ERA INEVITÁVEL: o
cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores
contrariados. O doutor Juvenal Urbino o sentiu
logo que entrou na casa ainda mergulhada em sombras, à qual chegara acudindo a chamado de urgência para se ocupar de um caso
que para ele tinha deixado de ser urgente há muitos anos. O
refugiado antilhano Jeremiah de Saint-Amour,
inválido de guerra, fotógrafo de crianças e seu adversário de xadrez
mais compassivo, se havia posto a
salvo dos tormentos da memória com uma fumigação de cianureto
de ouro.
Encontrou o cadáver coberto com uma manta no catre de campanha onde
sempre dormira, perto de um tamborete com a vasilha que havia
servido para vaporizar o veneno. No
chão, amarrado pela pata ao catre, estava o corpo estendido de um grande dinamarquês preto de peito nevado, e junto a ele estavam as muletas. O quarto sufocante e salpicado de cores,
que servia ao mesmo tempo de alcova laboratório, mal começava a se iluminar com o resplendor do amanhecer na janela aberta, mas era luz bastante para proclamar de pronto
a autoridade da morte. As outras janelas, assim como todas as
frestas do aposento, estavam
amordaçadas com trapos ou seladas com papelão preto, o que aumentava sua densidade opressiva. Havia uma mesa grande atulhada de frascos e vidros bojudos sem
rótulo, e duas vasilhas de estanho
descascado sob um foco de
luz ordinário coberto de papel
vermelho. A terceira vasilha, a
do líquido fixador, era a que estava junto do cadáver.
Havia revistas e jornais velhos em todos
os cantos, pilhas de negativos em placas de vidro, móveis
quebrados, mas tudo estava preservado da
poeira por mãos diligentes. Embora o ar da janela houvesse purificado
o ambiente, ainda persistia para quem soubesse
identificá-lo o rescaldo morno dos amores sem ventura das amêndoas
amargas. O doutor Juvenal Urbino havia pensado mais de uma vez, sem ânimo premonitório, que aquele não era um lugar propício para se morrer na graça
de Deus.
Mas com o tempo acabou por supor que sua
desordem obedecia talvez a uma determinação
cifrada da Divina Providência.
Um comissário de polícia
se havia adiantado com um estudante de medicina muito moço
que fazia sua prática forense no dispensário municipal, e eles é que haviam arejado o aposento e
coberto o cadáver enquanto chegava o doutor Urbino. Ambos o cumprimentaram com uma solenidade que dessa vez tinha mais de condolência que de veneração, pois ninguém ignorava
o grau de sua amizade com Jeremiah de Saint-Amour. O mestre
eminente apertou a
mão de ambos, como jamais deixava de fazer com cada um
de seus alunos antes de começar a aula diária de clínica
geral, e depois segurou a beira da manta
com as pontas do índice e do polegar, como se fosse uma flor, e descobriu o cadáver palmo a palmo
com uma parcimônia sacramentai. Estava
nu em pêlo, teso e torto, com os olhos abertos
e o corpo azul, e parecia cinqüenta anos mais velho
do que na noite anterior.
Tinha as pupilas diáfanas, a barba e
os cabelos amarelados, e o ventre atravessado por uma cicatriz antiga costurada com nós de ensacador. O trabalho das muletas tinha dado uma envergadura de galeote a seu torso e seus braços,
mas as pernas inermes eram as de um órfão.
O doutor Juvenal Urbino o contemplou um instante
com o coração doendo, como poucas vezes nos
longos anos de sua contenda estéril contra a morte.
—
Poltrão — disse a ele. — O
pior já tinha passado.
Voltou a cobri-lo com a manta e recuperou sua postura acadêmica. No ano anterior celebrara seus oitenta com um jubileu oficial de três dias, e no discurso de agradecimento resistiu uma vez mais à
tentação de se aposentar. Havia dito: "Terei tempo de sobra para
descansar quando morrer, mas essa eventualidade
não figura ainda nos meus projetos."
Embora ouvisse cada vez menos
com o ouvido direito e se apoiasse numa bengala com castão de prata para dissimular a incerteza dos seus passos, continuava usando com a
compostura dos seus anos moços o terno
completo de linho com o colete atravessado pela corrente
de ouro. A barba de Pasteur, cor de nácar, e o cabelo da mesma cor,
muito bem alisado e com o repartido
nítido no centro, eram expressões fiéis do seu caráter.
Até onde podia, compensava a erosão cada vez
mais inquietante da memória com notas escritas às carreiras em papeizinhos avulsos, que acabavam por se confundir
em todos os seus bolsos, assim como
os instrumentos, os vidros de remédio, e outras tantas coisas
embaralhadas na maleta atulhada. Não era só
o médico mais antigo e esclarecido da
cidade, como também o homem mais
atilado. Apesar disso, sua sapiência demasiado ostensiva e o modo nada ingênuo que tinha de manejar o poder do próprio
nome acabaram por lhe valer menos
afetos do que merecia.
As instruções ao comissário
e ao praticante foram precisas e rápidas. Não haveria autópsia. O cheiro da casa bastava para determinar que a causa da
morte tinham sido as emanações do cianureto
ativado na vasilha por algum ácido de fotografia,
e Jeremiah de Saint-Amour entendia muito do
assunto para não fazê-lo por acidente. Diante de uma reticência do comissário, deteve-o com uma estocada típica do seu modo de ser: "Não
se esqueça de que sou
eu quem assina o atestado de óbito." O médico jovem ficou
decepcionado: nunca tinha tido a sorte de estudar
os efeitos do cianureto de ouro num cadáver. O doutor Juvenal Urbino tinha
ficado espantado de não havê-lo visto
na Escola de Medicina, mas
compreendeu de pronto ao notar seu rubor fácil e seu sotaque andino: era sem dúvida
um recém-chegado à cidade. Disse: "Não
faltará por aqui algum louco de amor que lhe dê a oportunidade um dia destes."
E só ao dizê-lo percebeu que entre os
incontáveis suicídios que lembrava, aquele era o primeiro com cianureto que não
tinha sido causado por um infortúnio de
amor. Algo se alterou então na sua maneira de falar.
—
Quando encontrá-lo, preste bem atenção — disse ao
praticante: — costumam ter areia no coração.
Em seguida falou com
o comissário como quem fala a um subalterno. Ordenou- lhe que desse um jeito em todas as
instâncias para que o enterro se realizasse nessa mesma tarde e com o maior sigilo. Disse: "Eu falo depois com o prefeito." Sabia que Jeremiah de Saint-Amour era de uma austeridade
primitiva, e que ganhava com sua arte muito mais do que carecia para viver,
de modo que em algumas das gavetas da casa devia haver dinheiro de sobra para
os gastos do enterro.
—
Mas se não o acharem, não
importa — disse. — Eu me encarrego de tudo.
Mandou que se dissesse
aos jornais que o fotógrafo tinha morrido de morte natural, embora achasse que a notícia não lhes interessava de nenhum modo. Disse: "Se for
necessário, falo com o
governador." O comissário, um empregado sério e humilde,
sabia que o rigor cívico do mestre exasperava até seus amigos mais chegados, e estranhava a
facilidade com que saltava por cima dos trâmites legais para apressar
o enterro. Só não acedeu em falar com
o arcebispo para que Jeremiah de Saint-Amour fosse sepultado em terra
consagrada. O comissário, mortificado
com sua própria impertinência, tratou de
se desculpar.
__ Minha idéia é que este homem
era um santo — disse.
—
Era algo ainda mais raro — disse o doutor Urbino:
— um santo ateu. Mas esses assuntos a Deus pertencem.
Remotos, do outro lado da cidade
colonial, se ouviram os sinos da catedral
chamando à missa solene. O doutor
Urbino repôs os óculos de meia-lua com armação de ouro e consultou
o relógio da corrente, que era
quadrado e fino, e sua tampa se abria com uma mola: estava a ponto de perder a missa de Pentecostes.
Na sala havia uma enorme
máquina fotográfica sobre rodas como
as dos jardins públicos, e o telão de um crepúsculo marinho pintado com tintas
artesanais, e as paredes estavam forradas de
retratos de crianças em suas datas
memoráveis: a primeira comunhão, a fantasia de coelho, o aniversário
feliz. O doutor Urbino tinha visto o revestimento paulatino dos muros, ano após ano, durante as cavilações
absortas das tardes de xadrez, e havia pensado muitas vezes com um latejar de desolação
que nessa galeria de retratos casuais estava o germe da cidade
futura, governada e pervertida
por aqueles meninos incertos, e na qual
já não restariam sequer as cinzas de sua glória.
Na escrivaninha, junto a um pote com vários cachimbos de lobo-do-mar, estava o tabuleiro de xadrez com uma partida inconclusa. Apesar de sua pressa
e de seu ânimo sombrio, o doutor Urbino não resistiu à tentação de estudá-la.
Sabia que era a partida da noite
anterior, pois Jeremiah de Saint-Amour
jogava todas as tardes da semana e pelo menos com três adversários diferentes, mas chegava sempre até o
final e guardava depois o tabuleiro e as pedras
em sua caixa, e guardava a caixa numa gaveta da escrivaninha. Sabia que jogava com as peças brancas,
e aquela vez era evidente que ia ser derrotado sem salvação em quatro
jogadas mais. "Se tivesse sido um crime, aqui haveria uma boa
pista", disse a si mesmo. "Só
conheço um homem capaz de
compor esta emboscada de mestre." Não teria podido viver
sem averiguar mais tarde por que aquele soldado indômito,
acostumado a se bater até a última gota de sangue, havia deixado por terminar a guerra final de sua vida.
Às seis da manhã, quando fazia a última ronda, o guarda-noturno tinha visto o letreiro pregado na porta da rua: Entre sem tocar
e avise a polícia. Pouco depois acudiu o comissário com o estudante, e ambos
tinham revistado a casa em busca de alguma
evidência contra o bafo inconfundível das amêndoas
amargas. Mas nos breves minutos que
durou a análise da partida inconclusa, o comissário descobriu
entre os papéis da escrivaninha um envelope dirigido ao doutor Juvenal Urbino, e protegido por tantos selos de
lacre que foi necessário
despedaçá-lo para tirar a carta. O
médico afastou a cortina preta da janela
para ter melhor luz, lançou primeiro um
olhar rápido às onze folhas escritas dos dois lados com uma caligrafia caprichada, e logo que leu o primeiro parágrafo compreendeu que
tinha perdido a comunhão de
Pentecostes. Leu com a
respiração acelerada, voltando atrás em várias
páginas para retomar o fio perdido, e quando terminou parecia
regressar de muito longe e de muito tempo.
Seu abatimento era visível, apesar do esforço
que fazia para ocultá-lo:
tinha nos lábios a mesma coloração
azul do cadáver, e não pôde dominar o tremor dos dedos quando
tornou a dobrar a carta e a guardou
no bolso do colete. Então se lembrou do comissário e do médico jovem, e
sorriu aos dois das brumas do seu abatimento.
— Nada de particular —
disse. — São suas últimas instruções.
Era uma meia verdade, mas eles a acreditaram completa porque ele lhes mandou levantar um ladrilho
solto do pavimento e ali encontraram um
caderno de contas muito usado onde estavam as chaves para abrir o cofre-forte. Não havia tanto dinheiro como pensavam,
mas havia de sobra para os gastos do enterro e para saldar outros compromissos menores. O
doutor Urbino já estava então consciente
de que não conseguiria chegar
à catedral antes do Evangelho.
__ É a terceira vez que perco a missa de domingo
desde que tenho uso de razão
— disse. — Mas Deus entende.
Preferiu por isso demorar
mais uns minutos para deixar
todos os pormenores esclarecidos, embora mal pudesse suportar a ansiedade de compartilhar com sua esposa as confidencias da carta.
Comprometeu-se a avisar os numerosos refugiados
do Caribe que viviam na cidade, caso quisessem render as últimas homenagens a quem se havia
comportado como o mais respeitável de todos,
o mais ativo e radical, mesmo depois de se tornar
demasiado evidente que havia sucumbido à
sedimentação do desencanto.
Também avisaria seus parceiros de xadrez, entre os quais havia tantos
profissionais insignes como artesãos obscuros, e a outros amigos menos assíduos, mas que talvez quisessem assistir
ao enterro. Antes de conhecer
a carta póstuma tinha resolvido que ele era
o primeiro, mas depois de lê-la
não estava mais seguro de nada. De todas as maneiras iam mandar uma coroa de gardênias,
pois podia ser que Jeremiah de Saint-Amour tivesse tido um último minuto de
arrependimento. O enterro seria às cinco, que era a hora propícia nos meses de mais
calor. Se precisassem dele estaria desde as doze na casa de campo do
doutor Lácides Olivella, seu discípulo
amado, que aquele dia celebrava com um almoço de
gala as bodas de prata profissionais.
O doutor Juvenal Urbino tinha uma rotina fácil de seguir,
desde que haviam ficado para trás os
anos tempestuosos dos primeiros
embates, e conseguiu uma respeitabilidade um prestígio que não tinham igual na província. Levantava-se com
os primeiros galos, e a essa hora
começava a tomar seus remédios secretos: brometo de potássio para levantar
o ânimo, salicilatos para as dores
dos ossos em tempo de chuva, gotas
de cravagem de centeio para as
vertigens, beladona para o bom dormir. Tomava alguma coisa a cada hora, sempre às escondidas, porque em sua longa
vida de médico e mestre foi
sempre contrário a receitar paliativos para
a velhice: achava mais fácil
suportar as dores alheias que as próprias. No
bolso levava sempre um cristal
de
cânfora que aspirava fundo quando não tinha ninguém olhando, para se livrar do
medo de tantos remédios misturados.
Permanecia uma hora
no seu gabinete, preparando a aula de clínica geral
que ministrou na Escola de Medicina
todos os dias de segunda a sábado, às
oito em ponto, até a véspera de sua morte.
Era também um leitor atento das novidades
literárias que lhe mandava pelo
correio seu livreiro de Paris,
ou das que lhe despachava de Barcelona seu livreiro local, embora não
acompanhasse a literatura da língua castelhana com tanta atenção
quanto a francesa. De qualquer forma nunca as lia pela manhã e sim depois
da sesta
durante uma hora, e à noite
antes de dormir. Ao deixar o gabinete fazia quinze minutos de
exercícios respiratórios no banheiro, defronte da janela aberta,
respirando sempre para o lado em que cantavam os galos, que era onde
estava o ar novo. Depois tomava banho, cuidava da barba e engomava o bigode num ambiente saturado de água-de-colônia da legítima de Farina Gegenüber, e se vestia de linho branco, com colete e chapéu mole, e botinas de cordovão. Aos oitenta e um anos
conservava o jeito despreocupado e o espírito festivo
de quando voltou de Paris, pouco depois da epidemia grande do cólera morbo, e o cabelo bem penteado com
o repartido no meio continuava
igual ao da juventude, salvo pela
cor metálica. Tomava café em família,
mas com um regime pessoal: uma infusão
de flores de absinto maior,
para o bem-estar do estômago, e uma cabeça de alho cujos
dentes descascava e comia um por um, mastigando-os com método em fatias de
pão caseiro, para prevenir os sufocos do coração. Só em raras ocasiões não tinha depois da aula algum compromisso relacionado com suas iniciativas cívicas, ou com suas milícias católicas, ou
com suas promoções artísticas e sociais.
