NO
DIA EM QUE Florentino Ariza viu
Fermina Daza no adro da catedral,
grávida de seis meses e com pleno
domínio de sua nova condição de mulher do
mundo, tomou a decisão feroz de ganhar
nome e fortuna para merecê-la.
Sequer perdeu tempo em pensar no
inconveniente de ser ela casada, porque ao mesmo tempo resolveu, como se dependesse
dele, que o doutor Juvenal Urbino tinha que morrer. Não sabia quando nem como,
mas estabeleceu como inelutável o acontecimento, que estava resolvido a esperar sem pressas
nem arrebatamentos, ainda
que fosse até o fim dos séculos.
Começou pelo princípio. Apresentou-se sem aviso no escritório do tio Leão XII, presidente da Junta Diretora e Diretor Geral da Companhia Fluvial do Caribe, e manifestou a disposição de se submeter
ao seus desígnios. O tio estava
sentido com ele devido à maneira por
que malbaratara o bom emprego de telegrafista
na Vila de Leyva, mas se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à
luz, e sim que a vida os obriga outra
vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos. Além disso, a
viúva do irmão tinha morrido no ano
anterior, com os rancores em carne
viva mas sem deixar herdeiros. Por isso deu o emprego ao sobrinho errante.
Era uma decisão típica do senhor Leão XII Loayza. Dentro de sua casca
grossa de traficante sem alma, carregava escondido um lunático genial, que tanto fazia brotar um manancial de limonada no deserto da Guajira
como inundava de pranto um funeral
solene com seu canto lancinante de In questa
tomba oscura. Com seu cabelo
crespo e seus beiços de fauno,
só lhe faltavam a lira e a
coroa de louros para ser idêntico ao Nero incendiário da mitologia cristã. As horas que lhe ficavam livres entre a administração de seus navios
decrépitos, ainda flutuantes por pura
distração da fatalidade, e os
problemas cada dia mais críticos da navegação fluvial, ele as consagrava a enriquecer seu repertório lírico. Nada lhe
agradava mais do que cantar em enterros. Tinha uma voz
de galeote, sem nenhuma disciplina acadêmica, mas capaz de registros
impressionantes. Alguém lhe contara
que Enrico Caruso podia fazer um jarro de
flores em pedaços com o simples
poder de sua voz, e durante anos tratou de
imitá-lo até com o vidro das janelas.
Os amigos traziam os jarros mais tênues que
encontravam em viagens pelo mundo, e
organizavam festas especiais para que ele
conseguisse por fim a culminação do seu sonho. Não conseguiu
nunca. Contudo, no fundo do seu trovão havia uma luzinha de ternura que fendia o coração
dos ouvintes como o grande Caruso as ânforas de cristal,
e era isto que o tornava tão venerável
nos enterros. Com exceção de um, no qual teve a boa idéia de cantar When
I Wake up in Glory, um canto fúnebre
da Luisiana, formoso e aterrador, e foi silenciado pêlo capelão que não conseguiu entender aquela intromissão
luterana dentro da sua igreja.
Assim, entre bises de ópera e serenatas napolitanas, seu talento criador e seu invencível espírito de empreendimento
o converteram no prócer da navegação fluvial em sua
época de maior esplendor.
Tinha saído do nada, como os dois
irmãos mortos, e todos chegaram até onde quiseram apesar do estigma
de serem filhos naturais, e
com o agravante de jamais terem sido
reconhecidos. Eram a flor do que então se chamava a aristocracia de balcão,
cujo santuário era o Clube do Comércio.
No entanto, mesmo quando dispôs de recursos para
viver como o imperador romano que
parecia ser, tio Leão XII morava na cidade velha por comodidade de trabalho, com a esposa e três filhos, e de maneira
tão austera e numa casa tão despojada
que nunca conseguiu se livrar de uma injusta reputação de avarento. Mas seu único
luxo era ainda mais simples: uma
casa de mar, a duas léguas dos escritórios, que não tinha como móveis nada além de seis tamboretes
artesanais, a talha de filtrar água e
uma rede na varanda para dormir e pensar aos domingos. Ninguém
o definiu melhor do que ele
próprio quando alguém o
acusou de ser rico:
— Rico não — disse: — sou um pobre com
dinheiro, o que não é o mesmo.
Esse curioso modo de
ser, que alguém certa vez elogiou num
discurso como uma demência
lúcida, permitiu que visse na hora o
que ninguém via antes nem viu depois em Florentino Ariza. A partir do
momento em que este
se apresentou pedindo emprego nos
seus escritórios, com seu aspecto lúgubre e seus vinte e sete anos inúteis, ele o
pôs à prova na dureza de um regime de
quartel capaz de dobrar
o mais valente. Mas não conseguiu amedrontá-lo.
O que tio Leão XII nunca suspeitou foi que essa
tempera do sobrinho não lhe vinha de
necessidade de subsistir, nem de uma pachorra de bruto herdada do pai,
e sim de uma ambição de amor que
nenhuma contrariedade deste
mundo ou do outro conseguiria desalentar.
Os piores anos foram os primeiros,
quando o nomearam escrevente da Direção
Geral, que parecia um ofício
inventado sob medida para ele.
Lotário Thugut, antigo professor de música do
tio Leão XII, foi quem aconselhou este a nomear o sobrinho para um emprego de escrever, porque era um consumidor incansável de literatura a granel, embora não tanto da boa quanto da pior. Tio Leão XII não fez caso
da
observação quanto à má classe das leituras do sobrinho, pois também dele dizia Lotário Thugut que tinha sido
seu pior aluno de canto, e apesar
disso fazia chorar até as lápides dos cemitérios. Em todo caso, o alemão teve
razão naquilo em que menos pensara, e era que Florentino Ariza
escrevia qualquer coisa com tanta paixão que até os documentos oficiais
pareciam de amor. Os manifestos de
embarque lhe saíam rimados por
mais que se esforçasse em evitá-lo, e
as cartas comerciais de rotina tinham
um sopro lírico que lhe cerceava a autoridade. O tio em pessoa
lhe
apareceu
um dia no escritório com um pacote
de correspondência
que não tinha tido coragem de assinar como sua, e lhe deu a última oportunidade de salvar a alma.
— Se você não é capaz de escrever uma carta comercial, vai recolher o lixo do cais
—
disse.
Florentino Ariza aceitou o desafio.
Fez um esforço supremo para aprender
a simplicidade terrena da prosa
mercantil, imitando modelos de arquivos
notariais com tanta aplicação como a que dedicava antes aos poetas da moda. Era essa a época em que passava suas horas livres no Portal dos Escrivães, ajudando os enamorados implumes a escrever suas missivas perfumadas, para
descarregar o coração de tantas
palavras de amor que ficavam dentro
dele por falta de uso nos informes
de alfândega. Mas ao fim de seis meses,
por mais voltas que lhe desse,
não lograra torcer o pescoço do seu cisne empedernido. Por isso, quando o tio Leão XII o repreendeu pela segunda vez, ele se deu
por vencido, mas com uma certa altivez.
— A única coisa que
me interessa é o amor — disse.
— O mau — disse o
tio — é que sem navegação fluvial não há amor.
Cumpriu a ameaça de mandá-lo recolher o lixo no cais, mas lhe
deu a palavra de fazê-lo subir
passo a passo pela escada do bom
serviço até que encontrasse seu lugar.
Assim foi. Nenhuma espécie de trabalho
conseguiu derrubá-lo, por duro ou humilhante que fosse, nem o desmoralizou
a miséria do soldo, nem perdeu por
um instante sua impavidez essencial diante
das insolências dos superiores.
Tampouco foi inocente: todo aquele
que se atravessou em seu caminho
sofreu
as conseqüências de uma determinação arrasadora, capaz de qualquer
coisa, por trás de uma aparência desvalida. Tal como tio Leão XII previra e desejara para que ele
não ficasse sem conhecer qualquer segredo da empresa, passou por todos os cargos em trinta anos de consagração e tenacidade a toda prova. Desempenhou-os todos com uma capacidade admirável, estudando cada fio
daquela urdidura misteriosa que
tanto tinha a ver com os ofícios da poesia, mas sem conseguir a medalha de guerra mais anelada por ele, que era escrever uma carta comercial aceitável: uma só. Sem
propor a si mesmo, sem nem saber,
demonstrou com sua vida a razão que
tinha o pai, que repetiu até o último suspiro
que não havia ninguém com mais sentido
prático, nem pedreiros mais obstinados
nem gerentes mais lúcidos e perigosos do que os poetas. Isso, pelo menos, foi o
que lhe contou o tio Leão XII, que costumava falar-lhe no pai durante os ócios do coração, e que lhe deu dele a idéia mais de um sonhador
que de um empresário.
Contou-lhe que Pio Quinto Loayza dava aos escritórios um uso mais prazenteiro que o do trabalho, e os arranjava sempre para sair de casa aos domingos, a pretexto de que tinha de receber
ou despachar um navio. Mais ainda:
tinha feito instalar no pátio das mercadorias uma caldeira fora de uso, com uma
sereia a vapor que apitava em claves de
navegação, para o caso da esposa estar atenta. Fazendo as contas,
tio Leão XII estava certo de que Florentino Ariza fora concebido em cima da
escrivaninha de algum
escritório mal fechado numa tarde de bochorno dominical,
enquanto a esposa de seu pai ouvia
em casa os adeuses de um navio que jamais partiu. Quando o
descobriu já era tarde para cobrar a
infâmia, porque o marido estava morto. Sobreviveu a ele muitos anos, destruída pelo azedume de não ter um filho, e
pedindo a Deus em suas orações maldição eterna para o bastardo.
A imagem do pai perturbava
Florentino Ariza. A mãe falava nele como num grande homem
sem vocação comercial, que acabara nos negócios do rio porque o irmão mais velho
fora colaborador muito próximo
do comodoro alemão João B. Elbers,
precursor da navegação fluvial. Eram
filhos naturais da mesma mãe, cozinheira de ofício, que os tivera de homens diferentes, e todos traziam o
sobrenome dela por trás do nome de um Papa
escolhido ao acaso no santoral, salvo
o do tio Leão XII, que era o nome do que
reinava quando ele nasceu. O que se chamava Florentino era o avô materno de todos, por isso o nome chegara até o filho de Trânsito Ariza
saltando por cima de toda uma geração de pontífices.
Florentino conservou sempre um caderno no qual o pai escrevia versos de amor, alguns inspirados por Trânsito
Ariza, e as folhas estavam adornadas com desenhos de corações
feridos. Duas coisas o surpreenderam. Uma era a personalidade da caligrafia do pai, idêntica à sua, apesar
do fato de que a escolhera por ser a de
que mais gostara entre muitas de um manual.
A outra foi encontrar-se com uma frase que julgava sua, e que o pai escrevera num caderno
muito antes dele nascer: Só me dói morrer se não for de amor.
Tinha visto também os dois últimos retratos do pai. Um tirado em Santa
Fé, muito moço, na idade que ele
tinha quando o viu pela primeira vez, com um sobretudo que era como estar metido dentro dum urso, e recostado num pedestal de cuja estátua
só restavam as perneiras decepadas. A criança ao seu lado era tio Leão XII com um
gorrinho de capitão de navio. Na
outra fotografia aparecia o pai com
um grupo de guerreiros, em quem sabe
qual de tantas guerras, e tinha o fuzil maior e uns bigodes cujo cheiro de pólvora
se exalava da imagem. Era liberal e maçom, assim como os irmãos, e no
entanto queria que o filho entrasse para o seminário. Florentino Ariza não achava
que fossem parecidos, mas segundo o
tio Leão XII, também a Pio Quinto criticavam
o lirismo dos documentos. Em todo
caso, nem nos retratos se parecia com ele, não correspondia às suas lembranças
nem à imagem que pintava a mãe,
transfigurada pelo amor, nem à que
dele despintava tio Leão XII com sua graciosa
crueldade. Contudo, Florentino Ariza descobriu a parecença muitos anos depois, enquanto se penteava na frente do espelho,
e só então compreendeu que. Um
homem sabe quando começa a envelhecer porque começa a parecer com o pai.
Não se lembrava dele na Rua das Janelas. Julgava saber que por um tempo dormira ali, muito no
princípio dos seus amores com Trânsito
Ariza, mas que não tinha tornado a visitá-la depois do seu nascimento. A
certidão de batismo foi durante muitos
anos nosso único instrumento válido de identificação, e a de Florentino Ariza, assentada na
paróquia de Santo Toríbio, só dizia
que era filho
natural de outra filha
natural solteira que se chamava Trânsito Ariza. Esta condição
social fechou a Florentino Ariza as
portas do seminário, mas fez também com que escapasse ao serviço
militar na época mais sangrenta de nossas guerras,
por ser
filho único de mãe solteira.
Todas as sextas-feiras depois da escola se sentava na
frente dos escritórios da Companhia
Fluvial do Caribe, repassando um livro de
estampas de animais tantas vezes repassado que caía aos pedaços. O pai entrava sem olhá-lo, vestido com as sobrecasacas de casimira que Trânsito Ariza devia ajustar depois para ele,
e com uma cara idêntica à do São João Evangelista dos altares. Quando
saía, depois de muitas horas e procurando não ser visto nem
pelo próprio cocheiro, lhe dava
o dinheiro para os gastos de uma semana.
Não se falavam, não só porque
o pai não tentava como porque ele tinha terror do pai. Um dia, depois de esperar
muito mais que de costume,
o pai lhe deu as moedas, dizendo:
— Tome e não volte mais.
Foi a última vez que o viu. Com
o tempo veio a saber que tio Leão XII, que era
uns dez anos mais moço,
continuou levando o dinheiro a Trânsito Ariza, e foi quem se ocupou dela
quando Pio Quinto morreu de uma eólica mal tratada, sem deixar nada escrito, e sem
tempo para tomar qualquer
providência em favor do filho único
— um filho da rua.
O drama de Florentino Ariza enquanto foi
calígrafo da Companhia Fluvial
do
Caribe era que não podia afastar seu lirismo porque não deixava de pensar em
Fermina Daza, e nunca aprendeu a escrever sem pensar nela. Depois, quando o passaram a outros cargos,
sobrava-lhe tanto amor por dentro que não sabia que fazer com
ele, e dava-o de presente aos enamorados implumes escrevendo para eles cartas de amor gratuitas no Portal dos Escrivães. Para lá ia depois do trabalho. Tirava a sobrecasaca com seus gestos discretos e a pendurava no
espaldar da cadeira, colocava os punhos postiços para não sujar a
camisa, desabotoava o colete para pensar
melhor, e às vezes até muito tarde da
noite reanimava os
desvalidos com umas cartas enlouquecedoras. De vez em quando encontrava uma pobre mulher que tinha um problema com um filho, um veterano
de guerra que insistia em reclamar o
pagamento de sua pensão, alguém que tivera algo roubado e queria fazer queixa ao governo, mas por mais que se esmerasse não podia satisfazê-los, porque
a única coisa com que lograva convencer alguém eram as cartas de amor. Nem mesmo fazia perguntas aos clientes
novos, pois bastava ver o branco do olho deles para ter noção do seu estado,
e escrevia folha após folha de amores desarvorados, mediante a fórmula infalível
de escrever pensando sempre em Fermina
Daza, e nada mais do que nela. No fim do primeiro
mês teve que estabelecer uma ordem
antecipada de reservas, para que não o submergissem as ânsias dos enamorados.
Sua lembrança mais grata daquela
época foi de uma mocinha muito tímida, quase uma menina,
que lhe pediu
tremendo que escrevesse uma resposta a uma
carta irresistível
que acabava de receber, e que
Florentino Ariza reconheceu como escrita por ele
a tarde anterior. Respondeu-a
num estilo
diferente, de acordo com a emoção e a idade da menina, e com uma letra que também parecesse
dela, pois sabia fingir uma escrita
para cada ocasião segundo o caráter de
cada qual. Escreveu
imaginando o que Fermina Daza teria respondido a ele se o amasse tanto
quanto aquela criatura desamparada amava seu
pretendente. Dois dias depois, é claro, teve que escrever também a
réplica do noivo com a caligrafia, o estilo e a classe de amor que lhe havia
atribuído na primeira carta, e foi assim
que acabou comprometido numa correspondência
febril consigo mesmo. Antes de um
mês ambos, cada um por seu
lado, foram lhe agradecer o
que ele próprio propusera na carta do
noivo e aceito com devoção na resposta da
garota: iam se casar.
Só quando tiveram o primeiro filho descobriram, numa conversa casual, que as cartas de ambos tinham sido escritas pelo mesmo escrivão, e pela
primeira vez foram juntos ao portal para designá-lo padrinho do menino. Florentino Ariza se entusiasmou
tanto com a prova prática dos seus sonhos que tirou tempo de onde não tinha para escrever um Secretário
dos Enamorados mais poético e amplo do que aquele que até então se vendia por vinte centavos nos
portais, e que meia cidade
conhecia de memória. Pôs em ordem as situações imagináveis em que
poderiam se encontrar Fermina Daza e ele, e para
todas escreveu tantos modelos quantas alternativas de ida e
volta lhe pareceram possíveis. No fim teve
umas mil cartas em três tomos
tão quadrados quanto o dicionário de Covarrubias,
mas nenhum impressor da cidade
se arriscou a publicá-los, e
acabaram em
algum desvão da casa, com outros papéis da casa, pois Trânsito Ariza se negou de
plano a desenterrar as botijas para malbaratar
suas poupanças da vida inteira numa loucura editorial. Anos depois, quando
Florentino Ariza teve recursos próprios para
publicar o livro, foi-lhe duro admitir a realidade de que as cartas de amor já tinham passado de moda.
Enquanto ele dava os primeiros
passos na Companhia Fluvial do Caribe e escrevia cartas grátis no Portal
dos Escrivães, os amigos de Florentino
Ariza tinham a certeza de que o perdiam pouco a pouco, sem retorno. Assim era. Ao voltar da
viagem pelo rio ainda via alguns deles na esperança de atenuar as lembranças de Fermina Daza, jogava bilhar com eles, foi aos últimos bailes, prestava-se aos azares de ser rifado entre as
moças, prestava-se a tudo que lhe parecesse
bom para voltar a ser o que tinha sido. Depois, quando tio
Leão XII o acreditou como empregado, jogava dominó com os companheiros de escritório no Clube do Comércio, e estes começaram a reconhecê-lo como um dos seus, pois agora ele só lhes falava da empresa de navegação,
que nunca mencionava pelo nome completo
e sim pelas iniciais: a CF.C Mudou até
seus hábitos de comer. De indiferente e irregular que tinha sido até então à mesa, tornou-se regular e austero até o fim dos
seus dias: uma xícara
grande de café puro pela manhã, uma posta
de peixe cozido com arroz branco ao
almoço, e uma xícara de café com leite com um pedaço de
queijo antes de dormir. Tomava
café puro a
qualquer hora, em qualquer lugar
e em qualquer
circunstância, e
até trinta xicrinhas por dia: uma infusão que mais parecia petróleo cru, que
preferia preparar ele mesmo
e que sempre tinha numa garrafa
térmica ao alcance da mão. Era outro,
a despeito do seu propósito firme e seus esforços
ansiosos de continuar sendo o mesmo que tinha sido antes do tropeção mortal do amor.
A verdade
é que jamais tornaria a ser. Recuperar Fermina Daza foi o objetivo único de sua vida,
e estava tão certo de atingi-lo mais
cedo ou mais tarde que convenceu
Trânsito Ariza a prosseguir na restauração da
casa para que estivesse em
condições de recebê-la a qualquer momento em
que ocorresse o milagre. Ao contrário
de sua
reação diante da proposta
editorial do Secretário dos
Enamorados, Trânsito Ariza foi então muito mais longe: comprou a casa à vista e
empreendeu a renovação completa. Fizeram uma sala
de recepção do que tinha sido a alcova, construíram no sobrado um quarto de
dormir para os esposos e
outro para os filhos que iam ter, ambos muito amplos e bem iluminados, e no espace da antiga feitoria de tabaco
fizeram um extenso jardim de toda
classe de rosas, no qual Florentino
Ariza em pessoa consagrou seus ócios do
amanhecer. A única coisa que
ficou intacta, como um testemunho de gratidão pelo passado, foi a
loja do
armarinho. A parte de trás, onde dormia Florentino Ariza, foi deixada como sempre estivera, com a rede pendurada e a grande mesa de escrever atulhada de livros em
desordem, mas ele se mudou
para o quarto previsto como
alcova matrimonial no andar de cima.
Era o quarto mais amplo e fresco da casa,
e tinha um terraço interno onde era
agradável estar à noite na brisa do mar
e no vapor dos rosais, mas era também o que correspondia melhor ao rigor trapista de Florentino Ariza. As paredes eram lisas e ásperas, de cal viva, e só tinha como móveis um leito de presidiário,
uma mesinha de cabeceira
com uma vela num gargalo de garrafa, um guarda-roupa antigo e um gomil
d'água em seu prato, ao lado da bacia.
Os trabalhos duraram quase três
anos, e coincidiram com um restabelecimento
momentâneo da cidade, devido ao auge da navegação
fluvial e ao comércio de passagem, os mesmos fatores que tinham sustentado sua grandeza durante a Colônia e a tinham convertido durante mais de dois séculos
em porta da América. Mas também foi essa a época em que Trânsito Ariza manifestou
os primeiros sintomas de sua enfermidade sem remédio. Suas clientes de sempre vinham cada vez mais velhas ao
armarinho, mais pálidas e fugidias, e ela não as
reconhecia depois de ter
tratado com elas durante meia vida,
ou confundia os assuntos de umas com
os de outras. O que era muito grave em negócios como o seu, nos
quais não se assinavam papéis para proteger a honra, a própria e a alheia, e a palavra de honra
era dada e aceita como
garantia bastante. A princípio pareceu que estava ficando surda, mas em breve ficou evidente que era sua memória
que ia escorrendo pelas goteiras. De modo que liquidou o negócio de penhor, e com o tesouro das botijas
chegou a terminar e mobiliar a casa, e ainda lhe
sobraram muitas das jóias antigas mais prezadas da cidade, pois os donos não tiveram
recursos para resgatá-las.
Florentino Ariza tinha que atender então a
demasiados compromissos ao mesmo
tempo, mas nunca lhe fraquejou o ânimo para fomentar
seus negócios de caçador furtivo. Depois da experiência
errática com a viúva de Nazaret, que lhe abriu o caminho dos amores rueiros,
continuou caçando as passarinhas órfãs da noite
durante vários anos, ainda na ilusão de encontrar alívio para a dor que era Fermina Daza. Mas depois não sabia mais dizer
se seu
costume de fornicar sem esperanças
era uma necessidade da consciência ou simples vício do corpo. Ia cada vez menos ao hotel suspeito, não só porque seus interesses tomavam outros rumos, como
também por não gostar de ser visto ali em andanças diferentes das tão
domésticas e castas que já eram conhecidas a seu
respeito. No entanto, em três casos de aperto apelou para o
recurso fácil de uma época que não tinha vivido:
fantasiava de homens as amigas temerosas de serem reconhecidas,
e entravam juntos no hotel com fumaças de pândegos tresnoitados. Não
faltou quem reparasse em pelo menos
duas das ocasiões em que ele
e o suposto acompanhante não iam ao bar e sim ao quarto, e a reputação já bastante alquebrada de Florentino Ariza sofreu o golpe de misericórdia.
Afinal deixou de ir, e as
pouquíssimas vezes em que ainda o fez não eram para que ele pusesse em dia
os atrasos, e sim pelo
contrário: buscando um refúgio para
se recompor dos excessos.
Não era para menos. Nem bem tinha saído do escritório, por volta das cinco da
tarde, e já andava em suas volatarias
de
gavião frangueiro. No princípio
se conformava com o que a noite lhe oferecia. Recolhia criadas nos parques, negras no mercado,
morenas nas praias, gringas nos navios de Nova
Orleans. Levava-as aos diques, onde metade da
cidade fazia o mesmo desde o
pôr-do-sol, levava-as para onde
podia, e às vezes onde não podia, pois
não foram poucas as ocasiões em que
teve que se meter às carreiras num saguão
escuro e fazer o que fosse possível, do jeito possível, atrás da porta.
A torre do farol foi sempre um refúgio
afortunado que ele evocava com
saudade quando já tinha tudo resolvido nos albores da velhice, porque era um lugar
bom para
ser feliz, sobretudo de noite,
e achava que algo dos seus amores
daquela época chegava aos navegantes a cada
volta do feixe de luz. De maneira que continuou indo lá, mais
do que a qualquer outra parte,
enquanto seu amigo faroleiro o
recebia encantado, com uma cara de bobo que era o melhor atestado de discrição
para as passarinhas assustadas.
Havia uma casa embaixo, junto ao estrondo das ondas estourando contra os alcantis, onde o amor era mais intenso, porque tinha alguma coisa de naufrágio. Mas Florentino Ariza preferia
a torre da luz depois de cair
a noite,
porque se divisava a cidade inteira e a esteira de luzes dos pescadores do mar, e mesmo
dos pântanos distantes.
Vinham dessa época suas teorias um tanto simplistas sobre a relação entre o físico das
mulheres e suas aptidões para o amor. Desconfiava do tipo sensual,
as que pareciam capazes de comer cru
um jacaré-açu, e que costumavam ser as mais passivas na cama. Seu tipo era
o contrário: essas rãzinhas sumidas,
que ninguém se dava ao trabalho de olhar
duas vezes na rua, que pareciam
reduzidas a nada quando tiravam a roupa, que davam
pena porque seus ossos rangiam ao primeiro impacto, e
que no entanto
podiam deixar pronto para a lata do lixo o maior dos gargantas. Tinha tomado notas dessas observações
prematuras com a intenção de escrever
um suplemento
prático do Secretário dos
Enamorados, mas o projeto sofreu a mesma sorte do anterior depois que Ausência Santander o revirou pelo direito
e o avesso com sua sabedoria de cachorro
velho, o aparou de cabeça, levantou e abaixou, pariu- o
como novo, fez em tiras seus virtuosismos teóricos, e lhe ensinou
a única coisa que tinha que
aprender para o amor: que à vida ninguém ensina.
Ausência Santander tinha tido um casamento convencional durante vinte
anos, do qual lhe ficaram três filhos que por sua vez
tinham casado e tido filhos, de modo que ela se prezava de ser a
avó com a melhor cama da cidade. Nunca ficou claro se foi
ela que abandonou o marido, ou se foi este que
a abandonou, ou se ambos se abandonaram ao mesmo tempo quando ele foi morar
com sua amante de sempre, e ela se sentiu livre para receber em pleno dia pela porta principal Rosendo de La
Rosa, comandante de navio fluvial, a quem
recebera de noite muitas vezes
pela porta traseira. Foi ele
mesmo, sem pensar duas vezes, quem
levou lá Florentino Ariza.
Levou-o para almoçar. Levou além dele um
garrafão de aguardente caseira
e os ingredientes de melhor qualidade para uma panelada
épica, como só era possível com
galinhas de quintal, carne de osso
mole, porco de monturo e os legumes e hortaliças dos povoados do rio. No entanto, Florentino Ariza não se mostrou entusiasmado desde o primeiro momento com as excelências da cozinha, nem com a exuberância da dona, e sim com a beleza da casa. Gostou
da casa em si mesma,
luminosa e fresca, com quatro janelas grandes abertas ao mar, e no fundo
a vista completa da cidade antiga. Gostou da quantidade e
esplendor das coisas, que davam à
sala um aspecto confuso e ao mesmo tempo rigoroso, com toda classe de primores artesanais que o comandante Rosendo de Ia Rosa tinha ido trazendo de cada viagem até que não havia mais lugar para um
que fosse. No terraço do mar, parada em seu aro
privado, havia uma cacatua da Malásia com uma plumagem de uma brancura inverossímil e uma quietude
pensativa que dava muito que pensar: o bicho mais formoso que Florentino Ariza jamais vira. O
comandante Rosendo de Ia Rosa se entusiasmou
com o entusiasmo do convidado, e lhe contou em detalhe a
história de cada coisa. Enquanto isso, bebia
aguardente a goles curtos mas sem trégua.
Parecia de cimento armado: enorme, peludo de corpo inteiro com exceção da
cabeça, com um bigode de
vasta broxa e uma voz de cabrestante que só a ele podia
pertencer, e de uma gentileza
requintada. Mas não havia corpo capaz de resistir ao seu modo de beber.
Antes de se sentar à mesa tinha acabado com metade do garrafão, e caiu de bruços em
cima da bandeja de copos e garrafas com um lento estrépito
de demolição. Ausência Santander
precisou pedir a ajuda de Florentino
Ariza para arrastar até a cama o
corpo inerte de baleia encalhada, e para despi-lo adormecido. Em seguida, num clarão de inspiração que os dois agradeceram à conjunção de seus astros,
se despiram ambos no quarto do lado sem
se porem de acordo, sem sequer uma sugestão, sem uma proposta, e continuaram se despindo
sempre que podiam
durante mais de sete anos,
quando o comandante estava de viagem. Não havia riscos de surpresas, porque ele tinha
o costume de bom navegante de avisar
sua chegada ao porto com a sereia do
navio, mesmo de madrugada, primeiro com três bramidos
grandes para a esposa e seus nove filhos,
e depois com dois entrecortados e
melancólicos para a amante.
Ausência Santander tinha quase
cinqüenta anos, e se notava, mas tinha
também um instinto tão pessoal para o amor que não havia teorias
artesanais nem científicas capazes de amortecê-lo.
Florentino Ariza sabia pelos itinerários dos navios quando podia visitá-la, e
sempre ia sem se anunciar na hora que quisesse
do dia ou da noite, e não houve uma só vez em que
ela não o estivesse esperando. Abria a porta como a mãe a criou até os sete anos: nua
em pêlo, mas com um laço
de organdi na cabeça. Não deixava que ele desse um passo mais
antes de lhe tirar a roupa, pois sempre achou que dava azar ter um homem vestido
dentro de casa. Isto foi causa
de discórdia constante com o
comandante Rosendo de Ia Rosa, porque
ele tinha a superstição de que fumar
nu era de mau agouro, e às vezes preferia atrasar o amor do que apagar
seu infalível charuto cubano. Em compensação, Florentino Ariza era muito dado aos
encantos da nudez, e ela tirava a roupa dele com invariável
deleite mal a porta se fechava, sem lhe dar
sequer tempo de cumprimentá-la,
nem de tirar
o chapéu ou os óculos, beijando-o e
deixando-se beijar com beijos desenfreados, e soltando-lhe os botões de baixo para
cima, primeiro os da braguilha,
um por um depois de cada beijo, depois a fivela do
cinto, e por último o colete e
a camisa, até deixá-lo como um peixe
que se fende ao meio. Depois o sentava na sala e lhe tirava
as botas, puxava-lhe a calça pelos pernis para
que saísse ao mesmo tempo que as ceroulas, e por último desprendia as ligas de elástico da barriga da perna e lhe tirava as meias. Florentino Ariza parava
então de beijá-la e de se deixar
beijar para fazer a única coisa que lhe competia
naquela cerimônia pontual: soltava o
relógio de corrente da botoeira do colete e tirava os óculos, e
enfiava ambos nas botas para ter
certeza de não esquecê-los. Sempre tomava essa precaução, sempre, sem falta, quando se desnudava em casa alheia.
Mal acabava de fazê-lo e ela já o
assaltava sem dar tempo de nada, no próprio sofá onde acabava de desnudá-lo, e só de vez em
quando na cama. Metia-se debaixo dele, e se apoderava dele todo para ela,
encerrada dentro de si mesma,
tateando com os olhos fechados
em sua
absoluta escuridão interior, avançando por aqui, retrocedendo,
corrigindo seu rumo invisível, tentando outra via mais
intensa, outra forma de andar sem
naufragar no alagado de mucilagem
que fluía do seu ventre, se perguntando e se respondendo a si mesma com um
zumbido de varejeira em seu jargão
nativo onde ficava essa alguma coisa
nas trevas que só ela conhecia e ansiava só para ela,
até que sucumbia sem esperar ninguém, se desbarrancava só em seu abismo com uma explosão jubilosa de vitória total que fazia tremer o mundo. Florentino Ariza ficava exausto, incompleto, flutuando no charco dos
suores de ambos, mas com a impressão de
não passar de um instrumento
de
gozo. Dizia: "Você me trata como se eu fosse um a mais." Ela dava uma risada de fêmea livre, e
dizia: "Pelo
contrário: como se você fosse um a
menos." E ele ficava com a impressão de
que ela ficava com tudo, com uma voracidade mesquinha, e o orgulho se rebelava
e saía da casa com a determinação de não voltar mais. Mas logo
acordava sem motivo, com a
lucidez tremenda da solidão no meio da noite, e a lembrança do amor ensimesmado de Ausência Santander lhe aparecia como aquilo que era: uma armadilha da felicidade que o entediava e atraía ao mesmo tempo, mas da qual
era impossível escapar.
Um certo domingo, dois anos depois de se haverem
conhecido, a primeira coisa que ela fez quando ele
chegou, em lugar de despi-lo, foi tirar os óculos dele
para melhor beijá-lo, e desse modo Florentino Ariza soube que ela
começara a gostar dele. Apesar de se
sentir tão bem desde o primeiro dia naquela
casa que já amava como sua, jamais
permanecera mais de duas horas de cada
vez, nunca para dormir, e só uma vez para
comer, por ter recebido dela convite formal. Lá só ia na realidade para o
que ia, trazendo sempre o presente único de uma rosa solitária, e desaparecia até a seguinte ocasião imprevisível. Mas no
domingo em que ela lhe tirou os óculos para beijá-lo, em parte por isso, e em
parte porque ficaram dormindo
depois de um amor repousado, passaram a tarde
nus na enorme cama do comandante.
