FLORENTINO ARIZA, por
outro lado, não deixara de pensar nela um único
instante desde que Fermina Daza o rechaçou sem
apelação depois de uns amores longos e contrariados, e haviam
transcorrido a partir de então
cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias. Não tivera que manter a conta do
esquecimento fazendo uma risca diária nas paredes de um calabouço,
porque não se havia passado um dia sem que acontecesse alguma coisa que o fizesse lembrar-se dela. Na época do rompimento ele vivia só com a mãe,
Trânsito Ariza, numa meia casa
alugada da Rua das Janelas, onde ela desde jovem tinha um negócio
de armarinho e onde
além disso desfiava camisas e
panos velhos que vendia como algodão para os feridos de guerra. Foi seu filho único,
tido de uma aliança ocasional com o conhecido armador senhor Pio Quinto Loayza, um dos três
irmãos fundadores da Companhia
Fluvial do Caribe, com a qual deram um impulso
novo à navegação a vapor no rio Madalena.
O senhor Pio Quinto Loayza morreu quando o filho tinha dez anos. Embora sempre se houvesse
ocupado em segredo de seus gastos,
nunca o reconheceu como seu perante a
lei nem
lhe deixou resolvido o futuro, de
modo que Florentino Ariza ficou apenas com o sobrenome da mãe, ainda que sua verdadeira filiação tenha sempre
sido de domínio público. Depois da morte do
pai, Florentino Ariza teve que renunciar ao colégio para se empregar
como aprendiz na Agência dos Correios, onde o encarregaram de abrir os sacos e arrumar as cartas, e de avisar ao público da chegada do correio içando à porta do escritório
a bandeira do país de procedência.
Sua capacidade chamou
a atenção do telegrafista, o emigrado
alemão Lotário Thugut, que além do mais
tocava órgão nas cerimônias extraordinárias da
catedral e dava aulas de música
a domicílio. Lotário Thugut lhe ensinou o código Morse e o manejo do sistema telegráfico, e bastaram as
primeiras lições de violino para que Florentino Ariza continuasse
a tocá-lo de ouvido como um profissional. Quando conheceu Fermina
Daza era o moço mais requisitado do seu meio social, o que melhor dançava música da moda e
recitava de cor a poesia sentimental, e estava sempre à disposição
dos amigos para fazer a suas
noivas serenatas de solo de violino. Era escaveirado desde então,
com um cabelo de índio amansado a
brilhantina, e com os óculos de míope que aumentavam seu aspecto de desamparo. Além do defeito
da vista, sofria de uma prisão de
ventre crônica que o obrigou a tomar lavagens purgativas a vida inteira.
Só tinha uma roupa para visitas e missas, herdada do pai morto, mas
Trânsito Ariza a
mantinha tão cuidada
que a cada domingo parecia nova. Apesar do seu ar
enfezadinho, do seu acanhamento e de seu traje sombrio,
as moças do seu grupo faziam rifas secretas no jogo de ver quem ficava com ele, e ele aceitava o
jogo de ficar com elas, até o dia em que conheceu
Fermina Daza e se acabou sua inocência.
Ele a vira pela primeira vez uma tarde em que Lotário Thugut o encarregou de levar
um telegrama a alguém sem domicílio conhecido que se chamava Lorenzo Daza. Encontrou-o na
pracinha dos Evangelhos, numa das casas mais antigas, meio arruinada, cujo pátio interior parecia
o claustro de uma abadia, com
tiririca nos canteiros e um repuxo de pedra
sem água. Florentino Ariza não
percebeu nenhum ruído humano quando seguiu a criada descalça
por baixo dos arcos do corredor, onde havia caixotes de mudança ainda por abrir, e ferramentas de pedreiro entre restos de cal
e sacos de cimento alinhados,
pois a casa estava sendo submetida
a uma reforma
radical. No fundo do pátio
havia um escritório provisório,
onde dormia a sesta sentado diante da escrivaninha
um homem muito gordo de
suíças crespas que se confundiam
com os bigodes. Chamava-se, de fato,
Lorenzo Daza, e não era muito conhecido
na cidade porque chegara há menos de dois anos e não era homem de
muitos amigos.
Recebeu o telegrama como se fosse a continuação de um sonho aziago. Florentino Ariza observou
os olhos aflitos com uma espécie de compaixão oficial, observou os dedos
incertos procurando descolar o papel, o medo visceral que tinha visto tantas vezes em tantos destinatários que ainda não
conseguiam pensar em telegrama sem pensar em morte. Quando o leu, recobrou
o domínio de si mesmo. Deu um suspiro: "Boas notícias." E
entregou a Florentino Ariza os cinco réis de
uso, dando-lhe a entender com um sorriso de alívio que não os teria dado
se as notícias tivessem sido más. Depois se despediu com um forte aperto de mão,
que não era de costume com um mensageiro do telégrafo,
e a criada o acompanhou até o portão
da rua, não tanto para conduzi-lo como para vigiá-lo. Percorreram o mesmo caminho em sentido contrário pelo corredor de arcadas, mas desta vez viu Florentino Ariza que havia alguém
mais na casa, porque a claridade do pátio estava ocupada por uma voz de
mulher que repetia uma lição de
leitura. Ao passar diante do quarto
de costura viu pela janela uma mulher mais velha e uma menina,
sentadas em duas cadeiras muito juntas,
as duas acompanhando a leitura no
mesmo livro que a mulher mantinha aberto no colo. Pareceu-lhe uma visão estranha: a filha ensinando a mãe a ler. A dedução era
incorreta só em parte, porque a mulher era tia e não mãe da menina, embora a tivesse criado como se mãe fosse.
A aula não se interrompeu, mas a menina levantou a vista para ver quem
passava pela janela, e esse olhar
casual foi a origem de um cataclismo
de amor que meio
século depois não tinha terminado ainda.
A única coisa que Florentino Ariza pôde averiguar sobre Lorenzo Daza foi que tinha vindo de São João da Ciénaga com a filha única e a irmã solteira pouco
depois da peste do cólera, e os que o viram desembarcar não
duvidaram que ele vinha para ficar, pois trazia todo
o necessário para uma casa
bem guarnecida. A esposa tinha morrido quando a filha era muito pequenina.
A irmã se chamava Escolástica, tinha
quarenta anos e estava cumprindo promessa ao usar
o hábito de São Francisco quando saía à rua, e só o cordão na cintura quando estava em casa. A menina
tinha treze anos e atendia pelo mesmo nome que a mãe morta: Fermina.
Supunha-se que Lorenzo Daza era homem de recursos
porque vivia bem sem ofício
conhecido, e comprara com moeda sonante a casa dos Evangelhos, cuja restauração
devia ter custado pelo menos o dobro dos duzentos pesos ouro que pagou por ela. A filha estudava no Colégio da Apresentação
da Santíssima Virgem, onde as
senhoritas da sociedade aprendiam há dois séculos
a arte e o ofício de serem esposas diligentes e submissas. Durante a Colônia e os primeiros anos da República
só recebiam as herdeiras de sobrenomes
ilustres. Mas as velhas famílias arruinadas pela independência tiveram
que submeter-se à realidade dos novos tempos, e o colégio abriu as portas a
todas as candidatas que pudessem pagar por ele, sem levar
em conta seus pergaminhos, mas com a condição essencial de que fossem filhas
legítimas de casais católicos.
De todas as maneiras era um colégio caro, e o fato de que Fermina Daza estudava ali era por si só um indício da situação econômica da família, embora não fosse de sua condição social. Estas notícias animaram
Florentino Ariza, pois lhe indicavam
que a bela adolescente de olhos amendoados estava ao alcance de seus sonhos. Não
obstante, o regime estrito em que
a mantinha o pai se revelou dentro de pouco como um obstáculo intransponível. Ao contrário das outras
alunas, que iam ao colégio em grupos
ou acompanhadas por uma criada mais velha, Fermina Daza ia sempre
com a tia solteira, e sua conduta
indicava que não lhe era permitida nenhuma distração.
Foi desse modo inocente que Florentino Ariza iniciou sua vida sigilosa de caçador solitário. A partir das sete da manhã se
sentava sozinho no banco menos visível da praça, fingindo ler um livro de versos à sombra das amendoeiras,
até que via passar a donzela impossível com o uniforme
de listras azuis, as meias presas
com ligas nos joelhos, as
botinas masculinas de cordões
cruzados e uma única trança grossa com um laço na ponta que se estendia pelas costas até a cintura. Andava com uma altivez natural, a cabeça erguida, a vista imóvel, o passo rápido, o nariz afilado, com a pasta dos livros apertada nos
braços em cruz contra o peito, e com um modo de andar de corça que fazia com que ela parecesse imune à gravidade. A seu lado, acompanhando-a a duras penas, a
tia com o hábito pardo e o cordão de São Francisco
não deixava a menor fresta para
que alguém chegasse perto. Florentino Ariza as via
passar de ida e volta quatro vezes por
dia, e uma vez aos domingos à saída da missa
solene, e ver a menina lhe bastava. Pouco a pouco a foi idealizando, atribuindo-lhe virtudes
improváveis, sentimentos imaginários,
e ao fim de duas semanas a única coisa em
que pensava era ela. Por isso, resolveu mandar-lhe um recado simples escrito dos dois lados de uma folha de papel com
sua caprichada letra de escrivão. Mas guardou-a vários dias no
bolso, pensando em como entregá-la, e
enquanto pensava escrevia várias páginas mais antes de se deitar, de modo que
a carta original
foi
virando um dicionário de galanteios,
inspirado
nos livros que havia decorado de tanto
lê-los nas esperas da praça.
Buscando o modo de entregar a carta procurou travar conhecimento com algumas alunas do Apresentação, mas estavam longe demais do seu mundo.
Além disso, depois de muito refletir
achou que não era prudente que alguém ficasse
sabendo de suas pretensões. Mesmo assim, conseguiu saber
que Fermina Daza tinha sido convidada a um baile de
sábado uns dias depois da sua chegada,
e que o pai não lhe havia dado
consentimento com uma frase terminante: "Cada
coisa se fará em
seu devido tempo." A
carta tinha mais de sessenta páginas escritas dos dois lados
quando Florentino Ariza não pôde resistir mais à opressão do seu segredo, e se abriu
sem reservas à mãe, a única pessoa
com quem se permitia algumas
confidencias. Trânsito Ariza se comoveu
até as lágrimas com a candura do filho em
assuntos de amor, e tratou de orientá-lo com suas luzes. Começou por convencê-lo a não entregar seu cartapácio lírico, com o qual
só conseguiria assustar a menina dos seus
sonhos, que supunha tão verde quanto ele nos negócios do coração. O primeiro passo, lhe
disse, era fazer com que ela se desse
conta do
seu interesse, para
que a declaração não a pegasse de supetão
e ela tivesse tempo de pensar.
— Mas sobretudo — lhe
disse — a primeira conquista que você tem a fazer não é a dela, e sim a da tia.
Ambos os conselhos eram
sábios, sem dúvida, mas tardios. Em
verdade, no dia em que Fermina Daza se descuidou um instante
da aula
de leitura que estava dando à tia, e levantou a vista para ver quem
passava pelo corredor, Florentino Ariza a impressionou pela aura de desamparo que o envolvia. À noite, durante a refeição, seu pai lhe
havia falado do telegrama e foi assim que ela soube o que é
que Florentino Ariza tinha ido fazer
na casa, e qual era seu ofício. Estas notícias aumentaram seu interesse,
pois para ela, como para tanta gente da época, a invenção do
telégrafo tinha algo a ver com a magia. Por isso reconheceu Florentino Ariza desde a primeira vez em que o viu lendo debaixo das árvores da pracinha, embora não lhe desse
qualquer inquietação até que a tia a fizesse
saber que há várias semanas ele se postava ali.
Depois, quando o viram também aos domingos à saída da missa, a tia acabou de se convencer
de que
tantos encontros não podiam ser casuais. Disse: "Não há de ser por minha
causa que se dá tanto trabalho." Pois apesar de sua conduta
austera e seu hábito de penitente, a tia
Escolástica Daza tinha um instinto da vida e uma vocação de cumplicidade que eram suas melhores
virtudes, e a simples idéia de que
um homem se interessasse pela sobrinha lhe
causava uma emoção
irresistível. Contudo, Fermina Daza estava ainda a salvo da mera
curiosidade do amor, e a única coisa
que lhe inspirava Florentino Ariza
era uma
certa pena, porque lhe pareceu
que estava doente. Mas a tia lhe disse
que era necessário ter vivido muito para conhecer a índole verdadeira de um homem, e estava convencida de que aquele que se sentava no jardim para vê-las
passar só
podia estar doente de amor.
Tia Escolástica era um refúgio de compreensão e afeto para a
filha solitária de um casamento sem amor. Ela a
criara desde a morte da mãe, e em relação a Lorenzo Daza se comportava mais como cúmplice do que como tia. Por isso a aparição de Florentino Ariza foi para elas mais uma das muitas diversões
íntimas que costumavam inventar para entreter
suas horas mortas. Quatro vezes por
dia, quando passavam pela
pracinha dos Evangelhos, ambas se apressavam a
buscar com um olhar
instantâneo o sentinela escaveirado,
tímido, coisinha pouca, quase sempre
vestido de preto apesar do calor, que fingia ler debaixo das árvores. "Lá
está", dizia a que o descobria primeiro, reprimindo o riso, antes
que ele levantasse a vista e visse as duas mulheres rígidas, distantes de
sua vida, que atravessavam o
parque sem olhá-lo.
—
Pobrezinho — tinha dito a tia. — Não se atreve
a se aproximar porque eu estou com você, mas um dia tentará,
se suas intenções são sérias, e então
vai entregar a você uma carta.
Prevendo toda classe de
adversidades, ensinou-a a se comunicar
com sinais alfabéticos de mão,
recurso indispensável aos amores
proibidos. Aquelas travessuras
ingênuas, quase pueris, despertavam em Fermina Daza uma curiosidade novidadeira, mas não lhe ocorreu durante vários meses que fossem mais longe. Nunca soube em que momento a diversão se converteu
em ansiedade, e sentia o sangue virando espuma na urgência de vê-lo, e uma noite acordou espavorida porque o viu
olhando-a no escuro aos pés da cama.
Então desejou no fundo da alma que se cumprissem os prognósticos da tia, e rogava a Deus nas suas orações
que ele tivesse a coragem de lhe entregar a carta só para ela saber o que dizia.
Mas seus rogos
não foram atendidos. Ao contrário. Isto sucedia na época em que Florentino Ariza se confessou
à mãe e ela o dissuadiu de entregar as setenta páginas de galanteios,
e por isso Fermina Daza continuou
esperando todo o resto do ano.
Sua ansiedade se convertia em desespero à medida que se aproximavam as férias de dezembro, pois se perguntava sem sossego o que ia fazer para vê-lo, e para que ele
a visse, durante os três meses em que
não iria ao colégio. As dúvidas
continuavam sem solução na noite de Natal, quando estremeceu com a sensação de que
ele a olhava do meio da multidão da missa do galo, e essa inquietação lhe sufocou o
coração. Não se atreveu a voltara cabeça, porque estava sentada entre o pai e a tia, e teve que se dominar para
que não percebessem sua perturbação.