Almoçava quase sempre em
casa, fazia uma sesta de
dez minutos sentado na varanda do quintal, ouvindo em sonhos as canções das criadas
debaixo da copa das mangueiras, ouvindo os pregões da rua, o fragor de motores com o fedor de óleos da baía, cujos eflúvios esvoaçavam por dentro da
casa nas tardes de calor
como um anjo condenado à podridão. Depois lia durante uma hora os
livros recentes, em especial romances
e estudos históricos, e dava lições de
francês e de canto ao louro doméstico que há anos era uma atração
local. Às quatro saía para visitar os doentes, depois de tomar uma
grande caneca de limonada com gelo. Apesar da idade, resistia
à idéia de receber os pacientes no consultório, continuando a atendê-los nas
respectivas casas, como sempre tinha feito, desde
os tempos em que a cidade era tão doméstica que se podia ir a pé a
qualquer lugar.
Desde que voltara da Europa
pela primeira vez andava no landô familiar com
dois alazões dourados, mas quando este
se tornou imprestável trocou-o por uma
vitória de um cavalo só,
e continuou a usá-la sempre com certo desdém pela moda, nessa época em que as carruagens começavam a desaparecer do mundo e as únicas que ainda perduravam
na cidade só serviam para levar
turistas a passeio e coroas ao cemitério. Embora se negasse a aposentadoria, estava consciente de que
só o chamavam para atender a casos perdidos, mas considerava que isso também era uma forma de especialização.
Era capaz de saber o que tinha um doente
só pelo seu aspecto, e cada vez
desconfiava mais dos medicamentos comerciais e via com
alarme a vulgarização da cirurgia.
Dizia: "O bisturi é a prova maior do fracasso
da medicina." Achava que dentro de um critério
estrito todo remédio era veneno, e que
setenta por cento dos alimentos correntes apressavam a morte.
"De qualquer maneira", costumava dizer em classe, "a pouca medicina que se sabe só a sabem alguns
médicos." De seus entusiasmos juvenis tinha passado a uma posição
que ele mesmo definia como um humanismo
fatalista: "Cada qual é
dono de sua própria morte, e a
única coisa que podemos fazer, chegada a hora, é ajudá-lo a morrer sem medo nem
dor." Mas a despeito
dessas idéias extremadas, que já eram parte
do folclore médico local, seus antigos alunos continuavam a consultá-lo mesmo quando já eram profissionais
estabelecidos, pois reconheciam nele o
que então se chamava olho clínico. De todo modo foi sempre um médico caro e excludente, e sua
clientela se concentrava nas
casas fidalgas do bairro dos Vice-Reis.
Tinha um dia-a-dia tão metódico que a esposa sabia
onde lhe mandar um recado se
surgisse algo urgente no transcorrer da
tarde. Quando moço passava algum
tempo no Café da Paróquia
antes de voltar para casa, e assim aperfeiçoou
seu
xadrez com os cúmplices do sogro
e com alguns refugiados do Caribe.
Mas a partir dos albores do novo século não voltou ao Café da Paróquia e tratou de organizar torneios nacionais
patrocinados pelo Clube Social. Foi por essa
época que chegou Jeremiah de Saint-Amour, já com os joelhos mortos e ainda sem o ofício de fotógrafo de crianças,
e antes de três meses era conhecido de quem quer que soubesse movimentar
um bispo num tabuleiro, porque ninguém conseguira ganhar-lhe uma partida.
Para o doutor Juvenal Urbino foi um encontro
milagroso, num momento em que o xadrez se transformara para ele numa paixão indomável e já não lhe restavam muitos adversários para saciá-la.
Graças a ele, Jeremiah de Saint-Amour pôde ser o
que foi entre nós. O doutor Urbino se
converteu em seu protetor incondicional, em seu fiador
de tudo, sem se dar sequer
trabalho de averiguar quem era, nem
o que fazia, nem de que guerras sem glória
vinha naquele estado de invalidez e
descalabro. Acabou por emprestar- lhe o
dinheiro para que montasse o estúdio de fotógrafo, que Jeremiah de Saint-
Amour pagou com um rigor de pobre soberbo, até o último vintém,
a partir do instante em que retratou o primeiro menino assustado pelo
relâmpago de magnésio.
A causa de tudo
foi o xadrez. A princípio jogavam às sete da noite, depois do jantar, com justas vantagens
para o médico em razão da
superioridade notória do adversário,
mas cada vez com menos vantagens, até que emparelharam. Mais
tarde, quando o senhor Galileo Daconte abriu a primeira sala de cinema, Jeremiah de Saint-Amour foi um dos
seus clientes
mais assíduos, e as partidas de xadrez se
reduziram às noites em que não se estreava nenhuma fita. Nessa altura se havia
tornado tão amigo do médico que este o acompanhava ao cinema, mas sempre sem a
esposa, em parte porque ela não
tinha paciência para seguir o fio
dos enredos difíceis, e em parte porque sempre lhe pareceu, por puro olfato, que Jeremiah de Saint-Amour não era uma boa
companhia para ninguém.
Seu dia diferente
era o domingo. Assistia à missa solene na
catedral, e depois voltava para casa
e ali ficava descansando e lendo na varanda do
quintal. Poucas vezes saía para ver um
doente em dia de guarda,
a menos que fosse de extrema
urgência, e há muitos anos não aceitava nenhum
compromisso social que não fosse quase
obrigatório. Naquele dia de Pentecostes,
por uma coincidência
excepcional, haviam concorrido dois acontecimentos raros: a morte de um amigo
e as bodas de prata de um discípulo eminente. Mesmo assim, em vez de regressar a casa sem rodeios,
como previra depois de atestar a
morte de Jeremiah de Saint-Amour, se deixou arrastar pela curiosidade.
Logo que subiu no
carro fez uma recapitulação rápida da
carta póstuma, e ordenou ao cocheiro que o levasse a um endereço
difícil no antigo bairro dos escravos. Aquela determinação era tão estranha a seus hábitos que o cocheiro quis ter certeza
de que não havia algum erro. Não havia: o endereço era claro, e quem o escrevera tinha motivos de sobra para
conhecê-lo muito bem. O doutor
Urbino voltou então à primeira folha, e
mergulhou outra vez naquele manancial de revelações indesejáveis que teriam podido mudar-lhe a vida, mesmo na sua
idade, se tivesse conseguido convencer a si mesmo de que não eram os delírios de um desenganado.
O humor do céu tinha começado a se descompor desde muito cedo, e estava nublado e fresco,
mas não havia riscos de chuva
antes do meio-dia. Tratando de
encontrar um caminho mais
curto, o cocheiro se meteu pelas ladeiras empedradas da cidade
colonial, e teve que parar muitas vezes para que o cavalo não se espantasse com a desordem dos colégios
e congregações religiosas que voltavam da liturgia
do Pentecostes.
Havia grinaldas de papel nas ruas, músicas e flores, e moças com sombrinhas coloridas e véus de musselina que viam passar a festa dos balcões. Na Praça da Catedral,
onde se distinguia a estátua do
Libertador entre as palmeiras africanas e as novas luminárias de globos, havia um engarrafamento de automóveis à
saída da missa e não restava um lugar
disponível no venerável e barulhento Café
da Paróquia. O único carro de cavalos era o do doutor Urbino, e se diferenciava
dos muito poucos que restavam na cidade porque
mantinha sempre o brilho da capota de charão
e tinha as ferragens de bronze, para que o salitre não as comesse, e as rodas e varais pintados de vermelho
com frisos dourados, como nas noites de gala
da Ópera de Vieña. Além disso, enquanto mesmo as famílias mais cheias de si se conformavam
com cocheiros que ostentassem uma camisa limpa, ele continuava exigindo do seu a libré de veludo soturno e a
cartola de domador de circo, coisas que eram não só anacrônicas como representavam uma falta de misericórdia na
canícula do Caribe.
Apesar do seu amor quase maníaco pela cidade, e de conhecê-la melhor do que ninguém, o doutor Juvenal Urbino tinha tido muito poucas vezes motivo como o daquele domingo para se aventurar sem hesitações
pela mixórdia do antigo bairro
dos escravos. O cocheiro teve que dar muitas voltas e perguntar várias vezes para
encontrar o endereço. O doutor Urbino reconheceu de perto a inércia dos pântanos, seu silêncio fatídico, suas ventosidades de afogado que em tantas
madrugadas de insônia subiam até seu quarto
de envolta
com a fragrância dos jasmins do quintal,
e que ele sentia passar como um vento
de ontem
que nada tinha a ver com sua vida.
Mas aquela pestilência tantas vezes idealizada
pela saudade se converteu numa realidade insuportável quando o carro
começou a dar saltos pelo lodaçal das ruas onde os urubus disputavam entre si os
restos do matadouro arrastados pelo
mar em retirada. Ao contrário da cidade vice-real,
cujas casas eram de alvenaria, ali
eram feitas de madeiras desbotadas e telhados de zinco, assentados em sua maioria sobre estacas para não serem
atingidas pelas cheias das cloacas
a céu aberto herdadas dos espanhóis. Tudo tinha um aspecto miserável e desamparado, mas das tavernas sórdidas saía o trovão de música da pândega sem Deus nem lei do Pentecostes
dos pobres. Quando afinal encontraram o endereço, o carro ia perseguido por maltas
de
meninos nus que troçavam dos atavios teatrais do cocheiro, e que este tinha
que espantar a chicote. O doutor Urbino, preparado
para uma visita confidencial,
compreendeu tarde demais que não
havia candura mais perigosa do que a da sua idade.
O exterior da casa
sem número
não tinha nada que a distinguisse das
menos felizes, salvo a janela
com cortinas de renda e um portão desmontado de alguma igreja antiga. O cocheiro fez soar a aldraba; e só quando comprovou que estava no endereço
correto ajudou o médico a descer do carro.
O portão fora aberto sem barulho, e
na penumbra interior estava uma mulher madura,
vestida de preto absoluto e com uma rosa vermelha
na orelha. Apesar dos seus anos,
que não eram menos de quarenta, continuava sendo uma mulata
altiva, de olhos dourados e cruéis, e o cabelo ajustado
à forma do crânio como um capacete de palha de aço. O doutor Urbino não a reconheceu, embora a tivesse visto várias vezes entre
as nebulosas das partidas de xadrez no estúdio do fotógrafo, e em alguma ocasião lhe havia
receitado uns envelopes de quinina para as febres terças. Estendeu-lhe a mão, e ela a
tomou entre as suas, menos para cumprimentá-lo
do que para ajudá-lo a entrar. A sala tinha o clima e o murmúrio invisível de uma floresta, e estava atulhada de
móveis e objetos primorosos, cada um
em seu lugar natural. O doutor Urbino se lembrou sem amargura da botica de
um antiquário de Paris, numa
segunda feira de outono
do século anterior, no número 26
da rua de Montmartre. A mulher se sentou diante dele e lhe falou
num castelhano difícil.
— Esta é sua casa, doutor —
disse. — Não o esperava tão cedo.
O doutor Urbino se
sentiu denunciado. Observou-a com o coração, observou seu luto intenso,
a dignidade da sua angústia,
e então compreendeu que aquela era uma visita
inútil, porque ela sabia melhor do que
ele tudo quanto estava dito e justificado na carta póstuma de Jeremiah de Saint-Amour. Assim era. Ela o havia acompanhado até muito poucas horas antes da morte, como o havia acompanhado durante meia vida com uma devoção e uma ternura
submissa que se pareciam demais com o amor, e sem
que ninguém o soubesse nesta
sonolenta capital de província
onde eram do domínio público até os
segredos de estado. Tinham se conhecido numa hospedaria de viandantes
de Port-au-Prince, onde ela nascera e ele havia passado seus primeiros
tempos de fugitivo, e o acompanhara até aqui um ano depois para uma visita breve, embora ambos soubessem sem discutir o assunto que vinha para todo o sempre. Ela se ocupava
em manter a limpeza e a ordem do laboratório uma vez por semana, mas nem os
vizinhos que mais maliciavam tudo confundiram as aparências com a verdade,
porque supunham como todo o mundo que
a invalidez de Jeremiah de Saint-Amour não era só de andar. O próprio
doutor Urbino o supunha por
razões médicas bem fundadas, e jamais teria acreditado que tivesse uma
mulher caso ele mesmo não o houvesse revelado na carta. Fosse
como fosse, lhe dava
trabalho entender que dois adultos livres e sem passado, à margem dos preconceitos de uma sociedade fechada
em si mesma, tivessem escolhido o
risco dos amores proibidos. Ela lhe explicou:
"Era seu gosto." Além
disso, a clandestinidade compartilhada com um
homem que nunca tinha sido seu por
completo, e na qual mais de uma vez
conheceram a explosão instantânea da felicidade,
não lhe pareceu uma condição indesejável. Ao contrário: a vida lhe havia demonstrado que talvez fosse exemplar.
Na noite anterior tinham ido ao
cinema, cada um por sua conta e em assentos separados, como iam pelo menos duas vezes por mês desde que
o imigrante italiano senhor Galileo Daconte instalou um salão a céu aberto nas ruínas de um convento do século XVII. Viram uma fita baseada num livro que tinha estado na moda o ano
anterior, e que o doutor Urbino tinha lido com o coração desolado pela barbárie
da guerra: Nada de novo na frente ocidental. Reuniram-se depois no
laboratório, e ela o achou disperso e nostálgico, e
pensou que era por causa das cenas
brutais dos feridos moribundos na lama. Tratando
de distraí-lo convidou-o a
jogar xadrez, e ele tinha aceito para lhe fazer gosto, mas jogava desatento, com as pedras brancas, é claro, até que descobriu
antes dela que ia ser derrotado em quatro jogadas mais, e se rendeu
sem glória. O médico compreendeu
então que o contendor da partida
final tinha sido ela e não o
general Jerônimo Argote, como havia suposto. Murmurou assombrado:
—
Era uma
partida magistral!
Ela insistiu que
o mérito não era seu, e sim que Jeremiah de Saint-Amour, já extraviado pelas brumas da morte, movimentava as peças sem amor. Quando interrompeu a partida, por volta das onze e um quarto,
pois já tinha acabado a música dos
bailes públicos, ele lhe pediu que o
deixasse só. Queria escrever uma carta ao doutor Juvenal Urbino, que
considerava o homem mais respeitável
que havia conhecido, e além disso um amigo
da alma, como gostava de dizer, ainda que a única afinidade de ambos fosse o vício do xadrez entendido como um diálogo da razão e não como uma ciência.
Então ele soube que Jeremiah de Saint-Amour
tinha chegado ao término da agonia, e
que só lhe restava o tempo de vida
necessário para escrever a carta. O
médico não podia acreditar.
—
Mas então você sabia! — exclamou.