Ao despertar da sesta, Florentino
Ariza conservava ainda a lembrança dos grasnidos da cacatua, cujos
metais estridentes iam no sentido contrário da
sua beleza. Mas o silêncio era diáfano no calor das quatro, e pela janela do quarto se
via o perfil da cidade
antiga com o sol da tarde
nas costas, suas cúpulas
douradas, seu mar de chamas
até a Jamaica. Ausência Santander estendeu a mão aventureira buscando às tontas
o animal jacente, mas Florentino Ariza a afastou.
Disse: "Agora não:
sinto uma
coisa esquisita, como se estivessem
nos vendo." Ela tornou a alvoroçar a cacatua com seu riso feliz.
Disse: "Esse pretexto nem a mulher
de Jonas engole."
Tampouco ela, diga-se logo, mas o admitiu como válido, e ambos se amaram durante longo tempo em silêncio sem repetir
o amor. Às cinco, com o sol ainda alto, ela se levantou da cama, nua
até a eternidade
e com o laço de organdi na cabeça, e foi à cozinha buscar alguma coisa de beber. Mas não chegou a dar um passo
fora do quarto quando lançou um grito de
espanto.
Não conseguia acreditar. Os únicos objetos que restavam na
casa eram as luzes fixas. Os demais,
os móveis assinados, os tapetes indianos,
as estátuas e os gobelinos, as miudezas
incontáveis de pedrarias e metais
preciosos, tudo quanto tinha feito de sua casa
uma das
mais aprazíveis e bem guarnecidas da cidade,
tudo, até a cacatua sagrada, tudo se havia
evaporado. Tudo carregado pelo terraço marinho sem perturbar o amor. Só ficaram os salões desertos com quatro janelas abertas, e um letreiro a broxa grossa na parede do
fundo: Isto acontece a vocês
por andarem trepando. O comandante Rosendo de
Ia Rosa jamais compreendeu por que Ausência Santander não denunciou a
pilhagem, nem tentou estabelecer qualquer contato com os
traficantes de coisas roubadas, nem permitiu que se tornasse a falar de sua desgraça.
Florentino Ariza continuou a
visitá-la na casa saqueada, cujo mobiliário ficou reduzido a três tamboretes de couro que os ladrões esqueceram na
cozinha, e ao quarto de dormir onde eles estavam. Mas veio com menos freqüência do que antes, não pela desolação da casa, como supôs e disse ela, e sim pela novidade do bonde
de burros em princípios do novo século,
que foi para ele
um ninho pródigo e original de passarinhas
soltas. Tomava-o quatro vezes por dia, duas para ir ao escritório e duas para
voltar para casa, e às vezes enquanto lia de verdade e na maioria das vezes
fingindo ler, conseguia estabelecer pelo
menos os primeiros contatos para um
encontro posterior. Mais tarde, quando tio Leão XII pôs à sua disposição um carro puxado por
duas mulinhas pardas de gualdrapas douradas, iguais às do presidente Rafael Núnez, sentiria saudades dos tempos do bonde como os mais fecundos de suas andanças de falcoeiro. Tinha razão: não havia pior inimigo dos amores
secretos do que um carro esperando na porta. Tanto assim
que quase sempre o deixava escondido em casa
e ia a pé em suas rondas de altanaria,
para não deixar sequer o sulco
das rodas no pó. Por isso evocava com tanta saudade o velho bonde com seus burros macilentos, roídos
de peladuras, dentro do qual bastava um olhar de soslaio para
saber onde estava o amor. Contudo, entre tantas lembranças
enternecedoras, não conseguia afastar
a de uma passarinha desamparada cujo nome
nunca soube e com a qual apenas
conseguiu viver uma metade frenética de noite, mas que tinha
bastado para lhe deixar pelo resto da vida
um travo amargo nas desordens
inocentes do carnaval.
Tinha chamado sua atenção no bonde pela impavidez com que
viajava em meio ao escândalo da pândega
pública. Não devia ter mais de vinte anos, e não parecia com ânimo de
carnaval, a menos que estivesse fantasiada de inválida: tinha o cabelo muito claro, comprido e liso, solto ao natural s*obre os ombros, e
usava uma túnica de pano ordinário sem nenhum enfeite. Estava alheia
por completo ao rodopio da música das
ruas, aos punhados de pó-de-arroz, aos jorros de anilina
que atiravam aos passageiros do bonde em
marcha, cujos burros iam brancos de polvilho
e com chapéus de flores durante
aqueles três dias de loucura.
Aproveitando-se da confusão, Florentino Ariza a convidou a
tomar um sorvete, pois não achou
que desse para mais. Ela o olhou sem surpresa. Disse: "Aceito
com muito prazer, mas lhe aviso
que estou louca." Ele riu do gracejo, e a levou para assistir ao desfile de carros da sacada da
sorveteria. Enfiou depois um dominó alugado, e ambos se meteram na ronda de bailes da Praça da Alfândega, e se divertiram juntos como
noivos acabados de nascer, pois a
indiferença dela foi parar no extremo contrário no fragor da noite:
dançava feito uma profissional, e era imaginativa e audaz para a pândega, e de um encanto arrasador.
— Você nem sabe a encrenca em que
se meteu
comigo — gritava morta de rir
na febre do carnaval. — Sou uma louca de hospício.
Para Florentino Ariza, aquela era uma noite de
regresso aos desmandos cândidos da adolescência,
quando o amor ainda não o havia desgraçado. Mas sabia, mais por escarmento que
por experiência, que uma felicidade
tão fácil não podia durar muito
tempo. Por isso é que antes que a noite começasse a
decair, como sempre acontecia depois da distribuição
dos prêmios às melhores fantasias,
propôs à moça que fossem contemplar
o amanhecer no farol. Ela aceitou agradecida,
mas depois que acabassem de distribuir
os prêmios.
Florentino Ariza ficou com a
certeza de que aquela demora lhe salvou a vida. Com efeito,
a moça tinha feito um sinal de que fossem
para o farol, quando dois
cérberos e uma enfermeira do manicômio da Divina Pastora lhe caíram em cima.
Estavam à procura dela desde que tinha fugido às três da tarde, não só eles como
toda a força pública. Tinha decapitado um guarda e ferido com gravidade outros dois com um
facão arrebatado ao jardineiro, porque queria sair para brincar no carnaval. Mas ninguém imaginou que estivesse dançando na
rua, e sim escondida em alguma das
tantas casas onde tinham revistado até as cisternas.
Não foi fácil prendê-la. Defendeu-se com tesouras de podar
que tinha escondidas no corpinho, e foram necessários seis homens para pôr-lhe a camisa-de-força, enquanto a multidão apinhada na
Praça da Alfândega aplaudia e
assobiava de júbilo, pensando que a captura sangrenta era uma das farsas
do carnaval. Florentino Ariza ficou
desarvorado, e na Quarta-Feira de Cinzas,
foi pela primeira vez à rua da Divina Pastora com uma caixa de
bombons ingleses para ela. Ficava olhando as reclusas que lhe gritavam toda sorte de impropérios
e piadas pelas janelas, enquanto ele as alvoroçava com a caixa de bombons para ver se tinha a
sorte de fazer com que ela assomasse também às barras de ferro. Mas
nunca a viu. Meses depois, ao saltar do bonde
de
burro, uma meninazinha que estava com o pai lhe
pediu um dos chocolates da caixa que carregava na mão. O pai ralhou com ela e
pediu desculpas a Florentino Ariza. Mas ele deu
a caixa completa à menina achando que
aquele gesto o redimia de todo amargor, e acalmou o papai com um
tapinha no ombro.
— Eram para
um amor que foi para
o caralho — segredou-lhe.
Como compensação do
destino, foi também no bonde de burro que Florentino Ariza conheceu
Leona Cassiani, que foi a verdadeira mulher da sua vida,
embora nem ele nem ela jamais o soubessem, ou jamais fizessem o
amor. Ele a sentiu antes de vê-la quando voltava a casa no bonde das cinco: foi um olhar material que tocou nele
como se fosse um dedo. Ergueu a
vista e a viu, no extremo oposto, mas muito bem definida entre os outros
passageiros. Ela não desviou o olhar. Pelo contrário: manteve-o com tamanho
descaramento que ele não podia pensar
senão o que pensou: negra, jovem e
bonita, mas puta sem sombra de dúvida. Descartou-a da sua vida,
porque não podia conceber nada mais indigno do
que pagar pelo amor: não o fez nunca.
Florentino Ariza saltou na Praça
dos Carros, que era o ponto final dos bondes, escafedeu-se a toda pressa pelo
labirinto do comércio porque a mãe o
esperava às seis, e quando saiu do outro lado da multidão ouviu ressoarem
os saltos de mulher alegre nas pedras, e se voltou
para olhar e para se convencer do que já sabia: era ela. Estava vestida
como as escravas das estampas, com uma saia rodada que levantava
com um gesto de
dança para passar sobre as
poças da rua, um decote que deixava os ombros descobertos, um maço de
colares de cor e um turbante branco. Ele as conhecia do hotel
suspeito. Sucedia amiúde que às seis da tarde
ainda estavam só com o café da manhã, e então o único recurso que lhes restava era usar o sexo como um punhal
de salteador de estrada, e o colocavam contra a garganta do primeiro que encontrassem na rua: a
piroca ou a vida. Em busca de uma prova final,
Florentino Ariza mudou de direção,
meteu-se pela ruela deserta do Candeeiro,
e ela o seguiu cada vez mais de perto. Então ele parou, se virou, fechou a passagem dela apoiado no guarda-chuva com as duas mãos. Ela ficou firme na frente dele.
— Você se enganou, linda — disse ele: — eu
não dou.
— Claro que sim — disse ela: — vê-se na sua cara.
Florentino Ariza se lembrou de
uma frase que ouvira menino do
médico da família, seu padrinho, a propósito da sua prisão
de ventre crônica: "O mundo está dividido
entre os que cagam bem e os que cagam mal." Sobre esse dogma o médico elaborara toda uma teoria do
caráter, que considerava mais certeira do
que a astrologia. Mas com as lições dos
anos, Florentino Ariza a formulou de outro modo: "O mundo está dividido
entre os que trepam e os que não trepam." Desconfiava dos últimos: quando saíam dos trilhos, era para eles tão insólito que alardeavam o amor como se tivessem acabado de inventá-lo.
Os que o faziam amiúde, em compensação,
viviam só para isso. Sentiam-se
tão bem que se comportavam como
sepulcros lacrados, por saberem que da discrição
dependia sua vida. Nunca falavam de suas proezas,
não confiavam em ninguém, bancavam os
distraídos até o ponto de ganharem fama
de impotentes, de frígidos, e sobretudo de maricás tímidos, como era o caso de Florentino Ariza. Mas se compraziam no equívoco, porque o equívoco
também os protegia. Eram uma loja maçônica hermética, cujos sócios se reconheciam entre si no mundo inteiro, sem necessidade de um idioma
comum. Daí o fato de Florentino
Ariza não se surpreender com a
resposta da moça: era uma dos seus,
e portanto sabia que ele sabia
que ela sabia.
Foi o erro da sua vida, tal como sua consciência ia fazer com que se lembrasse
a cada hora de cada dia, até o último dia. Ela não queria lhe suplicar amor, menos ainda amor pago, e sim um emprego no que fosse, qualquer que fosse e
com o salário que fosse?, na Companhia Fluvial do Caribe. Florentino Ariza ficou tão
envergonhado com sua própria conduta que a levou ao chefe
do pessoal, e este lhe deu
um posto de ínfima categoria na seção geral, que ela desempenhou com seriedade, modéstia e
consagração durante três anos.
Os escritórios da C.F.C. estavam desde sua fundação diante do cais fluvial, sem nada em
comum com o porto dos transatlânticos no lado oposto da baía, nem
com o atracadouro do mercado
na baía das Animas. Era um edifício de madeira com telhado de zinco
de duas águas, um único balcão grande com colunas na fachada e várias janelas com telas de arame nos quatro costados, das quais se
viam completos os navios no cais como quadros pendurados na parede. Quando o construíram, os
precursores alemães pintaram de vermelho o zinco dos telhados e de branco
brilhante os tabiques de madeira, de maneira que o próprio edifício tinha algo de
navio fluvial. Mais tarde pintaram-no todo de azul,
e pelos tempos em que Florentino Ariza
começou a trabalhar na empresa era um galpão
poeirento sem cor definida, e nos
telhados oxidados havia emendas de folhas de
zinco novas sobre as folhas originais.
Por trás do edifício, num pátio de caliça cercado de tela de galinheiro,
havia dois armazéns amplos de construção
mais recente, e no fundo havia um
desaguadouro fechado, sujo e
fedorento, onde apodreciam os despejos de meio século de navegação fluvial: escombros de navios históricos,
desde os primitivos de uma só chaminé,
inaugurados por Simão Bolívar, até alguns tão recentes que já tinham
ventiladores elétricos nos camarotes. Tinham sido em sua maioria
desmantelados para a utilização dos
materiais em outros navios, mas muitos estavam
em tão bom estado que parecia possível
dar-lhes uma mão de pintura e botá-los para navegar, sem espantar as iguanas nem derrubar as árvores de grandes
flores amarelas que os faziam mais nostálgicos.
No andar de cima do edifício ficava a seção administrativa, em escritórios pequenos mas cômodos e bem
aparelhados, como os camarotes dos
navios, pois não tinham sido feitos por
arquitetos civis e sim por engenheiros navais. No fim do corredor, como mais um empregado, despachava o tio Leão XII num escritório igual a todos, com a única
diferença de que ele encontrava pela manhã em sua secretária
um jarro de vidro com alguma espécie de
flores de cheiro bom. No andar
de baixo ficava a seção de passageiros, com uma sala de espera de bancos rústicos e um balcão
para a emissão de passagens e o
manuseio de bagagens. No fim de tudo
ficava a confusa seção geral,
cujo mero nome dava uma idéia do vago de
seus atributos, e onde morriam de má morte os problemas que permaneciam
por resolver
no resto da empresa. Ali
estava Leona Cassiani, perdida atrás
de uma
carteira escolar entre um montão
de sacos de milho arrumados e
papéis sem solução, no dia em que
o tio Leão XII em pessoa foi ver que diabo lhe ocorreria para fazer
com que a seção geral servisse para alguma coisa. Ao fim de três horas de perguntas, de suposições
teóricas e averiguações concretas com todos os
empregados em plenário, voltou
ao seu escritório atormentado pela
certeza de não haver encontrado nenhuma solução
para tantos problemas, e sim o contrário: novos e variados problemas para solução nenhuma.
No dia seguinte, quando Florentino Ariza entrou no seu escritório,
encontrou um memorando de Leona Cassiani, com o pedido de que o estudasse e mostrasse em
seguida a seu tio, se lhe parecesse
pertinente. Era a única que não tinha dito
uma palavra durante a inspeção da tarde
anterior. Mantivera-se de propósito em sua digna
condição de empregada por caridade,
mas no memorando fazia notar que não o fizera por negligência e sim por respeito às hierarquias da seção. Era de uma simplicidade
alarmante. Tio Leão XII propusera uma reorganização
a fundo, mas Leona Cassiani pensava o contrário, pela lógica simples de que a seção geral não existia na
realidade: era a lixeira dos
problemas encrencados mas insignificantes
que as outras seções passavam adiante. A solução, em conseqüência, era eliminar a seção geral, e devolver os problemas
para serem resolvidos em suas seções de origem.
Tio Leão XII não tinha a menor idéia de quem era Leona
Cassiani nem recordava ter visto
alguém que pudesse ser ela na reunião
da tarde
anterior, mas quando leu o
memorando chamou-a ao seu escritório
e conversou com ela a portas fechadas
durante duas horas. Falaram um pouco de tudo, de
acordo com o método que ele usava para
conhecer as pessoas. O memorando era de
simples senso comum, e a solução
deu, com efeito, o resultado
apetecido. Mas isso não importava para tio
Leão XII: importava ela. O que mais lhe
chamou a atenção foi que seus únicos estudos depois do primário tinham sido na Escola de Chapelaria. Além disso, estava
aprendendo inglês em casa por um rápido
método sem mestre, e há
três meses tinha aulas noturnas de datilografia, um ofício moderno de grande
futuro, como antes se dizia do
telégrafo e se dissera antes das máquinas a vapor.
Quando saiu da entrevista já tio Leão XII tinha começado a chamá-la como a
chamaria sempre: xará Leona. Resolvera eliminar
de uma penada a seção conflituosa e repartir os problemas de maneira a que fossem resolvidos pelos mesmos que
os criavam, de acordo com a sugestão de Leona
Cassiani, e inventara para ela um posto sem nome e sem funções específicas, que na prática era
o de
assistente pessoal sua. Essa tarde, depois do enterro sem flores da seção geral, tio Leão XII perguntou a
Florentino Ariza de onde havia tirado
Leona Cassiani, e ele respondeu com a verdade.
— Pois volte ao bonde e me traga todas as que encontrar como esta — disse o tio.
—
Com mais duas ou
três assim botamos o seu galeão a flutuar.
Florentino Ariza entendeu isso como uma
piada típica de tio Leão XII, mas no dia seguinte se viu sem o carro que lhe haviam
designado seis meses antes, e que agora lhe tiravam para que continuasse buscando
talentos ocultos nos bondes. Leona Cassiani, por sua parte, perdeu em breve
seus escrúpulos iniciais, e tirou de dentro de
si tudo que tinha guardado com tanta astúcia nos primeiros
três anos. Em três mais abarcara o
controle de tudo, e nos quatro seguintes chegou às portas da secretaria geral, mas se negou a entrar porque estava apenas um escalão abaixo de Florentino Ariza. Até então tinha estado sob suas ordens, e queria continuar estando, embora a realidade fosse outra: o próprio Florentino Ariza não se
dava
conta de que era ele quem estava
debaixo das ordens dela. Assim era: ele não fizera mais do que cumprir o que ela sugeria
na Direção Geral para ajudá-lo a subir contra os ardis de seus inimigos ocultos.
Leona Cassiani tinha um talento diabólico para manejar segredos, e
sempre sabia estar onde devia no momento justo. Era dinâmica, silenciosa, de uma doçura sábia.
Mas quando era indispensável, com a dor na alma, soltava as rédeas a um caráter de ferro maciço. Contudo, nunca o usou para si mesma.
Seu único objetivo foi varrer a escada a qualquer preço, com sangue se não havia outro jeito, para que
Florentino Ariza subisse até onde se havia proposto sem calcular
muito bem a própria força. Ela teria feito
o mesmo de qualquer maneira, é
claro, por sua indomável vocação de poder, mas a verdade é que o fez de forma consciente
e por pura gratidão. Era tal sua determinação
que o próprio Florentino Ariza se perdeu em seus manejos,
e num momento de pouca sorte procurou fechar-lhe o
caminho pensando que ela procurava fechar o dele. Leona
Cassiani colocou-o .em seu lugar.
—
Não se engane — disse. — Eu me afasto de
tudo isso quando você quiser,
mas pense bem antes.
Florentino Ariza, que na Verdade não
tinha pensado bem, pensou então o melhor que
pôde, e lhe entregou suas armas. O certo é que em meio àquela
guerra sórdida dentro de uma empresa em crise perpétua, em meio a seus
desastres de falcoeiro sem sossego
e à ilusão cada vez mais incerta de Fermina
Daza, o
impassível Florentino Ariza não tivera um
instante de paz interior
diante do espetáculo fascinante
daquela negra brava besuntada de merda
e de amor na febre da peleja.
Tanto assim que muitas vezes lamentou em segredo
que ela não tivesse sido na realidade o que ele
acreditava que fosse na tarde em que a conheceu,
para
ter limpado o traseiro com seus
princípios e ter feito o amor
com ela ainda que pago com pepitas de ouro vivo. Pois Leona Cassiani continuava sendo igual à
daquela tarde no bonde, com as mesmas
roupas de roceira espaventosa,
seus turbantes loucos, seus brincos e
pulseiras de osso, seu maço de colares
e seus anéis de pedras falsas em todos os dedos: uma leoa de rua. O muito
pouco que os anos lhe haviam
acrescentado por fora era para seu bem. Navegava numa maturidade esplêndida, seus
encantos de mulher eram mais inquietantes, e seu ardoroso
corpo de africana se ia fazendo mais denso com a madureza.
Florentino Ariza não tinha tornado a se
insinuar em dez anos, pagando assim
a dura penitência do erro original, e
ela o ajudara em tudo, menos nisso.
Uma noite em que ficou trabalhando até muito
tarde, como fazia com freqüência depois da morte da mãe,
Florentino Ariza já saía quando viu luz no
escritório de Leona Cassiani. Abriu a
porta sem bater, e ali estava: só no escritório, absorta, séria, com uns óculos
novos que lhe davam um
semblante acadêmico. Florentino Ariza constatou com um pavor ditoso que estavam os dois sós na casa, estavam os cais desertos, a cidade adormecida, a noite eterna no mar
tenebroso, o bramido triste de um navio
que ainda levaria mais de uma hora a chegar. Florentino Ariza se apoiou no guarda-chuva com as duas mãos, tal como havia feito na ruela do Candeeiro para lhe fechar o caminho, só que agora o fazia para não
demonstrar a desarticulação dos joelhos.
— Diga-me uma coisa, leoa
de minh'alma — disse: — quando
vamos sair disto?
Ela tirou os óculos sem
surpresa, com um domínio
absoluto, e o deslumbrou com seu riso
solar. Nunca o chamara de você.
—
Ai, Florentino Ariza — disse — estou há dez anos sentada aqui esperando que
você me pergunte. Era tarde: a ocasião ia com ela no bonde de burro,
tinha estado
sempre com ela na mesma
cadeira em que estava sentada,
mas agora tinha ido para sempre. A verdade era que depois de tantas
cachorradas subterrâneas que tinha feito por
ele, depois de tanta sordidez suportada para
ele, ela se adiantava na vida e estava muito para
lá dos vinte anos de idade que
ele tinha de vantagem: tinha envelhecido para
ele. Ela o queria tanto que em vez de
enganá-lo, preferiu continuar no seu amor
por ele ainda que tivesse que fazê-lo saber disso de uma forma brutal.
—
Não — disse a ele. — Eu me
sentiria como se estivesse indo para a cama com o filho que
nunca tive.
Florentino Ariza guardou em si o espinho de que não tivesse sido sua a última
palavra. Pensava que quando uma mulher
diz que não, está esperando que insistam com ela antes de
tomar a decisão final, mas com ela era diferente: não podia brincar com o
risco de se equivocar uma segunda
vez. Retirou-se de boa vontade, e mesmo com uma
certa graça que não lhe era
fácil manter. A partir dessa noite, qualquer
sombra que pudesse haver entre eles se dissipou sem ressentimento, e
Florentino Ariza compreendeu por fim que
se pode
ser amigo de uma
mulher sem ir para a cama com ela.
Leona Cassiani foi o único ser humano a quem Florentino Ariza esteve tentado a revelar o segredo de Fermina Daza. As poucas pessoas que o conheciam começavam a esquecê-lo por motivo de força maior. Três delas o haviam levado
consigo para o túmulo sem
dúvida nenhuma: sua mãe, que desde muito antes de morrer
já o havia apagado da memória; Gala Placídia, morta de boa velhice a serviço da que
lhe foi quase uma filha; e a inesquecível Escolástica Daza, a que lhe havia levado dentro de um livro
de missa
a primeira carta de amor que
recebeu na vida, e que não podia mais estar viva depois de tantos anos. Lorenzo Daza, de
quem não se sabia então se vivia ou estava morto, podia tê-lo revelado à irmã Franca de Ia Luz procurando evitar a expulsão, mas era pouco provável que
o houvessem divulgado. Restava contar
onze telegrafistas da província longínqua de Hildebranda
Sánchez, que tinham manipulado telegramas com seus
nomes completos e endereços
exatos, e ainda Hildebranda Sánchez e sua corte
de primas indômitas.
O que Florentino Ariza ignorava era
que o doutor Juvenal Urbino devia ser incluído
na conta. Hildebranda Sánchez lhe havia
revelado o segredo em algumas de suas tantas
visitas dos primeiros anos. Mas o fez de forma tão
casual e num momento tão inoportuno que, ao contrário do que ela pensou, não entrou por um ouvido do
doutor Urbino e saiu pelo outro, pois não entrou por ouvido nenhum. Hildebranda, na verdade, tinha
mencionado Florentino Ariza como um dos
poetas escondidos que segundo ela tinham
possibilidades de ganhar os Jogos
Florais. O doutor Urbino teve de fazer um esforço para
se lembrar quem era, e
ela lhe disse sem que fosse
indispensável mas sem um pingo
de malícia que ele fora
o único noivo que Fermina Daza tinha
tido antes de se casar. Falou convencida de que
se tratara de algo tão inocente e efêmero
que era mais comovente do que
outra coisa qualquer. O doutor Urbino respondeu
sem olhá-la: "Não
sabia que esse sujeito era
poeta." E o apagou da memória no mesmo instante, entre outras coisas porque sua profissão o acostumara a um manejo ético do esquecimento.
Florentino Ariza observou que os
depositários do segredo, com exceção de sua mãe,
pertenciam ao mundo de Fermina Daza. No seu estava
só ele,
só com o peso esmagador de uma carga
que muitas vezes necessitara
compartilhar, mas ninguém até então lhe merecera tanta confiança. Leona
Cassiani era a única possível, e ele só estava esperando a maneira e a ocasião.
Nisto pensava na tarde de bochorno estivai em que o doutor Juvenal Urbino subiu
as escadas empinadas da C.F.C., fazendo uma pausa
em cada
degrau para sobreviver ao
calor das três, e apareceu arquejante
no escritório de Florentino Ariza
empapado de suor até nas calças, e disse com o último alento: "Acho que vem para cima de nós um ciclone." Florentino Ariza o vira
ali muitas vezes, em busca do tio
Leão XII, mas nunca tivera como agora a impressão tão nítida de que aquela aparição indesejável tinha
algo a ver com sua vida.
Era a época em que também o doutor
Juvenal Urbino tinha superado os escolhos da profissão, e andava quase de porta em
porta feito um mendigo de chapéu
na mão, buscando contribuições para suas promoções artísticas. Um dos seus contribuintes
mais assíduos e pródigos foi sempre
tio Leão XII, que naquele justo momento começara
a fazer sua sesta diária de dez minutos,
sentado na poltrona de molas da mesa de
trabalho. Florentino Ariza pediu ao doutor Juvenal Urbino o favor de esperar em seu escritório,
contíguo ao do tio Leão XII e que de certa forma
lhe servia de sala de espera.
Em diversas ocasiões se haviam visto, mas nunca tinham estado assim, frente a frente, e Florentino Ariza padeceu mais uma vez a náusea de se
sentir inferior. Foram dez minutos
eternos, durante os quais se levantou três vezes na
esperança de que o tio tivesse acordado antes do tempo, e tomou uma garrafa térmica inteira de café
puro. O doutor Urbino não aceitou nem uma xícara. Disse: "Café é veneno."
E continuou encadeando um tema ao outro sem sequer se preocupar em ser escutado.
Florentino Ariza não podia suportar sua distinção
natural, a fluidez e precisão de suas palavras,
seu hálito recôndito de cânfora, seu encanto pessoal, a maneira tão fácil e elegante com que conseguia que mesmo as frases mais frívolas,
só porque ele as dizia, parecessem essenciais. De repente, o médico mudou de tema de um modo abrupto.
—
Gosta
de música?
Pegou-o de surpresa. Na realidade,
Florentino Ariza assistia a quantos
concertos ou representações de ópera houvesse na cidade, mas não se sentia capaz
de manter uma conversação crítica ou bem informada.
Tinha um xodó pela música da
moda, sobretudo as valsas sentimentais,
cuja afinidade com as que ele mesmo compunha quando adolescente, ou com seus versos secretos, não era possível negar. Bastava ouvi-las uma vez de
passagem para que logo não houvesse força de Deus que lhe tirasse
da
cabeça o fio da melodia
durante noites inteiras. Mas isso não
seria uma
resposta séria para uma pergunta tão
séria de um especialista.
—
Gosto de Gardel —
disse.
O doutor Urbino compreendeu.
"Sei", disse. "Está na moda." E se embarafustou pelo relato de seus novos e numerosos projetos, que havia de
realizar como sempre sem subsídio
oficial. Acentuou que era de cortar o
coração a inferioridade dos espetáculos que era possível trazer agora diante
dos esplêndidos do século anterior. Assim era: há um ano
vendia assinaturas para trazer o
trio Cortot-CasalsThibaud ao Teatro da Comédia,
e não havia ninguém no governo que soubesse quem
eram, enquanto para aquele mesmo mês
estavam esgotados os lugares para a
companhia de peças policiais Ramón Caralt, para a Companhia de Operetas
e Zarzuelas de Manolo de Ia Presa, para os Santane-las, inefáveis
transformistas mímico- fantásticos
que trocavam de roupa em cena aberta no instante de um relâmpago
fosforescente, para Danyse d'Altaine, que se apresentava como antiga bailarina do Folies
Bergère, e até para o
abominável Ursus, um energúmeno basco que lutava corpo a corpo
com um touro de tourada. No entanto,
não era o caso de nos queixarmos,
quando os próprios europeus davam uma
vez mais o mau exemplo de uma guerra bárbara,
quando nós começávamos a viver em paz depois de nove guerras civis em meio século, as quais bem contadas podiam ser uma só: sempre a mesma. O que mais chamou a atenção de Florentino Ariza
naquele discurso cativante foi a
possibilidade de retomar os Jogos Florais, a mais conhecida
e duradoura das iniciativas que o
doutor Juvenal Urbino concebera no passado. Teve que morder a língua para não contar que ele próprio
fora participante assíduo daquele concurso anual que chegou a interessar
poetas de grande nome, não só no resto do país como em outros do Caribe.
Apenas começada a conversa, o vapor
quente do ar esfriou de repente, e uma tempestade de ventos cruzados sacudiu portas e janelas com fortes estampidos, e o escritório rangeu até
os alicerces feito um veleiro à
deriva. O doutor Juvenal Urbino não pareceu reparar. Fez alguma referência
casual aos ciclones lunáticos de junho, e de
repente, sem que viesse ao caso, falou na esposa. Não só a tinha como sua colaboradora mais entusiasta,
como era a própria alma de suas iniciativas.
Disse:
"Eu não seria ninguém sem ela." Florentino Ariza o escutou impassível, aprovando tudo com um movimento
leve da cabeça, sem se atrever
a dizer nada por medo de ser traído
pela voz. No entanto, duas ou três
frases mais lhe bastaram para compreender que o doutor Juvenal
Urbino, em meio a tantos compromissos absorventes, ainda encontrava tempo para adorar a esposa quase tanto quanto ele, e essa
verdade o aturdiu. Mas não pôde reagir como teria querido, porque o
coração lhe pregou então uma dessas putas peças que só mesmo ao
coração ocorrem: revelou-lhe que ele e
aquele homem que considerara sempre
como o inimigo pessoal eram vítimas de um mesmo destino e partilhavam o azar de uma paixão
comum: dois animais de canga jungidos ao mesmo jugo. Pela primeira vez nos vinte e sete anos intermináveis que passava
esperando, Florentino Ariza não pôde resistir à
pontada de dor de que aquele homem admirável
tivesse que morrer para que ele
fosse feliz.
O ciclone passou ao largo, mas suas lufadas destroçaram em quinze minutos
os bairros dos pântanos e causaram estragos em metade da cidade. O
doutor Juvenal Urbino, satisfeito uma vez mais com a generosidade do tio Leão XII, não esperou que amainasse
por completo e carregou por distração o guarda-chuva pessoal que Florentino
Ariza lhe emprestou para chegar ao carro. Mas ele não ligou. Ao contrário:
alegrou-se de pensar no que Fermina
Daza ia pensar quando soubesse quem era o dono do guarda-chuva. Sentia ainda a comoção da entrevista quando Leona Cassiani passou pelo seu escritório, e a ocasião lhe pareceu
única para revelar o segredo sem mais rodeios, que era como arrebentar um cacho de
furúnculos que não o deixava
viver: agora ou nunca. Começou por lhe perguntar que achava do
doutor Juvenal Urbino. Ela respondeu quase sem pensar: "É um homem que
faz muitas coisas, demasiadas talvez,
mas acho que ninguém sabe o que pensa." Depois refletiu, despedaçando a borracha do lápis com os dentes
afiados e grandes, de negra
grande, e afinal deu de ombros para liquidar um assunto que não a preocupava.
—
Vai ver que é por isso que faz
tantas coisas — dis- se: — para não ter que pensar.
Florentino Ariza tentou retê-la.
— O que me dói é que tem de morrer — disse.
— Todo mundo tem de morrer — disse ela.
— Sim — disse ele — mas este
mais que todo mundo.
Ela não entendeu nada: tornou a dar de ombros
sem falar, e foi embora. Então Florentino Ariza soube que em alguma noite
incerta do futuro, num leito feliz com Fermina Daza, ia contar-lhe que
não revelara o segredo de seu amor nem
mesmo à única pessoa que
conquistara o direito de sabê-lo.
Não: não havia de revelá-lo nunca, nem à
própria Leona Cassiani, não porque
não quisesse abrir para ela
o cofre onde o guardara tão bem ao longo de meia vida, mas
porque só então percebeu que tinha perdido a
chave.
Não era isso, contudo,
o mais perturbador daquela tarde. Ficava-lhe a saudade dos seus tempos de moço, a lembrança vivida dos Jogos Florais, cujo estrondo repercutia
cada 15 de abril no âmbito das Antilhas. Ele foi sempre um dos seus protagonistas, mas sempre, como em quase tudo, um protagonista secreto. Participara várias vezes desde o concurso inaugural, e nunca
obtivera nem a última menção. Mas não lhe importava,
pois não concorria pela ambição do prêmio
e sim porque o certame tinha para ele
uma atração adicional: Fermina
Daza foi a encarregada de abrir os envelopes lacrados e proclamar
o nome dos vencedores na primeira sessão, e desde então ficou estabelecido
que continuasse a
fazê-lo nos anos seguintes.
