quarta-feira, 28 de outubro de 2015

cap3

O DOUTOR JUVENAL URBINO tinha sido aos vinte e oito anos o mais cobiçado dos solteiros. Voltava de uma longa estada em Paris, onde fez estudos superiores de medicina e cirurgia, e logo que pisou terra firme deu mostras definitivas de que não perdera um minuto de seu tempo. Voltou muito mais atilado e senhor de  sua  índole, e se nenhum dos seus companheiros de geração parecia tão severo e tão  sábio quanto ele em sua ciência, também nenhum havia, por outro lado, que dançasse melhor a música da moda ou improvisasse melhor ao  piano. Seduzidas  por suas graças pessoais e pela certeza de sua fortuna familiar, as moças do  seu meio faziam rifas secretas no jogo de ver quem o prenderia, e ele também fazia suas apostas em relação às moças, mas conseguiu manter-se em estado de graça, intacto  e tentador, até que sucumbiu sem resistência aos encantos plebeus  de  Fermina Daza.
Gostava de dizer que aquele amor tinha sido fruto de um equívoco clínico. Ele mesmo custava a crer que tivesse acontecido, menos ainda naquele momento de sua vida, quando todas as suas reservas passionais se concentravam na sorte de sua cidade, da qual dissera com demasiada freqüência e sem pensar duas vezes que não havia outra igual no mundo. Em Paris, passeando de braço dado com uma noiva casual num outono tardio, quase não conseguia conceber felicidade mais pura que a daquelas tardes douradas, com cheiro rústico das castanhas nos braseiros, os acordeões sentimentais, os namorados insaciáveis que não acabavam de se beijar nunca na calçada dos cafés, mas mesmo assim dizia a si mesmo com a mão no coração que não se dispunha a trocar por tudo aquilo um único instante do seu Caribe em abril. Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a esse artifício conseguimos suportar o passado. Mas quando voltou a ver do convés do navio o promontório branco do bairro colonial, os urubus imóveis nos telhados, a roupa dos pobres estendida a secar nas sacadas, compreendeu até que ponto tinha sido uma vítima fácil das burlas caritativas da saudade.
O navio abriu passagem na baía através de uma colcha flutuante de animais afogados, e em sua maioria os passageiros se abrigaram nos camarotes fugindo à pestilência. O jovem médico desceu a ponte do navio vestido de alpaca perfeita, guarda-pó sobre o terno, com uma barba de Pasteur juvenil e o cabelo repartido em risca nítida e pálida, e com bastante domínio de si para dissimular o nó   na garganta que não era de tristeza e sim de terror. No molhe quase deserto, guardado por soldados descalços e sem farda, esperavam-no as irmãs e a mãe com os amigos mais queridos. Achou todos macilentos e sem futuro, apesar dos ares mundanos, e falavam da crise e da guerra civil como algo remoto e alheio, mas todos tinham um tremor evasivo na voz e uma incerteza nas pupilas que desmentiam as palavras. Quem mais o comoveu foi a mãe, uma mulher ainda moça que se havia imposto na vida com sua elegância e seu ímpeto social, e que agora murchava a fogo lento na aura de cânfora dos seus crepes de viúva. Ela sem dúvida se reconheceu no constrangimento do filho, tomando a dianteira de lhe perguntar em defesa própria por que vinha ele com essa pele transparente como parafina.
   É a vida, mãe — disse ele. — Fica-se verde em Paris.
Pouco depois, derretendo-se de calor junto a ela na carruagem fechada, não agüentou mais a inclemência da realidade que se metia aos borbotões pelo postigo.  O mar parecia de cinza, os antigos palácios de marqueses estavam a ponto de sucumbir à proliferação dos mendigos, e era impossível encontrar a fragrância ardente dos jasmins por trás das emanações mortais dos esgotos abertos. Tudo lhe pareceu mais mesquinho do que quando partira, mais indigente e lúgubre, e havia tantas ratazanas famintas na lixeira das ruas que os cavalos do carro tropeçavam assustados. Do longo caminho do porto até sua casa, no coração do bairro dos Vice- Reis, não viu nada que lhe parecesse digno de suas saudades. Derrotado, virou a cabeça para que a mãe não o visse, e se pôs a chorar em silêncio.