Não só sabia,
confirmou ela, como o havia ajudado a carregar o fardo da agonia com o mesmo amor
com que o havia ajudado a descobrir a ventura Porque isso tinham sido seus últimos onze meses: uma cruel agonia.
—
Seu dever era revelá-lo — disse o médico.
—
Eu não podia fazer-lhe essa desfeita — disse
ela, escandalizada: — eu o queria com
todas as forças.
O doutor Urbino, que acreditava ter ouvido tudo, jamais
ouvira nada igual, e dito de forma tão simples.
Olhou-a de frente com os cinco
sentidos para gravá-la na memória como era naquele instante: parecia um ídolo fluvial,
impávida dentro do vestido
preto, com os olhos de cobra e a rosa na orelha. Muito tempo atrás, numa praia solitária do Haiti
onde ambos jaziam nus depois do amor, Jeremiah de Saint- Amour tinha suspirado sem
pensar: "Nunca hei de ser velho."
Ela o interpretou como um propósito heróico de lutar contra
os estragos do tempo, mas ele foi mais explícito: tinha a
determinação irrevogável de acabar
com a vida aos sessenta anos.
De fato os havia completado a 23 de janeiro desse ano, e então tinha marcado como prazo último
a véspera de Pentecostes, que era a festa maior da cidade consagrada
ao culto do Espírito Santo. Não havia nenhum detalhe da noite
anterior que ela não tivesse conhecido de antemão, e falavam
disso com freqüência, descendo juntos a torrente irreparável dos dias que
já nem ele nem ela
podiam deter. Jeremiah de Saint-Amour
amava a vida com uma paixão sem sentido, amava o mar e o amor, amava seu cachorro e ela, e à medida que a data se aproximava ia
sucumbindo ao desespero, como se sua morte não tivesse sido uma decisão própria e
sim um
destino inexorável.
—
Ontem à noite, quando o
deixei só, já não era deste mundo —
disse ela.
Tinha querido levar consigo o cão, mas ele o contemplou cochilando perto das muletas e o acariciou com a ponta dos dedos.
Disse: "Sinto, mas Mister Woodrow Wilson vai comigo." Pediu a ela que o amarrasse pela pata ao catre enquanto ele escrevia, e ela o fez com um nó falso
para que pudesse se soltar. Aquele tinha sido seu único ato de deslealdade, e se justificava
pelo desejo de continuar recordando o
amo nos olhos hibernais do seu cachorro.
Mas o doutor Urbino a interrompeu para contar
que o cachorro não tinha se soltado.
Ela disse: "Então foi porque não
quis." E se alegrou, porque
preferia continuar evocando o amante morto como ele lhe pedira na noite anterior, quando interrompeu a carta
começada e a olhou pela última vez.
—
Lembre de mim como uma
rosa — lhe disse.
Tinha chegado a sua casa
pouco depois da meia-noite.
Estendeu-se na cama fumando, vestida, acendendo um cigarro na guimba do outro
para lhe dar tempo de acabar
a carta que ela sabia longa e
difícil, e pouco antes das três,
quando os cães começaram a uivar, pôs no fogão a água para o café, vestiu-se de luto fechado e cortou no pátio a primeira
rosa da madrugada. O doutor Urbino já
tinha percebido há algum tempo quanto
ia repudiar a lembrança daquela mulher sem redenção, e acreditava conhecer o
motivo: só uma pessoa sem princípios
podia ser tão indulgente com a dor.
Ela lhe deu
mais argumentos até o final da visita.
Não iria ao enterro, pois assim o prometera ao amante, embora o doutor Urbino
julgasse entender o contrário num trecho da carta. Não ia
derramar uma lágrima, não ia esbanjar
o resto de seus anos se cozinhando em fogo lento
no caldo de larvas da memória, não ia sepultar-se em vida a costurar sua mortalha dentro de quatro
paredes, como era tão bem visto que o fizessem as viúvas nativas. Pensava vender
a casa de Jeremiah de Saint-Amour, que desde agora era sua com tudo que continha, tal como disposto
na carta, e continuaria vivendo como sempre e sem
se queixar de nada neste
morredouro de pobres onde
tinha sido feliz.
Aquela frase perseguiu o doutor Juvenal Urbino no
caminho de regresso a sua casa: "Este morredouro de pobres." Não era uma qualificação
gratuita. Pois a cidade, a sua, continuava
a mesma à margem do tempo: a mesma cidade ardente e árida de seus terrores
noturnos e dos prazeres solitários da puberdade,
onde se oxidavam as flores e se
corrompia o sal, e à qual não acontecera nada em quatro séculos, exceto o envelhecer
devagar entre louros murchos e
pântanos podres. No inverno, uns aguaceiros instantâneos e arrasadores
faziam transbordar as latrinas e convertiam
as ruas em lodaçais
nauseabundos. No verão, um pó invisível, áspero como greda de giz, se
enfiava até pelas frinchas mais protegidas da imaginação, alvoroçado por uns
ventos loucos que destelhavam
casas e carregavam as crianças pelos ares. Aos sábados, o pobrerio mulato abandonava em tumulto os barracos de papelão e latão das margens dos pântanos, com seus
bichos de casa e seus pertences de comer e beber, e se apoderava num assalto de júbilo das praias pedregosas do setor colonial.
Alguns, entre os mais velhos, ostentavam até poucos anos atrás a
marca real dos escravos, gravada a
ferro em brasa no peito. Durante o fim da semana dançavam sem clemência, se embebedavam
à morte com álcoois de alambiques
caseiros, faziam livres amores pelas
moitas de icaqueiro, e à meia-noite do domingo desbaratavam seus próprios fandangos com rixas sangrentas
de todos contra todos. Era a mesma multidão impetuosa que o resto da semana se infiltrava nas praças e ruelas dos bairros antigos, com
tendinhas de tudo que fosse possível comprar e vender, e infundiam
à cidade morta um frenesi de feira humana cheirando
a peixe frito: uma vida nova.
A independência do domínio
espanhol, e a seguir a abolição da escravatura, precipitaram o estado de decadência honrada em que nasceu e cresceu o doutor Juvenal
Urbino. As grandes famílias de outrora afundavam em silêncio dentro de suas fortalezas desguarnecidas. Nos altos e
baixos das ruas empedradas que tão
eficazes tinham sido em guerras e
desembarques de bucaneiros, as ervas se despenhavam dos balcões e abriam gretas mesmo nos muros
de cal e cantaria das mansões mais bem conservadas, e o único
sinal de vida às duas da tarde
eram os lânguidos exercícios de piano
na penumbra da sesta. Por dentro, nos frescos quartos de dormir saturados de incenso, as mulheres se guardavam do sol como
de um
contágio indigno, e mesmo nas missas de madrugada tapavam a cara com a mantilha.
Seus amores eram lentos e difíceis,
perturbados amiúde por presságios sinistros, e
a vida lhes parecia interminável. Ao anoitecer, no instante opressivo da passagem para as sombras, subia dos
pântanos um turbilhão de pernilongos
carniceiros, e uma branda exalação de merda humana, cálida
e triste, revolvia no fundo da alma a
certeza da morte.
Pois a vida própria da cidade
colonial, que o jovem Juvenal Urbino costumava idealizar em suas melancolias de Paris, era então uma ilusão da
memória. Seu comércio tinha sido o mais próspero do Caribe no século XVIII,
sobretudo graças ao privilégio ingrato de ser o maior mercado de escravos africanos nas Américas. Era além disso a residência
habitual dos vice-reis do Novo Reino de Granada, que preferiam governar daqui,
frente ao oceano do mundo, e não na
capital distante e gelada cujo chuvisco de séculos lhes transtornava o sentido da realidade.
Várias vezes por ano se concentravam na baía as frotas de galeões carregados com as riquezas de Potosí, de Quito, de Vera-cruz, e a cidade vivia então aqueles que
foram seus anos de glória. Na sexta-feira 8 de junho de
1708 às quatro da tarde, o
galeão San José, que acabava de zarpar
para Cádiz com um carregamento
de pedras e
metais preciosos avaliados em quinhentos
bilhões de pesos da época, foi
afundado por uma esquadra inglesa diante da entrada do porto, e
dois longos séculos depois ainda não
tinha sido resgatado. Aquela fortuna jacente
em fundos de corais, com o cadáver do comandante
flutuando adernado no posto de mando,
costumava ser evocada pelos historiadores
como o emblema da cidade
afogada nas recordações.
Do outro lado da baía,
no bairro residencial de Mangueira, a
casa do doutor Juvenal Urbino
se situava em outro tempo. Era grande e fresca, de um andar só, e com um
pórtico de colunas dóricas na
varanda da frente, da qual se dominava
a água parada
de miasmas e escombros de naufrágios da baía. O chão estava forrado
de pedras axadrezadas, brancas e pretas, da porta de entrada até
a cozinha, e isto se atribuíra mais de uma vez
à paixão dominante do doutor Urbino, sem lembrar que se tratava
de uma
fraqueza comum aos
mestres-de-obras catalães que tinham construído no princípio deste século aquele bairro de ricos de
fresca data. A sala era
ampla, de tetos muito altos como a casa inteira, com seis janelas de sacada sobre a rua, e se separava
da sala de jantar por uma porta
envidraçada, enorme e historiada, com ramagens de vides e cachos de uva e donzelas seduzidas por flautas de
faunos numa floresta de bronze. Os móveis de recepção, até
o relógio de pêndulo da sala, que mais parecia uma sentinela
viva, eram todos originais ingleses de fins do século
XIX, e os lustres eram de pingentes de cristal de rocha, e
havia em todos os cantos jarrões e
floreiros de Sèvres e estatuetas de
idílios pagãos em alabastro.
Mas aquela coerência européia se acabava
no resto da casa, onde as cadeiras de braços de
vime se confundiam com cadeiras de balanço vienenses
e tamboretes de couro de artesãos locais. Nos quartos de dormir havia, além das camas, esplêndidas redes de São Jacinto
com o nome do dono bordado em letras góticas com fios de seda e franjas coloridas nas varandas.
O espaço concebido em suas origens para as ceias de cerimônia, ao lado da sala
de jantar, foi aproveitado para uma pequena sala de música onde se realizavam concertos íntimos quando vinham intérpretes notáveis.
Os ladrilhos tinham sido cobertos com os tapetes turcos comprados na Exposição
Universal de Paris para apurar o silêncio do ambiente,
havia uma ortofônica de modelo recente junto a uma estante com
discos bem arrumados, e num canto,
coberto com um pano de Manila, ficava o piano que o doutor
Urbino não tocava há muitos anos. Toda a casa refletia o
bom senso e as preocupações de uma
mulher com os pés bem plantados
na terra.
No entanto, nenhum outro
lugar revelava a solenidade meticulosa da biblioteca, que foi o santuário do doutor
Urbino antes que a velhice o derrubasse. Ali, em
redor da escrivaninha de nogueira do pai, e das poltronas
de couro almofadado, fez forrar as paredes e até as janelas com estantes envidraçadas, e colocou numa ordem quase demente três mil livros idênticos encadernados em pele de
bezerro e com suas iniciais
douradas na lombada. Ao contrário dos
outros aposentos, que estavam à mercê das comoções
e dos maus cheiros provenientes do porto, a biblioteca teve sempre o recolhimento e o odor de uma abadia. Nascidos e criados debaixo da superstição caribe de abrir portas e janelas para convocar uma fresca que não existia na realidade, o doutor Urbino e sua esposa sentiram a princípio o coração
oprimido pela clausura. Mas acabaram convencidos das vantagens do método
romano contra o calor, que consistia em manter
as casas fechadas no torpor de agosto
para que não entrasse o sopro
ardente da rua, e abri-las de par em par aos
ventos da noite. A sua foi desde então a mais fresca no sol bravo da Mangueira, e era uma ventura fazer a sesta na
penumbra dos quartos, e sentar à tarde no
pórtico para ver passar os cargueiros
de
Nova Orleans, pesados
e cinzentos, e os navios fluviais de roda de madeira com as luzes acesas ao entardecer, que iam purificando com uma esteira
de música o monturo estanque
da baía. Era também a mais protegida de dezembro a março, quando os alíseos do
norte destroçavam telhados e passavam a noite dando voltas como lobos famintos
ao redor da casa em busca de uma fresta para
se introduzirem. Ninguém jamais
imaginou que um casamento fincado
sobre tais alicerces pudesse ter algum motivo para
não ser feliz.
Em todo caso, o doutor Urbino não o era aquela manhã,
quando voltou a sua casa antes das dez, transtornado pelas duas visitas que não só lhe haviam feito perder
a missa de Pentecostes como ameaçavam modificá-lo numa idade em que tudo já parecia consumado. Queria dar um cochilo
enquanto não chegava a hora do almoço
festivo do doutor Lácides Olivella, mas encontrou a criadagem alvoroçada,
tratando de pegar o louro que tinha voado até o galho mais alto do pé de manga quando o tiraram da gaiola para
lhe aparar as asas. Era um louro depenado e maníaco, que não falava
quando lhe pediam e sim quando menos
se esperava, mas então o fazia
com uma clareza e um uso de razão que não eram muito comuns
nos seres humanos. Tinha sido amestrado pelo doutor
Urbino em pessoa, o que lhe valera privilégios que ninguém jamais teve na família, nem mesmo os
filhos quando eram pequenos.
Estava na casa há mais
de vinte anos e ninguém sabia quantos teria vivido antes. Todas as tardes depois da sesta,
o doutor Urbino se sentava com ele na varanda do quintal, que era o lugar mais fresco da casa, e tinha apelado para
os recursos mais árduos de sua paixão pedagógica até que o louro aprendeu a falar francês feito um acadêmico. Depois, por puro vício da virtude, ensinou-lhe o acompanhamento da
missa em latim e alguns trechos escolhidos do Evangelho segundo São Mateus, e tentou sem êxito inculcar-lhe uma noção
mecânica das quatro operações aritméticas. Numa das últimas viagens que fez à Europa trouxe o primeiro gramofone de manivela com muitos discos da moda e de seus compositores clássicos favoritos. Dia
após dia, uma vez depois da outra durante vários meses, tinha feito o louro ouvir as
canções de Yvette Gilbert e Aristide
Bruant, que haviam feito as delícias da França no século passado, até que as decorou. O louro as cantava com voz de mulher, se
eram as dela, e com voz de tenor,
se eram as dele, e
terminava com umas gargalhadas
libertinas que eram o espelho magistral
das que soltavam as criadas quando o ouviam cantar em francês. A fama de seus talentos tinha chegado tão longe que às
vezes pediam para vê-lo alguns visitantes ilustres
que vinham do interior nos navios fluviais,
e certa ocasião tentaram comprá-lo a qualquer preço uns turistas ingleses dos muitos que
passavam por ali nessa época nos
navios bananeiros de Nova Orleans. No entanto, o dia de sua glória maior foi quando o Presidente da República,
o senhor Marco Fidel Suárez,
acompanhado pelo plenário do seu gabinete, visitou a casa para comprovar a verdade de sua fama. Chegaram por volta das três da
tarde, sufocados nas cartolas e nas sobrecasacas de casimira que não tinham tirado do corpo em três dias de visita oficial sob o céu incandescente de agosto, e foram forçados
a ir embora tão intrigados como haviam chegado, porque o louro se negou a dizer até mesmo este
bico é meu durante duas horas de desespero, apesar das súplicas, das ameaças e da vergonha
pública do doutor Urbino, que se obstinara naquele convite temerário
contra as advertências sábias da esposa.