Mas na desordem da saída sentiu-o tão
iminente, tão nítido no tumulto, que uma força irresistível a obrigou a olhar por cima do ombro quando abandonava o templo pela
nave central, e então viu a dois palmos
de seus
olhos os outros olhos de
gelo, o rosto lívido, os lábios petrificados pelo susto do
amor. Transtornada por sua própria audácia, se agarrou ao braço da tia
Escolástica para não cair, e esta sentiu o suor glacial da mão
através da mitene de renda,
e a reconfortou com um sinal
imperceptível de cumplicidade sem condições. Em meio ao estrondo dos foguetes e
dos tambores, das lanternas coloridas nos portais e clamor das multidões sedentas de paz, Florentino Ariza vagou feito um sonâmbulo até o raiar do dia vendo a festa através das lágrimas,
aturdido pela alucinação de que era ele e não Deus
que tinha nascido aquela noite.
O delírio aumentou a
semana seguinte, à hora da sesta,
quando passou sem esperanças
pela casa de Fermina Daza, e viu que ela e a tia estavam sentadas embaixo das amendoeiras do portal. Era a repetição ao ar livre do quadro que tinha visto naquela primeira tarde no quarto de costura: a menina tomando
a lição de leitura da tia. Mas
Fermina Daza estava mudada sem o uniforme escolar, pois vestia uma
túnica de linho com muitas
pregas que lhe caía dos ombros
feito um peplo, e tinha na cabeça uma grinalda de gardênias naturais que lhe dava a
aparência de uma deusa coroada.
Florentino Ariza se sentou na praça, onde tinha certeza de ser visto,
e então não apelou para o recurso da leitura
fingida, permanecendo com o livro
aberto e os olhos fixos na donzela
ilusória, que não lhe retribuiu sequer com
um olhar de caridade.
A princípio pensou que a aula debaixo das amendoeiras
era uma mudança casual, devida talvez às obras intermináveis da casa,
mas nos dias seguintes compreendeu que
Fermina Daza estaria ali, ao alcance da sua vista, todas as tardes à mesma hora
dos três meses das férias, e essa certeza
lhe infundiu ânimo novo. Não teve
a impressão de ser visto, não notou nenhum sinal de interesse ou repúdio,
mas na frieza dela havia um resplendor diferente que o animava a
persistir. Em breve, uma tarde de
finais de janeiro, a tia pôs o
trabalho na cadeira e deixou a sobrinha só no
portal, no tapete de folhas amarelas
caídas das amendoeiras. Animado pela suposição irrefletida de que aquela era uma oportunidade combinada, Florentino Ariza atravessou a rua e se colocou na frente de Fermina Daza, e tão
perto dela que sentiu a trilha,
a forma de sua respiração e o
hálito floral com que havia de identificá-la
pelo resto da vida. Falou a ela com
a cabeça erguida e com uma determinação
que só voltaria a ter meio século depois, e pelo mesmo motivo.
—
A única coisa que lhe peço é
que receba uma carta minha — lhe disse.
Não era a voz que Fermina Daza esperava dele: era nítida, e com uma autoridade que não tinha nada a ver com suas maneiras lânguidas. Sem afastar a vista
do bordado,
respondeu: "Não posso
recebê-la sem permissão do meu pai."
Florentino Ariza estremeceu
com o calor daquela voz, cujos
timbres graves não ia esquecer pelo resto da vida. Mas se manteve firme, e respondeu sem perda de tempo: "Consiga a permissão."
Depois adoçou a ordem com uma súplica:
"É um assunto de vida ou
morte." Fermina Daza não o olhou, não
interrompeu o bordado, mas sua decisão entreabriu uma porta por onde cabia o mundo inteiro.
—
Volte todas as tardes — lhe disse
— e espere que eu mude de cadeira.
Florentino Ariza não entendeu o que ela quis dizer, até a segunda-feira da semana seguinte, quando viu do seu banco
da praça
a mesma cena de sempre com uma única variação: quando tia Escolástica entrou na casa, Fermina
Daza se levantou e sentou na outra cadeira. Florentino Ariza,
com uma camélia branca na botoeira da sobrecasaca, atravessou então a rua e
parou diante dela. Disse: "Este é
o maior momento
de minha vida." Fermina Daza não ergueu a
vista para ele, examinando, isto sim, os
arredores com um olhar circular, e
viu as ruas desertas na modorra da estação
seca e um remoinho de folhas mortas arrastadas pelo vento.
—
Entregue-a — disse.
Florentino Ariza tinha pensado em levar-lhe as setenta folhas que
então já poderia declamar de memória de
tanto que as lera, mas se decidiu
por uma meia página sóbria e explícita, em
que só prometia o essencial: sua
fidelidade a toda prova e seu
amor para sempre. Tirou-a do bolso interno da sobrecasaca e a colocou diante dos olhos da bordadeira
atribulada que ainda não tinha ousado olhá-lo. Ela viu o envelope azul tremendo
na mão petrificada de terror, e
levantou o bastidor para que ele
ali pusesse a carta, pois não
podia admitir que também nos dedos dela se notasse
o tremor. Aí aconteceu: um pássaro se sacudiu na folhagem da amendoeira,
e sua cagada caiu bem em cima
do bordado.
Fermina Daza afastou o bastidor, escondeu-o atrás da cadeira para que Florentino Ariza não descobrisse o que tinha
acontecido, e o olhou pela primeira
vez com o rosto em chamas. Impassível,
carta na mão, Florentino Ariza disse: "Dá sorte." Ela lhe agradeceu com seu primeiro sorriso, e quase lhe
arrebatou a carta, que dobrou e escondeu no corpinho. Ele lhe ofereceu
então a camélia que trazia na lapela. Ela a recusou: "É uma flor de compromisso."
Em seguida, consciente de que seu tempo se
esgotava, refugiou-se de novo em sua compostura.
—
Agora vá embora — disse — e não volte mais até que eu lhe avise.
Antes que Florentino Ariza lhe contasse que a tinha visto, sua
mãe já o descobriria, porque ele perdeu
a fala e o apetite e passava as noites em claro rolando na cama. Mas quando
começou a esperar a resposta à sua primeira
carta, sua ansiedade se complicou com caganeiras e vômitos
verdes, perdeu o sentido da orientação
e passou a sofrer desmaios repentinos,
e a mãe se aterrorizou porque seu
estado não se parecia com as
desordens do amor e sim com os
estragos do cólera. O padrinho de Florentino
Ariza, antigo homeopata que tinha sido confidente de Trânsito Ariza desde seus tempos
de amante oculta, se alarmou também à primeira vista com o
estado do enfermo, porque tinha o pulso tênue,
a respiração rascante e os suores pálidos
dos moribundos. Mas o exame revelou que não tinha febre, nem dor em
nenhuma parte, e a única coisa
que sentia de concreto era uma necessidade
urgente de morrer. Bastou ao médico um interrogatório insidioso, primeiro a ele e depois à mãe, para comprovar uma vez
mais que os sintomas do amor são os mesmos do cólera.
Receitou infusões de flores
de tília para entreter os nervos e sugeriu uma mudança de ares para buscar consolo na distância, mas aquilo por que
anelava Florentino Ariza era todo o contrário: gozar seu martírio.
Trânsito Ariza era uma
quadrarona livre com um instinto
da felicidade frustrado pela pobreza,
e se deleitava com as penas do filho
como se fossem suas. Fazia com
que bebesse as poções quando o sentia delirar
e o enroupava em mantas de lã para
enganar os calafrios, mas ao mesmo tempo
lhe dava
ânimo para confortá-lo em sua prostração.
— Aproveite agora que você é jovem para sofrer
o mais que puder — lhe dizia —
que estas coisas não duram toda a vida.
Na Agência Postal, é claro, não pensavam o mesmo. Florentino Ariza estava entregue à desídia, e andava tão
distraído que confundia as bandeiras com que anunciava a chegada do correio, e numa quarta-feira içava a alemã
quando o navio aportado era o
da Companhia Leyland com o correio de Liverpool, e içava em qualquer dia a dos Estados Unidos quando o navio que chegava era o da Compagnie Générale Transatlantique com o correio de Saint-Nazaire. As confusões do
amor causavam tais transtornos na separação das cartas e provocavam
tantos protestos do público que se Florentino Ariza não ficou sem
emprego foi porque Lotário
Thugut o manteve no telégrafo e o levou
a tocar violino no coro da catedral.
Tinham uma aliança difícil de entender devido à diferença de idades, pois podiam ter sido avô e neto, mas se davam tão bem no trabalho quanto nas
tascas do porto, onde iam parar os tresnoitados, sem escrúpulos de classe, desde os
beberrões sem eira nem beira até os rapazes de família, vestidos a rigor, que fugiam das festas
elegantes do Clube Social para comer peixe frito
com arroz de coco. Lotário Thugut
costumava ir para lá depois do último
turno do telégrafo, e muitas vezes amanhecia bebendo ponche da Jamaica e tocando acordeão com as
tripulações de loucos das
goletas das Antilhas. Era corpulento, parrudo, com uma barba
dourada e um barrete frígio
que usava para sair à noite, e só
lhe faltava uma réstia de
campânulas para ser idêntico a Papai Noel. Ao menos uma
vez por semana acabava com uma pássara da noite, como ele
as chamava, das muitas que vendiam amores de emergência num hotel de dormida
para marinheiros. Quando conheceu
Florentino Ariza, a primeira coisa que fez com
um certo deleito magistral foi iniciá-lo nos segredos do seu paraíso. Escolhia para
ele as pássaras que lhe pareciam melhores, discutia com elas o preço e o modo, e se prontificava a pagar adiantado
e com o seu dinheiro o serviço. Mas
Florentino Ariza não aceitava: era virgem, e havia proposto a si mesmo não
deixar de sê-lo, se não fosse por
amor.
O hotel era um palácio colonial que já conhecera dias melhores, e os grandes salões e os aposentos de mármore estavam divididos em cubículos de papelão com buracos de alfinete, pois tanto se alugavam para fazer como para
ver. Falava-se de enxeridos
cujos olhos tinham sido furados com
agulhas de tricô, de outro que reconheceu a própria esposa naquela que estava
espionando, e de cavalheiros de prosápia que entravam fantasiados de verdureiros
para se aliviarem com os contramestres de passagem, e de tantos
outros percalços de bisbilhoteiros e bisbilhotados, que a mera
idéia de se expor dentro de um quarto parecia pavorosa a Florentino
Ariza. Por isso Lotário Thugut não conseguiu persuadi-lo de que ver e se deixar ver eram requintes de
príncipes na Europa.
Ao contrário
do que fazia crer sua corpulência, Lotário Thugut tinha um bilro de
querubim que parecia
um botão de rosa, mas isto devia ser um defeito afortunado, porque as pássaras mais experientes se disputavam a sorte de dormir com ele, e
seus alaridos de esfaqueadas abalavam as fundações do palácio e faziam tremer de espanto seus fantasmas. Diziam que usava uma
pomada de veneno de
víbora que excitava a sela turca
das mulheres,
mas ele jurava não dispor de recursos diferentes daqueles que Deus lhe havia dado. Dizia, morto de rir:
"É puro amor." Muitos anos
tiveram que passar para que
Florentino Ariza compreendesse que talvez o dissesse
com razão. Acabou de se convencer num tempo mais avançado de sua educação sentimental, quando conheceu um
homem que se dava uma
vida de rei explorando três mulheres ao mesmo tempo. As três lhe
prestavam contas ao amanhecer, humilhadas a seus pés para se fazerem perdoar pelas coletas exíguas, e
a única gratificação por que anelavam era que ele
fosse para a cama com a que
mais dinheiro trouxesse. Florentino Ariza achava que só o terror podia induzir a tamanha
indignidade. Contudo, uma das três moças o surpreendeu com a verdade contrária.
— Estas coisas — lhe disse
— só podem ser feitas por amor.
Não foi tanto por suas virtudes de fornicador como por sua graça
pessoal que Lotário Thugut chegou a ser um dos
clientes mais apreciados do hotel.
Florentino Ariza, com seu jeito
silencioso e escorregadiço, ganhou
também o apreço do dono, e na época
mais árdua de seus quebrantos costumava se trancar
para ler versos e folhetins lacrimosos
nos quartinhos sufocantes, e seus sonhos
deixavam ninhos de escuras andorinhas nos balcões e rumores
de beijos
e bater de
asas nos marasmos da sesta.
Ao entardecer, quando baixava
o calor, era impossível não escutar as conversações dos homens que vinham buscar um desafogo
para o dia num amor apressado.
Assim se inteirou Florentino Ariza de muitas
infidelidades e mesmo de alguns segredos de estado que os clientes importantes
e as próprias autoridades locais
confiavam a suas amantes efêmeras sem
o cuidado de não serem ouvidos nos quartos vizinhos. Foi também assim que se inteirou de que a quatro léguas
marítimas ao norte do arquipélago de Sotavento jazia afundado desde o século XVIII um galeão espanhol carregado com mais de quinhentos bilhões de pesos em
ouro puro e pedras preciosas.
O relato o assombrou, mas não voltou a pensar nele até uns
meses depois, quando sua loucura
de amor lhe alvoroçou as ânsias de resgatar a fortuna submersa para que
Fermina Daza se banhasse em tanques de ouro.
Anos mais tarde, quando procurava lembrar como era na
realidade a donzela idealizada com a alquimia da
poesia, não conseguia separá-la das tardes
dilacerantes daqueles tempos. Mesmo quando
a espreitava sem ser visto, nos dias de ansiedade em que esperava a resposta à sua
primeira carta, a via transfigurada na reverberação das duas da
tarde sob o chuvisco de flores das
amendoeiras, que estavam sempre em abril
qualquer que fosse o tempo do ano. Só lhe interessava então acompanhar Lotário Thugut ao violino no
mirante privilegiado do coro
porque dali via ondular a túnica dela com a brisa dos cânticos. Mas seu próprio
desvario acabou por estragar-lhe o prazer, pois a música mística era tão inócua para seu estado
de alma que tratava
de avivá-la com valsas de amor, e Lotário Thugut se viu obrigado a despedi-lo do coro. Foi essa a época em que
cedeu aos ímpetos de comer as
gardênias que Trânsito Ariza cultivava nos canteiros do pátio, e desse modo conheceu o sabor de Fermina Daza. Foi também a época em que encontrou por acaso num baú de
sua mãe um frasco de um litro da
água-de-colônia que vendiam de contrabando
os marinheiros da Hamburg American
Line e não resistiu à tentação de prová-la para buscar
outros sabores da mulher amada. Continuou bebendo do frasco
até o amanhecer, embebedando-se de Fermina
Daza com goles abrasivos, primeiro nas tascas do
porto e depois absorto no mar, que contemplava do cais
onde faziam amores precários os amantes sem teto,
até que sucumbiu à inconsciência.
Trânsito Ariza, que o havia esperado até as seis
da manhã com a alma por um fio, buscou-o nos esconderijos menos imagináveis, e pouco depois do meio-
dia o encontrou chafurdando num charco de vômitos fragrantes num remanso
da
baía onde vinham aportar os afogados.
Aproveitou a pausa da
convalescença para repreendê-lo
pela passividade com que esperava a resposta à carta. Lembrou a ele que os fracos não entram jamais no
reino do amor, que é um reino impiedoso e mesquinho, e que as mulheres só se entregam
aos homens de ânimo resoluto, porque
lhes infundem a segurança pela qual tanto anseiam para enfrentar a vida. Florentino Ariza assimilou a lição talvez mais do que devia. Trânsito Ariza não pôde dissimular um sentimento de orgulho, mais concupiscente do que maternal, quando o viu sair do armarinho
com o terno de lã negra, o chapéu duro e o laço lírico no colarinho de celulóide, e lhe perguntou de brincadeira se ia a um enterro. Ele
respondeu com as orelhas em fogo:
"É quase a mesma coisa." Notou que ele mal podia respirar, de medo, mas sua determinação era invencível. Fez as advertências finais, deu a bênção, e lhe prometeu morrendo de
rir outra garrafa de água-de-colônia
para celebrarem juntos a conquista.