Escondido
na penumbra das poltronas, com uma camélia viva
pulsando na
botoeira da lapela com a força da sua ansiedade,
Florentino Ariza viu Fermina Daza abrindo os três envelopes lacrados no palco do antigo Teatro Nacional, na noite do primeiro
concurso. A si mesmo perguntou o que ia suceder no coração dela quando
descobrisse que era ele o ganhador da Orquídea de Ouro. Tinha certeza de que
ela reconheceria a letra, e que
naquele instante havia de evocar as
tardes de bordados debaixo das amendoeiras
da pracinha, o odor das gardênias murchas nas cartas, a valsa
confidencial da deusa coroada nas
madrugadas de vento. Não aconteceu. Pior ainda: a Orquídea de Ouro,
o galardão mais cobiçado da poesia
nacional, foi concedida a um imigrante chinês. O escândalo público que a decisão insólita provocou pôs em dúvida
a seriedade do certame. Mas a sentença foi
justa e a unanimidade do júri
tinha sua justificação na excelência do soneto.
Ninguém acreditou que o autor fosse o chinês premiado. Chegara em fins do século anterior
fugindo ao flagelo de febre amarela que assolou o Panamá durante a construção da estrada de ferro dos dois oceanos, junto
com muitos outros que aqui ficaram
até morrer, vivendo em chinês, proliferando
em chinês, e tão parecidos uns com os outros que não havia quem os distinguisse. De início não passavam
de dez, alguns com as mulheres e os filhos e os cachorros de comer,
mas em poucos anos inundaram quatro
vielas dos arrabaldes do porto com
novos chineses intempestivos que
entravam no país sem deixar rastro
nos registros alfandegários. Alguns dos jovens se converteram em patriarcas
veneráveis com tanta precipitação
que ninguém explicava como tinham tido tempo de envelhecer. A
intuição popular dividiu-os em duas classes: os chineses maus e os chineses bons.
Os maus eram os das estalagens lúgubres do porto, onde tanto se comia como um rei ou se
morria de repente na mesa diante de um prato de
rato com girassóis, e das quais
se suspeitava que não passavam de biombos do comércio de brancas
e do tráfico de tudo. Os bons eram os chineses
das lavanderias, herdeiros de uma ciência
sagrada, que devolviam as camisas mais limpas do
que se fossem novas, com colarinhos e punhos feito hóstias recém engomadas. Foi um desses chineses bons
que derrotou nos Jogos Florais setenta e
dois rivais bem apetrechados.
Ninguém entendeu o nome quando Fermina Daza o leu espantada. Não só por ser um nome insólito, como porque de toda maneira ninguém sabia de ciência
certa como se chamavam os chineses. Mas não havia muito que pensar, porque o chinês premiado
surgiu do fundo da platéia com esse sorriso celestial que têm os chineses quando chegam cedo em casa.
Tinha ido tão seguro da vitória que vestia para receber o prêmio a camisola de seda amarela dos ritos da primavera. Recebeu a Orquídea de Ouro de
dezoito quilates, e a beijou de ventura em meio às troças
estrondosas dos incrédulos. Não se alterou. Esperou no centro da cena, imperturbável como o apóstolo de uma Divina
Providência menos dramática do que a nossa,
e no primeiro silêncio leu o
poema premiado. Ninguém o entendeu. Mas
quando passou o novo bombardeio de vaias, Fermina Daza leu-o de novo,
impassível, com sua afônica voz insinuante, e o assombro se impôs desde
o primeiro verso. Era um soneto da mais
pura estirpe parnasiana, perfeito,
atravessado por uma brisa de
inspiração que delatava a cumplicidade de
alguma mão de mestre.
A única explicação plausível era que algum poeta dos grandes
tivesse concebido aquela troça para zombar dos Jogos Florais, e que o
chinês se prestara a ela com a determinação de guardar segredo até a morte. O Diário do Comércio, nosso jornal tradicional, tratou de remendar o prestígio cívico com um ensaio erudito e mais para
indigesto sobre a antigüidade e a influência
cultural dos chineses no
Caribe, e seu merecido direito de participar nos Jogos Florais. Quem escreveu o ensaio não duvidava de que o autor do soneto fosse na realidade quem dizia ser e o
justificava sem rodeios desde o título: Todos os chineses são poetas. Os promotores da conjura, se houve, apodreceram em seus sepulcros
com o segredo. De sua parte,
o chinês premiado morreu sem confissão numa
idade oriental, e foi enterrado com a Orquídea de Ouro dentro do ataúde, mas com a amargura de não
ter conseguido em vida a única
coisa a que aspirava, que era seu crédito
de poeta. Por motivo da
morte se evocou na imprensa o
incidente esquecido dos Jogos Florais, se
reproduziu o soneto com uma vinheta
modernista de donzelas r urgi
d as com cornucópias de ouro, e os deuses custódios da poesia se valeram
da
ocasião para pôr as
coisas em seu lugar: o soneto pareceu tão ruim à nova geração que
já ninguém pôs em dúvida que na realidade fora escrito pelo chinês morto.
Florentino Ariza associou sempre
aquele escândalo à lembrança de uma desconhecida
opulenta que se sentava ao seu lado. Reparara nela no princípio do ato, mas depois a esquecera no susto da espera. Ela lhe chamou a atenção por sua brancura de nácar, sua fragrância
de gorda feliz, seu grande peito de soprano coroado por uma magnólia artificial. Usava um vestido de veludo preto muito apertado,
tão preto quanto os olhos ansiosos e cálidos, e tinha o cabelo mais preto ainda, estirado na
nuca com uma travessa de cigana.
Usava brincos pendentes, colar do mesmo estilo
e anéis iguais em vários dedos,
todos de placas brilhantes, e um sinal pintado a lápis na face direita. Na confusão
dos aplausos finais, olhou Florentino Ariza com uma aflição
sincera.
— Acredite que
sinto muito — disse.
Florentino Ariza se impressionou, não pelas condolências que
na realidade merecia e sim pelo
assombro de que alguém conhecesse seu segredo. Ela esclareceu: "Percebi pela maneira
como tremia a flor da sua lapela
enquanto se abriam os envelopes."
Mostrou-lhe a magnólia de pelúcia que tinha na mão, e lhe abriu o coração:
— Eu por isso tirei a minha — disse.
Estava a ponto de chorar devido à derrota, mas Florentino
Ariza lhe mudou o ânimo com seu instinto de caçador noturno.
— Vamos a algum
lugar para chorar juntos — disse.
Acompanhou-a à casa dela. Já na porta, e em vista de ser quase meia-noite e não haver ninguém na rua, convenceu-a a convidá-lo para um
conhaque enquanto viam os álbuns de recortes
e fotografias de mais de dez anos de acontecimentos públicos,
que ela dizia ter. O truque já então era velho, mas dessa vez foi involuntário, porque ela é
que falara nos álbuns enquanto caminhavam depois de deixar o Teatro
Nacional. Entraram. A primeira coisa que observou Florentino Ariza ao chegar à
sala foi que a porta do único quarto estava aberta, e que a cama
era vasta e suntuosa, com
uma colcha de brocado e cabeceira
de ramagens de bronze. Esta visão o perturbou. Ela deve ter percebido,
pois se adiantou pela sala e fechou a porta do quarto. Convidou-o em seguida
a se sentar num canapé de cretone
florido onde dormia um gato, e
colocou na mesa de centro sua
coleção de álbuns.
Florentino Ariza começou a folheá-los sem
pressa, pensando mais nos passos seguintes
do que no que via, e de repente levantou o rosto e viu que os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Aconselhou-a a chorar quanto quisesse, sem pudor, pois nada aliviava
como o pranto, mas sugeriu que afrouxasse o corpinho para chorar. Apressou-se a ajudá-la, porque o corpinho se ajustava à força nas costas com uma grande
costura de cordões cruzados. Não precisou
acabar, pois o corpinho acabou de se soltar pela pura pressão interna, e a
tetaria astronômica respirou a seu bel-prazer.
Florentino Ariza, que nunca perdera
o susto da primeira vez, mesmo nas
ocasiões mais fáceis, arriscou-se
a uma carícia epidérmica no pescoço
com a ponta dos dedos, e ela se retorceu com um gemido de menina que consente sem deixar de chorar. Então ele a beijou no mesmo lugar,
como fizera com os dedos, e não pôde fazê-lo
uma segunda vez porque ela se voltou
para ele com todo o seu corpo
monumental, ávido e quente, e ambos rolaram pelo chão abraçados.
O gato acordou no sofá com um guincho, e saltou para cima deles. Eles se buscaram às tontas como novatos
apressados e se encontraram de qualquer jeito, se revirando sobre
os álbuns desfolhados, vestidos,
ensopados de suor, e mais inclinados a evitar as unhadas furiosas cio gato coque o desastre de amor que estavam cometendo. Mas a parti:
da noite seguinte, com as feridas ainda sangrando, continuaram a fazê-lo
por vários anos.
Quando percebeu que tinha começado
a amá-la, ela já estava na plenitude
dos quarenta, e ele ia fazer trinta.
Chamava-se Sara Noriega, e tivera um quarto de
hora de celebridade na juventude, ao ganhar um concurso com um livro
de versos sobre o amor dos pobres, que nunca foi publicado. Era professora de Urbanidade
e Instrução Cívica em escolas
oficiais, e vivia do seu ordenado numa casa alugada no multicolorido conjunto da Passagem dos Noivos, no antigo bairro de Getsêmani.
Tivera vários amantes de ocasião,
mas nenhum com ilusões matrimoniais, porque era difícil
que algum homem do seu
meio e do seu tempo se
casasse com uma mulher com quem tivesse dormido. Tampouco ela
tornou a alimentar essa ilusão depois que seu primeiro noivo formal, a quem
amou com a paixão quase
demente de que era capaz aos
dezoito anos, escapou ao compromisso uma semana antes da data prevista para as bodas, e a deixou perdida num
limbo de noiva enganada. Ou de solteira
usada, como se dizia então.
Contudo, aquela primeira experiência, ainda
que cruel e efêmera, não lhe deixou nenhum azedume, só a
convicção deslumbrante de que com casamento ou sem ele, sem Deus ou sem lei, não valia a pena viver se
não fosse para
ter um homem na cama. O que
mais Florentino Ariza apreciava nela era
que enquanto fazia o amor tinha que chuchar uma
chupeta para alcançar a glória plena. Chegaram a ter uma réstia de
todos os tamanhos, formas e cores encontradiços no mercado, e Sara Noriega pendurava as chupetas na
cabeceira da cama para encontrá-las às cegas nos momentos de
extrema urgência.
Embora ela fosse tão livre
quanto ele, e talvez não se opusesse a que suas relações fossem públicas, Florentino Ariza as arrumou
desde o princípio como aventura clandestina. Esgueirava-se pela porta de serviço, quase sempre tarde da
noite, e escapava na ponta do pé pouco antes de raiar o dia. Tanto ela quanto
ele sabiam que numa moradia compartilhada e populosa como
aquela, os vizinhos no fim das contas deviam estar mais inteirados do que davam
a entender. Mas ainda que fosse uma simples fórmula, Florentino Ariza era assim,
e assim seria com todas até o fim da vida. Nunca cometeu um erro, nem com ela
nem com qualquer outra, nunca
incorreu numa deslealdade. Não exagerava: só numa ocasião deixou um rastro comprometedor ou prova escrita, o
que teria podido custar-lhe a vida. Na realidade, comportou-se sempre como se fosse o
esposo eterno de Fermina Daza, um esposo
infiel mas tenaz, que lutava sem tréguas para se libertar da sua servidão,
mas sem causar o desgosto de uma traição.
Semelhante hermetismo não podia prosperar sem equívocos. A própria Trânsito
Ariza morreu convencida de que o filho concebido por amor e criado para o amor estava imune a toda forma de amor devido a sua primeira adversidade juvenil. Contudo, muitas pessoas menos benévolas
que estiveram muito próximas dele,
que conheciam seu caráter misterioso e sua predileção por indumentárias místicas e loções raras, partilhavam da suspeita
de que ele não era imune ao
amor, e sim à mulher. Florentino Ariza sabia disto e nunca fez nada para
desmenti-lo. Isso tampouco
preocupou Sara Noriega. Tal como as outras mulheres incontáveis que amou, e
mesmo as que lhe agradavam e o
achavam agradável sem amá-lo,
aceitou-o como aquilo que era na realidade: um
homem de passagem.
Acabou por aparecer em sua casa
a qualquer hora, sobretudo nas manhãs de domingo,
que eram as mais pacatas. Ela abandonava o que estivesse fazendo, fosse o que fosse, e se consagrava de corpo inteiro a fazê-lo feliz na enorme cama enfeitada que esteve sempre à disposição dele, e na qual nunca permitiu a
adoção de formalismos litúrgicos.
Florentino Ariza não compreendia como uma solteira
sem passado podia ser tão sábia em assuntos de homens, nem
como podia manejar seu doce
corpo de delfina com tanta leveza e tanta ternura, como se se movesse
por baixo d'água. Ela se defendia
dizendo que o amor, antes de mais
nada, era um talento natural. Dizia: "Ou se nasce sabendo ou não se sabe nunca." Florentino Ariza se retorcia
de ciúmes
regressivos pensando que talvez ela fosse mais passeada do que dizia ser, mas tinha que engolir as suspeitas inteiras
porque também ele lhe dizia, como
dizia a todas, que ela fora sua única amante. Entre muitas outras coisas que lhe apraziam menos, precisou resignar-se a ter na cama o gato furioso, cujas garras eram embotadas por Sara
Noriega para que não
dilacerasse os dois a unhadas
enquanto faziam amor.
Contudo, quase tanto quanto gostava
de folgar na cama até o esgotamento, ela gostava de consagrar
as fadigas do amor ao culto da poesia. Não só tinha uma memória
assombrosa para os versos sentimentais do seu tempo, cujas
novidades se vendiam em folhetos
populares de dois centavos,
como gravara com alfinetes na parede os poemas de que gostava mais, para lê-los
em voz alta a qualquer hora. Tinha feito
uma versão em endecassílabos pares dos textos de Urbanidade e Instrução Cívica, como os que
se usavam para a ortografia, mas não conseguiu
a aprovação oficial. Era tal seu arrebatamento
declamatório que às vezes continuava
recitando aos gritos enquanto fazia amor, e Florentino Ariza tinha que pôr-lhe a chupeta na boca à viva
força, como se fazia com as crianças para que parassem de chorar.
Na plenitude de
suas relações, Florentino Ariza
se perguntara qual dos dois estados
seria o amor, o da cama turbulenta ou o das tardes aprazíveis dos domingos, e Sara Noriega o tranqüilizou com o argumento singelo de
que tudo que fizessem nus era
amor. Disse: "Amor da alma da
cintura para cima e amor do corpo
da cintura para baixo." Esta definição pareceu a
Sara Noriega boa para um
poema sobre o amor dividido, que escreveram a quatro mãos, e que ela apresentou nos quintos Jogos Florais, convencida de que ninguém
participara até então com um poema
tão original. Mas tornou a perder.
Estava furibunda enquanto
Florentino Ariza a acompanhava a casa. Por alguma razão que não sabia explicar,
tinha a convicção de que a manobra
fora urdida contra ela por Fermina
Daza, para não premiar seu poema. Florentino Ariza não lhe prestou
atenção. Estava de um humor sombrio
desde a entrega dos prêmios, pois há muito tempo não via Fermina Daza e aquela
noite teve a impressão de que sofrerá
uma mudança profunda: pela primeira
vez notava-se a um simples olhar sua condição de mãe. Não era
novidade para ele, pois sabia que o filho já ia à escola. Contudo, sua idade
maternal não lhe parecera
antes tão evidente quanto naquela noite, tanto
pelo diâmetro da cintura e seu andar um
tanto incerto como pelas hesitações de voz quando leu a lista dos prêmios.
Procurando documentar suas lembranças, tornou a folhear os álbuns dos Jogos Florais
enquanto Sara Noriega preparava algo de comer. Viu cromos de revistas,
postais amarelecidos dos que se vendiam
como lembrança nos portais de loja, e
foi como uma reprise fantasmagórica da falácia
de sua
própria vida. Até então fora
sustentado pela ficção de que era o
mundo que passava, os costumes, a
moda: tudo menos ela. Mas naquela
noite viu pela primeira vez de forma consciente como a
vida de Fermina Daza estava passando,
e como passava a sua própria, enquanto ele nada fazia além de esperar.
Nunca falara dela com ninguém, porque se sabia incapaz de
pronunciar o nome sem que se
notasse a palidez dos seus lábios. Mas esta noite,
enquanto folheava os álbuns
como em outras tantas noitadas de tédio dominical, Sara Noriega teve um desses
acertos casuais que eram de gelar o sangue.
—
É uma puta — disse.
Disse de passagem, vendo uma gravura de Fermina
Daza fantasiada de pantera negra num baile de máscaras, e não teve que especificar ninguém para
que Florentino Ariza soubesse de quem falava.
Temendo alguma revelação que o fosse perturbar
pelo resto da vida, avançou uma defesa
cautelosa. Alegou que só conhecia
Fermina Daza de longe, que nunca
tinham passado dos cumprimentos formais
e não tinha notícia nenhuma de
sua intimidade, mas cava como
certo que era uma mulher admirável,
surgida do nada e enaltecida por seus próprios méritos.
— Por obra e graça de
um casamento, de interesse
com um homem que não ama
— interrompeu Sara Noriega. — É a maneira mais baixa de ser puta.
Com menos crueza mas igual rigidez morai, a mãe tinha dito o mesmo a Florentino Ariza procurando
consolá-lo de suas desventuras.
Perturbado até o tutano dos ossos, não
achou uma resposta oportuna para a inclemência
de Sara Noriega, e tratou de se esquivar ao tema. Mas Sara Noriega não deixou, até que acabasse de desabafar contra Fermina Daza. Por um golpe de
intuição que não teria podido explicar,
estava convencida de que ela fora autora da conspiração para lhe escamotear o prêmio. Não havia nenhuma razão para isso:
não se conheciam, não se tinham visto nunca, e Fermina Daza não
tinha nada a ver com as decisões do concurso,
embora estivesse ao corrente dos seus segredos. Sara Noriega disse de um modo terminante: "Nós mulheres somos adivinhas." E pôs fim à discussão.
A partir desse momento, Florentino Ariza a viu com outros olhos. Também para ela passavam os
anos. Sua natureza feraz murchava sem glória,
seu amor perdurava em soluços,
e suas pálpebras começavam a
mostrar a sombra das velhas
tristezas. Era uma flor de ontem. Além disso, na fúria da derrota
perdera a conta dos conhaques. Não estava
em uma
boa noite: enquanto comiam o
arroz de coco requentado, procurou estabelecer qual tinha sido a contribuição de cada
um no poema derrotado, para saber quantas pétalas da Orquídea
de
Ouro teriam correspondido a cada qual.
Não era a primeira vez que se entretinham em torneios bizantinos, mas ele
aproveitou a ocasião para se vingar do
golpe recente e se enredaram numa discussão mesquinha que revolveu em ambos
os rancores de quase cinco anos de amor dividido.
Quando faltavam dez minutos para
as doze, Sara Noriega trepou numa cadeira para dar corda no
relógio de pêndulo, e o colocou de memória
na hora certa, talvez querendo dizer sem
dizê-lo que era hora de ir
embora. Florentino Ariza sentiu então
a urgência de cortar pela raiz aquela
relação sem amor, e buscou a ocasião de tomar ele
a iniciativa: como faria sempre. Rogando a Deus que Sara Noriega
o convidasse a ficar na cama dela de modo que ele pudesse dizer que não, que estava tudo acabado
entre eles, pediu-lhe que se sentasse ao seu lado quando acabou de dar corda
no relógio. Mas ela preferiu
manter-se à distância na poltrona das visitas.
Florentino Ariza lhe estendeu então o
dedo empapado de conhaque para que ela o
chupasse, como gostava de fazer nos
preâmbulos do amor
de outra
época. Ela o
afastou.
— Agora não — disse. — Estou esperando alguém.
Desde que foi repudiado por Fermina Daza, Florentino Ariza aprendera a
ficar sempre com a última palavra. Em
circunstâncias menos penosas teria
persistido nos assédios a Sara Noriega, certo de terminar a noite rolando com ela na
cama, pois estava convencido de que uma
mulher que vai para a cama
com um homem uma vez continuará indo
para a cama com ele cada
vez que ele queira, desde que
saiba enternecê-la a cada vez. Tinha
suportado tudo em nome dessa
convicção, tinha passado por cima de tudo
mesmo nos negócios mais sujos do
amor, com o fim de não conceder a nenhuma mulher nascida de mulher
a oportunidade da última palavra. Mas aquela noite se sentiu tão humilhado que tomou o conhaque de um trago, fazendo
todo o possível para que
transparecesse seu rancor, e foi embora sem se despedir. Não tornaram a se ver.
A relação com Sara Noriega foi uma das mais longas e estáveis de Florentino Ariza, embora não fosse a única que manteve naqueles cinco anos. Quando compreendeu que se sentia bem com ela, sobretudo na cama,
mas que jamais conseguiria substituir Fermina
Daza por ela, recrudesceram suas noites de caçador solitário, e dava um
jeito de repartir seu
tempo e suas forças para que bem rendessem. Contudo, Sara Noriega
operou o milagre de aliviá-lo durante
algum tempo. Ao menos pôde
viver sem ver Fermina Daza, ao
contrário do que acontecia antes,
quando interrompia a qualquer hora o que estivesse
fazendo para buscá-la pelos rumos incertos dos seus presságios, nas ruas menos
imagináveis, em lugares irreais
onde era impossível que estivesse, vagando
sem sentido com umas ânsias no peito que não lhe davam
trégua até que a visse por um instante que fosse. O rompimento com Sara Noriega,
pelo contrário, alvoroçou de novo suas saudades adormecidas, e se sentiu outra vez como nas tardes da pracinha e das leituras intermináveis, agora agravadas pela urgência da noção
de que o doutor Juvenal Urbino tinha
que morrer.
Sabia havia algum tempo que estava
predestinado a fazer feliz uma
viúva, e a ser feito feliz por
ela, e isso não o preocupava. Pelo
contrário: estava preparado. De
tanto conhecê-las em suas incursões de caçador solitário, Florentino Ariza
acabaria por saber que o mundo estava cheio de
viúvas felizes. Ele as vira enlouquecer de dor diante do cadáver
do marido, suplicando que as
enterrassem vivas dentro do mesmo caixão para não enfrentar sem ele os
azares do futuro, mas à medida que se reconciliavam
com a realidade do seu novo estado ele as vira surgir das cinzas
com uma vitalidade reverdecida.
Começavam vivendo feito parasitas de sombra nos casarões desertos, viravam
confidentes das criadas, amantes dos
próprios travesseiros, sem nada que fazer depois de tantos anos de cativeiro
estéril. Desperdiçavam as horas de sobra cosendo na roupa do morto os botões que nunca tinham tido
tempo de pregar, passavam e tornavam
a passar a ferro suas camisas de
punhos e colarinhos
de goma para que estivessem sempre
perfeitos. Continuavam botando seu sabonete
no banheiro, a colcha com suas iniciais
na cama, o prato e os talheres em seu lugar
na mesa, caso voltassem da morte sem
avisar, como costumavam fazer em vida.
Mas naquelas missas de solidão
iam tomando consciência de que eram outra vez donas de seu arbítrio, depois de terem
renunciado não só ao seu nome de família
como à própria identidade, e
tudo isso em troca de uma segurança
que não foi mais do que mais uma de suas tantas ilusões de
noivas. Só elas sabiam como pesava o homem
que amavam com loucura, e que
talvez as amasse, mas que tinham tido
que continuar a criar até o último suspiro,
dando-lhe de mamar, mudando-lhe as
fraldas borradas, distraindo-o com historinhas de mãe para lhe aliviar o terror de sair de
manhã e dar de cara com a realidade. E no entanto,
quando o viam sair de casa instigado
por elas próprias a enfrentar o
mundo, então eram elas que ficavam com o terror de que o homem não
voltasse nunca. Isso era a vida. O
amor, caso houvesse, era uma coisa à parte: outra vida.
No ócio reparador da solidão, em compensação,
as viúvas descobriam que a forma honrada de viver era à mercê do corpo,
só comendo por fome, amando sem mentir,
dormindo sem ter que fingir que
dormiam para escapar à indecência do amor
oficial, donas por fim do direito a uma cama inteira só para elas,
na qual ninguém lhes disputasse a metade do lençol,
a metade do ar de respirar,
a metade da noite, até que o
corpo se fartava de sonhar seus
sonhos próprios, e despertava só. No seu madrugar de caçador furtivo, Florentino
Ariza as encontrava à saída da missa das
cinco, amortalhadas de preto e
com o corvo do destino no ombro.
Logo que o vislumbravam na claridade da alba atravessavam a rua e mudavam de calçada com passos miúdos e entrecortados, passos de passarinho, pois o mero passar perto de um
homem podia enodoar-lhes a honra. Contudo, era sua convicção que uma viúva
desconsolada, mais do que qualquer
outra mulher, podia carregar em si a semente
da felicidade.
As muitas viúvas de sua vida, a partir da viúva de Nazaret,
tinham tornado possível que ele vislumbrasse como eram as casadas felizes depois da morte dos maridos. O que até então tinha sido para ele
mera ilusão se converteu graças
a elas numa possibilidade que se podia colher
com a mão. Não encontrava
razões para que Fermina Daza não fosse uma viúva igual, preparada pela vida a aceitá-lo tal como
era, sem fantasias de culpa pelo marido morto, resolvida a
descobrir com ele a outra felicidade de ser
feliz duas vezes, com um amor de
uso cotidiano que convertesse cada instante num milagre de viver, e
com outro amor, dela só, preservado de todo contágio pela imunidade da morte.
Não teria sido talvez tão entusiástico se tivesse sequer suspeitado
como Fermina Daza estava longe daqueles cálculos ilusórios, quando mal começava a vislumbrar o horizonte de um mundo
em que tudo estava previsto, menos a adversidade. Ser rico naquele tempo
tinha muitas vantagens, e também muitas desvantagens,
é claro, mas meio mundo
aspirava à riqueza
como a maior
possibilidade de ser eterno.
Fermina Daza tinha
repelido Florentino Ariza num rasgo de maturidade que pagou de pronto com uma crise de pena, mas
jamais duvidou de que sua decisão tinha sido certa. No momento
não pôde explicar a si mesma que
causas ocultas da razão lhe haviam dado aquela clarividência, mas muitos
anos mais tarde, já nas vésperas da velhice,
descobriu-as de repente e sem saber como numa conversação casual sobre Florentino Ariza. Todos os
interlocutores conheciam sua condição de delfim da
Companhia Fluvial do Caribe em sua época
culminante, todos estavam certos de havê-lo visto muitas vezes, inclusive de haverem
tratado com ele, mas nenhum conseguia
identificá-lo na memória. Foi então que Fermina Daza teve a intuição dos
motivos inconscientes que tinham impedido que o amasse. Disse: "É como se não
fosse uma pessoa e sim uma sombra."
Era isso: a sombra de alguém que ninguém jamais conhecera. Mas enquanto resistia aos assédios do doutor Juvenal
Urbino, que era o homem contrário,
se sentia atormentada pelo fantasma da culpa: o único sentimento que era incapaz de suportar.
Quando o sentia vir se apoderava dela uma espécie de pânico
que só conseguia controlar quando
encontrava alguém para lhe aliviar a consciência. Desde muito menina, quando se quebrava um prato na cozinha, quando alguém caía, quando ela própria
espremia o dedo na porta,
voltava- se assustada para o adulto que estivesse mais perto, e se apressava em acusá-lo: "Foi sua culpa." Embora na realidade não lhe importasse quem fosse o culpado, nem quisesse se
convencer da própria inocência: bastava deixá-la estabelecida.
Era um fantasma tão notório que o doutor Urbino percebeu em tempo até que ponto ameaçava a harmonia de sua casa,
e logo que o vislumbrava se apressava em dizer à mulher:
"Não se preocupe, meu amor, a culpa foi minha."
Pois não havia nada que temesse mais do que as decisões súbitas e definitivas da mulher, e estava
convencido de que sempre tinham
origem num sentimento de culpa.
Contudo, a confusão proveniente do repúdio a Florentino Ariza não se resolvia com alguma frase de consolo. Fermina Daza continuou abrindo o
balcão de manhã durante
vários meses, e sempre notava a
falta do fantasma solitário que a vigiava da pracinha deserta,
via a árvore que foi sua, o banco menos visível em que se sentava para
ler pensando nela, sofrendo
por ela, e tinha que fechar a janela,
suspirando: "Pobre homem." Sofreu
inclusive a decepção de ver que ele não era tão pertinaz quanto supusera, quando já era tarde demais para remendar o passado,
e não deixou de sentir de
vez em quando a ansiedade
tardia de uma carta que não chegou nunca. Mas quando teve que enfrentar a
decisão de se casar com Juvenal Urbino sucumbiu
a uma crise maior, ao perceber
que não tinha razões válidas para preferi-
lo depois de ter repudiado Florentino Ariza sem
razões válidas. Na realidade,
amava-o tão pouco quanto ao outro, e além disso o conhecia muito menos, e suas cartas não tinham a febre das cartas do outro, nem
lhe dera tantas provas
comovedoras de sua determinação. A verdade é que as pretensões de Juvenal Urbino nunca tinham sido formuladas em termos de
amor, e era pelo menos curioso que um militante católico como ele
só lhe oferecesse bens terrenos: a segurança, a ordem, a felicidade,
cifras imediatas que uma vez
somadas poderiam
talvez se assemelhar
ao amor: quase amor. Mas não eram, e estas dúvidas aumentavam sua confusão,
porque também estava convencida de que
o amor era na realidade aquilo que mais falta lhe
fazia para viver.
Em todo caso, o fator principal
contra o doutor Juvenal Urbino era sua semelhança mais que suspeita com o homem ideal
que Lorenzo Daza desejara com tanta ansiedade para
a filha. Era impossível não
vê-lo como a criatura de uma conspiração paterna, ainda que na verdade não fosse, e Fermina Daza estava convencida de que era logo que o viu entrar em sua casa pela segunda
vez para uma visita médica não solicitada. As conversações com a prima Hildebranda acabaram de confundi-la. Por sua própria situação de vítima, esta tendia a se identificar
com Florentino Ariza, esquecendo inclusive de que talvez Lorenzo Daza a tivesse feito vir para
que influísse a favor do doutor. Deus sabia do esforço feito
por Fermina Daza para não
acompanhá-la quando a prima foi conhecer
Florentino Ariza na agência do telégrafo.
Ela também teria gostado de vê-lo
outra vez para confrontá-lo com suas dúvidas, falar com ele a sós,
conhecê-lo a fundo para estar
segura de que sua decisão impulsiva não ia precipitá-la em outra mais grave, que era capitular na guerra pessoal contra o
pai. Mas foi o que fez no minuto
crucial da sua vida, sem
levar em conta para nada a beleza viril do pretendente,
nem sua
riqueza lendária, nem sua glória precoce, nem nenhum dos seus méritos reais, e sim aturdida pelo medo da oportunidade
que lhe escapava e da iminência dos vinte e um
anos, que era seu limite
confidencial para se render ao destino. Bastou-lhe esse minuto
único para assumir a decisão como estava previsto nas leis de Deus e dos homens: até a morte. Então se dissiparam
todas as dúvidas, e pôde fazer sem
remorsos o que a razão lhe indicou
como o mais decente: passou uma esponja
sem lágrimas por cima da lembrança de Florentino Ariza, apagou-o por completo, e no espaço que ele ocupava em sua memória deixou que florescesse uma campina de papoulas. A única coisa que permitiu a si mesma foi um suspiro mais fundo que de costume,
o último: "Pobre homem!"
As dúvidas mais temíveis,
contudo, começaram logo que voltou da
viagem de núpcias. Mal haviam acabado de abrir os baús, de desencaixotar os móveis e esvaziar as onze caixas que
trouxera para tomar posse como ama
e senhora do antigo
palácio do Marquês de Casalduero, e já percebera numa vertigem mortal que estava aprisionada
na casa errada, e o que era ainda pior, com
o homem que não era. Precisou de seis anos para sair. Os piores da sua vida,
desesperada com o azedume de dona
Blanca, sua sogra, e o atraso mental das cunhadas, que se não tinham ido apodrecer
vivas numa cela de claustro é porque já a carregavam
dentro de si.
O doutor Urbino, resignado a pagar os tributos da estirpe, se fez surdo às suas súplicas, confiando em que
a sabedoria de Deus e a infinita
capacidade de adaptação da esposa haviam de pôr
as coisas no seu devido lugar.
Doía-lhe o declínio da mãe, cuja
alegria de viver infundia outrora o desejo de estar vivos até nos
mais incrédulos. Era
certo: aquela mulher formosa, inteligente,
de uma sensibilidade
humana
nada comum em seu meio, tinha
sido durante quase quarenta anos a alma
e o corpo do seu paraíso social. A viuvez a perturbara a ponto de não
se acreditar que fosse a
mesma, e a tornara balofa e ácida, e
inimiga do mundo. A única explicação
possível de sua degradação era seu rancor por achar que o marido se sacrificara em sã consciência por uma montoeira
de negros, como dizia ela,
quando o único sacrifício justo teria sido o de sobreviver para ela. Em todo caso, o casamento feliz de
Fermina Daza tinha tido a duração da viagem
de núpcias, e a única pessoa que
podia ajudá-la a impedir o naufrágio final vivia paralisada
de terror perante a potestade da mãe. Era a ele, e não às cunhadas imbecis e à sogra meio doida, que
Fermina Daza atribuía a culpa pela armadilha de
morte em que fora apanhada. Tarde demais,
desconfiava de que, por trás da sua autoridade
profissional e seu fascínio mundano,
o homem com quem se casara era um fraco
sem redenção: um pobre-diabo avalentoado
pelo peso social de um sobrenome.
Refugiou-se no filho recém-nascido.