O fato de que
o louro tivesse mantido seus privilégios depois desse vexame
histórico tinha sido a prova final do seu foro sagrado. Nenhum outro animal era permitido na casa, exceto a tartaruga de terra, que tinha reaparecido na cozinha
depois de três ou quatro anos em que passou por perdida para sempre. Mas não era considerada como um ser vivo, e sim, antes, como um amuleto mineral da boa sorte, o qual nunca se sabia de
ciência certa por onde andava. O doutor Urbino resistia a admitir que odiava os bichos e o dissimulava com toda a
classe de fábulas científicas e
pretextos filosóficos que convenciam
a muitos, mas não a sua esposa. Dizia que aqueles que os amavam em excesso eram capazes das piores crueldades com os seres humanos.
Dizia que os cachorros não eram fiéis
e sim servis, que os gatos eram
oportunistas e traidores, que os pavões eram arautos da morte, que as araras não passavam de estorvos monumentais, que
os coelhos fomentavam a cobiça, que os
micos transmitiam a febre da luxúria e que os gaios eram malditos porque se haviam prestado a que ao Cristo alguém
negasse três vezes.
Em compensação Fermina Daza, sua esposa, que então tinha setenta
e dois anos e já havia perdido sua
andadura de corça dos tempos de moça, era uma idolatra irracional das flores equatoriais e dos animais domésticos,
e no início do casamento se aproveitara da novidade do amor para ter na casa um número muito maior destes do que aconselhava o bom senso.
Os primeiros foram três dálmatas com nomes
de imperadores romanos que se despedaçaram entre si pelos favores de uma
fêmea que fez honra ao seu nome de Messalina,
pois mais tempo levava parindo nove
filhotes do que concebendo outros dez. Depois foram os gatos abissínios
com perfil de águia e posturas
faraônicas, os siameses estrábicos,
os persas palacianos de olhos
alaranjados, que desfilavam pelas alcovas feito sombras espectrais e alvoroçavam as noites com os alaridos de seus sabás amorosos.
Durante anos, acorrentado pela cintura na mangueira do quintal, houve um mico amazônico que suscitava certa compaixão porque
tinha o semblante atribulado do arcebispo Obdulio y Rey, a mesma candura nos olhos e eloqüência nas mãos, mas não foi por isso que
Fermina Daza se desfez dele, e sim pelo mau costume que tinha de se comprazer em homenagem às senhoras.
Havia todas as espécies de pássaros da Guatemala nas gaiolas dos corredores, e
saracuras, agoureiras, e garças de brejo
de grandes pés amarelos, e um veado juvenil
que enfiava a cabeça pelas janelas para
comer os antúrios dos floreiros. Pouco antes da última
guerra civil, quando se falou pela
primeira vez numa possível visita do Papa, tinham trazido da Guatemala
uma ave-do-paraíso que mais
tardou em chegar do que em
voltar à sua terra, quando se soube que o anúncio da viagem pontifícia não passara de um embuste do
governo para assustar os liberais em confabulação. De outra feita compraram nos veleiros dos contrabandistas de Curaçau
uma gaiola de arame com seis corvos
perfumados, iguais aos que Fermina Daza tivera menina na casa paterna, e que casada queria continuar tendo. Mas
não houve quem agüentasse o contínuo bater
de asas que saturava a casa com eflúvios de
coroas fúnebres. Também tiveram
uma sucuri
de quatro metros, cujos
suspiros de caçadora insone perturbavam
a obscuridade dos quartos, embora conseguissem dela o que queriam, que era que
afugentasse com seu bafo mortal os morcegos e lagartos, e
as numerosas espécies de insetos
daninhos que invadiam a casa nos meses de chuva.
Ao doutor Juvenal Urbino, tão
solicitado então por suas obrigações
profissionais, e tão mergulhado em suas promoções
cívicas e culturais, bastava a convicção de que, em meio
a tantas criaturas abomináveis, sua
mulher era não só a mais formosa no âmbito do Caribe, como também a mais feliz.
Mas certa tarde de chuvas, no fim de um dia exaustivo,
encontrou na casa um desastre que lhe colocou os pés no chão. A partir da sala de
visitas e até onde a vista alcançava, havia uma esteira de bichos mortos boiando num pântano de sangue. As criadas,
trepadas nas cadeiras sem saber o que
fazer, custavam a se recuperar do pânico da matança.
O caso é que um dos
mastins alemães, enlouquecido por
ataque súbito de raiva, tinha feito em pedaços
tudo que era bicho de qualquer
espécie encontrado em seu caminho, até que o jardineiro da casa vizinha teve a coragem de enfrentá-lo e o despedaçou por sua vez a golpes de facão. Não se sabia a quantos tinha mordido, ou
contaminado com suas espumaradas
verdes, por isso o doutor Urbino
mandou matar todos os sobreviventes e incinerar os corpos num campo afastado, e pediu aos serviços do Hospital da Misericórdia
uma desinfecção em regra da
casa. Só se salvou; porque ninguém se lembrou dele, o cagado macho que dava sorte.
Fermina Daza deu razão ao marido pela primeira vez num assunto
doméstico e tratou de não
falar mais de bichos por muito tempo. Consolava-se com as pranchas
coloridas da História Natural de Lineu,
que mandou encaixilhar e pendurar nas paredes da sala, e talvez tivesse perdido as esperanças de ver outra vez um bicho na casa, não fosse o
fato de haverem os ladrões uma madrugada forçado uma janela do
banheiro e carregado a baixela de prata herdada por cinco gerações. O doutor
Urbino pôs cadeados duplos nas argolas das
janelas, reforçou as portas por dentro com trancas de ferro, guardou as coisas de mais preço no cofre de valores,
e adquiriu o tardio costume de guerra de dormir com o revólver debaixo do travesseiro.
Mas se opôs à compra de um cachorro
bravo, vacinado ou não, solto ou
acorrentado, ainda que os ladrões os deixassem em fraldas de camisa.
— Nesta casa não entrará nada que não fale — disse.
Disse para pôr cobro
às argúcias de sua mulher,
obstinada outra vez em comprar um cachorro, e sem nem de longe imaginar que aquela
generalização apressada havia de custar-lhe a vida. Fermina Daza, cujo
caráter rústico se havia matizado com os anos, pegou em pleno vôo a ligeireza da linguagem
do marido: meses depois do roubo
voltou aos veleiros de Curaçau e
comprou um louro real de Paramaribo
que só sabia dizer blasfêmias
de marinheiro, mas que as dizia com voz tão humana que
bem valia seu preço excessivo de doze centavos.
Era dos bons, mais leve
do que parecia, e com a
cabeça amarela e a língua preta, única maneira de diferenciá-lo dos louros de mangue
que não aprendiam a falar nem corri supositórios de terebintina. O doutor Urbino, bom
perdedor, se inclinou ante o engenho da
esposa, e ele próprio se
surpreendeu com a graça que ia achando nos progressos do louro alvoroçado
pelas criadas. Nas tardes de chuva, quando a língua dele se desatava com a alegria que lhe davam
as penas ensopadas,
dizia frases de outros tempos
que não tinha podido aprender na
casa, e que permitiam pensar que era também mais velho do que parecia. A última reserva do médico veio abaixo uma noite
em que os ladrões trataram de se meter de
novo por uma clarabóia do eirado, e o louro os afugentou com
latidos de mastim que não teriam sido
tão verossímeis se tivessem sido
reais, e com brados de gatunos gatunos gatunos, duas graças
salvadoras que não tinha aprendido na
casa. Foi aí que o doutor Urbino se encarregou dele, e mandou construir embaixo da mangueira um poleiro com um recipiente
para a água e outro para a anana da Guiné, além de um trapézio
para as acrobacias. De dezembro a
março, quando as noites esfriavam e
não havia como agüentar o sereno devido às brisas do norte, era levado para dormir
nas alcovas dentro de uma gaiola envolta numa manta, apesar de suspeitar
o doutor Urbino que o mormo crônico do louro podia
representar perigo para a boa respiração das pessoas. Durante muitos anos
lhe aparavam
as penas das asas e o deixavam
solto, caminhando com gosto em sua ginga
de cavaleiro velho. Mas um dia começou
a fazer proezas de acrobata nas ripas do teto da
cozinha e caiu numa panela da fervura de carnes em meio à sua
própria algaravia naval de salve-se quem puder, e com tanta sorte que a cozinheira conseguiu pescá-lo com a colher de
pau, escaldado e depenado mas ainda vivo. Desde então o deixaram na
gaiola mesmo durante o dia, contra a
crendice vulgar de que os louros engaiolados desaprendem a fala, e só o libertavam na fresca das quatro para as aulas do doutor
Urbino na varanda do quintal. Ninguém reparou em tempo que estava com as asas grandes
demais, e aquela manhã se dispunham a apará-las quando ele escapou para a
copa da mangueira.
Não tinham conseguido pegá-lo ao cabo de
três horas. As criadas,
ajudadas por outras da vizinhança,
tinham apelado para toda a sorte de estratagemas para fazê-lo descer, mas ele continuava
teimoso em seu lugar, gritando
morto de rir viva o partido
liberal, viva o partido liberal,
porra, um grito temerário que tinha
custado a vida a um montão de bêbados distraídos. O doutor Urbino mal conseguia divisá-lo no meio da galharia,
e procurou convencê-lo em espanhol e
francês, e até em latim, e o louro lhe respondia-nos mesmos idiomas e com a mesma ênfase e o mesmo
timbre de voz, mas não se moveu no coração do seu refúgio verde. Convencido de que ninguém
ia conseguir demovê-lo com bons
modos, o doutor Urbino mandou que se pedisse ajuda aos bombeiros, que eram seu brinquedo cívico mais recente.
Até pouco tempo atrás, com efeito, os incêndios eram apagados
por voluntários com escadas de pedreiros
e baldes d'água abastecidos onde fosse possível, e era tal a desordem dos métodos que os estragos
causados eram às vezes maiores que os
incêndios. Mas desde o ano anterior, graças a uma
coleta promovida pela Sociedade de Melhoramentos Públicos, da qual Juvenal Urbino era presidente honorário,
havia um corpo de bombeiros profissional e um caminhão-pipa com sereia e sineta, além de duas mangueiras de alta pressão. Estavam na moda, a tal ponto que os colégios
suspendiam as aulas quando os sinos das igrejas tocavam
o alarma para que os meninos pudessem vê-los no combate às
chamas. De início era só isso que faziam. Mas o doutor Urbino contou
às autoridades municipais que em Hamburgo
tinha visto os bombeiros ressuscitar um menino
que encontraram congelado num porão
depois de uma nevada de três dias.
Também os havia visto numa viela de Nápoles, baixando dum balcão no décimo
andar um defunto em seu ataúde,
pois as escadas do edifício eram tão
retorcidas que a família não tinha
conseguido levá-lo â rua. E aos poucos os bombeiros locais aprenderam a prestar
outros serviços de emergência, como
forçar fechaduras ou matar cobras venenosas, e
a Escola de Medicina lhes ministrou um curso especial de pronto socorro em acidentes menores. De maneira que não era um despropósito pedir-lhes o favor de fazerem descer da árvore um louro ilustre, de tantos méritos quanto qualquer cavaleiro. O doutor Urbino
disse: "Digam a eles que é de minha parte."
E foi para o quarto vestir-se para
o almoço de festa. A verdade
é que naquele
momento, angustiado com a
carta de Jeremiah de Saint-Amour, a sorte do louro não
o preocupava. Fermina Daza tinha vestido uma bata
de seda, ampla e solta mas descaindo na cintura, tinha posto um colar de pérolas legítimas com seis voltas grandes e desiguais, e uns sapatos de entrada baixa e salto
alto que só usava em ocasiões
muito solenes, pois os anos já
não lhe permitiam tantos abusos. Aquela ostentação de moda não lhe parecia adequada a uma avó
venerável, mas assentava muito bem em seu corpo
de ossos
grandes mas ainda magro e ereto, em
suas mãos flexíveis sem qualquer mancha de velhice, em seu cabelo de aço azul, cortado em diagonal
à altura da face. A única coisa que ainda lhe restava do retrato de bodas
eram olhos de amêndoas diáfanas e a altivez de nação, mas o que lhe faltava
devido à idade era compensado pelo
caráter e duplicado pela diligência. Sentia-se bem: longe iam ficando os tempos
dos corpinhos de ferro, as cinturas
estranguladas, as ancas levantadas com artifícios de trapos. Os corpos libertados, respirando à vontade, se mostravam tal qual eram. Mesmo aos setenta
e dois anos.
O doutor Urbino a encontrou sentada diante da penteadeira, debaixo das aspas lentas do ventilador elétrico, ajeitando o chapéu de sino com
um enfeite de violetas de feltro. O quarto era amplo e radiante, com uma cama inglesa protegida por cortinado de filo cor-de-rosa,
e duas janelas abertas para as
árvores do quintal onde ressoava o
alarido das cigarras estonteadas
pelos presságios de chuva. Desde a
volta da viagem de bodas, Fermina Daza escolhia a roupa do marido de acordo com o tempo e a ocasião, e a
colocava em ordem sobre uma cadeira na noite anterior para que ele
a encontrasse ao sair do banho. Não
lembrava desde quando tinha
começado também a ajudá-lo
a se vestir, e afinal
a vesti-lo, e tinha consciência de que a princípio o fizera por amor, mas
desde uns cinco anos atrás tinha que
fazê-lo fosse como fosse porque ele já não conseguia se vestir
sozinho. Acabavam de celebrar
as bodas de ouro matrimoniais, e não
sabiam viver um instante sequer um sem o outro, ou sem pensar um no outro, e o sabiam cada vez
menos à medida que recrudescia a velhice. Nem ele nem ela podiam dizer se essa servidão
recíproca se fundava no amor ou na
comodidade, mas nunca se haviam feito a pergunta com a mão no peito, porque
ambos tinham sempre preferido ignorar a resposta. Tinha ido descobrindo aos poucos a insegurança dos passos do marido, seus transtornos de humor, as fissuras
de sua memória, seu costume recente de soluçar durante o sono, mas não os identificou como os sinais
inequívocos do oxido final e sim
como uma volta feliz à infância. Por isso não o tratava como a um ancião difícil e sim como a um menino
senil, e esse engano foi providencial para ambos
porque os pôs a salvo da compaixão.
Coisa bem diferente teria sido a vida para
ambos se tivessem sabido a
tempo que era mais fácil contornar as grandes catástrofes matrimoniais do que as misérias minúsculas de cada dia. Mas se alguma coisa haviam aprendido
juntos era que a sabedoria nos
chega quando já não serve para nada.
