi mais jogar dominó no Clube do Comércio, nem tornou a ver durante muito tempo as poucas amigas antigas que continuava freqüentando, pois algo muito profundo mudara em seu coração depois do seu encontro de horror com Olímpia Zuleta.
Tinha sido fulminante. Florentino Ariza acabava de levar o tio Leão XII até sua casa, durante uma daquelas tempestades de outubro que nos deixavam em convalescença, quando viu do carro uma moça miúda, muito ágil, com um traje cheio de babados de organdi que mais parecia um vestido de noiva. Viu-a correndo atarantada de um lado para outro, porque o vento lhe arrancara da mão a sombrinha e a carregava voando pelo mar. Ele a acolheu no carro e se desviou do seu caminho para levá-la para casa, uma antiga ermida adaptada para fazer face ao mar aberto, cujo pátio cheio de casinhas de pombos se via da rua. Ela contou no caminho que tinha se casado menos de um ano com um vendedor de louça do mercado que Florentino Ariza tinha visto muitas vezes nos navios da sua empresa, desembarcando caixotes de  toda a espécie de  potes para vender, e com um    mundo


de pombos numa gaiola de vime como a que usavam as mães nos navios fluviais para carregar os filhos recém-nascidos. Olímpia Zuleta parecia pertencer à família das vespas, não pelas ancas empinadas e o busto exíguo, como por toda ela: o cabelo de fio de cobre, as sardas, os olhos redondos e vivos, mais separados que o normal, e uma voz afinada que ela usava para dizer coisas inteligentes e divertidas. Pareceu a Florentino Ariza mais graciosa do que atraente e  a esqueceu mal a deixou na sua casa, onde morava com o marido, e com o pai deste e outros membros da família.
Uns dias depois, tornou a ver o marido no porto, embarcando mercadoria em vez de desembarcá-la, e quando o navio zarpou, Florentino Ariza ouviu muito clara no ouvido a voz do diabo. Nessa tarde, depois de acompanhar tio Leão XII, passou  como por acaso pela casa de Olímpia Zuleta, viu-a por cima da cerca,  dando  de comer aos pombos alvoroçados. Gritou-lhe do carro por cima da cerca: "Quanto custa uma pomba?" Ela o reconheceu e respondeu com voz alegre: "Não  se  vendem." Ele perguntou: "Então como se faz para ter uma?" Sem deixar de dar de comer aos pombos, ela respondeu: "Leva-se de carro a pombeira que se encontra perdida no aguaceiro." Desta forma, Florentino Ariza chegou a casa naquela noite com um presente de gratidão de Olímpia Zuleta: um pombo-correio com um anel de metal na canela.
Na tarde seguinte, à mesma hora da comida, a bela pombeira viu a pomba presenteada de volta ao pombal, e pensou que tivesse fugido. Mas quando a pegou para examiná-la reparou que tinha um papelzinho enrolado no anel:  uma  declaração de amor. Era a primeira vez que Florentino Ariza deixava uma pegada escrita, e não seria a última, embora nesta ocasião tivesse tido a prudência de não assinar. Ia entrando em casa na tarde seguinte, quarta-feira, quando um menino da rua lhe entregou a mesma pomba dentro de uma gaiola com o recado decorado de que aqui lhe manda isto a senhora dos pombos, e lhe manda dizer que por favor guarde bem a pomba na gaiola fechada porque do contrário torna a voar e esta é a última vez que é devolvida. Não soube que interpretação dar: ou bem a pomba tinha perdido a carta no caminho, ou a pombeira tinha resolvido fazer-se de tola, ou mandava a pomba para que ele tornasse a mandá-la. Neste último caso, contudo, o natural teria sido ela devolver a pomba com uma resposta.
Sábado pela manhã, depois de muito pensar, Florentino Ariza tornou a mandar a pomba com outra carta sem assinatura. Desta vez não teve que esperar o dia seguinte. À tarde, o mesmo menino tornou a trazê-la em outra gaiola, com o recado de aqui vai outra vez a pomba que lhe fugiu de novo, que anteontem foi devolvida  por boa educação e que agora é devolvida por pena, más que agora a pura verdade é que não será mais mandada se tornar a voar. Trânsito Ariza se entreteve até muito tarde com a pomba, tirou-a da gaiola, arrulhou para ela embalando-a nos braços, procurou adormecê-la com canções de ninar, e de repente percebeu que tinha no  anel do pé um papelzinho com uma linha: Não aceito carta anônima. Florentino Ariza  o  leu  com  o  coração  enlouquecido,  como  se  fosse  a  culminação  de      sua


primeira aventura, e mal conseguiu dormir à noite em sobressaltos de impaciência. No dia seguinte muito cedo, antes de ir para o escritório, soltou de novo a pomba com um papel de amor assinado com seu nome muito claro, e botou ainda no anel a rosa mais fresca, mais afogueada e fragrante do seu jardim.
Não foi tão fácil. Ao cabo de três meses de assédios, a bela pombeira continuava respondendo o mesmo: "Eu não sou dessas." Mas nunca deixou de receber as mensagens ou de acudir aos encontros que Florentino Ariza arrumava de maneira a parecerem casuais. Estava desconhecido: o amante que nunca mostrava a cara, o mais ávido de amor mas também o mais mesquinho, o que não dava nada e queria tudo, o que não permitia que ninguém lhe deixasse no coração a pegada de um  passo, o caçador acocorado saiu pelo meio da rua num arrebatamento de cartas assinadas, de presentes galantes, da rondas imprudentes à casa da pombeira,  mesmo em duas ocasiões em que o marido não andava de viagem nem estava no mercado. Foi a única vez, desde os primeiros tempos do primeiro amor, que se  sentiu atravessado por uma lança.
Seis meses depois do primeiro encontro se viram por fim no camarote de um navio fluvial que estava em reparos de pintura no cais do rio. Foi uma tarde maravilhou. Olímpia Zuleta tinha um amor alegre, de pombeira alvoroçada, e gostava de ficar nua durante várias horas, num repouso lento que tinha para ela tanto amor quanto o amor. O camarote estava desmantelado, pintado pela metade,   e o cheiro da terebintina era bom de se carregar com as lembranças de uma tarde feliz. De repente, a conselho de uma inspiração insólita, Florentino Ariza destapou um tacho de pintura vermelha que estava ao alcance do beliche, molhou o indicador, e pintou no púbis da bela pombeira uma flecha de sangue voltada para o sul, e lhe escreveu um letreiro no ventre:' 'Esta pomba é  minha''. Nessa  mesma noite Olímpia Zuleta se despiu na frente do marido sem se lembrar do letreiro, e ele não disse uma palavra, nem se alterou sua respiração, nada, se limitando a ir ao banheiro pegar a navalha de barba enquanto ela punha a camisola e a degolou  de um talho.
Florentino Ariza veio a saber muitos dias depois, quando o marido fugitivo foi capturado e contou aos jornais as razões e a forma do crime. Durante muitos anos pensou com temor nas cartas assinadas, guardou a conta dos anos de cárcere do assassino que o conhecia muito bem devido aos negócios que fazia nos navios, mas não temia tanto a navalhada no pescoço, nem o escândalo público, como a sorte de que Fermina Daza viesse a saber da sua deslealdade. Nos anos de espera,  a mulher que cuidava de Trânsito Ariza teve que se retardar no mercado por causa de um aguaceiro fora de estação, e quando voltou a casa encontrou-a morta. Estava sentada na cadeira de balanço, sarapintada e floral, como sempre, e com os olhos tão vivos em um sorriso tão malicioso que a guardiã reparou que estava morta passadas duas horas. Pouco antes tinha distribuído pelas crianças da vizinhança a fortuna em ouros e pedrarias das botijas enterradas debaixo da cama, dizendo que eram  de  comer,  feito  caramelos,  e  não  foi  possível  recuperar  algumas  das  mais


valiosas. Florentino Ariza a enterrou na antiga fazenda da Mão de Deus, que era ainda conhecida como o Cemitério do Cólera, e semeou sobre seu túmulo um  bosque de rosas.
Desde as primeiras visitas ao cemitério, Florentino Ariza descobriu que muito perto estava enterrada Olímpia Zuleta, sem lápide, mas com o nome e a  data  escritos com o dedo no cimento fresco da cripta, e achou horrorizado que era uma zombaria sangrenta do marido. Quando o rosai floresceu, punha uma rosa no túmulo, se não houvesse ninguém à vista, e mais tarde plantou ali uma muda cortada do rosai da mãe. Ambos os rosais proliferaram com tanto alvoroço que Florentino Ariza tinha que levar suas tesouras e outras ferramentas de jardim para mantê-los em ordem. Mas foi superior às suas forças: passados alguns anos os dois rosais se haviam espalhado feito mato no meio dos túmulos, e o bom cemitério da peste passou a se chamar Cemitério das Rosas, até que algum prefeito  menos realista que a sabedoria popular arrasou numa noite os rosais e pendurou um letreiro republicano no arco da entrada: Cemitério Universal.
A morte da mãe deixou Florentino Ariza condenado outra vez a seus compromissos maníacos: o escritório, os encontros em turnos estritos com as amantes crônicas, as partidas de  dominó no Clube do Comércio, os mesmos livros   de amor, as visitas dominicais ao cemitério. Era o oxido da rotina, tão denegrido e tão temido, mas que o havia protegido da consciência da idade. Contudo, num domingo de dezembro, quando os rosais dos túmulos, tinham derrotado  as tesouras, viu as andorinhas nos fios da luz elétrica recém-instalada, e notou de repente quanto tempo se passara desde a morte da mãe, e quanto desde o assassinato de Olímpia Zuleta, e quanto e quanto desde aquela outra tarde do dezembro distante em que Fermina Daza lhe mandara uma carta dizendo que sim, que o amaria por todo o sempre. Até então se comportara como se o tempo passasse para os outros e não para ele. Ainda na semana anterior tinha encontrado  na rua um dos tantos casais que o eram graças às cartas escritas por ele, e não reconheceu o filho mais velho, que era seu afilhado. Saiu do constrangimento com    o espavento convencional: "Puxa, está um homem!" Continuava sendo assim, mesmo depois que o corpo começou a lhe mandar os primeiros sinais de  alarma, pois sempre gozara da saúde de pedra dos doentios. Trânsito Ariza costumava dizer: "Meu filho ficou doente mesmo com o cólera." Confundia o cólera com o amor, é claro, e isso muito tempo antes da sua memória se embrulhar. Mas de todas as maneiras se enganava, porque o filho tinha tido em segredo seis blenorragias, embora o médico dissesse que não eram seis e sim a mesma e única que reaparecia depois de cada batalha perdida. Tinha tido ademais uma adenite, quatro cancros moles e seis orquites, mas nem a ele nem a homem nenhum ocorreria enumerar  tais coisas como doenças, e sim como troféus de  guerra.
Completados quarenta anos, tinha tido que recorrer ao médico com dores indefinidas em várias partes do corpo. Depois de muitos exames, o médico tinha dito: "São coisas da idade." Ele voltava sempre para casa sem sequer perguntar a si


mesmo se aquilo tinha algo a ver com ele. Pois o único ponto de referência do seu passado eram seus amores efêmeros com Fermina Daza, e o que tivesse alguma coisa a ver com ela tinha algo a ver com as contas da sua vida. De maneira que na tarde em que viu as andorinhas nos fios de luz, repassou seu passado desde a lembrança mais antiga, repassou seus amores de ocasião, os incontáveis escolhos que tinha tido que contornar para alcançar um posto de mando, os incidentes sem conta que lhe causara a determinação encarniçada de que Fermina Daza fosse sua, e ele dela por cima de tudo e contra tudo, e então descobriu que sua própria vida estava se escoando. Sentiu um calafrio nas vísceras que o deixou sem luz, e teve que soltar as ferramentas de jardim e se apoiar no muro do cemitério para não ser derrubado pela primeira patada da velhice.
   Porra — disse aterrado — tudo está fazendo trinta anos!
Assim era. Trinta anos tinham passado também para Fermina Daza, sem dúvida, mas tinham sido para ela os mais gratos e reparadores de sua vida. Os dias  de  horror do Palácio de Casalduero estavam relegados  à lixeira da  memória. Morava em sua nova casa da Mangueira, dona absoluta do seu destino, com um marido que tornaria a preferir entre todos os homens do mundo se tivesse tido que escolher outra vez, com um filho que prolongava a tradição da estirpe na Escola de Medicina, e uma filha tão parecida com ela quando tinha sua idade que às vezes a perturbava a impressão de se sentir repetida. Tinha voltado três vezes à Europa depois da viagem de desespero prevista como sem retorno para não continuar a viver num susto perpétuo.
Deus deve ter escutado por fim as orações de alguém: depois de dois anos de estada em Paris, quando Fermina Daza e Juvenal Urbino mal começavam a buscar o que sobrara do amor entre os escombros, um telegrama de meia-noite os acordou com a notícia de que dona Blanca de Urbino estava com doença grave, e quase foi alcançado pelo outro, com a notícia da morte. Voltaram de pronto. Fermina Daza desembarcou com uma túnica de luto cuja largueza não dava para disfarçar seu estado. Estava grávida de novo, com efeito, e a notícia deu origem a uma canção popular mais maliciosa que maligna, cujo estribilho esteve na moda o resto do ano:  O que será que na bela em Paris, que sempre que vai volta para parir! Apesar da letra ordinária, o doutor Juvenal Urbino mandava tocá-la até muitos anos  depois nas festas do Clube Social como prova de sua boa disposição.
O nobre palácio do Marquês de Casalduero, de cuja existência e brasões não se encontrou  nunca uma notícia certa, foi vendido primeiro à Tesouraria Municipal  por um preço adequado, e depois revendido por uma fortuna ao governo central, quando um pesquisador holandês andou fazendo escavações para provar que ali estava o verdadeiro túmulo de Cristóvão Colombo: o quinto. As irmãs do doutor Urbino foram morar no convento das Salesianas, em reclusão sem votos, e Fermina Daza permaneceu na antiga casa do pai até que se terminou a quinta da Mangueira. Entrou  nela pisando  firme, entrou  para  mandar, com  os  móveis  ingleses trazidos


desde a viagem de núpcias e os complementares que fez vir depois da viagem de reconciliação, e a partir do primeiro dia começou a enchê-la de toda classe de bichos exóticos que ela própria ia comprar nas goletas das Antilhas. Entrou com o marido recuperado, o filho bem criado, a filha que nasceu quatro meses depois da volta e à qual batizaram com o nome de Ofélia. O doutor Urbino, de sua parte, entendeu que era impossível recuperar a esposa de um modo tão completo como a tivera  na viagem de núpcias, porque a parte de amor que ele queria ela a dera aos filhos com    o melhor do seu tempo, mas aprendeu a viver e a ser feliz com os resíduos. A harmonia pela qual tanto aspiravam culminou por onde menos esperavam num jantar de cerimônia em que serviram um prato delicioso que Fermina Daza não conseguiu identificar. Começou com uma boa porção, mas gostou tanto que repetiu com outra igual, e estava com pena de não se servir outra igual por princípio  de  boas maneiras quando descobriu que acabava de comer com  um prazer  insuspeitado dois pratos transbordantes de purê de berinjela. Perdeu com galhardia: a partir de então, na quinta da Mangueira foram servidas berinjelas em todas  as  suas formas quase com tanta freqüência quanto no Palácio de Casalduero, e eram  tão apetecidas por todos que o doutor Juvenal Urbino alegrava os tempos livres da velhice dizendo que queria ter outra filha para lhe pôr o nome bem-amado na casa: Berinjela Urbino.
Fermina Daza sabia então que a vida privada, ao contrário da vida pública, era mutável e imprevisível. Não lhe era fácil estabelecer diferenças reais entre crianças   e adultos, mas em última análise preferia as crianças, por terem critérios  mais certos. Mal dobrara o cabo da maturidade, desprovida por fim de qualquer ilusão, começou a vislumbrar a decepção de não ter sido nunca o que sonhava ser quando jovem, na praça dos Evangelhos, e sim algo que nunca ousara dizer sequer a si mesma: uma criada de luxo. Em sociedade passou a ser a mais amada, a mais mimada, e por isso mesmo a mais temida, mas em nada exigia de si mesma rigor maior ou se perdoava menos do que no governo da casa. Sempre se sentiu vivendo uma vida emprestada pelo marido: soberana absoluta de um vasto império de felicidade edificado por ele e para ele. Sabia que ele a amava para de tudo, mais do que ninguém no mundo, mas para ele: a seu santo  serviço.
Se alguma coisa a mortificava era a cadeia perpétua das refeições diárias. Pois  não tinham que estar na hora: tinham que ser perfeitas, e tinham que ser justo o que ele queria comer sem que antes lhe fosse perguntado. Se ela o fazia alguma vez, como uma das tantas cerimônias inúteis do ritual doméstico, ele sequer levantava a vista do jornal para responder: "Qualquer coisa." Dizia a sério, com seu  jeito  amável, porque não se podia conceber um marido menos despótico. Mas à hora de comer não podia ser. qualquer coisa, e sim justo o que ele queria, e sem a mínima falha: que a carne não soubesse a carne, que o peixe não soubesse a peixe, que o porco não soubesse a sarna, que o frango não soubesse a penas. Mesmo quando não era tempo de aspargos era preciso encontrá-los a qualquer preço para que ele pudesse  se  extasiar no  vapor de  sua própria  urina  fragrante. Não  punha  a   culpa