Desde a entrega da carta, um
mês antes, ele havia
contrariado muitas vezes a promessa de não voltar à pracinha, mas tinha tomado
boas precauções para não se deixar ver. Tudo continuava no mesmo. A aula
de leitura debaixo das árvores
terminava por volta das duas da tarde, quando a cidade acordava da sesta, e Fermina Daza continuava bordando com a tia até que declinava o
calor. Florentino Ariza não esperou que a tia entrasse na casa e foi atravessando a rua com umas passadas marciais que lhe permitiram dominar o desalento dos joelhos. Mas não se dirigiu a Fermina Daza, e sim
à tia.
—
Faça-me o favor de
me deixar a sós um
momento com a senhorita —
disse. — Tenho uma coisa importante a
dizer a ela.
—
Atrevido! — disse a tia. — Não há assunto dela que eu não conheça.
—
Então não falo —
disse ele — mas aviso que a senhora será responsável pelo que aconteça.
Não eram essas as maneiras que
Escolástica Daza esperava do noivo ideal, mas se levantou
assustada, porque teve pela primeira vez a impressão avassaladora de que Florentino
Ariza estava falando
por inspiração do Espírito Santo.
Por isso entrou na casa para trocar
de agulhas e deixou sós os dois jovens debaixo das amendoeiras do portal.
Na realidade, era muito pouco
o que sabia Fermina Daza daquele pretendente taciturno que aparecera em sua vida
feito uma andorinha de inverno,
e de quem não
saberia sequer o nome se não fosse a assinatura da carta.
Apurara desde então que era filho sem pai
de uma solteira laboriosa e
séria, mas marcada sem remédio pelo estigma de
fogo de um único mau passo juvenil. Descobrira que não era mensageiro do telégrafo, como supunha, e
sim um
assistente bem qualificado e de futuro promissor, e achou que levara o
telegrama a seu pai apenas como um pretexto para vê-la. Essa suposição a comoveu. Também
sabia que era um dos músicos do
coro, e embora nunca tivesse ousado
levantar a vista para comprová-lo
durante a missa, um domingo teve a revelação de que
enquanto os outros instrumentos tocavam
para todos o violino tocava só para ela.
Não era o tipo de homem
que houvesse escolhido. Seus óculos de
menino enjeitado, sua postura clerical, seus recursos misteriosos haviam suscitado nela
uma curiosidade difícil de resistir,
mas nunca imaginara que a curiosidade fosse outra
das tantas ciladas do amor.
Ela própria não
sabia explicar a si mesma por que havia aceito a carta. Não é que se culpasse por isso, mas
o compromisso cada vez mais premente
de dar uma resposta acabara convertido num
empecilho à vida. Cada palavra do seu pai, cada
olhar casual, seus gestos mais
triviais lhe pareciam semeados de truques para descobrir seu segredo.
Era tal seu estado de alarma que evitava falar à mesa, de modo que um descuido pudesse delatá-la, e se tornou evasiva até com a tia Escolástica, que compartilhava de sua ansiedade
reprimida como se fosse dela própria.
Trancava-se no banheiro a qualquer hora, sem necessidade, e tornava a ler a carta procurando descobrir um código secreto, uma fórmula mágica
escondida em alguma das trezentas
e quatorze letras de suas cinqüenta
e oito palavras, na esperança de que dissessem mais do que diziam. Mas não encontrou nada além do que
havia entendido da primeira leitura,
quando correu a se trancar no
banheiro com o coração enlouquecido, e
despedaçou o envelope na ilusão de que fosse
uma carta abundante e febril, só encontrando
um bilhete perfumado cuja
determinação a assustou.
A princípio não havia pensado a sério que estivesse obrigada a dar uma resposta,
mas a carta era tão explícita que não havia maneira de contorná-la. Enquanto isso, na tempestade das dúvidas, surpreendeu-se pensando em Florentino Ariza com
mais freqüência e mais interesse do que
queria permitir a si mesma, e até perguntava atribulada por que
não estava ele na pracinha à hora de sempre, sem lembrar que ela é
que havia pedido que ele não voltasse enquanto ela pensava na resposta. Acabou pensando nele como jamais imaginara que se pudesse pensar em alguém, pressentindo-o onde não estava, desejando-o onde não
podia estar, acordando de súbito com a sensação física de
que ele a contemplava na
escuridão enquanto ela dormia, de maneira que na tarde em que sentiu seus passos resolutos no tapete de folhas amarelas da pracinha custou a crer que não fosse outro
embuste da sua fantasia. Mas
quando ele lhe exigiu a resposta com uma autoridade que nada tinha a ver com suas maneiras lânguidas, conseguiu dominar o espanto e tratou de se evadir pela verdade: não sabia o que
responder. No entanto, Florentino
Ariza não havia transposto um abismo para se amedrontar
com os seguintes.
— Se aceitou a carta — lhe disse
— é falta de educação não respondê-la.
Esse foi o final do labirinto. Fermina Daza, senhora de
si mesma, se desculpou pela
demora, e lhe deu sua palavra de honra de que teria uma resposta antes do fim das férias. Cumpriu. Na última
sexta-feira de fevereiro, três dias antes da reabertura dos colégios, tia Escolástica
foi ao telégrafo perguntar quanto
custava um telegrama para o povoado de Pedras de Moer, que sequer
figurava na lista, e se deixou
atender por Florentino Ariza como se nunca
se tivessem visto, mas ao sair fingiu esquecer em cima do balcão um breviário
encadernado em couro de lagarto dentro do qual havia um envelope
de papel
de linho com arabescos dourados. Transtornado pela ventura,
Florentino Ariza passou o resto da tarde comendo rosas e lendo a carta,
repassando-a letra por letra uma vez e
mais outra e comendo mais rosas quanto
mais lia a carta, e à
meia-noite já a lera tanto e comera tantas rosas que a mãe teve que subjugá-lo
e prender-lhe a cabeça por trás, como a um bezerro,
para que engolisse uma poção de óleo de rícino.
Foi o ano do namoro
encarniçado. Nem ele nem ela tinham
vida para nada que não fosse pensar no outro, para sonhar
com o outro, para esperar as
cartas com a mesma ansiedade com que
as respondiam. Jamais, naquela primavera de delírio,
ou no ano seguinte, tiveram ocasião de se comunicarem
de viva voz. E mais: do instante em
que se viram pela primeira vez
até o instante em que ele reiterou sua determinação meio século depois,
jamais tiveram uma oportunidade de se verem
a sós nem de falar do seu amor. Mas nos três primeiros meses não se
passou um só dia sem que
se escrevessem, e em certa época até duas vezes por dia, até que tia Escolástica se assustou
com a voracidade da fogueira que ela própria ajudara
a atear.
Depois da primeira
carta, que levou ao telégrafo sentindo
algum rescaldo de vingança contra sua própria
sorte, permitira a troca de recados
quase diários em encontros de rua que pareciam casuais, mas não teve
coragem de patrocinar uma conversa, por banal e momentânea que fosse. Contudo, ao fim de três meses
compreendeu que a sobrinha não estava à mercê de um capricho juvenil, como lhe parecera a princípio, e que sua
própria vida estava ameaçada
por aquele incêndio de amor. Na verdade, Escolástica Daza só tinha como modo de subsistência a caridade do
irmão, que com seu caráter
tirânico jamais perdoaria semelhante abuso
da sua
confiança, Mas na hora da decisão
final não teve coração para lançar a
sobrinha no mesmo infortúnio irreparável com que tivera de viver desde a juventude, e deixou que ela
usasse de um recurso que lhe deixava uma ilusão de
inocência. Foi um método simples. Fermina Daza punha sua caria em
algum esconderijo no percurso diário entre a casa e o colégio, e nessa mesma
carta indicava a Florentino Ariza onde esperava receber a resposta,
Florentino Ariza fazia o mesmo. Desse modo
os conflitos de consciência de tia
Escolástica foram transferidos pelo resto do
ano para os batistérios das igrejas, o oco das árvores, as fendas das fortalezas
coloniais em ruínas. Às vezes encontravam as cartas empapadas de chuva,
sujas de lama, raspadas pela adversidade, e algumas se perderam por motivos diversos, mas os
dois sempre descobriram os meios e
modos de reatar o contato.
Florentino Ariza escrevia todas as noites sem
piedade consigo mesmo, envenenando-se letra a letra com a fumaça das
candeias de óleo de coco
no cômodo de trás do armarinho, e suas cartas iam ficando mais extensas e lunáticas à medida que ele se esforçava
por imitar seus poetas preferidos da Biblioteca Popular, que já por essa época ia chegando aos oitenta volumes. Sua mãe, que com tanto ardor o
havia incitado a desfrutar do seu tormento, começou a se alarmar por sua saúde. "Você vai gastar o siso", gritava para ele
do quarto de dormir quando ouvia cantar os primeiros gaios. "Não
há mulher que mereça tanto." Não
se lembrava de ter
conhecido ninguém em tal cotado de perdição. Mas ele não ligava. Às vezes chegava ao escritório sem dormir, os cabelos desgrenhados de amor, depois de ter deixado a carta no esconderijo previsto para que Fermina Daza a encontrasse a
caminho do colégio. Ela, por sua vez, submetida à vigilância do pai e
à tocaia viciosa das freiras, mal
chegava a completar meia folha do caderno escolar trancada nos banheiros
ou fingindo tomar notas durante as aulas. Mas não apenas devido às pressas e sustos, como também por seu caráter, as cartas dela se desviavam de escolhos sentimentais e
se limitavam a contar incidentes de sua vida
cotidiana no estilo utilitário de um diário
de bordo. Na realidade, eram cartas de distração,
destinadas a manter as brasas vivas mas sem botar
a mão no fogo, enquanto Florentino Ariza se incinerava a cada linha.
Aflito por contagiá-la com sua própria loucura, mandava-lhe versos de miniaturista
gravados com a ponta de um alfinete
na pétala das camélias. Foi ele e não ela
quem teve a audácia de pôr um
cacho de cabelo dentro de uma carta,
mas não recebeu nunca a resposta ambicionada, que era um fio completo da trança
de Fermina Daza. Conseguiu pelo menos que ela desse
mais um passo, pois a partir daí começou a lhe mandar nervuras de folhas ressecadas
em dicionários, asas de borboleta, penas de pássaros mágicos, e lhe deu
de aniversário um centímetro quadrado do hábito de São Pedro
Claver, dos que se vendiam então às
escondidas a um preço inatingível para uma
colegial da sua idade. Uma noite, sem qualquer aviso, Fermina Daza acordou assustada por uma serenata de uma valsa só em solo de violino.
Iluminou-a a clarividência de que cada
nota era uma ação de graças pelas pétalas dos seus herbários, pelo tempo roubado à
aritmética para escrever suas cartas, pelo susto dos exames pensando mais nele
do
que nas Ciências Naturais,
mas não se atreveu a acreditar
que Florentino Ariza fosse capaz de
semelhante imprudência.
No dia seguinte, ao café da manhã, Lorenzo Daza não agüentava a curiosidade. Em primeiro
lugar, porque não sabia o
que significava uma só peça
na linguagem das serenatas, e em segundo
porque, apesar da atenção com que
escutara, não tinha conseguido descobrir de que
casa vinha a música. Tia Escolástica,
com um sangue- frio que devolveu o fôlego à sobrinha, assegurou ter visto
através das frestas da cortina do quarto que o violinista solitário
estava do outro lado da praça,
e disse que em todo o caso uma peça única era uma notificação de rompimento.
Na sua
carta desse dia, Florentino Ariza confirmou que ele tinha feito a
serenata, e que a valsa tinha sido composta por ele e tinha o nome pelo
qual conhecia Fermina Daza em seu coração: A Deusa Coroada. Não voltou
a tocá-la na praça, mas continuou a fazê- lo em
noites de luar em lugares escolhidos de propósito
para que ela o escutasse sem sobressaltos
no quarto. Um de seus lugares preferidos era o cemitério dos
pobres, exposto ao sol e à chuva numa
colina indigente onde dormiam os urubus,
e onde a música adquiria
sonoridades sobrenaturais. Mais tarde aprendeu
a conhecer a direção dos ventos, e assim ficou seguro de que sua
voz chegava onde devia.
Em agosto desse ano, uma
nova guerra civil das tantas
que assolavam o país há mais de meio
século ameaçou generalizar-se, e o governo impôs a lei marcial e o toque de recolher às seis da tarde nos
estados do litoral caribe. Embora já houvessem
ocorrido alguns distúrbios e a tropa cometesse
toda espécie de abusos a título de
escarmento, Florentino Ariza continuava tão confuso que não se inteirava
da condição do mundo, e uma patrulha
militar o surpreendeu certa madrugada perturbando a castidade dos mortos com suas provocações de amor. Escapou por milagre de uma exclusão
sumária acusado de ser um espião
que mandava mensagem em clave de sol aos navios liberais que esquadrinhavam
as águas vizinhas.
—
Que espião porra nenhuma — disse Florentino Ariza — eu não passo de um pobre apaixonado.
Dormiu três noites acorrentado
pelos tornozelos nos calabouços da guarnição
local. Mas quando o soltaram se sentiu lesado
pela brevidade do cativeiro, e mesmo nos tempos da sua velhice, quando outras tantas guerras se embaralhavam em sua memória,
continuava achando que era o único homem da cidade, talvez do país, que arrastara grilhões de
cinco libras por uma causa de amor.
Iam completar-se dois anos de correios frenéticos quando Florentino Ariza, em carta de
um só parágrafo, fez a
Fermina Daza a proposta formal de casamento.
Nos seis meses anteriores lhe havia
enviado várias vezes uma camélia branca, mas ela a devolvia na carta seguinte, para
que ele não duvidasse de que estava disposta a continuar
escrevendo mas sem a gravidade de um compromisso. A verdade é que sempre encarara as idas e
vindas da camélia como uma travessura de amor, e nunca pensara em encará-las
como uma encruzilhada do destino. Mas quando chegou a proposta
formal se sentiu lanhada pelo primeiro
arranhão da morte. Num medo pânico,
desabafou com tia Escolástica, que enfrentou a
confidencia com a valentia e a lucidez
que não tivera aos vinte anos quando se viu
forçada a decidir sua própria sorte.
—
Responda a ele
que sim — disse. — Ainda que
você esteja morrendo de medo, ainda que depois se arrependa, porque seja como for você se arrependerá a vida inteira se disser a ele que não.
Mesmo assim, Fermina
Daza se sentia tão confusa que pediu um prazo para pensar.
Pediu primeiro um mês, depois outro e
outro, e quando se completou o quarto mês sem resposta voltou a receber a camélia
branca, mas não sozinha no envelope
como das outras vezes, e sim
com a notificação peremptória de que
era a última: ou agora ou nunca. Então
foi Florentino Ariza quem viu a cara da morte, nessa mesma tarde, quando recebeu um envelope com uma tira de papel arrancada da margem de um caderno de escola, com uma resposta
escrita a lápis numa linha só: Está
bem, me caso com o senhor se
me promete que não me fará comer berinjela.