Fermina Daza tinha agüentado com má vontade
o jubiloso amanhecer do marido. Agarrava-se aos últimos fios de sono para não enfrentar o fatalismo de
uma nova manhã de presságios sinistros, enquanto ele despertava
com a inocência de um recém-nascido: cada novo dia era um dia a mais que se ganhava. Ouvia-o despertar com os gaios, e seu primeiro sinal de vida era uma tosse sem
som nem tom que parecia de propósito para que ela também
despertasse. Ouvia-o resmungar, só para inquietá-la, enquanto tateava em busca dos chinelos que deviam estar junto da cama. Ouvia-o buscar caminho até o
banheiro aos tropeços pela escuridão. Ao cabo
de uma
hora no escritório, quando ela havia dormido de novo, ouvia-o voltar para se vestir, ainda sem acender a luz. Certa
vez, num jogo de salão, lhe perguntaram
como se definia a si mesmo,
e ele tinha dito: "Sou um homem que se veste no escuro." Ela o ouvia
sabendo muito bem que nenhum daqueles ruídos era indispensável, e
que ele os fazia de propósito fingindo o contrário, assim
como estava ela acordada fingindo que não. Os motivos dele
eram certos: nunca precisava tanto dela, viva e lúcida, como nesses momentos de confusão.
Não havia ninguém mais elegante
do que ela para dormir, com uma postura de dança e a mão sobre a testa, mas também não havia ninguém mais feroz quando lhe perturbavam
a sensação de se crer adormecida quando já não estava. O doutor Urbino sabia que
ela permanecia ligada ao menor ruído que ele fizesse, e que inclusive teria
agradecido a ele, para ter em quem botar a culpa de acordá-la às
cinco da manhã. Tanto era
assim que nas poucas ocasiões em que tinha de tatear
nas trevas por não encontrar os chinelos
no lugar de sempre, ela dizia logo numa voz de
quem está entre dois sonhos: "Você deixou os chinelos no banheiro ontem à noite." Em seguida, com a voz desperta de raiva, amaldiçoava:
— A pior desgraça desta casa é que não se pode dormir.
Então rolava na cama, acendia a luz sem a menor clemência para
consigo mesma, feliz com sua primeira
vitória do dia. No fundo era um jogo de ambos, mítico e perverso, mas por isso mesmo
reconfortante: um dos muitos prazeres perigosos do amor doméstico. Mas foi por causa de um desses
brinquedos triviais que os primeiros
trinta anos de vida em comum estiveram a ponto de se acabar
porque um certo dia faltou
sabonete no banheiro.
Começou com a simplicidade da rotina.
O doutor Juvenal Urbino tinha voltado ao
quarto, nos tempos em que ainda tomava
banho sem ajuda, e começou
a se vestir sem acender a luz. Ela estava como sempre a essa hora em
seu morno estado fetal, os olhos
fechados, a respiração tênue, e
aquele braço de dança sagrada sobre a
cabeça. Mas estava meio desperta,
como sempre, e ele estava sabendo.
Depois de longos rumores de linhos engomados na escuridão, o doutor
Urbino falou consigo mesmo:
— Faz uma semana que estou
tomando banho sem sabonete
— disse.
Então ela acabou de acordar, lembrou, e rolou de raiva contra o mundo, porque na
verdade tinha esquecido de substituir
o sabonete no banheiro. Tinha notado a falta três dias antes, quando já estava
debaixo do chuveiro, e pensou em boiar o sabonete depois, mas esqueceu o assunto até o dia seguinte.
No terceiro dia tinha
ocorrido o mesmo. Para dizer a verdade, não tinha se passado
uma semana, como ele dizia para
lhe agravar a culpa, e sim três dias imperdoáveis, e a fúria de ser apanhada em falta acabou de enraivecê-la.
Como de
costume, se defendeu
atacando.
Pois tenho tomado
banho todo o santo dia — gritou fora de si —
e sempre tem havido sabonete.
Embora ele conhecesse de
sobra seus métodos de guerra, desta vez não pôde suportá-los. Foi morar a um pretexto profissional qualquer nos
quartos de internos do Hospital
da
Misericórdia, e só aparecia em casa para
trocar de roupa ao entardecer antes das consultas a domicílio. Ela ia para a cozinha quando o ouvia chegar, fingindo qualquer afazer, e
ali permanecia até escutar vindos da rua os passos dos cavalos do carro. Cada vez que procuraram resolver a discórdia nos três meses
seguintes, só conseguiram atiçá-la.
Ele não se dispunha a voltar enquanto ela não admitisse que não havia sabonete no
banheiro, e ela não se dispunha a recebê- lo enquanto ele não reconhecesse ter
mentido de propósito para atormentá-la.
É claro que o incidente lhes deu a oportunidade de evocar outros arrufos minúsculos de outras tantas manhãs perturbadas, Uns ressentimentos mexeram em outros, reabriram cicatrizes antigas, transformaram-nas em feridas novas, e ambos se assustaram com a comprovação desoladora de que em
tantos anos de luta conjugai não tinham feito mais do que pastorear rancores. Ele chegou a propor que se submetessem
juntos a uma confissão
aberta, com o senhor arcebispo
se fosse
preciso, para que Deus decidisse como árbitro final se havia ou não sabonete na saboneteira do banheiro. Então ela, que tão boas
estribeiras tinha, perdeu-se num grito histórico:
—
Que
vá à merda o senhor arcebispo!
O impropério abalou os alicerces da cidade, deu origem a cochichos que não foi fácil desmentir, e ficou incorporado à fala popular com ares de teatro de revista: "Que vá à merda o senhor arcebispo!" Consciente de que havia ultrapassado os limites, ela se antecipou à reação que esperava do esposo, e ameaçou mudar-se para
a antiga casa do pai, que
continuava sua embora estivesse alugada para escritórios do serviço público. Não era uma bravata:
queria ir embora de verdade, sem se importar
com o escândalo social, e o marido o percebeu a tempo. Não teve coragem para enfrentar
seus próprios preconceitos: cedeu. Não no sentido de admitir que havia sabonete no banheiro, pois teria sido um insulto à verdade, e sim no de
continuarem morando na mesma casa,
mas em quartos separados e sem se dirigirem a palavra. Assim faziam as refeições, contornando a situação com tanta
habilidade que se mandavam recados
pelos filhos de um ao outro lado da mesa
sem que estes percebessem que
os pais não se falavam.
Como no escritório não havia banheiro, a fórmula resolveu o conflito dos ruídos matinais, porque ele tomava banho depois de preparar
a aula e adotava precauções
reais para não acordar a esposa. Muitas vezes coincidiam e se alternavam para escovar os dentes antes de
dormir. Ao fim de quatro
meses, ele se deitou para ler
na cama matrimonial enquanto ela não
saía do banho, e pegou no sono. Ela se
deitou ao seu lado sem
quaisquer precauções, para que
ele acordasse e fosse embora. Ele acordou pela metade, com efeito, mas em vez de se levantar apagou a lâmpada da cabeceira e se acomodou no travesseiro. Ela o sacudiu pelo ombro, para lhe
lembrar de que devia ir para o escritório, mas ele se
sentia tão bem outra vez na cama de penas dos bisavós que preferiu capitular.
—
Me deixa ficar aqui
— disse. — Tinha sabonete, sim. Quando
recordavam este episódio, já no
remanso da velhice, nem ele nem ela podiam
acreditar na verdade assombrosa de que aquela altercação tinha sido a mais
grave de meio século de vida em comum,
e a única que motivou em ambos
o desejo de dar um passo em
falso, e começar a vida de outra
maneira. Mesmo quando já velhos e apaziguados evitavam evocá-la,
porque as feridas mal cicatrizadas voltavam a sangrar como se fossem de ontem.
Ele foi o
primeiro homem que Fermina Daza ouviu urinar. Ouviu-o na noite de bodas
no camarote do navio que os levava à
França, enquanto estava prostrada pelo enjôo,
e o barulho do seu manancial de cavalo lhe pareceu
tão potente e investido de tanta autoridade que aumentou seu
terror pelos estragos que temia. Aquela lembrança voltava com freqüência
à sua memória, à medida que os anos
iam enfraquecendo o manancial, mas nunca pôde
se conformar com o fato de que ele
deixasse molhada a beira do vaso
cada vez que o usava. O doutor
Urbino procurava convencê-la, com argumentos fáceis de entender por quem quisesse entendê-los, de que
aquele acidente não ocorria todos os dias por descuido seu, como ela insistia,
e sim
por uma razão orgânica: seu manancial de jovem era tão definido e direto que no colégio tinha ganho torneios de pontaria para encher garrafas,
mas com os desgastes da idade não só foi decaindo
como se tornou oblíquo, se ramificava, se tornando por fim um jorro de
fantasia impossível de dirigir,
apesar dos muitos esforços que ele fazia para endereçá-lo.
Dizia: "A privada há de ter sido inventada por alguém que não entendia nada de homens."
Contribuía para a paz doméstica com um ato
cotidiano que era mais de humilhação do
que de humildade: secava com papel higiênico as beiras do vaso sempre que o usava. Ela sabia,
mas nunca dizia nada enquanto não fossem demasiado evidentes os vapores
amoniacais dentro do banheiro, e
então os proclamava como o descobrimento de um crime: "Isso está empestado como uma toca de coelhos."
Às vésperas da velhice, esse estorvo do corpo
inspirou ao doutor Urbino a solução final: urinava
sentado, feito ela, o que deixava o
vaso limpo, além de deixá-lo em estado de graça.
Já nesses tempos
não cuidava tão bem de si mesmo,
e um escorregão no
banheiro que podia ter sido fatal o colocou em guarda contra o chuveiro. A casa, por ser das modernas,
carecia da banheira de estanho
com patas de leão que era de uso corrente
nas mansões da cidade antiga. Ele
a mandara retirar com um argumento
higiênico: a banheira era uma das tantas porcarias dos europeus, que só tomavam banho na última sexta-feira
de cada
mês, e o faziam além disso
dentro do caldo sujo pela própria
sujeira que pretendiam tirar do corpo. De modo que mandaram fazer sob medida um grande tanque de pau-santo maciço, onde Fermina Daza dava banho no esposo com o mesmo ritual usado no banho dos filhos recém-nascidos. O banho se prolongava por mais de uma hora,
com águas em que se haviam fervido folhas de malva e cascas
de laranja, e tinha para ele
um efeito tão calmante que às vezes pegava no sono dentro da infusão perfumada. Depois de banhá-lo Fermina Daza o ajudava a se vestir, lhe
passava pós de talco entre as pernas, untava com
manteiga de cacau as assaduras, punha-lhe as cuecas com tanto amor como se fossem fraldas,
e continuava a vesti-lo peça a peça de roupa,
das meias ao nó da gravata e o alfinete de topázio. O
despertar conjugai se apaziguou,
porque ele voltou a assumir a
infância que os filhos lhe haviam
tirado. Ela, por sua parte, acabou em consonância com o horário familiar,
porque também para ela passavam os anos: dormia cada vez menos,
e antes de fazer setenta acordava antes do esposo.
No domingo de Pentecostes, quando levantou a manta para ver o cadáver de Jeremiah de Saint-Amour,
o doutor Urbino teve a revelação de algo
que lhe fora negado até então em suas navegações mais lúcidas de médico e de crente. Foi como se depois
de tantos anos de familiaridade com a morte, depois de tanto combatê-la e manuseá-la do direito e do avesso, aquela tivesse sido a primeira vez que ousava olhá-la na cara, e também ela o estava olhando. Não era o medo da morte. Não: o medo estava dentro dele há muitos anos, convivia
com ele, era outra sombra sobre a sua sombra, a partir da noite em que acordou perturbado por um sonho mau e ficou consciente de
que a morte não era só uma probabilidade permanente, como havia
achado sempre, e sim uma realidade imediata. O que tinha visto
aquele dia era a presença física de algo que até então não passava de uma certeza
da imaginação.
Alegrou-o que o instrumento da Divina Providência para aquela revelação surpreendente tivesse sido Jeremiah de Saint-Amour,
a quem sempre considerara um santo que ignorava seu próprio
estado de graça. Mas quando a
carta lhe revelou sua identidade verdadeira, seu passado sinistro, seu inconcebível poder de artifício, sentiu que alguma coisa definitiva e sem retorno tinha acontecido em
sua vida.
Contudo, Fermina Daza não se deixou contagiar por seu humor sombrio. Ele bem que tentou,
enquanto ela o ajudava a enfiar as pernas nas calças e lhe abotoava a camisa. Mas não conseguiu, porque Fermina Daza não era fácil
de impressionar, menos ainda com a morte de um
homem de quem não gostava. Sabia apenas que Jeremiah de Saint-Amour era um inválido de muletas a quem nunca tinha visto, que escapara a um pelotão de fuzilamento numa das tantas
insurreições de uma das tantas
ilhas das Antilhas, que se fizera
fotógrafo de crianças por necessidade, chegando a ser o mais solicitado da província,
e que tinha ganho uma partida de
xadrez a alguém de quem ela se lembrava como Torremolinos mas que na
realidade se chamava Capablanca.
—
Pois não passava de um fugitivo de Caiena condenado à prisão perpétua
por um
crime atroz — disse o doutor Urbino. — Imagine só que ele chegou
a comer carne humana.
Passou-lhe a carta cujos segredos queria levar consigo para o túmulo,
mas ela guardou as folhas dobradas
na penteadeira, sem lê-las, e fechou a gaveta a chave. Estava habituada à
insondável capacidade de assombro do marido, a seus julgamentos exagerados
que ficavam mais arrevesados com o passar dos
anos, a uma estreiteza de
critério que não coincidia com sua imagem
pública. Daquela vez ele havia
excedido seus próprios limites. Ela supunha que o marido não apreciava Jeremiah de Saint-Amour pelo que tinha sido antes, e
sim pelo que começou a ser depois de chegar sem quaisquer
haveres além da mochila de
exilado, e não podia compreender por que o consternava daquele modo a
revelação tardia da sua identidade. Não compreendia por que lhe parecia
abominável que tivesse tido uma mulher escondida se esse era um hábito atávico dos homens de
sua classe, inclusive ele num
momento ingrato, e além disso achava uma
prova desatinada de amor que ela o tivesse
ajudado a consumar sua decisão de morrer. Disse: "Se você também resolvesse fazer o mesmo por motivos tão sérios quanto os dele, meu dever seria fazer o mesmo que
ela." O doutor Urbino se encontrou
uma vez mais na encruzilhada de incompreensão simples que o exasperava há meio século.
—
Você não entende nada — disse. — O que me indigna não é o que foi nem o que fez, e
sim o engano em que nos manteve a todos durante tantos anos.
Seus olhos começaram
a se marejar de lágrimas fáceis, mas ela fingiu que não via.
—
Fez bem — respondeu. — Se tivesse dito a verdade, nem você,
nem essa
pobre mulher, nem ninguém por aí o teria querido tanto
quanto foi querido.
Prendeu-lhe o relógio de corrente na botoeira do colete. Arrematou-lhe o nó da gravata e enfiou o alfinete de topázio. Depois lhe secou as lágrimas e lhe limpou a barba chorada com o lenço úmido de Água Florida, e o colocou no bolso do peito com as pontas
abertas feito uma magnólia. As onze badaladas do relógio de pêndulo
ressoaram no oco da casa.