nele: punha a culpa na vida. Mas ele era um protagonista implacável da vida.  Bastava o tropeço de uma dúvida para que ele empurrasse o prato na mesa, dizendo: "Esta comida foi feita sem amor." Nesse sentido chegava a rasgos fantásticos de inspiração. Certa vez, mal provou uma tisana de camomila devolveu-a com uma única frase: "Esta droga está com gosto de janela." Tanto ela quanto as criadas se espantaram, pois ninguém sabia de alguém que tivesse bebido uma janela fervida, mas quando provaram a tisana procurando entender, entenderam: tinha gosto de janela.
Era um marido perfeito: nunca apanhava nada no chão, nem apagava a luz, nem fechava a porta. Na escuridão da manhã, quando faltava um botão na roupa, ela o ouvia dizer: "A gente devia ter duas mulheres, uma para querer bem, outra para pregar botão." Todos os dias, ao primeiro gole do café, e à primeira colherada  de sopa fumegante, dava um uivo desesperado que já não assustava ninguém, e em seguida o suspiro: "No dia em que me mande desta casa, podem saber  que  foi porque me cansei de viver com a boca queimada." Dizia que nunca o almoço era  mais apetitoso e fino do que nos dias em que ele não podia comê-lo por ter tomado purgante, e estava tão convencido de que era uma perfídia da  mulher que acabou  por não se purgar se ela não se purgasse com ele.
Aborrecida com sua incompreensão, ela lhe pediu um insólito presente de aniversário: que ele fizesse por um dia os trabalhos domésticos. Ele aceitou divertido, e com efeito tomou posse da casa desde o amanhecer. Serviu um café esplêndido, mas esqueceu que ela não se dava bem com ovos fritos e não tomava  café com leite. Deu logo instruções para o almoço de aniversário com oito convidados e tomou disposições para a arrumação da casa, e tanto se esforçou por fazer um governo melhor que o dela que antes do meio-dia teve que capitular sem um gesto de vergonha. Desde o primeiro momento percebeu que não tinha a menor idéia de onde estava nada, sobretudo na cozinha, e as criadas deixaram  que  revirasse tudo para encontrar cada coisa, pois também jogaram o jogo. Às dez não se haviam tomado decisões para o almoço porque ainda não estava terminada  a  limpeza da casa nem a arrumação dos quartos, o banheiro estava por limpar, e ele esquecera de mandar botar o papel higiênico, trocar os lençóis e mandar o cocheiro buscar os filhos, e confundiu as tarefas das criadas: ordenou à  cozinheira  que  fizesse as camas e pôs as arrumadeiras na cozinha. Às onze, quando já estavam a ponto de chegar os convidados, era tal o caos na casa que Fermina Daza reassumiu   o comando, morta de rir, mas não com a atitude triunfal que teria querido adotar, e sim trêmula de compaixão diante da inutilidade doméstica do marido. Ele tirou sua forra com o argumento de sempre: "Pelo menos não me saí tão mal quanto você sairia procurando curar doentes." Mas a lição foi útil, e não para ele. No  curso  dos anos ambos chegaram  por caminhos diferentes à conclusão sábia de  que não  era possível morar juntos de outro modo, nem se amarem de outro modo: nada  neste mundo era mais difícil do Que o amor.
Na plenitude de sua nova vida, Fermina Daza via Florentino Ariza em diversas


ocasiões públicas, e com tanto mais freqüência quanto mais ele ascendia em seu trabalho, mas aprendeu a vê-lo com tanta naturalidade que mais de uma vez se esqueceu de cumprimentá-lo por distração. Ouvia falar dele amiude, porque no mundo dos negócios era um tema constante sua escalada cautelosa mas irresistível na C.F.C. Ela o via melhorar de maneiras, sua timidez se decantava num certo distanciamento enigmático, assentava-lhe bem um ligeiro aumento de peso, convinha-lhe a lentidão da idade, e soubera resolver com dignidade a calvície arrasadora. Só continuou desafiando para sempre o tempo e a moda com a indumentária sombria, as sobrecasacas anacrônicas, o chapéu extraordinário, as gravatas de poeta, de fitas do armarinho da mãe, o guarda-chuva sinistro. Fermina Daza foi se acostumando a vê-lo de outro modo, e acabou por não relacioná-lo com   o adolescente lânguido que se sentava a suspirar por ela exposto às ventanias de flores amarelas da praça dos Evangelhos. De qualquer maneira, nunca o viu com indiferença, e sempre se alegrou com as boas notícias que  lhe davam  a respeito  dele, porque pouco a pouco iam aliviando sua culpa.
Contudo, quando já o imaginava apagado por completo da memória, reapareceu por onde menos o esperava, convertido em fantasma de suas saudades. Foram as primeiras auras da velhice, quando começou a sentir que algo irreparável  acontecera em sua vida sempre que ouvia trovejar antes da chuva. Era a ferida incurável do trovão solitário, pedregoso e pontual, que retumbava todos os dias de outubro às três da tarde na serra de Villanueva, e cuja lembrança ia ficando mais recente com o passar dos anos. Enquanto as lembranças novas se confundiam na memória em poucos dias, as da viagem lendária pela província da prima Hildebranda se tornavam tão vividas que pareciam de ontem, com a nitidez  perversa da saudade. Lembrava-se de Manaure, a da serra, sua rua única, reta e verde, seus pássaros de bom agouro, a casa dos espantos onde acordava com a camisola empapada com as lágrimas de Petra Morales, morta de amor muitos anos antes na mesma cama em que ela dormia. Lembrava-se do gosto das goiabas  de então que nunca mais tinha tornado a ser o mesmo, dos presságios tão intensos que seu barulho se confundia com o da chuva, das tardes de topázio de São João de César, quando saía a passeio com a corte de primas assanhadas e  mantinha  os dentes apertados para que o coração não lhe saísse pela boca à medida que se aproximavam do telégrafo. Vendeu de qualquer maneira a casa do pai porque não podia agüentar a dor da adolescência, a visão da pracinha desolada tal como  aparecia da sacada, a fragrância sibilina das gardênias nas noites de calor, o susto do retrato de dama antiga na tarde de fevereiro em que se decidiu seu destino, e onde quer que se revolvia sua memória daqueles tempos esbarrava na lembrança de Florentino Ariza. Contudo, sempre teve bastante serenidade para perceber que não eram lembranças de amor, nem de arrependimento, e sim a imagem de uma insipidez que lhe deixava um rastro de lágrimas. Sem saber, estava ameaçada pelo mesmo ardil de compaixão que levara à perdição tantas vítimas desprevenidas de Florentino Ariza.


Aferrou-se ao marido. E justo na época em que ele mais precisava dela, porque ia adiante dela com dez anos de desvantagem tateando entre as névoas da velhice, e com as desvantagens piores de ser homem e mais fraco. Acabaram por se conhecer tanto que antes dos trinta anos de casados eram como um mesmo ser dividido, e se sentiam pouco à vontade com a freqüência com que adivinhavam sem querer o pensamento um do outro, ou pelo acidente ridículo de um se antecipar a dizer em público o que o outro ia dizer. Tinham contornado juntos as incompreensões cotidianas, os ódios instantâneos, as grosserias recíprocas e os  fabulosos  relâmpagos de glória da cumplicidade conjugai. Foi a época em que se amaram melhor, sem pressa e sem excessos, e ambos foram mais conscientes e gratos pelas vitórias inverossímeis contra a adversidade. A vida ainda havia de  confrontá-los  com outras provas mortais, sem dúvida, mas já não tinha importância: estavam na outra margem.










POR OCASIÃO DAS festividades do  novo século houve um animado programa  de atos públicos, o mais memorável dos quais foi a primeira viagem em balão, fruto da iniciativa inesgotável do doutor Juvenal Urbino. Metade da cidade se concentrou na Praia do Arsenal para admirar a subida do enorme globo de tafetá com as cores   da bandeira, que carregou o primeiro correio aéreo a São João da Ciénaga, umas trinta léguas ao nordeste em linha reta. O doutor Juvenal Urbino e a mulher, que tinham conhecido a emoção do vôo na Exposição Universal de Paris, foram os primeiros a subir à barquinha de vime, com o engenheiro de vôo e seis convidados eminentes. Levavam uma carta do governador provincial às autoridades municipais de São João da Ciénaga, na qual se estabelecia para a história que aquele era o primeiro correio transportado pelos ares. Um cronista do Diário do Comércio perguntou ao doutor Juvenal Urbino quais seriam suas últimas palavras caso perecesse na aventura, e ele não demorou para pensar na resposta que havia de lhe custar tantas injúrias:
Na minha opinião — disse — o século XIX muda para todo o mundo, menos para nós.
Perdido na cândida multidão que cantava o Hino Nacional enquanto o balão ganhava altura, Florentino Ariza se sentiu de acordo com alguém que ouviu comentar no tumulto que aquilo não era aventura própria para uma mulher, menos ainda na idade de Fermina Daza. Mas não foi tão perigosa, afinal. Ou foi menos perigosa do que deprimente. O balão chegou sem contratempos a seu  destino,  depois de uma viagem tranqüila por um céu de um azul inverossímil. Voaram bem, muito baixo, com vento plácido e favorável, primeiro pelas encostas das cristas nevadas, e em seguida sobre o vasto pélago da Ciénaga Grande.
Do alto do céu, como as via Deus, viram as ruínas da mui antiga e heróica cidade de Cartagena das índias, a mais bela do mundo, abandonada por seus povoadores devido ao medo pânico do cólera, depois de haver resistido a toda classe de assédios de ingleses e tropelias de bucaneiros durante três séculos. Viram as muralhas intactas, o capim nas ruas, as fortificações devoradas pelo amor-perfeito, os palácios de mármore e altares de ouro com seus vice-reis apodrecidos de peste dentro das armaduras.
Sobrevoaram as palafitas das Trojas de Cataca, pintadas de cores doidas, com cercados  de  criar  iguanas  comestíveis,  e  pencas  de  balsâmicas  e  astromélias nos


jardins lacustres. Centenas de meninos nus se atiravam n'água alvoroçados pela gritaria de todos, se atiravam pelas janelas, se atiravam do telhado das casas e das canoas que conduziam com uma perícia assombrosa, e fisgavam a água como savelhas para apanhar os volumes de roupa, os vidros de pastilhas para tosse, as coisas de comer que a caridosa e formosa mulher do chapéu de plumas lhes arremessava da barquinha do balão.
Sobrevoaram o oceano de sombras dos bananais, cujo silêncio se elevava até eles como um vapor letal, e Fermina Daza se lembrou de si mesma aos três anos, aos quatro talvez, passeando pela floresta sombria pela mão da mãe, que também era quase uma menina no meio de outras mulheres vestidas de musselina, tal qual ela, com sombrinhas brancas e chapéus de gaze. O engenheiro do balão, que ia observando o mundo com uma luneta, disse: "Parecem mortos." Passou a luneta ao doutor Juvenal Urbino, e este viu as carretas de bois entre as lavouras, as sebes ao longo da linha do trem, os canais gelados, e onde quer que detivesse a vista deparou com corpos humanos espalhados. Alguém disse que o cólera  estava  fazendo  estragos nos povoados da Ciénaga Grande. O doutor Urbino, enquanto falava, não parou de olhar pela luneta.
   Pois deve ser uma modalidade muito especial do cólera — disse — porque cada morto tem seu tiro de misericórdia na nuca.
Pouco depois sobrevoaram um mar de espumas, e desceram sem novidade numa grande praia ardente, cujo solo rachado de salitre queimava como fogo vivo. Lá estavam as autoridades que tinham como proteção contra o sol os guarda-chuvas do dia-a-dia, as escolas primárias agitando bandeirolas ao compasso dos hinos, as rainhas de beleza com flores esturricadas e coroas de papelão dourado, e gente da plantação de mamão da próspera localidade de Gayra, naqueles tempos a melhor da costa caribe. A única coisa que Fermina Daza queria era ver outra vez seu povoado natal, para compará-lo com suas lembranças mais antigas, mas  não  houve permissão para ninguém, devido aos riscos da peste. O doutor Juvenal Urbino entregou a carta histórica, que logo se perdeu entre outros papéis e nunca mais se soube dela, e a comitiva inteira quase morreu, asfixiada no torpor dos discursos. Foram afinal levados em mulas até o embarcadouro de Pueblo Viejo, onde o  pântano se ligava ao mar, porque o engenheiro não conseguiu que o balão tornasse   a subir. Fermina Daza estava certa de que passara por ali com a mãe, muito menina, numa carreta puxada por uma junta de bois. mais velha tinha contado  isso ao  pai, que morreu teimando que não era possível essa lembrança.
   Eu me lembro muito bem da viagem, e foi assim — disse ele — mas sucedeu pelo menos cinco anos antes de você nascer.
Os membros da expedição em balão voltaram três dias depois ao porto  de origem, avariados por uma noite ruim, de tempestade, e foram recebidos como heróis. Perdido na multidão, é claro, estava Florentino Ariza, que reconheceu no semblante de Fermina Daza as marcas do pavor. Contudo, na mesma tarde tornou   a


vê-la numa exibição de ciclismo, também patrocinada pelo marido, e não tinha mais nenhum vestígio de cansaço. Pilotava um velocípede insólito que mais parecia um aparelho de circo, com uma roda dianteira muito alta sobre a qual ia sentada, e uma posterior muito pequena que apenas lhe servia de apoio. Trajava bombachas de sanefas coloridas que causaram escândalo entre as senhoras mais velhas e desconcerto entre os cavalheiros, mas ninguém ficou indiferente à sua  destreza.
Essa, e tantas outras ao longo de tantos anos, eram imagens efêmeras que apareciam de repente a Florentino Ariza, sem quê nem por que, e tornavam a desaparecer do mesmo modo deixando em seu coração uma trilha de ansiedade.  Mas marcavam a pauta de sua vida, pois ele tinha conhecido as sevícias do  tempo não tanto em sua própria carne como nas mudanças imperceptíveis que notava em Fermina Daza cada vez que a via.
Certa noite entrou na Pousada do Sancho, um restaurante colonial de alto coturno, e ocupou o canto mais afastado, como costumava fazer quando se sentava sozinho para comer suas merendas de passarinho. De repente viu Fermina Daza no grande espelho do fundo, sentada à mesa com o marido e outros dois casais, num ângulo em que ele podia vê-la refletida em todo o seu esplendor. Estava indefesa, conduzindo a conversação com uma graça e um riso que crepitavam como fogos de artifício, e sua beleza ficava mais radiante debaixo dos enormes lustres  de pingentes: Alice tinha tornado a atravessar o espelho.
Florentino Ariza a observou à vontade e quase sem respirar, viu-a comer, viu-a provar apenas o vinho, viu-a tagarelando com o quarto Sancho da estirpe, viveu com ela um instante de sua vida sentado em sua mesa solitária, e durante mais de uma hora flanou sem ser visto pelo recinto vedado de sua intimidade. Depois  tomou  mais quatro xícaras de café para fazer tempo, até que a viu sair confundida com o grupo. Passaram tão perto que ele distinguiu o cheiro dela entre as  lufadas  de outros perfumes de suas acompanhantes.
A partir dessa noite, e durante quase um ano, manteve um assédio tenaz ao proprietário da pousada, oferecendo-lhe o que quisesse, em dinheiro ou em favores, para chegar ao que mais lhe apetecesse na vida, desde que lhe vendesse o espelho. Não foi fácil, pois o velho Sancho acreditava na lenda de que aquela preciosa moldura talhada por ebanistas vienenses era gêmea de outra que pertencera  a  Maria Antonieta, e que desaparecera sem deixar rastro: duas jóias únicas. Quando por fim cedeu, Florentino Ariza pendurou o espelho na sua casa, não pelos primores da moldura e sim pelo espaço interior, que tinha sido ocupado durante duas horas pela imagem amada.
Quase só via Fermina Daza de braço dado com o marido, num concerto perfeito, movendo-se ambos num âmbito próprio, com uma assombrosa fluidez de siameses que desafinava quando o cumprimentavam. Com efeito, o doutor Urbino lhe estreitava a mão com um afeto cálido, e até se permitia em certas ocasiões uma palmada   no   ombro.  Ela,  em   compensação,  o   mantinha   condenado   ao regime


impessoal dos formalismos, e nunca fez um mínimo gesto que o autorizasse a suspeitar que se lembrava dele em seus tempos de solteira. Viviam em dois mundos divergentes, mas enquanto ele fazia toda a espécie de esforços para reduzir a distância, ela nunca deu um único passo que não fosse em sentido  contrário.  Passou muito tempo antes que ele se atrevesse a pensar que aquela indiferença não passava de uma couraça contra o medo. Ocorreu-lhe de repente, no batismo do primeiro navio de água doce construído nos estaleiros locais, que foi também a primeira ocasião oficial em que Florentino Ariza representou tio Leão XII como primeiro vice-presidente da C.F.C. Esta coincidência revestiu o ato de uma solenidade especial, e não faltou ninguém que tivesse alguma significação na vida   da cidade.
Florentino Ariza se ocupava dos convidados no salão principal do navio, cheirando ainda a pintura recente e alcatrão derretido, quando uma salva de aplausos explodiu no cais e a banda atacou uma marcha triunfal. Teve que reprimir um estremecimento já quase tão antigo quanto ele próprio quando viu a formosa mulher dos seus sonhos no braço do marido, esplêndida em sua maturidade, desfilando como uma rainha de outros tempos entre a guarda de honra em uniforme de parada, debaixo de uma tempestade de serpentinas e pétalas naturais que lhe atiravam das janelas. Ambos respondiam com a mão às ovações, mas ela era tão deslumbrante que parecia ser a única no meio da multidão, vestida toda de um dourado imperial, dos sapatos de salto alto e das caudas de raposa no pescoço, até o chapéu-sino.
Florentino Ariza os esperou na ponte, junto com as autoridades provinciais, em meio ao estrondo da música e dos foguetes e dos três bramidos intensos do navio que deixaram o cais empapado de vapor. Juvenal Urbino cumprimentou a fila de recepção com aquela naturalidade tão sua que fazia cada um pensar que era alvo de um afeto especial: primeiro o comandante do navio em uniforme de gala, depois o arcebispo, depois o governador com sua mulher e o prefeito com a sua, e depois o chefe militar da praça, que era um andino recém-chegado. Em seguida às autoridades estava Florentino Ariza, terno de lã escura, quase invisível entre tantos notáveis. Depois de cumprimentar o comandante da praça, Fermina pareceu vacilar diante da mão estendida de Florentino Ariza. O militar, disposto a apresentá-los, perguntou a ela se se conheciam. Ela não disse nem que sim nem que não, estendendo a mão a Florentino Ariza com um sorriso de salão. O mesmo acontecera em duas ocasiões do passado, e havia de acontecer outras vezes, e Florentino Ariza    o aceitou sempre como um comportamento próprio do caráter de Fermina Daza.  Mas aquela tarde perguntou a si mesmo com sua infinita capacidade de ilusão se uma indiferença tão encarniçada não seria um subterfúgio para dissimular um tormento de amor.
A simples idéia lhe alvoroçou as querências. Voltou a rondar a quinta  de  Fermina Daza com as mesmas ânsias com que o fazia tantos anos antes na pracinha dos Evangelhos, não com a intenção calculada de que ela o visse, e sim com a única


de vê-la para se certificar de que continuava no mundo. Só que agora era difícil passar despercebido. O bairro de Mangueira ficava numa ilha semideserta, separada da cidade histórica por um canal de águas verdes, e coberta de matagais de icaqueiro que tinham sido guarida de namorados domingueiros durante a Colônia. Em anos recentes tinham demolido a velha ponte de  pedra dos espanhóis e construído uma  de cimento com globos de luz, para dar passagem aos novos bondes de burro. No princípio, os moradores da Mangueira tinham que suportar um suplício que não se levara em conta no projeto, e que era dormir perto demais da primeira  usina elétrica que teve a cidade, cuja trepidação era um terremoto contínuo.  Nem  o  doutor Juvenal Urbino com todo seu poder conseguira que a mudassem para onde não estorvasse, até que intercedeu a seu favor sua comprovada cumplicidade com a Divina Providência. Uma noite a caldeira da usina arrebentou com uma explosão pavorosa, voou por cima das casas novas, atravessou metade da cidade pelos ares e fez desmoronar a galeria maior do antigo convento de São Julião o Hospitaleiro. O velho edifício em ruínas tinha sido abandonado em princípios daquele ano, mas a caldeira causou a morte de quatro presos que se haviam evadido à noitinha do cárcere local e estavam escondidos na capela.
Aquele subúrbio aprazível, com tão belas tradições de amor, não foi em compensação muito propício aos amores contrariados quando se converteu em bairro de luxo. As ruas eram poeirentas no verão, enlameadas no inverno e desoladas durante o ano inteiro, e as casas escassas se escondiam entre jardins frondosos, com varandas de mosaico em vez das sacadas salientes de outrora, como que feitas de propósito para desalentar os namorados furtivos. Ainda bem que naquela época se impôs a moda de passear de tarde nas velhas vitórias de praça reformadas para um cavalo só, e o trajeto terminava numa eminência de onde se apreciavam os crepúsculos desatinados de outubro melhor do que da torre do farol,   e se avistavam os tubarões sigilosos tocaiando a praia dos seminaristas, e o transatlântico das quintas-feiras, imenso e branco, que quase se podia tocar com as mãos quando passava pelo canal do porto. Florentino Ariza costumava tomar uma vitória depois do duro dia de escritório, mas não arriava a capota como era costume nos meses de calor, permanecendo escondido no fundo do assento, invisível na sombra, sempre só, e ordenando itinerários imprevistos para não despertar os maus pensamentos do cocheiro. A única coisa do passeio que na realidade  o  interessava era o partenom de mármore rosado entre plantações de banana e mangueiras frondosas, réplica desafortunada das mansões idílicas dos algodoais da Luisiana. Os filhos de Fermina Daza voltavam para casa pouco antes das cinco. Florentino Ariza  os via chegar no carro da  família, e via sair depois o doutor Juvenal Urbino para  suas visitas médicas de rotina, mas em quase um ano de rondas não pôde sequer vislumbrar a janela que buscava.
Uma tarde em que insistiu no passeio solitário apesar de estar caindo o primeiro aguaceiro devastador de junho, o cavalo resvalou na lama e tombou de bruços. Florentino Ariza viu  com  horror que  estava bem  na frente  da  quinta de     Fermina