Ela o sentira sair do seu corpo com o alívio de se livrar
de algo que não era seu, e tinha sofrido com o próprio espanto ao comprovar que não sentia o menor
afeto pôr aquele bezerro nonato
que a parteira lhe mostrou em carne viva, sujo de sebo e de sangue, e com a tripa umbilical enrolada
no pescoço. Mas na solidão do palácio aprendeu a conhecê-lo, se conheceram, e descobriu com uma grande
emoção que os filhos não são
queridos por serem filhos e sim pela amizade que surge quando os
criamos. Acabou por não suportar nada nem
ninguém que não fosse ele na casa da sua desventura. A
solidão a deprimia, o jardim de cemitério, a desídia do tempo nos enormes aposentos sem janelas.
Sentia-se enlouquecer nas noites dilatadas pelos gritos das loucas
no manicômio vizinho. Tinha vergonha do costume de
pôr a mesa de banquetes todos os dias, com toalhas bordadas, serviços de prata e candelabros de funeral,
para que cinco fantasmas
jantassem uma xícara de café com leite e bolinhos de queijo. Detestava o terço ao entardecer, as
posturas afetadas à mesa, as críticas
constantes à sua maneira de pegar o
talher, de andar com essas passadas misteriosas de mulher da
rua, de se vestir como no circo, e até seu jeito matuto
de tratar o marido e de dar
de mamar ao filho sem tapar o seio com a mantilha. Quando fez os primeiros convites para o chá das cinco da tarde,
com biscoitinhos imperiais e geléias de flores,
de acordo com uma moda
recente na Inglaterra, dona Blanca se opôs
a que em sua casa fossem bebidos
remédios para suar a febre em lugar do chocolate com queijo frito e roscas de pão de iúca.
Não lhe escaparam nem os sonhos.
Certa manhã em que Fermina Daza
contou que sonhara com um desconhecido
que passeava nu semeando punhados de cinza pelos salões do palácio,
dona Blanca a interrompeu com secura:
— Uma mulher direita
não pode ter essa classe de sonhos.
À sensação de estar sempre em casa
alheia, acrescentaram-se duas desgraças maiores. Uma era a dieta quase diária de berinjelas em todas as suas formas, que
dona Blanca se negava a variar em respeito ao marido morto, e que Fermina
Daza recusava comer. Detestava
berinjelas desde menina,
mesmo
antes de tê-las
provado, por achar
que tinham cor de veneno. Só que essa vez teve de admitir
que de
todas as maneiras algo havia mudado para
melhor em sua vida, já que aos
cinco anos tinha dito o mesmo à mesa, e o pai
a obrigou a comer inteiro o
ensopado previsto para seis pessoas. Pensou que ia morrer, primeiro
devido vômitos da berinjela moída, e em seguida devido à caneca de óleo de rícino que a fizeram tomar à força para curá-la do castigo. As duas
coisas ficaram misturadas em sua memória
como um só purgante, tanto pelo gosto como pelo
terror do veneno, e nos almoços abomináveis do palácio do Marquês de Casalduero
tinha que afastar a vista para não
enjoar em plena mesa com a náusea glacial do óleo de rícino.
A outra desgraça foi a harpa. Um dia, muito consciente do que queria dizer, dona Blanca tinha dito: "Não creio em mulheres direitas que
não saibam tocar piano." Foi uma ordem
que até o filho tratou de discutir, pois os melhores anos de sua infância tinham
transcorrido nas galeras das aulas de piano, embora já adulto se sentisse
até grato por elas. Não podia imaginar a mulher submetida à mesma sentença, aos vinte e cinco anos e com um caráter como o seu. Mas a única concessão que obteve da mãe foi que trocasse
o piano pela harpa, com o argumento pueril de
que era o instrumento dos
anjos. Por isso trouxeram de Vieña a harpa magnífica, que parecia de ouro e soava como se fosse, e
que foi uma das relíquias mais
apreciadas do Museu da Cidade, até que o consumiram as chamas
com tudo que tinha dentro. Fermina Daza se submeteu a essa sentença de luxo tratando
de impedir o naufrágio com um sacrifício final. Começou com um mestre de
mestres que trouxeram para isso
da cidade de Mompox, e
que morreu de repente aos quinze dias, e
continuou por vários anos com o músico principal do seminário, cujo
hálito de coveiro deformava os arpejos.
Ela própria se surpreendeu
com sua obediência. Pois embora não o
admitisse em seu foro íntimo, nem nos
pleitos surdos que tinha com o marido nas
horas que antes consagravam ao
amor, enrolara-se mais depressa do que acreditava no emaranhado de convenções e preconceitos do seu novo
mundo. No início tinha uma frase ritual para afirmar sua liberdade
de critério: "À merda o leque que o tempo é de brisa."
Mas depois, zelosa dos seus privilégios bem conquistados, temerosa da
vergonha e do escárnio, se dispunha a suportar até a humilhação, na esperança de que Deus
se apiedasse por fim de dona
Blanca, não se cansando de suplicar em suas orações que lhe mandasse
a morte.
O doutor Urbino justificava sua própria
fraqueza com argumentos de crise,
sem sequer perguntar a si mesmo se não contrariavam sua igreja. Não admitia
que os conflitos com a esposa tivessem origem no ar rarefeito da casa, atribuindo-os à natureza mesma do casamento:
uma invenção absurda que só podia existir pela graça infinita de
Deus. Ia contra toda razão
científica que duas pessoas apenas conhecidas, sem parentesco nenhum entre
si, com caracteres diferentes, com
culturas diferentes, e até com sexos diferentes,
se
vissem comprometidas de repente
a viver juntas, a dormir na mesma cama, a compartilhar dois destinos que
talvez estivessem determinados em sentidos divergentes.
Dizia: "O problema do
casamento é que se acaba todas as noites depois de se fazer o amor, e é preciso tornar a reconstruí-lo todas as
manhãs antes do café." Pior
ainda o deles, dizia, surgido de duas
classes antagônicas, e numa cidade
que ainda continuava sonhando com o regresso dos vice-reis. A única
argamassa possível era algo tão improvável e volúvel
como o amor, se é que havia, e no caso deles não havia quando se casaram, e o destino não fizera mais do que pô-los à frente da realidade quando estavam a ponto de inventá-lo.
Esse era o estado de
suas vidas na época da harpa. Tinham ficado para trás os acasos deliciosos dela
entrando enquanto ele tomava banho, e
apesar das
discussões, das berinjelas venenosas, e apesar das irmãs
dementes e da mãe que as pariu, ele tinha ainda bastante amor para pedir a ela que o ensaboasse. Ela começava a fazê-lo com as migalhas de amor que ainda sobravam da Europa, e os dois iam se deixando trair pelas lembranças, abrandando sem querer, se querendo sem dizer, e acabavam morrendo de amor
no chão, besuntados de espumas fragrantes, enquanto ouviam as criadas falando deles na lavanderia: "Se não têm mais filhos é porque não trepam." De vez em quando, ao voltarem de uma festa louca, a saudade agachada atrás da porta os derrubava de uma patada, e
então ocorria uma explosão
maravilhosa na qual tudo era outra vez como antes, e durante cinco minutos tornavam a ser os amantes desbragados da lua-de-mel.
Mas à parte essas ocasiões
raras, um dos dois estava sempre mais
cansado que o outro à hora de dormir.
Ela se atrasava no banheiro enrolando seus cigarros de papel perfumado,
fumando sozinha, reincidindo em seus amores de consolação como quando
era jovem e livre em sua casa, dona única do seu corpo. Estava
sempre com dor de cabeça, ou
fazia calor demais, sempre, ou fingia que estava dormindo, ou tinha a regra de novo, a regra, sempre a regra. De tal forma que o doutor Urbino se atrevera a dizer em classe, pelo exclusivo alívio
de um
desafogo sem confissão, que depois de dez anos de casadas as mulheres tinham
a regra até três vezes por semana.
Desgraças chamando desgraças,
Fermina Daza teve que afrontar no pior
dos seus anos o que aconteceria
mais cedo ou mais tarde sem remédio: a verdade sobre os negócios fabulosos
e nunca conhecidos do pai. O governador provincial que
convocou Juvenal Urbino a seu gabinete
para pô-lo ao corrente dos desmandos
do
sogro resumiu-os numa frase: "Não há lei divina nem humana que esse sujeito não
tenha levado de roldão." Algumas de suas trapaças
mais graves ele as fizera à
sombra do poder do genro, e teria sido difícil pensar que este e sua
esposa não estivessem ao
corrente. Sabendo que a única
reputação a proteger era a sua, por ser a
única que ficava de pé, o doutor
Juvenal Urbino interpôs todo o peso de seu poder, e conseguiu cobrir o escândalo com sua
palavra de honra. E Lorenzo
Daza saiu do país no primeiro navio para não
voltar nunca mais. Voltou à sua terra de origem como se fosse uma dessas
pequenas viagens feitas de vez em
quando para enganar a
saudade, e no fundo dessa aparência havia algo de verdade: havia já algum tempo subia aos navios
de
sua pátria
apenas para tomar um copo
d'água dos tanques
abastecidos nos
mananciais de seu povoado natal Partiu sem dar o braço a torcer, protestando
inocência, e ainda tentando convencer o genro de
que fora vítima de uma conspiração
política. Partiu chorando pela menina, como chamava Fermina Daza desde que se casara, chorando pelo neto, pela terra em que se fizera
rico e
livre, e onde conseguira a façanha de
converter a filha numa dama requintada
à base de negócios turvos.
Partiu envelhecido e doente, mas ainda viveu
muito mais do que
qualquer de suas vítimas teria
desejado. Fermina Daza não pôde reprimir um suspiro
de alívio quando recebeu a notícia da morte, e não pôs luto para evitar
perguntas, mas durante vários meses chorava
com uma raiva surda sem saber por que quando se trancava para fumar no
banheiro, e é que chorava por ele.
O mais absurdo da situação é que nunca pareceram tão felizes em
público como naqueles anos de infortúnio.
Pois na realidade foram os anos de suas vitórias maiores sobre a hostilidade
soterrada de um meio que não se resignava
a admiti-los como eram: diferentes e inovadores, e portanto transgressores da ordem tradicional. Contudo, essa tinha sido a parte fácil
para Fermina Daza. A vida mundana,
que tantas incertezas lhe trazia
antes de conhecê-la, não passava de um
sistema de pactos atávicos, de cerimônias banais, de palavras previstas, com o qual se entretinham uns aos outros na sociedade para
não se assassinarem. O signo
dominante desse paraíso da frivolidade
provinciana era o medo do desconhecido. Ela o definira de um modo mais simples: "O problema da vida pública é aprender a dominar o
terror, o problema da vida conjugai é
aprender a dominar o tédio." Tinha feito
a descoberta de repente com a
nitidez de uma revelação no instante em que
entrou arrastando a interminável cauda de noiva
no vasto salão do Clube Social,
rarefeito pelos vapores misturados de tantas flores, o brilho das valsas, o tumulto de homens
suarentos e mulheres trêmulas que a olhavam sem saber ainda como iam conjurar aquela ameaça deslumbrante que lhes mandava o mundo exterior. Acabava de
fazer vinte e um anos e mal tinha saído de casa para
ir ao colégio, mas lhe bastou um olhar circular para compreender
que seus adversários não estavam
dominados pelo ódio e sim paralisados
pelo medo. Em vez de assustá-los,
como estava ela assustada, fez a caridade
de os ajudar a conhecê-la.
Ninguém foi diferente daquilo que ela queria que fosse, como lhe ocorria
com as cidades, que não lhe pareciam melhores nem
piores, e sim como as construía
em seu
coração. De Paris, apesar da chuva perpétua, dos lojistas sórdidos e da grosseria
homérica dos cocheiros, ela havia de se lembrar
sempre como a cidade mais formosa do
mundo, não porque na realidade fosse ou
deixasse de ser, e sim porque ficara vinculada à saudade de seus anos
mais felizes. O doutor Urbino, de sua parte,
se impôs com armas iguais às que
usavam contra ele, só que manejadas com mais inteligência, e
com uma solenidade calculada. Nada acontecia sem eles: os passeios cívicos, os
Jogos Florais, as manifestações artísticas,
as tômbolas de caridade, os atos patrióticos, a primeira viagem em balão. Ninguém poderia imaginar, em seus anos de desgraças,
que pudesse haver alguém mais feliz do que eles
nem um casamento tão harmônico quanto o seu.
A casa abandonada pelo pai deu a Fermina Daza um refúgio
próprio contra a asfixia do palácio familiar. Logo que escapava à
vista pública, ia às escondidas à praça dos Evangelhos, e lá recebia as
amigas novas e algumas antigas do colégio
ou das aulas de pintura: um substituto inocente da infidelidade. Vivia horas aprazíveis de mãe solteira com o muito que ainda lhe restava das lembranças
de menina. Tornou a comprar os corvos
perfumados, recolheu gatos da rua e os colocou aos cuidados de Gala Placídia,
já velha e um tanto entrevada pelo reumatismo,
mas ainda com ânimo para ressuscitar a casa. Tornou a abrir o quarto de costura onde Florentino Ariza a viu pela
primeira vez, onde o doutor Juvenal Urbino a fez mostrar a língua para lhe
conhecer o coração e o converteu num santuário
do passado. Uma tarde de inverno foi
fechar a sacada antes que
desabasse a tempestade, e viu Florentino Ariza em seu banco debaixo das amendoeiras da pracinha, com o
traje do pai diminuído para ele e o livro aberto no colo, mas não o viu
como então o via por acaso de vez em quando, e sim na idade com que lhe ficou na memória. Sentiu o temor de que
aquela visão fosse um aviso da
morte, e teve pena. Atreveu-se a dizer a si mesma que talvez tivesse sido feliz com ele, só com ele
naquela casa que ela reformara
para ele com tanto amor quanto ele havia reformado a sua
para ela, e a mera suposição
a assustou, porque a fez perceber os extremos de desdita a que havia chegado. Então
apelou para suas últimas forças e obrigou o marido a discutir sem evasivas, a lhe fazer frente, a
brigar com ela, a chorarem juntos de raiva pela perda do paraíso, até
que ouvissem cantar os últimos gaios, e a luz se fez pelos beirais do palácio, e se acendeu
o sol, e o
marido inflamado de tanto falar, esgotado de não dormir, com o coração
fortalecido de tanto chorar, apertou os cordões das botas, apertou o cinto, apertou tudo
o que
ainda lhe restava de homem,
e lhe disse que sim, meu amor, que iam buscar o amor que
havia fugido deles na Europa: amanhã mesmo e
para sempre. Foi uma decisão tão correta que acertou com o
Banco do Tesouro, seu administrador universal, a liquidação
imediata da vasta fortuna familiar, dispersa desde as origens em toda classe de negócios, investimentos e
papéis sagrados e lentos, e da qual ele
só sabia como ciência certa que
não era tão desmedida como dizia a lenda: apenas o justo para não ter que
pensar nela. O que fosse, convertido em ouro registrado, devia ser transferido pouco a pouco para seus
bancos no exterior, até que não restasse mais a ele e sua mulher nesta pátria inclemente nem um palmo de terra onde cair mortos.
Pois Florentino Ariza existia, na
realidade, ao contrário do que ela se propusera
crer. Estava no cais do transatlântico
da França quando ela chegou com o marido e o filho no
landô dos cavalos de ouro, e os viu
descer como tantas vezes vira nos atos
públicos: perfeitos. Iam com o filho, educado
de uma
forma que já permitia saber
como seria adulto: tal como foi. Juvenal
Urbino saudou Florentino Ariza com um chapéu
alegre: "Vamos à conquista de Flandres."
Fermina Daza fez uma inclinação de cabeça,
e Florentino Ariza se descobriu, com uma reverência ligeira, e ela reparou nele
sem um gesto de compaixão pelos estragos prematuros de sua calvície.
Era ele, tal como ela o via: a sombra de alguém que jamais conheceu.
Florentino Ariza também não estava em seu
melhor momento. Ao trabalho cada dia
mais intenso, a seus caprichos de caçador furtivo, à mole calma dos anos, acrescentara-se a
crise final de Trânsito Ariza, cuja memória acabara
sem lembranças: quase em branco. Até o ponto em que às vezes
se voltava para ele, o via lendo na cadeira de braços de sempre, e lhe perguntava espantada: "E você é filho de quem?"
Ele respondia sempre a verdade, mas ela
tornava a interromper.
— E me diga uma coisa, filho
— perguntava: — quem sou eu?
Tinha engordado tanto que não podia
se mexer, e passava o dia no armarinho onde já não havia nada a
vender, enfeitando-se desde que se levantava
com os primeiros gaios até a madrugada do dia seguinte,
pois dormia muito poucas
horas. Punha grinaldas de flores
na cabeça, pintava os lábios, empoava o rosto e os braços, e no fim perguntava
a quem estivesse com ela como
tinha ficado. Os vizinhos sabiam que esperava
sempre a mesma resposta: "Você é
a Cucarachita Martínez." Esta identidade, usurpada à personagem de uma história
infantil, era a única que a deixava satisfeita. Balançava-se na cadeira,
abanava-se com o ramalhete de grandes
plumas cor-de-rosa, até começar tudo de novo:
a coroa de flores de papel, o
almíscar nas pálpebras, o carmim nos lábios, a crosta de alvaiade na cara. E outra vez a pergunta a quem estivesse
perto: "Como fiquei?" Quando
se converteu na rainha de troças da
vizinhança, Florentino Ariza fez desmontar
numa noite o balcão e as cômodas do antigo armarinho, condenou a porta da rua, arrumou o local de acordo
com a descrição que ela fazia do quarto de
Cucarachita Martínez, e ela nunca
mais tornou a perguntar quem era.
Por sugestão do tio Leão XII
empregara uma mulher mais velha para
se ocupar dela, mas a coitada
andava sempre mais para dormindo que
para acordada, e às vezes dava a impressão de que também ela esquecia quem era. De modo que Florentino
Ariza ficava em casa desde que saía do escritório até que conseguia botar a mãe para dormir. Não foi mais jogar
dominó no Clube do Comércio, nem tornou a ver durante muito tempo as poucas amigas antigas que
continuava freqüentando, pois algo muito profundo
mudara em seu coração depois do seu encontro de horror com Olímpia Zuleta.
Tinha sido fulminante. Florentino Ariza acabava de levar o tio Leão XII até sua
casa, durante uma daquelas
tempestades de outubro que nos deixavam em convalescença,
quando viu do carro uma moça miúda, muito ágil, com um traje
cheio de babados de organdi que
mais parecia um vestido de noiva. Viu-a correndo atarantada de um lado para
outro, porque o vento lhe arrancara
da
mão a sombrinha e a carregava voando pelo mar. Ele a acolheu no carro e se desviou do seu caminho
para levá-la para casa, uma antiga
ermida adaptada para fazer
face ao mar aberto, cujo pátio cheio de
casinhas de pombos se via da
rua. Ela contou no caminho que tinha se
casado há menos de
um ano com um vendedor de louça do mercado que Florentino Ariza tinha visto
muitas vezes nos navios da sua empresa,
desembarcando caixotes de toda a espécie de potes para vender, e com um mundo
de
pombos numa gaiola de vime
como a que usavam as mães nos navios fluviais para carregar
os filhos recém-nascidos. Olímpia Zuleta parecia pertencer à família das
vespas, não só pelas ancas
empinadas e o busto exíguo, como por toda ela: o cabelo de fio de cobre, as sardas, os olhos redondos e vivos, mais separados que
o normal, e uma voz afinada que ela só usava
para dizer coisas inteligentes e divertidas. Pareceu a
Florentino Ariza mais graciosa do que
atraente e a esqueceu mal a deixou na sua casa,
onde morava com o marido, e com o pai deste
e outros membros da família.
Uns dias depois, tornou a ver o
marido no porto, embarcando mercadoria em vez
de desembarcá-la, e quando o navio
zarpou, Florentino Ariza ouviu muito clara no ouvido a voz do diabo. Nessa tarde, depois de acompanhar tio Leão XII, passou como por acaso pela casa de Olímpia Zuleta, viu-a por cima da cerca,
dando
de comer aos pombos
alvoroçados. Gritou-lhe do carro por
cima da cerca: "Quanto custa uma pomba?"
Ela o reconheceu e respondeu com voz alegre: "Não se vendem." Ele perguntou:
"Então como se faz para ter uma?"
Sem deixar de dar de comer aos pombos, ela respondeu: "Leva-se de
carro a pombeira que se encontra
perdida no aguaceiro." Desta forma, Florentino Ariza chegou a casa
naquela noite com um presente de gratidão de Olímpia Zuleta: um pombo-correio
com um anel de metal na canela.
Na tarde seguinte, à mesma hora
da comida, a bela pombeira viu a
pomba presenteada de volta ao pombal,
e pensou que tivesse fugido. Mas
quando a pegou para examiná-la
reparou que tinha um papelzinho
enrolado no anel: uma declaração
de amor. Era a primeira vez que
Florentino Ariza deixava uma pegada escrita, e não seria a última, embora nesta ocasião tivesse tido
a prudência de não assinar. Ia
entrando em casa na tarde seguinte,
quarta-feira, quando um menino da rua lhe
entregou a mesma pomba dentro de uma gaiola
com o recado decorado de que aqui lhe
manda isto a senhora dos
pombos, e lhe manda dizer que por
favor guarde bem a pomba na gaiola fechada porque do contrário torna a voar e esta
é a última vez que é
devolvida. Não soube que interpretação dar: ou bem a pomba tinha perdido a carta no caminho, ou a pombeira
tinha resolvido fazer-se de tola, ou
mandava a pomba para que ele tornasse a mandá-la. Neste último caso, contudo, o natural teria sido ela devolver a pomba com uma resposta.
Sábado pela manhã, depois de muito pensar,
Florentino Ariza tornou a mandar a pomba com outra carta sem assinatura. Desta vez não teve que esperar o dia
seguinte. À tarde, o mesmo menino
tornou a trazê-la em outra
gaiola, com o recado de aqui vai
outra vez a pomba que lhe fugiu de novo,
que anteontem foi devolvida por boa educação e que agora é devolvida por
pena, más que agora a pura verdade é
que não será mais mandada se tornar a
voar. Trânsito Ariza se entreteve até muito tarde
com a pomba, tirou-a da gaiola,
arrulhou para ela embalando-a nos braços, procurou
adormecê-la com canções de ninar, e de repente percebeu que tinha no anel do pé
um papelzinho com uma só linha:
Não aceito carta anônima. Florentino
Ariza o
leu
com o coração
enlouquecido, como se fosse a
culminação de sua
primeira aventura,
e mal conseguiu dormir à noite em sobressaltos
de impaciência. No dia seguinte muito
cedo, antes de ir para o escritório, soltou de novo a pomba
com um papel de amor assinado
com seu nome muito claro, e
botou ainda no anel a rosa mais fresca, mais afogueada e fragrante do seu jardim.
Não foi tão fácil. Ao
cabo de três meses de assédios,
a bela pombeira continuava respondendo o mesmo:
"Eu não sou dessas."
Mas nunca deixou de receber as mensagens ou de acudir aos encontros que Florentino Ariza arrumava de maneira a parecerem casuais. Estava
desconhecido: o amante que nunca mostrava a cara, o mais ávido de amor mas também o mais mesquinho, o que não dava nada e queria tudo, o que não
permitia que ninguém lhe deixasse no coração a pegada de
um
passo, o caçador acocorado saiu pelo meio da rua num arrebatamento de cartas assinadas, de presentes galantes, da rondas imprudentes à casa da pombeira, mesmo em duas ocasiões em que o marido não andava de viagem
nem estava no mercado. Foi a única
vez, desde os primeiros tempos do primeiro
amor, que se
sentiu atravessado por uma lança.
Seis meses depois do primeiro
encontro se viram por fim no camarote de um navio fluvial que estava em reparos de pintura no
cais do rio. Foi uma tarde
maravilhou. Olímpia Zuleta tinha
um amor alegre, de pombeira
alvoroçada, e gostava de ficar nua durante várias horas, num repouso lento que tinha para ela tanto amor quanto o amor. O camarote
estava desmantelado, pintado pela metade,
e o cheiro da terebintina era
bom de se carregar com as lembranças de
uma tarde feliz. De
repente, a conselho de uma inspiração
insólita, Florentino Ariza destapou um tacho
de
pintura vermelha que estava ao
alcance do beliche, molhou o
indicador, e pintou no púbis da bela
pombeira uma flecha de sangue
voltada para o sul, e lhe
escreveu um letreiro no
ventre:' 'Esta pomba é minha''.
Nessa mesma
noite Olímpia Zuleta se despiu
na frente do marido sem se lembrar
do letreiro, e ele não disse uma palavra, nem se alterou
sua respiração, nada, se limitando a ir ao banheiro pegar a
navalha de barba enquanto ela punha
a camisola e a degolou de um talho.
Florentino Ariza só veio a saber muitos dias depois, quando o marido fugitivo foi capturado e contou aos jornais as
razões e a forma do crime. Durante muitos anos pensou com temor nas
cartas assinadas, guardou a conta dos anos de
cárcere do assassino que o conhecia muito bem devido aos negócios que fazia nos
navios, mas não temia tanto a
navalhada no pescoço, nem o escândalo
público, como a má sorte de que Fermina Daza viesse a saber da sua deslealdade. Nos anos de espera,
a mulher que cuidava de Trânsito Ariza teve que se retardar no mercado por causa de um aguaceiro fora de estação, e quando voltou a casa encontrou-a morta. Estava
sentada na cadeira de balanço,
sarapintada e floral, como sempre, e com os olhos tão vivos em um sorriso tão
malicioso que a guardiã só reparou que
estava morta passadas duas horas. Pouco antes tinha distribuído pelas crianças da vizinhança a fortuna em ouros e pedrarias das
botijas enterradas debaixo da cama,
dizendo que eram de comer, feito caramelos, e
não foi possível recuperar
algumas das mais
valiosas.
Florentino Ariza a enterrou na antiga fazenda da
Mão de Deus, que era ainda conhecida como o Cemitério do Cólera, e semeou sobre seu túmulo um bosque
de
rosas.
Desde as primeiras visitas ao
cemitério, Florentino Ariza descobriu que muito
perto estava enterrada Olímpia Zuleta, sem
lápide, mas com o nome e a data escritos com o dedo no cimento fresco da cripta,
e achou horrorizado que era uma zombaria
sangrenta do marido. Quando o rosai floresceu, punha uma rosa no túmulo, se não houvesse
ninguém à vista, e mais tarde plantou ali uma muda cortada do rosai
da mãe. Ambos os rosais proliferaram
com tanto alvoroço que Florentino Ariza tinha que levar suas tesouras e outras ferramentas de jardim para mantê-los
em ordem. Mas foi superior às suas forças:
passados alguns anos os dois rosais se haviam
espalhado feito mato no meio dos túmulos,
e o bom cemitério da peste passou a se chamar Cemitério das Rosas, até que algum prefeito menos realista que a sabedoria popular arrasou numa só noite
os rosais e pendurou um letreiro
republicano no arco da entrada: Cemitério
Universal.
A morte da mãe deixou
Florentino Ariza condenado outra vez a seus compromissos
maníacos: o escritório, os encontros em turnos
estritos com as amantes crônicas, as partidas
de
dominó no Clube do Comércio,
os mesmos livros de amor,
as visitas dominicais ao cemitério. Era o oxido da rotina, tão denegrido e tão temido, mas que o havia protegido da consciência da idade. Contudo, num domingo
de
dezembro, quando os rosais dos túmulos,
tinham derrotado as tesouras, viu as andorinhas nos fios da luz elétrica recém-instalada, e notou de repente quanto tempo se passara desde a morte da mãe,
e quanto desde o assassinato de Olímpia
Zuleta, e quanto e quanto desde aquela outra tarde
do dezembro distante em que
Fermina Daza lhe mandara uma carta dizendo que sim, que o amaria por todo o sempre. Até
então se comportara como se o tempo só
passasse para os outros e não
para ele. Ainda na semana anterior tinha encontrado na rua um dos
tantos casais que o eram graças às cartas escritas por ele, e não reconheceu o filho mais
velho, que era seu afilhado. Saiu do constrangimento
com o espavento convencional:
"Puxa, está um homem!"
Continuava sendo assim, mesmo depois que o corpo começou a lhe mandar os primeiros sinais de alarma,
pois sempre gozara da saúde de pedra
dos doentios. Trânsito Ariza costumava dizer: "Meu filho só ficou
doente mesmo com o cólera."
Confundia o cólera com o amor, é claro, e isso
muito tempo antes da sua memória
se embrulhar. Mas de todas as
maneiras se enganava, porque o filho tinha tido em segredo seis blenorragias,
embora o médico dissesse que não eram seis e sim
a mesma e única que reaparecia
depois de cada batalha perdida. Tinha
tido ademais uma adenite, quatro
cancros moles e seis orquites, mas nem a ele nem a homem
nenhum ocorreria enumerar tais coisas como doenças, e sim como troféus
de guerra.
Completados quarenta anos, tinha
tido que recorrer ao médico com dores indefinidas em várias partes do corpo.
Depois de muitos exames, o médico
tinha dito: "São coisas da idade." Ele voltava sempre
para casa sem sequer perguntar a si
mesmo
se aquilo tinha algo a ver com ele. Pois o único ponto de referência do seu passado eram seus amores efêmeros com Fermina Daza, e só
o que tivesse alguma coisa a
ver com ela tinha algo a ver com as
contas da sua vida. De maneira que na tarde
em que viu as andorinhas nos fios de luz, repassou seu passado desde a lembrança mais antiga, repassou seus amores de ocasião, os incontáveis escolhos
que tinha tido que contornar para alcançar
um posto de mando, os incidentes sem conta
que lhe causara a determinação
encarniçada de que Fermina Daza fosse sua,
e ele dela por cima de tudo e contra tudo, e só então descobriu que sua própria
vida estava se escoando. Sentiu
um calafrio nas vísceras que o deixou
sem luz, e teve que soltar as
ferramentas de jardim e se apoiar no muro do cemitério para não ser
derrubado pela primeira patada da velhice.
— Porra — disse
aterrado — tudo está fazendo trinta anos!
Assim era. Trinta anos tinham
passado também para Fermina Daza, sem dúvida, mas tinham sido para ela
os mais gratos e reparadores de sua vida. Os dias de horror do Palácio de Casalduero
estavam relegados à lixeira da memória.
Morava em sua nova casa da Mangueira,
dona absoluta do seu destino, com um marido que tornaria a preferir entre todos os homens do
mundo se tivesse tido que escolher outra vez, com um filho que prolongava a tradição da estirpe na Escola de Medicina, e uma filha tão parecida
com ela quando tinha sua idade
que às vezes a perturbava a
impressão de se sentir repetida. Tinha voltado três vezes à Europa depois da viagem
de desespero prevista como sem retorno para não continuar a viver num
susto perpétuo.
Deus deve ter escutado por fim as orações de alguém: depois de dois anos de estada em Paris, quando Fermina Daza e Juvenal
Urbino mal começavam a buscar o que sobrara do
amor entre os escombros, um telegrama
de meia-noite os acordou com a
notícia de que dona Blanca de Urbino estava com doença grave, e quase foi alcançado pelo outro, com a notícia da morte. Voltaram de pronto. Fermina Daza desembarcou com uma túnica de luto cuja largueza não dava para disfarçar seu estado. Estava grávida de novo, com efeito, e a notícia deu origem a uma canção popular mais maliciosa que maligna, cujo estribilho esteve na moda o resto do ano:
O que será que dá na bela em Paris, que sempre que vai volta para parir! Apesar da letra ordinária, o
doutor Juvenal Urbino mandava tocá-la até muitos
anos depois nas festas do
Clube Social como prova de sua boa disposição.
O nobre palácio do Marquês de Casalduero, de cuja
existência e brasões não se encontrou nunca uma notícia
certa, foi vendido primeiro à
Tesouraria Municipal por um preço adequado, e depois revendido por uma fortuna
ao governo central, quando um pesquisador
holandês andou fazendo escavações para provar
que ali estava o verdadeiro túmulo de Cristóvão Colombo: o quinto. As irmãs
do doutor Urbino foram morar no
convento das Salesianas, em reclusão sem votos, e Fermina Daza permaneceu na antiga casa do pai até
que se terminou a quinta da Mangueira. Entrou nela pisando firme, entrou para mandar, com os móveis
ingleses trazidos
desde a viagem de núpcias e os complementares que fez vir depois da viagem de reconciliação,
e a partir do primeiro dia começou a enchê-la de toda classe de bichos exóticos que ela própria ia comprar nas goletas das Antilhas. Entrou com o marido
recuperado, o filho bem criado, a filha que nasceu quatro meses depois da volta e à qual batizaram com o nome de Ofélia. O doutor Urbino, de sua parte,
entendeu que era impossível recuperar a esposa de um modo tão completo
como a tivera na viagem de núpcias, porque a parte de
amor que ele queria ela a dera aos filhos com o melhor do
seu tempo, mas aprendeu a
viver e a ser feliz com os resíduos.
A harmonia pela qual tanto aspiravam culminou
por onde menos esperavam num jantar de cerimônia em que
serviram um prato delicioso que Fermina Daza não conseguiu identificar. Começou com
uma boa porção, mas gostou tanto que
repetiu com outra igual, e estava com pena de
não se servir outra igual por
princípio de boas maneiras quando descobriu que
acabava de comer com um prazer insuspeitado dois pratos transbordantes de purê de
berinjela. Perdeu com galhardia: a partir de então, na quinta da Mangueira
foram servidas berinjelas em todas as suas formas quase com tanta freqüência
quanto no Palácio de Casalduero, e
eram tão apetecidas por todos que o
doutor Juvenal Urbino alegrava os tempos livres da velhice dizendo que
queria ter outra filha para lhe
pôr o nome bem-amado na casa:
Berinjela Urbino.