—
Depressa — disse ela, impelindo-o com o braço. —
Vamos chegar tarde.
Aminta Dechamps, mulher
do doutor Lácides Olivella, e suas sete filhas,
cada uma mais diligente do que
a outra, haviam previsto tudo para que
o almoço das bodas de prata fosse
o acontecimento social do ano.
A residência familiar em pleno centro
histórico era a antiga Casa da Moeda, desnaturada por um arquiteto florentino que passou por aqui como um vento mau de renovação
e converteu em basílicas de Veneza inúmeras relíquias do século
XVII. Tinha seis quartos de dormir e dois salões de jantar e
recepção, bem arejados e amplos, mas não o suficiente
para os convidados da cidade, além dos muito selecionados que viriam de
fora. O pátio era igual ao
claustro de uma abadia, com um repuxo de
pedra que cantava no
centro e canteiros de heliotrópios que perfumavam a casa ao
entardecer, mas o espaço das arcadas não era suficiente para tantos sobrenomes tão grandes. Por isso resolveram fazer o almoço na quinta campestre da família, a dez minutos de automóvel
pela estrada real, que tinha um alqueire
de terreno e enormes loureiros da índia
e nenúfares da terra num rio de águas mansas. Os homens da Pousada do Sancho, dirigidos pela senhora de
Olivella, puseram toldos de lona colorida nos espaços sem sombra, e armaram debaixo dos loureiros
um retângulo com mesinhas para
cento e vinte e dois talheres, com
guardanapos de linho para
iodos e ramos de rosas do dia na
mesa de honra. Construíram
também um tablado para uma
banda de instrumentos de sopro
com um programa restrito de contradanças
e valsas nacionais, e para um quarteto de cordas da Escola de Belas-Artes, que era uma surpresa da senhora Olivella para o mestre
venerando de seu marido, que havia de presidir ao almoço. Embora a data não correspondesse a rigor com o
aniversário da formatura, escolheram
o domingo de Pentecostes para enaltecer o sentido da festa.
Os preparativos tinham começado três meses antes, por temor de que algo
indispensável ficasse por fazer por falta de tempo. Fizeram trazer as galinhas vivas do Pântano
de Ouro, famosas em todo o litoral por seu
tamanho e sua delícia, e também
porque nos tempos da Colônia ciscavam em terras de aluvião, e
na sua moela se encontravam
pedrinhas de ouro puro. A senhora de
Olivella em pessoa, acompanhada
de algumas das filhas e da gente de
seu serviço, subia a bordo
dos transatlânticos de luxo para
escolher o melhor de
todos os cantos do mundo para honrar os méritos do esposo. Havia previsto tudo, salvo que a
festa era num domingo de junho
de um ano de chuvas
tardias. Reparou no risco que corria na manhã do
mesmo dia, quando saiu para a missa
solene e se assustou com a
umidade do ar, e viu que o céu
estava denso e baixo e não se conseguia ver
o horizonte do mar.
Apesar desses indícios
aziagos, o diretor
do observatório astronômico, com quem se encontrou na missa, lembrou-lhe
que na muito aventurosa história da cidade, mesmo nos invernos mais cruéis, jamais chovera no dia de Pentecostes.
Não obstante, ao toque das doze, quando já muitos dos convidados tomavam os aperitivos
ao ar livre, o estampido de um trovão
solitário fez tremer a terra, e um vento de
maus bofes desbaratou as mesas e
carregou os toldos pelos ares, e o céu despencou num aguaceiro de desastre.
O doutor Juvenal Urbino conseguiu chegar a duras penas em
plena desordem da tempestade, junto com os últimos convidados
que encontrou no caminho, e queria ir
com eles dos carros até a casa
saltando pelas pedras através do jardim alagado, mas acabou por aceitar a
humilhação de ser carregado em braços pelos homens do taverneiro
Sancho debaixo de um palio de
lonas amarelas. As mesas separadas
foram arrumadas de novo da melhor
maneira possível no interior da casa,
até nos quartos de dormir, e os
convidados não faziam nenhum esforço para
dissimular seu humor de naufrágio.
Fazia um calor de caldeira de navio, pois tinham tido
que fechar as janelas para impedir que se intrometesse a chuva fustigada pelo vento. Ao ar
livre, cada lugar da mesa tinha
um cartão com o nome do convidado,
e estava previsto um lado para os homens
e outro para as mulheres, como era de costume. Mas os
cartões com os nomes se confundiram dentro da casa, e cada um se sentou como pôde, numa promiscuidade de força maior que ao menos por uma vez
contrariou nossas superstições
sociais. No meio do cataclismo,
Aminta de Olivella parecia estar em todos
os cantos ao mesmo tempo, com o cabelo
empapado e o vestido esplêndido salpicado de
lama, mas se sobrepunha à desgraça
com o sorriso invencível que aprendera com o esposo para não dar prazer à
adversidade. Com a ajuda das filhas,
forjadas na mesma frágua, conseguiu até onde foi possível preservar os lugares da mesa de honra, com o doutor Juvenal Urbino no
centro e o arcebispo Obdulio y Rey à sua direita.
Fermina Daza se sentou junto do esposo, como costumava fazer, de medo que ele adormecesse durante o almoço ou
derramasse a sopa nas lapelas. O lugar em frente
foi ocupado pelo doutor Lácides
Olivella, um cinqüentão com ares femininos, muito bem conservado, cujo
espírito festivo não tinha nenhuma relação com seus diagnósticos certeiros. O
resto da mesa se completou com as autoridades provinciais
e municipais, e a rainha da beleza
do ano anterior, que o
governador levou pelo braço para sentá-la ao seu lado. Embora não fosse costume exigir nos convites um traje especial, menos ainda para um almoço campestre, as mulheres usavam vestidos de noite com adereços de pedras preciosas, e a maioria dos homens estava de escuro com gravata
preta, alguns com sobrecasacas de lã. Só os de muito traquejo, e
entre eles o doutor
Urbino, vestiam as roupas de todos
os dias. Em cada lugar havia uma cópia do menu,
impresso em francês e com
vinhetas douradas.
A senhora de Olivella, alarmada com os estragos do calor, percorreu a casa suplicando aos homens que tirassem o paletó para almoçar, mas ninguém se atreveu a dar o exemplo. O arcebispo fez notar
ao doutor Urbino que aquele era de certo modo um almoço histórico: ali estavam pela primeira vez juntos numa
mesma mesa, cicatrizadas as feridas e dissipados os rancores, os dois lados das guerras civis que tinham ensangüentado
o país a partir da independência. Esse pensamento coincidia com o entusiasmo dos liberais, sobretudo os jovens, que tinham conseguido eleger um
presidente de seu partido
depois de quarenta e cinco
anos de hegemonia conservadora. O doutor Urbino não estava de acordo: um presidente liberal não lhe parecia
nem mais nem menos que um presidente
conservador, só que se
vestia pior. Contudo, não quis contrariar o arcebispo. Teria gostado
ainda assim de lhe observar que ninguém estava naquele almoço pelo que pensava e sim pelos méritos de sua linhagem, e esta estivera sempre por cima dos azares da política
e os horrores da guerra. Desse ponto de vista, com efeito, não
faltava ninguém.
O aguaceiro parou de repente
como havia começado, o sol se incendiou
de
imediato no céu sem nuvens, mas
a borrasca tinha sido tão violenta que arrancou pela raiz algumas
árvores, e a água represada converteu o quintal em pântano. O desastre maior
tinha sido na cozinha. Vários fogões de lenha
tinham sido armados com tijolos na
parte de trás da casa, ao ar
livre, e mal tinham tido tempo os cozinheiros de
pôr os caldeirões a salvo da chuva.
Perderam um tempo precioso enxugando
a cozinha inundada e improvisando novos fogões
na galeria posterior. Mas à uma da tarde
estava solucionada a emergência, só faltava
a sobremesa encomendada às monjas de Santa Clara, que se haviam comprometido a mandá-la
às onze. Temia-se que o arroio da estrada real tivesse saído do leito, como ocorria em invernos
menos severos, e se assim fosse não seria possível contar com o doce
antes das duas horas. Logo que estiou abriram-se as janelas, e a casa se refrescou com o ar purificado pelo
enxofre da tempestade. Ordenou-se em seguida
que a banda tocasse o programa de valsas
no terraço do pórtico, o que só serviu para
aumentar a aflição, já que a ressonância dos metais dentro da casa obrigava a que se conversasse aos gritos. Cansada de esperar, sorrindo à beira de lágrimas, Aminta de Olivella mandou que se servisse o almoço.
O grupo da Escola
de Belas-Artes iniciou o concerto, em meio a
um silêncio
formal que obteve para os
compassos iniciais de La Chasse de Mozart. A despeito das vozes
cada vez mais altas e confusas, e do estorvo dos criados negros do
taverneiro Sancho que mal cabiam entre as mesas com as travessas fumegantes,
o doutor Urbino conseguiu manter um canal
aberto à música até o final do programa. Seu poder de concentração diminuía de ano para
ano, até o ponto em que
precisava anotar num papel cada jogada de xadrez para saber
por onde ia. Mas ainda lhe era
possível ocupar-se de uma conversação séria sem perder o fio de um concerto, embora sem chegar aos extremos magistrais de um maestro alemão, grande amigo seu em seus tempos de Áustria, que lia a
partitura de Don Giovanni enquanto
escutava Tannhauser,
O segundo número do programa, que foi A Morte e a Donzela, de Schubert,
pareceu-lhe executado com um dramatismo
fácil. Enquanto a escutava a duras penas, através do barulho
novo dos talheres
nos pratos, mantinha
o olhar fixo num rapaz de rosto rosado
que o cumprimentou com uma inclinação de cabeça. Já o vira em algum
lugar, sem dúvida, mas não lembrava
onde. Isto lhe acontecia com freqüência, sobretudo em relação ao nome das pessoas, mesmo as mais conhecidas suas, ou
com uma melodia de outros tempos, e que lhe provocava uma angústia tão espantosa que se
fosse por ela atacado
durante a noite preferia morrer a suportá-la até o amanhecer. Estava a
ponto de chegar a esse estado quando um fogacho caritativo lhe clareou
a memória: o rapaz tinha sido seu aluno
o ano anterior. Surpreendeu-se de vê-lo
ali, no reino dos eleitos, mas o
doutor Olivella lhe fez ver
que era o filho do Ministro da Higiene, que tinha vindo preparar
uma tese de medicina legal.
O doutor Juvenal Urbino lhe fez uma saudação alegre com a mão, e o jovem médico se pôs de pé e respondeu
com uma reverência. Mas nem então nem
nunca percebeu que era o estudante que havia estado com ele nessa manhã na casa de Jeremiah de Saint-Amour.
Aliviado por uma vitória
a mais sobre a velhice, abandonou-se
ao lirismo diáfano e fluido do último
número do programa, que não pôde identificar.
Mais tarde, o jovem violoncelista do conjunto, que acabava de voltar da
França, lhe disse que era o quarteto de
cordas de Gabriel Fauré, de quem o
doutor Urbino não tinha ouvido sequer mencionar
o nome, apesar de estar sempre muito atento às novidades da Europa. Voltada para ele, como sempre,
mas sobretudo quando o via absorto em público,
Fermina Daza deixou de comer e colocou sua mão terrestre sobre a dele. Disse:
"Não pense mais
nisso." O doutor Urbino sorriu da outra
margem do êxtase, e então tornou a pensar no que ela temia. Lembrou-se de Jeremiah de Saint-Amour, exposto a essa
hora dentro do ataúde com seu falso
uniforme de guerreiro e suas condecorações de quinquilharia,
debaixo do olhar acusador das crianças dos retratos. Voltou se para
o arcebispo para dar a notícia do suicídio, mas já a conhecia. Muito
se havia falado a respeito
depois da missa solene, e inclusive tendo
recebido uma petição do coronel Jerônimo Argote, em nome dos refugiados do Caribe, para que fosse sepultado
em terra consagrada. Disse: "A própria petição me pareceu
uma falta de respeito." Depois, num
tom mais humano, perguntou se se conhecia a causa do suicídio. O doutor Urbino lhe respondeu com uma palavra correta que imaginou haver inventado naquele instante:
gerontofobia. O doutor Olivella, debruçado sobre os convidados mais próximos,
despreocupou-se deles um momento para intervir no diálogo do seu mestre com o arcebispo. Disse: "É uma pena a gente se defrontar
ainda com um suicídio que não seja por amor." O doutor Urbino
não se surpreendeu de reconhecer
os próprios pensamentos nos do discípulo
predileto.
— E o que é pior — disse: — foi com
cianureto de ouro.
Ao dizê-lo
sentiu que a compaixão tinha voltado a
prevalecer sobre o amargor da carta, e não o agradeceu à mulher e sim
a um milagre da música.
Falou então ao arcebispo sobre o santo leigo que havia conhecido em suas longas tardes de xadrez, falou da consagração da sua arte
à felicidade das crianças, de sua rara
erudição a respeito de todas as
coisas do mundo, de seus hábitos
espartanos, e ele próprio se
espantou diante da limpeza de alma
com que conseguira separá-lo de pronto e por completo do seu passado. Falou
logo ao prefeito da conveniência de comprar o arquivo de chapas fotográficas para conservar as imagens de uma geração
que talvez não voltasse a ser feliz fora
de seus
retratos, e em cujas mãos
estava o futuro da cidade.
O arcebispo se escandalizara com o
fato de que um católico culto e militante se
houvesse atrevido a pensar na
santidade de um suicida, mas ficou de acordo com
a iniciativa de arquivar os
negativos. O prefeito quis saber a quem havia
de comprá- los. O doutor Urbino queimou a
língua com a brasa do segredo, mas conseguiu suportá-lo sem delatar a herdeira clandestina dos arquivos. Disse: "Eu me encarrego
disso." E se sentiu redimido por sua própria
lealdade à mulher que repudiara
cinco horas antes. Fermina Daza o notou e fez
com que ele prometesse em voz baixa que assistiria ao enterro.
Claro que sim, disse ele, aliviado, não faltava mais nada.
Os discursos foram breves e fáceis. A banda dos instrumentos de sopro iniciou uma ária
popular, não prevista no programa, e os convidados flanaram pelos terraços
cobertos, enquanto os homens da Pousada do Sancho acabavam de drenar o quintal, para
o caso de alguém se animar à dança. Os únicos que permaneciam
na sala eram os convidados da mesa de honra,
comemorando o fato de haver o doutor
Urbino tomado de um trago, no brinde final, um meio cálice de conhaque. Ninguém lembrava que jamais o houvesse feito antes, a não ser que se
tratasse de um vinho
de grande classe para acompanhar um prato muito especial, mas o coração assim lhe havia
pedido aquela tarde, e sua fraqueza foi bem recompensada: outra vez, depois de tantos e tantos anos, sentia
vontade de cantar. E o teria feito, sem dúvida, a instâncias do jovem violoncelista que
se ofereceu para acompanhá-lo, não fosse o
fato de um automóvel dos novos
ter atravessado o lodaçal do quintal,
salpicando os músicos e alvoroçando os
patos nos cercados com sua cometa de
pato, e parado diante do pórtico da casa. O doutor Marco Aurélio Urbino Daza e sua mulher desceram do carro morrendo de rir,
carregando bandejas cobertas com panos de renda. Outras bandejas iguais estavam nos assentos suplementares, e até no chão ao lado do
chofer. Era o doce atrasado.