Daza, e implorou ao cocheiro, sem pensar que sua consternação podia delatá-lo.
— Aqui não, por favor — gritou. — Em qualquer lugar menos aqui.
Perturbado pela pressa, o cocheiro procurou levantar o cavalo sem desatrelá-lo, e o eixo do carro quebrou. Florentino Ariza saltou como pôde, e agüentou a vergonha de baixo do rigor da chuva até que outros passantes se ofereceram para levá-lo a  casa. Enquanto esperava, uma criada da família Urbino o vira com a roupa ensopada e chapinhando na lama até os joelhos, e lhe levou um guarda-chuva para que viesse se abrigar no terraço. Florentino Ariza não sonhava com tanta sorte nem no mais descomedido dos seus delírios, mas naquela tarde teria preferido morrer a ser visto por Fermina Daza em semelhante estado.
Quando moravam na cidade velha, Juvenal Urbino e a família iam aos domingos  a pé da casa até a catedral, para a missa das oito, que era mais um ato mundano do que religioso. Mais tarde, quando mudaram de casa, continuaram indo de carro durante vários anos, e às vezes se deixavam ficar em tertúlias de amigos sob as palmeiras do parque. Mas quando se construiu o templo do seminário conciliar da Mangueira, com praia particular e cemitério próprio, passaram a ir à catedral em ocasiões muito solenes. Sem saber destas mudanças, Florentino Ariza esperou  vários domingos no terraço do Café da Paróquia, vigiando a saída das três missas. Depois percebeu o erro e foi à igreja nova, que esteve na moda até poucos anos, e lá viu o doutor Juvenal Urbino com os filhos, pontuais às oito nos quatro domingos de agosto, mas Fermina Daza não estava com eles. Num desses domingos visitou o novo cemitério contíguo, onde os residentes do bairro de Mangueira estavam construindo seus panteões suntuosos, e seu coração deu  um salto  quando encontrou à sombra das grandes paineiras o mais suntuoso de todos, já terminado, com vitrais góticos e anjos de mármore, e com as lápides para toda a família em letras douradas. Entre elas, é claro, a de dona Fermina Daza de Urbino de Ia Calle, e em continuação a do marido, com um epitáfio comum: Juntos também na paz do Senhor.
Durante o restante do ano, Fermina Daza não assistiu a nenhum dos atos cívicos ou sociais, nem mesmo os do Natal, nos quais ela e o marido costumavam ser protagonistas de luxo. Mas onde mais se notou sua ausência foi na recita inaugural da temporada de ópera. No intervalo, Florentino Ariza surpreendeu um grupo em que sem dúvida falavam nela sem mencioná-la. Diziam que alguém a vira, numa certa meia-noite do junho anterior, subir ao transatlântico da Cunard, rumo ao Panamá, e que usava um véu escuro para que não se notassem os estragos causados pela doença secreta que a consumia. Alguém perguntou que mal tão terrível podia ser que se atrevia a atacar mulher de tantos poderes, e a resposta que recebeu veio saturada de uma bílis negra:
— Uma dama tão distinta pode ter a tísica.
Florentino Ariza sabia que os ricos de sua terra não tinham doenças curtas. Ou bem morriam de repente, quase sempre às vésperas de uma festa maior que o luto


prejudicava, ou iam se apagando em enfermidades lentas e abomináveis, cujas intimidades acabavam por cair no domínio público. A reclusão no Panamá era quase uma penitência obrigatória na vida dos ricos. Submetiam-se ao que Deus quisesse no Hospital dos Adventistas, um imenso galpão branco extraviado nos aguaceiros pré-históricos do Darién, onde os doentes perdiam a conta da pouca vida que lhes restava, e em cujos quartos solitários com janelas de cortina opaca ninguém podia saber com certeza se o cheiro do ácido fênico era de saúde ou de morte. Os que se restabeleciam voltavam carregados de presentes esplêndidos que repartiam a mancheias com uma certa angústia de quem pede perdão pela indiscrição de continuar vivo. Alguns voltavam com o abdome atravessado de costuras bárbaras que pareciam feitas com cânhamo de sapateiro, levantavam a camisa para mostrá-  las às visitas, comparavam-nas com as de outros que tinham  morrido  sufocados pelos excessos da felicidade, e pelo restante dos seus dias continuavam contando e tornando a contar as aparições angelicais que tinham visto sob os efeitos do clorofórmio. Em compensação, ninguém jamais conheceu as visões dos que não voltaram, e entre estes os mais tristes: os que morreram desterrados no pavilhão   dos tísicos, mais pela tristeza da chuva do que pelos padecimentos da  doença.
A ter que escolher, Florentino Ariza não sabia o que teria preferido para Fermina Daza. Mas antes de mais nada preferia a verdade, ainda que insuportável, e por muito que a buscasse não deu com ela. Achava inconcebível que ninguém pudesse lhe dar pelo menos um indício para confirmar a versão. No mundo dos navios fluviais, que era o seu, não havia mistério que se pudesse  conservar  nem confidencia que se pudesse guardar. No entanto, ninguém ouvira falar na mulher do véu preto. Ninguém sabia nada, numa cidade onde tudo se sabia, e onde muitas coisas se sabiam inclusive antes que acontecessem. Sobretudo as coisas dos ricos. Mas ninguém tinha explicação nenhuma para o desaparecimento de Fermina Daza. Florentino Ariza continuava rondando a Mangueira, ouvindo missas  sem  devoção na basílica do seminário, assistindo a atos cívicos que nunca lhe teriam interessado em outro estado de ânimo, mas a Passagem do  tempo fazia aumentar o  crédito  da versão. Tudo parecia normal na casa dos Urbino, exceto a falta da mãe.
No meio de tantas averiguações encontrou outras novidades que não conhecia,  ou que não andava buscando, e entre elas a da morte de Lorenzo Daza na aldeia cantábrica onde nascera. Recordava tê-lo visto durante muitos anos nas ruidosas guerras de xadrez no Café da Paróquia, a voz enrouquecida de tanto falar, e mais gordo e áspero à medida que afundava nas areias movediças de uma velhice ruim. Não tinham tornado a se dirigir a palavra desde o ingrato café da manhã de aguardente de anis no século anterior, e Florentino Ariza tinha certeza de que Lorenzo Daza ainda o recordava com rancor igual ao seu, mesmo depois de conseguir para a filha o casamento de fortuna que se convertera na única razão que tinha para viver. Mas estava tão decidido a encontrar uma informação inequívoca sobre a saúde de Fermina Daza que voltara ao Café da Paróquia para obtê-la do pai, na  época  em  que  ali  se  celebrou  o  torneio  histórico  em  que  Jeremiah  de Saint-


Amour enfrentou sozinho quarenta e dois adversários. Foi assim que se inteirou de que Lorenzo Daza tinha morrido, e se alegrou de todo o coração, embora sabendo que o preço daquela alegria podia ser o de continuar vivendo  sem a verdade. No  final admitiu como certa a versão do hospital de desenganados, sem mais consolo que não fosse o refrão conhecido: Mulher enferma, mulher eterna. Em seus dias de desalento, se conformava com a idéia de que a notícia da morte de Fermina Daza, caso ocorresse, a ele chegaria mesmo que não a buscasse.
Não chegaria nunca. Pois Fermina Daza estava viva e saudável na fazenda onde sua prima Hildebranda Sánchez vivia esquecida do mundo, a meia légua do povoado de Flores de Maria. Tinha ido sem escândalo, de comum acordo com o marido, enrolados ambos como adolescentes na única crise séria  que  sofriam  em  tantos anos de um casamento estável. Tinham sido apanhados de supetão no repouso da maturidade, quando já se sentiam a salvo de qualquer emboscada da adversidade, com os filhos grandes e bem criados, e com o futuro aberto para que aprendessem a ser velhos sem azedumes. Tinha sido algo tão imprevisto para ambos que não quiseram resolver o caso aos gritos, com lágrimas e mediadores, como era de uso natural no Caribe, e sim com a sabedoria das nações da Europa, e de tanto  não  serem de nem de acabaram escorregando numa situação pueril que não era de lugar nenhum. Afinal ela decidira ir embora, sem saber sequer por que, ou para quê, de pura raiva, e ele não fora capaz de dissuadi-la, impedido por sua consciência de culpa.
Fermina Daza, com efeito, embarcara à meia-noite dentro do maior sigilo e com   a cara coberta por uma mantilha de luto, mas não num transatlântico da Cunard com destino ao Panamá, e sim no naviozinho regular de São João da Ciénaga, a cidade onde nasceu e onde morou até a puberdade, e cuja saudade ia ficando insuportável com os anos. Contra a vontade do marido e os costumes da época, só levou como acompanhante uma afilhada de quinze anos que se criara com a criadagem de sua casa, mas haviam avisado de sua viagem os comandantes dos navios e as autoridades de cada porto. Quando tomou sua irrefletida resolução, anunciou aos filhos que ia repousar uns três meses na companhia de tia Hildebranda, mas estava decidida a ficar. O doutor Juvenal Urbino conhecia muito bem a integridade do seu caráter, e estava tão atribulado que aceitou  com humildade a decisão como um castigo de Deus pela gravidade de seus pecados. Mas não se haviam perdido de vista as luzes do navio e já estavam ambos arrependidos   de suas fraquezas.
Apesar de terem mantido uma correspondência formai sobre os filhos e outros assuntos da casa, transcorreram quase dois anos sem que um ou outro encontrasse um caminho de regresso que não estivesse minado pelo orgulho. Os filhos foram passar em Flores de Maria as férias escolares do segundo ano, e Fermina Daza fez o impossível por parecer conformada com sua nova vida. Foi essa pelo menos a conclusão que tirou Juvenal Urbino das  cartas do filho. Além disso, andou então   por ali num giro pastoral o bispo de Riohacha, montado sob o palio na sua célebre


mula branca com gualdrapas bordadas a ouro. Atrás vieram peregrinos de comarcas remotas, sanfoneiros, vendedores ambulantes de comidas e amuletos, e a fazenda passou três dias submersa em inválidos e desenganados, que na realidade não vinham atraídos pelos sermões doutos e as indulgências plenárias, e sim pelos favores da mula, da qual se dizia que era milagreira pelas costas do dono. O bispo tinha sido íntimo da casa dos Urbino de Ia Calle desde seus anos de padre raso, e num certo meio-dia escapou de sua feira para almoçar na fazenda de Hildebranda. Depois do almoço, no qual só se falou de assuntos terrenos, levou a um canto Fermina Daza e quis ouvi-la em confissão. Ela se negou, de um modo amável mas firme, com o argumento explicito de que não tinha nada de que se arrepender. Embora não fosse esse seu propósito, pelo menos consciente, ficou com a idéia de que sua resposta ia chegar onde devia.
O doutor Juvenal Urbino costumava dizer, não sem certo cinismo, que aqueles dois amargos anos de sua vida não tinham sido culpa sua e sim do mau  costume  que tinha sua mulher de cheirar a roupa que a família tirava, e a que ela própria tirava, para saber pelo cheiro se era preciso mandar lavá-la embora parecesse limpa  à primeira vista. Era o que fazia desde menina, e nunca pensou que se  notasse  tanto, até que o marido o percebeu na própria noite de núpcias. Percebeu também que ela fumava pelo menos três vezes por dia trancada no banheiro, mas isto  não lhe chamou a atenção, pois as mulheres de sua classe costumavam trancar-se em grupos para falar de homens e fumar, e mesmo beber aguardente às canadas ate se estirarem ébrias no chão. Mas o costume de farejar tudo quanto era roupa em seu caminho não lhe pareceu insólito como perigoso para a saúde. Ela o levava na brincadeira, como levava tudo que não queria discutir, e dizia que não era para simples adorno que Deus lhe havia posto na cara aquele  diligente  nariz  ornitológico. Certa manhã, enquanto ela andava fazendo compras, a criadagem alvoroçou a vizinhança procurando o filho de três anos que não era achado em nenhum esconderijo da casa. Ela chegou em meio ao pânico, deu duas ou três voltas de mastim rastreador, e encontrou o filho dormindo num guarda-roupa, onde ninguém pensou que pudesse se esconder. Quando o marido atônito  perguntou como o encontrara, respondeu:
— Pelo cheiro de cocô.
A verdade é que o olfato não lhe servia para lavar a roupa ou para achar crianças perdidas: era seu sentido de orientação em todas as ordens da vida, e sobretudo da vida social. Juvenal Urbino tinha observado isto ao longo do seu casamento, sobretudo no princípio, quando ela era uma adventícia ao ambiente predisposto contra ela trezentos anos, e mesmo assim bracejava entre frondes de corais afiados sem tropeçar em ninguém, com um domínio do mundo que podia ser um instinto sobrenatural. Essa faculdade temível, que tanto podia ter origem numa sabedoria milenar quanto num coração de pedra, teve sua hora de desgraça num mau domingo antes da missa, quando Fermina Daza por pura rotina aspirou fundo  a roupa que  o  marido  tinha usado  a tarde  anterior, e  padeceu  a    sensação


perturbadora de ter tido na cama um outro homem.
Aspirou primeiro o paletó e o colete enquanto tirava da botoeira o relógio de corrente e dos bolsos a lapiseira e a carteira e umas poucas moedas soltas e  ia  pondo tudo sobre a penteadeira, e depois aspirou a camisa pespontada enquanto tirava o prendedor de gravata e as abotoaduras de topázio dos punhos e o botão de ouro do colarinho postiço, e depois aspirou as calças enquanto tirava o chaveiro de onze chaves e o canivete de madrepérola, e aspirou afinal a ceroula e as meias e o lenço de linho com seu monograma bordado. Não havia a menor sombra de dúvida: em cada uma das peças havia um cheiro que não aparecera nelas em tantos anos de vida em comum, um cheiro impossível de definir, porque não era de flores nem de essências artificiais, e sim de algo próprio à natureza humana. Não disse nada, nem passou a encontrar o cheiro todos os dias, mas já não farejava a roupa do  marido com a curiosidade de saber se era o caso de mandar lavar e sim com uma ansiedade insuportável que lhe ia roendo as entranhas.
Fermina Daza não soube onde situar o cheiro da roupa dentro da rotina do marido. Não podia ser entre a aula matinal e o almoço, pois supunha que nenhuma mulher em seu pleno juízo ia fazer um amor apressado a semelhantes horas, menos ainda com uma visita, enquanto dependia ainda de varrer a casa, fazer as camas, ir  ao mercado, preparar o almoço, e talvez com a angústia de que chegasse da escola antes da hora um dos filhos escalavrado por uma pedrada e a encontrasse nua às onze da manhã no quarto por arrumar, e para cúmulo de horrores com um médico em cima. Sabia, por outro lado, que o doutor Juvenal Urbino fazia amor de noite, de preferência na escuridão absoluta, e em último caso antes do café da manhã ao trinar dos primeiros pássaros. Depois dessa hora, dizia, era maior o trabalho de tirar a roupa e vesti-la de novo do que o prazer de um amor de galo. De maneira que a contaminação da roupa podia ocorrer em alguma das visitas médicas, ou em qualquer momento escamoteado a suas noites de xadrez e cinema. Isso era difícil de esclarecer, porque ao contrário de tantas amigas suas, Fermina Daza era demasiado orgulhosa para espionar o marido, ou pedir a alguém que o fizesse por ela.  O  horário das visitas, que parecia o mais apropriado para a infidelidade, era além disso o mais fácil de vigiar, porque o doutor Juvenal Urbino tinha sempre consigo uma relação minuciosa de cada um dos clientes, inclusive com a posição dos honorários,  a partir da primeira visita e até que os despedia deste mundo com uma cruz final e uma frase pelo bem-estar de sua alma.
No fim de três semanas, Fermina Daza não encontrara o cheiro na roupa durante vários dias, tornara a encontrá-lo de novo quando menos esperava, e depois o encontrara mais descarnado que nunca durante vários dias  consecutivos, embora um deles tivesse sido um domingo de festa familiar no qual ela e ele não se haviam separado um instante que fosse. Uma tarde se encontrou no gabinete do marido, contra seu costume e até contra seus desejos, como se não fosse ela e sim uma   outra que estivesse fazendo algo que não faria jamais, decifrando com uma primorosa lupa de  Bengala as  intricadas  notas  de  visitas  dos últimos meses. Era a