O antigo palácio do Marquês de  Casalduero, residência histórica dos Urbino de Ia Calle, não era o que se mantinha mais altivo no meio do naufrágio. O doutor Juvenal Urbino fez essa descoberta com o coração em pedaços logo que entrou no saguão tenebroso e viu o repuxo poeirento do jardim interior, e os canteiros sem flores por onde andavam lagartos, e reparou que faltavam muitas lajes de mármore,  e que outras estavam partidas, na vasta escada de balaústres  de  cobre  que  levava aos aposentos principais. Seu pai, um médico mais abnegado do  que  eminente, tinha morrido na epidemia de cólera asiático que assolou a população seis anos antes, e com ele morrera o espírito da casa. Dona Blanca, a mãe, sufocada por um luto previsto para ser eterno, substituíra por novenas vespertinas os célebres saraus líricos e os concertos de câmara do marido morto. As duas irmãs, contra suas graças naturais e sua vocação festiva, eram carne de convento.
O doutor Juvenal Urbino não dormiu nem um instante da noite da chegada, assustado pela escuridão e o silêncio, e rezou três terços ao Espírito Santo e quantas orações ainda sabia para conjurar calamidades e naufrágios c toda  classe  de ameaças da noite, enquanto uma saracura que se enfiou pela porta mal fechada cantava a cada hora, na hora em ponto, dentro do quarto. Foi atormentado pelos gritos alucinados das loucas no vizinho manicômio da Divina Pastora, a gota inclemente da talha na bacia com uma ressonância que enchia o âmbito da casa, os passos  da  saracura perdida  no  quarto, seu  medo  congênito  do  escuro, a presença invisível do pai morto na vasta mansão adormecida. Quando a saracura cantou as cinco, junto com os gaios da vizinhança, o doutor Juvenal Urbino se encomendou    de corpo e alma à Divina Providência, porque não se sentia com ânimo para viver  um dia mais em sua pátria de escombros. Contudo, o afeto dos seus, os domingos campestres, os agrados cobiçosos das  solteiras de  sua classe acabaram por mitigar  as amarguras de primeira impressão. Foi pouco a pouco se habituando aos bochornos de outubro, aos odores excessivos, aos juízos prematuros dos amigos, ao amanhã veremos, doutor, não se preocupe, e terminou por se render aos sortilégios do hábito. Não tardou a conceber uma explicação fácil para sua entrega. Aquele era seu mundo, disse a si mesmo, o mundo triste e opressivo que Deus lhe destinara, e   a ele se devia.
A primeira coisa que fez foi tomar posse do consultório do pai. Conservou no lugar os móveis ingleses, duros e sérios, cujas madeiras suspiravam com os gelos do amanhecer, mas despachou para o sótão os tratados da ciência vice-reinal e da medicina romântica, e colocou nas estantes cobertas de vidro os da nova escola da França. Tirou da parede os cromos desbotados, com exceção daquele em que se vê o médico disputando à morte uma doente nua, e o juramento hipocrático impresso  em letras góticas, e pendurou em seus lugares, ao lado do diploma único do pai, os muitos e muitos variados que obtivera com qualificações ótimas em diferentes escolas da Europa.
Tratou de impor critérios atualizados no Hospital da Misericórdia, mas  não  achou a tarefa tão fácil como imaginara em seus entusiasmos juvenis, pois a bolorenta casa de saúde se agarrava às superstições atávicas, como a de colocar os pés das camas em potes com água para impedir que as doenças subissem, ou a de exigir traje de etiqueta e luvas de camurça na sala de cirurgia, visto que se dava por axiomático que a elegância era condição essencial da assepsia. Não podiam suportar que o jovem recém-chegado provasse a urina do  doente para descobrir a presença   de açúcar, que citasse Charcot e Trousseau como se fossem seus companheiros de quarto, que fazia na aula severas advertências sobre os riscos mortais das vacinas e por outro lado nutria uma suspeita no novo invento dos supositórios. Esbarrava em tudo: seu espírito renovador, seu civismo maníaco, seu humor sutil numa terra de famosos chalaceiros, todas as suas virtudes mais apreciáveis suscitavam o receio dos colegas mais velhos e as troças que pelas costas lhe faziam os  jovens.
Sua obsessão era o perigoso estado sanitário da cidade. Fez apelos às instâncias superiores para que desativassem as cloacas espanholas, que eram um imenso viveiro de ratos, e construíssem em seu lugar esgotos fechados cujos despejos não desembocassem na enseada do mercado, como sempre ocorrera, e sim em algum desaguadouro distante. As casas coloniais bem equipadas tinham latrinas com  fossas sépticas, mas dois terços da população amontoada em barracas à margem dos charcos faziam suas necessidades ao ar livre. As fezes secavam ao sol, viravam poeira, e eram respiradas por iodos com regozijos natalinos nas frescas e venturosas brisas  de  dezembro. O  doutor Juvenal  Urbino  criou  na Municipalidade  um curso obrigatório para ensinar os pobres a construírem suas próprias latrinas. Lutou em vão para que o lixo não fosse atirado aos manguezais, convertidos séculos em tanques de putrefação, e para que fosse recolhido pelo menos duas vezes por dia e incinerado em algum lugar despovoado.