Fermina Daza sabia então que a vida
privada, ao contrário da vida pública, era mutável e imprevisível. Não lhe
era fácil estabelecer diferenças
reais entre crianças e adultos, mas em última
análise preferia as crianças, por terem critérios mais certos. Mal dobrara o cabo da maturidade,
desprovida por fim de qualquer ilusão, começou a vislumbrar a decepção de não ter sido nunca o que sonhava ser quando jovem, na praça dos Evangelhos, e sim algo que nunca ousara dizer sequer a si
mesma: uma criada de luxo. Em
sociedade passou a ser a mais amada,
a mais mimada, e por isso mesmo a mais temida, mas em nada exigia de si mesma rigor maior ou se perdoava menos do que no governo da casa. Sempre se sentiu vivendo
uma vida emprestada pelo marido:
soberana absoluta de um vasto império de felicidade edificado
por ele e só para ele. Sabia que ele a amava para lá de tudo, mais do que ninguém no mundo,
mas só para ele: a seu santo serviço.
Se alguma coisa a mortificava era a
cadeia perpétua das refeições diárias. Pois não tinham só
que estar na hora: tinham que ser perfeitas,
e tinham que ser justo o que ele queria comer sem que antes lhe fosse
perguntado. Se ela o fazia
alguma vez, como uma das tantas cerimônias inúteis do
ritual doméstico, ele sequer levantava
a vista do jornal para responder:
"Qualquer coisa." Dizia a sério, com seu jeito amável, porque não se podia conceber um marido
menos despótico. Mas à hora de comer não
podia ser. qualquer coisa, e sim justo o que ele queria, e sem a mínima falha: que a carne não soubesse a carne, que o peixe não soubesse a peixe, que o porco não soubesse a sarna, que o frango não soubesse a penas. Mesmo quando não era tempo de aspargos
era preciso encontrá-los a qualquer preço para
que ele pudesse se extasiar no vapor de sua própria urina fragrante. Não punha
a culpa
nele:
punha a culpa na vida. Mas ele era um
protagonista implacável da vida. Bastava o tropeço de uma dúvida para que ele
empurrasse o prato na mesa, dizendo: "Esta comida foi feita sem amor." Nesse sentido
chegava a rasgos fantásticos de inspiração. Certa vez, mal provou uma tisana de
camomila devolveu-a com uma única
frase: "Esta droga está com gosto de janela." Tanto ela quanto
as criadas se espantaram, pois ninguém sabia
de alguém que tivesse bebido uma janela
fervida, mas quando provaram a tisana procurando entender, entenderam: tinha
gosto de janela.
Era um marido perfeito: nunca apanhava nada no chão, nem apagava
a luz, nem fechava a porta. Na escuridão
da manhã, quando faltava um botão na roupa, ela o ouvia dizer:
"A gente devia ter duas mulheres, uma para
querer bem, outra para pregar
botão." Todos os dias, ao primeiro gole do
café, e à primeira colherada de sopa fumegante,
dava um uivo desesperado que
já não assustava ninguém, e em seguida o suspiro: "No dia
em que me mande desta casa, podem saber
que foi porque me cansei de viver com a boca queimada." Dizia
que nunca o almoço era mais apetitoso e fino do que
nos dias em que ele não podia comê-lo por ter tomado
purgante, e estava tão convencido de que
era uma perfídia da mulher que acabou por não se purgar
se ela
não se purgasse com ele.
Aborrecida com sua incompreensão, ela lhe pediu um insólito presente de aniversário: que ele
fizesse por um dia os trabalhos domésticos. Ele aceitou divertido,
e com efeito tomou posse da casa
desde o amanhecer. Serviu um café
esplêndido, mas esqueceu que ela não se
dava bem com ovos fritos e
não tomava café com leite. Deu logo instruções para o almoço de aniversário com oito
convidados e tomou disposições para a arrumação da casa, e tanto se esforçou por
fazer um governo melhor que o
dela que antes do meio-dia teve que
capitular sem um gesto de vergonha. Desde o primeiro momento percebeu que não tinha a menor idéia de onde estava nada,
sobretudo na cozinha, e as criadas deixaram que
revirasse tudo para encontrar
cada coisa, pois também jogaram o
jogo. Às dez não se haviam tomado decisões para o almoço porque ainda não estava
terminada a limpeza da
casa nem a arrumação dos
quartos, o banheiro estava por limpar, e ele
esquecera de mandar botar o papel higiênico, trocar os lençóis e mandar o cocheiro buscar os
filhos, e confundiu as tarefas das criadas: ordenou à cozinheira
que fizesse as camas e pôs as arrumadeiras na cozinha. Às onze, quando
já estavam a ponto de chegar os
convidados, era tal o caos na casa que Fermina Daza reassumiu o comando, morta
de rir, mas não com a atitude
triunfal que teria querido adotar, e sim
trêmula de compaixão diante da inutilidade doméstica do marido. Ele tirou sua forra com o argumento de sempre: "Pelo menos não me
saí tão mal quanto você sairia procurando curar doentes." Mas a
lição foi útil, e não só para ele.
No
curso dos anos ambos
chegaram por caminhos diferentes à
conclusão sábia de que não era possível morar juntos de outro modo, nem se amarem de outro modo: nada neste mundo era mais difícil do Que o amor.
Na plenitude de sua nova vida, Fermina Daza via Florentino Ariza em diversas
ocasiões públicas,
e com tanto mais freqüência quanto mais ele ascendia
em seu
trabalho, mas aprendeu a vê-lo com tanta naturalidade que mais de uma vez
se esqueceu de cumprimentá-lo por distração. Ouvia falar dele amiude, porque
no mundo dos negócios era um tema constante sua escalada cautelosa mas
irresistível na C.F.C. Ela o via melhorar de maneiras, sua timidez se decantava num certo distanciamento enigmático,
assentava-lhe bem um ligeiro aumento de peso, convinha-lhe a lentidão da idade, e soubera resolver com dignidade a
calvície arrasadora. Só continuou desafiando para
sempre o tempo e a moda com a indumentária sombria, as sobrecasacas
anacrônicas, o chapéu extraordinário, as gravatas de poeta, de fitas do armarinho da mãe, o guarda-chuva sinistro. Fermina Daza foi se acostumando
a vê-lo de outro modo, e acabou por
não relacioná-lo com o adolescente
lânguido que se sentava a suspirar por
ela exposto às ventanias de flores amarelas da praça dos
Evangelhos. De qualquer maneira, nunca o viu com indiferença, e sempre se alegrou com as boas notícias que lhe davam a
respeito dele, porque pouco a pouco iam
aliviando sua culpa.
Contudo, quando já o imaginava apagado por completo da memória, reapareceu por onde menos o esperava, convertido em fantasma de suas saudades. Foram
as primeiras auras da velhice,
quando começou a sentir que
algo irreparável acontecera em sua vida
sempre que ouvia trovejar antes da chuva. Era a ferida incurável do trovão solitário, pedregoso e pontual,
que retumbava todos os dias de outubro
às três da tarde na serra de Villanueva,
e cuja lembrança ia ficando mais recente com o passar dos anos. Enquanto as
lembranças novas se confundiam na memória em poucos dias, as da viagem
lendária pela província da prima Hildebranda se tornavam tão vividas que pareciam de ontem, com a nitidez perversa da
saudade. Lembrava-se de Manaure,
a da serra, sua rua única, reta e verde, seus
pássaros de bom agouro, a casa
dos espantos onde acordava com a camisola empapada com as lágrimas de Petra Morales,
morta de amor muitos anos antes na mesma cama em
que ela dormia. Lembrava-se do gosto das
goiabas de então que nunca mais tinha tornado a ser o mesmo, dos
presságios tão intensos que seu barulho se confundia com o da chuva,
das tardes de topázio de São João de César, quando saía a passeio com a corte de primas assanhadas e mantinha
os dentes apertados para que
o coração não lhe saísse pela boca à medida que se aproximavam do telégrafo. Vendeu de qualquer
maneira a casa do pai porque não podia agüentar a dor da adolescência, a visão da pracinha desolada tal como aparecia da
sacada, a fragrância sibilina das gardênias
nas noites de calor, o susto do retrato de dama antiga na tarde de fevereiro em que se decidiu seu destino, e onde quer que se revolvia sua memória
daqueles tempos esbarrava na lembrança de
Florentino Ariza. Contudo, sempre teve bastante serenidade para perceber que não eram lembranças de amor, nem
de arrependimento, e sim a
imagem de uma insipidez que lhe deixava
um rastro de lágrimas. Sem saber, estava ameaçada pelo mesmo ardil
de compaixão que levara à
perdição tantas vítimas desprevenidas de Florentino Ariza.
Aferrou-se ao marido. E justo na época em que ele mais
precisava dela, porque ia adiante dela com dez anos de desvantagem tateando só entre
as névoas da velhice, e com as desvantagens piores de ser homem e mais
fraco. Acabaram por se conhecer tanto que antes dos trinta anos de casados eram como um mesmo ser dividido, e se sentiam pouco à vontade com a freqüência com que adivinhavam sem querer o pensamento um do outro,
ou pelo acidente ridículo de um se antecipar
a dizer em público o que o outro ia
dizer. Tinham contornado juntos as
incompreensões cotidianas, os ódios instantâneos, as grosserias recíprocas e
os fabulosos relâmpagos de glória da cumplicidade
conjugai. Foi a época em que se amaram melhor,
sem pressa e sem excessos,
e ambos foram mais conscientes e gratos pelas vitórias inverossímeis contra a adversidade. A vida
ainda havia de confrontá-los com outras provas mortais, sem dúvida, mas já não tinha importância:
estavam na outra margem.
POR OCASIÃO DAS festividades do novo século houve um animado programa de atos
públicos, o mais memorável dos quais foi a
primeira viagem em balão, fruto da iniciativa
inesgotável do doutor Juvenal Urbino.
Metade da cidade se concentrou na
Praia do Arsenal para admirar a subida do enorme globo de tafetá com as
cores da
bandeira, que carregou o primeiro correio aéreo a São João da
Ciénaga, umas trinta léguas ao
nordeste em linha reta. O doutor
Juvenal Urbino e a mulher, que tinham
conhecido a emoção do vôo na
Exposição Universal de Paris, foram
os primeiros a subir à barquinha de vime, com
o engenheiro de vôo e seis convidados eminentes. Levavam uma carta
do governador provincial às
autoridades municipais de São João da
Ciénaga, na qual se estabelecia
para a história que aquele era o
primeiro correio transportado pelos ares. Um cronista do Diário do Comércio
perguntou ao doutor Juvenal Urbino quais seriam suas últimas palavras caso perecesse na aventura, e ele não demorou para pensar na resposta que havia de lhe custar tantas injúrias:
— Na
minha opinião — disse — o século XIX muda para todo o mundo, menos para nós.
Perdido na cândida multidão
que cantava o Hino Nacional enquanto o balão ganhava altura, Florentino Ariza se sentiu de acordo com
alguém que ouviu comentar no tumulto que aquilo não era aventura própria para uma mulher, menos ainda
na idade de Fermina Daza. Mas não foi tão perigosa, afinal. Ou foi menos perigosa do que deprimente. O balão chegou sem contratempos a seu destino, depois de uma viagem tranqüila por um céu de
um azul inverossímil. Voaram bem, muito baixo, com vento plácido e favorável,
primeiro pelas encostas das cristas
nevadas, e em seguida sobre o vasto
pélago da Ciénaga Grande.
Do alto do céu, como as via Deus, viram as ruínas da mui antiga
e heróica cidade de Cartagena das índias, a mais bela do mundo,
abandonada por seus povoadores devido
ao medo pânico do cólera, depois de haver resistido a toda classe de assédios de ingleses e tropelias de bucaneiros durante três séculos. Viram as muralhas intactas, o
capim nas ruas, as fortificações devoradas pelo amor-perfeito, os palácios de mármore e altares de ouro com seus vice-reis apodrecidos de peste
dentro das armaduras.
Sobrevoaram as palafitas das Trojas de Cataca, pintadas de cores
doidas, com cercados de criar iguanas
comestíveis, e
pencas de balsâmicas e
astromélias nos
jardins lacustres.
Centenas de meninos nus se atiravam n'água alvoroçados pela gritaria
de todos, se atiravam pelas janelas, se atiravam
do telhado das casas e das canoas
que conduziam com uma perícia
assombrosa, e fisgavam a água como savelhas para
apanhar os volumes de roupa, os vidros de pastilhas para tosse, as coisas de comer que a caridosa
e formosa mulher do chapéu de plumas lhes
arremessava da barquinha do balão.
Sobrevoaram o oceano de sombras dos bananais, cujo silêncio se elevava até eles como um
vapor letal, e Fermina Daza se lembrou de
si mesma aos três anos, aos quatro talvez, passeando pela floresta sombria pela mão da mãe, que também era quase uma menina
no meio de outras mulheres
vestidas de musselina, tal qual ela, com sombrinhas
brancas e chapéus de gaze. O engenheiro do balão, que ia
observando o mundo com uma luneta, disse: "Parecem mortos."
Passou a luneta ao doutor Juvenal
Urbino, e este viu as carretas de bois entre as lavouras, as sebes ao longo da linha do trem, os canais gelados, e onde quer que detivesse a vista deparou com
corpos humanos espalhados. Alguém
disse que o cólera estava fazendo
estragos nos povoados da Ciénaga
Grande. O doutor Urbino, enquanto falava, não parou de olhar pela luneta.
—
Pois deve ser
uma modalidade muito especial do cólera — disse — porque cada
morto tem seu tiro de misericórdia na nuca.
Pouco depois sobrevoaram um mar de
espumas, e desceram sem novidade numa grande praia
ardente, cujo solo rachado de salitre queimava como fogo vivo. Lá
estavam as autoridades que só tinham
como proteção contra o sol os
guarda-chuvas do dia-a-dia, as
escolas primárias agitando bandeirolas ao compasso dos hinos, as rainhas de beleza com flores
esturricadas e coroas de papelão
dourado, e gente da plantação de mamão da
próspera localidade de Gayra, naqueles tempos a melhor da costa caribe.
A única coisa que Fermina Daza queria era ver outra vez seu povoado natal, para compará-lo
com suas lembranças mais antigas,
mas não
houve permissão para ninguém,
devido aos riscos da peste. O
doutor Juvenal Urbino entregou a carta histórica, que logo se perdeu entre outros papéis e nunca mais se soube dela, e a comitiva inteira quase
morreu, asfixiada no torpor dos discursos. Foram afinal levados em mulas até o embarcadouro de Pueblo
Viejo, onde o pântano se ligava ao mar, porque o engenheiro não conseguiu que o balão tornasse a subir. Fermina Daza estava certa de que passara por ali com a mãe, muito menina, numa carreta puxada por
uma junta
de bois. Já mais velha
tinha contado isso ao
pai, que morreu teimando que não era possível essa lembrança.
—
Eu me lembro
muito bem da viagem, e foi assim
— disse ele — mas sucedeu pelo menos cinco anos antes de você
nascer.
Os membros da expedição em balão
voltaram três dias depois ao porto de origem,
avariados por uma noite ruim, de tempestade,
e foram recebidos como heróis. Perdido na multidão, é claro, estava
Florentino Ariza, que reconheceu no semblante de
Fermina Daza as marcas do pavor.
Contudo, na mesma tarde tornou a
vê-la numa exibição de ciclismo, também patrocinada pelo marido, e não tinha mais nenhum vestígio de cansaço. Pilotava um velocípede
insólito que mais parecia um aparelho de circo, com uma roda
dianteira muito alta sobre a qual ia
sentada, e uma posterior muito pequena que apenas lhe servia de apoio. Trajava bombachas de
sanefas coloridas que causaram
escândalo entre as senhoras mais velhas e desconcerto entre os cavalheiros, mas
ninguém ficou indiferente à sua destreza.
Essa, e tantas outras ao longo de tantos anos, eram imagens efêmeras que apareciam de repente a Florentino Ariza, sem quê nem
por que, e tornavam a
desaparecer do mesmo modo deixando em seu coração uma trilha de
ansiedade. Mas marcavam a pauta de sua vida,
pois ele tinha conhecido as sevícias do tempo
não tanto em sua própria carne como
nas mudanças imperceptíveis que notava em Fermina
Daza cada vez que a via.
Certa noite entrou na Pousada do Sancho, um restaurante colonial de alto coturno, e ocupou o canto mais
afastado, como costumava fazer quando se sentava sozinho
para comer suas merendas de passarinho.
De repente viu Fermina Daza no grande espelho do
fundo, sentada à mesa com o
marido e outros dois casais, num ângulo
em que ele podia vê-la refletida em todo
o seu esplendor. Estava indefesa, conduzindo
a conversação com uma graça e um riso que crepitavam como fogos de artifício, e sua beleza ficava mais
radiante debaixo dos enormes lustres de pingentes: Alice tinha tornado a
atravessar o espelho.
Florentino Ariza a observou à
vontade e quase sem respirar, viu-a
comer, viu-a provar apenas o vinho, viu-a tagarelando com o quarto Sancho da estirpe, viveu com ela um instante de sua vida sentado em sua mesa solitária, e durante mais de uma hora
flanou sem ser visto pelo recinto vedado
de sua intimidade. Depois tomou mais
quatro xícaras de café para fazer
tempo, até que a viu sair confundida com o grupo. Passaram tão perto que
ele distinguiu o cheiro dela entre
as lufadas de outros
perfumes de suas acompanhantes.
A partir dessa noite, e durante quase um ano, manteve um assédio tenaz ao proprietário da pousada, oferecendo-lhe o que quisesse, em dinheiro ou
em favores, para chegar ao que mais lhe apetecesse
na vida, desde que lhe vendesse o espelho. Não
foi fácil, pois o velho Sancho acreditava na lenda de que aquela preciosa moldura talhada por
ebanistas vienenses era gêmea de outra
que pertencera a Maria Antonieta, e que desaparecera sem deixar rastro: duas jóias únicas.
Quando por fim cedeu, Florentino
Ariza pendurou o espelho na sua casa, não pelos primores da moldura e sim pelo espaço interior, que tinha sido ocupado durante duas
horas pela imagem amada.
Quase só via Fermina Daza de braço dado com o marido, num concerto perfeito, movendo-se ambos num âmbito próprio, com uma assombrosa
fluidez de siameses que só desafinava quando o cumprimentavam. Com efeito, o doutor Urbino lhe estreitava a mão com um afeto cálido,
e até se permitia em certas ocasiões uma palmada no ombro.
Ela, em compensação, o
mantinha condenado ao regime
impessoal dos formalismos, e nunca fez um mínimo gesto que o autorizasse a suspeitar
que se lembrava dele em seus tempos
de solteira. Viviam em dois mundos divergentes, mas enquanto ele fazia toda a espécie de esforços
para reduzir a distância, ela nunca deu um único passo que não fosse em sentido
contrário. Passou muito tempo antes que ele se atrevesse a pensar que aquela
indiferença não passava de uma couraça contra o medo. Ocorreu-lhe de repente, no batismo do primeiro navio de água doce construído nos estaleiros
locais, que foi também a
primeira ocasião oficial em que
Florentino Ariza representou tio Leão XII como primeiro vice-presidente da C.F.C.
Esta coincidência revestiu o ato de uma solenidade
especial, e não faltou ninguém que tivesse alguma significação na vida da cidade.
Florentino Ariza se ocupava dos convidados no salão principal
do
navio, cheirando ainda a pintura recente e alcatrão derretido, quando uma salva de
aplausos explodiu no cais e a banda atacou
uma marcha triunfal. Teve que reprimir
um estremecimento
já quase tão antigo quanto ele próprio quando viu a formosa mulher
dos seus sonhos no braço do marido, esplêndida em sua maturidade, desfilando como uma rainha de outros tempos entre a guarda de honra
em uniforme de parada, debaixo de uma tempestade de serpentinas e pétalas naturais que lhe atiravam das janelas.
Ambos respondiam com a mão às ovações, mas ela
era tão deslumbrante que parecia ser a
única no meio da multidão, vestida toda de um dourado imperial, dos sapatos de salto alto e das caudas de raposa no
pescoço, até o chapéu-sino.
Florentino Ariza os esperou na
ponte, junto com as autoridades
provinciais, em meio ao estrondo da música e dos foguetes e dos três bramidos intensos do
navio que deixaram o cais empapado de
vapor. Juvenal Urbino cumprimentou a fila
de recepção com aquela naturalidade tão sua que fazia cada um pensar que era alvo de um afeto especial:
primeiro o comandante do navio em uniforme de gala, depois o arcebispo, depois o governador com sua mulher e o prefeito com a sua, e depois o chefe militar da praça,
que era um andino
recém-chegado. Em seguida às autoridades estava Florentino Ariza, terno de lã escura, quase invisível entre tantos
notáveis. Depois de cumprimentar o comandante
da praça,
Fermina pareceu vacilar diante da mão
estendida de Florentino Ariza. O
militar, disposto a apresentá-los, perguntou a ela se se conheciam. Ela
não disse nem que sim nem que não, estendendo a mão a
Florentino Ariza com um sorriso de salão. O mesmo acontecera em duas
ocasiões do passado, e havia de acontecer outras vezes, e Florentino Ariza
o aceitou sempre como um comportamento
próprio do caráter de Fermina
Daza. Mas aquela tarde perguntou a si mesmo com sua
infinita capacidade de ilusão se uma indiferença
tão encarniçada não seria um subterfúgio para dissimular um tormento
de
amor.
A simples idéia lhe alvoroçou as querências. Voltou a
rondar a quinta de Fermina Daza com as mesmas ânsias com que o fazia tantos anos
antes na pracinha dos Evangelhos, não com a intenção calculada
de que ela o visse, e sim com a única
de
vê-la para se certificar de que continuava no mundo. Só que agora
era difícil passar despercebido. O bairro de
Mangueira ficava numa ilha semideserta, separada da cidade
histórica por um canal de águas verdes, e coberta de matagais de icaqueiro que tinham sido guarida de namorados domingueiros durante a Colônia. Em anos recentes
tinham demolido a velha ponte de pedra dos espanhóis e construído uma de cimento com globos de luz, para dar
passagem aos novos bondes de burro.
No princípio, os moradores da Mangueira tinham que suportar um suplício que não se levara em conta no
projeto, e que era dormir perto demais da primeira usina elétrica que teve a cidade, cuja
trepidação era um terremoto
contínuo. Nem o
doutor Juvenal Urbino com todo seu poder
conseguira que a mudassem para onde não estorvasse, até que intercedeu a seu
favor sua comprovada
cumplicidade com a Divina Providência. Uma noite a caldeira da usina
arrebentou com uma explosão
pavorosa, voou por cima das casas
novas, atravessou metade da cidade pelos ares e fez desmoronar a galeria maior do antigo convento de São Julião o
Hospitaleiro. O velho edifício em ruínas tinha sido abandonado em princípios daquele ano, mas a caldeira
causou a morte de quatro presos que se haviam evadido à noitinha do cárcere
local e estavam escondidos na capela.
Aquele subúrbio aprazível, com tão
belas tradições de amor, não foi em compensação muito propício aos amores contrariados
quando se converteu em bairro de luxo. As ruas
eram poeirentas no verão, enlameadas no inverno e desoladas durante o ano
inteiro, e as casas escassas se escondiam
entre jardins frondosos, com varandas de mosaico
em vez das sacadas salientes de outrora, como que feitas de
propósito para desalentar os
namorados furtivos. Ainda bem que naquela época se impôs a moda de passear de tarde nas velhas vitórias de praça
reformadas para um cavalo só,
e o trajeto terminava numa eminência de
onde se apreciavam os
crepúsculos desatinados de outubro melhor do
que da torre do farol,
e se avistavam os tubarões sigilosos tocaiando a praia dos
seminaristas, e o transatlântico das quintas-feiras,
imenso e branco, que quase se podia tocar com as mãos quando passava
pelo canal do porto. Florentino Ariza
costumava tomar uma vitória depois do duro dia
de escritório, mas não arriava
a capota como era costume nos meses de calor,
permanecendo escondido no fundo do assento, invisível na sombra, sempre só, e ordenando itinerários imprevistos para não despertar os maus pensamentos do cocheiro. A única coisa do passeio
que na realidade o interessava era o partenom de mármore rosado entre plantações de banana e mangueiras frondosas, réplica
desafortunada das mansões idílicas dos algodoais da Luisiana. Os filhos de Fermina Daza
voltavam para casa pouco antes das cinco. Florentino Ariza os via chegar no carro da família,
e via sair depois o doutor Juvenal Urbino para
suas visitas
médicas de rotina, mas em quase um
ano de rondas não pôde sequer
vislumbrar a janela que buscava.
Uma tarde em que insistiu no passeio solitário apesar de estar caindo o primeiro aguaceiro
devastador de junho, o cavalo resvalou na lama e tombou de bruços. Florentino Ariza viu
com horror que estava bem
na frente da quinta de Fermina
Daza, e implorou ao cocheiro, sem pensar que sua consternação podia delatá-lo.
— Aqui não, por favor — gritou. — Em qualquer
lugar menos aqui.
Perturbado pela pressa, o cocheiro
procurou levantar o cavalo sem desatrelá-lo,
e o eixo do carro quebrou. Florentino
Ariza saltou como pôde, e agüentou a vergonha de
baixo do rigor da chuva até que outros passantes se ofereceram para levá-lo a casa. Enquanto
esperava, uma criada da família Urbino o vira com a roupa ensopada e
chapinhando na lama até os joelhos, e
lhe levou
um guarda-chuva para que viesse
se abrigar no terraço. Florentino Ariza não sonhava com tanta sorte nem no mais descomedido dos seus delírios, mas naquela tarde teria preferido morrer a ser visto por Fermina Daza em semelhante estado.
Quando moravam na cidade velha, Juvenal Urbino e a família iam aos domingos a pé da casa
até a catedral, para a missa das
oito, que era mais um ato
mundano do que religioso. Mais tarde,
quando mudaram de casa, continuaram
indo de carro durante vários anos, e
às vezes se deixavam ficar em tertúlias de amigos sob as
palmeiras do parque. Mas quando se construiu o templo do seminário conciliar da Mangueira,
com praia particular e cemitério próprio, passaram a só ir à catedral em ocasiões
muito solenes. Sem saber destas
mudanças, Florentino Ariza esperou
vários domingos no terraço do Café
da Paróquia, vigiando a saída das três missas.
Depois percebeu o erro e foi à
igreja nova, que esteve na moda até há poucos anos, e lá viu o doutor Juvenal
Urbino com os filhos, pontuais às
oito nos quatro domingos de agosto,
mas Fermina Daza não estava com eles. Num
desses domingos visitou o novo cemitério contíguo, onde os residentes do bairro
de
Mangueira estavam construindo seus panteões
suntuosos, e seu coração deu um salto quando encontrou à sombra das grandes paineiras o mais suntuoso de
todos, já terminado, com vitrais góticos e anjos de mármore, e com as lápides para
toda a família em letras
douradas. Entre elas, é claro, a de dona Fermina Daza de Urbino de
Ia Calle, e em continuação a do marido, com um epitáfio
comum: Juntos também na paz do Senhor.
Durante o restante do ano, Fermina Daza não assistiu a nenhum
dos atos cívicos ou sociais, nem mesmo os do
Natal, nos quais ela e o
marido costumavam ser protagonistas de luxo. Mas
onde mais se notou sua ausência
foi na recita inaugural da temporada de ópera. No intervalo,
Florentino Ariza surpreendeu um grupo
em que sem dúvida falavam nela sem mencioná-la. Diziam que alguém a vira, numa certa meia-noite do junho
anterior, subir ao
transatlântico da Cunard, rumo ao Panamá, e que usava um véu escuro para que não se notassem os
estragos causados pela doença secreta que a consumia.
Alguém perguntou que mal tão terrível podia ser que se atrevia a
atacar mulher de tantos poderes, e a resposta que recebeu veio saturada de uma bílis negra:
— Uma dama tão distinta só pode ter a tísica.
Florentino Ariza sabia que os ricos
de sua
terra não tinham doenças curtas. Ou bem
morriam de repente, quase sempre às vésperas de uma festa maior que o luto
prejudicava, ou iam
se apagando
em enfermidades lentas e
abomináveis, cujas intimidades acabavam por cair no domínio público. A reclusão
no Panamá era quase uma penitência
obrigatória na vida dos ricos. Submetiam-se ao que Deus quisesse no Hospital dos Adventistas, um imenso galpão branco extraviado nos
aguaceiros pré-históricos do Darién,
onde os doentes perdiam a conta da pouca
vida que lhes restava, e em cujos quartos solitários com janelas de cortina opaca ninguém podia saber com certeza se
o cheiro do ácido fênico era de
saúde ou de morte. Os que se restabeleciam voltavam carregados de presentes
esplêndidos que repartiam a mancheias com uma
certa angústia de quem pede perdão pela indiscrição de continuar
vivo. Alguns voltavam com o abdome atravessado de costuras bárbaras que pareciam feitas com cânhamo de sapateiro,
levantavam a camisa para mostrá- las às visitas, comparavam-nas com as de outros que tinham morrido
sufocados pelos excessos da felicidade, e pelo restante dos seus dias continuavam contando e tornando a
contar as aparições angelicais que tinham visto sob os efeitos do clorofórmio. Em compensação, ninguém jamais conheceu as visões dos que não voltaram, e entre estes os mais tristes: os que morreram
desterrados no pavilhão dos tísicos,
mais pela tristeza da chuva do que pelos padecimentos da doença.
A ter que escolher, Florentino Ariza não sabia o que teria preferido para Fermina Daza. Mas antes de mais nada preferia a verdade, ainda que
insuportável, e por muito que a
buscasse não deu com ela. Achava inconcebível que ninguém pudesse lhe dar pelo menos
um indício para confirmar a
versão. No mundo dos navios fluviais, que era o seu, não havia mistério que
se pudesse conservar
nem confidencia que se pudesse guardar. No entanto, ninguém ouvira
falar na mulher do véu preto. Ninguém sabia nada, numa cidade
onde tudo se sabia, e onde muitas coisas se sabiam inclusive antes
que acontecessem. Sobretudo as coisas
dos ricos. Mas ninguém tinha
explicação nenhuma para o desaparecimento de Fermina Daza. Florentino Ariza
continuava rondando a Mangueira, ouvindo missas sem devoção na basílica do seminário, assistindo a atos cívicos que
nunca lhe teriam interessado em outro estado de ânimo, mas a Passagem do tempo só fazia aumentar o
crédito da versão. Tudo parecia normal na casa dos Urbino, exceto a falta
da
mãe.
No meio de tantas averiguações encontrou outras novidades
que não conhecia, ou que não andava
buscando, e entre elas a da morte de Lorenzo Daza na aldeia cantábrica onde
nascera. Recordava tê-lo visto durante muitos
anos nas ruidosas guerras de xadrez
no Café da Paróquia, a voz
enrouquecida de tanto falar, e mais gordo e áspero à medida que afundava nas
areias movediças de uma velhice ruim. Não tinham
tornado a se dirigir a palavra desde o
ingrato café da manhã de aguardente de anis no século anterior,
e Florentino Ariza tinha certeza de que
Lorenzo Daza ainda o recordava com rancor igual ao seu, mesmo depois de conseguir para
a filha o casamento de fortuna
que se convertera na única
razão que tinha para viver. Mas
estava tão decidido a encontrar uma informação inequívoca sobre a saúde de Fermina Daza que voltara ao Café da Paróquia para obtê-la do pai,
na época
em
que ali se celebrou o
torneio histórico em que
Jeremiah de Saint-
Amour enfrentou sozinho quarenta e dois
adversários. Foi assim que se inteirou
de que Lorenzo Daza tinha morrido, e se alegrou de
todo o coração, embora sabendo que o preço daquela alegria podia ser o de
continuar vivendo sem a verdade. No final admitiu como
certa a versão do hospital de desenganados, sem mais consolo que não
fosse o refrão conhecido: Mulher enferma,
mulher eterna. Em seus dias de desalento, se conformava com a idéia de que
a notícia da morte de Fermina Daza, caso ocorresse, a ele chegaria mesmo que não a buscasse.
Não chegaria nunca. Pois Fermina Daza estava viva e
saudável na fazenda onde sua prima
Hildebranda Sánchez vivia esquecida do mundo,
a meia légua do povoado de Flores de
Maria. Tinha ido sem escândalo, de comum acordo com o marido, enrolados ambos como
adolescentes na única crise séria
que sofriam em tantos anos de um casamento estável. Tinham sido apanhados de supetão no repouso da maturidade, quando já se sentiam a salvo de qualquer emboscada da adversidade,
com os filhos grandes e bem criados,
e com o futuro aberto para que aprendessem a ser velhos
sem azedumes. Tinha sido algo
tão imprevisto para ambos que não
quiseram resolver o caso aos gritos,
com lágrimas e mediadores, como era de uso natural no Caribe, e sim com a sabedoria das nações da Europa, e
de tanto não serem de cá
nem de
lá acabaram escorregando numa situação pueril que não era de lugar nenhum.
Afinal ela decidira ir embora,
sem saber sequer por que, ou para quê,
de pura raiva, e ele não fora capaz de dissuadi-la,
impedido por sua consciência de culpa.
Fermina Daza, com efeito, embarcara à meia-noite dentro do maior sigilo e com a cara coberta por uma mantilha de luto,
mas não num transatlântico da Cunard com destino ao Panamá, e sim no naviozinho regular de São João
da Ciénaga, a cidade onde nasceu e onde morou até a puberdade, e cuja saudade
ia ficando insuportável com os anos. Contra a vontade do marido e os costumes da época, só
levou como acompanhante uma afilhada
de
quinze anos que se criara com a
criadagem de sua casa, mas haviam avisado de
sua viagem os comandantes dos navios
e as autoridades de cada porto. Quando tomou sua irrefletida
resolução, anunciou aos filhos que ia
repousar uns três meses na companhia de tia Hildebranda, mas
estava decidida a ficar. O doutor
Juvenal Urbino conhecia muito bem a
integridade do seu caráter, e estava
tão atribulado que aceitou com humildade
a decisão como um castigo de Deus pela
gravidade de seus pecados. Mas não
se haviam perdido de vista as luzes do
navio e já estavam ambos arrependidos
de suas fraquezas.