primeira vez que entrava sozinha nesse gabinete saturado de vapores de creosoto, atulhado de livros encadernados em peles de animais ignotos, de esmaecidas gravuras de grupos escolares, de pergaminhos honoríficos, de astrolábios e punhais de fantasia colecionados durante anos. Um santuário secreto que considerara sempre como a única parte da vida privada do marido à qual não tinha acesso por  não estar incluída no amor, e por isso as poucas vezes em que estivera ali tinham  sido com ele, sempre para assuntos fugazes. Não se sentia no direito de entrar sozinha, menos ainda para escrutínios que não lhe pareciam decentes. Mas ali  estava. Queria encontrar a verdade, e a buscava com ânsias apenas comparáveis ao terrível temor de encontrá-la, impelida por uma ventania incontrolável mais imperiosa que sua altivez congênita, ainda mais imperiosa que sua dignidade: um suplício fascinante.
Não pôde tirar nada a limpo, porque os pacientes do marido, salvo os amigos comuns, eram também parte do seu domínio estanque, pessoas sem identidade que não se conheciam pela cara e sim pelas dores, não pela cor dos olhos ou as evasivas do coração, e sim pelo tamanho do fígado, o sarro na língua, os grumos na urina, as alucinações nas noites de febre. Pessoas que acreditavam no seu marido, que acreditavam viver graças a ele quando na realidade viviam para ele e acabavam reduzidas a uma frase escrita por ele do próprio punho e letra no pé do expediente médico: Tranqüilo, Deus está te esperando na porta. Fermina Daza abandonou o escritório ao fim de duas horas com a sensação de se haver deixado tentar pela indecência.
Atiçada pela fantasia, começou a descobrir as mudanças operadas no marido. Achava-o evasivo, inapetente na mesa e na cama, propenso à exasperação e às réplicas irônicas, e quando estava em casa. já não era o homem tranqüilo de antes e sim um leão enjaulado. Pela primeira vez desde que se haviam casado vigiou seus atrasos, controlou-os aos minutos, e lhe pregava mentiras para extrair verdades, sentindo-se porém ferida de morte quando ele caía em contradição. Uma noite acordou sobressaltada por um estado fantasmagórico, e era que o marido a olhava  na escuridão com olhos que lhe pareceram carregados de ódio. Sofrerá um arrepio semelhante na flor da juventude, quando via Florentino Ariza aos pés da cama, que sua aparição não era de ódio e sim de amor. Além disso, desta vez não se tratava de fantasia: o marido estava acordado às duas da madrugada, e se  aprumara na  cama para olhá-la adormecida, mas quando ela perguntou o que fazia, ele negou. Tornou a pôr a cabeça no travesseiro, e disse:
   Deve ter sido sonho seu.
Depois dessa noite, e por outros episódios semelhantes dessa época em que Fermina Daza não sabia de ciência certa onde acabava a realidade e onde começava   o sonho, teve a revelação deslumbrante de que estava ficando louca. Reparou afinal que o marido não comungara na quinta-feira de Corpus Christi, nem em nenhum domingo das últimas semanas, nem encontrara tempo para os retiros espirituais   do


ano. Quando ela perguntou a que se deviam essas mudanças insólitas na sua saúde espiritual, recebeu uma resposta confusa. Esta foi a chave decisiva, porque ele não deixara de comungar numa data tão importante desde sua primeira comunhão aos oito anos. Desse modo viu não que o marido estava em pecado mortal, como que resolvera persistir nele, posto que não acudia aos auxílios do confessor. Jamais imaginara que se pudesse sofrer tanto por algo que parecia ser o exato contrário do amor, mas nisso caíra, e resolveu que o único recurso para não morrer disso era  tocar fogo no ninho de víboras que lhe empeçonhava as entranhas. Assim foi. Uma tarde começou a cerzir calcanhares de meias no terraço, enquanto o marido acabava sua leitura diária depois da sesta. De repente, interrompeu o trabalho, levantou os óculos para a testa, e o interpelou sem o mínimo tom de  dureza:
   Doutor.
Ele estava mergulhado na leitura de L'Ile des pingouins, o romance que todo mundo estava lendo naqueles dias, e respondeu sem vir à tona: "Oui.” Ela  insistiu:
   Você me olhe na cara.
Ele obedeceu, olhando sem vê-la pela bruma dos óculos de leitura, mas não precisou tirá-los para se queimar na brasa do olhar dela.
   Que está acontecendo? — perguntou.
   Você sabe melhor do que eu — disse ela.
E mais não disse. Abaixou de novo os óculos e continuou cerzindo as meias. O doutor Juvenal Urbino soube então que as longas horas de ansiedade haviam terminado. Ao contrário da forma em que prefigurava aquele  instante, não  houve um abalo sísmico do coração*, e sim um golpe de paz. Era o grande alívio de que tivesse acontecido mais cedo que tarde aquilo que tarde ou cedo tinha  que  acontecer: o fantasma da senhorita Bárbara Lynch tinha afinal entrado na  casa.
O doutor Juvenal Urbino a conhecera quatro meses antes, esperando a vez na consulta externa do Hospital da Misericórdia, e viu logo que algo de irreparável acabava de ocorrer em seu destino. Era uma mulata alta, elegante, de ossos grandes, com a pele da mesma cor e da mesma natureza branda do melado, vestida aquela manhã com um vestido vermelho com pintas brancas e um chapéu do  mesmo gênero de abas muito amplas que lhe sombreavam o rosto até as pálpebras. Parecia de um sexo mais definido do que o resto dos humanos. O doutor Juvenal  Urbino  não atendia no serviço externo, mas sempre que passava por ali com  sobra  de tempo gostava de relembrar aos alunos mais velhos que não medicina melhor do que um bom diagnóstico. De maneira que arrumou um jeito de estar presente ao exame da mulata imprevista, tratando de ver que os discípulos não lhe notassem qualquer gesto que não parecesse casual, e mal se deteve nela, mas anotou muito bem na memória os dados de sua identidade. Nessa tarde, depois da última visita, fez o carro passar pelo endereço que ela dera na consulta, e lá estava, com efeito, tomando a fresca de março na varanda.


Era uma típica casa antilhana pintada toda de amarelo até o teto de zinco, as janelas com toldos e potes de cravos e samambaias pendurados no portal, e assentada sobre estacas de madeira no alagado da Criação. Um passarinho, um turpial, cantava na gaiola pendente do beirai. Na calçada do outro lado havia uma escola primária, e as crianças que saíam em tropel obrigaram o cocheiro a manter as rédeas firmes para impedir que o cavalo se espantasse. Foi uma sorte, porque a senhorita Bárbara Lynch teve tempo de reconhecer o doutor. Cumprimentou-o com um aceno de velhos conhecidos, convidou-o a tomar um café enquanto se acalmava  a desordem, e ele o tomou encantado, contra seu costume, ouvindo-a falar de si mesma, que era a única coisa que a ele interessava a partir daquela manhã, e  a  única coisa que ia interessar-lhe, sem um minuto de paz,  nos  próximos  meses. Certa ocasião, ele recém-casado, um amigo lhe dissera na frente da  mulher que  mais cedo ou mais tarde teria que se haver com uma paixão enlouquecedora, capaz  de pôr em risco a estabilidade do seu casamento. Ele, que julgava conhecer-se a si mesmo, que conhecia a fortaleza de suas raízes morais, rira do  prognóstico. Pois bem: aí estava.
A senhorita Bárbara Lynch, doutora em teologia, era filha única do reverendo Jonathan B. Lynch, pastor protestante, preto e seco, que andava de mula pelo  casario indigente do alagado, pregando a palavra de um dos tantos deuses que o doutor Juvenal Urbino escrevia com minúscula para diferenciá-los do  seu. Falava um bom castelhano, com uma pedrinha na sintaxe cujos tropeços freqüentes aumentavam sua graça. Ia fazer vinte e oito anos em dezembro, se divorciara fazia pouco de outro pastor, discípulo do pai, com o qual estivera mal casada dois anos, e não guardara desejos de reincidir. Disse: "Meu único amor é o meu turpial." Mas o doutor Urbino era demasiado sério para achar que ela dissesse isso com segundas intenções. Pelo contrário: perguntou a si mesmo, confuso, se tantas facilidades juntas não seriam uma armadilha de Deus para depois cobrá-las em dobro, o que  em seguida afastou de sua mente como um disparate teológico devido ao seu estado de confusão.
Na hora de se despedir, fez um comentário casual sobre a consulta médica da manhã, sabendo que nada agrada mais ao doente do que falar dos seus males, e ela foi tão esplêndida falando dos seus que ele prometeu voltar no dia seguinte, às quatro em ponto, para examiná-la de maneira mais completa. Ela se assustou: sabia que um médico daquela classe estava muito acima das suas possibilidades, mas ele   a tranqüilizou: "Nesta profissão tratamos de ver que os ricos paguem pelos pobres." Em seguida anotou em seu caderno de bolso: senhorita Bárbara Lynch, alagado da Criação, sábado, 4 p.m. Meses depois, Fermina Daza leria aquela ficha aumentada com os pormenores do diagnóstico, e com a evolução da enfermidade. O nome lhe chamou a atenção, e de momento lhe ocorreu que era uma dessas artistas extraviadas dos navios fruteiros de Nova Orleans, mas o endereço lhe deu a idéia de que o mais provável é que ela fosse da Jamaica, e preta, é claro, e a afastou sem cuidados do gosto do marido.


O doutor Juvenal Urbino chegou ao encontro de sábado dez minutos antes da hora, quando a senhorita Lynch ainda não tinha acabado de se vestir para recebê-lo. Desde seus tempos de Paris, quando tinha que se apresentar a um exame oral, não sentia tamanha tensão. Estendida na cama de linho, com uma tênue combinação de seda, a senhorita Lynch era de uma beleza interminável. Tudo nela era grande e intenso: suas coxas de sereia, a pele a fogo brando, os seios atônitos, as gengivas diáfanas de dentes perfeitos, e todo seu corpo irradiava um vapor de boa saúde que era o cheiro humano que Fermina Daza encontrava na roupa do marido. Tinha ido à consulta externa porque sofria de algo que chamava com muita graça eólicas torcidas, e o doutor Urbino achava que era um sintoma que não se devia encarar  com ligeireza. De maneira que apalpou seus órgãos internos com mais intenção do que atenção, e enquanto isso ia esquecendo a própria sabedoria e descobrindo assombrado que aquela criatura de maravilha era tão bela por dentro quanto por fora, e então se abandonou às delícias do tato, já não como o médico mais qualificado do litoral caribe, e sim como um pobre homem de Deus atormentado pela desordem dos instintos. uma vez lhe acontecera algo assim em sua severa vida profissional, e tinha sido seu dia de maior vergonha, porque a paciente, indignada, lhe afastou a mão, sentou na cama, e disse: "O que o senhor quer pode acontecer, mas assim não de ser." A senhorita Lynch, porém, se abandonou às suas mãos, e quando não teve mais nenhuma dúvida de que o médico já não estava pensando em sua ciência, disse:
   Eu achava que isso não era permitido pela ética.
Ele estava ensopado de suor, como se estivesse saindo vestido de dentro de um tanque, e secou as mãos e a cara numa toalha.
   A ética — disse — imagina que nós médicos somos de ferro. Ela lhe estendeu a mão agradecida.
    O fato de eu achar uma coisa não quer dizer que ela não se  possa fazer —  disse. — Imagine o que será para uma pobre negra como eu que preste atenção  em mim um homem de tanta fama.
   Não deixei de pensar em você um instante — disse  ele.
Foi uma confissão tão trêmula que teria merecido compaixão. Mas  ela o  livrou de todo mal dando uma gargalhada que iluminou o quarto.
    Isso eu sei desde que vi você na hospital, doutor — disse. — Negra sou, mas bronca não.
Não foi nada fácil. A senhorita Lynch queria sua honra limpa, queria segurança e amor, nessa ordem, e acreditava merecê-los. Deu ao doutor Urbino a oportunidade de seduzi-la, mas sem entrar no quarto ainda que ela estivesse sozinha na casa. O mais longe que chegou foi deixar que ele repetisse a cerimônia de apalpação e auscultação com todas as violações éticas que quisesse, mas sem lhe tirar a roupa. Ele, de sua parte, não pôde largar a isca uma vez mordida, e perseverou nos assédios


quase diários. Por motivos de ordem prática, a relação continuada com a senhorita Lynch lhe era quase impossível, mas ele era fraco de mais para se deter a tempo, como depois também havia de ser para seguir em frente. Foi seu limite.
O reverendo Lynch não tinha uma vida regular, ia embora a qualquer momento na mula carregada por um lado de bíblias e folhetos de propaganda evangélica, carregada de provisões por outro lado, e voltava quando menos se esperava. Outro inconveniente era a escola fronteira, pois as crianças cantavam as lições olhando a rua pelas janelas, e o que melhor viam era a casa da calçada oposta, com portas e janelas abertas de par em par desde as seis da manhã, e viam a senhorita Lynch pendurando a gaiola no beirai para que o turpial aprendesse as lições cantadas, viam-na com um turbante colorido a cantá-las ela também com sua brilhante voz caribe enquanto fazia os serviços da casa, e a viam depois sentada na varanda cantando em inglês os salmos da tarde.
Tinham que escolher uma hora em que não houvesse crianças, o que deixava duas possibilidades: a pausa do almoço, entre as doze e as duas, que era quando também o doutor almoçava, ou o final da tarde, quando as crianças iam para casa. Esta última foi sempre a hora melhor, mas quando ela soava o doutor já terminara suas visitas e dispunha de poucos minutos se quisesse jantar com a família. O terceiro problema, o mais grave para ele, era sua própria condição. Não podia ir sem o carro, que era muito conhecido e devia estar sempre à porta. Teria sido possível fazer o cocheiro cúmplice, como faziam quase todos os seus amigos do Clube Social, mas isso estava fora do alcance dos seus costumes. Tanto assim que, quando as visitas à senhorita Lynch se tornaram evidentes demais, o próprio cocheiro familiar de libré se atreveu a perguntar se não seria melhor voltar mais tarde para buscá-lo para que o carro não ficasse tanto tempo estacionado à porta. O doutor Urbino, numa reação estranha a seu modo de ser, o cortou de um  talho.
— Desde que conheço você, essa é a primeira vez que o ouço dizer uma coisa que não devia — disse. — Pois bem: dou o dito por não dito.
Não havia solução. Numa cidade como esta era impossível esconder uma enfermidade enquanto o carro do médico estivesse parado na porta. Às vezes o próprio médico tomava a iniciativa de ir a pé, se a distância permitisse, ou em carro de praça, para evitar suposições malignas ou prematuras. Mesmo assim, esses estratagemas de pouco serviam, pois as receitas que se aviavam nas farmácias permitiam decifrar a verdade, a tal ponto que o doutor Urbino prescrevia remédios falsos junto com os corretos, para preservar o direito sagrado dos doentes de morrer em paz com o segredo de suas doenças. Também podia justificar de diversas maneiras honestas a presença do carro na frente da casa da  senhorita Lynch, mas não por muito tempo, e menos ainda por tanto quanto desejaria ele: toda a vida.
O mundo se transformou num inferno. Pois uma vez saciada a loucura inicial, ambos tomaram consciência dos riscos, e o doutor Juvenal Urbino não teve nunca a determinação  de  afrontar  o  escândalo.  Nos  delírios  da  febre  prometia  tudo, mas


depois que tudo passava tudo tornava a ficar para depois. Em compensação, à medida que aumentavam as ânsias de estar com ela aumentava também o temor de perdê-la, de modo que os encontros foram ficando cada vez mais apressados e difíceis. Não pensava em outra coisa. Esperava as tardes com uma ansiedade insuportável, esquecia os outros compromissos, esquecia tudo menos ela, mas à medida que o carro se aproximava do alagado da Criação ia rogando a Deus que um inconveniente de última hora o obrigasse a passar ao largo. Ia em tal estado de angústia que às vezes se alegrava de ver da esquina a cabeça algodoada do reverendo Lynch lendo na varanda, e a na sala, catequizando as crianças do bairro com os Evangelhos cantados. Então ia feliz para casa para não continuar desafiando o azar, mas depois se sentia enlouquecer de ansiedade para que o dia inteiro se transformasse nas cinco da tarde de todos os  dias.
De modo que os amores se tornaram impossíveis quando o carro se tornou notório demais à porta, e no fim de três meses já não passavam de ridículos. Sem tempo para se dizerem nada, a senhorita Lynch se metia no quarto logo que via entrar o amante aturdido. Adotara a precaução de vestir uma bata folgada nos dias em que o esperava, um lindo camisolão da Jamaica com babados de flores coloridas, mas sem roupa de baixo, sem nada, acreditando que a facilidade ia ajudá-lo contra o medo. Mas ele desperdiçava tudo que ela fazia para fazê-lo feliz. Ia atrás dela ofegante até o quarto, empapado de suor, e entrava estabanado atirando tudo no chão, a bengala, a maleta de médico, o chapéu panamá, e fazia um amor de pânico com as calças enroladas nos joelhos, o paletó abotoado para atrapalhar menos, com  a corrente de ouro no colete, com os sapatos calçados, com tudo, e mais inclinado a  ir embora quanto antes do que a cumprir com seu prazer. Ela ficava em jejum, mal entrando em seu túnel de solidão, quando ele se abotoava de novo, exausto, como se tivesse feito o amor absoluto na linha divisória entre a vida e a morte, quando na realidade se limitara a fazer aquilo que o ato amoroso tem de façanha física. Mas estava em sua lei: o tempo justo para aplicar uma injeção endovenosa num tratamento de rotina. Então voltava a casa envergonhado de sua debilidade, com vontade de morrer, maldizendo-se por não ter a coragem de pedir a Fermina Daza que lhe arriasse as calças e o sentasse de bunda num braseiro. Não jantava, rezava sem convicção, fingia continuar na cama a leitura da sesta enquanto a mulher dava voltas e voltas pela casa pondo o mundo em ordem antes de se deitar. À medida que cabeceava sobre o livro ia afundando pouco a pouco no mangue inevitável da senhorita Lynch, em sua exalação de floresta jacente, sua cama de morrer, e então não conseguia pensar em nada além das cinco menos cinco da tarde de  amanhã, e  ela à sua espera na cama sem nada além do monte de bucha escura embaixo da bata de louca da Jamaica: o círculo infernal.
Havia já alguns anos que começara a ter consciência do peso do próprio corpo. Reconhecia os sintomas. Lera a respeito deles nos textos, confirmara-os  na  vida real, em pacientes mais velhos sem antecedentes graves que de repente começavam  a descrever síndromes perfeitas que pareciam tiradas dos livros de medicina, e que