Quando cessaram os aplausos e os assobios de
uma troça cordial, o doutor
Urbino Daza explicou a sério que as clarissas lhe
haviam pedido o favor de trazer a sobremesa antes que caísse a tempestade, mas ele se havia
afastado da estrada real porque
alguém lhe
dissera que estava pegando fogo a casa de
seus pais. O doutor Juvenal
Urbino chegou a se assustar antes que o filho terminasse o relato. Mas sua
esposa lhe lembrou a
tempo que ele próprio
tinha mandado chamar os bombeiros para
que apanhassem o louro. Aminta de Olivella, radiante, resolveu servir a sobremesa nos terraços, mesmo depois
do café. Mas o doutor Juvenal Urbino
e a esposa foram embora sem prová-lo,
já que mal havia tempo para que ele fizesse sua sesta sagrada antes do enterro.
Houve a sesta, mas
breve e mal feita, porque de volta
a casa viu que os bombeiros tinham causado estragos quase tão
graves como os de um incêndio. Procurando assustar o louro
tinham depenado uma árvore com
as mangueiras de pressão, e um jorro mal dirigido se meteu pelas janelas
do
quarto de dormir principal e causou danos irreparáveis
aos móveis e aos retratos dos avós
ignotos pendurados nas paredes. Os vizinhos tinham acudido ao ouvir a sineta
do caminhão de bombeiros,
acreditando que era mesmo um incêndio, e se não ocorreram transtornos piores foi porque os colégios estavam fechados domingo. Quando
descobriram que não alcançariam o louro nem com
as escadas emendadas, os bombeiros tinham começado a derrubar os galhos a
facão, e só o aparecimento oportuno do doutor Urbino Daza impediu que mutilassem até o tronco. Tinham prometido
voltar depois das cinco horas caso fossem autorizados a podar a árvore, e de passagem
tinham coberto de barro o terraço interior e a sala, e
destroçado um tapete turco que era o
preferido de Fermina Daza. Desastres inúteis, além do mais, pois a impressão geral era de que o louro tinha
aproveitado a confusão para escapar pelos quintais vizinhos. De fato o doutor Urbino o buscou
entre as ramagens mas não obteve resposta em nenhum idioma, nem com pios e canções, e por fim
deu-o por perdido, indo dormir quase às três. Antes desfrutou o prazer
instantâneo da fragrância de jardim
secreto de sua urina purificada pelos suaves aspargos.
Despertou-o a tristeza. Não a que havia sentido de manhã
frente ao cadáver do amigo, e sim a névoa impenetrável que lhe saturava a alma depois da sesta, e
que ele interpretava como uma notificação divina de que estava vivendo suas últimas tardes. Até os cinqüenta anos
não tinha tido consciência do tamanho,
peso e estado de suas vísceras. Pouco a pouco, enquanto jazia
com os olhos fechados depois da sesta
diária, tinha começado a senti-las lá dentro, uma a uma, sentindo até a
forma do seu coração insone, seu
fígado misterioso, seu pâncreas hermético, e tinha ido descobrindo
que até as pessoas mais velhas já eram mais moças do que ele, e que havia
terminado por ser o único
sobrevivente dos legendários retratos de grupo
da sua
geração. Quando atentou para seus primeiros esquecimentos, apelou para um recurso que tinha ouvido de um dos
seus professores na Escola de Medicina: "Quem não tem memória faz uma de papel." Mas foi uma ilusão efêmera, pois havia chegado ao
extremo de esquecer o que queriam dizer as notas mnemônicas que enfiava nos bolsos, percorria a casa procurando os óculos que tinha no nariz, tornava a dar
volta à chave depois de trancar
a porta, e perdia o fio da leitura
por esquecer as premissas dos
argumentos ou filiação dos personagens. Mas o que mais o inquietava era a desconfiança que tinha da própria
razão: pouco a pouco, num naufrágio
inelutável, sentia que ia perdendo o
sentido da justiça.
Por pura experiência, sem
fundamento científico, o doutor Juvenal Urbino sabia que a maioria das doenças
mortais tinha um cheiro próprio, e nenhum tão
específico quanto o da velhice. Ele o sentia nos cadáveres abertos em canal
na mesa de dissecção, reconhecia-o mesmo
nos pacientes que melhor disfarçavam
a idade, e no suor da sua própria roupa e na respiração inerme de sua
mulher adormecida. Não fosse
ele o que era em essência, um cristão à moda antiga, talvez tivesse ficado de acordo com Jeremiah de Saint-Amour em que a
velhice era um estado indecente que
devia ser detido a tempo. O único consolo, mesmo
para quem, como ele, tinha
sido um homem bom de cama, era a extinção lenta e piedosa no apetite venéreo: a paz sexual. Aos
oitenta e um anos tinha bastante
lucidez para perceber que estava
preso a este mundo por uns fiapos tênues que podiam se romper
sem dor com uma simples mudança de posição
durante o sono, e se fazia o possível para preservá-los era pelo terror de não encontrar Deus na
escuridão da
morte.
Fermina Daza tinha tratado de restabelecer o quarto destruído pelos bombeiros, e um pouco
antes das quatro mandou levar ao
marido o copo diário de limonada com gelo picado, e lhe lembrou de que
devia vestir-se para ir ao enterro.
O doutor Urbino tinha esta tarde dois livros ao alcance da mão:
O Homem, esse Desconhecido, de Alexis
Carrell, e A História de San Michele,
de Axel Munthe. Este último ainda não tinha as páginas abertas, e ele pediu a Digna Pardo, a cozinheira, que lhe trouxesse a faca de papel de marfim que tinha esquecido no quarto.
Mas quando chegou a faca, já estava lendo O Homem,
esse Desconhecido na página
marcada com o envelope de uma carta; faltavam muito poucas para terminá-lo.
Leu devagar, abrindo caminho pelos meandros de
uma ponta de dor de
cabeça que atribuiu ao meio cálice
de conhaque do brinde final. Nas pausas da leitura tomava um gole de
limonada, ou se detinha roendo um pedaço
de gelo. Tinha as meias
calçadas, a camisa sem o colarinho
postiço e os suspensórios elásticos de riscas verdes pendentes aos lados da cintura, e só lhe aborrecia a idéia
de ter de mudar de roupa para o enterro. Em breve parou de ler, pôs um livro em cima do outro, e começou a se embalar devagar na cadeira de balanço de vime contemplando no torpor da tarde as
bananeiras da Guiné no pântano do quintal,
a mangueira depenada, as formigas de asa
de depois da chuva, o esplendor efêmero daquela tarde a
menos, já partindo para nunca mais. Tinha esquecido que
possuíra uma vez um louro de Paramaribo ao qual amava como a um ser humano,
quando o ouviu de repente:
"Lourinho real." Ouviu-o muito perto,
quase ao seu lado, e logo depois o
avistou no galho mais baixo da mangueira.
—
Sem-vergonha — gritou.
O
louro respondeu com uma voz idêntica.
—
Mais sem-vergonha será
você, doutor.
Continuou falando com ele sem perdê-lo
de vista, enquanto se calçava
com muito cuidado para não
espantá-lo, e meteu os braços nos suspensórios, e desceu ao quintal ainda enlameado sondando o chão
com a bengala para não tropeçar nos
três degraus. O louro não se mexeu.
Estava tão baixo que ele esticou
o bastão para que o louro pousasse no castão de prata,
como costumava fazer, mas o louro se
esquivou. Saltou para um galho contíguo, um pouco mais alto mas de acesso
mais fácil, onde se apoiava a escada da casa desde antes da vinda dos bombeiros.
O doutor Urbino calculou a altura, e achou que galgando dois dos degraus
podia apanhá-lo. Subiu o primeiro, cantando uma
canção de cúmplice para distrair a atenção do bicho arisco que repetia as palavras sem a música,
mas afastando-se no galho com passos laterais. Subiu o segundo degrau sem dificuldade, agarrado à escada com
ambas as mãos, e o louro começou a repetir a canção completa
sem mudar de
lugar. Subiu o terceiro degrau e o quarto depois, pois havia calculado
mal a altura do galho, e então se aferrou
à escada com a mão esquerda e tentou pegar o louro
com a direita. Digna Pardo, a
velha criada que tinha vindo avisar a ele que já estava ficando tarde
para o enterro, viu o homem de costas trepado na escada e não
acreditaria que fosse quem era se
não visse as riscas verdes dos suspensórios de elástico.
—
Santíssimo Sacramento! — gritou. — Vai
se matar!
O doutor Urbino agarrou o louro pelo pescoço com um suspiro
de triunfo:
ça y est. Mas o largou de pronto, porque a escada resvalou sob seus pés
e ele ficou um instante suspenso no
ar, e então conseguiu perceber que se matava sem
comunhão, sem tempo para
se arrepender de nada nem
se despedir de ninguém, às quatro e sete minutos da tarde de domingo de Pentecostes.
Fermina Daza estava na cozinha provando a sopa para o jantar, quando ouviu o grito de horror de Digna Pardo e o alvoroço da criadagem da casa e
depois da vizinhança. Atirou a colher de
pau e tratou de correr como pôde com o peso invencível da
idade, gritando feito uma louca sem saber ainda o que acontecia debaixo da copa da
mangueira e o coração lhe estourou em estilhaços quando viu seu homem estirado
de costas no lodo, já morto em vida mas resistindo ainda um último minuto
à chicotada final da cauda da morte para
que ela sua mulher tivesse
tempo de chegar. Chegou a
reconhecê-la no tumulto através das lágrimas da dor
que jamais se repetiria de morrer sem ela, e a olhou pela
última vez para todo o sempre com os mais luminosos,
mais tristes e mais agradecidos olhos
que ela jamais vira no rosto
dele em meio século de vida em comum,
e ainda conseguiu dizer-lhe com
o último alento:
—
Só Deus sabe quanto amei você.
Foi uma morte memorável, e não sem razão. Mal acabados seus estudos
de especialização na França, o doutor
Juvenal Urbino se tornou conhecido no
país por haver conjurado a tempo, com métodos inovadores e
drásticos, a última epidemia de cólera morbo que flagelou a província. A anterior, quando ele ainda estava na Europa, causara a morte da quarta parte
da população urbana em menos de três meses,
incluindo aí seu pai, que foi também um médico muito estimado.
Com o prestígio imediato e uma boa
contribuição do patrimônio familiar fundou a Sociedade
Médica, a primeira e única nas províncias do
Caribe durante muitos anos, e foi seu presidente vitalício. Conseguiu a construção do primeiro aqueduto, do primeiro
sistema de esgotos, e do mercado público coberto que permitiu o saneamento da
podridão que era a baía das Animas. Foi além disso presidente da Academia da Língua e da Academia
de História. O patriarca latino de Jerusalém o fez cavaleiro
da Ordem do Santo Sepulcro pelos serviços prestados à Igreja, e o governo da França lhe
concedeu a Legião de Honra no
grau de comendador. Foi animador
ativo de todas as congregações
religiosas e cívicas existentes na
cidade, e em
especial da Junta Patriótica, formada por cidadãos influentes sem interesses políticos que pressionavam o governo e o
comércio local com iniciativas
progressistas demasiado audaciosas para
a época. Entre estas, a mais
memorável foi o ensaio de um globo
aerostático que no vôo inaugural levou uma carta
até São João da Ciénaga, muito
antes de se pensar
em correio aéreo como uma possibilidade racional. Também foi sua a
idéia do Centro Artístico, que fundou
a Escola de Belas-Artes onde ainda funciona, e patrocinou durante muitos anos os Jogos Florais de abril.
Só ele conseguira
o que não tinha parecido impossível durante um
século: a restauração do Teatro
da Comédia, convertido em rinha e granja de gaios de briga desde
os tempos da Colônia. Foi a
culminação de uma campanha cívica espetacular, que envolveu todos os setores da cidade sem
exceção, numa mobilização
multitudinária que muitos consideraram
digna de melhor causa. Mesmo assim, o novo Teatro da Comédia se inaugurou quando ainda não tinha cadeiras
nem lâmpadas, e os espectadores tinham
que levar em que sentar e com que se iluminar nos intervalos. Foi imposta a mesma etiqueta
das grandes estréias da Europa, que as damas aproveitavam para exibir seus vestidos longos e seus abrigos
de pele na canícula do Caribe, mas foi necessário autorizar também a entrada dos criados para que carregassem as cadeiras e as
candeias, e quantas coisas de comer parecessem necessárias para resistir
aos programas intermináveis, alguns dos quais se prolongaram até a hora da primeira missa.
A temporada se abriu com uma companhia francesa de ópera cuja novidade era uma harpa na orquestra e cuja
glória inolvidável era a voz imaculada e o talento dramático de uma soprano
turca que cantava descalça e com anéis de pedras preciosas nos dedos dos pés. A
partir do primeiro ato mal se enxergava
o cenário e os cantores perdiam a voz devido ao fumo de tantas lâmpadas de azeite de
coco, mas os cronistas da cidade se
encarregaram muito bem de apagar
estes inconvenientes miúdos e de exaltar
as magnificências. Foi sem dúvida a iniciativa mais contagiosa do doutor Urbino, pois a febre da ópera contaminou até os setores menos
informados da cidade, e deu
origem a toda uma geração de Isoldas e Otelos, e Aídas e
Sigfredos. Não obstante, jamais se chegou aos extremos que o doutor Urbino
teria desejado, de ver italianizantes
e wagnerianos se enfrentando a
bengaladas nos intervalos.
O doutor Juvenal Urbino jamais aceitou postos oficiais,
que lhe ofereceram amiúde e sem condições, e foi crítico encarniçado dos médicos que se valiam do prestígio
profissional para escalar posições
políticas. Embora sempre o tivessem por
liberal, e costumava nas eleições votar
nos candidatos desse partido, era
mais liberal por tradição que por
convicção, e foi talvez o último membro das grandes famílias a se ajoelhar
na rua quando passava a carruagem do arcebispo.
A si mesmo
se definia como um pacifista natural, partidário da reconciliação definitiva de liberais e conservadores para o bem da pátria. E sua conduta
pública era tão autônoma que ninguém o contava como seu: os liberais o consideravam um reacionário das cavernas, os conservadores diziam que só lhe faltava ser maçom, e os maçons o repudiavam como um clérigo emboscado
a serviço da Santa
Sé. Seus críticos menos sangrentos achavam que ele
não passava de um aristocrata extasiado com as delícias
dos Jogos Florais, enquanto a nação se esvaía
no sangue de uma guerra civil interminável.