Apesar de terem mantido uma correspondência
formai sobre os filhos e outros assuntos da
casa, transcorreram quase dois anos sem
que um ou outro encontrasse um caminho de regresso que não estivesse minado
pelo orgulho. Os filhos foram passar em Flores de
Maria as férias escolares do segundo
ano, e Fermina Daza fez o impossível
por parecer conformada com sua nova
vida. Foi essa pelo menos a conclusão que tirou Juvenal Urbino das cartas
do filho.
Além disso, andou então por ali num giro pastoral
o bispo de Riohacha,
montado sob o palio
na sua célebre
mula
branca com gualdrapas bordadas a ouro. Atrás vieram peregrinos de comarcas
remotas, sanfoneiros, vendedores
ambulantes de comidas e amuletos, e a fazenda passou três dias submersa em inválidos e desenganados, que na
realidade não vinham atraídos pelos sermões doutos
e as indulgências plenárias, e sim pelos
favores da mula, da qual se dizia que era milagreira pelas costas do dono. O bispo tinha sido íntimo da casa dos Urbino de Ia Calle desde seus anos
de padre raso, e num certo meio-dia escapou de sua feira para
almoçar na fazenda de Hildebranda.
Depois do almoço, no qual só se falou de assuntos terrenos, levou a um
canto Fermina Daza e quis ouvi-la em
confissão. Ela se negou, de um modo
amável mas firme, com o argumento
explicito de que não tinha nada de que se
arrepender. Embora não fosse esse seu propósito, pelo menos consciente, ficou com a idéia de que sua
resposta ia chegar onde devia.
O doutor Juvenal Urbino costumava
dizer, não sem certo cinismo, que aqueles dois amargos anos de sua vida não tinham sido culpa sua e sim do mau
costume que tinha sua mulher de cheirar a
roupa que a família tirava, e a que ela própria
tirava, para saber pelo
cheiro se era preciso mandar lavá-la
embora parecesse limpa à primeira vista.
Era o que fazia desde menina, e nunca pensou que se notasse tanto, até que o marido o percebeu na própria noite de núpcias. Percebeu também que ela
fumava pelo menos três vezes por dia trancada
no banheiro, mas isto não lhe chamou a atenção, pois as mulheres de
sua classe costumavam
trancar-se em grupos para falar de homens e fumar, e mesmo
beber aguardente às canadas ate se estirarem
ébrias no chão. Mas o costume de farejar tudo quanto era roupa em seu caminho
não só lhe pareceu insólito como
perigoso para a saúde. Ela o levava
na brincadeira, como levava tudo que não queria discutir, e dizia que não era para simples adorno que Deus lhe havia posto na cara aquele diligente
nariz ornitológico. Certa manhã,
enquanto ela andava fazendo compras,
a criadagem alvoroçou a vizinhança procurando o filho de três anos que
não era achado em nenhum esconderijo da casa. Ela chegou em meio ao pânico, deu duas ou três voltas de mastim rastreador, e encontrou o filho dormindo num guarda-roupa, onde ninguém pensou
que pudesse se esconder. Quando o
marido atônito perguntou como o
encontrara, respondeu:
— Pelo cheiro de cocô.
A verdade
é que o olfato não lhe servia só para lavar a roupa
ou para achar crianças perdidas: era
seu sentido de orientação em todas
as ordens da vida, e sobretudo da vida social. Juvenal Urbino tinha
observado isto ao longo do seu casamento, sobretudo no princípio,
quando ela era uma adventícia ao ambiente predisposto
contra ela há trezentos anos, e mesmo assim
bracejava entre frondes de corais
afiados sem tropeçar em ninguém, com um domínio do mundo que
só podia ser um instinto sobrenatural. Essa
faculdade temível, que tanto
podia ter origem numa sabedoria milenar quanto num coração de pedra, teve sua hora de desgraça num mau domingo antes da missa,
quando Fermina Daza por pura rotina aspirou fundo a roupa que
o marido tinha usado
a tarde anterior, e padeceu
a sensação
perturbadora de
ter tido na cama um outro homem.
Aspirou primeiro o paletó e o
colete enquanto tirava da botoeira o
relógio de corrente e dos bolsos a lapiseira e a carteira e umas poucas moedas soltas e ia
pondo tudo sobre a penteadeira, e depois aspirou a camisa pespontada
enquanto tirava o prendedor de gravata
e as abotoaduras de topázio dos
punhos e o botão de ouro do
colarinho postiço, e depois aspirou as calças enquanto tirava o chaveiro
de onze chaves e o canivete de madrepérola, e aspirou afinal a ceroula
e as meias e o lenço de linho com seu
monograma bordado. Não havia
a menor sombra de dúvida: em cada uma das peças
havia um cheiro que não aparecera
nelas em tantos anos de vida em
comum, um cheiro impossível de definir, porque não era de flores
nem de essências artificiais, e sim de algo próprio
à natureza humana. Não disse nada, nem passou a encontrar o cheiro todos os dias, mas já não farejava
a roupa do
marido com a curiosidade de saber
se era o caso de mandar lavar e sim com
uma ansiedade insuportável que lhe ia roendo as entranhas.
Fermina Daza não soube onde situar
o cheiro da roupa dentro da rotina do
marido. Não podia ser entre a aula matinal e o almoço, pois supunha
que nenhuma mulher em seu pleno juízo
ia fazer um amor apressado a semelhantes horas, menos ainda
com uma visita, enquanto dependia
ainda de varrer a casa, fazer as camas, ir ao mercado, preparar
o almoço, e talvez com a angústia de que
chegasse da escola antes da hora um dos filhos
escalavrado por uma pedrada e a encontrasse nua às onze da manhã no quarto por arrumar, e para cúmulo de horrores com um médico em cima.
Sabia, por outro lado, que o doutor Juvenal Urbino só fazia amor de noite, de
preferência na escuridão absoluta, e em
último caso antes do café da
manhã ao trinar dos primeiros pássaros. Depois dessa hora, dizia, era
maior o trabalho de tirar a roupa e
vesti-la de novo do que o prazer de um amor de galo. De maneira que a contaminação da roupa só
podia ocorrer em alguma das visitas médicas, ou em qualquer momento escamoteado a suas
noites de xadrez e cinema. Isso era difícil de esclarecer, porque ao contrário de tantas amigas suas, Fermina
Daza era demasiado orgulhosa para espionar o marido, ou pedir a alguém
que o fizesse por ela. O
horário das visitas, que
parecia o mais apropriado para a
infidelidade, era além disso o mais fácil de
vigiar, porque o doutor Juvenal Urbino tinha sempre consigo uma relação minuciosa de cada um
dos clientes, inclusive com a
posição dos honorários, a partir da primeira visita e até que os despedia
deste mundo com uma cruz final e uma frase pelo bem-estar de sua alma.
No fim de três semanas,
Fermina Daza não encontrara o cheiro na roupa durante vários dias,
tornara a encontrá-lo de novo quando menos esperava, e depois o encontrara mais
descarnado que nunca durante vários dias
consecutivos, embora um deles tivesse
sido um domingo de festa
familiar no qual ela e ele não se
haviam separado um instante
que fosse. Uma tarde se encontrou no
gabinete do marido, contra seu costume
e até contra seus desejos, como se não fosse ela e sim
uma
outra que estivesse fazendo
algo que não faria jamais, decifrando com uma
primorosa lupa de Bengala as intricadas
notas de visitas dos últimos meses.
Era a
primeira vez que
entrava sozinha nesse gabinete saturado de vapores de creosoto, atulhado de livros encadernados em peles de animais ignotos, de esmaecidas gravuras de grupos escolares, de pergaminhos honoríficos, de astrolábios
e punhais de fantasia colecionados durante anos. Um santuário secreto que
considerara sempre como a única parte da vida privada
do marido à qual não tinha
acesso por não estar incluída no amor, e
por isso as poucas vezes em que estivera ali tinham sido com ele,
sempre para assuntos fugazes. Não se sentia no
direito de entrar sozinha, menos ainda para escrutínios que não lhe pareciam
decentes. Mas ali estava. Queria
encontrar a verdade, e a buscava com ânsias apenas comparáveis ao terrível temor de encontrá-la, impelida por uma ventania incontrolável mais imperiosa
que sua altivez congênita, ainda mais
imperiosa que sua dignidade: um suplício fascinante.
Não pôde tirar nada a limpo, porque os pacientes do marido, salvo os amigos comuns, eram também parte do seu domínio estanque, pessoas sem identidade
que não se conheciam pela cara e sim pelas dores, não pela cor dos olhos ou as evasivas do coração, e sim pelo tamanho do fígado,
o sarro na língua, os grumos na urina, as alucinações nas noites de
febre. Pessoas que acreditavam no seu
marido, que acreditavam viver graças a ele
quando na realidade viviam para ele e acabavam reduzidas a uma frase escrita por ele do próprio punho e letra no pé do expediente médico: Tranqüilo, Deus está
te esperando na porta. Fermina Daza abandonou o escritório ao fim de duas
horas com a sensação de se haver deixado tentar pela indecência.
Atiçada pela fantasia, começou a descobrir as mudanças
operadas no marido. Achava-o evasivo, inapetente na mesa e na cama, propenso à exasperação e às réplicas irônicas, e
quando estava em casa. já não era o homem tranqüilo de antes e sim um leão enjaulado. Pela primeira vez desde
que se haviam casado vigiou seus atrasos, controlou-os aos minutos, e lhe pregava mentiras para extrair
verdades, sentindo-se porém ferida de morte
quando ele caía em contradição. Uma noite acordou
sobressaltada por um estado
fantasmagórico, e era que o marido a olhava
na escuridão com olhos que lhe pareceram carregados de ódio. Sofrerá um arrepio semelhante na
flor da juventude, quando via
Florentino Ariza aos pés da cama, só que sua
aparição não era de ódio e sim de amor.
Além disso, desta vez não se tratava de fantasia: o marido estava acordado às duas da madrugada, e se aprumara na cama para
olhá-la adormecida, mas quando ela perguntou
o que fazia, ele negou. Tornou a pôr
a cabeça no travesseiro, e disse:
— Deve ter sido sonho seu.
Depois dessa noite, e por outros episódios semelhantes dessa época em que Fermina Daza não sabia de ciência certa onde acabava a realidade e
onde começava o sonho, teve a revelação deslumbrante de que estava ficando louca. Reparou afinal que o marido não
comungara na quinta-feira de Corpus
Christi, nem em nenhum domingo das últimas semanas, nem encontrara
tempo para os retiros
espirituais do
ano. Quando ela perguntou a que se deviam essas mudanças
insólitas na sua saúde espiritual,
recebeu uma resposta confusa. Esta foi a chave decisiva, porque ele
não deixara de comungar numa data
tão importante desde sua primeira
comunhão aos oito anos. Desse modo viu não só que o marido estava em pecado mortal, como que resolvera
persistir nele, posto que não acudia
aos auxílios do confessor. Jamais imaginara que se pudesse sofrer
tanto por algo que parecia ser o
exato contrário do amor, mas nisso caíra, e resolveu que o único recurso para
não morrer disso era tocar fogo
no ninho de víboras que lhe empeçonhava
as entranhas. Assim foi. Uma tarde começou a cerzir calcanhares de meias no terraço, enquanto o marido
acabava sua leitura diária depois da sesta. De repente, interrompeu o trabalho,
levantou os óculos para a testa, e o interpelou sem o mínimo
tom de dureza:
—
Doutor.
Ele estava mergulhado na leitura de
L'Ile des pingouins, o romance que todo mundo estava lendo naqueles dias, e respondeu sem vir à tona: "Oui.” Ela insistiu:
— Você me olhe na cara.
Ele obedeceu, olhando sem vê-la pela bruma dos óculos de
leitura, mas não precisou tirá-los para
se queimar na brasa do olhar
dela.
—
Que está acontecendo? —
perguntou.
— Você sabe melhor do
que eu — disse ela.
E mais não disse. Abaixou de novo os óculos e continuou cerzindo as meias.
O doutor Juvenal Urbino soube então
que as longas horas de ansiedade
haviam terminado. Ao contrário da forma
em que prefigurava aquele
instante, não houve um abalo sísmico do coração*, e sim um golpe
de paz. Era o grande alívio de que tivesse acontecido mais cedo que tarde aquilo que tarde ou cedo tinha
que acontecer: o fantasma da senhorita
Bárbara Lynch tinha afinal
entrado na casa.
O doutor Juvenal Urbino a conhecera
quatro meses antes, esperando a vez na
consulta externa do Hospital da Misericórdia, e viu logo que algo de irreparável acabava de ocorrer
em seu
destino. Era uma mulata alta, elegante, de ossos
grandes, com a pele da mesma cor e da mesma natureza branda do
melado, vestida aquela manhã com um vestido
vermelho com pintas brancas e um chapéu do mesmo
gênero de abas muito amplas que lhe sombreavam o rosto até as pálpebras. Parecia de um sexo
mais definido do que o resto dos humanos. O doutor Juvenal Urbino
não atendia no serviço externo, mas sempre que passava por ali com sobra de tempo gostava de relembrar aos alunos mais
velhos que não há medicina melhor do que um
bom diagnóstico. De maneira que arrumou um jeito de estar
presente ao exame da mulata imprevista, tratando de ver que os discípulos não lhe notassem
qualquer gesto que não parecesse casual, e mal se deteve nela, mas anotou muito
bem na memória os dados de
sua identidade. Nessa tarde,
depois da última visita, fez o
carro passar pelo endereço que ela dera
na consulta, e lá estava, com efeito, tomando
a fresca de março na varanda.
Era uma típica casa antilhana pintada toda de amarelo até o teto de zinco,
as janelas com toldos e potes de cravos e samambaias pendurados no portal,
e assentada sobre estacas de madeira
no alagado da Má Criação. Um passarinho, um turpial,
cantava na gaiola pendente do beirai.
Na calçada do outro lado havia uma escola primária, e as crianças que saíam em tropel obrigaram o cocheiro a manter as
rédeas firmes para impedir que o cavalo se espantasse.
Foi uma sorte, porque a senhorita Bárbara
Lynch teve tempo de reconhecer
o doutor. Cumprimentou-o com um aceno
de velhos
conhecidos, convidou-o a tomar um café
enquanto se acalmava a desordem, e ele o tomou encantado,
contra seu costume, ouvindo-a falar de si mesma, que era a única coisa que a ele interessava a partir daquela manhã,
e a
única coisa que ia interessar-lhe, sem
um minuto de paz,
nos próximos meses. Certa
ocasião, ele recém-casado, um amigo lhe
dissera na frente da mulher
que mais cedo ou mais tarde teria que se haver com uma paixão
enlouquecedora, capaz de pôr
em risco a estabilidade do seu casamento.
Ele, que julgava conhecer-se a si mesmo, que conhecia a fortaleza de suas raízes
morais, rira do prognóstico. Pois bem: aí estava.
A senhorita
Bárbara Lynch, doutora em teologia, era filha única do reverendo
Jonathan B. Lynch, pastor protestante, preto e seco, que andava de mula pelo
casario indigente do alagado,
pregando a palavra de um dos tantos deuses que o doutor Juvenal Urbino escrevia com minúscula para
diferenciá-los do seu.
Falava um bom castelhano, com uma pedrinha na sintaxe cujos tropeços freqüentes aumentavam sua graça. Ia fazer vinte e oito anos em dezembro,
se divorciara fazia pouco de outro pastor, discípulo do pai, com o qual estivera mal casada dois
anos, e não guardara desejos de reincidir.
Disse: "Meu único amor é o meu turpial." Mas o doutor Urbino era
demasiado sério para achar que ela dissesse
isso com segundas intenções. Pelo contrário: perguntou a si mesmo,
confuso, se tantas facilidades
juntas não seriam uma armadilha de Deus para depois cobrá-las em dobro, o que em seguida
afastou de sua mente como um disparate teológico devido ao seu estado de confusão.
Na hora de se despedir, fez um comentário casual
sobre a consulta médica da manhã, sabendo que nada agrada mais ao doente do que falar dos seus males, e ela foi tão esplêndida falando dos seus que ele
prometeu voltar no dia seguinte, às quatro em ponto, para examiná-la
de maneira mais completa. Ela se assustou:
sabia que um médico daquela
classe estava muito acima das suas possibilidades,
mas ele
a tranqüilizou: "Nesta profissão tratamos de ver que os ricos paguem pelos
pobres." Em seguida anotou em seu caderno de bolso: senhorita Bárbara Lynch, alagado da Má Criação,
sábado, 4 p.m. Meses depois, Fermina
Daza leria aquela ficha aumentada com
os pormenores do diagnóstico, e com a
evolução da enfermidade. O nome lhe chamou
a atenção, e de momento lhe ocorreu que era uma dessas artistas extraviadas dos navios fruteiros de
Nova Orleans, mas o endereço lhe deu
a idéia de que o mais provável é que ela
fosse da Jamaica, e preta, é claro, e a afastou sem cuidados do gosto do marido.
O doutor Juvenal Urbino chegou ao
encontro de sábado dez minutos antes da hora, quando a senhorita Lynch
ainda não tinha acabado de se
vestir para recebê-lo. Desde seus tempos de Paris, quando tinha que se apresentar
a um exame oral, não sentia tamanha tensão. Estendida na cama de linho,
com uma tênue combinação de seda,
a senhorita Lynch era de uma beleza interminável. Tudo nela era grande
e intenso: suas coxas de sereia, a pele a fogo brando, os seios atônitos, as gengivas diáfanas de dentes perfeitos, e todo seu corpo irradiava um vapor de boa saúde
que era o cheiro humano que Fermina
Daza encontrava na roupa do marido.
Tinha ido à consulta externa porque sofria de algo
que chamava com muita graça eólicas
torcidas, e o doutor Urbino achava que era um
sintoma que não se devia encarar com ligeireza. De maneira que apalpou seus órgãos internos com mais intenção do que atenção, e enquanto isso ia esquecendo a própria sabedoria e descobrindo assombrado que aquela criatura de maravilha era tão bela por dentro quanto
por fora, e então se abandonou às
delícias do tato, já não como o médico mais qualificado do litoral caribe, e sim como um
pobre homem de Deus atormentado
pela desordem dos instintos. Só uma vez lhe
acontecera algo assim em sua severa vida profissional, e tinha sido seu dia de maior
vergonha, porque a paciente, indignada, lhe afastou
a mão, sentou na cama, e disse:
"O que o senhor quer pode
acontecer, mas assim não há de ser." A senhorita Lynch, porém, se abandonou
às suas mãos, e quando não teve mais nenhuma dúvida de que o médico já não estava pensando em sua ciência, disse:
— Eu achava que isso não
era permitido pela ética.
Ele estava ensopado de suor, como
se estivesse
saindo vestido de dentro de um tanque,
e secou as mãos e a cara numa toalha.
—
A ética — disse — imagina que nós médicos somos de
ferro. Ela lhe estendeu a mão agradecida.
—
O fato de eu achar uma
coisa não quer dizer que ela não se possa fazer — disse. — Imagine só o que será para uma pobre negra
como eu que preste atenção em mim um homem de
tanta fama.
— Não deixei de pensar em você um
só instante — disse ele.
Foi uma confissão tão trêmula que teria merecido compaixão.
Mas ela
o livrou de todo mal dando uma gargalhada que iluminou o quarto.
—
Isso eu sei desde que vi você na hospital, doutor — disse. — Negra sou, mas bronca não.
Não foi nada fácil. A senhorita
Lynch queria sua honra limpa,
queria segurança e amor, nessa ordem,
e acreditava merecê-los. Deu ao doutor Urbino a oportunidade de seduzi-la, mas sem entrar no quarto ainda que ela
estivesse sozinha na casa. O
mais longe que chegou foi deixar que ele repetisse a cerimônia de apalpação
e auscultação com todas as violações éticas que quisesse, mas sem lhe tirar
a roupa. Ele, de sua parte, não pôde largar a isca uma vez
mordida, e perseverou nos assédios
quase diários. Por
motivos de ordem prática, a relação
continuada com a senhorita Lynch lhe era quase impossível, mas ele era
fraco de mais para se deter a tempo,
como depois também havia de ser para
seguir em frente. Foi seu limite.
O reverendo Lynch não tinha uma vida regular, ia embora a qualquer momento na mula carregada por um lado
de bíblias e folhetos de propaganda evangélica, carregada de provisões por outro lado, e voltava
quando menos se esperava. Outro inconveniente era a escola fronteira, pois as crianças cantavam as lições olhando a rua pelas janelas, e o que melhor viam era a casa da calçada oposta, com portas e janelas
abertas de par em par desde as seis da manhã, e viam
a senhorita Lynch pendurando a gaiola
no beirai para que o turpial
aprendesse as lições cantadas, viam-na
com um turbante colorido a cantá-las ela também com sua brilhante voz caribe enquanto fazia os serviços da casa, e a viam depois sentada na varanda
cantando em inglês os salmos da tarde.
Tinham que escolher uma hora em que não houvesse
crianças, o que deixava duas possibilidades: a pausa do almoço, entre as doze e as duas, que era
quando também o doutor almoçava, ou o final da
tarde, quando as crianças iam para casa.
Esta última foi sempre a hora melhor, mas quando ela soava o doutor já terminara suas
visitas e dispunha de poucos minutos se quisesse
jantar com a família. O terceiro problema, o mais grave para ele,
era sua própria condição. Não podia
ir sem o carro, que era muito conhecido e devia estar sempre à
porta. Teria sido possível fazer o
cocheiro cúmplice, como faziam quase todos os seus
amigos do Clube Social, mas isso estava fora do alcance dos seus costumes. Tanto assim que, quando as visitas à senhorita Lynch se tornaram evidentes demais, o próprio
cocheiro familiar de libré se atreveu a perguntar se não seria melhor voltar mais tarde para
buscá-lo para que o carro não
ficasse tanto tempo estacionado à
porta. O doutor Urbino, numa reação
estranha a seu modo de ser, o cortou de um talho.
— Desde que conheço você, essa é a primeira vez que o ouço dizer uma coisa que não devia — disse. — Pois bem:
dou o dito por não dito.
Não havia solução.
Numa cidade como esta era impossível esconder uma enfermidade enquanto o carro do
médico estivesse parado na porta. Às vezes o próprio médico tomava a iniciativa de ir a pé, se a distância permitisse, ou em
carro de praça, para evitar suposições malignas ou prematuras. Mesmo assim, esses estratagemas de pouco serviam, pois as receitas que se aviavam nas farmácias permitiam decifrar a verdade, a tal ponto
que o doutor Urbino prescrevia remédios falsos
junto com os corretos, para preservar
o direito sagrado dos doentes de morrer
em paz
com o segredo de suas doenças. Também podia justificar de
diversas maneiras honestas a
presença do carro na frente da casa da senhorita
Lynch, mas não por muito tempo,
e menos ainda por tanto quanto
desejaria ele: toda a vida.
O mundo se transformou num inferno.
Pois uma vez saciada a loucura inicial, ambos tomaram consciência
dos riscos, e o doutor Juvenal Urbino não teve nunca a determinação de afrontar o
escândalo. Nos delírios
da
febre prometia tudo, mas
depois que tudo
passava tudo tornava a ficar para depois.
Em compensação, à medida que aumentavam as ânsias de estar com ela aumentava
também o temor de perdê-la, de modo que os encontros foram ficando cada vez mais apressados e difíceis. Não pensava em outra coisa. Esperava as tardes com uma ansiedade insuportável, esquecia
os outros compromissos, esquecia tudo
menos ela, mas à medida que o carro se aproximava do alagado da Má Criação ia rogando a Deus que um
inconveniente de última hora o obrigasse a passar ao largo.
Ia em tal estado de angústia que às vezes se alegrava de ver da esquina a
cabeça algodoada do reverendo Lynch
lendo na varanda, e a na sala, catequizando as crianças do bairro com os Evangelhos cantados. Então ia feliz para
casa para não continuar
desafiando o azar, mas depois se sentia enlouquecer de ansiedade para que
o dia inteiro se transformasse nas cinco da tarde de
todos os dias.
De modo que os amores se tornaram impossíveis quando o carro se tornou notório demais à porta, e no fim de três
meses já não passavam de ridículos. Sem tempo para se dizerem
nada, a senhorita Lynch se metia no quarto logo que via entrar o
amante aturdido. Adotara a precaução
de vestir
uma bata folgada nos dias em que o esperava, um lindo camisolão da Jamaica
com babados de flores coloridas, mas
sem roupa de baixo, sem nada,
acreditando que a facilidade ia ajudá-lo contra o medo. Mas ele desperdiçava tudo que ela fazia para
fazê-lo feliz. Ia atrás dela
ofegante até o quarto, empapado de suor, e entrava estabanado atirando tudo no
chão, a bengala, a maleta de médico, o chapéu panamá, e fazia um amor de
pânico com as calças enroladas nos joelhos,
o paletó abotoado para atrapalhar
menos, com a corrente de
ouro no colete, com os sapatos
calçados, com tudo, e mais inclinado a
ir embora quanto antes do que
a cumprir com seu prazer. Ela ficava em jejum,
mal entrando em seu túnel de
solidão, quando ele já se abotoava de novo, exausto, como se tivesse feito o amor absoluto na linha divisória entre a vida e a morte,
quando na realidade se limitara a fazer aquilo que o ato amoroso tem de façanha física. Mas estava em sua lei: o tempo justo para aplicar uma injeção endovenosa num tratamento de rotina. Então voltava a casa envergonhado de sua debilidade,
com vontade de morrer, maldizendo-se
por não ter a coragem de pedir a
Fermina Daza que lhe arriasse as
calças e o sentasse de bunda num
braseiro. Não jantava, rezava
sem convicção, fingia continuar na
cama a leitura da sesta enquanto a mulher dava
voltas e voltas pela casa pondo o mundo em ordem antes de se deitar. À medida que cabeceava sobre o
livro ia afundando pouco a pouco no mangue inevitável da senhorita Lynch, em sua exalação
de floresta
jacente, sua cama de morrer, e então não conseguia pensar em nada além das cinco menos cinco da tarde de amanhã,
e ela
à sua espera na cama sem nada além do monte de bucha escura embaixo da bata de
louca da Jamaica: o círculo infernal.
Havia já alguns anos que começara a
ter consciência do peso do próprio
corpo. Reconhecia os sintomas. Lera
a respeito deles nos textos, confirmara-os
na vida real, em pacientes mais velhos sem antecedentes
graves que de repente começavam a descrever síndromes
perfeitas que pareciam
tiradas dos livros
de medicina, e que
no entanto se comprovavam imaginárias. Seu professor de clínica infantil de La Salpêtrière o aconselhara a pediatria como a especialidade
mais honesta, porque as crianças só adoecem quando na realidade estão
doentes, e não podem se comunicar com
o médico com palavras convencionais e sim com
sintomas concretos de doenças
reais. Os adultos, em compensação, a
partir de certa idade, ou bem tinham
os sintomas sem as doenças, ou algo
pior: enfermidades graves com sintomas de outras inofensivas.
Ele os entretinha com paliativos, dando
tempo ao tempo, até que aprendiam a não sentir seus
achaques à força de conviver
com eles na lixeira da velhice. Numa coisa nunca pensara o doutor
Juvenal Urbino, e era que um médico da sua idade, que julgava ter visto tudo, não
pudesse superar a inquietação de se sentir doente quando não estava. Ou pior:
não crer que estava, por puro preconceito científico, quando talvez na
realidade estivesse. Já aos quarenta anos, meio a sério meio de troça, dissera
na cátedra: "A única coisa de que
necessito na vida e alguém que me entenda." Mas quando se viu perdido
no labirinto da senhorita Lynch, não havia mais troça no dito.
Todos os sintomas reais ou
imaginários de seus pacientes mais velhos se acumularam em seu corpo. Sentia a forma do fígado
com tal nitidez que podia dizer seu tamanho
sem tocá-lo. Sentia o roncar de gato adormecido dos seus rins, sentia
o brilho cambiante da vesícula, sentia o zumbido do sangue nas artérias. Às vezes amanhecia
como um peixe sem ar para respirar.
Tinha água no coração. Sentia que ele perdia
o passo um instante, sentia que se
atrasavam uma batida como nas
marchas militares do colégio, uma
vez e outra vez, e por fim sentia que
se recuperava porque Deus é grande. Mas em vez de apelar para os mesmos
remédios de distração que
aconselhava aos doentes, estava transido de terror.
Era certo: a única coisa de que
necessitava na vida, também aos cinqüenta e oito anos, era alguém que o entendesse. De maneira que apelou para Fermina Daza, o
ser que mais o amava e ao qual
mais amava neste mundo, e com quem acabava de pôr em paz sua consciência.
Pois isto aconteceu depois que ela o interrompeu na leitura da
tarde para pedir que a, olhasse na cara, e ele teve o primeiro indício de que
seu círculo infernal fora descoberto.
Não entendia como, no entanto,
porque não podia imaginar que Fermina
Daza tivesse encontrado a verdade por puro olfato. De todas as maneiras, e desde muito antes, esta não
era uma cidade boa para se guardar segredos. Pouco tempo depois de instalados os primeiros telefones domésticos, vários casamentos que
pareciam estáveis se acabaram devido a
intrigas de chamadas anônimas, e muitas famílias atemorizadas suspenderam o
serviço ou se negaram a adotá-lo
durante anos. O doutor Urbino sabia que sua
mulher se respeitava demais a si mesma para sequer
admitir uma tentativa de inconfidência anônima por telefone, e não podia imaginar ninguém ousado a ponto de fazê-la em seu próprio nome.
Em compensação, temia o método
antigo: um papel enfiado por baixo da porta
por mão desconhecida podia ser eficaz,
não só por garantir o duplo anonimato do remetente e
destinatário, como porque
sua
estirpe lendária permitia
atribuir-lhe alguma
relação metafísica
com os desígnios da Divina Providência.
Os ciúmes não conheciam sua casa:
durante mais de trinta anos de paz conjugai, o doutor Urbino se havia gabado em público muitas
vezes, e até então tinha sido verdade, de
ser como os fósforos suecos, que só acendem na própria caixa. Mas ignorava qual poderia ser a reação de uma mulher com tanto orgulho quanto a sua, com tanta dignidade e um caráter
tão forte, diante de uma infidelidade comprovada. De maneira que
depois de olhá-la na cara como ela lhe havia pedido,
só
soube baixar de novo o
olhar para dissimular a perturbação,
e continuou se fingindo de extraviado nos doces meandros da ilha de Alça, enquanto pensava no que fazer.
Fermina Daza, de sua parte, também não disse mais nada.
Quando acabou de cerzir as meias, atirou tudo sem qualquer ordem dentro da cesta
de costura, deu na cozinha instruções para o jantar, e se retirou
para o quarto.
Ele já tinha então sua resolução tão bem tomada que às cinco da tarde não
passou pela casa da senhorita Lynch. As promessas de amor
eterno, a ilusão de uma casa
discreta para ela só onde
a pudesse visitar sem sobressaltos, a felicidade sem pressa até a morte, tudo quanto
prometera nas labaredas do amor
ficou cancelado para sempre jamais.
A última coisa que a senhorita Lynch teve dele foi um diadema de esmeraldas que o cocheiro lhe
entregou sem comentários, sem um recado, sem uma nota escrita, e
dentro de uma caixinha envolta em papel de
farmácia para que o próprio cocheiro pensasse que se tratava de
um remédio urgente. Não tornou a vê- la nem por
acaso pelo resto da sua vida, * só Deus soube quanta dor lhe custou essa resolução, e quantas lágrimas de fel teve
que derramar trancado na privada para sobreviver
a seu desastre íntimo. Às
cinco, em vez de ir ao encontro dela, fez perante seu confessor um ato de contrição profunda, e no domingo seguinte comungou com o coração em pedaços, mas com a alma tranqüila.
Na mesma noite da renúncia,
enquanto se despia para dormir, repetiu a Fermina Daza a
amarga ladainha de suas insônias matinais, as pontadas súbitas,
as ânsias de chorar ao entardecer, os
sintomas cifrados do amor escondido
que ele agora lhe contava como se fossem as misérias da velhice. Tinha que
fazê-lo com alguém para não morrer, para não ter que contar a verdade, e no fim das contas aqueles
desabafos se consagravam nos
ritos domésticos do amor. Ela o ouviu com atenção, mas sem olhá-lo, sem dizer nada, enquanto recebia a roupa que ele ia tirando. Cheirava cada peça sem nenhum gesto que denunciasse sua raiva, a enrolava de qualquer
jeito e a jogava na canastra de vime da roupa suja.
Não encontrou o cheiro, mas dava no mesmo:
amanhã será outro dia. Antes de se ajoelhar para rezar diante do pequeno
altar do quarto de dormir, ele concluiu a narrativa de suas penúrias com um suspiro
triste, e sincero, além disso: "Acho que vou morrer." Ela nem pestanejou antes de replicar.
— Seria o melhor
— disse. — Assim ficaremos os dois mais tranqüilos.
Anos antes, na crise de uma doença
perigosa, ele tinha falado na
possibilidade de morrer, e ela
lhe dera a mesma réplica brutal.
O doutor Urbino
a atribuiu à
inclemência
própria das mulheres, graças à qual é possível que a terra continue
girando ao redor do sol, porque ignorava então que ela interpunha sempre uma barreira de raiva para que não lhe notassem
o medo. E, nesse caso, o mais
terrível de todos, que era o medo de ficar
sem ele. Aquela noite, no entanto, lhe desejara a morte com todo o ímpeto de seu coração, e essa certeza o alarmou. Depois sentiu-a soluçar na escuridão, muito devagar, mordendo o travesseiro para que ele
não percebesse. Isto acabou de confundi-lo, porque sabia que ela não chorava com facilidade por nenhuma dor do corpo ou da alma. Só
chorava devido a uma raiva grande,
mais ainda se esta se originava de algum modo em seu terror da culpa, e então quanto mais chorava com
mais raiva ficava, porque não conseguia se perdoar
pela fraqueza de chorar. Ele não se atreveu a consolá-la, sabendo que teria
sido como consolar uma tigresa varada por uma lança, nem teve
coragem para lhe dizer que os motivos do seu pranto tinham desaparecido essa tarde, e tinham sido arrancados pela
raiz, e para sempre, até de sua memória.