no entanto se comprovavam imaginárias. Seu professor de clínica infantil de La Salpêtrière o aconselhara a pediatria como a especialidade mais honesta, porque as crianças adoecem quando na realidade estão doentes, e não podem se comunicar com o médico com palavras convencionais e sim com sintomas concretos de  doenças reais. Os adultos, em compensação, a partir de certa idade, ou bem tinham os sintomas sem as doenças, ou algo pior: enfermidades graves com sintomas de outras inofensivas. Ele os entretinha com paliativos, dando tempo  ao  tempo, até que aprendiam a não sentir seus achaques à força de conviver com eles na lixeira da velhice. Numa coisa nunca pensara o doutor Juvenal Urbino, e era que um médico  da sua idade, que julgava ter visto tudo, não pudesse superar a inquietação de se sentir doente quando não estava. Ou pior: não crer que estava, por puro preconceito científico, quando talvez na realidade estivesse. aos quarenta anos, meio a sério meio de troça, dissera na cátedra: "A única coisa de que necessito na vida e alguém que me entenda." Mas quando se viu perdido no labirinto da senhorita Lynch, não havia mais troça no dito.
Todos os sintomas reais ou imaginários de seus pacientes mais velhos se acumularam em seu corpo. Sentia a forma do fígado com tal nitidez que podia dizer seu tamanho sem tocá-lo. Sentia o roncar de gato adormecido dos seus rins, sentia o brilho cambiante da vesícula, sentia o zumbido do sangue nas artérias. Às vezes amanhecia como um peixe sem ar para respirar. Tinha água no coração. Sentia que ele perdia o passo um instante, sentia que se atrasavam uma batida como nas marchas militares do colégio, uma vez e outra vez, e por fim sentia que  se recuperava porque Deus é grande. Mas em vez de apelar para os mesmos remédios de distração que aconselhava aos doentes, estava transido de terror. Era certo: a única coisa de que necessitava na vida, também aos cinqüenta e oito anos, era alguém que o entendesse. De maneira que apelou para Fermina  Daza, o  ser que mais o amava e ao qual mais amava neste mundo, e com quem acabava de pôr em paz sua consciência.
Pois isto aconteceu depois que ela o interrompeu na leitura da tarde para pedir que a, olhasse na cara, e ele teve o primeiro indício de que seu círculo infernal fora descoberto. Não entendia como, no entanto, porque não podia imaginar que  Fermina Daza tivesse encontrado a verdade por puro olfato. De todas as maneiras, e desde muito antes, esta não era uma cidade boa para se guardar segredos. Pouco tempo depois de instalados os primeiros telefones domésticos, vários casamentos que pareciam estáveis se acabaram devido a intrigas de chamadas anônimas, e muitas famílias atemorizadas suspenderam o serviço ou se negaram a adotá-lo durante anos. O doutor Urbino sabia que sua mulher se respeitava demais a si mesma para sequer admitir uma tentativa de inconfidência anônima por telefone, e não podia imaginar ninguém ousado a ponto de fazê-la em seu próprio nome. Em compensação, temia o método antigo: um papel enfiado por baixo da porta por mão desconhecida podia ser eficaz, não por garantir o duplo anonimato do remetente  e   destinatário,  como   porque   sua  estirpe   lendária  permitia  atribuir-lhe  alguma


relação metafísica com os desígnios da Divina Providência.
Os ciúmes não conheciam sua casa: durante mais de trinta anos de paz conjugai,  o doutor Urbino se havia gabado em público muitas vezes, e até então tinha sido verdade, de ser como os fósforos suecos, que acendem na própria caixa. Mas ignorava qual poderia ser a reação de uma mulher com tanto orgulho quanto a sua, com tanta dignidade e um caráter tão forte, diante de uma infidelidade comprovada. De maneira que depois de olhá-la na cara como ela lhe havia  pedido,  só  soube baixar de novo o olhar para dissimular a perturbação, e continuou se fingindo de extraviado nos doces meandros da ilha de Alça, enquanto pensava no que fazer. Fermina Daza, de sua parte, também não disse mais nada. Quando acabou de cerzir as meias, atirou tudo sem qualquer ordem dentro da cesta de costura, deu na  cozinha instruções para o jantar, e se retirou para o  quarto.
Ele já tinha então sua resolução tão bem tomada que às cinco da  tarde  não passou pela casa da senhorita Lynch. As promessas de amor eterno, a ilusão de uma casa discreta para ela onde a pudesse visitar sem sobressaltos, a felicidade sem pressa até a morte, tudo quanto prometera nas labaredas do amor ficou cancelado para sempre jamais. A última coisa que a senhorita Lynch teve dele foi um diadema de esmeraldas que o cocheiro lhe entregou sem comentários, sem um recado, sem uma nota escrita, e dentro de uma caixinha envolta em papel de farmácia para que o próprio cocheiro pensasse que se tratava de um remédio urgente. Não tornou a vê-   la nem por acaso pelo resto da sua vida, * Deus soube quanta dor lhe custou essa resolução, e quantas lágrimas de fel teve que derramar trancado na privada para sobreviver a seu desastre íntimo. Às cinco, em vez de ir ao encontro dela,  fez  perante seu confessor um ato de contrição profunda, e no domingo seguinte comungou com o coração em pedaços, mas com a alma tranqüila.
Na mesma noite da renúncia, enquanto se despia para dormir, repetiu a Fermina Daza a amarga ladainha de suas insônias matinais, as pontadas súbitas, as ânsias de chorar ao entardecer, os sintomas cifrados do amor escondido que ele agora lhe contava como se fossem as misérias da velhice. Tinha que fazê-lo com alguém para não morrer, para não ter que contar a verdade, e no fim das contas aqueles desabafos se consagravam nos ritos domésticos do amor. Ela o ouviu com atenção, mas sem olhá-lo, sem dizer nada, enquanto recebia a roupa que ele ia tirando. Cheirava cada peça sem nenhum gesto que denunciasse sua raiva, a enrolava de qualquer jeito e a jogava na canastra de vime da roupa suja. Não encontrou o cheiro, mas dava no mesmo: amanhã será outro dia. Antes de se ajoelhar para rezar diante do pequeno altar do quarto de dormir, ele concluiu  a narrativa de  suas penúrias  com um suspiro triste, e sincero, além disso: "Acho que vou morrer." Ela nem pestanejou antes de replicar.
— Seria o melhor — disse. — Assim ficaremos os dois mais  tranqüilos.
Anos antes, na crise de uma doença perigosa, ele tinha falado na possibilidade de morrer,  e  ela  lhe  dera  a  mesma  réplica  brutal.  O  doutor  Urbino  a  atribuiu     à


inclemência própria das mulheres, graças à qual é possível que a terra continue girando ao redor do sol, porque ignorava então que ela interpunha sempre uma barreira de raiva para que não lhe notassem o medo. E, nesse caso, o mais terrível   de todos, que era o medo de ficar sem ele. Aquela noite, no entanto, lhe desejara a morte com todo o ímpeto de seu coração, e essa certeza o alarmou. Depois sentiu-a soluçar na escuridão, muito devagar, mordendo o travesseiro para que ele não percebesse. Isto acabou de confundi-lo, porque sabia que ela não chorava com facilidade por nenhuma dor do corpo ou da alma. Só chorava devido a uma raiva grande, mais ainda se esta se originava de algum modo em seu terror da culpa, e então quanto mais chorava com mais raiva ficava, porque não conseguia se perdoar pela fraqueza de chorar. Ele não se atreveu a consolá-la, sabendo que  teria  sido como consolar uma tigresa varada por uma lança, nem teve coragem para lhe dizer que os motivos do seu pranto tinham desaparecido essa tarde, e tinham sido arrancados pela raiz, e para sempre, até de sua memória.
O cansaço o venceu por uns minutos. Quando acordou, ela acendera sua tênue lâmpada de cabeceira e continuava com os olhos abertos mas sem chorar. Algo definitivo tinha acontecido com ela enquanto ele dormia:  os  sedimentos acumulados no fundo da sua idade através de tantos anos tinham sido revolvidos pelo suplício do ciúme, e tinham vindo à tona, e a haviam envelhecido num instante. Impressionado por suas rugas instantâneas, seus lábios  murchos,  as cinzas do seu cabelo, ele se arriscou a dizer que ela tentasse dormir: passava das duas. Ela falou sem olhar para ele, mas já sem traço de raiva na voz, quase com mansidão.
    Tenho o direito de saber quem é — disse. E então ele contou tudo, sentindo  que tirava de cima de si o peso do  mundo, porque estava convencido de  que ela  sabia e lhe faltava confirmar os pormenores. Mas não era assim, é claro, de maneira que enquanto ele falava ela voltou a chorar, não com soluços tímidos como no começo, e sim com umas lágrimas soltas e salobras que lhe escorriam pelo rosto,  è lhe ardiam na camisola e lhe inflamavam a vida, porque ele não tinha feito o que ela esperava com a alma por um fio, e era que ele negasse tudo até a morte, que se indignasse com a calúnia, que cagasse aos gritos nesta sociedade filha de mãe ordinária que não tinha o menor escrúpulo em pisotear a honra alheia, e que se mantivesse imperturbável mesmo diante de provas as mais demolidoras da sua deslealdade: como um homem. Depois, Quando ele contou que tinha estado à tarde com o confessor, teve medo de ficar cega de raiva. Desde o colégio tinha a convicção de que gente de igreja carecia de qualquer virtude inspirada por Deus. Esta era uma discrepância essencial na harmonia da casa, que tinham logrado contornar sem tropeços. Mas que o marido tivesse permitido que o confessor se imiscuísse a esse ponto numa intimidade que não era apenas dele, mas dela também, era coisa que ia mais longe do que tudo.
   É como contar a um daqueles ambulantes dos portais —  disse.


Para ela era o fim. Tinha certeza de que sua honra andaria de boca em boca antes que o marido acabasse de cumprir a penitência, e o sentimento de humilhação que isso lhe causava era muito menos suportável do que a vergonha e a raiva e a  injustiça da infidelidade. E o pior de tudo, porra: com uma preta. Ele corrigiu:- "Mulata." Mas a essa altura toda precisão era de sobra: ela havia acabado.
   É a mesma praga — disse — e agora eu entendo: era cheiro de preta.
Isto foi numa segunda-feira. Na sexta às sete da noite, Fermina Daza embarcou no naviozinho regular de  São João da Ciénaga, levando um baú, em companhia  da afilhada e com o rosto coberto por uma mantilha para evitar perguntas e evitar que fossem feitas ao marido. O doutor Juvenal Urbino não foi ao porto, por acordo de ambos, depois de uma exaustiva conversa de três dias, na qual decidiram que ela fosse para a fazenda da prima Hildebranda Sánchez, na povoação de Flores  de Maria, com tempo bastante para refletirem antes de tomar uma resolução final. Os filhos a aceitaram, sem conhecer os motivos, como uma viagem muitas  vezes  adiada que eles próprios desejavam algum tempo. O doutor  Urbino  arrumou tudo de forma a que ninguém no seu mundinho pérfido pudesse fazer especulações maliciosas, e o fez tão bem que se Florentino Ariza não encontrou nenhuma pista   do desaparecimento de Fermina Daza foi porque na realidade não havia, e não porque lhe faltassem meios de averiguação. O marido não tinha dúvida de que ela voltaria a casa logo que a raiva passasse. Mas ela partiu segura de que a raiva não passaria nunca.
Contudo, em breve ia constatar que essa determinação exagerada não era tanto fruto do ressentimento como da saudade. Depois da viagem de lua-de-mel tinha voltado várias vezes à Europa, apesar dos dez dias de mar, e sempre o fizera com tempo de sobra para ser feliz. Conhecia o mundo, aprendera a viver e a pensar de outro modo, mas nunca tinha voltado a São João da Ciénaga depois do  frustrado  vôo em balão. O regresso à província da prima Hildebranda tinha para ela algo de redenção, ainda que tardia. Não passou a pensar assim a partir do seu desastre matrimonial: vinha de muito antes. A verdade é que a simples idéia de resgatar suas querências de adolescente a consolava da desdita.
Quando desembarcou com a afilhada em São João da Ciénaga, apelou para suas grandes reservas de caráter e reconheceu a cidade contra todas as advertências. O chefe civil e militar da praça, a quem ia recomendada, convidou-a a uma volta na vitória oficial à espera do trem de São Pedro Alexandrino, aonde ela queria ir para comprovar o que lhe haviam dito, que a cama em que morreu o Libertador era pequena como a de um menino. Então Fermina Daza tornou a ver seu povoado grande no pleno marasmo das duas da tarde. Tornou a ver as ruas que  mais  pareciam charcos cobertos de limo, e tornou a ver as mansões dos portugueses com seus escudos heráldicos talhados no pórtico e gelosias de bronze nas janelas, em cujos salões umbrosos se repetiam sem compaixão os mesmos exercícios de piano titubeantes e tristes, que sua mãe recém-casada tinha finado às meninas das casas


ricas. Viu a praça deserta uma árvore nas brasas da caliça, a fileira de coches de fúnebres com os cavalos dormindo em pé, o trem amarelo de São Pedro Alexandrino, e na esquina da igreja velha viu a casa maior, a mais bela, com um corredor de arcadas de pedra esverdeada e um portão de mosteiro, e a janela do quarto onde ia nascer Álvaro muitos anos depois, quando ela não tivesse mais memória para se lembrar. Pensou na tia Escolástica, que continuava buscando sem esperança por céus e terras, e pensando nela se viu pensando em Florentino Ariza, com sua roupa de literato e seu livro de versos embaixo das amendoeiras da pracinha, coisa que poucas vezes lhe acontecia quando evocava seus anos ingratos  do colégio. Depois de muitas voltas não conseguiu reconhecer a antiga casa  familiar, pois onde supunha que estava havia um cercado de  porcos, e na curva  da esquina a rua dos bordéis, com putas do mundo inteiro fazendo a sesta nos portais, pois o correio podia passar com alguma coisa para elas. Não era seu povoado.
Desde o princípio do passeio, Fermina Daza tapara a metade do rosto com a mantilha, não por medo de ser reconhecida onde ninguém podia conhecê-la, e sim devido à vista dos mortos que inchavam ao sol em todos os cantos, da estação do trem até o cemitério. O chefe civil e militar da praça lhe disse: o cólera.'5 Ela sabia, porque tinha visto os coágulos brancos na boca dos cadáveres mirrados, mas notou que nenhum tinha o tiro de misericórdia na nuca, como na época do  balão.
   É verdade — disse o oficial. — Também Deus melhora seus  métodos.
A distância entre São João da Ciénaga e o antigo engenho de São Pedro Alexandrino era de apenas nove léguas, mas o trem amarelo se arrastava o  dia inteiro, porque o maquinista era amigo dos passageiros habituais e estes lhe pediam o favor de parar de tempos em tempos para estirar as pernas andando pelos prados  de golfe da companhia bananeira, e os homens tomavam banho nus nos rios diáfanos e gelados que se precipitavam da serra, e quando sentiam fome desciam para ordenhar as vacas soltas no pasto. Fermina Daza chegou aterrorizada, e apenas se concedeu tempo para admirar os tamarineiros homéricos em que o Libertador pendurava sua rede de  moribundo, e para comprovar que a cama em que morreu,  tal como lhe haviam dito, não era pequena para um homem de tanta glória, como inclusive para um setemesinho. Contudo, outro visitante que parecia saber  tudo disse que a cama era uma relíquia falsa, pois a verdade é que tinham deixado o Pai  da Pátria morrer atirado pelos cantos. Fermina Daza ficou tão deprimida com o que viu e ouviu desde que saíra de casa que durante o resto da viagem não se deixou envolver por lembranças da viagem anterior, como sonhara fazer, evitando ao contrário passar pelos povoados de suas saudades. Desta forma os preservou e se preservou a si mesma da desilusão. Ouvia os acordeões nos atalhos por onde escapava ao desencanto, ouvia os gritos das rinhas de galo, as salvas de pólvora que tanto podiam ser de guerra como de pândega, e quando não havia meio de não atravessar o povoado, tapava o rosto com a mantilha para  continuar  a  evocá-lo como era antes.