Florentino Ariza não estava preparado para essa resposta,
mas sua mãe estava. Desde que ele falara pela primeira vez na intenção de se casar,
seis meses antes, Trânsito Ariza iniciara gestões para alugar
toda a casa, que até então compartilhava com duas famílias mais. Era uma construção civil do século XVII, de dois blocos, onde funcionava o Monopólio
do Tabaco
sob o domínio espanhol, e cujos
proprietários arruinados tinham tido que alugar aos pedaços por falta de recursos para mantê-la. Tinha uma seção
que dava para a rua, onde se faziam as vendas do tabaco, outra no fundo de um pátio de
pedras onde estivera a
fábrica, e uma cavalariça muito grande
que os inquilinos atuais usavam
em comum para lavar roupa e
estendê-la na corda. Trânsito Ariza ocupava a primeira parte, que era a mais útil e mais conservada, embora fosse também a menor. Na antiga sala de vendas ficava o armarinho, com um portão para a rua,
e ao lado o antigo depósito, onde dormia Trânsito Ariza e cuja única ventilação
era uma clara bóia. O cômodo de trás da
loja era a metade da sala, dividida
com um biombo de madeira. Havia ali uma mesa e
quatro cadeiras que serviam ao mesmo tempo
para se comer e escrever, e ali Florentino Ariza dependurava a rede
quando o despontar do dia não o surpreendia escrevendo. Era um espaço bom para os dois, mas insuficiente
para qualquer pessoa mais, menos ainda para uma senhorita do
Colégio da Apresentação da Santíssima Virgem, cujo pai restaurara até deixá-la como nova uma casa em
escombros, enquanto famílias de sete títulos iam para a cama com o pavor de que
o teto de suas mansões lhes desabasse
na cabeça enquanto dormiam. De maneira que Trânsito Ariza conseguira que o
proprietário lhe permitisse ocupar
também a galeria do pátio,
com a condição de que ela mantivesse
a casa em bom estado por cinco anos.
Tinha recursos para isso. Além da renda real do armarinho
e das fiações hemostáticas, que lhe
teriam bastado para a vida
modesta, multiplicara as poupanças
emprestando-as a uma clientela de
novos pobres envergonhados que aceitavam seus juros excessivos em troca
de sua
discrição. Senhoras com ares de rainha
desciam das carruagens no portão do armarinho, sem governantas nem criados
incômodos, e fingindo comprar rendas da Holanda
e debruns de passamanaria empenhavam entre dois soluços os últimos ouropéis de seu paraíso perdido. Trânsito Ariza as tirava de apuros com tanta consideração por sua estirpe que muitas iam embora mais gratas pelos cumprimentos que pelos
proventos. Em menos de dez anos conhecia como suas as jóias tantas vezes resgatadas e de novo
empenhadas com lágrimas, e os ganhos convertidos em ouro de lei estavam
enterrados numa botija debaixo da cama quando o filho tomou a
decisão de se casar. Então fez as
contas e descobriu que não só podia fazer o negócio de manter de pé a
casa alheia durante cinco anos como
ainda que, com igual astúcia e um pouco
mais de sorte, podia talvez comprá-la
antes de morrer para os doze netos que desejava ter. Florentino Ariza, por sua parte, fora nomeado primeiro ajudante do telégrafo, em caráter interino, e Lotário Thugut queria deixá-lo como chefe do
escritório quando partisse para dirigir
a Escola de Telegrafia e Magnetismo, prevista para o ano seguinte.
Desta forma, o lado prático do casamento
estava resolvido, mas Trânsito Ariza achou prudentes duas condições finais. A primeira, averiguar quem era na realidade Lorenzo Daza, cujo
sotaque não deixava nenhuma dúvida
sobre sua origem, mas de cuja
identidade e de cujos meios
de vida ninguém tinha
informação certa. A segunda, que o noivado fosse
longo, para que os noivos se
conhecessem a fundo pelo
trato pessoal, e que se mantivesse a
mais estrita reserva até que ambos se sentissem muito seguros de seus afetos. Sugeriu que esperassem até o final da guerra. Florentino Ariza concordou com o
segredo absoluto, tanto pelas razões de sua mãe
como pelo hermetismo próprio de
seu caráter. Concordou também
com a demora do noivado, mas o
término da guerra lhe pareceu irreal, pois em mais de
meio século de vida independente não tivera o país nem um dia de paz civil.
—
Vamos ficar velhos esperando
— disse.
Seu padrinho o homeopata, que participava por
casualidade da conversação, não
achava que as guerras fossem um inconveniente.
Achava que não passavam de pendências
de pobres jungidos como bois pelos senhores da
terra, contra soldados descalços jungidos pelo governo.
—
A guerra está na
montanha —disse — Desde que eu sou eu, nas
cidades não nos matam com tiros,
e sim com decretos.
De qualquer maneira, os pormenores do noivado se resolveram nas cartas da semana seguinte. Fermina Daza, aconselhada
pela tia Escolástica, aceitou o prazo de
dois anos e a reserva absoluta, e sugeriu que Florentino Ariza lhe pedisse a mão quando ela terminasse a escola secundária nas férias de
Natal. No momento próprio
se poriam de acordo
sobre o modo de formalizar o
compromisso segundo o grau de aceitação
que ela houvesse conseguido do pai. Enquanto isso, continuaram a se escrever
com o mesmo ardor e a mesma freqüência, mas sem os sobressaltos de antes, e as cartas
foram derivando para um tom familiar que já parecia de esposos.
Nada lhes perturbava os sonhos.
A vida de Florentino
Ariza tinha mudado. O amor correspondido lhe
havia dado uma segurança e uma força que não conhecera antes, e foi tão eficiente no trabalho que Lotário Thugut conseguiu sem
esforços que o nomeassem seu
substituto oficial. Nessas alturas, o projeto da Escola
de
Telegrafia e Magnetismo tinha
malogrado, e o alemão consagrava seu tempo
livre à única coisa que na
realidade lhe agradava, que era
ir ao porto tocar acordeão e tomar cerveja com
os marinheiros, e tudo acabava no
hotel suspeito. Transcorreu muito tempo até que Florentino Ariza
percebesse que a influência de Lotário Thugut naquele lugar de prazer
se devia ao fato de que ele
terminara dono do estabelecimento, além de empresário das pássaras do porto.
Fizera a compra pouco a pouco, com as economias de muitos anos, mas seu testa-de-ferro era um homenzinho magro e torto, de cabelo aparado
rente e de coração tão manso
que ninguém compreendia como podia ser tão bom gerente. Mas era. Pelo menos, assim pareceu a Florentino Ariza
quando o gerente lhe disse, sem que ele
tivesse pedido, que podia
dispor de um quarto permanente
no hotel, não só para resolver os problemas do baixo-ventre, quando se decidisse a tê-los, como também para contar com um lugar mais tranqüilo para suas leituras e suas cartas de amor. Por isso, enquanto
transcorriam os longos meses que
faltavam para a formalização do compromisso, passou mais tempo ali do que no escritório ou em casa, e houve
épocas em que Trânsito Ariza só o
via quando ia trocar de roupa.
A leitura se tornou
para ele um vício insaciável. Desde que o ensinara a ler, sua mãe lhe
comprava os livros ilustrados dos autores nórdicos, vendidos
como histórias infantis mas que na realidade eram os contos mais cruéis
e perversos que alguém pudesse ler em qualquer idade. Florentino Ariza os
recitava de cor aos cinco anos, tanto
nas aulas como nas festas da escola, mas a familiaridade com eles não aliviava o terror que lhe infundiam. Ao contrário, tornava-o mais aguçado. Passar dali para a poesia foi um repouso. Já na puberdade
consumira por ordem de publicação todos os volumes da
Biblioteca Popular que Trânsito Ariza comprava nos livreiros de ocasião do Portal dos Escrivães, e nos quais havia de tudo,
de Homero ao menos meritório
dos poetas locais. Mas ele não fazia
distinção: lia o volume que chegasse, como uma ordem da
fatalidade, e todos os seus anos
de leitura
não foram suficientes para que soubesse
o que era bom e o que não prestava no muito
que tinha lido. A única coisa que sabia com clareza era que entre a
prosa e os versos preferia os versos, e
entre estes preferia os de amor, que decorava mesmo sem querer a partir da segunda leitura, o que lhe era
ainda mais fácil quanto mais se tratasse
de versos bem rimados, bem medidos,
bem desesperados.
Esta foi a fonte original das primeiras cartas a
Fermina Daza, nas quais apareciam montões de parágrafos tomados sem qualquer cozimento aos românticos
espanhóis, e continuou sendo até que a vida real o obrigou a se ocupar de
assuntos mais terrenos do que as penas do coração. Nessas alturas dera um
passo adiante rumo aos folhetins chorosos e outras prosas ainda
mais profanas do seu tempo. Aprendera a chorar com a mãe
lendo os poetas locais que se vendiam em praças
e portas de loja em folhetos
de dois centavos. Mas ao mesmo tempo era capaz de recitar de cor a poesia castelhana mais seleta do Século de Ouro. Em geral lia tudo que lhe
caísse nas mãos, e na ordem em que caía, até o extremo de que
mesmo depois daqueles duros
anos do seu primeiro amor, quando já não era moço, punha- se a ler da primeira à última página os vinte volumes
do Tesouro da Juventude, o catálogo completo de clássicos dos irmãos Garnier,
traduzidos, e as obras mais fáceis que publicava Vicente Blasco
Ibánez, na coleção Prometeu.
Em todo caso, seus jovens
anos no hotel suspeito não se reduziram à leitura e à redação de cartas
febris, pois também o iniciaram nos segredos do
amor sem amor. A vida da casa
começava depois do meio-dia, quando suas amigas as pássaras se levantavam como suas mães as pariram, de modo
que quando Florentino Ariza chegava do emprego
se encontrava num palácio povoado de ninfas em
pêlo, que comentavam aos gritos os segredos da cidade, conhecidos pelas indiscrições dos próprios
protagonistas. Muitas exibiam em suas nudezas as pegadas do passado:
cicatrizes de punhaladas no ventre,
estrelas de balaços, sulcos de
facadas de amor, costuras de cesarianas de açougueiros. Algumas recebiam durante o dia os filhos
menores, frutos desventurados de desenganos ou descuidos juvenis, e tratavam de despi-los logo que chegavam para
que não se sentissem diferentes no paraíso da nudez. Cada uma cozinhava o que comia, e ninguém
comia melhor do que Florentino Ariza quando o
convidavam, porque escolhia o melhor de
cada uma. Era uma festa diária que durava até o entardecer,
quando as desnudas desfilavam cantando para
os banheiros, pedindo uma a
outra o sabonete emprestado, a escova de dentes,
a tesoura, cortavam-se o cabelo umas às
outras, se vestiam permutando roupas, se besuntavam de pintura como palhaças lúgubres,
e saíam a caçar as primeiras presas da noite. A
partir daí a vida da casa se tornava
impessoal, desumanizada, e era impossível compartilhar dela sem pagar.
Em nenhum outro
lugar Florentino Ariza se sentia melhor desde que conhecera Fermina Daza,
porque era o único onde não se sentia só. E
mais: acabou por ser o único onde se sentia com ela. Era talvez pelos mesmos motivos que vivia ali uma mulher mais velha, elegante, de formosa
cabeça prateada, que não participava da
vida natural das desnudas, e
por quem estas professavam um respeito sacramentai. Um noivo prematuro
a havia levado lá quando jovem, e depois
de desfrutá-la um tempo a abandonou à sua sorte. Contudo, apesar do seu estigma,
conseguiu bom casamento. Já bem mais velha, quando ficou só, dois filhos
e três filhas disputaram entre si o prazer de levá-la a viver com eles, mas
a ela não ocorreu lugar mais digno para viver do que aquele hotel de ternas perdulárias. Seu quarto permanente era sua única
casa, e isto a identificou de pronto
com Florentino Ariza, de quem dizia
que chegaria a ser um sábio
conhecido no mundo inteiro, por ser capaz de enriquecer a alma com a leitura no paraíso da salacidade. Florentino Ariza, de sua parte, chegou a
nutrir por ela tanta afeição que a
ajudava nas compras do mercado, e costumava passar tardes conversando com
ela. Achava que era uma mulher sábia no
amor, pois lhe deu muitas luzes
sobre o seu, sem que ele
precisasse revelar-lhe seu segredo.
Se antes de conhecer
o amor de Fermina
Daza não caíra
em tantas tentações ao alcance da mão, muito menos o
faria quando já tinha sua prometida
oficial. Por isso Florentino Ariza
convivia com as moças, compartilhava seus gozos
e suas misérias, mas nem a ele
nem a elas ocorreria ir mais
longe. Um fato imprevisto demonstrou a severidade de sua determinação.
Certo dia às seis da tarde, quando
as moças se vestiam para receber os clientes da noite, entrou no seu quarto a encarregada da limpeza
no andar: uma mulher jovem mas envelhecida e macilenta, como uma penitente vestida em meio à
glória das desnudas. Ele a via todos
os dias sem se sentir visto: andava pelos quartos com as vassouras, um balde para
o lixo e um trapo especial para recolher do chão os preservativos usados.
Entrou no cubículo em que
Florentino Ariza lia, como sempre, e como sempre varreu com um cuidado extremo, para não perturbá-lo. De repente chegou perto da cama, e ele sentiu a mão quente
e macia na cruz do seu ventre, a buscá-lo, sentiu que o achava, sentiu-a que ia desabotoando os botões e que a respiração
dela ia ocupando o quarto inteiro. Ele fingiu ler
até que não agüentou mais, e teve que esquivar o corpo.
Ela se assustou, pois a primeira advertência que lhe haviam feito para que
obtivesse o emprego de varredora foi o de
não tentar ir para a cama com
os clientes. Não precisavam dizê-lo, pois ela
era das que achavam que
prostituição não era entregar-se por dinheiro e sim entregar-se a desconhecidos. Tinha dois filhos, cada
um de um marido diferente,
e não porque fossem aventuras casuais
e sim porque não conseguira amar ninguém que voltasse depois da terceira vez. Tinha sido até então uma mulher sem
ardores, preparada pela
natureza para esperar sem desesperar, mas a vida daquela casa era
mais forte que suas virtudes. Chegava para trabalhar às seis da tarde, e
passava a noite inteira de quarto em quarto, varrendo- os com quatro vassouradas, recolhendo os
preservativos, mudando os lençóis. Não era fácil imaginar a quantidade de coisas que os homens deixavam depois do amor.
Deixavam vômitos e lágrimas, o que parecia compreensível, mas deixavam também muitos enigmas da intimidade: poças de sangue,
panos com excremento, olhos de vidro, relógios de ouro, dentaduras postiças, relicários com cabelo louro, cartas de amor, de negócios, de pêsames: cartas de tudo. Alguns vinham buscar suas
coisas perdidas, mas a maioria delas ali ficava, e Lotário Thugut as
guardava debaixo de chave, pensando
que mais cedo ou mais tarde aquele
palácio caído em desgraça, com os milhares de objetos pessoais esquecidos, seria um museu do amor.