Tinha consciência da ameaça mortal que era a água de beber. A mera idéia de construir um aqueduto parecia fantástica, pois os que teriam podido impulsioná-la dispunham de cisternas subterrâneas onde se armazenavam debaixo de uma espessa nata de limo as águas chovidas durante anos. Entre os móveis mais apreciados da época estavam as talhas de madeira lavrada cujos filtros de pedra gotejavam dia e noite para dentro de bacias. Para impedir que alguém bebesse do próprio jarro de alumínio com que se apanhava a água, este tinha as bordas denteadas feito a coroa de um rei de brincadeira. A água era vítrea e fresca na penumbra da argila cozida, e deixava na boca um sabor de floresta. Mas o doutor Juvenal Urbino não caía nesses embustes de purificação, pois sabia que apesar de tantas precauções o fundo das talhas era um refúgio de vermes. Havia passado as vagarosas horas da infância a contemplá-los com um assombro quase místico, convencido como tanta gente naquele tempo de que esses vermes eram alminhas, criaturas sobrenaturais que cortejavam donzelas nos sedimentos das águas pasmadas, e eram capazes de furiosas vinganças de amor. Tinha visto quando menino os escombros da casa de Lázara Conde, uma professora que se atreveu a fazer pouco dessas alminhas, e tinha visto a esteira de vidro partido na rua e o montão de pedras  que atiraram durante três dias e três noites contra suas janelas.  De maneira que passou muito tempo até aprender que os vermes eram na realidade as larvas dos pernilongos, mas aprendeu para nunca mais esquecer, porque desde então compreendeu que não eles como muitas outras alminhas danadas podiam passar intactos através dos nossos ingênuos filtros de  pedra.
À água das cisternas se atribuiu durante muito tempo, e com muita honra, a hérnia rio escroto que tantos homens da cidade suportavam não  só  sem  pudor como inclusive com certa insolência patriótica. Quando Juvenal Urbino ia à escola primária não conseguia reprimir um arrepio de horror ao ver os potrosos sentados à porta de suas casas nas tardes de calor, abanando o testículo enorme como se tivessem uma criança adormecida entre as pernas. Dizia-se que a hérnia emitia um pio de pássaro lúgubre nas noites de tempestade e se retorcia com uma dor insuportável se queimavam por perto uma pena de urubu, mas ninguém  se queixava de tais percalços porque uma hérnia grande e bem tratada se ostentava antes de mais nada como um apanágio de homem. Quando o doutor Juvenal Urbino voltou da Europa já conhecia muito bem a falácia científica de tais crendices, mas estavam tão arraigadas na superstição local que muitos se opunham ao enriquecimento mineral da água das cisternas por temerem tirar dela a virtude de causar uma hérnia nobilitante.
Tanto quanto com as impurezas da água, alarmava-se o doutor Juvenal Urbino com o estado higiênico do mercado público, um vasto descampado fronteiro à baía das Animas, onde atracavam os veleiros das Antilhas. Um viajante ilustre da época o descreveu como um dos mais variados do mundo. Era rico, sem dúvida, profuso e ruidoso, mas era também talvez o mais assustador. Assentava-se em sua própria cloaca, à mercê das veleidades da maré, e era ali que os arrotos da baía devolviam à terra as imundícies dos esgotos. Também se atiravam ali os restos do matadouro contíguo, cabeças decepadas, vísceras podres, e estéreo de animais, que ficavam boiando ao sol e ao sereno num pântano de sangue. Os urubus os disputavam com  os ratos e os cachorros numa contenda perpétua, entre os veados e os capões saborosos que vinham de Sotavento e se dependuravam nos barrotes dos barracões,  e os legumes primaveris de Arjona expostos em cima de esteiras, no  chão.
O doutor Juvenal Urbino queria sanear o lugar, queria que pusessem o matadouro em outra parte, que construíssem um mercado coberto com cúpulas de vidraças como o que conhecera nas antigas feiras de Barcelona, onde as provisões eram tão vistosas e limpas que dava para comê-las. Mas mesmo os mais compreensivos dos seus amigos notáveis se compadeciam de sua paixão ilusória. Eram assim: passavam a vida proclamando o orgulho de sua origem, os méritos históricos da cidade, o valor de suas relíquias, seu heroísmo e sua beleza, mas eram cegos ao caruncho dos anos. Enquanto que o doutor Juvenal Urbino lhe tinha amor bastante para vê-la com os olhos da verdade.
   Muito nobre será esta cidade — dizia — se há quatrocentos anos procuramos acabar com ela e ainda não conseguimos.