Uma noite, depois de muito se esquivar ao passado, chegou à fazenda da prima Hildebranda, e quando a viu esperando na porta esteve a ponto de desfalecer: era como se ver a si mesma no espelho da verdade. Estava gorda e decrépita, e  carregada de filhos indômitos que não eram do homem que  continuava amando  sem esperanças e sim de um militar em uso de boa reforma com quem se casara por despeito e que a amou com loucura. Mas por dentro do corpo devastado continuava  a mesma. Fermina Daza se recuperou da impressão com poucos dias de campo e  boas recordações, mas saiu da fazenda para ir à missa aos domingos  com  os  netos de suas travessas cúmplices de antanho, rapagões em cavalos magníficos, e moças belas e bem vestidas, como as mães na mesma idade, que saíam de pé nas carretas de boi, cantando em coro, até a igreja da missão no fundo do  vale. Só  passou pelo povoado de Flores de Maria, onde não estivera na viagem anterior, porque não imaginou que pudesse gostar dele, mas ao conhecê-lo ficou fascinada. Sua desgraça, ou a do povoado, foi que depois jamais conseguiu relembrá-lo como era na realidade, e sim como o imaginava antes de  conhecê-lo.
O doutor Juvenal Urbino tomou a decisão de ir ao encontro dela depois de receber o informe do bispo de Riohacha. Sua conclusão foi que a demora da esposa não se devia ao fato de que não queria voltar e sim que não sabia como contornar o orgulho. Por isso partiu sem avisá-la, depois de uma troca de cartas com Hildebranda, das quais concluiu com clareza que as saudades da esposa se haviam invertido: agora pensava em sua casa. Fermina Daza estava na cozinha às onze da manhã, preparando berinjelas recheadas, quando ouviu o grito dos peões, os relinchos, os disparos para o ar, e depois os passos resolutos no saguão, e a voz do homem:
   Mais vale chegar a tempo do que ser convidado.
Pensou que fosse morrer de alegria. Sem tempo para pensar, lavou as mãos de qualquer jeito, murmurando: "Graças, Deus meu, graças, como és bom", pensando que ainda não tinha tomado banho devido às malditas berinjelas que Hildebranda lhe pedira sem dizer quem é que vinha almoçar, pensando que estava tão velha e feia, e com o rosto tão descascado pelo sol, que ele ia se arrepender de ter vindo quando a visse em tal estado, maldita seja. Mas enxugou as mãos como pôde no avental, arrumou a aparência como pôde, apelou para toda a altivez com que a mãe   a pusera no mundo para botar ordem no coração enlouquecido, e foi ao encontro do homem com seu doce andar de corça, a cabeça erguida, o olhar lúcido, o nariz de guerra, e grata ao seu destino pelo alívio imenso de voltar para casa, embora com menos facilidade do que acreditava ele, diga-se logo, porque partia feliz com ele, diga-se logo, mas também resolvida a lhe cobrar em silêncio os  sofrimentos amargos que lhe haviam acabado com a vida.
Quase dois anos depois do desaparecimento de Fermina Daza, aconteceu um desses acasos impossíveis que Trânsito Ariza teria qualificado como uma  brincadeira de Deus. Fiorentino Ariza não se deixara impressionar de modo  especial


pela invenção do cinema, mas Leona Cassiani o levou sem resistência à estréia espetacular de Cabiria, cuja publicidade se baseava nos diálogos escritos pelo poeta Gabriel D'Annunzio. O grande pátio a céu aberto do senhor Galileo Daconte, onde certas noites se desfrutava mais o esplendor das estrelas do  que os  amores mudos  da tela, estava repleto de uma clientela seleta. Leona Cassiani seguia as  peripécias  da história com a alma por um fio. Florentino Ariza, em compensação, cabeceava de sono sob o peso esmagador do drama. Às suas costas, uma voz de mulher pareceu adivinhar seu pensamento:
Deus meu, isso dura mais tempo que uma dor!
Foi o que disse, coibida talvez pela ressonância da sua voz na penumbra, pois ainda não se impusera aqui o costume de adornar as fitas mudas com acompanhamento de piano, e na platéia em penumbra só se escutava o sussurro de chuva do projetor. Florentino Ariza só se lembrava de Deus nas situações mais difíceis, mas desta vez lhe deu graças com toda sua alma. Pois mesmo vinte braças debaixo da terra teria reconhecido de pronto aquela voz de metais surdos que carregava na alma desde a tarde em que a ouviu dizer no tapete de folhas amarelas  de um parque solitário: "Agora vá embora, e não volte até que eu lhe avise." Sabia que estava sentada no assesto atrás do seu, junto do esposo inevitável, e  percebia  sua respiração cálida e bem medida, e aspirava com amor o ar purificado pela boa saúde do seu alento. Não a sentiu roída pela traça da morte, como a imaginava no abatimento dos últimos meses, mas pelo contrário a evocou de novo na sua idade radiante e feliz, com o ventre arredondado pela semente do primeiro filho debaixo  da túnica de Minerva. Imaginou-a como se a estivesse vendo sem olhar para trás, alheio por completo aos desastres históricos que transbordavam da tela. Deleitava- se com os hálitos do perfume de amêndoas que lhe chegava vindo da  intimidade dela, ansioso por saber como achava ela que deviam se apaixonar as mulheres do cinema para que seus amores doessem menos que os da vida. Pouco antes do final, num clarão de júbilo, percebeu de repente que nunca estivera tanto tempo tão perto de alguém que amava tanto.
Esperou que os outros se levantassem quando se acenderam as luzes. Depois se levantou sem pressa, voltou-se distraído, abotoando o colete que sempre abria durante a função, e os  quatro se viram tão perto que teriam  que se cumprimentar  de todos os modos, mesmo que algum deles não tivesse querido. Juvenal Urbino cumprimentou primeiro Leona Cassiani, que conhecia bem, e depois apertou a mão de Florentino Ariza com a gentileza habitual. Fermina Daza dirigiu a ambos ura sorriso cortês, nada mais do que cortês, mas ainda assim um sorriso de alguém que os vira muitas vezes, que sabia quem eram, e que portanto não era preciso que lhe apresentassem. Leona Cassiani retribuiu com sua graça mulata. Em compensação, Florentino Ariza não soube o que fazer, porque ficou atônito ao  vê-la.
Era outra. Não havia em sua cara nenhum indício da terrível enfermidade da moda, nem de nenhuma outra, e seu corpo conservava ainda o peso e a esbeltez  dos


seus melhores tempos, mas era evidente que os dois últimos anos tinham passado por ela com o rigor de dez mal vividos. O cabelo curto lhe assentava bem, com uma curva de asa nas faces, mas não era mais cor de mel e sim de alumínio, e  os  formosos olhos lanceolados tinham perdido meia vida de luz por trás de  suas  lunetas de avó. Florentino Ariza viu-a afastar-se pelo braço do marido entre a multidão que abandonava o cinema, e se surpreendeu de vê-la em  lugar público  com uma mantilha de pobre e chinelos de andar em casa. Mas o que mais  o  comoveu foi que o marido teve que agarrá-la pelo braço para lhe indicar o caminho melhor da saída, e mesmo assim ela calculou mal a altura e esteve a ponto de  cair  no degrau da porta.
Florentino Ariza era muito sensível a esses tropeços da idade. Quando ainda jovem, interrompia a leitura de versos nos parques para observar os casais de anciãos que se ajudavam na travessia da rua, e eram lições de vida que lhe haviam ajudado a vislumbrar as leis de sua própria velhice. Na idade do doutor Juvenal Urbino aquela noite do cinema, os homens floresciam numa espécie de juventude outonal, pareciam mais dignos com as primeiras cãs, se tornavam engenhosos e sedutores, sobretudo aos olhos das mulheres jovens, enquanto que suas murchas esposas tinham que se aferrar ao braço deles para não tropeçarem até na própria sombra. Poucos anos depois, no entanto, os maridos despencavam de repente no precipício de uma velhice infame do corpo e da alma, e então eram as esposas restabelecidas que tinham de guiá-los pelo braço como cegos de caridade, sussurrando-lhes ao ouvido, para não ferir seu orgulho de homens, que reparassem bem que eram três e não dois os degraus, que havia uma poça no meio da rua, que esse volume atravessado na calçada era um mendigo morto, enquanto os ajudavam  a duras penas a atravessar a rua como se fosse o único vau no último rio da vida. Florentino Ariza se mirara tantas vezes nesse espelho que nunca teve tanto medo    da morte quanto da infame idade em que Precisasse ter uma mulher a guiá-lo pelo braço. Sabia que nesse dia, e nesse, teria que renunciar à esperança de Fermina Daza.
O encontro lhe afugentou o sono. Em vez de levar Leo na Cassiani no carro, acompanhou-a a através da cidade velha, onde seus passos ressoavam como ferraduras da cavalaria sobre as lajes. Às vezes retalhos de vozes fugidias escapavam dos balcões abertos, confidencias de alcovas, soluços de amor ampliados pela acústica fantasmagórica e a fragrância quente dos jasmins nas vielas adormecidas. Uma vez mais, Florentino Ariza teve que fazer apelo a todas as suas forças para não revelar a Leona Cassiani seu amor reprimido por Fermina Daza. Caminhavam juntos, com seus passos contados, se amando sem pressa como noivos velhos, ela pensando nas graças de Cabrera, e ele pensando em sua própria desgraça. Um homem cantava num balcão da Praça da Alfândega, seu canto se repetindo por todo o recinto em ecos encadeados: Quando eu cruzava as ondas imensas do mar. Na rua dos Santos de Pedra, bem quando se despedia diante da sua casa, Florentino Ariza pediu a Leona Cassiani que o convidasse a um conhaque. Era a segunda vez que


fazia o pedido em circunstâncias semelhantes. Na primeira, dez anos  antes,  ela havia dito: "Se subir a essa hora você vai ter que ficar para sempre." Não subiu. Mas agora teria subido de todas as maneiras, mesmo que depois tivesse que faltar com a palavra. Não obstante, Leona Cassiani o convidou a subir sem compromissos.
Foi assim que ele se achou quando menos esperava no santuário de um amor extinto antes de nascer. Os pais dela tinham morrido, seu único irmão tinha feito fortuna em Curaçau, e ela morava na antiga casa familiar. Anos antes, quando ainda não tinha renunciado à esperança de fazê-la sua amante, Florentino Ariza costumava visitá-la aos domingos com o consentimento dos pais, e às vezes noite adentro até muito tarde, e tinha feito tantas contribuições ao arranjo da casa que acabou por reconhecê-la como sua. Contudo, aquela noite depois do cinema teve a sensação de que a sala de visitas tinha sido purificada de lembranças dele.  Os  móveis estavam em lugares diferentes, havia outros cromos pendurados nas  paredes, e ele achou que tantas mudanças encarniçadas tinham sido feitas de propósito para perpetuar a certeza de que ele jamais existira. O gato não o reconheceu. Assustado com a sanha do esquecimento, disse: "Não  se  lembra mais de mim." Mas ela lhe respondeu de costas, enquanto servia os conhaques, que  se  isso o preocupava podia dormir tranqüilo, porque os gatos não se lembram de ninguém.
Recostados no sofá, muito juntos, falaram de si mesmos, do  que eram antes de se conhecer certa tarde de quem sabe quando no bonde de burro. Suas vidas transcorriam em escritórios contíguos, e nunca até então tinham falado de nada que não fosse o trabalho diário. Enquanto conversavam, Florentino Ariza lhe pôs a mão na coxa, começou a acariciá-la com seu suave tato de sedutor curtido, e ela deixou, mas não retribuiu nem com um tremor de cortesia. Só quando ele procurou ir mais longe é que ela pegou a mão exploradora e lhe deu um beijo na  palma.
     Comporte-se bem — disse. — muito tempo descobri que você não é o homem que procuro.
Quando era muito jovem, um homem forte e destro, cujo rosto nunca viu, a derrubara de surpresa no cais, a desnudara aos tapas, fizera com ela um amor instantâneo e frenético. Atirada sobre as pedras, cheia de cortes pelo corpo todo, ela teria querido que aquele homem ficasse ali para sempre, para morrer de amor em seus braços. Não lhe vira o rosto, não lhe ouvira a voz, mas tinha a certeza de que o reconheceria entre milhares por sua forma e sua medida «seu modo de fazer amor. Desde então, aos que quisessem ouvi-la dizia: "Se você souber alguma vez  de  um tipo grande e forte que violou uma pobre negra da rua no Cais dos ' afogados, um quinze de outubro por volta das onze e meia noite, diga a ele onde pode me encontrar." Dizia por puro hábito, e tinha dito a tantos que já não lhe restavam esperanças. Florentino Ariza tinha escutado muitas vezes relato como teria ouvido  os adeuses de um navio na noite. Quando soaram as duas da madrugada tinham tomado três conhaques cada um, e ele sabia, sem dúvida, que não era o homem   que


ela esperava, e se alegrou em saber.
   Bravo, leoa — disse indo embora — matamos o tigre.
Não foi isso que acabou aquela noite. O falso segredo do pavilhão de  tísicos  lhe roubara o sono, porque lhe segredara a suspeita inconcebível de que Fermina Daza era mortal, e portanto podia morrer antes do marido. Mas quando a viu tropeçar na saída do cinema, deu por sua própria conta um passo mais rumo ao abismo, com a revelação súbita de que era ele e não ela aquele que podia morrer primeiro. Foi um presságio, e dos mais temíveis, porque se apoiava na realidade. Para trás haviam ficado os anos da espera imóvel, das esperanças venturosas, mas  no horizonte só se vislumbrava o pélago insondável das doenças imaginárias, as micções gota a gota nas madrugadas de insônia, a morte diária ao entardecer.  Pensou que cada um dos instantes do dia, que antes tinham sido mais do que seus aliados, seus cúmplices juramentados, começavam a conspirar do lado oposto. Poucos anos antes acudira a um encontro aventuroso com o coração oprimido pelo terror do risco, encontrara a porta sem ferrolho e os gonzos acabados de azeitar para que ele entrasse sem ruído, mas se arrependeu no último instante, por temor de causar a uma mulher alheia e serviçal o prejuízo irreparável de  morrer na cama  dela. De maneira que era razoável pensar que a mulher mais amada sobre a terra, a quem havia esperado de um século para o outro sem um suspiro  de  desencanto,  mal teria tempo de lhe tomar o braço através de uma rua de túmulos lunares e canteiros de papoulas desordenadas pelo vento, para ajudá-lo a chegar são e salvo à outra calçada da morte.
A verdade é que para os critérios de sua época, Florentino Ariza tinha passado ao largo das lindes da velhice. Tinha cinqüenta e seis anos, feitos e bem  feitos,  e achava que eram também muito bem vividos, por terem sido anos de amor. Mas nenhum homem da época teria afrontado o ridículo de parecer jovem na sua idade, ainda que fosse ou acreditasse ser, nem todos teriam tido o atrevimento de confessar sem pejo que ainda choravam às escondidas devido a uma desfeita do século anterior. Era uma época ruim para ser jovem: havia um modo de se vestir para cada idade, mas o modo da velhice começava pouco depois da adolescência, e durava até a tumba. Era, mais que uma idade, uma dignidade social. Os jovens se vestiam como seus avós, se faziam mais respeitáveis com óculos prematuros, e a bengala era muito bem vista a partir dos trinta anos. Para as mulheres havia duas idades: a idade de casar, que não ia além dos vinte e dois anos, e a idade de ser solteiras eternas: as esquecidas. As outras, as casadas, as mães, as viúvas, as avós, eram uma espécie diferente que não contava a idade em relação aos anos vividos, e sim em relação ao tempo que ainda faltava para morrerem.
Florentino Ariza, em compensação, enfrentou as insídias da velhice com uma temeridade encarniçada, mesmo consciente como era da estranha sorte sua de parecer velho desde muito menino. A princípio foi uma necessidade. Trânsito Ariza desmanchava e  tornava a coser para ele as  roupas que o pai  resolvia jogar no    lixo,


por isso freqüentava a escola primária com sobrecasacas que tocavam o chão  quando se sentava, e chapéus ministeriais que afundavam até suas orelhas, apesar  de terem a fôrma reduzida com recheio de  algodão. Como além disso usava óculos  de míope desde os cinco anos, e tinha o mesmo cabelo índio da mãe, que era eriçado e grosso feito crina de cavalo, seu aspecto não esclarecia nada. Por sorte, depois de tantas desordens governo devido a tantas guerras civis superpostas, os critérios escolares eram menos seletivos do que antes, e havia a mixórdia de origens e condições sociais nas escolas públicas. Meninos que ainda não tinham  sido  acabados de criar chegavam às aulas fedendo a pólvora de barricada, com insígnias e uniformes de oficiais rebeldes ganhos a bala em combates incertos, e com as armas do regulamento bem visíveis no cinto. Combatiam a tiros por qualquer briga de recreio, ameaçavam os professores que lhes dessem nota ruim nos exames, e um deles, estudante do terceiro grau no colégio La Salle e coronel de milícias reformado, matou com um balaço o irmão João Eremita, prefeito da comunidade, porque disse na aula de catecismo que Deus era membro nato do partido conservador.
Por outro lado, os filhos das grandes famílias em desgraça andavam vestidos de príncipes antigos, e alguns muito pobres andavam descalços. Entre tantas raridades vindas de todas as partes, Florentino Ariza se situava de todas as maneiras entre os mais raros, mas nem tanto que chamasse demais a atenção. O mais duro que ouviu foi alguém lhe gritando na rua: "Quem tem a cara feia e os bolsos vazios  passa a  vida a ver navios." De qualquer modo, aquela indumentária imposta pela  necessidade já era desde então, e continuou sendo pelo resto da vida, a mais adequada à sua índole enigmática e seu caráter sombrio. Quando lhe deram o primeiro cargo importante na C.F.C., mandou fazer roupas sob medida no mesmo estilo das do pai, a quem evocava como um ancião morto na venerável idade de Cristo: trinta e três anos. Assim, Florentino Ariza deu sempre a impressão de ser muito mais velho do que era. Tanto assim que a faladeira Brígida Zuleta, uma amante fugaz que dizia as verdades sem papas na língua, lhe disse desde o primeiro dia que gostava mais dele quando tirava a roupa, porque nu tinha vinte anos menos. Contudo, remédio nunca encontrou, primeiro porque seu gosto pessoal não deixava que se vestisse de outro modo, e segundo porque ninguém sabia como se vestir de mais moço aos vinte anos, a menos que tirasse de novo do armário as calças curtas    e o gorro de marinheiro. Por outro lado, ele próprio não conseguia escapar à noção  de velhice do seu tempo, o que tornava apenas natural que ao ver Fermina Daza tropeçar à saída do cinema fosse abalado pelo raio pânico de que a puta da morte ia acabar ganhando sem remédio sua encarniçada guerra de amor.
Até então, sua grande batalha, travada de peito aberto e perdida sem glória, tinha sido a da calvície. Desde que viu os primeiros cabelos que ficavam emaranhados no pente,
percebeu que estava condenado a um inferno cujo suplício escapa à imaginação dos que dele não padecem. Resistiu durante anos. Não houve glostoras nem loções