O trabalho era duro e mal pago, mas ela o fazia bem. O que não conseguia suportar eram os soluços, os lamentos, o ranger das molas das
camas que iam se depositando em seu sangue
com tanto ardor e dor que ao amanhecer não agüentava a necessidade de se entregar
ao primeiro mendigo que encontrasse na rua, ou a algum bêbado sem rumo que
lhe fizesse o favor sem luxos
nem perguntas. A aparição de um homem sem mulher como Florentino Ariza, moço e limpo, foi para
ela um presente do céu, porque
a partir do primeiro momento percebeu que era igual a ela: um carente de amor. Mas
ele foi insensível ao seu cerco.
Mantivera-se virgem para Fermina
Daza, e não havia força nem razão neste mundo que pudesse desviá-lo do caminho.
Essa era sua vida, quatro meses antes da data prevista para formalizar o compromisso, quando Lorenzo Daza apareceu às sete da manhã
no escritório do telégrafo, e perguntou por ele. Como
ainda não havia chegado, esperou-o
sentado no banco até as oito e
dez, tirando de um dedo
e colocando-o no outro o pesado anel de
ouro coroado por uma opala
nobre, e quando o viu entrar o reconheceu
de pronto como o empregado do telégrafo, e pegou-o pelo braço.
— Venha comigo, mocinho
— disse. — O senhor e eu temos que falar cinco minutos, de
homem para homem.
Florentino Ariza, verde como um morto, se deixou
conduzir. Não estava preparado para esse encontro, porque Fermina Daza não encontrara a ocasião nem a
maneira de avisá-lo. O caso é que no
sábado anterior, a irmã Franca de Ia
Luz, superiora do Colégio da Apresentação da Santíssima Virgem, entrara na aula de Noções de
Cosmogonia com o sigilo de uma serpente,
e espiando as alunas por cima do ombro
descobriu que Fermina Daza fingia tomar notas no caderno quando na realidade
escrevia uma carta de amor. A falta, de acordo com os
regulamentos do colégio, era motivo de expulsão. Chamado de urgência à reitoria, Lorenzo Daza
descobriu a goteira por onde escorria seu regime
de ferro. Fermina Daza, com sua integridade congênita, admitiu a culpa da carta, mas se negou a revelar a identidade do
noivo secreto, e negou de novo
perante o Tribunal de Ordem, que por esse motivo confirmou a sentença de
expulsão. Contudo, o pai fez uma devassa do quarto dela, que até então tinha sido um santuário inviolável, e num fundo falso
do baú encontrou os pacotes de três anos de cartas, escondidas com tanto amor quanto o amor que as ditara. A assinatura era
inequívoca, mas Lorenzo Daza não pôde crer
nem então nem nunca que a filha só soubesse
do
noivo oculto que era
telegrafista de ofício e aficionado do violino.
Convencido de que uma relação
tão difícil só era compreensível
graças à cumplicidade da irmã, não
deu a esta nem a graça de uma explicação,
embarcando-a sem apelação na goleta de São João
da Ciénaga. Fermina Daza não se libertou
nunca da última lembrança dela, na tarde em
que ela lhe disse adeus no
portal ardendo em febre dentro do hábito pardo,
ossuda e cinzenta, e a viu desaparecer na garoa da pracinha com a única coisa que lhe restava na vida: a trouxinha de solteira, e o dinheiro para
sobreviver um mês, enrolado num lenço dentro do punho fechado. Logo que se livrou
da autoridade do pai mandou
procurá-la pelas províncias do Caribe, perguntando por ela a todos que pudessem conhecê-la, e
não encontrou sinal do seu rastro
até quase trinta anos depois, quando recebeu uma
carta que passara por muitas mãos
durante muito tempo, e na qual lhe informavam que morrera no lazareto de Água de
Deus. Lorenzo Daza não previu
a ferocidade com que a filha reagiria ao castigo injusto de que foi
vítima tia Escolástica, que identificava sempre com a mãe de quem mal
se lembrava. Fechou-se com tranca no
quarto, sem comer nem beber, e quando ele conseguiu por fim que ela abrisse a
porta, primeiro com ameaças e depois com súplicas mal disfarçadas, esbarrou numa pantera ferida que jamais voltaria a
ter quinze anos.
Tratou de seduzi-la
com toda espécie de agrados. Tratou de fazê-la entender que o amor na sua
idade era uma miragem, tratou de convencê-la por bem a devolver as cartas e regressar ao
colégio para pedir perdão de
joelhos, e lhe deu a palavra de honra de que seria o
primeiro a ajudá-la a ser feliz com um pretendente digno. Mas era como falar a um morto. Derrotado, acabou por perder as
estribeiras no almoço de segunda-feira, e enquanto se engasgava de impropérios e blasfêmias à
beira da congestão, ela pôs o gume
da faca no próprio pescoço, sem dramas mas com pulso firme,
e com uns olhos atônitos ele não se atreveu a
desafiá-la. Foi aí que assumiu o
risco de falar cinco minutos, de
homem para homem, com o
adventício infausto que não se lembrava de jamais ter visto, e que em hora
tão má se havia atravessado em sua vida.
Por puro costume pegou o revólver
antes de sair, mas teve o cuidado de escondê-lo debaixo da camisa.
Florentino Ariza não tinha recuperado o fôlego quando Lorenzo Daza o carregou pelo
braço pela Praça da Catedral até a
galeria de arcos do Café da
Paróquia, e o convidou a sentar-se no terraço. Não havia outros fregueses a
essa hera, e uma matrona preta esfregava os ladrilhos do enorme salão de vitrais
lascados e empoeirados, cujas cadeiras ainda estavam de pés para cima sobre
as mesas de mármore. Florentino
Ariza tinha visto ali muitas vezes Lorenzo Daza jogando e bebendo
vinho de barril com os asturianos do mercado público, enquanto brigavam aos
berros devido a outras guerras crônicas que não eram as nossas. Muitas vezes, consciente do
fatalismo do amor, perguntava a si mesmo como
seria o encontro que mais cedo ou mais tarde
teria que ter com ele, e que nenhum poder humano havia de impedir, porque estava desde sempre
inscrito no destino de ambos.
Imaginava-o um exaltado cheio de asperezas, não só porque Fermina Daza lhe prevenira
nas cartas quanto ao caráter tempestuoso do pai, como porque ele próprio notara que
seus olhos
pareciam coléricos até quando ria às gargalhadas na mesa de jogo.
Ele todo era um tributo à
vulgaridade: a pança ignóbil, a fala enfática,
as suíças de lince, as mãos pesadas,
o anular sufocado no aro grosso e a opala. Seu único traço enternecedor, que
Florentino Ariza descobriu da primeira
vez que o viu caminhar, é que tinha o mesmo andar
de corça da filha. Contudo,
quando ele lhe apontou a cadeira para que se
sentasse, achou-o menos áspero
do que parecia, e respirou desafogado
quando o convidou a tomar um cálice de anis. Florentino Ariza nunca tinha
bebido às oito da manhã, mas aceitou
agradecido, de muito necessitado que estava.
Lorenzo Daza, com efeito,
não levou mais de cinco minutos
para dar suas razões, o que fez com uma
sinceridade absoluta que acabou de confundir
Florentino Ariza. Ao morrer sua esposa tinha imposto a si mesmo o
propósito único de fazer da filha uma
grande dama. O caminho era
longo e incerto para um traficante de mulas que não sabia ler nem escrever,
e cuja reputação de ladrão de cavalos não estava tão provada como difundida na província de São João
da Ciénaga. Acendeu um charuto de tropeiro, e se queixou; "A
única coisa pior do que a má saúde é a má fama." Contudo, disse, o
verdadeiro segredo da sua fortuna era
que nenhuma das suas mulas trabalhava tanto e com tanta disposição quanto ele próprio, mesmo nos tempos mais duros das
guerras, quando os povoados amanheciam em
cinzas e os campos devastados. Embora a filha nunca tivesse estado
ao corrente da premeditação do seu destino, comportava-se como um cúmplice entusiasta. Era inteligente e metódica, ao ponto de haver ensinado o pai a ler logo que ela própria
aprendera, e aos doze anos tinha um domínio
da realidade mais do que bastante para dirigir
a casa sem necessidade da tia Escolástica. Suspirou: "É uma mula de ouro." Quando a filha terminou a escola primária, com grau dez em
tudo e louvor no ato de encerramento, ele compreendeu que o âmbito de
São João da Ciénaga era estreito demais para seus
sonhos. Então liquidou terras
e bestas, e se mudou com ímpetos novos
e setenta mil pesos ouro para esta
cidade em ruínas e com suas glórias
carcomidas, mas onde uma mulher bela e
educada à antiga tinha ainda a possibilidade de nascer de novo num
casamento de fortuna. A irrupção de Florentino
Ariza tinha sido um tropeço
imprevisto naquele plano encarniçado. "Por isso vim fazer-lhe uma súplica",
disse Lorenzo Daza. Molhou a ponta do charuto no anis, deu-lhe uma chupada sem fumo, e concluiu com
a voz aflita:
—
Afaste-se de nosso caminho.
Florentino Ariza o ouvira bebendo aos goles a aguardente
de anis, e tão absorto na revelação do passado de Fermina Daza que nem pensou
no que ia dizer quando tivesse que
falar. Mas chegado o momento reparou
que qualquer coisa que dissesse comprometeria
seu
destino.
—
O senhor falou com ela? — perguntou.
—
isso não lhe diz respeito — disse Lorenzo Daza.
—
Estou perguntando — disse Florentino Ariza —
porque me parece que quem tem que decidir é ela.
—
Nada disso — disse
Lorenzo Daza: — é assunto de homens
e se resolve entre homens.
O tom se tornara
ameaçador, e um freguês numa
mesa próxima se voltou para olhá-los. Florentino Ariza falou com a voz mais tênue mas com a resolução mais imperiosa de que foi capaz:
—
De todas as maneiras — disse — não
posso responder nada sem
saber o que ela pensa. Seria uma traição.
Então Lorenzo Daza se
encostou brusco no assento com
as pálpebras avermelhadas e úmidas, seu olho
esquerdo girou na órbita e ficou torcido para fora. Também baixou a voz.
—
Não me obrigue a lhe dar um tiro —
disse.
Florentino Ariza sentiu
as tripas se encherem de uma espuma fria. Mas sua voz não tremeu, porque
também ele se sentiu iluminado pelo Espírito Santo.
—
Dê o tiro — disse, com a mão no peito. — Não há maior glória
do que morrer
por amor.
Lorenzo Daza teve que olhá-lo de lado, como os papagaios, para
encontrá-lo com o olho torto. Mais do que pronunciar as três palavras, pareceu cuspi-las sílaba por
sílaba:
—
Fi-lho-da-pu-ta!
Naquela mesma semana empurrou a filha para a viagem do esquecimento.
Não lhe deu explicação nenhuma, limitando-se
a irromper no quarto dela com os bigodes sujos
de cólera misturada ao fumo mastigado, e lhe mandou que arrumasse a mala. Ela perguntou para onde iam, e ele respondeu: "Para a
morte." Assustada com aquela resposta que se parecia demais com a verdade, tratou de enfrentá-lo com a coragem dos dias anteriores, mas ele tirou da
cintura a correia com o fivelão de cobre
maciço, enroscou-a no pulso, e deu na mesa uma lambada que ressoou pela casa feito um disparo de rifle. Fermina Daza conhecia muito bem o alcance e a ocasião de sua própria força, de modo que fez uma trouxa com duas esteiras e uma rede, e arrumou dois baús grandes com
toda a sua roupa, certa de que era uma viagem sem retorno.
Antes de se vestir, se trancou no banheiro e conseguiu escrever a Florentino Ariza uma breve carta de adeus numa folha arrancada ao pacotinho de Papel higiênico. Depois cortou sua trança completa na altura da nuca com a tesoura de podar, enfiou-a
num rolo dentro de um estojo de
veludo bordado a fio de ouro,
e a mandou junto com a carta.
Foi uma viagem
demente. Só a etapa inicial numa caravana
de tropeiros andinos durou onze dias
em lombo de mula pelas cornijas da Serra
Nevada, embrutecidos todos por sóis nus ou ensopados pelas chuvas horizontais de outubro, e quase sempre com o alento petrificado pela exalação
de
dormência que sobe dos precipícios. No
terceiro dia de caminho, uma mula enlouquecida pelas varejeiras rolou pelo barranco com seu cavaleiro e arrastou consigo a fieira inteira, e o alarido do homem
e de sua penca de sete bestas amarradas entre si continuou
reboando pelas gargantas e alcantis várias horas depois do desastre, e continuou reboando durante anos e anos na memória de
Fermina Daza. Toda a sua bagagem despencou com as mulas, mas no instante de séculos
que durou a queda até se extinguir
nas profundezas o alarido de pavor ela não pensou no pobre muleteiro morto nem na recua despedaçada, e
sim na desgraça de que
sua própria
mula não estivesse também amarrada às outras.
Montava pela primeira vez, mas o terror e as canseiras
incontáveis da viagem
não lhe teriam parecido tão
amargos se não se acompanhassem da certeza
de que nunca mais veria Florentino
Ariza nem teria o consolo de
suas cartas. Desde o começo da viagem não tinha tornado a dirigir a
palavra ao pai, e este andava tão confuso que apenas lhe falava em casos
indispensáveis, ou lhe mandava
recados pelos muleteiros. Em momentos de
melhor sorte achavam alguma
casa de pasto à beira das veredas
onde havia comidas dali mesmo, que ela se negava
a comer, e onde se alugavam
camas-de-vento entranhadas de urinas
e suores azedos. O mais freqüente, contudo, era passar a noite em rancharias
de
índios, hospedarias públicas ao relento, construídas à beira dos caminhos
com fileiras de forquilhas e tetos de palma, onde quem quer que chegasse tinha o direito de ficar até raiar o dia. Fermina Daza não conseguiu, dormir uma noite completa, sentindo na escuridão o bulício dos
retardatários que iam chegando e atando os animais às forquilhas e pendurando
as redes onde podiam.
Ao entardecer,
quando chegavam os primeiros, o lugar era amplo e tranqüilo, mas amanhecia transformado em praça
de feira, com feixes de redes
penduradas em níveis diferentes, e índios da serra dormindo de cócoras, e o balir dos cabritos amarrados e a algazarra dos
gaios de briga em seus engradados
de faraós, e a mudez arquejante dos
cachorros monteses amestrados para não ladrar devido aos riscos da guerra. Essas privações eram familiares
a Lorenzo Daza, que tinha negociado pela região durante a metade da vida, e quase sempre deparava com velhos amigos ao amanhecer. Para a filha era uma agonia
perpétua. A fedentina das cargas de bagre
salgado, somada à inapetência própria
à saudade, acabaram por lhe atropelar
o hábito de comer, e se não enlouqueceu
de desespero foi porque sempre encontrou alívio na
lembrança de Florentino Ariza. Não duvidou de que aquela fosse a
terra do esquecimento.
Outro terror constante era o da guerra. Desde o
princípio da viagem se mencionara o
perigo de encontrar patrulhas
dispersas, e os tropeiros os haviam instruído sobre os diversos modos de saber a que bando pertenciam para que agissem de
acordo. Era freqüente encontrar
um bando
de soldados a cavalo, sob o comando de um oficial, que
recolhia os novos recrutas laçando-os
como novilhos em plena carreira. Angustiada por
tantos horrores, Fermina Daza tinha
esquecido de coisas que lhe pareciam
mais lendas do que ameaças de verdade, até a noite em que uma
patrulha sem filiação
conhecida seqüestrou dois membros da caravana e os enforcou numa árvore a meia légua da rancharia.