O cansaço o venceu por uns minutos. Quando acordou, ela acendera sua tênue lâmpada de cabeceira e continuava com os olhos abertos mas sem chorar. Algo definitivo tinha acontecido com ela enquanto ele dormia: os sedimentos acumulados no fundo da sua idade através de tantos anos tinham sido revolvidos pelo suplício do ciúme, e tinham vindo à tona, e a haviam
envelhecido num instante. Impressionado por suas rugas instantâneas, seus lábios
murchos, as cinzas do seu cabelo, ele se arriscou
a dizer que ela tentasse dormir: passava das duas. Ela falou sem olhar para ele,
mas já sem traço de raiva na voz, quase com mansidão.
—
Tenho o direito de saber quem é — disse.
E então ele contou tudo,
sentindo que tirava de cima de
si o peso do mundo,
porque estava convencido de que ela sabia e só lhe faltava confirmar
os pormenores. Mas não era assim, é
claro, de maneira que enquanto ele falava ela voltou a chorar, não com soluços
tímidos como no começo, e sim com
umas lágrimas soltas e salobras que lhe escorriam pelo rosto, è lhe ardiam na camisola e lhe inflamavam a vida, porque ele não tinha feito o que ela esperava
com a alma por um fio, e era que ele negasse tudo até a morte, que se indignasse com a calúnia, que cagasse aos
gritos nesta sociedade filha de
mãe ordinária que não tinha o menor escrúpulo
em pisotear a honra alheia, e que se mantivesse imperturbável mesmo diante de provas as mais demolidoras da
sua deslealdade: como um homem. Depois, Quando ele contou que tinha estado à tarde com o confessor, teve medo de ficar
cega de raiva. Desde o colégio tinha
a convicção de que gente de igreja carecia de qualquer virtude inspirada por Deus. Esta era uma discrepância
essencial na harmonia da casa, que tinham logrado contornar sem tropeços. Mas que o marido tivesse permitido que o confessor se
imiscuísse a esse ponto numa intimidade que não era apenas dele, mas dela também, era
coisa que ia mais longe do que tudo.
— É como contar a um daqueles ambulantes dos portais — disse.
Para ela era o fim. Tinha
certeza de que sua honra andaria de boca em boca antes que
o marido acabasse de cumprir a
penitência, e o sentimento de humilhação
que isso lhe causava era muito menos suportável do que a vergonha e a raiva e a injustiça da infidelidade. E o pior de tudo, porra: com uma preta. Ele corrigiu:- "Mulata." Mas a essa altura toda precisão era de sobra: ela
havia acabado.
— É a mesma praga
— disse — e só agora eu entendo: era cheiro de preta.
Isto foi numa segunda-feira. Na sexta às sete da noite,
Fermina Daza embarcou no naviozinho regular de São João da Ciénaga, levando
só um
baú, em companhia da afilhada
e com o rosto coberto por uma mantilha para
evitar perguntas e evitar que fossem feitas ao marido. O doutor Juvenal Urbino
não foi ao porto, por acordo de
ambos, depois de uma exaustiva conversa de três dias, na qual decidiram que ela fosse
para a fazenda da prima Hildebranda Sánchez, na povoação de Flores
de Maria, com tempo bastante para refletirem
antes de tomar uma resolução final. Os filhos a
aceitaram, sem conhecer os motivos, como uma viagem muitas vezes adiada que eles próprios desejavam há algum
tempo. O doutor Urbino arrumou tudo de forma a que ninguém no seu
mundinho pérfido pudesse fazer especulações
maliciosas, e o fez tão bem que se Florentino Ariza não encontrou nenhuma pista do desaparecimento
de Fermina Daza foi porque na realidade não havia, e não
porque lhe faltassem meios de averiguação. O marido não tinha dúvida de que ela
voltaria a casa logo que a raiva passasse. Mas ela partiu segura de que
a raiva não passaria nunca.
Contudo, em breve ia constatar que essa determinação
exagerada não era tanto fruto do ressentimento
como da saudade. Depois da viagem de
lua-de-mel tinha voltado várias vezes à
Europa, apesar dos dez dias de mar, e
sempre o fizera com tempo de sobra para ser
feliz. Conhecia o mundo,
aprendera a viver e a pensar de outro modo, mas nunca tinha voltado a São João da
Ciénaga depois do frustrado vôo em balão.
O regresso à província da prima
Hildebranda tinha para ela algo de redenção, ainda que tardia. Não passou a pensar assim a partir do seu desastre
matrimonial: vinha de muito antes. A verdade é que a simples idéia de
resgatar suas querências de adolescente a consolava da desdita.
Quando desembarcou com a afilhada em São João
da Ciénaga, apelou para suas
grandes reservas de caráter e
reconheceu a cidade contra todas as
advertências. O chefe civil e militar
da praça,
a quem ia recomendada,
convidou-a a uma volta na vitória
oficial à espera do trem de São Pedro
Alexandrino, aonde ela queria ir para comprovar o que lhe haviam dito, que a cama em que morreu o Libertador era pequena como
a de um menino. Então Fermina
Daza tornou a ver seu povoado grande no pleno marasmo das duas da
tarde. Tornou a ver as ruas que
mais pareciam charcos cobertos de limo, e
tornou a ver as mansões dos
portugueses com seus escudos
heráldicos talhados no pórtico e gelosias de
bronze nas janelas, em cujos salões umbrosos se repetiam sem compaixão os mesmos exercícios de piano
titubeantes e tristes, que sua mãe recém-casada tinha finado às meninas das casas
ricas. Viu a praça deserta uma árvore nas brasas da caliça,
a fileira de coches de fúnebres
com os cavalos dormindo em pé,
o trem amarelo de São Pedro
Alexandrino, e na esquina da igreja velha
viu a casa maior, a mais bela, com um
corredor de arcadas de
pedra esverdeada e um portão de
mosteiro, e a janela do quarto onde ia nascer Álvaro muitos anos depois, quando ela não tivesse
mais memória para se lembrar.
Pensou na tia Escolástica, que continuava buscando sem esperança por céus e
terras, e pensando nela se viu
pensando em Florentino Ariza, com sua roupa de
literato e seu livro de versos embaixo das amendoeiras da pracinha,
coisa que poucas vezes lhe acontecia quando evocava seus anos ingratos do colégio. Depois de muitas voltas não conseguiu reconhecer a antiga casa
familiar, pois onde supunha que
estava só havia um cercado de porcos, e na curva da esquina a rua dos bordéis, com putas do mundo inteiro fazendo a sesta nos portais, pois o correio podia
passar com alguma coisa para elas. Não
era seu povoado.
Desde o princípio do passeio, Fermina Daza tapara a metade do rosto com a mantilha, não por medo de ser reconhecida onde
ninguém podia conhecê-la, e sim devido à vista dos mortos que inchavam
ao sol em todos os cantos, da estação do trem até o cemitério. O chefe
civil e militar da praça lhe disse: "É o cólera.'5 Ela sabia, porque tinha visto os coágulos
brancos na boca dos cadáveres mirrados, mas notou que nenhum tinha o tiro de misericórdia
na nuca, como na época do balão.
— É verdade — disse o oficial. — Também Deus melhora
seus métodos.
A distância entre São João da Ciénaga e o antigo engenho de São Pedro
Alexandrino era de apenas nove léguas, mas o trem amarelo se arrastava o dia inteiro,
porque o maquinista era amigo dos passageiros habituais e estes lhe pediam o favor de parar
de tempos em tempos para
estirar as pernas andando pelos
prados
de golfe da companhia bananeira, e os homens tomavam banho nus nos rios diáfanos e gelados que se precipitavam da serra, e quando sentiam fome
desciam para ordenhar as
vacas soltas no pasto. Fermina Daza chegou aterrorizada, e apenas se concedeu tempo para admirar os tamarineiros homéricos em que o Libertador pendurava sua
rede de moribundo, e para comprovar que a cama em que
morreu, tal como lhe haviam dito, não só era
pequena para um homem de tanta
glória, como inclusive para um
setemesinho. Contudo, outro visitante que parecia saber tudo disse que a cama era uma relíquia falsa, pois a verdade é que tinham deixado o Pai da Pátria
morrer atirado pelos cantos. Fermina Daza ficou tão deprimida com o que viu e ouviu desde que saíra de casa que durante o resto da viagem não se deixou envolver por
lembranças da viagem anterior, como
sonhara fazer, evitando ao contrário passar pelos povoados de suas saudades.
Desta forma os preservou e se preservou a si mesma da desilusão.
Ouvia os acordeões nos atalhos por onde escapava ao desencanto, ouvia os gritos das rinhas de galo, as
salvas de pólvora que tanto podiam ser de guerra
como de pândega, e quando não havia meio de não
atravessar o povoado, tapava o rosto com a mantilha
para
continuar a evocá-lo como era antes.
Uma noite, depois de muito se esquivar
ao passado, chegou à fazenda da prima
Hildebranda, e quando a viu esperando na porta esteve a ponto de desfalecer:
era como se ver a si mesma no
espelho da verdade. Estava gorda e
decrépita, e carregada de filhos
indômitos que não eram do homem que
continuava amando sem esperanças e sim de um militar em uso de boa reforma com quem se casara por despeito e que a amou com loucura. Mas por
dentro do corpo devastado
continuava a mesma. Fermina Daza se recuperou
da impressão com poucos dias de campo e
boas recordações, mas só saiu da fazenda para ir à missa aos
domingos com os netos de suas travessas cúmplices de antanho, rapagões em cavalos magníficos, e moças belas e bem
vestidas, como as mães na mesma idade,
que saíam de pé nas carretas de boi, cantando em coro, até a igreja da missão no fundo do vale. Só passou pelo povoado de Flores de Maria,
onde não estivera na viagem anterior, porque não imaginou que pudesse gostar
dele, mas ao conhecê-lo ficou fascinada. Sua desgraça, ou a do povoado, foi que depois jamais conseguiu
relembrá-lo como era na realidade, e sim
como o imaginava antes de conhecê-lo.
O doutor Juvenal Urbino tomou a decisão de ir ao encontro dela depois de
receber o informe do bispo de
Riohacha. Sua conclusão foi que
a demora da esposa não se devia ao fato de que não queria voltar e sim que
não sabia como contornar o orgulho. Por isso
partiu sem avisá-la, depois de uma troca de cartas com Hildebranda, das quais concluiu com clareza que as
saudades da esposa se haviam invertido: agora só pensava em
sua casa. Fermina Daza estava
na cozinha às onze da manhã, preparando berinjelas recheadas, quando ouviu o grito dos peões, os relinchos, os disparos para o ar, e depois os passos resolutos no saguão, e a voz do homem:
— Mais vale chegar a tempo do que
ser
convidado.
Pensou que fosse morrer de alegria.
Sem tempo para pensar, lavou as mãos
de qualquer jeito, murmurando: "Graças, Deus
meu, graças, como és bom", pensando que ainda não tinha
tomado banho devido às malditas berinjelas que Hildebranda lhe pedira sem dizer quem é que
vinha almoçar, pensando que estava tão velha e
feia, e com o rosto tão descascado
pelo sol, que ele ia se arrepender de ter vindo quando a visse em tal estado, maldita seja. Mas
enxugou as mãos como pôde no
avental, arrumou a aparência como pôde, apelou para toda a altivez com que a mãe a pusera no mundo para botar ordem no coração enlouquecido, e foi ao encontro do homem com seu
doce andar de corça, a cabeça
erguida, o olhar lúcido, o nariz de guerra,
e grata ao seu destino pelo alívio imenso de
voltar para casa, embora com menos facilidade do que acreditava ele, diga-se
logo, porque partia feliz com ele, diga-se logo, mas também resolvida a lhe cobrar em silêncio os sofrimentos amargos que lhe haviam acabado com a vida.
Quase dois anos depois do desaparecimento de Fermina
Daza, aconteceu um desses acasos
impossíveis que Trânsito Ariza teria qualificado como uma brincadeira de Deus.
Fiorentino Ariza não se deixara
impressionar de modo especial
pela invenção do cinema, mas Leona Cassiani o levou sem
resistência à estréia espetacular
de Cabiria, cuja publicidade se baseava nos diálogos escritos pelo poeta
Gabriel D'Annunzio. O grande pátio a
céu aberto do senhor Galileo Daconte,
onde certas noites se desfrutava mais
o esplendor das estrelas do que
os amores mudos da tela, estava repleto de uma clientela seleta. Leona Cassiani seguia as
peripécias da história com a alma por um fio. Florentino Ariza, em compensação, cabeceava de sono
sob o peso esmagador do drama.
Às suas
costas, uma voz de mulher
pareceu adivinhar seu pensamento:
— Deus meu, isso
dura mais tempo que uma dor!
Foi só o que disse, coibida talvez pela ressonância da sua voz
na penumbra, pois ainda não se impusera
aqui o costume de adornar as fitas mudas com acompanhamento de piano, e na platéia em penumbra só se escutava o sussurro de chuva do
projetor. Florentino Ariza só se lembrava
de Deus
nas situações mais difíceis,
mas desta vez lhe deu graças com toda
sua alma. Pois mesmo vinte braças debaixo da terra
teria reconhecido de pronto aquela
voz de metais surdos que carregava na
alma desde a tarde em que a ouviu
dizer no tapete de folhas amarelas de um parque solitário: "Agora vá embora, e não volte até que
eu lhe
avise." Sabia que estava sentada no assesto atrás do seu, junto
do esposo inevitável, e percebia
sua respiração cálida e bem
medida, e aspirava com amor o ar purificado pela boa saúde do seu alento.
Não a sentiu roída pela traça da morte,
como a imaginava no abatimento dos últimos meses, mas pelo contrário a evocou de novo na sua idade radiante e feliz, com o ventre arredondado
pela semente do primeiro filho debaixo da túnica de
Minerva. Imaginou-a como se a estivesse vendo sem olhar para trás, alheio por completo aos desastres históricos
que transbordavam da tela. Deleitava-
se com os hálitos do perfume de amêndoas que lhe chegava
vindo da
intimidade dela, ansioso por
saber como achava ela que deviam se apaixonar as mulheres do cinema para que seus
amores doessem menos que os da vida. Pouco antes do final, num
clarão de júbilo, percebeu de repente que nunca estivera tanto tempo tão perto de alguém que amava tanto.
Esperou que os outros se levantassem quando se acenderam as luzes. Depois se levantou
sem pressa, voltou-se distraído,
abotoando o colete que sempre abria durante a função,
e os quatro se viram tão perto que teriam que se cumprimentar de todos
os modos, mesmo que algum deles não tivesse querido. Juvenal Urbino cumprimentou
primeiro Leona Cassiani, que conhecia bem, e depois apertou a mão de Florentino Ariza com a gentileza
habitual. Fermina Daza dirigiu a ambos ura sorriso cortês, nada mais do que cortês, mas ainda assim um sorriso de alguém que os vira muitas
vezes, que sabia quem eram, e
que portanto não era preciso que lhe apresentassem.
Leona Cassiani retribuiu com sua graça
mulata. Em compensação, Florentino Ariza não soube
o que fazer, porque ficou atônito ao vê-la.
Era outra. Não havia em sua cara nenhum
indício da terrível
enfermidade da moda, nem de nenhuma outra, e seu corpo conservava ainda o peso e a esbeltez dos
seus
melhores tempos, mas era evidente que os dois últimos anos tinham passado por ela com o rigor de dez mal vividos. O cabelo curto lhe assentava bem, com uma curva
de asa nas faces, mas não era mais cor de mel e sim
de alumínio, e os formosos olhos lanceolados tinham perdido meia
vida de luz por trás de suas lunetas de avó. Florentino Ariza viu-a afastar-se
pelo braço do marido entre a
multidão que abandonava o cinema, e se surpreendeu
de vê-la em lugar público com uma mantilha de
pobre e chinelos de andar em
casa. Mas o que mais o comoveu foi
que o marido teve que agarrá-la pelo
braço para lhe indicar o caminho melhor da saída, e mesmo assim ela calculou
mal a altura e esteve a ponto de cair no degrau da porta.
Florentino Ariza era muito sensível a esses tropeços da idade.
Quando ainda jovem, interrompia a leitura de
versos nos parques para observar
os casais de anciãos que se ajudavam
na travessia da rua, e eram lições de
vida que lhe haviam ajudado a
vislumbrar as leis de sua própria velhice.
Na idade do doutor Juvenal Urbino aquela noite do cinema, os homens floresciam numa espécie
de juventude outonal, pareciam mais dignos com as primeiras cãs, se tornavam engenhosos e sedutores, sobretudo aos olhos das mulheres jovens,
enquanto que suas murchas
esposas tinham que se aferrar ao braço
deles para não tropeçarem até na própria sombra. Poucos anos depois, no
entanto, os maridos despencavam de repente
no precipício de uma velhice infame do corpo e da alma, e então eram as esposas
restabelecidas que tinham de guiá-los pelo braço como cegos de caridade,
sussurrando-lhes ao ouvido, para não
ferir seu orgulho de homens, que reparassem bem que eram três e
não dois os degraus, que havia uma poça
no meio da rua, que esse volume atravessado
na calçada era um mendigo morto,
enquanto os ajudavam a duras penas a
atravessar a rua como se fosse o único vau no último rio da vida.
Florentino Ariza se mirara tantas vezes nesse
espelho que nunca teve tanto
medo da
morte quanto da infame idade
em que Precisasse ter uma mulher a guiá-lo pelo braço. Sabia que nesse dia, e só nesse, teria que
renunciar à esperança de Fermina
Daza.
O encontro lhe afugentou o sono. Em vez de levar Leo na Cassiani no carro, acompanhou-a a pé através da cidade velha, onde seus passos ressoavam como ferraduras da cavalaria sobre as lajes. Às
vezes retalhos de vozes fugidias escapavam dos balcões
abertos, confidencias de alcovas, soluços
de amor ampliados pela acústica fantasmagórica e a fragrância
quente dos jasmins nas vielas adormecidas. Uma vez mais, Florentino Ariza teve
que fazer apelo a todas as suas forças para não revelar a Leona Cassiani seu amor reprimido por Fermina Daza. Caminhavam juntos, com seus passos contados, se amando
sem pressa como noivos velhos, ela pensando nas graças de Cabrera, e ele pensando em sua própria
desgraça. Um homem cantava num balcão da Praça da Alfândega, seu canto se
repetindo por todo o recinto em ecos
encadeados: Quando eu cruzava as ondas
imensas do mar. Na rua dos
Santos de Pedra, bem quando se despedia diante da sua casa, Florentino
Ariza pediu a Leona Cassiani que o convidasse a um conhaque. Era a segunda
vez que
fazia o pedido em
circunstâncias semelhantes. Na primeira, dez anos antes,
ela havia dito: "Se subir
a essa hora você vai ter que
ficar para sempre." Não subiu.
Mas agora teria subido de todas
as maneiras, mesmo que depois tivesse que faltar com a palavra. Não obstante, Leona Cassiani o convidou a subir sem compromissos.
Foi assim que ele se achou
quando menos esperava no santuário de um amor
extinto antes de nascer. Os pais dela
tinham morrido, seu único irmão tinha
feito fortuna em Curaçau, e ela morava
só na antiga casa familiar. Anos
antes, quando ainda não tinha renunciado à esperança de fazê-la sua amante,
Florentino Ariza costumava visitá-la aos domingos com o consentimento dos pais, e às vezes
noite adentro até muito tarde,
e tinha feito tantas contribuições ao
arranjo da casa que acabou por
reconhecê-la como sua. Contudo, aquela
noite depois do cinema teve a
sensação de que a sala de visitas tinha sido purificada de lembranças dele. Os móveis estavam em lugares diferentes, havia outros cromos pendurados nas paredes, e ele
achou que tantas mudanças encarniçadas tinham sido feitas de
propósito para perpetuar a
certeza de que ele jamais
existira. O gato não o reconheceu. Assustado
com a sanha do esquecimento, disse: "Não se lembra
mais de mim." Mas ela lhe respondeu de costas, enquanto servia os conhaques, que se isso
o preocupava podia dormir tranqüilo, porque os gatos não se lembram de
ninguém.
Recostados no sofá, muito
juntos, falaram de si mesmos, do que eram antes de se conhecer certa tarde de quem sabe quando no bonde de burro. Suas vidas transcorriam em escritórios contíguos, e nunca até então
tinham falado de nada que não fosse o trabalho diário. Enquanto
conversavam, Florentino Ariza lhe pôs
a mão na coxa, começou a acariciá-la com seu
suave tato de sedutor curtido,
e ela deixou, mas não retribuiu nem com um
tremor de cortesia. Só quando ele procurou ir mais longe é que ela pegou a mão exploradora e lhe deu um
beijo na palma.
—
Comporte-se bem — disse. — Há muito
tempo descobri que você não é o homem
que procuro.
Quando era muito jovem, um homem forte
e destro, cujo rosto nunca viu, a
derrubara de surpresa no cais, a
desnudara aos tapas, fizera com ela um amor
instantâneo e frenético. Atirada sobre
as pedras, cheia de cortes pelo corpo
todo, ela teria querido que aquele homem ficasse
ali para sempre, para morrer de amor em seus braços. Não lhe vira o rosto,
não lhe ouvira a voz, mas tinha a
certeza de que o reconheceria entre
milhares por sua forma e sua
medida «seu modo de fazer amor.
Desde então, aos que quisessem ouvi-la
dizia: "Se você souber alguma vez de um tipo
grande e forte que violou uma pobre negra da rua no Cais dos ' afogados, um
quinze de outubro por volta das onze e meia noite, diga a ele
onde pode me encontrar." Dizia por puro hábito, e
tinha dito a tantos que já não lhe restavam
esperanças. Florentino Ariza tinha escutado muitas
vezes relato como teria ouvido os
adeuses de um navio na noite. Quando
soaram as duas da madrugada tinham
tomado três conhaques cada um, e ele
sabia, sem dúvida, que não era
o homem
que
ela esperava, e se
alegrou em saber.
— Bravo, leoa — disse indo embora — matamos o tigre.
Não foi só isso que acabou aquela noite. O falso segredo do pavilhão de tísicos lhe roubara
o sono, porque lhe segredara a suspeita inconcebível
de que Fermina Daza era mortal, e
portanto podia morrer antes do marido.
Mas quando a viu tropeçar na saída do cinema,
deu por sua própria conta um passo
mais rumo ao abismo, com a revelação
súbita de que era ele e não ela
aquele que podia morrer primeiro. Foi um
presságio, e dos mais temíveis, porque
se apoiava na realidade. Para trás
haviam ficado os anos da espera imóvel, das
esperanças venturosas, mas no horizonte só se vislumbrava o pélago insondável das doenças imaginárias, as micções gota a gota nas madrugadas de insônia, a morte diária ao entardecer. Pensou que cada
um dos instantes do dia, que antes tinham sido mais do que seus
aliados, seus cúmplices
juramentados, começavam a conspirar do lado oposto. Poucos anos antes acudira a um encontro aventuroso com o coração
oprimido pelo terror do risco,
encontrara a porta sem ferrolho e os gonzos acabados de azeitar para que ele entrasse sem ruído, mas se arrependeu no último instante,
por temor de causar a uma mulher alheia e serviçal o prejuízo irreparável de morrer
na cama dela. De maneira que era razoável
pensar que a mulher mais amada sobre a
terra, a quem havia esperado de um
século para o outro sem um suspiro de desencanto, mal teria tempo de lhe tomar o braço
através de uma rua de túmulos lunares e canteiros de papoulas desordenadas pelo vento, para ajudá-lo a chegar são e salvo à outra
calçada da morte.
A verdade
é que para os critérios de sua época,
Florentino Ariza tinha passado ao largo das lindes
da velhice.
Tinha cinqüenta e seis anos, feitos e bem feitos, e achava que eram também muito bem vividos, por terem sido anos de amor. Mas nenhum homem da época
teria afrontado o ridículo de parecer
jovem na sua idade, ainda que fosse ou acreditasse ser, nem todos teriam tido o atrevimento de confessar sem
pejo que ainda choravam às escondidas devido a uma desfeita do século
anterior. Era uma época ruim para ser
jovem: havia um modo de
se vestir para cada idade, mas o modo da velhice começava pouco depois da adolescência, e durava até a tumba. Era,
mais que uma idade, uma dignidade
social. Os jovens se vestiam
como seus avós, se faziam mais respeitáveis com óculos prematuros, e a bengala era muito bem vista a partir dos trinta anos.
Para as mulheres só havia duas idades: a idade de casar, que não ia além dos vinte e
dois anos, e a idade de ser solteiras eternas: as esquecidas. As outras, as casadas, as mães, as viúvas, as avós, eram uma espécie diferente que não contava a idade em relação
aos anos vividos, e sim em relação ao
tempo que ainda faltava para morrerem.
Florentino Ariza, em compensação, enfrentou as insídias da velhice
com uma temeridade encarniçada, mesmo consciente como era da estranha sorte sua de parecer velho desde muito menino. A
princípio foi uma necessidade. Trânsito Ariza desmanchava e tornava a coser
para ele as roupas que o pai resolvia
jogar no lixo,
por isso freqüentava a escola primária com sobrecasacas que tocavam o chão quando se sentava,
e chapéus ministeriais que afundavam até suas
orelhas, apesar de terem a fôrma reduzida com recheio de algodão. Como além disso usava óculos de míope
desde os cinco anos, e tinha o mesmo cabelo
índio da mãe, que era eriçado e
grosso feito crina de cavalo, seu aspecto não esclarecia nada. Por sorte, depois de tantas desordens governo devido a tantas
guerras civis superpostas, os critérios escolares eram menos seletivos do que antes, e havia a mixórdia de origens e condições sociais nas escolas
públicas. Meninos que ainda não
tinham sido acabados de
criar chegavam às aulas fedendo a pólvora de barricada, com
insígnias e uniformes de oficiais rebeldes ganhos a bala em combates incertos, e com as armas do regulamento bem visíveis no cinto.
Combatiam a tiros por qualquer briga de recreio,
ameaçavam os professores que lhes dessem
nota ruim nos exames, e um deles, estudante do terceiro grau no
colégio La Salle e coronel de milícias reformado, matou com um balaço o irmão João Eremita, prefeito da comunidade, porque disse na aula de catecismo que Deus era membro nato do partido
conservador.
Por outro lado, os filhos das
grandes famílias em desgraça
andavam vestidos de príncipes
antigos, e alguns muito pobres
andavam descalços. Entre tantas raridades vindas
de todas as partes, Florentino Ariza se situava de
todas as maneiras entre os mais raros, mas nem tanto que chamasse demais a atenção. O mais duro que ouviu foi
alguém lhe gritando na rua:
"Quem tem a cara feia e os
bolsos vazios passa a vida a ver navios." De qualquer modo,
aquela indumentária imposta pela
necessidade já era desde então, e continuou sendo pelo resto da vida, a mais adequada à sua índole enigmática e seu caráter sombrio. Quando lhe deram o primeiro cargo importante na
C.F.C., mandou fazer roupas sob medida no mesmo estilo das do pai, a quem evocava como um ancião
morto na venerável idade de Cristo:
trinta e três anos. Assim, Florentino Ariza deu sempre a impressão de ser
muito mais velho do que era. Tanto assim que a faladeira
Brígida Zuleta, uma amante fugaz que
dizia as verdades sem papas na língua, lhe disse desde o primeiro dia
que gostava mais dele quando tirava a roupa, porque nu tinha vinte anos menos. Contudo, remédio nunca encontrou,
primeiro porque seu gosto pessoal não
deixava que se vestisse de outro modo, e segundo porque ninguém sabia como se vestir de mais moço aos vinte anos, a menos que tirasse de novo do armário as
calças curtas e o gorro de marinheiro. Por outro lado, ele próprio
não conseguia escapar à
noção de
velhice do seu tempo, o que tornava apenas natural que
ao ver Fermina Daza tropeçar à saída do cinema
fosse abalado pelo raio pânico de que a puta da morte ia acabar ganhando sem
remédio sua encarniçada guerra de amor.
Até então, sua grande batalha,
travada de peito aberto e perdida sem
glória, tinha sido a da calvície.
Desde que viu os primeiros cabelos que ficavam emaranhados no pente,
percebeu que estava condenado a um inferno
cujo suplício escapa à imaginação dos
que dele não padecem. Resistiu durante
anos. Não houve glostoras nem loções
que não
experimentasse, nem crendice em que não cresse,
nem sacrifício que não suportasse para
defender da devastação voraz cada polegada da cabeça. Decorou as instruções do Almanaque Bristol para a
agricultura, por ouvir alguém dizer
que o crescimento do cabelo tinha
relação direta com os ciclos das colheitas. Abandonou seu barbeiro de toda a
vida, um calvo extremado, e adotou um forasteiro recém- chegado que só cortava cabelo quando a lua entrava em quarto crescente. O novo barbeiro começara a demonstrar que na
realidade tinha a mão fértil, quando se descobriu que era um estuprador de noviças
procurado por várias polícias das Antilhas, e o carregaram arrastando correntes.
Florentino Ariza tinha recortado nessas alturas todos os anúncios para calvos que encontrou nos jornais da bacia do
Caribe, nos quais saíam os
dois retratos juntos do
mesmo homem, primeiro pelado como um melão e depois mais peludo que um leão: antes e depois de usar o
remédio infalível. No fim de seis anos
tinha experimentado cento e setenta e
dois, além de outros métodos
complementares que apareciam no rótulo dos vidros, e a única coisa que conseguiu com um deles foi um eczema do
crânio, urticante e fétido, chamado tinha boreal pelos santarrões da Martinica, porque irradiava um resplendor fosforescente na escuridão.
Recorreu por último a tudo
quanto era erva de índio apregoada no
mercado, e a todos os específicos mágicos e poções orientais que se vendiam no Portal dos Escrivães, mas
quando deu o balanço das fraudes já
ostentava uma tonsura de santo. No ano zero, enquanto a guerra civil dos Mil Dias dessangrava o país, passou pela cidade um
italiano que fabricava perucas de cabelo natural sob medida. Custavam uma fortuna, e o fabricante não se responsabilizava por nada depois de três meses
de uso, mas foram poucos os calvos solventes
que não cederam à tentação. Florentino Ariza foi um dos primeiros.
Experimentou uma peruca tão parecida
com seu cabelo original que ele mesmo
temia que se arrepiasse com mudanças de humor,
mas não conseguiu assimilar a
idéia de carregar na cabeça os
cabelos de
um morto.
Seu único consolo foi que a avidez da calvície não lhe deu
tempo de
conhecer os próprios cabelos brancos. Um dia um dos
bêbados alegres do cais fluvial o abraçou com mais efusão que de costume quando o viu
sair do escritório, tirou o chapéu
dele entre as troças dos estivadores, e lhe deu um beijo sonoro
na grimpa.
— Careca divino! — gritou.
Nessa noite, aos quarenta e oito anos, mandou cortar as escassas
penugens que lhe restavam na fronte e
na nuca, e assumiu a fundo seu destino de calvo absoluto. A tal
ponto que todas as manhãs antes do banho
cobria de espuma não só o queixo,
como ainda as partes do crânio onde
acaso ameaçassem brotar de novo
pêlos, e punha tudo como nádegas de criança
com a navalha de barba. Até então não tirava o chapéu nem mesmo dentro
do escritório, pois a calvície lhe causava uma sensação de nudez que achava indecente. Mas quando a
assimilou a fundo atribuiu-lhe
virtudes varonis das quais ouvira falar, e que menosprezava
como meras fantasias de calvos. Mais tarde adotou o novo costume de atravessar o crânio com os cabelos
compridos do lado direito
do
repartido, e nunca
mais o abandonou.
Mas ainda
assim continuou usando o chapéu, sempre no mesmo estilo
fúnebre, mesmo depois de se impor
a moda do chapéu de tartarita, que era o nome local do
canotier.
A perda
dos dentes, em compensação, não
tinha sido uma calamidade natural, e sim fruto da incompetência de um dentista ambulante que resolveu aplicar remédios heróicos a uma infecção ordinária. O horror às brocas de pedal
tinha impedido Florentino Ariza de visitar
o dentista apesar de suas contínuas dores de dente, até que não pôde mais
suportá-las. Sua mãe se assustou ao ouvir a noite inteira as queixas inconsoláveis no quarto pegado,
porque achou que eram as mesmas de outros tempos já quase esfumados nas névoas de sua memória, mas
quando o fez abrir a boca para ver onde é que o amor doía, descobriu
que estava cheio de postemas.
Tio Leão XII mandou-o ao doutor
Francis Adonay, um gigante negro de polainas e culotes de montar que
andava nos navios fluviais com um gabinete dentário completo dentro de uns alforjes
de capataz, e mais parecia um caixeiro viajante do terror nos povoados do rio. Com um único olhar dentro da boca, determinou que era preciso tirar de Florentino Ariza até os dentes bons, para pô-lo de uma vez a
salvo de novos percalços. Ao contrário da calvície, aquela cura de burro
não lhe deu nenhuma preocupação, salvo o temor
natural do massacre sem anestesia. Tampouco
lhe desgostou a idéia da dentadura postiça, primeiro porque uma das nostalgias
da sua
infância era a lembrança de um mágico de
feira que arrancava de si as
duas mandíbulas e as deixava falando sozinhas numa
mesa, e segundo porque punha fim às dores de dente que o haviam atormentado desde menino, quase tanto e com
tanta crueldade quanto as dores de amor. Não
lhe pareceu um golpe manhoso da velhice,
como havia de lhe parecer a calvície, porque estava
convencido de que, apesar do odor acre
da borracha vulcanizada, sua aparência seria mais limpa com um sorriso ortopédico. De maneira que se submeteu
sem resistência às tenazes incandescentes do doutor Adonay, e suportou
a convalescença com um estoicismo
de burro de carga.