que não experimentasse, nem crendice em que não cresse, nem sacrifício que não suportasse para defender da devastação voraz cada polegada da cabeça. Decorou as instruções do Almanaque Bristol para a agricultura, por ouvir alguém dizer que o crescimento do cabelo tinha relação direta com os ciclos das colheitas. Abandonou seu barbeiro de toda a vida, um calvo extremado, e adotou um forasteiro recém- chegado que cortava cabelo quando a lua entrava em quarto crescente. O novo barbeiro começara a demonstrar que na realidade tinha a mão fértil, quando se descobriu que era um estuprador de noviças procurado por várias polícias das Antilhas, e o carregaram arrastando correntes.
Florentino Ariza tinha recortado nessas alturas todos os anúncios para  calvos  que encontrou nos jornais da bacia do Caribe, nos quais saíam os  dois  retratos juntos do mesmo homem, primeiro pelado como um melão e depois mais peludo que um leão: antes e depois de usar o remédio infalível. No fim de seis anos tinha experimentado cento e setenta e dois, além de outros métodos complementares que apareciam no rótulo dos vidros, e a única coisa que conseguiu com um deles foi um eczema do crânio, urticante e fétido, chamado tinha boreal pelos santarrões da Martinica, porque irradiava um resplendor fosforescente  na  escuridão.  Recorreu por último a tudo quanto era erva de índio apregoada no mercado, e a todos os específicos mágicos e poções orientais que se vendiam no Portal dos Escrivães, mas quando deu o balanço das fraudes já ostentava uma tonsura de santo. No ano zero, enquanto a guerra civil dos Mil Dias dessangrava o país, passou pela cidade um italiano que fabricava perucas de cabelo natural sob medida. Custavam uma  fortuna, e o fabricante não se responsabilizava por nada depois de três meses de  uso, mas foram poucos os calvos solventes que não cederam à tentação. Florentino Ariza foi um dos primeiros. Experimentou uma peruca tão parecida com seu cabelo original que ele mesmo temia que se arrepiasse com mudanças de humor, mas não conseguiu assimilar a idéia de carregar na cabeça os cabelos de  um  morto.  Seu único consolo foi que a avidez da calvície não lhe deu tempo de  conhecer  os  próprios cabelos brancos. Um dia um dos bêbados alegres do cais fluvial o abraçou com mais efusão que de costume quando o viu sair do escritório, tirou  o chapéu  dele entre as troças dos estivadores, e lhe deu um beijo sonoro na  grimpa.
— Careca divino! — gritou.
Nessa noite, aos quarenta e oito anos, mandou cortar as escassas penugens que lhe restavam na fronte e na nuca, e assumiu a fundo seu destino de calvo absoluto.   A tal ponto que todas as manhãs antes do banho cobria de espuma não o queixo, como ainda as partes do crânio onde acaso ameaçassem brotar de novo pêlos, e punha tudo como nádegas de criança com a navalha de barba. Até então não tirava o chapéu nem mesmo dentro do escritório, pois a calvície lhe causava uma sensação  de nudez que achava indecente. Mas quando a assimilou a fundo atribuiu-lhe virtudes varonis das  quais ouvira falar, e que menosprezava como meras fantasias  de calvos. Mais tarde adotou o novo costume de atravessar o crânio com os cabelos compridos  do  lado  direito  do  repartido,  e  nunca  mais  o  abandonou.  Mas  ainda


assim continuou usando o chapéu, sempre no mesmo estilo fúnebre, mesmo depois de se impor a moda do chapéu de tartarita, que era o nome local do  canotier.
A perda dos dentes, em compensação, não tinha sido uma calamidade natural, e sim fruto da incompetência de um dentista ambulante que resolveu aplicar remédios heróicos a uma infecção ordinária. O horror às brocas de pedal tinha impedido Florentino Ariza de visitar o dentista apesar de suas contínuas dores de dente, até que não pôde mais suportá-las. Sua mãe se assustou ao ouvir a noite inteira as queixas inconsoláveis no quarto pegado, porque achou que eram as mesmas de outros tempos já quase esfumados nas névoas de sua memória, mas quando o fez abrir a boca para ver onde é que o amor doía, descobriu que estava cheio de postemas.
Tio Leão XII mandou-o ao doutor Francis Adonay, um gigante negro de polainas e culotes de montar que andava nos navios fluviais com um gabinete dentário completo dentro de uns alforjes de capataz, e mais parecia um caixeiro viajante do terror nos povoados do rio. Com um único olhar dentro da  boca, determinou  que era preciso tirar de Florentino Ariza até os dentes bons, para pô-lo de uma vez a  salvo de novos percalços. Ao contrário da calvície, aquela cura de burro não lhe deu nenhuma preocupação, salvo o temor natural do massacre sem anestesia.  Tampouco lhe desgostou a idéia da dentadura postiça, primeiro porque uma das nostalgias da sua infância era a lembrança de um mágico de feira que arrancava de  si as duas mandíbulas e as deixava falando sozinhas numa mesa, e segundo porque punha fim às dores de dente que o haviam atormentado desde menino, quase tanto   e com tanta crueldade quanto as dores de amor. Não lhe pareceu um  golpe  manhoso da velhice, como havia de lhe parecer a calvície, porque estava convencido de que, apesar do odor acre da borracha vulcanizada, sua aparência seria mais limpa com um sorriso ortopédico. De maneira que se submeteu sem resistência às tenazes incandescentes do doutor Adonay, e suportou  a convalescença com  um estoicismo de burro de carga.
Tio Leão XII se ocupou dos detalhes da operação como se fosse em sua própria carne. Tinha um interesse singular pelas dentaduras postiças, contraído numa de suas primeiras navegações pelo rio Madalena, e por culpa de sua dedicação maníaca ao bel canto. Numa noite de lua cheia, à altura do porto de Gamarra, apostou com  um agrimensor alemão que era capaz de despertar as criaturas da  selva cantando uma romança napolitana do passadiço do comandante. Por pouco não ganhou. Nas trevas do rio sentia-se o voejar das garças nos pântanos, o rabear dos  jacarés, o  pavor das savelhas procurando saltar em terra firme, mas na nota culminante, quando se receou que as artérias do cantor se fossem romper com a potência do canto, a dentadura postiça lhe saltou da boca com o alento final, e afundou nas  águas.
O navio teve que demorar três dias no porto de Tenerife, enquanto lhe faziam outra dentadura de emergência. Ficou perfeita. Mas na navegação de volta,  tratando


de explicar ao comandante como perdera a dentadura anterior, tio Leão XII aspirou  a pleno pulmão o ar ardente da selva, deu a nota mais alta de que foi capaz, susteve- a até o último alento procurando espantar os jacarés deitados ao sol que contemplavam sem pestanejar a passagem do navio, e também a dentadura nova afundou na corrente. Desde então teve cópias de dentes por toda parte, em diferentes lugares da casa, na gaveta da escrivaninha, e uma em cada um dos três navios da empresa. Além disso, quando comia fora de casa costumava levar uma sobressalente no bolso dentro de uma caixinha de pastilhas para  a tosse, porque uma se partira quando ele comia torresmos num almoço campestre. Temendo que o sobrinho fosse vítima de sobres saltos semelhantes, tio4Leão XII mandou que o doutor Adonay lhe fizesse de uma vez duas dentaduras: uma de  materiais  baratos, para uso diário no escritório, e outra para os domingos e feriados, com uma chispa de ouro no dente do sorriso, para lhe imprimir um toque adicional de verdade. Por fim, num Domingo de Ramos alvoroçado por sinos de festa, Florentino Ariza voltou à rua com uma identidade nova, cujo sorriso sem jaça lhe deu a impressão de que alguém diferente dele tinha ocupado seu lugar no  mundo.
Isto foi pela época em que morreu sua mãe e Florentino Ariza ficou na casa. Era um rincão adequado ao seu modo de amar, porque a rua era discreta, não obstante o fato de que as tantas janelas de seu nome fizessem pensar em demasiados olhos por trás das cortinas. Mas tudo isso tinha sido feito para que Fermina Daza fosse feliz, e ela só, de maneira que Florentino Ariza preferiu perder muitas oportunidades durante seus anos mais fecundos a macular a casa  com  outros amores. Por sorte, cada degrau que escalava na C.F.C. implicava novos privilégios, sobretudo privilégios secretos, e um dos mais úteis para ele foi a possibilidade de usar os escritórios durante a noite, ou aos domingos e  feriados,  com a complacência dos zeladores. Uma vez, quando era vice-presidente, estava fazendo um amor de emergência com uma das moças do serviço dominical, ele sentado numa cadeira de escrivaninha, e ela acavalada sobre ele, quando de repente se abriu a porta. Tio Leão XII avançou a cabeça, como se tivesse errado de porta, e ficou olhando por cima dos óculos o sobrinho aterrorizado. "Porra!", disse o tio sem o menor espanto. "A mesma mania que tinha o seu pai!" E antes de fechar de novo a porta, a vista perdida no vácuo, disse:
— Quanto à senhorita, continue, não se vexe. Dou minha palavra de honra que nem vi seu rosto.
Não se voltou a falar no assunto, mas no escritório de Florentino Ariza foi impossível trabalhar na semana seguinte. Os eletricistas entraram segunda-feira em tropel para instalar um ventilador de pás no teto baixo. Os serralheiros chegaram sem aviso, e armaram um escândalo de guerra pondo um ferrolho na porta para que se pudesse fechá-la por dentro. Os carpinteiros tomaram medidas sem dizer para quê, os tapeceiros levaram amostras de cretones para ver se combinavam com a cor das paredes, e na semana seguinte tiveram que meter pela janela, pois não cabia pelas portas, um enorme sofá matrimonial com estampados de flores dionisíacas.


Trabalhavam nas horas menos plausíveis, com uma impertinência que não parecia casual, e para quem quer que protestasse tinham a mesma resposta: "Ordem da direção geral." Florentino Ariza nunca soube se semelhante intromissão foi uma amabilidade do tio, velando por seus amores descarrilados, ou se era uma maneira muito sua de fazê-lo ver sua conduta abusiva. A verdade não lhe ocorreu, e era que tio Leão XII o estimulava porque a ele também chegara o rumor de que o sobrinho tinha costumes diferentes dos da maioria dos homens, e isto o atormentava como um obstáculo para fazê-lo seu sucessor.
Ao contrário do irmão, Leão XII Loayza tinha tido um casamento estável que durou sessenta anos, e sempre se vangloriou de não ter trabalhado domingo. Tivera quatro filhos e uma filha, e a todos quis preparar para herdeiros do  seu império,  mas a vida o confrontou com uma dessas casualidades que eram de  uso corrente   nos romances do seu tempo, e nas quais ninguém acreditava na vida real: os quatro filhos tinham morrido, um atrás do outro, à medida que escalavam posições de mando, e a filha carecia por completo de vocação fluvial, e preferiu morrer contemplando os navios do Hudson de uma janela a cinqüenta metros de altura. Tanto foi assim que não faltou quem desse como certa a patranha de que Florentino Ariza, com seu aspecto sinistro e seu guarda-chuva de vampiro, tinha feito alguma coisa para que sucedessem tantas casualidades juntas.
Quando o tio se aposentou contra a vontade, por prescrição médica, Florentino Ariza começou a sacrificar de bom grado alguns amores dominicais. Acompanhava-   o ao seu refúgio campestre, a bordo de um dos primeiros automóveis que se viram  na cidade, cuja manivela de arranque tinha tal força de retrocesso que destroncara o braço do primeiro chofer. Falavam durante horas, o velho na rede que tinha seu nome bordado em fios de seda, longe de tudo e de costas para o mar, numa antiga fazenda de escravos de cujos terraços floridos de astromélias se viam à tarde  as cristas nevadas da serra. Sempre tinha sido difícil que Florentino Ariza e o tio falassem de algo que não fosse a navegação fluvial, e continuou sendo naquelas tardes lentas, nas quais a morte foi sempre um convidado invisível. Uma das preocupações recorrentes de  tio Leão XII era que a navegação fluvial não passasse  às mãos dos empresários do interior vinculados aos consórcios europeus. "Este foi sempre um negócio de matacongos", dizia em seu jargão. "Se caí na mão dos cachaços estes tornam a dá-lo de presente aos alemães." Sua preocupação resultava de uma convicção política que gostava de repetir mesmo que não viesse ao  caso.
— Vou fazer cem anos, e já vi mudar tudo, até a posição dos astros no universo, mas ainda não vi mudar nada neste país — dizia. — Aqui se fazem novas constituições, novas leis, novas guerras cada três meses, mas continuamos na Colônia.
A seus irmãos maçons que atribuíam todos os males ao malogro do federalismo, respondia sempre: "A guerra dos Mil Dias se perdeu vinte e três anos antes, na guerra de 76." Florentino Ariza, cuja indiferença política tocava as raias do   absoluto,


ouvia estas arengas cada vez mais freqüentes como se ouvisse o rumor do mar. Em compensação, era um contestador severo quanto a política da empresa. Contra o critério do tio, achava que o atraso da navegação fluvial, que sempre parecia à beira do desastre, podia se remediar com a renúncia espontânea ao monopólio dos navios a vapor, concedido pelo Congresso Nacional à Companhia Fluvial do Caribe por noventa e nove anos e um dia. O tio protestava: "Quem te mete estas idéias na cabeça é minha xará Leona com suas tramas de anarquista." Mas era certo em parte. Florentino Ariza fundamentava suas razões na experiência do comodoro alemão João B. Elbers, que destroçara seu nobre engenho com o exagero de sua ambição pessoal. O tio achava, em compensação, que o malogro de Elbers não resultará dos seus privilégios, e sim dos compromissos pouco  realistas  que contraíra ao mesmo tempo, e que tinham sido quase como chamar a si a responsabilidade pela geografia nacional: assumiu a responsabilidade de manter a navegabilidade do rio, as instalações portuárias, as vias terrestres de acesso,  os meios de transporte. Além do mais, dizia, a oposição virulenta do presidente Simão Bolívar não foi obstáculo de fazer ninguém rir.
A maioria dos sócios encarava essas disputas como brigas matrimoniais,  nas quais ambos os lados têm razão. A teimosia do velho parecia a eles natural, não porque a velhice o tornasse menos visionário do  que sempre fora, o que se dizia   com demasiada facilidade, mas porque a renúncia ao monopólio devia ser para ele como jogar no lixo os troféus de uma batalha histórica que ele e os irmãos tinham travado sozinhos nos tempos heróicos, contra adversários poderosos do mundo inteiro. Por isso ninguém o contrariou quando amarrou seus direitos de tal modo que ninguém podia tocar neles antes de sua extinção legal. Mas de repente, quando Florentino Ariza já depusera as armas nas tardes de meditação da fazenda, tio Leão XII deu seu consentimento para a renúncia ao privilégio centenário, com a única e respeitável condição de que não se fizesse antes da sua  morte.
Foi seu ato final. Não tornou a falar de negócios, nem permitiu sequer que lhe fizessem consultas, nem perdeu um cacho de sua esplêndida cabeça imperial,  nem um átimo de sua lucidez, mas fez o possível  para não ser visto por ninguém  que pudesse ter pena dele. Passava os dias contemplando do terraço as neves perpétuas, balançando-se muito devagar numa cadeira de balanço vienense, junto  de uma mesinha onde as criadas mantinham sempre quente um bule de café puro e um copo d'água de bicarbonato com duas dentaduras postiças, que agora colocava para receber visitas. Via muito poucos amigos, e falava de um passado tão remoto que era muito anterior à navegação fluvial. Contudo, adotou um tema novo: o desejo de que Florentino Ariza se casasse. Exprimiu-o várias  vezes,  e  sempre da mesma forma.
Se eu tivesse cinqüenta anos menos dizia me casava com a xará Leona.
Não posso imaginar uma esposa melhor.
Florentino Ariza estremecia com  a idéia de  que seu trabalho de  tantos  anos    se


frustrasse à última hora por esta condição imprevista. Teria preferido renunciar, atirar tudo pela janela, morrer, a falhar a Fermina Daza. Por sorte, tio Leão XII não insistiu. Quando fez noventa e dois anos reconheceu o sobrinho como  herdeiro único, e se retirou da empresa.
Seis meses depois, por acordo unânime dos sócios, Florentino Ariza foi nomeado Presidente da Junta Diretora e Diretor Geral. No dia em que tomou posse do cargo, depois da taça de champanha, o velho leão em retiro pediu desculpas por falar sem se levantar da cadeira de balanço, e improvisou um breve discurso que mais pareceu uma elegia. Disse que sua vida tinha começado e terminava com dois  acontecimentos providenciais. O primeiro foi que o Libertador o carregara nos braços, na povoação de Turbaco, quando ia em sua desditosa viagem rumo à morte. A outra tinha sido encontrar, contra todos os obstáculos que o destino lhe interpusera, um sucessor digno da sua empresa. No  final,  procurando desdramatizar o drama, concluiu:
— A única frustração que levo desta vida é a de ter cantado em tantos enterros, menos no meu.
Para fechar o ato, cantou a ária E Lucevan le Stelle, da Tosca. Cantou a capella, como gostava mais, e ainda com voz firme. Florentino Ariza se comoveu, o que apenas deixou transparecer no tremor voz com que apresentou seus agradecimentos. Tal como tinha feito e pensado tudo que tinha feito e pensado na vida, chegava ao cume sem qualquer causa que não fosse a determinação encarniçada de estar vivo e em bom estado de saúde no momento de assumir seu destino à sombra de Fermina Daza.
Contudo, não foi a lembrança dela que o acompanhou aquela noite na festa que lhe ofereceu Leona Cassiani. Acompanhou-o a lembrança de todas: tanto as que dormiam nos cemitérios, pensando nele através das rosas que semeava em cima delas, como as que ainda apoiavam a cabeça no mesmo travesseiro em que dormia o marido com os cornos dourados sob a lua. À falta de uma desejou estar com todas   ao mesmo tempo, como sempre que ficava assustado. Pois mesmo em suas épocas mais difíceis e nos momentos piores, tinha mantido algum vínculo, por frágil que fosse, com as incontáveis amantes de tantos anos: sempre seguiu o fio  de  suas vidas.
Assim, aquela noite se lembrou de Rosalba, a mais antiga de todas, a  que  guardou o troféu da sua virgindade, cuja lembrança continuava a lhe doer como no primeiro dia. Bastava fechar os olhos para vê-la com a roupa de musselina e o  chapéu de grandes fitas de seda, balançando a gaiola do menino no convés do navio. Várias vezes nos anos numerosos da sua idade aprontou tudo para ir procurá-la sem sequer saber onde, sem saber seu sobrenome, sem saber se era a ela que procurava, mas certo de encontrá-la em algum lugar entre florestas de orquídeas. A cada vez, devido a um inconveniente real de última hora, ou por uma falha intempestiva da sua vontade, a viagem era adiada quando já estavam a ponto de recolher a escada  do