Lorenzo Daza não tinha nada a ver com eles, mas
os fez baixar e lhes deu sepultura
cristã em ação de graças por
não ter sofrido destino igual. Não era
para menos. Os assaltantes o
haviam acordado com um cano de
escopeta na barriga, e um comandante
em andrajos, com uma cara que parecia tisnada a tição, iluminou-o com a lanterna e lhe perguntou se era liberal ou conservador.
—
Nem um nem outro — disse Lorenzo Daza. — Sou um súdito espanhol.
—
Que sorte! — disse o
comandante, e se despediu dele com a
mão no alto: — Viva o rei!
Dois dias mais tarde
desceram à planície luminosa onde
se assentava o alegre povoado de Valledupar. Havia brigas de galo nos pátios, música de sanfona nas esquinas, cavaleiros em cavalos
de bom sangue, foguetes e sinos. Estavam armando um castelo
de pirotecnia. Fermina Daza nem reparou nos festejos. Hospedaram-se na casa do
tio Lisímaco Sánchez, irmão de sua mãe, que veio recebê-los na estrada
real à frente de uma buliçosa cavalgata de jovens membros da família montados em animais da melhor raça da província, e foram conduzidos pelas ruas
do povoado em meio ao fragor do foguetório.
A casa estava no centro da Praça
Grande, junto
à igreja colonial várias vezes remendada, e dava mais a impressão de uma feitoria
de fazenda com seus aposentos espaçosos e sombrios, e o
corredor recendente a garapa quente debruçado
sobre o pomar.
Mal haviam apeado das montarias e os salões de visita já
transbordavam, com os numerosos parentes
desconhecidos que fustigavam Fermina
Daza com suas efusões insuportáveis, pois estava impedida de amar a qualquer outra pessoa que fosse neste
mundo, escaldada pela montaria, morta de
sono e com o intestino solto, e só implorava a bênção de um lugar solitário e quieto para
chorar. Sua prima Hildebranda Sánchez, dois anos mais velha do que
ela e com sua mesma altivez imperial, foi
a única que compreendeu seu estado
logo que a viu pela primeira vez, por que também ela se consumia nas
brasas de um amor temerário. Ao cair
a noite conduziu-a ao quarto que havia preparado
para ambas, e não entendeu como estava ainda viva com as úlceras de fogo que tinha no traseiro. Ajudada por sua mãe, uma mulher muito doce e parecida com o marido como se fossem gêmeos, preparou-lhe um banho de assento e
lhe mitigou as ardências com
compressas de arnica, enquanto os trovões do
castelo de pólvora abalavam os
alicerces da casa.
À meia-noite já tinham saído as visitas, a festa pública se dissolveu em festinhas dispersas,
e a prima Hildebranda emprestou a Fermina Daza uma camisola de morim, e
a ajudou a se deitar numa cama de
lençóis esticados e travesseiros de penas que lhe infundiram de pronto
o pânico instantâneo da felicidade.
Quando afinal ficaram sós no quarto, fechou a porta a tranca e tirou de baixo do
colchão de sua cama um
envelope pardo lacrado com os emblemas do
Telégrafo Nacional. Bastou a Fermina Daza ver a expressão de radiante malícia da prima para brotar de novo na memória do seu coração o odor pensativo das gardênias brancas, antes de triturar o sinete de lacre com os
dentes e ficar chapinhando até o raiar do dia no charco de lágrimas dos onze telegramas
desatinados.
Então ficou sabendo. Antes de empreender a viagem
Lorenzo Daza tinha cometido o erro de anunciá-la
pelo telégrafo a seu cunhado Lisímaco
Sánchez, e este por sua
vez mandara a notícia a sua vasta
e complicada parentela, disseminada em numerosos povoados e caminhos da província. De maneira que Florentino
Ariza pôde não só averiguar o itinerário completo como estabelecer uma grande irmandade de telegrafistas
para seguir o rastro de Fermina
Daza até a última rancharia do Cabo da
Vela. Isto lhe permitiu manter com ela uma comunicação intensa desde que chegou a Valledupar, onde ficou três meses, até o fim da viagem em Riohacha, ano e meio depois, quando Lorenzo Daza aceitou como fato que a filha havia afinal esquecido, e resolveu voltar para casa. Talvez ele mesmo não estivesse
consciente de quanto relaxara sua vigilância, distraído como estava com os
agrados dos parentes políticos, que
depois de tantos anos haviam abdicado de seus preconceitos tribais, admitindo-o de coração aberto como um dos
seus. Embora não tivesse esse
propósito, a visita foi uma reconciliação tardia. Com efeito, a família
de Fermina Sánchez se opusera a todo custo a
que ela se casasse com um imigrante sem origem,
falador e bruto, que estava sempre de passagem
em todos os lugares, com um negócio de mulas xucras que
parecia demasiado simples para ser limpo. Lorenzo Daza se empenhava a fundo, porque sua pretendida era a mais apreciada de uma família típica da região: uma cáfila
intrincada de mulheres corajosas e homens de coração terno e gatilho fácil,
perturbados até a demência pelo sentido da honra.
Contudo, Fermina Sánchez se sentou em seu capricho com a determinação cega dos
amores contrariados, e se casou com ele a despeito da família, com tanta
pressa e tantos mistérios que dava a impressão de fazê-lo menos por
amor do que
para cobrir com um manto sacramentai algum descuido prematuro.
Vinte e cinco anos depois, Lorenzo Daza não se dava conta
de
que sua intransigência com os
amoricos da filha era uma repetição
viciosa de sua própria história, e
se lamentava de sua desgraça perante
os mesmos cunhados que se haviam oposto a ele como estes
se haviam lamentado outrora
perante os seus. Mas o tempo que ele perdia em lamentações, sua filha
o ganhava nos amores. Enquanto ele andava
castrando bezerros e amansando mulas nas
terras felizes dos cunhados, ela passeava à rédea solta num
tropel de primas comandadas
por Hildebranda Sánchez, a mais bela e prestimosa, cuja paixão sem futuro por um homem vinte anos mais velho, casado e com filhos, se conformava
com olhares furtivos.
Depois da prolongada estada em Valledupar prosseguiram viagem pelas quebradas da serra, através de campinas floridas e mesetas de sonho,
e em todos os povoados foram
recebidos como no primeiro, com músicas e
petardos, e com novas primas confabuladas e mensagens
pontuais nas agências telegráficas. Em breve Fermina Daza viu que a tarde de sua chegada
a Valledupar não tinha sido extraordinária e sim
que naquela província feraz todos os dias da semana eram vividos
como se fossem de festa. Os visitantes dormiam onde os
apanhasse a noite e comiam onde a fome os
achava, pois eram casas de portas
abertas onde sempre havia uma rede pendurada e um cozido de três
carnes fervendo no fogão, para o
caso de alguém chegar antes do seu telegrama
de aviso, como em geral acontecia. Hildebranda Sánchez
acompanhou a prima o resto da viagem,
guiando-a com pulso alegre através dos carrascais do sangue até suas fontes de origem. Fermina Daza se reconheceu, se sentiu senhora de si mesma pela primeira vez, se sentiu acompanhada e protegida, os pulmões cheios de um ar de liberdade que lhe restituiu o sossego e a vontade de viver. Nos seus últimos anos ainda
evocava aquela viagem, cada vez
mais recente na memória, com a lucidez perversa da nostalgia.
Uma noite voltou do passeio
diário aturdida pela revelação de que não só se podia ser feliz sem amor como também contra o amor.
A revelação a alarmou, porque uma de suas primas
tinha surpreendido uma conversa dos
pais com Lorenzo Daza na qual este tinha
sugerido a idéia de concertar o
casamento da filha com o herdeiro único da fortuna fabulosa de Cleofás Moscote, Fermina
Daza o conhecia. Vira-o caracolando pelas praças seus cavalos perfeitos,
com jaezes tão
ricos que pareciam paramentos de missa,
e era elegante e destro, e tinha umas pestanas
de
sonhador que faziam suspirar as próprias
pedras, mas ela o comparou à
lembrança que tinha de Florentino
Ariza sentado embaixo das amendoeiras
da pracinha, pobre e escaveirado, com o livro de versos no colo, e não encontrou sombra de dúvida no seu coração.
Naqueles dias, Hildebranda Sánchez andava delirando de ilusões depois de visitar uma pitonisa cuja clarividência a havia
assombrado. Preocupada com as intenções do pai,
Fermina Daza também foi consultá-la. As cartas do
baralho lhe anunciaram que não
havia em seu futuro nenhum obstáculo a um
casamento longo e feliz, e o prognóstico lhe devolveu o ânimo, pois não concebia que
um destino tão venturoso pudesse ser com homem que não fosse o que amava. Exaltada por essa certeza, assumiu o comando do seu arbítrio.
E por isso a correspondência telegráfica com Florentino
Ariza deixou de ser um concerto
de
intenções e promessas ilusórias, tornando-se
metódica e prática, e mais intensa do que nunca. Marcaram datas, estabeleceram
meios e modos, empenharam suas vidas na determinação comum de se casarem sem
consultar ninguém, onde fosse e como fosse, logo que se reencontrassem.
Fermina Daza considerava tão severo este compromisso
que a noite em que seu pai
lhe deu permissão para que assistisse a seu primeiro
baile de adultos, na aldeia de Fonseca, a ela não pareceu decente aceitar sem o consentimento de seu prometido.
Florentino Ariza estava aquela noite no hotel
suspeito, jogando baralho com Lotário Thugut, quando lhe avisaram da chegada de mensagem telegráfica urgente.
Era o telegrafista de
Fonseca que havia conjugado sete postos intermediários para que
Fermina Daza pedisse licença para ir
ao baile. Obteve-a, mas não se conformou
com a simples resposta afirmativa, pedindo prova de que na realidade era
Florentino Ariza quem estava operando
o manipulador no outro extremo da linha. Mais atônito do que lisonjeado, ele compôs uma frase de identificação: Diga- lhe que eu
juro pela deusa coroada. Fermina Daza reconheceu o santo e senha, e ficou no seu primeiro baile de gente
grande até as sete da manhã,
quando teve de trocar de roupa às carreiras para não chegar tarde à missa. Nessas
alturas, tinha no fundo do baú mais
cartas e telegramas do que os que o pai lhe
tirara, e já se comportava com
atitudes de mulher casada. Lorenzo Daza interpretou aquelas mudanças no seu modo de
ser como prova de que a distância e o tempo a haviam
curado das fantasias juvenis, mas nunca lhe apresentou o projeto do casamento
combinado. As relações dos dois
ficaram fluidas, dentro das reservas
formais que ela lhe havia imposto desde a expulsão da tia Escolástica, o que lhes
permitiu uma convivência tão
cômoda que ninguém teria duvidado que se alicerçava no carinho.
Foi nessa época
que Florentino Ariza resolveu lhe contar nas cartas que se empenhava em resgatar para ela o tesouro
do galeão submerso. Era coisa certa, como tinha sentido num sopro de
inspiração, uma tarde luminosa
em que o mar parecia calçado de alumínio,
tal a quantidade de peixes
postos a boiar por plantas narcóticas usadas pelos pescadores. Todas as aves do céu se haviam alvoroçado com a matança, e os pescadores precisavam
afugentá-las com os remos para que
não lhes disputassem os frutos daquele milagre proibido. O emprego do barbasco, que apenas adormecia os
peixes, estava interditado por lei desde
os tempos da Colônia, mas continuou
sendo prática comum em pleno dia entre os pescadores do Caribe,
até que foi substituído pela
dinamite. Uma das diversões de Florentino
Ariza, enquanto durou a viagem de Fermina
Daza, era ver do cais como os
pescadores carregavam as canoas com redes inchadas de peixes adormecidos. Ao mesmo tempo, uma malta de meninos que nadavam como tubarões pedia aos
curiosos que atirassem moedas para que
as fossem fisgar no fundo da água. Eram os mesmos que nadavam com igual propósito ao
encontro dos transatlânticos, e sobre os quais se haviam escrito tantos relatos de viagem nos Estados Unidos e na Europa,
pela sua
mestria na arte de nadar debaixo d'água. Florentino Ariza
os conhecia da vida inteira, de antes de
conhecer o amor, mas nunca lhe havia
ocorrido que talvez fossem capazes de pôr à tona a fortuna do galeão. Ocorreu-lhe essa tarde, e do domingo seguinte até
o regresso de Fermina Daza, quase um ano depois, teve um motivo adicional de delírio.
Euclides, um dos
meninos nadadores, se animou tanto quanto ele com a idéia de uma exploração
submarina, depois de uma conversa de não mais de dez minutos. Florentino Ariza não lhe revelou o verdadeiro objeto do empreendimento, mas se informou a fundo sobre suas habilidades de mergulho e navegação.
Perguntou-lhe se conseguia descer sem ar
a vinte metros de profundidade, e
Euclides disse que sim. Perguntou se estava em condições de levar sozinho
uma canoa de pescador pelo mar alto em plena borrasca, sem instrumentos além do próprio instinto, e
Euclides disse que sim. Perguntou se seria capaz
de localizar um lugar
exato dezesseis milhas marítimas a
noroeste da ilha maior do arquipélago
de Sotavento, e Euclides disse que sim. Perguntou se era capaz de navegar à noite orientando-se pelas estrelas, e Euclides disse que sim. Perguntou se estava disposto a fazê-lo recebendo a mesma diária que lhe pagavam os pescadores para ajudá-los a pescar, e Euclides disse
que sim, mas com uma sobretaxa de cinco réis aos
domingos. Perguntou se sabia se defender dos tubarões, e Euclides disse
que sim, pois tinha artes mágicas de afugentá-los. Perguntou se era capaz
de guardar um segredo ainda que o pusessem nas máquinas de tormentos do palácio da Inquisição,
e Euclides disse que sim, pois não
dizia que não a nada, e sabia dizer sim com
tanta convicção que não havia jeito de duvidar
dele. No fim, fez as contas das despesas: o aluguel da canoa, o aluguel
dos remos, o aluguel de
instrumentos de pesca para
que ninguém desconfiasse da verdadeira intenção das excursões.
Era ainda preciso levar comida, um garrafão
de água doce, uma lamparina, um maço de velas de
sebo e um chifre de caçador para pedir auxílio em caso
de
emergência.
Tinha uns doze
anos, e era ligeiro e astuto, e falava
sem parar
e tinha um corpo de enguia que parecia feito para que ele se
esgueirasse por qualquer escotilha. A vida ao ar livre lhe havia curtido tanto a pele que era impossível imaginar sua cor original, o
que tornava mais
radiantes seus grandes olhos amarelos. Florentino
Ariza resolveu de pronto
que era o cúmplice perfeito para uma aventura de semelhantes possibilidades, e a atacaram sem mais delongas no domingo seguinte.
Zarparam do porto dos pescadores ao
amanhecer, bem providos e melhor dispostos.
Euclides quase nu, só com a tanga que vestia sempre, e Florentino Ariza com a sobrecasaca, o chapéu de trevas, as botinas de verniz e o laço de poeta no pescoço, e um livro
para se entreter na travessia até as ilhas.
Desde o primeiro domingo viu que Euclides era de fato perito navegante e bom mergulhador, e que tinha uma prática assombrosa da natureza do mar e da sucata da baía. Podia contar com mínimos pormenores a história de cada
casco velho de navio roído de oxido, sabia a idade de cada bóia, a origem de qualquer escombro, o número de
elos da corrente com que os espanhóis fechavam a entrada da baía. Temendo que soubesse também qual o propósito de sua expedição, Florentino Ariza lhe fez algumas
perguntas insidiosas, comprovando que Euclides não tinha a menor suspeita
acerca do galeão afundado.