Só dois atos seus não
pareciam conformes a esta imagem. O primeiro foi sua mudança
para uma casa nova num bairro
de ricos recentes, em troca do
antigo palácio do Marquês de Casalduero,
que tinha sido a mansão familiar durante mais
de um século. O outro foi seu casamento
com uma beleza do povo, sem nome
nem fortuna, de quem troçavam em segredo as senhoras de sobrenomes grandes até se convencerem à força, de que a outra punha todas elas no chinelo com sua distinção e seu caráter. O doutor Urbino levou sempre em boa conta esse e muitos outros percalços de sua imagem
pública, e ninguém era mais consciente
do que ele próprio de ser o
último protagonista de um nome em extinção. Seus filhos eram dois fins de raça sem nenhum brilho. Marco Aurélio, o varão,
médico como ele e como todos os
primogênitos de cada geração,
não tinha feito nada notável, sequer um filho, passados os cinqüenta
anos. Ofélia, a única filha, casada com um bom bancário de Nova
Orleans, tinha chegado ao climatério com três filhas
e nenhum varão. Não obstante, apesar de lhe doer
a interrupção do seu sangue no manancial da história, da morte
o que mais preocupava o doutor Urbino era a vida solitária de Fermina Daza sem ele.
Em todo caso, a tragédia foi uma comoção não só entre sua
gente, como afetou por contágio
o povo simples, que ganhou as ruas na ilusão de
pelo menos sentir o resplendor da legenda. Foram proclamados três dias de luto, hasteou-se a bandeira a meio pau nos estabelecimentos
públicos, e os sinos de todas as igrejas dobraram sem pausas
até que foi selada a cripta no mausoléu familiar. Um grupo da Escola de
Belas-Artes fez a máscara
mortuária do cadáver para servir de molde a um busto de tamanho natural, mas se abandonou o projeto porque a ninguém pareceu
apropriada a fidelidade com que
ficou plasmado o pavor do instante
derradeiro. Um artista de renome que
estava aqui por casualidade de passagem
para a Europa
pintou uma tela gigantesca de um realismo
patético, na qual se via o doutor
Urbino trepado na escada no instante mortal em
que estendia a mão para agarrar o
louro. A única coisa que contrariava a
verdade crua da sua história é que ele não trajava no quadro a camisa sem colarinho e os suspensórios de riscas
verdes, e sim o chapéu- coco e a
sobrecasaca de lã preta de um clichê
de jornal dos anos do cólera. Este quadro se expôs poucos meses depois da tragédia,
para que ninguém deixasse de vê- lo, na vasta galeria de O Arame de Ouro, uma loja de artigos importados onde desfilava a cidade inteira. Passou logo para as paredes de quantas instituições públicas
e privadas se julgaram no dever de render
tributo à memória do patrício insigne e afinal foi dependurado com uma segunda homenagem fúnebre na
Escola de Belas-Artes, de onde o tiraram muitos anos depois os próprios estudantes de pintura para queimá-lo
na Praça da Universidade como símbolo de uma estética e
de uma época tediosas.
Durante seu primeiro instante
de viúva se viu que Fermina Daza não ficava
tão desamparada como temera o esposo. Foi inflexível na
determinação de não permitir que se utilizasse o cadáver em benefício de nenhuma causa, e o foi inclusive
com o telegrama do Presidente da República, que mandava expô-lo em câmara ardente no salão nobre do palácio do governo local. Com a mesma serenidade
se opôs a que fosse velado na catedral, como lhe
pediu o arcebispo em pessoa, e só admitiu que ali ficasse durante a missa de corpo presente dos ofícios fúnebres. Apesar da mediação do filho, aturdido
diante de tantas solicitações
diversas, Fermina Daza se manteve firme em sua
noção rural de que os mortos
não pertencem a ninguém além da família, e que ele seria velado em casa
com café torrado pelas criadas e os costumeiros bolinhos de farinha de trigo e queijo, e com a liberdade de cada um para
chorá-lo como quisesse. Não haveria o velório tradicional de nove noites:
as portas se fecharam depois do enterro e só voltaram a se abrir para visitas íntimas.
A casa ficou debaixo do
regime da morte. Todo objeto de valor foi posto em lugar seguro, e nas paredes desnudas só ficaram as marcas dos quadros
desprendidos. Da sala aos quartos, as cadeiras da casa e as tomadas de empréstimo
aos vizinhos estavam colocadas contra as paredes e os espaços vazios pareciam imensos e
as vozes tinham uma ressonância
espectral, porque os móveis grandes
tinham sido removidos, salvo o piano de cauda
que jazia em seu canto debaixo de um lençol
branco. No centro da biblioteca, sobre a escrivaninha do seu pai,
estava estendido sem caixão aquele
que fora Juvenal Urbino de La Calle, com o último espanto petrificado no rosto, e com a capa preta e a espada de guerra dos cavaleiros do Santo Sepulcro. A seu lado, de
luto íntegro, trêmula mas muito senhora de si, Fermina
Daza recebeu os pêsames sem dramas,
mal se movendo, até as onze da manhã do
dia seguinte, quando se despediu do esposo no
pórtico dizendo-lhe adeus com um lenço.
Não lhe tinha sido
fácil recuperar esse domínio a partir
do momento
em que ouviu o grito de Digna Pardo no quintal e encontrou o ancião de sua vida agonizando no lodo. Sua primeira reação
foi de
esperança porque ele tinha os olhos abertos e um brilho de luz radiante que ela jamais lhe vira nas
pupilas. Rogou a Deus que lhe concedesse
ao menos um instante para que ele
não partisse sem saber quanto
o amara por cima das dúvidas de ambos e sentiu a premência irresistível de
começar a vida com ele outra
vez desde o começo para que se dissessem tudo que tinham ficado sem dizer, e fizessem bem qualquer coisa que tivessem
feito mal no passado. Mas teve
que render-se à intransigência da morte.
Sua dor se descompôs numa cólera cega contra o mundo, e até
contra ela própria, o que lhe infundiu
o domínio e a coragem de enfrentar sozinha sua
solidão. Desde então não teve trégua, mas se preveniu contra qualquer gesto que parecesse alarde de sua dor.
O único momento de um certo
patético, aliás involuntário, foi às
onze da noite do domingo, quando entrou na casa o ataúde episcopal recendente
ainda a verniz ordinário, com alças de cobre
e forro de seda acolchoada. O doutor
Urbino Daza mandou fechá-lo logo, pois o ar da
casa estava rarefeito com o vapor de tantas
flores no calor insuportável, e ele achava
ter notado sombras arroxeadas
no pescoço do pai. Uma voz distraída se ouviu no silêncio: "Nessa
idade a gente já está meio
podre em vida." Antes
que fechassem o caixão, Fermina Daza
tirou sua aliança e a colocou no
marido morto, e depois lhe cobriu
a mão com a sua, como sempre fazia ao
surpreendê-lo divagando em público.
— Muito em breve nos veremos — lhe disse.
Florentino Ariza, invisível em meio à multidão de figurões,
sentiu um toque de lança nas costas. Fermina Daza não o
notara no tumulto dos primeiros
pêsames, embora ninguém fosse estar mais presente nem ser mais
útil do
que ele nas emergências
daquela noite. Foi ele quem pôs
ordem nas cozinhas apinhadas para que
não faltasse café. Arranjou cadeiras suplementares quando não bastaram as dos vizinhos, e mandou pôr no quintal as coroas
excedentes quando não cabia na casa mais nenhuma.
Tratou de ver que não faltasse conhaque para os convidados do doutor
Lácides Olivella, que tinham recebido a má notícia
no apogeu das bodas de prata,
e vieram em batalhão continuar
a pândega sentados num círculo
debaixo do pé de manga. Foi o
único que soube reagir a tempo quando
o louro fujão apareceu à meia-noite na
sala de jantar com a cabeça levantada
e as asas abertas, o que causou um calafrio
de estupor na casa, pois parecia uma exortação à penitência. Florentino Ariza
o agarrou pelo pescoço sem lhe dar tempo de
gritar uma só de suas instruções insensatas e carregou-o para a cocheira numa gaiola coberta. Desta
forma fez tudo, com tanta
discrição e tamanha eficácia, que a ninguém ocorreu
pensar que fosse uma intromissão em assuntos alheios- e sim, pelo contrário, uma ajuda inestimável
naquela hora má da casa.
Era aquilo que parecia: um ancião serviçal e sério. Tinha o corpo ossudo e reto, a pele parda e glabra, os olhos ávidos por trás dos óculos
redondos e pequenos com armação de metal
branco, e um bigode romântico de guias engomadas, um pouco tardio para a
época. Tinha as últimas mechas de cabelos penteados da testa para o alto e grudados com gomalina no
centro do crânio reluzente como solução final de uma calvície absoluta. Sua gentileza natural
e suas
maneiras lânguidas cativavam na hora, mas também eram tidas como
duas virtudes suspeitas num celibatário
empedernido. Tinha gasto muito dinheiro,
muito engenho e muita força de vontade para que não avaliassem os setenta
e seis anos que já tinha feito em março
último,
e estava convencido na solidão de
sua alma de haver amado em silêncio muito mais do que alguém jamais amara neste mundo.
Na noite da morte do doutor Urbino estava vestido como o
surpreendeu a notícia, que era como sempre estava, não
obstante os calores infernais de junho: de lã escura com colete, um laço de fita de seda no colarinho de celulóide, um chapéu de feltro,
e um guarda-chuva lustroso e preto que também lhe servia de bengala. Mas quando
começou a clarear desapareceu do velório durante duas horas, e retornou
repousado com os primeiros sóis, bem
escanhoado e cheirando a loção de barba. Trajava uma sobrecasaca preta dessas que ainda só se usavam nos enterros e ofícios
da Semana Santa, colarinho mole com plastrom de artista em vez de gravata, e chapéu-coco. Também trazia o
guarda-chuva, no caso não só pelo
hábito, pois tinha certeza de que
ia chover antes das doze, o que informou ao
doutor Urbino Daza para o caso de ser possível
antecipar o enterro. Foi o que tentaram, de fato,
porque Florentino Ariza pertencia a uma família ligada à navegação e ele próprio era
presidente da Companhia Fluvial do Caribe, o que permitia supor que em tendesse de prognósticos atmosféricos. Mas
não conseguiram harmonizar a tempo as
autoridades civis e militares, as corporações públicas e privadas, a banda militar e a das Belas-Artes, as escolas e congregações religiosas que já
estavam de acordo para as onze,
de modo que o enterro previsto
como um acontecimento histórico
acabou em debandada devido ao aguaceiro arrasador. Foram muito poucos os que chegaram chapinhando na
lama até o mausoléu da família, protegido por uma paineira colonial cuja copa se estendia para lá do muro do cemitério.
Debaixo dessa mesma copa, mas na
parcela externa destinada aos suicidas, os refugiados do Caribe tinham sepultado a tarde
anterior Jeremiah de Saint-Amour, e seu cão junto a ele, de acordo
com sua vontade.
Florentino Ariza foi
um dos poucos que chegaram até o final do
enterro. Ficou ensopado até a roupa de
baixo, e chegou espavorido a sua casa
de medo de contrair uma pneumonia depois de tantos cuidados minuciosos e
precauções excessivas. Mandou reforçar uma limonada
quente com uma dose de conhaque, tomou-a na cama com duas
pastilhas de fenaspirina e suou mares enrolado num xale de lã até
recobrar o bom clima do corpo. Quando
voltou ao velório foi de ânimo forte. Fermina Daza tinha assumido de novo o comando da casa, que estava varrida e em
estado de receber, e tinha
posto no altar da biblioteca um retrato do esposo morto pintado a pastel, com uma tarja de luto na moldura. Às oito havia tanta gente e o calor era tão intenso como a noite anterior, mas depois do terço alguém fez circular a solicitação
de que todos se retirassem cedo para que
a viúva descansasse pela primeira vez desde a tarde
de domingo.
Fermina Daza se despediu
da maioria junto ao altar, mas acompanhou o último
grupo de amigos íntimos até a porta da rua, para fechá-la ela própria,
como era seu costume. Dispunha-se
a fazê-lo com o último alento, quando
viu Florentino Ariza vestido de luto no centro da sala deserta. Ficou satisfeita,
porque há muitos anos o havia apagado de sua vida, e
pela primeira vez tinha consciência de vê-lo
depurado pelo esquecimento. Mas antes
que pudesse lhe agradecer a visita, ele pôs o chapéu em cima do coração, trêmulo e digno, e arrebentou o abscesso que
tinha sido o sustento de sua vida:
—
Fermina — disse — esperei esta ocasião durante mais de meio século, para lhe repetir uma vez mais o juramento de minha fidelidade
eterna e meu amor para sempre.
Fermina Daza se teria
julgado diante de um louco,
caso não tivesse tido motivos para pensar que Florentino Ariza estava
naquele instante inspirado pela graça do Espírito
Santo. Seu impulso imediato foi maldizê-lo pela profanação da casa quando
ainda estava quente no túmulo o cadáver de seu esposo. Mas foi contida pela dignidade da raiva. "Vá embora", lhe disse. "E não se deixe ver nunca mais nos anos que ainda lhe restarem de vida." Abriu de novo por completo a porta da rua que
tinha começado a fechar, e concluiu:
—
Que espero sejam muito poucos.
Quando ouviu que
se apagavam
os passos na rua solitária, fechou a
porta bem devagar, com a tranca e os ferrolhos,
e encarou sozinha seu destino. Nunca, até este momento,
tinha tido a plena consciência do peso
e do tamanho do drama que ela própria desencadeara quando tinha apenas
dezoito anos, e que havia de persegui-la
até a morte. Chorou pela primeira vez desde a tarde
do desastre, sem testemunhas, que era seu único jeito de chorar. Chorou pela morte do
marido, por sua solidão e sua raiva, e quando entrou no quarto vazio
chorou por si mesma, porque muito poucas
vezes tinha dormido sozinha nessa
cama desde que deixara de ser virgem. Tudo que era do esposo lhe
atiçava o pranto: os chinelos de borlas, o pijama debaixo do travesseiro,
o espaço sem ele no espelho da
penteadeira, o cheiro pessoal dele
em sua própria pele.
Abalou-a um pensamento vago: "As pessoas que a gente ama deviam morrer
com todas as suas coisas." Não quis ajuda de ninguém para se deitar,
não quis comer nada antes de dormir. Na angústia de sua desolação, rogou a Deus que lhe
mandasse a morte esta noite
durante o sono, e com essa ilusão
se deitou, descalça mas vestida, e dormiu no mesmo instante. Dormiu sem saber,
mas sabendo que continuava viva no sono,
que lhe sobrava metade da cama, que jazia de costas na margem esquerda, como sempre, mas que lhe fazia falta o contrapeso do outro
corpo na outra margem. Pensando adormecida pensou que nunca mais poderia dormir assim, e começou a soluçar adormecida,
e dormiu soluçando sem mudar de posição na sua margem, até muito depois
de acabarem de cantar os gaios, e a
despertou o sol indesejável da manhã sem
ele. Só então descobriu que havia dormido muito sem morrer, soluçando no sono,
e que enquanto dormia soluçando pensava mais em Florentino Ariza do que
no marido morto.
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