Tio Leão XII se ocupou dos detalhes da operação como se fosse em sua própria carne. Tinha um interesse
singular pelas dentaduras postiças, contraído numa de suas primeiras navegações pelo rio Madalena,
e por culpa de sua dedicação maníaca ao bel canto. Numa
noite de lua cheia, à altura do porto
de Gamarra, apostou com um agrimensor
alemão que era capaz de despertar as criaturas da selva cantando uma romança napolitana do passadiço
do comandante. Por pouco não ganhou. Nas trevas do rio sentia-se o voejar das garças
nos pântanos, o rabear dos jacarés,
o pavor das savelhas procurando saltar em
terra firme, mas na nota culminante, quando se receou que as artérias do cantor
se fossem
romper com a potência do canto,
a dentadura postiça lhe saltou da boca com o alento final, e afundou nas águas.
O navio teve que demorar três dias
no porto de Tenerife, enquanto lhe faziam outra dentadura de emergência. Ficou perfeita. Mas na
navegação de volta, tratando
de
explicar ao comandante como
perdera a dentadura anterior, tio Leão XII aspirou a pleno pulmão o ar ardente da selva, deu a nota mais alta de que foi
capaz, susteve- a até o último alento procurando espantar os
jacarés deitados ao sol que
contemplavam sem pestanejar a
passagem do navio, e também a
dentadura nova afundou na corrente. Desde então teve cópias de dentes
por toda parte, em diferentes lugares da casa, na gaveta da escrivaninha, e uma em cada um dos três navios da empresa. Além disso, quando comia fora de casa costumava levar uma sobressalente no bolso dentro de uma caixinha
de pastilhas para a tosse, porque uma se partira quando ele comia torresmos num almoço campestre. Temendo que o sobrinho fosse vítima de sobres saltos semelhantes, tio4Leão
XII mandou que o doutor Adonay lhe fizesse de uma só vez duas dentaduras: uma de materiais baratos, para
uso diário no escritório, e
outra para os domingos e feriados,
com uma chispa de ouro no dente do sorriso,
para lhe imprimir um toque
adicional de verdade. Por fim, num Domingo
de Ramos alvoroçado por sinos de festa, Florentino Ariza voltou à rua com uma identidade nova, cujo sorriso sem jaça lhe
deu a impressão de que alguém
diferente dele tinha ocupado seu lugar
no mundo.
Isto foi pela época em
que morreu sua mãe e Florentino
Ariza ficou só na casa. Era um rincão adequado ao seu modo de
amar, porque a rua era discreta, não obstante o fato de que
as tantas janelas de seu nome fizessem
pensar em demasiados olhos por trás das cortinas. Mas tudo isso tinha
sido feito para que Fermina Daza fosse feliz, e ela
só, de maneira que Florentino Ariza preferiu perder muitas oportunidades durante seus anos mais fecundos a macular a
casa com
outros amores. Por sorte, cada degrau
que escalava na C.F.C. implicava novos privilégios, sobretudo privilégios secretos, e um dos mais úteis para ele
foi a possibilidade de usar os escritórios durante a noite, ou aos domingos e feriados,
com a complacência dos zeladores. Uma vez, quando era vice-presidente,
estava fazendo um amor de emergência com uma das moças do serviço dominical, ele sentado numa cadeira de escrivaninha,
e ela acavalada sobre ele, quando de repente se abriu a
porta. Tio Leão XII avançou a cabeça, como se
tivesse errado de porta, e
ficou olhando por cima dos óculos o
sobrinho aterrorizado. "Porra!", disse o tio sem o menor espanto.
"A mesma mania que tinha o seu pai!" E antes de fechar
de novo a porta, a vista perdida no vácuo, disse:
— Quanto à senhorita, continue, não se vexe. Dou minha palavra
de honra que nem vi seu rosto.
Não se voltou a falar no assunto, mas no escritório de Florentino
Ariza foi impossível trabalhar na semana seguinte. Os eletricistas entraram
segunda-feira em tropel para instalar um ventilador de pás no teto baixo. Os serralheiros
chegaram sem aviso, e armaram um escândalo de guerra pondo um ferrolho na porta para que se pudesse
fechá-la por dentro. Os carpinteiros tomaram medidas sem dizer para quê, os tapeceiros levaram amostras de cretones para ver se combinavam
com a cor das paredes, e na semana seguinte tiveram que meter pela janela, pois não cabia pelas portas,
um enorme sofá matrimonial com estampados de flores dionisíacas.
Trabalhavam nas
horas menos plausíveis, com uma impertinência que não parecia casual, e para quem
quer que protestasse tinham a mesma resposta:
"Ordem da direção geral."
Florentino Ariza nunca soube se semelhante intromissão foi uma amabilidade
do tio, velando por seus amores descarrilados, ou se era uma
maneira muito sua de fazê-lo
ver sua conduta abusiva. A verdade não lhe ocorreu, e era que tio Leão XII o estimulava porque a ele também
chegara o rumor de que o sobrinho tinha costumes diferentes dos da maioria dos homens, e isto o atormentava como um obstáculo para fazê-lo
seu
sucessor.
Ao contrário do
irmão, Leão XII Loayza tinha tido um casamento
estável que durou sessenta anos, e
sempre se vangloriou de não ter trabalhado domingo. Tivera
quatro filhos e uma filha,
e a todos quis preparar para herdeiros
do seu império, mas a vida o confrontou com uma dessas casualidades que eram de uso corrente nos romances do seu tempo, e nas
quais ninguém acreditava na vida real:
os quatro filhos tinham morrido, um atrás do
outro, à medida que escalavam posições de
mando, e a filha carecia por
completo de vocação fluvial, e
preferiu morrer contemplando os navios do Hudson
de uma
janela a cinqüenta metros de altura.
Tanto foi assim que não faltou quem desse como certa a patranha de que Florentino Ariza, com seu aspecto sinistro e seu guarda-chuva de vampiro, tinha feito alguma
coisa para que sucedessem tantas casualidades juntas.
Quando o tio se aposentou contra a vontade, por
prescrição médica, Florentino Ariza começou a sacrificar de bom grado
alguns amores dominicais. Acompanhava-
o ao seu refúgio campestre, a bordo de um dos primeiros automóveis que se viram na cidade, cuja manivela de arranque tinha tal força de retrocesso que destroncara o braço do primeiro chofer. Falavam durante horas, o velho
na rede que tinha seu nome bordado
em fios de seda, longe de tudo e de
costas para o mar, numa antiga fazenda de escravos de cujos
terraços floridos de astromélias se viam à tarde as cristas nevadas da serra. Sempre tinha sido difícil que
Florentino Ariza e o tio falassem de algo que não fosse a navegação fluvial, e
continuou sendo naquelas tardes lentas, nas
quais a morte foi sempre um convidado invisível. Uma das preocupações recorrentes de tio
Leão XII era que a navegação fluvial não
passasse às mãos dos empresários do interior vinculados aos consórcios europeus. "Este foi sempre um negócio de matacongos", dizia em seu jargão.
"Se caí na mão dos cachaços estes tornam a dá-lo de presente aos
alemães." Sua preocupação resultava de uma convicção política que gostava de repetir mesmo que não viesse ao caso.
— Vou fazer cem anos, e já vi mudar tudo, até a posição dos astros no universo, mas ainda não vi mudar nada neste país — dizia. — Aqui se fazem novas constituições, novas leis, novas
guerras cada três meses, mas continuamos na Colônia.
A seus
irmãos maçons que atribuíam todos os males
ao malogro do federalismo,
respondia sempre: "A guerra dos Mil Dias
se perdeu vinte e três anos antes, na
guerra de 76." Florentino Ariza, cuja indiferença política tocava as
raias do
absoluto,
ouvia
estas arengas cada vez mais freqüentes como se ouvisse o rumor
do mar. Em compensação, era um contestador severo quanto a política da empresa. Contra o critério do tio, achava que o atraso da navegação fluvial, que sempre parecia à beira do desastre, só podia se remediar com a renúncia espontânea ao
monopólio dos navios a vapor, concedido pelo Congresso Nacional à Companhia
Fluvial do Caribe por noventa e nove
anos e um dia. O tio protestava:
"Quem te mete estas idéias na
cabeça é minha xará Leona com suas tramas de anarquista." Mas só era
certo em parte. Florentino Ariza
fundamentava suas razões na
experiência do comodoro alemão João
B. Elbers, que destroçara seu nobre engenho com o exagero de sua ambição
pessoal. O tio achava, em compensação,
que o malogro de Elbers não resultará
dos seus privilégios, e sim dos compromissos pouco realistas
que contraíra ao mesmo tempo, e
que tinham sido quase como chamar a si a
responsabilidade pela geografia nacional: assumiu
a responsabilidade de manter a
navegabilidade do rio, as instalações
portuárias, as vias terrestres de acesso, os meios de transporte. Além do mais, dizia, a oposição virulenta do presidente Simão Bolívar não foi
obstáculo de fazer ninguém rir.
A maioria dos sócios encarava essas disputas como brigas
matrimoniais, nas quais ambos os lados
têm razão. A teimosia do velho parecia
a eles natural, não porque a velhice
o tornasse menos visionário do que
sempre fora, o que se dizia com demasiada facilidade, mas porque a
renúncia ao monopólio devia ser para ele
como jogar no lixo os troféus de uma batalha
histórica que ele e os irmãos tinham
travado sozinhos nos tempos heróicos,
contra adversários poderosos do mundo
inteiro. Por isso ninguém o contrariou quando amarrou seus direitos de tal modo que ninguém podia
tocar neles antes de sua extinção
legal. Mas de repente, quando
Florentino Ariza já depusera as armas nas tardes de meditação da fazenda,
tio Leão XII deu seu consentimento para a renúncia ao privilégio centenário, com a única e
respeitável condição de que não se fizesse
antes da sua morte.
Foi seu ato final. Não tornou a falar de negócios, nem permitiu
sequer que lhe fizessem consultas, nem perdeu
um só
cacho de sua esplêndida cabeça imperial, nem um átimo de
sua lucidez, mas fez o possível para não
ser visto por ninguém que pudesse ter
pena dele. Passava os dias contemplando do terraço
as neves perpétuas, balançando-se muito devagar numa cadeira de balanço vienense, junto
de uma mesinha
onde as criadas mantinham
sempre quente um bule de café puro e um copo d'água de bicarbonato com duas dentaduras postiças,
que agora só colocava para receber visitas. Via muito poucos amigos, e só falava de
um passado tão remoto que era muito anterior à navegação fluvial. Contudo, adotou um tema novo:
o desejo de que Florentino Ariza se casasse. Exprimiu-o várias vezes, e
sempre da mesma forma.
— Se eu tivesse cinqüenta
anos menos — dizia — me casava
com a xará Leona.
Não posso imaginar uma esposa melhor.
Florentino Ariza estremecia com a idéia de que
seu trabalho de tantos anos se
frustrasse
à última hora por esta condição
imprevista. Teria preferido renunciar, atirar tudo pela janela, morrer, a
falhar a Fermina Daza. Por sorte, tio Leão XII não insistiu. Quando fez noventa
e dois anos reconheceu o sobrinho como
herdeiro único, e se retirou da empresa.
Seis meses depois, por acordo unânime dos sócios, Florentino Ariza foi nomeado
Presidente da Junta Diretora e
Diretor Geral. No dia em que
tomou posse do cargo, depois da taça
de champanha, o velho leão em
retiro pediu desculpas por falar sem se levantar da cadeira de balanço,
e improvisou um breve discurso que
mais pareceu uma elegia. Disse que sua
vida tinha começado e terminava com dois
acontecimentos providenciais. O primeiro foi que o Libertador o carregara nos braços, na povoação de Turbaco, quando ia em sua desditosa
viagem rumo à morte. A outra tinha
sido encontrar, contra todos os obstáculos que o destino lhe interpusera, um sucessor digno da sua empresa. No final, procurando
desdramatizar o drama, concluiu:
— A única frustração que levo desta vida é a de ter cantado em tantos
enterros, menos no meu.
Para fechar o ato, cantou a ária E Lucevan le Stelle, da Tosca. Cantou
a capella, como gostava mais, e ainda com voz firme.
Florentino Ariza se comoveu, o
que apenas deixou transparecer no tremor dá voz
com que apresentou seus agradecimentos.
Tal como tinha feito e pensado tudo que tinha feito e pensado na vida, chegava ao cume sem qualquer
causa que não fosse a determinação encarniçada
de estar vivo e em bom estado de saúde no momento de assumir
seu destino à sombra de Fermina Daza.
Contudo, não foi só a
lembrança dela que o acompanhou aquela noite na festa que lhe ofereceu Leona Cassiani. Acompanhou-o a
lembrança de todas: tanto as que
dormiam nos cemitérios, pensando nele através das rosas que semeava em cima
delas, como as que ainda apoiavam a cabeça no mesmo
travesseiro em que dormia o
marido com os cornos dourados sob a lua. À falta de uma desejou estar com
todas ao mesmo tempo, como sempre que ficava assustado. Pois mesmo em
suas épocas mais difíceis e nos momentos
piores, tinha mantido algum vínculo, por frágil que fosse, com as incontáveis amantes de tantos anos: sempre seguiu o fio de suas
vidas.
Assim, aquela noite se lembrou de
Rosalba, a mais antiga de todas,
a que
guardou o troféu da sua virgindade,
cuja lembrança continuava a lhe doer
como no primeiro dia. Bastava fechar os
olhos para vê-la com a roupa de musselina e o chapéu de grandes
fitas de seda, balançando a gaiola do menino
no convés do navio. Várias vezes nos anos numerosos da sua idade
aprontou tudo para ir
procurá-la sem sequer saber onde, sem saber seu
sobrenome, sem saber se
era a ela que procurava, mas
certo de encontrá-la em algum lugar entre florestas de orquídeas.
A cada vez, devido a um inconveniente real de última
hora, ou por uma falha intempestiva da sua vontade, a viagem era adiada quando já estavam a ponto de recolher
a escada do
navio: sempre por um motivo que tinha algo a ver com Fermina Daza.
Lembrou-se da viúva de Nazaret, a
única com quem profanou a casa materna
da Rua das Janelas, embora não tivesse
sido ele e sim Trânsito Ariza quem a fez entrar.
Consagrou a ela mais compreensão que
a outra qualquer, por ser a única que
irradiava ternura de sobra como se quisesse
substituir Fermina Daza, embora
fosse tão lerda na cama. Mas sua vocação de gata errante, mais indômita que a própria força da sua ternura,
manteve ambos condenados à infidelidade. Contudo, conseguiram ser amantes intermitentes durante quase trinta anos graças à sua divisa de
mosqueteiros: Infiéis, mas não desleais. Foi aliás a
única que levou Florentino Ariza a assumir responsabilidades: quando lhe avisaram que tinha morrido e ia ser enterrada como indigente, enterrou-a à sua custa e
assistiu só ao enterro.
Lembrou-se de outras viúvas amadas. De Prudência Pitre, a mais antiga das sobreviventes, conhecida de todos como a Viúva de Dois, porque era duas vezes. E
da outra Prudência, a viúva de Arellano, a amorosa, que lhe arrancava os botões da roupa para
que ele tivesse que demorar na casa enquanto ela os cosia de novo. E de Josefa, a
viúva de Zúniga, louca de amor
por ele, que esteve a ponto de lhe cortar o bilro com as tesouras de podar,
para que ele não fosse de ninguém embora
não fosse dela.
Lembrou-se de Angeles Alfaro, a efêmera e
a mais amada de todas, que veio por seis meses
ensinar instrumentos de arco na Escola de Música e passava com
ele as noites de lua no terraço de sua casa, como a mãe
a pusera no mundo, tocando as suítes mais
belas de toda a música no violoncelo,
com sua voz de homem
entre suas coxas douradas.
Desde a primeira noite de lua, cada
um fez em pedaços o coração do outro num
amor de principiantes ferozes. Mas Angeles Alfaro foi
como veio, com seu sexo meigo e seu violoncelo de pecadora, num transatlântico sob a
bandeira do esquecimento, e a única coisa que dela restou nos terraços
enluarados foram seus sinais de adeus
com um lenço branco que parecia uma pomba no horizonte, solitária e triste, como nos versos dos Jogos
Florais. Com ela aprendeu Florentino
Ariza o que já padecera muitas vezes sem saber: pode-se estar apaixonado por
várias pessoas ao mesmo tempo, por
todas com a mesma dor, sem trair
nenhuma. Solitário entre a multidão do cais, dissera a si mesmo com um toque de
raiva: "O coração tem mais quartos que uma pensão de putas."
Estava banhado em lágrimas com a dor
dos adeuses. Contudo, mal desaparecera
o navio na linha do horizonte e a lembrança de Fermina Daza tinha voltado a ocupar seu espaço
total.
Lembrou-se de Andréia Varón, diante de cuja
casa passara a semana anterior, mas a luz alaranjada na janela do banheiro advertiu-o de que não podia entrar: alguém tinha
chegado antes. Alguém: homem ou mulher, porque Andréia Varón não se detinha
em minúcias dessa índole nas desordens
do amor.
De todas as da lista era a única que
vivia do seu corpo, mas o administrava a seu
bel-prazer, sem capataz de campo.
Nos seus anos bons tinha feito uma lendária
carreira de cortesã
clandestina, que lhe valeu o nome de guerra de Nossa Senhora de Todos. Enlouqueceu governadores e almirantes, viu
chorar no seu ombro alguns próceres das armas e das letras que não eram tão ilustres
quanto acreditavam ser, e mesmo alguns
que eram. Foi verdade, por outro lado, que o presidente Rafael Reyes, em apenas uma apressada meia hora
entre duas visitas casuais à cidade, estabeleceu
para ela uma pensão vitalícia
por serviços excepcionais prestados ao Ministério
do Tesouro, onde não fora
empregada um só dia. Repartiu suas dádivas de prazer até os limites do corpo, e embora sua conduta imprópria fosse do domínio público, ninguém teria podido exibir
contra ela uma prova terminante, porque
seus cúmplices insignes a
protegeriam como à própria vida,
conscientes de que não era ela e
sim eles
os que mais tinham a perder com o escândalo. Florentino Ariza tinha
violado por ela seu princípio sagrado
de não pagar, e ela violara o
seu de
não fazê-lo grátis nem com o
marido. Tinham ficado de acordo quanto ao preço simbólico de um peso
por vez, mas ela não recebia nem ele entregava,
guardando o dinheiro num porquinho mealheiro até poderem comprar com ele algum engenho
ultramarino no Portal dos Escrivães. Foi ela que atribuiu uma sensualidade
diferente aos clisteres que ele usava
para suas crises de prisão de ventre,
convencendo-o a compartilhá- los, a fazerem juntos as aplicações no transcurso de suas tardes loucas, tratando de inventar ainda mais amor dentro do amor.
Considerava uma sorte que em meio a tantos encontros de aventura, a única que o fez provar
uma gota de amargura foi a tortuosa Sara
Noriega, que terminou seus dias
no manicômio da Divina Pastora,
recitando versos senis de tão desaforada obscenidade que foram
forçados a isolá-la para que não
acabasse de enlouquecer as outras loucas. Contudo,
quando recebeu completa a responsabilidade da
CF.C já não tinha muito tempo nem excesso de ânimo para tentar substituir Fermina Daza por quem fosse:
sabia que era insubstituível. Pouco
a pouco tinha caído na rotina de visitar
as já estabelecidas, dormindo com elas enquanto servissem, enquanto fosse possível,
enquanto tivessem vida. No domingo de Pentecostes em que
morreu Juvenal Urbino, só lhe restava uma, uma só, com quatorze anos apenas feitos, e
com tudo que nenhuma outra tinha tido
até então para torná-lo louco de amor.
Chamava-se América Vicuña. Tinha
vindo dois anos antes da localidade
marítima de Porto Pai recomendada
pela família a Florentino Ariza, seu correspondente, com quem tinha um
parentesco sangüíneo reconhecido. Vinha com uma bolsa do governo para fazer
os estudos de professora,
trazendo seu petate e um bauzinho de folha que parecia de boneca, e mal desceu do navio com seus botins brancos e a trança dourada, ele teve o pressentimento atroz de
que iam fazer juntos a sesta
de muitos domingos. Era ainda uma menina em todos os sentidos, com aparelho
nos dentes e raladuras de escola primária nos joelhos, mas ele vislumbrou
de pronto a classe de mulher
que ia ser em breve, e a cultivou para si num lento
ano de sábados de circo, de
domingos de parques com sorvetes, de
tardes infantis com que ganhou sua confiança,
ganhou seu carinho, levando-a pela
mão com uma suave astúcia de avô
bondoso até seu matadouro clandestino.
Para ela foi imediato:
abriram-se as
portas do céu. Explodiu numa eclosão
floral que a deixou flutuando num limbo
de ventura, e foi um estímulo eficaz em seus estudos,
pois se manteve sempre no
primeiro lugar da classe para não perder a saída do fim de semana. Para ele foi o rincão mais abrigado
na enseada da velhice. Depois de tantos anos de amores
calculados, o gosto desabrido da inocência tinha o encanto de uma perversão renovadora.
Coincidiram. Ela se comportava como o que era, uma menina
disposta a descobrir a vida sob a guia de
um homem venerável que
não se espantava com nada, e ele
assumiu consciente o papel que
mais tinha temido na vida: o de noivo
senil. Nunca a identificou com
Fermina Daza, apesar de ser mais do
que fácil a parecença, não só pela
idade, pelo uniforme escolar, pela
trança, pelo andar montanhês, como
pelo caráter altivo e imprevisível. E mais: a idéia da substituição, que tão aliciante tinha sido para sua
mendicidade de amor, se apagou por completo. Gostava dela pelo
que era, e acabou amando-a pelo que era numa
febre de delícias
crepusculares. Foi a única com quem tomou precauções
drásticas contra uma gravidez
acidental. Depois de uma meia dúzia
de encontros, não havia para ambos sonho maior que as tardes dos domingos.
Posto que ele era a única pessoa autorizada a tirá-la do internato, ia buscá-la no Hudson de seis cilindros
da C.F.C., e às vezes arriavam a capota nas tardes sem sol para passear pela praia, ele com o chapéu tétrico, ela morta de
rir, segurando com as duas mãos o gorro de marinheiro do uniforme escolar para que o vento não o
carregasse. Alguém lhe dissera que
não andasse com seu protetor mais do que o indispensável, que não comesse nada que ele tivesse provado nem
ficasse muito perto do seu hálito,
porque a velhice era contagiosa. Mas ela não
se importava. Ambos se mostravam indiferentes ao que se pudesse pensar deles, porque o parentesco
era bem conhecido, e além disso suas idades
extremas os punham
a salvo de qualquer suspicácia.
Acabavam de fazer amor domingo de
Pentecostes, às quatro da tarde, quando começaram os dobres.
Florentino Ariza teve que dominar o sobressalto do coração. Na sua juventude,
o ritual dos dobres estava incluído no preço dos funerais, e só era negado
aos de escassa solenidade. Mas depois de
nossa última guerra, na ponte
dos dois séculos, o regime
conservador consolidou seus costumes coloniais, e as
pompas fúnebres se tornaram tão
dispendiosas que só os mais ricos
podiam pagar. Quando morreu o arcebispo
Dante de Luna, os sinos de
toda a província dobraram durante
nove dias com suas noites, e foi tal o tormento público que o sucessor eliminou
dos funerais o requisito dos
dobres, e os deixou reservados aos mortos mais ilustres. Por isso quando
Florentino Ariza ouviu dobres na
catedral às quatro da tarde
de um domingo de Pentecostes, sentiu-se visitado por um fantasma de suas mocidades perdidas. Nunca imaginou que fossem os dobres por que
tanto havia anelado durante tantos e tantos anos, a partir do domingo em que viu
Fermina Daza grávida de seis meses,
à saída da missa solene.
—
Porra — disse na penumbra. — Tem que ser um tubarão dos graúdos para que dobrem por ele na catedral.
América Vicuña, nua em pêlo, acabou de despertar.
— Deve ser por causa do Pentecostes — disse.
Florentino Ariza não era nem de longe
perito em negócios de igreja, nem voltara à missa desde que tocava violino no coro com um alemão que lhe ensinou além
disso a ciência do telégrafo, e de cujo destino não se teve nunca uma notícia
certa. Mas sabia sem dúvida que os sinos não dobravam pelo Pentecostes. Havia um luto na cidade, sem dúvida,
e ele sabia. Uma comissão de refugiados do Caribe estivera em sua casa aquela manhã com a informação de que Jeremiah de Saint-Amour amanhecera morto em
seu estúdio de fotógrafo. Embora Florentino Ariza não fosse seu
amigo próximo, era de muitos outros refugiados que o convidavam a
seus atos públicos, e sobretudo a seus enterros. Mas estava certo de que
os sinos não dobravam por Jeremiah de Saint-Amour, que era um incrédulo militante e um anarquista empedernido, e que além disso
tinha morrido por sua própria mão.
— Não — disse — dobres assim só podem
ser de
governador para cima.
América Vicuña, com o pálido corpo
atirado pelas raias de luz das persianas
mal fechadas, não tinha idade para pensar na morte. Tinham feito amor depois do almoço e estavam
deitados na vazante da sesta, ambos nus sob o ventilador de pás, cujo zumbido não chegava a ocultar
a crepitação de granizo dos urubus andando
no teto de zinco aquecido. Florentino Ariza a amava
como amara tantas outras mulheres casuais
em sua
longa vida, mas a esta amava
com mais angústia que a outra qualquer porque tinha a certeza de estar
morto de velho quando ela terminasse a escola superior.
O quarto parecia mais um camarote de navio, com as paredes de ripas de madeira muitas
vezes pintadas por cima da pintura
anterior, como os navios, mas o calor era mais intenso que o dos camarotes dos navios do rio às quatro da tarde,
mesmo com o ventilador elétrico
pendurado sobre a cama, devido à reverberação do
telhado metálico. Não era um quarto de
dormir formal e sim um camarote de terra firme mandado
construir por Florentino Ariza atrás dos seus
escritórios da C.F.C., sem propósitos ou pretextos além dos de dispor de
uma boa guarida para seus amores de velho. Nos dias comuns era difícil dormir ali com os gritos dos estivadores e o
estrondo das gruas do porto fluvial,
e os bramidos enormes dos navios no cais. No entanto, para a menina era um paraíso
domingueiro.
No dia de Pentecostes pensavam estar juntos até que ela tivesse que voltar
ao internato, cinco minutos antes do ângeius, mas os dobres fizeram
Florentino Ariza lembrar
sua promessa de assistir ao enterro de Jeremiah de Saint-Amour,
e se
vestiu mais depressa que de costume.
Antes, como sempre, teceu para a
menina a trança solitária que ele mesmo
desfazia antes de fazer amor, e a pôs em cima da mesa para
amarrar o laço dos
sapatos do uniforme, que ela sempre
dava
mal. Ele a ajudava sem malícia e ela o ajudava a ajudá-la como se
fosse um dever: ambos haviam perdido
consciência de suas idades desde os primeiros encontros, e se tratavam com a confiança de dois esposos que já tinham ocultado um do outro
tantas coisas na vida que não tinham
mais quase nada a se dizer.
Os escritórios estavam fechados e
às escuras devido ao dia feriado, e
no cais deserto só havia um navio com as caldeiras apagadas. O bochorno anunciava
chuvas, as primeiras do ano,
mas a transparência do ar e o silêncio dominical do porto pareciam de um mês benigno. Visto dali era mais cru o
mundo do que na penumbra do camarote, e doíam mais os dobres ainda
que não se soubesse por quem eram. Florentino Ariza e a menina desceram ao pátio de salitre que tinha servido de porto negreiro aos espanhóis e onde
havia ainda restos dos instrumentos de pesagem e outros ferros carcomidos do comércio de escravos. O automóvel os
esperava à sombra dos armazéns, e só acordaram o chofer adormecido sobre o volante quando se haviam instalado nos assentos.
O automóvel deu a volta por
trás dos armazéns cercados com arame de galinheiro,
atravessou o espaço do antigo mercado
da baía das Animas onde havia marmanjos quase nus jogando bola, e saiu do porto
fluvial entre uma poeirada ardente. Florentino Ariza tinha certeza de que as homenagens
fúnebres não podiam ser por
Jeremiah de Saint-Amour, mas a insistência dos dobres o fez duvidar. Pôs a mão no ombro do chofer
e perguntou gritando no ouvido dele por quem dobravam os sinos.
—
É por aquele médico da pastora de cabras —
disse o chofer. — Como se chama?
Florentino não precisou pensar para saber de quem falava. No entanto, quando o chofer contou como tinha morrido, a ilusão instantânea se desvaneceu, porque não lhe pareceu
verossímil. Nada parece tanto com uma pessoa
quanto a forma de sua morte, e nenhuma podia parecer menos que esta
com o homem que ele imaginava. Mas era ele mesmo, ainda que parecesse absurdo: o
médico mais velho e mais qualificado da cidade, e um dos seus homens insignes por outros muitos méritos,
tinha morrido com a espinha dorsal despedaçada,
aos oitenta e um anos
de
idade, ao cair de um galho de
mangueira quando procurava pegar um louro.
Tudo que Florentino Ariza fizera
desde que Fermina Daza se casou
fundava-se na esperança desta
notícia. Contudo, chegada a hora, não se
sentiu sacudido pela comoção de triunfo que tantas vezes previra em suas insônias
mas por um golpe de terror: a lucidez fantástica de que ele
podia ser o morto por quem tocavam os sinos. Sentada a seu lado
no automóvel que rodava aos saltos
pelas ruas de pedras, América Vicuña se assustou com a
palidez dele e perguntou o que era. Florentino Ariza pegou a mão dela com a sua mão gelada.
—
Ai, minha
menina — suspirou — eu precisaria
de outros cinqüenta anos para contar a você.
Esqueceu
o enterro de Jeremiah de Saint-Amour.
Deixou a menina na porta do
internato com a
promessa apressada de que voltaria para apanhá-la no sábado seguinte, e mandou que o chofer o levasse
à casa do doutor Juvenal
Urbino. Encontrou um tumulto de automóveis
e carros de aluguel nas ruas
contíguas, e uma multidão de curiosos diante da casa. Os convidados do doutor
Lácides Olivella, que tinham recebido a má notícia
no apogeu da festa, chegavam em tropel.
Não era fácil alguém se mexer dentro da casa por causa da multidão,
mas Florentino Ariza conseguiu abrir
caminho até o quarto principal, se pôs
na ponta dos pés para olhar por cima
dos grupos que bloqueavam a porta, e viu Juvenal Urbino na cama matrimonial
como tinha querido ver desde que ouviu falar
nele pela primeira vez, chafurdando na
indignidade da morte. O carpinteiro
acabava de lhe tomar as medidas para o caixão. A seu lado, ainda com o mesmo vestido
de avó recém-casada que tinha posto para a festa,
Fermina Daza estava absorta e melancólica.
Florentino Ariza tinha prefigurado
aquele momento nos mais ínfimos detalhes desde os dias de juventude em que se consagrou por
completo à causa desse amor temerário. Por ela
ganhara nome e fortuna sem
reparar demais nos métodos,
por ela
cuidara de sua saúde e sua aparência pessoal com um rigor
que não parecia muito varonil a outros homens do seu tempo,
e esperara aquele dia como ninguém teria esperado nada nem ninguém neste mundo: sem um instante de desalento. A comprovação de
que a morte interviera por fim a
seu favor infundiu-lhe a coragem de que
necessitava para reiterar a Fermina
Daza, em sua primeira noite de viúva,
o juramento de sua fidelidade eterna e seu amor para
sempre.
Não negava à sua consciência
que tinha sido um ato irrefletido, sem o menor
sentido do como e do quando, e apressado pelo medo de que a ocasião não se repetisse jamais. Ele o teria preferido e
inclusive o havia imaginado muitas vezes de um modo menos
brutal, mas a sorte não tinha deixado escolha.
Saíra da casa do luto com
a dor de deixar a viúva no mesmo estado de comoção em que estava
ele, mas nada teria podido fazer
para impedi-lo, porque sentia que aquela noite bárbara estava escrita desde sempre no
destino de ambos.
Não voltou a dormir uma noite completa nas duas semanas seguintes. Perguntava-se desesperado onde estaria Fermina Daza sem ele, que estaria pensando, que ia fazer nos anos que lhe ficavam para viver
com a carga de assombro que ele deixara em suas mãos. Sofreu
uma crise de prisão de ventre que
lhe deixou a barriga como um tambor, e teve que recorrer a paliativos
menos indulgentes que as lavagens.
Seus achaques de velho, que ele
suportava melhor que seus contemporâneos porque os conhecia desde
moço, atacaram-no todos
ao mesmo tempo. Quarta-feira
apareceu no escritório depois de uma semana
de faltas, e Leona Cassiani se assustou ao vê-lo em semelhante
estado de palidez e abatimento. Mas ele a tranqüilizou: era uma vez mais a insônia, como sempre, e
tornou a morder a língua para que a verdade não saísse pelas tantas goteiras que tinha no coração. A chuva não lhe deu uma
trégua de sol para
pensar. Passou outra semana irreal,
sem poder se concentrar em nada,
comendo mal e dormindo pior, procurando perceber sinais cifrados que lhe indicassem o caminho da salvação. Mas
a partir da sexta-feira foi invadido por uma placidez
sem motivo que interpretou como
anúncio de que nada de novo ia suceder, de que tudo que fizera na vida tinha sido inútil e não tinha como continuar: era o final. Segunda-feira, no entanto, ao chegar a sua casa da
Rua das Janelas, deparou com uma carta que boiava na água empoçada dentro
do
saguão, e reconheceu de pronto no envelope molhado a caligrafia
imperiosa que tantas mudanças da vida
não tinham conseguido mudar, e até julgou perceber
o perfume noturno das gardênias
murchas, porque o coração já lhe dissera
tudo desde o primeiro assombro: era a carta que tinha esperado, sem um instante de sossego, durante mais
de meio século.
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