Ao ouvir pela primeira vez a
história do tesouro no hotel, Florentino
Ariza se informara o mais possível
sobre a crônica dos galeões. Ficou
sabendo que o San José não estava só em seu leito de corais.
Era a nave capitania da Frota de Terra Firme, e chegara aqui depois de maio de
1708, procedente da feira legendária de Portobello, no
Panamá, onde carregara parte de sua fortuna:
trezentos baús com prata do Peru e Veracruz, e cento e dez baús de pérolas juntadas e contadas na ilha de Contadora. Durante o longo mês em que
aqui permaneceu, de dias e noites de
festas populares, puseram a bordo o resto do tesouro destinado a
tirar da pobreza o reino da Espanha: cento e dezesseis baús de esmeraldas
de Muzo
e Somondoco, e trinta milhões de moedas de ouro.
A Frota de Terra
Firme estava integrada por nada menos que
doze embarcações de diferentes tamanhos, e zarpou deste porto
comboiada por uma esquadra francesa, muito bem armada, que mesmo assim não pôde salvar a expedição diante dos canhonaços certeiros da esquadra inglesa, sob as ordens do comandante Carlos Wager, que a esperou no arquipélago de Sotavento, à saída da baía. De modo que o San José não era a única nave afundada,
embora não houvesse certeza
documental de quantas haviam
sucumbido e quantas escapado ao fogo dos ingleses.
Do que não havia dúvida era que a nave capitania fora das primeiras a ir a pique, com a
tripulação completa e o comandante imóvel em seu castelo de proa, e que levava a carga
principal.
Florentino Ariza tinha conhecido a rota dos galeões nas
cartas de navegar da época, e acreditava haver determinado o
lugar do naufrágio. Saíram da baía por
entre as duas fortalezas da Boca
Chica, e ao fim de quatro horas de navegação entraram nas águas interiores do arquipélago, em cujo fundo de coral
podiam ser colhidas com a mão as
lagostas adormecidas. O ar era tão leve, e
o mar tão sereno e diáfano, que
Florentino Ariza se sentiu como se não passasse de seu próprio reflexo
na água. Para
lá do remanso, a
duas horas da ilha maior,
estava o lugar
do naufrágio.
Congestionado em sua indumentária fúnebre pelo sol infernal,
Florentino Ariza explicou a Euclides que ali devia descer a vinte metros e
trazer qualquer coisa que encontrasse no fundo. A água era tão clara que o viu
mover-se no fundo, como um tubarão
entre os tubarões azuis que se cruzavam
com ele sem tocá-lo. Depois o viu
desaparecer num matagal de corais, e bem quando achou que ele não podia ter mais ar ouviu a voz às suas costas. Euclides estava parado
no fundo, com os braços levantados e água pela cintura. Por isso continuaram buscando lugares mais fundos, sempre para o norte, navegando por cima das arraias lentas, das lulas
tímidas, dos roseirais tenebrosos, até
que Euclides compreendeu que estavam perdendo
tempo.
— Se não me disser
o que quer que eu encontre, não sei como
vou encontrá-lo — disse.
Mas ele não falou. Então Euclides lhe propôs que tirasse a roupa e descesse
com ele, ainda que só para ver
esse outro céu debaixo do mundo que eram os fundos de corais. Mas Florentino Ariza costumava
dizer que Deus tinha feito o mar só para olhá-lo pela
janela, e nunca aprendeu a nadar. Pouco
depois a tarde nublou, o ar
ficou frio e úmido, e escureceu tão
depressa que precisaram se guiar pelo
farol para encontrar o porto. Antes de entrar
na baía, viram passar muito perto
o transatlântico da França com todas as luzes acesas, enorme e branco, que ia
deixando um rastro de guisado mole e couve-flor fervida.
Desta forma perderam três domingos, e teriam continuado a perdê-los todos se Florentino Ariza não tivesse resolvido partilhar seu segredo com Euclides. Este modificou então
todo o plano da busca, e puseram-se a navegar pelo
antigo canal dos galeões, que estava a mais de vinte
léguas marítimas a oriente do lugar
previsto por Florentino Ariza. Antes de passados
dois meses, certa tarde de
chuva no mar, Euclides permaneceu muito
tempo no fundo, e a canoa tinha derivado tanto que
teve que nadar quase meia hora
para alcançá-la, já que Florentino
Ariza não conseguiu aproximá-la com os
remos. Quando por fim pôde
abordá-la, tirou da boca e
mostrou como triunfo da perseverança dois adereços de mulher.
O que contou era tão fascinante que Florentino Ariza
prometeu a si mesmo aprender a nadar, e
afundar até onde pudesse só para comprová-lo com os próprios olhos. Contou que naquele lugar, a apenas
dezoito metros de profundidade, havia
tantos veleiros antigos deitados entre os bancos de coral que era impossível sequer
calcular a quantidade, e estavam disseminados por um espaço tão extenso que eram de perder
de vista. Contou que o mais
surpreendente era que das tantas
carcaças de navios que ainda flutuavam na baía nenhuma estava em tão
bom estado quanto as naves submersas. Contou
que havia várias caravelas ainda com as velas intactas, e que as naves
afundadas eram visíveis no fundo, pois parecia que haviam afundado com seu espaço e seu tempo, de maneira
que ali continuavam alumiadas pelo mesmo sol das onze
da manhã do sábado 9 de junho em que
foram a pique. Contou, afogando-se no próprio ímpeto da sua imaginação, que o mais fácil de distinguir era o galeão San
José, cujo nome era visível na popa com letras de ouro, mas que ao mesmo tempo
era a nave mais danificada pela artilharia dos ingleses. Contou ter visto dentro um polvo de mais de três séculos
de idade, cujos tentáculos
saíam pelas seteiras dos canhões, mas havia crescido tanto na sala de refeições
de
bordo que para
libertá-lo só desmantelando a
nave. Contou que vira o corpo do comandante
com seu uniforme de guerra
flutuando de
lado dentro do aquário do castelo, e que se não
baixara até os porões do tesouro foi
porque o ar dos pulmões não
dera para tanto. Ali estavam as
provas: um brinco com uma esmeralda, e uma medalha da Virgem
com seu cordão carcomido pelo salitre.
Essa foi a primeira
menção ao tesouro que Florentino Ariza
fez a Fermina Daza numa carta que lhe mandou a Fonseca pouco antes do seu regresso. A
história do galeão afundado lhe era familiar, pois a tinha ouvido sendo
contada a Lorenzo Daza muitas vezes. Ele
perdera tempo e dinheiro tratando de convencer
uma companhia de mergulhadores alemães a se
associar com ele para resgatarem o tesouro submerso. Teria insistido no empreendimento, se não tivesse
sido convencido por vários membros da
Academia da História de que a lenda do galeão naufragado era invenção de um certo vice-rei
bandoleiro, que para encontrar o
navio conseguira dinheiros da Coroa.
Em todo o caso, Fermina Daza sabia que o galeão estava a uma profundidade de duzentos metros, onde
nenhum ser humano poderia atingi-lo, e
não aos vinte metros que dizia Florentino Ariza. Mas estava tão acostumada a seus excessos
poéticos que celebrou a aventura do galeão
como um dos mais belos. Contudo, ao receber outras cartas com
pormenores ainda mais fantásticos, e escritos com tanta seriedade como seus protestos de amor, teve de confessar a Hildebranda seu temor
de que o noivo alucinado tivesse perdido
o juízo.
Naqueles dias, Euclides já tinha emergido das águas com tais provas de sua fábula
que não se tratava mais de continuar ciscando brincos e anéis semeados
entre os corais, e sim de capitalizar uma empresa grande para recuperar
a meia centena de naves com a fortuna babilônica que continham. Aconteceu então o que mais cedo
ou mais tarde aconteceria, e foi que Florentino Ariza pediu ajuda à mãe para levar a bom porto sua aventura. A ela bastou-lhe morder o metal das
jóias, e olhar contra a luz as
pedras de vidro, para concluir
que alguém andava abusando da boa fé do filho.
Euclides jurou de joelhos a Florentino Ariza que não havia
nada de escuso em sua atividade, mas não deu nenhum ar de
sua graça domingo seguinte no porto dos pescadores, nem nunca mais em nenhuma parte.
A única coisa que aquele descalabro rendeu a Florentino
Ariza foi o refúgio de amor do
farol. Ali chegara na canoa de Euclides,
uma noite que os surpreendeu a
tempestade em mar aberto, e a partir de então costumava ir lá à tarde conversar com o faroleiro sobre as incontáveis
maravilhas da terra e da água que o faroleiro sabia. Esse foi o
início de uma amizade que sobreviveu às muitas
mudanças do mundo. Florentino
Ariza aprendeu a alimentar a luz, primeiro
com feixes de lenha e depois com botijões de óleo, antes que nos chegasse a energia elétrica.
Aprendeu a dirigi-la e a aumentá-la com espelhos, e nas várias ocasiões em que o faroleiro não pôde fazê-lo, ficou ali, vigiando da torre as noites do mar. Aprendeu
a conhecer os navios pelas suas vozes, pelo
tamanho de suas luzes no horizonte,
e a perceber que algo deles lhe chegava
de volta nos relâmpagos do farol.
Durante o dia o
prazer era outro, sobretudo aos domingos. No
bairro dos Vice- Reis, onde
moravam os ricos da cidade velha, as praias das mulheres
estavam separadas das dos homens por um muro de argamassa: uma à direita, outra à esquerda do farol. O faroleiro havia instalado uma luneta
pela qual se podia contemplar,
mediante o pagamento de um centavo, a praia das mulheres. Sem se saberem observadas, as senhoritas da sociedade
se mostravam o melhor que podiam dentro de suas roupas
de banho de largos panos, mais os sapatinhos de borracha e os chapéus, tudo isso
ocultando os corpos quase tanto quanto a roupa de rua, só que de forma menos atraente. Das margens as mães as
vigiavam, sentadas ao sol de rachar em
cadeiras de balanço de vime com os mesmos vestidos, os mesmos chapéus de plumas, as mesmas sombrinhas
de renda com que tinham ido à
missa solene, por temor de que
os homens das praias vizinhas as seduzissem
por baixo d'água. A realidade era que através da luneta não se podia ver mais nada, nem mais excitante do que se podia ver na
rua, mas eram muitos os clientes que acudiam cada
domingo para se disputarem o telescópio no puro deleite de provar os frutos insípidos do quintal alheio.
Florentino Ariza era um
deles, mais por tédio do que
por prazer, mas não foi esse atrativo
adicional que o tornou tão bom amigo do faroleiro.
O motivo real foi que a partir do menosprezo de Fermina Daza, quando ele contraiu
a febre dos amores dispersos na ânsia de substituí-la, só mesmo no farol viveu
horas felizes e encontrou consolo
para suas desditas. De tal forma que
durante anos procurou convencer sua mãe,
e mais tarde seu tio Leão XII, a ajudá-lo
a comprar o farol. É que os
faróis do Caribe eram então propriedade privada, e seus donos cobravam o direi to de passagem até o porto segundo o tamanho
dos navios. Florentino Ariza achava que era essa
a única maneira honesta de fazer um bom negócio com a
poesia, mas nem a mãe nem o tio achavam o mesmo, e quando ele pôde fazê-lo com recursos próprios os
faróis já tinham passado à propriedade do estado.
Nenhuma dessas ilusões foi vã, não
obstante. A fábula do galeão, e em seguida a novidade do farol,
foram aliviando para ele a ausência
de Fermina Daza, e quando ele menos o
pressentia chegou a notícia do regresso.
Com efeito, depois de uma estada
prolongada em Riohacha, Lorenzo Daza
tinha resolvido voltar. Não era a
época mais benigna do mar, devido aos
alíseos de dezembro, e a goleta histórica, a única que se arriscava à travessia, podia amanhecer de volta ao porto de origem, arrastada por um vento
contrário. Assim foi. Fermina Daza
passara uma noite de agonia, vomitando bílis, amarrada ao
beliche de um camarote que parecia uma privada de
botequim, não só pela estreiteza opressiva como pela pestilência
e o
calor. O balanço era tão forte que várias vezes teve a impressão de que iam arrebentar as
correias da cama, do convés lhe chegavam gritos
doloridos que pareciam de naufrágio, e os roncos de tigre
do pai
no beliche contíguo eram um ingrediente
a mais do terror. Pela primeira vez em quase três anos passou
uma
noite em claro sem pensar um instante em Florentino
Ariza, enquanto que ele permaneceu insone na rede da loja de trás contando um a um os minutos eternos que faltavam para que ela
voltasse. Ao amanhecer, o vento cessou de
súbito e o mar se tornou
plácido, e Fermina Daza percebeu que dormira apesar dos estragos do enjôo,
porque a despertou o estrépito das correntes
da âncora. Então se livrou das
correias e olhou pela escotilha na ilusão de descobrir Florentino
Ariza no tumulto do porto, mas o que viu foram os armazéns da alfândega entre as palmeiras douradas pelos primeiros sóis, e o molhe
de barrotes apodrecidos de Riohacha, de onde a goleta zarpara a
noite anterior.
O resto do dia foi como
uma alucinação, na mesma casa em
que tinha estado até a véspera,
recebendo as mesmas visitas que dela se haviam despedido, falando as mesmas coisas, e aturdida pela impressão de estar vivendo de novo um pedaço de
vida já vivida. Era uma repetição
tão fiel que Fermina Daza estremecia à simples idéia de que
assim também tinha sido com a viagem da goleta,
cuja simples lembrança lhe causava
pavor. No entanto, a única
alternativa de voltar para casa eram duas semanas em lombo de
mula pelas cornijas da serra,
e em condições ainda mais
perigosas que da primeira vez, pois uma nova guerra civil iniciada no estado
andino do Cauca já se ramificava pelas províncias do Caribe. Por isso, às oito da noite foi acompanhada outra vez até o porto pelo mesmo cortejo de parentes barulhentos, com as mesmas
lágrimas de adeus e os mesmos volumes de pilhas de presentes de última
hora que não cabiam nos camarotes. No
momento de zarpar,
os homens da família
se despediram da goleta com uma salva de
disparos para o ar, e Lorenzo
Daza retribuiu do convés com os cinco
tiros do seu revólver. A ansiedade
de Fermina Daza se dissipou em breve, porque o vento foi favorável
a noite inteira, e o mar tinha um cheiro de
flores que a ajudou a dormir
bem sem as correias de segurança.
Sonhou que tornava a ver Florentino Ariza, e este
despiu a cara que ela sempre
tinha visto, porque na realidade era uma máscara,
mas a cara real era idêntica. Levantou-se muito
cedo, intrigada pelo enigma do sonho,
e encontrou o pai tomando
café com conhaque na cantina do capitão,
com o olho torcido pelo álcool, mas sem o menor
indício de preocupação pelo regresso.
Estavam entrando no porto. A goleta deslizava em silêncio pelo labirinto de veleiros ancorados na enseada do mercado público, cuja pestilência se sentia a
léguas de distância no mar, e
a madrugada estava saturada de um chuvisco firme que em breve despencou num aguaceiro dos grandes. A postos no balcão da telegrafia,
Florentino Ariza reconheceu a goleta quando atravessava a baía das Animas
com as velas desanimadas pela chuva e ancorou diante do embarcadouro do mercado.