navio: sempre por um motivo que tinha algo a ver com Fermina  Daza.
Lembrou-se da viúva de Nazaret, a única com quem profanou a casa materna da Rua das Janelas, embora não tivesse sido ele e sim Trânsito Ariza quem a fez entrar. Consagrou a ela mais compreensão que a outra qualquer, por ser a única que irradiava ternura de sobra como se quisesse substituir Fermina Daza, embora fosse tão lerda na cama. Mas sua vocação de gata errante, mais indômita que a própria força da sua ternura, manteve ambos condenados à infidelidade. Contudo, conseguiram ser amantes intermitentes durante quase trinta anos graças à sua divisa de mosqueteiros: Infiéis, mas não desleais. Foi aliás a única que levou Florentino Ariza a assumir responsabilidades: quando lhe avisaram que tinha morrido e ia ser enterrada como indigente, enterrou-a à sua custa e assistiu só ao enterro.
Lembrou-se de outras viúvas amadas. De Prudência Pitre, a mais antiga das sobreviventes, conhecida de todos como a Viúva de Dois, porque era duas vezes. da outra Prudência, a viúva de Arellano, a amorosa, que lhe arrancava os botões da roupa para que ele tivesse que demorar na casa enquanto ela os cosia de novo. E de Josefa, a viúva de Zúniga, louca de amor por ele, que esteve a ponto de lhe cortar o bilro com as tesouras de podar, para que ele não fosse de ninguém  embora não  fosse dela.
Lembrou-se de Angeles Alfaro, a efêmera e a mais amada de todas, que veio por seis meses ensinar instrumentos de arco na Escola de Música e passava com ele as noites de lua no terraço de sua casa, como a mãe a pusera no mundo, tocando as suítes mais belas de toda a música no violoncelo, com sua voz de homem entre suas coxas douradas. Desde a primeira noite de lua, cada um fez em pedaços o coração do outro num amor de  principiantes ferozes. Mas Angeles Alfaro foi como veio, com  seu sexo meigo e seu violoncelo de pecadora, num transatlântico sob a bandeira do esquecimento, e a única coisa que dela restou nos terraços enluarados foram seus sinais de adeus com um lenço branco que parecia uma pomba no horizonte,  solitária e triste, como nos versos dos Jogos Florais. Com ela aprendeu Florentino Ariza o que já padecera muitas vezes sem saber: pode-se estar apaixonado por várias pessoas ao mesmo tempo, por todas com a mesma dor, sem trair  nenhuma. Solitário entre a multidão do cais, dissera a si mesmo com um toque de raiva: "O coração tem mais quartos que uma pensão de putas." Estava banhado em lágrimas com a dor dos adeuses. Contudo, mal desaparecera o navio na linha do horizonte e a lembrança de Fermina Daza tinha voltado a ocupar seu espaço total.
Lembrou-se de Andréia Varón, diante de cuja casa passara a semana anterior, mas a luz alaranjada na janela do banheiro advertiu-o de que não podia entrar: alguém tinha chegado antes. Alguém: homem ou mulher, porque Andréia Varón  não se detinha em minúcias dessa índole nas desordens do  amor. De todas as da lista era a única que vivia do seu corpo, mas o administrava a seu bel-prazer, sem capataz de campo. Nos seus anos bons tinha feito uma lendária carreira de cortesã


clandestina, que lhe valeu o nome de guerra de Nossa Senhora de Todos. Enlouqueceu governadores e almirantes, viu chorar no seu ombro alguns próceres das armas e das letras que não eram tão ilustres quanto acreditavam ser, e mesmo alguns que eram. Foi verdade, por outro lado, que o presidente Rafael Reyes, em apenas uma apressada meia hora entre duas visitas casuais à cidade, estabeleceu para ela uma pensão vitalícia por serviços excepcionais prestados ao Ministério do Tesouro, onde não fora empregada um dia. Repartiu suas dádivas de  prazer até  os limites do corpo, e embora sua conduta imprópria fosse do domínio público, ninguém teria podido exibir contra ela uma prova terminante, porque  seus cúmplices insignes a protegeriam como à própria vida, conscientes de  que não era  ela e sim eles os que mais tinham a perder com o escândalo. Florentino Ariza tinha violado por ela seu princípio sagrado de não pagar, e ela violara o seu de não fazê-lo grátis nem com o marido. Tinham ficado de acordo quanto ao preço simbólico de  um peso por vez, mas ela não recebia nem ele entregava, guardando o dinheiro num porquinho mealheiro até poderem comprar com ele algum engenho ultramarino no Portal dos Escrivães. Foi ela que atribuiu uma sensualidade diferente aos clisteres que ele usava para suas crises de prisão de  ventre, convencendo-o  a compartilhá- los, a fazerem juntos as aplicações no transcurso de suas tardes loucas, tratando de inventar ainda mais amor dentro do amor.
Considerava uma sorte que em meio a tantos encontros de aventura, a única que  o fez provar uma gota de amargura foi a tortuosa Sara Noriega, que terminou seus dias no manicômio da Divina Pastora, recitando versos senis de tão desaforada obscenidade que foram forçados a isolá-la para que não acabasse de enlouquecer as outras loucas. Contudo, quando recebeu completa a responsabilidade da CF.C já não tinha muito tempo nem excesso de ânimo para tentar substituir Fermina Daza por quem fosse: sabia que era insubstituível. Pouco a pouco tinha caído na rotina de visitar as já estabelecidas, dormindo com elas enquanto servissem, enquanto fosse possível, enquanto tivessem vida. No domingo de Pentecostes em que morreu Juvenal Urbino, lhe restava uma, uma só, com quatorze anos apenas  feitos, e com tudo que nenhuma outra tinha tido até então para torná-lo louco de  amor.
Chamava-se América Vicuña. Tinha vindo dois anos antes da  localidade marítima de Porto Pai recomendada pela família a Florentino Ariza, seu correspondente, com quem tinha um parentesco sangüíneo reconhecido. Vinha com uma bolsa do governo para fazer os estudos de professora, trazendo seu petate e um bauzinho de folha que parecia de boneca, e mal desceu do navio com seus botins brancos e a trança dourada, ele teve o pressentimento atroz de que iam fazer juntos  a sesta de muitos domingos. Era ainda uma menina em todos os sentidos, com aparelho nos dentes e raladuras de escola primária nos joelhos, mas ele vislumbrou de pronto a classe de mulher que ia ser em breve, e a cultivou para si num lento ano de sábados de circo, de domingos de parques com sorvetes, de tardes infantis com que ganhou sua confiança, ganhou seu carinho, levando-a pela mão com uma suave astúcia  de  avô  bondoso  até  seu  matadouro  clandestino.  Para  ela  foi    imediato:


abriram-se as portas do céu. Explodiu numa eclosão floral que a deixou flutuando num limbo de ventura, e foi um estímulo eficaz em seus estudos, pois se manteve sempre no primeiro lugar da classe para não perder a saída do fim de semana. Para ele foi o rincão mais abrigado na enseada da velhice. Depois de tantos anos de amores calculados, o gosto desabrido da inocência tinha o encanto de uma perversão renovadora.
Coincidiram. Ela se comportava como o que era, uma menina disposta a  descobrir a vida sob a guia de um homem venerável que não  se  espantava  com nada, e ele assumiu consciente o papel que mais tinha temido na vida: o de noivo senil. Nunca a identificou com Fermina Daza, apesar de ser mais do que fácil a parecença, não pela idade, pelo uniforme escolar, pela trança, pelo andar montanhês, como pelo caráter altivo e imprevisível. E mais: a idéia da substituição, que tão aliciante tinha sido para sua mendicidade de amor, se apagou por completo. Gostava dela pelo que era, e acabou amando-a pelo que era numa febre de delícias crepusculares. Foi a única com quem tomou precauções drásticas contra uma gravidez acidental. Depois de uma meia dúzia de encontros, não havia para ambos sonho maior que as tardes dos domingos.
Posto que ele era a única pessoa autorizada a tirá-la do internato, ia buscá-la no Hudson de seis cilindros da C.F.C., e às vezes arriavam a capota nas tardes sem sol para passear pela praia, ele com o chapéu tétrico, ela morta de rir, segurando com as duas mãos o gorro de marinheiro do uniforme escolar para que o vento não o carregasse. Alguém lhe dissera que não andasse com seu protetor mais do que o indispensável, que não comesse nada que ele tivesse provado nem ficasse muito perto do seu hálito, porque a velhice era contagiosa. Mas ela não se importava. Ambos se mostravam indiferentes ao que se pudesse pensar deles, porque o parentesco era bem conhecido, e além disso suas idades extremas  os  punham  a salvo de qualquer suspicácia.
Acabavam de fazer amor domingo de Pentecostes, às quatro da tarde, quando começaram os dobres. Florentino Ariza teve que dominar o sobressalto do coração. Na sua juventude, o ritual dos dobres estava incluído no preço dos funerais, e era negado aos de escassa solenidade. Mas depois de nossa última guerra, na ponte dos dois séculos, o regime conservador consolidou seus costumes coloniais,  e  as pompas fúnebres se tornaram tão dispendiosas que os mais ricos podiam pagar. Quando morreu o arcebispo Dante de Luna, os sinos de toda a província dobraram durante nove dias com suas noites, e foi tal o tormento público que o sucessor eliminou dos funerais o requisito dos dobres, e os deixou reservados aos mortos mais ilustres. Por isso quando Florentino Ariza ouviu dobres na catedral às quatro  da tarde de um domingo de Pentecostes, sentiu-se visitado  por um  fantasma  de suas mocidades perdidas. Nunca imaginou que fossem os dobres por  que  tanto havia anelado durante tantos e tantos anos, a partir do domingo em  que  viu  Fermina Daza grávida de seis meses, à saída da missa solene.


   Porra — disse na penumbra. — Tem que ser um tubarão dos graúdos para que dobrem por ele na catedral.
América Vicuña, nua em pêlo, acabou de despertar.
   Deve ser por causa do Pentecostes — disse.
Florentino Ariza não era nem de longe perito em negócios de igreja, nem voltara  à missa desde que tocava violino no coro com um alemão que  lhe ensinou  além disso a ciência do telégrafo, e de cujo destino não se teve nunca uma notícia certa. Mas sabia sem dúvida que os sinos não dobravam pelo Pentecostes. Havia um luto na cidade, sem dúvida, e ele sabia. Uma comissão de refugiados do Caribe estivera em sua casa aquela manhã com a informação de que Jeremiah de Saint-Amour amanhecera morto em seu estúdio de fotógrafo. Embora Florentino Ariza não fosse seu amigo próximo, era de muitos outros refugiados que o convidavam a seus atos públicos, e sobretudo a seus enterros. Mas estava certo de que os sinos não dobravam por Jeremiah de Saint-Amour, que era um incrédulo militante e um anarquista empedernido, e que além disso tinha morrido por sua própria  mão.
   Não — disse — dobres assim podem ser de governador para cima.
América Vicuña, com o pálido corpo atirado pelas raias de luz das persianas mal fechadas, não tinha idade para pensar na morte. Tinham feito amor depois do  almoço e estavam deitados na vazante da sesta, ambos nus sob o ventilador de pás, cujo zumbido não chegava a ocultar a crepitação de granizo dos urubus andando no teto de zinco aquecido. Florentino Ariza a amava como amara tantas outras mulheres casuais em sua longa vida, mas a esta amava com mais angústia que a outra qualquer porque tinha a certeza de estar morto de velho quando ela terminasse a escola superior.
O quarto parecia mais um camarote de navio, com as paredes de ripas  de madeira muitas vezes pintadas por cima da pintura anterior, como os navios, mas o calor era mais intenso que o dos camarotes dos navios do rio às quatro da tarde, mesmo com o ventilador elétrico pendurado sobre a cama, devido à reverberação do telhado metálico. Não era um quarto de dormir formal e sim um camarote de terra firme mandado construir por Florentino Ariza atrás dos seus escritórios da C.F.C., sem propósitos ou pretextos além dos de dispor de uma boa guarida para  seus amores de velho. Nos dias comuns era difícil dormir ali com os gritos dos estivadores e o estrondo das gruas do porto fluvial, e os bramidos enormes  dos navios no cais. No entanto, para a menina era um paraíso domingueiro.
No dia de Pentecostes pensavam estar juntos até que ela tivesse que voltar ao internato, cinco minutos antes do ângeius, mas os dobres fizeram Florentino Ariza lembrar
sua promessa de assistir ao enterro de Jeremiah de Saint-Amour, e se  vestiu  mais depressa que de costume. Antes, como sempre, teceu para a menina a trança solitária que ele mesmo desfazia antes de fazer amor, e a pôs em cima da mesa   para


amarrar o laço dos sapatos do uniforme, que ela sempre dava  mal. Ele  a ajudava sem malícia e ela o ajudava a ajudá-la como se fosse um dever: ambos haviam perdido consciência de suas idades desde os primeiros encontros, e se tratavam com a confiança de dois esposos que já tinham ocultado um do outro tantas coisas na  vida que não tinham mais quase nada a se dizer.
Os escritórios estavam fechados e às escuras devido ao dia feriado, e no cais deserto havia um navio com as caldeiras apagadas. O bochorno  anunciava  chuvas, as primeiras do ano, mas a transparência do ar e o silêncio dominical do porto pareciam de um mês benigno. Visto dali era mais cru o mundo do que na penumbra do camarote, e doíam mais os dobres ainda que não se soubesse por  quem eram. Florentino Ariza e a menina desceram ao pátio de salitre que tinha servido de porto negreiro aos espanhóis e onde havia ainda restos dos instrumentos de pesagem e outros ferros carcomidos do comércio de escravos. O automóvel os esperava à sombra dos armazéns, e acordaram o chofer adormecido sobre o volante quando se haviam instalado nos assentos. O automóvel deu a volta por trás dos armazéns cercados com arame de galinheiro, atravessou o espaço do antigo mercado da baía das Animas onde havia marmanjos quase nus jogando bola, e saiu do porto fluvial entre uma poeirada ardente. Florentino Ariza tinha certeza de  que  as homenagens fúnebres não podiam ser por Jeremiah de Saint-Amour, mas a insistência dos dobres o fez duvidar. Pôs a mão no ombro do chofer e perguntou gritando no ouvido dele por quem dobravam os sinos.
     É por aquele médico da pastora de cabras — disse o chofer. Como  se chama?
Florentino não precisou pensar para saber de quem falava. No entanto, quando o chofer contou como tinha morrido, a ilusão instantânea se desvaneceu, porque não lhe pareceu verossímil. Nada parece tanto com uma pessoa quanto a forma de sua morte, e nenhuma podia parecer menos que esta com o homem que ele imaginava. Mas era ele mesmo, ainda que parecesse absurdo: o médico mais velho e mais qualificado da cidade, e um dos seus homens insignes por outros muitos méritos, tinha morrido com a espinha dorsal despedaçada, aos oitenta e  um anos  de  idade, ao cair de um galho de mangueira quando procurava pegar um louro.
Tudo que Florentino Ariza fizera desde  que Fermina Daza se casou  fundava-se  na esperança desta notícia. Contudo, chegada a hora, não se sentiu sacudido pela comoção de triunfo que tantas vezes previra em suas insônias mas por um golpe de terror: a lucidez fantástica de que ele podia ser o morto por quem tocavam os sinos. Sentada a seu lado no automóvel que rodava aos saltos pelas ruas de pedras,  América Vicuña se assustou com a palidez dele e perguntou o que era. Florentino Ariza pegou a mão dela com a sua mão gelada.
   Ai, minha menina — suspirou — eu precisaria de outros cinqüenta anos para contar a você.
Esqueceu  o enterro de  Jeremiah de  Saint-Amour. Deixou  a menina na porta  do


internato com a promessa apressada de que voltaria para apanhá-la no sábado seguinte, e mandou que o chofer o levasse à casa do doutor Juvenal Urbino. Encontrou um tumulto de automóveis e carros de aluguel  nas  ruas  contíguas, e uma multidão de curiosos diante da casa. Os convidados do doutor Lácides Olivella, que tinham recebido a notícia no apogeu da festa, chegavam em tropel. Não era fácil alguém se mexer dentro da casa por causa da multidão, mas Florentino Ariza conseguiu abrir caminho até o quarto principal, se pôs na ponta dos pés para olhar por cima dos grupos que bloqueavam a porta, e viu Juvenal Urbino na cama matrimonial como tinha querido ver desde que ouviu falar nele pela primeira vez, chafurdando na indignidade da morte. O carpinteiro acabava de lhe tomar as medidas para o caixão. A seu lado, ainda com o mesmo vestido de avó recém-casada que tinha posto para a festa, Fermina Daza estava absorta e  melancólica.
Florentino Ariza tinha prefigurado aquele momento nos mais ínfimos detalhes desde os dias de juventude em que se consagrou por completo à causa desse amor temerário. Por ela ganhara nome e fortuna sem reparar demais nos  métodos, por  ela cuidara de sua saúde e sua aparência pessoal com um rigor que não  parecia muito varonil a outros homens do seu tempo, e esperara aquele dia como ninguém teria esperado nada nem ninguém neste mundo: sem um instante de desalento. A comprovação de que a morte interviera por fim a seu favor infundiu-lhe a coragem  de que necessitava para reiterar a Fermina Daza, em sua primeira noite de viúva, o juramento de sua fidelidade eterna e seu amor para  sempre.
Não negava à sua consciência que tinha sido um ato irrefletido, sem o menor sentido do como e do quando, e apressado pelo medo de que a ocasião não se repetisse jamais. Ele o teria preferido e inclusive o havia imaginado muitas vezes de um modo menos brutal, mas a sorte não tinha deixado escolha. Saíra da  casa do luto com a dor de deixar a viúva no mesmo estado de comoção em que estava ele, mas nada teria podido fazer para impedi-lo, porque sentia que aquela noite bárbara estava escrita desde sempre no destino de  ambos.
Não voltou a dormir uma noite completa nas duas semanas seguintes. Perguntava-se desesperado onde estaria Fermina Daza sem ele, que estaria pensando, que ia fazer nos anos que lhe ficavam para viver com a  carga  de assombro que ele deixara em suas mãos. Sofreu uma crise de prisão de ventre que lhe deixou a barriga como um tambor, e teve que recorrer a paliativos menos indulgentes que as lavagens. Seus achaques de velho, que ele suportava melhor que seus contemporâneos porque os conhecia desde moço,  atacaram-no  todos  ao mesmo tempo. Quarta-feira apareceu no escritório depois de uma semana de faltas,  e Leona Cassiani se assustou ao vê-lo em semelhante estado de palidez e abatimento. Mas ele a tranqüilizou: era uma vez mais a insônia, como sempre, e tornou a morder a língua para que a verdade não saísse pelas tantas goteiras que tinha no coração. A chuva não lhe deu uma trégua de sol para pensar. Passou outra semana irreal, sem poder se concentrar em nada, comendo mal e dormindo pior, procurando perceber sinais cifrados que lhe indicassem o caminho da salvação.  Mas


a partir da sexta-feira foi invadido por uma placidez sem motivo que interpretou como anúncio de que nada de novo ia suceder, de que tudo que fizera na vida tinha sido inútil e não tinha como continuar: era o final. Segunda-feira, no entanto, ao chegar a sua casa da Rua das Janelas, deparou com uma carta que boiava na água empoçada dentro do saguão, e reconheceu de pronto no envelope molhado a caligrafia imperiosa que tantas mudanças da vida não tinham conseguido mudar, e até julgou perceber o perfume noturno das gardênias murchas, porque o coração já lhe dissera tudo desde o primeiro assombro: era a carta que tinha esperado, sem um instante de sossego, durante mais de meio século.











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