Tinha esperado na véspera até as onze da manhã,
quando soube por um telegrama casual do atraso da goleta
devido aos ventos contrários, e voltara
a esperar aquele dia desde as quatro da madrugada. Continuou esperando sem arredar a vista das chalupas que conduziam até a terra os escassos passageiros qu resolviam desembarcar apesar da tempestade. Em sua maioria eles tinham
que abandonar na metade do caminho a
chalupa encalhada, e chegavam ao embarcadouro chapinhando no lodaçal. Às oito, depois de esperar em vão que estiasse, um
carregador negro com água pela cintura recebeu Fermina Daza na amurada da goleta e a levou nos braços até a margem, mas estava tão ensopada que
Florentino Ariza não conseguiu reconhecê-la.
Ela própria não
estava consciente do quanto
amadurecera na viagem, até que entrou na casa fechada e empreendeu de pronto a tarefa heróica de torná-la de novo habitável, com a ajuda de
Gala Placídia, a criada preta, que voltou à sua antiga senzala
logo que lhe avisaram do regresso. Fermina Daza não era mais a filha única, ao mesmo tempo mimada e tiranizada pelo pai, e sim a dona e senhora de um império de poeira e teias de aranha que só podia ser recuperado
graças à força de um amor
invencível. Não se acovardou, pois sentia em si um sopro de levitação que lhe daria a força de mover
o mundo. Na própria noite da volta, quando tomavam chocolate com
bolinhos de queijo na grande mesa da cozinha,
seu pai
lhe delegou os poderes de governo da casa, e o fez com o formalismo de
um ato sacramental.
— Entrego a você as chaves da sua própria
vida — disse.
Ela, com dezessete anos
feitos, assumia-a com um pulso firme, consciente de que
cada palmo da liberdade ganha era para o
amor. No dia seguinte, depois de uma noite
de maus
sonhos, padeceu pela primeira
vez o enfado do regresso, quando abriu a janela da sacada e tornou a ver o chuvisco triste da pracinha, a estátua do herói
decapitado, o banco de mármore em que Florentino Ariza costumava
sentar- se com um livro de versos.
Já não pensava nele como o noivo impossível
e sim como o marido certo a quem
se devia dos pés à cabeça. Sentiu quanto pesava o tempo desperdiçado
desde o dia em que partira, quanto custava estar viva, quanto amor lhe ia faltar para amar ao seu homem como
Deus mandava. Surpreendeu-a que ele não
estivesse na pracinha, como tantas vezes estivera apesar da chuva, e que não houvesse recebido qualquer sinal dele, por qualquer meio que fosse,
nem mesmo um presságio, e de pronto abalou-a a idéia de que houvesse
morrido. Mas em seguida descartou o mau pensamento,
porque no frenesi dos telegramas dos últimos dias, ante a iminência da volta, tinham esquecido de combinar um modo de continuarem se comunicando quando ela voltasse.
A verdade é
que Florentino Ariza estava certo de que
ela não tinha voltado, até que o telegrafista de Riohacha lhe confirmou que havia embarcado sexta-feira na mesma goleta que não chegara na véspera
devido aos ventos contrários. No fim da semana
esteve tentando divisar qualquer sinal de
vida na casa dela, e a partir do anoitecer
de segunda-feira viu pelas janelas uma luz ambulante
que pouco depois das nove se apagou no
quarto de dormir da sacada. Não dormiu, presa das mesmas ansiedades de náuseas que
perturbaram suas primeiras noites de
amor. Trânsito Ariza se levantou
com os primeiros gaios, alarmada porque não voltara o filho que saíra ao
pátio à meia-noite, e não
o encontrou na casa. Tinha ido errar pelo cais, recitando versos de amor contra o vento, chorando de júbilo, até que
acabou de amanhecer. Às oito estava sentado sob os arcos do Café da Paróquia,
alucinado pela vigília, tratando de descobrir
um jeito de fazer chegar seus votos de
boas-vindas a Fermina Daza, quando se
sentiu sacudido por um abalo sísmico
que lhe dilacerou as entranhas.
Era ela. Atravessava a Praça da Catedral acompanhada por Gala
Placídia, que carregava os cestos para
as compras, e pela primeira vez não trajava o uniforme escolar. Estava mais alta do que ao partir, mais perfilada e intensa, e com a beleza depurada por um domínio de pessoa
mais velha. A trança lhe havia crescido
de novo, mas não lhe pendia mais pelas costas, atirada agora
sobre o ombro esquerdo, e esta simples mudança a despojara de todo
traço infantil. Florentino Ariza
permaneceu atônito em seu lugar, até que aquela aparição acabou de atravessar a praça sem afastar a
vista do seu caminho. Mas o mesmo poder
irresistível que o paralisara obrigou-o em seguida
a se precipitar atrás dela quando
dobrou a esquina da catedral e se perdeu no tumulto ensurdecedor
das ruelas do comércio.
Seguiu-a sem se deixar ver, descobrindo os gestos
cotidianos, a graça, a maturidade prematura do
ser que mais amava no mundo, e que via pela primeira vez em seu estado natural. Assombrou-o a fluidez com que abria caminho na multidão.
Enquanto Gala Placídia ia aos
encontrões, e se embaraçava com os
cestos e tinha que correr para não perdê-la de vista, ela navegava
na desordem da rua num espaço seu e num tempo
diferente, sem esbarrar em ninguém, feito um morcego
nas trevas. Tinha estado muitas vezes no
comércio com tia Escolástica, mas eram sempre compras miúdas, pois o pai em pessoa
se encarregava de abastecer a casa, e não só de móveis
e comida mas inclusive de roupas de
mulher. Por isso aquela primeira saída foi para
ela uma aventura fascinante, idealizada em seus sonhos de
menina.
Não prestou atenção à insistência dos
ambulantes que lhe ofereciam o
jarabe, o xarope do amor eterno, nem às súplicas dos mendigos atirados às
portas com suas chagas ao sol, nem ao
falso índio que tentava vender-lhe um jacaré amestrado. Deu uma volta grande
e minuciosa, sem rumo calculado,
com paradas que só tinham como motivo um prazer sem
pressa diante do espírito das coisas. Entrou em cada portal onde houvesse alguma coisa a vender, e por toda parte encontrou alguma coisa que aumentava sua ânsia de viver.
Deliciou-se com o hálito de vetiver
dos panos nos arcões, enrolou-se em sedas estampadas, riu-se do próprio
riso vendo-se fantasiada de madrilenha
com sua travessa e o leque de flores pintadas diante do espelho
de corpo inteiro de O Arame de Ouro. Na loja de importados
destapou um barril de arenques em salmoura que lhe lembrou
noites de nordeste, muito menina ainda, em São João da Ciénaga. Deram-lhe uma prova de
morcela de alicante que tinha
gosto de alcaçuz, e comprou duas para a refeição matinal de sábado, além de postas de bacalhau e um frasco de groselhas em aguardente. No balcão
de especiarias, pelo puro prazer do olfato,
macerou folhas de sálvia e de orégano nas palmas das mãos, e
comprou um punhado de cravos-da-índia, outro
de anis estrelado, e outros dois de gengibre e de zimbro, e saiu banhada em lágrimas
de riso de tanto espirrar com
os vapores da pimenta de Caiena. Na
botica francesa, enquanto comprava sabonete de Reuter e água de benjoim, puseram-lhe atrás da orelha
um toque do perfume que estava na moda em Paris, e lhe deram uma pastilha desodorante para depois de fumar.
Brincava de fazer compras,
sem dúvida, mas aquilo que de verdade estava precisando comprava na
hora, com uma autoridade que não
deixava ninguém pensar que o fazia pela primeira vez,
pois estava consciente de que não
comprava para ela só e
sim para
ele também, doze jardas de
linho para as toalhas de mesa dos dois, o percal para os lençóis de bodas que teriam ao amanhecer o orvalho dos humores de
ambos, o mais delicioso de cada uma
das coisas que desfrutariam
juntos na casa do amor. Pedia abatimento e sabia fazê-lo,
discutia com graça e dignidade até conseguir o melhor, e pagava com
moedas de ouro que os lojistas
testavam pelo puro prazer de ouvi-las
cantar no mármore do balcão.
Florentino Ariza a espiava maravilhado, a perseguia sem tomar fôlego,
tropeçou várias vezes nos
cestos da criada que respondeu às suas desculpas
com um sorriso, e ela havia
passado tão perto que ele sentira a
brisa do seu cheiro, e se nem então
o viu não foi porque não pudesse e sim pela altivez do seu modo de andar.
Ela lhe parecia tão bela, tão
sedutora, tão diferente da gente comum, que não compreendia que ninguém se transtornasse como ele com as castanholas dos seus saltos nas pedras do calçamento,
ou tivesse
o coração descompassado com os ares e suspiros de suas mangas, ou não ficasse louco de amor o
mundo inteiro com os ventos de sua trança,
o vôo de suas mãos, o ouro do seu riso. Não
perdera um gesto seu, nem um indício do seu caráter, mas não
se atrevia a se aproximar dela pelo medo de desfazer
o encanto. Contudo, quando ela se meteu na
balbúrdia do Portal dos Escrivães, ele descobriu que se arriscava a perder a ocasião que aguardara durante anos.
Fermina Daza compartilhava com suas companheiras de colégio
a idéia estranha de que o Portal dos Escrivães era um lugar de perdição, vedado, é claro, às senhoritas
decentes. Era uma galeria de arcadas
diante de um largo
onde paravam os carros de aluguel e as carretas
de carga puxadas por burros, e onde se tornava mais denso e ruidoso o comércio
popular. O nome lhe vinha dos tempos da Colônia, porque ali se sentavam desde então os calígrafos
taciturnos, de paletós de lã e meias mangas postiças, que
escreviam por profissão toda classe de documentos a preços de pobre:
requerimentos de agravo ou de súplica, arrazoados jurídicos, cartões de cumprimentos ou de luto, missivas de
amor em qualquer das suas idades.
Não era dos escrivães, diga-se logo,
que vinha a má reputação daquele
mercado fragoroso, e sim de bufarinheiros mais atuais, que ofereciam
por baixo do balcão os muitos artifícios equívocos que chegavam de contrabando
nos navios da Europa, dos postais obscenos às pomadas tônicas e até aos
célebres preservativos catalães com cristas de
iguanas que pulsavam quando era o caso, ou com flores na extremidade para que
soltassem pétalas de acordo com
a vontade do usuário. Fermina Daza, pouco perita no uso da rua, meteu-se
no portal sem muito ver por
onde andava, buscando uma sombra que
aliviasse o sol bravo das onze.
Afundou na algaravia quente dos engraxates e dos
vendedores de pássaros, dos livreiros
de segunda mão e dos curandeiros e das doceiras que anunciavam aos berros por cima da bulha as cocadas de pinhas para
as mocinhas, de cocos para os loucos,
de panela para Micaela. Mas ela ficou indiferente ao estrondo, cativada de pronto por um papeleiro que fazia demonstrações de tintas mágicas de escrever,
tintas vermelhas com a sugestão do
sangue, tintas de reflexos tristes para recados fúnebres, tintas
fosforescentes para se ler no escuro,
tintas invisíveis que o pleno resplendor da luz revelava. Ela as
queria todas para brincar com
Florentino Ariza, para impressioná-lo
com seu engenho, mas ao fim de várias experiências decidiu-se por um vidrinho de tinta de ouro. Foi
depois às doceiras sentadas por trás de suas grandes redomas, e comprou seis doces de cada espécie,
apontando-os com o dedo pelo cristal
porque não conseguia fazer-se ouvir na gritaria: seis de fios d'ovos, seis de leite, seis
tijolinhos de gergelim, seis de iúca e amêndoa,
seis de chocolate envolto em papel de
sorte, seis piononos de biscoito, seis bons-bocados de goiaba,
seis disto e seis daquilo, seis de tudo e os ia amontoando nos cestos da criada com uma graça irresistível, alheia por
completo às grossas nuvens de moscas em
cima do melado, alheia à algazarra contínua, alheia ao bafo de suores azedos suspensos no calor mortal. Despertou-a do feitiço
uma preta feliz, com um pano colorido na cabeça, redonda e formosa, que lhe ofereceu um
triângulo de abacaxi fisgado
na ponta de uma faca de açougueiro.
Ela o pegou, meteu-o inteiro na boca,
saboreando-o, e continuou a saboreá-lo, a vista errando pela multidão, quando uma comoção a pregou no lugar em que estava. Às suas costas, tão
perto de sua orelha que só ela pôde escutá-la no tumulto, tinha ouvido a voz:
—
Este não é um bom lugar para uma deusa coroada.
Voltou a cabeça e viu
a dois palmos de seus
olhos os outros olhos glaciais, o rosto lívido, os lábios petrificados de medo, tal como os vira no tumulto da
missa do galo pela primeira vez em que
ele estivera tão perto dela, mas ao
contrário daquela vez não sentiu agora
a comoção do amor e sim o abismo do desencanto. Num instante teve a revelação completa da magnitude do próprio engano, e
perguntou a si mesma, aterrada, como
tinha podido incubar durante tanto
tempo e com tanta ferocidade semelhante quimera
no coração. Mal conseguiu pensar:
"Deus meu, pobre homem!" Florentino Ariza sorriu,
procurou dizer alguma coisa, procurou acompanhá-la, mas ela o apagou de sua vida com um gesto da mão.
—
Não, por favor — disse. — Esqueça.
Naquela tarde, enquanto o pai dormia a sesta, mandou-lhe
por Gala Placídia uma carta de duas linhas: Hoje, ao vê-lo, descobri que só nos unia
uma ilusão. A criada levou também os telegramas dele, os versos, as camélias secas, e lhe pediu
que devolvesse as cartas e os presentes que ela lhe havia mandado: o missal
de tia Escolástica, as rendas
de
folhas secas
do
seu herbário, o centímetro
quadrado do
hábito de
São Pedro Claver, as medalhas de santos, a trança dos seus quinze anos com o laço de seda do
uniforme escolar. Nos dias seguintes, à beira da loucura, ele lhe escreveu
numerosas cartas de desespero,
e assediou a criada para que as levasse, mas esta cumpriu as instruções terminantes de não receber nada além dos presentes devolvidos. Insistiu com tanto afinco que Florentino
Ariza os mandou todos, salvo a trança, que não queria devolver enquanto Fermina
Daza não o recebesse em pessoa para conversar ainda que fosse um instante.
Não conseguiu. Temendo alguma determinação fatal do filho,
Trânsito Ariza desceu do seu orgulho
e pediu a Fermina Daza que lhe concedesse
a ela uma graça de cinco minutos, e Fermina Daza a atendeu um instante no saguão de sua casa,
de pé, sem convidá-la a entrar e sem
um pingo de fraqueza. Dois dias
depois, ao término de uma discussão com a mãe, Florentino Ariza
desprendeu da parede do seu quarto o empoeirado nicho de cristal
onde mantinha exposta a trança feito uma relíquia sagrada, e a própria Trânsito Ariza a devolveu no estojo de
veludo bordado com fios de ouro.
Florentino Ariza nunca mais teve a oportunidade
de
ver a sós Fermina Daza, nem de falar a sós com ela
nos tantos encontros de suas mui longas
vidas, até cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias mais tarde, quando lhe reiterou o
juramento de fidelidade eterna e amor para
todo o sempre em sua primeira noite de viúva.
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