Estavam quase, no entanto. A epidemia de cólera morbo, cujas primeiras vítimas tombaram fulminadas nos charcos do mercado, causara em onze semanas a maior mortandade da nossa história. Até então, alguns mortos insignes eram sepultados debaixo das lajes das igrejas, na vizinhança esquiva dos  arcebispos  e  dignitários, e os menos ricos eram enterrados nos pátios dos conventos. Os pobres iam para o cemitério colonial, numa colina ventosa separada da cidade por um canal de águas áridas, cuja ponte de argamassa tinha uma marquise com um letreiro esculpido por ordem de algum prefeito clarividente: Lasciate ogni speranza voi ch 'entrate. Nas duas primeiras semanas do cólera o cemitério transbordou, e não ficou um único lugar nas igrejas, apesar de haverem passado ao ossuário comum os restos carcomidos de numerosos próceres sem nome. O ar da catedral ficou rarefeito com os vapores das criptas mal lacradas, e suas portas vieram a se abrir três anos depois, por volta da época em que Fermina Daza viu Florentino Ariza de perto pela primeira vez na missa do galo. Na terceira semana o claustro do convento de Santa Clara ficou à cunha até nas alamedas, e foi preciso habilitar como cemitério o horto da comunidade, que era duas vezes maior. Ali escavaram sepulturas profundas para enterrar em três níveis, às pressas e sem caixões, mas foi preciso desistir delas porque o solo revolvido ficou feito uma esponja que ressumava debaixo dos  pés  uma sangueira nauseabunda. Determinou-se então prosseguir com  os enterramentos em A Mão de Deus, uma fazenda de gado de corte a menos de uma légua da cidade, que mais tarde foi consagrada como Cemitério Universal.

A partir do momento em que se afixou o édito do cólera, no quartel da guarnição local começou o disparo de um tiro de canhão a cada quarto de hora, de dia e de noite, de acordo com a superstição cívica de que a pólvora purificava o ambiente. O cólera se encarniçou muito mais contra a população negra, por ser a mais numerosa e pobre, mas na realidade não teve contemplação com cores nem linhagens. Parou  de chofre como havia começado, e nunca se soube o número de suas vítimas, não porque fosse impossível estabelecê-lo, e sim porque uma de nossas virtudes corriqueiras era o pudor das próprias desgraças. O doutor Marco Aurélio Urbino, pai de Juvenal, foi um herói civil daqueles dias infaustos, e também sua vítima mais notável. Por determinação oficial concebeu e dirigiu em pessoa a  estratégia  sanitária, mas de sua própria iniciativa acabou por intervir em todos os assuntos da ordem social, a ponto de que nos instantes mais críticos da peste não parecia existir nenhuma autoridade mais alta do que a sua. Anos depois, revendo a crônica daqueles dias, o doutor Juvenal Urbino comprovou que o método do pai tinha sido mais caritativo do que científico, e que de muitas maneiras era contrário à razão, favorecendo assim em grande parte a voracidade da peste. Fez essa constatação com a com paixão dos filhos que a vida foi convertendo pouco a pouco em pais dos próprios pais, e pela primeira vez doeu-lhe não ter estado ao lado do seu na solidão dos erros que cometeu. Mas não lhe regateou os méritos: a diligência e a abnegação, e sobretudo sua valentia pessoal, tornaram-no digno das muitas homenagens que lhe prestaram quando a cidade se restabeleceu do desastre, e seu nome se inseriu com justiça entre os de tantos outros próceres de outras guerras menos recomendáveis.
Não desfrutou sua glória. Quando reconheceu em si mesmo os transtornos irreparáveis que tinha visto e lamentado nos outros, sequer tentou travar uma batalha inútil,
limitando-se a se afastar do mundo para não contaminar ninguém. Fechado sozinho num quarto de serviço do Hospital da Misericórdia, surdo ao chamado dos colegas e à súplica dos seus, alheio ao horror dos pestíferos que agonizavam no assoalho dos corredores apinhados, escreveu à esposa e aos filhos uma carta de amor febril, de gratidão por haver existido, na qual revelava quanto e com quanta avidez amara a vida. Foi um adeus de vinte folhas desatinadas nas quais se notavam os progressos do mal pelo declínio da escrita, e não era preciso ter conhecido quem escrevera aquilo para saber que a assinatura foi colocada ali com o último suspiro.  De acordo com suas disposições, o corpo cinzento se confundiu no cemitério  comum, e não foi visto por ninguém entre os que o haviam amado.
O doutor Juvenal Urbino recebeu o telegrama três dias depois em Paris, durante um jantar de amigos, e fez um brinde com champanha à  memória do  pai. Disse: "Era um homem bom." Mais tarde haveria de criticar a si mesmo por sua falta de maturidade: negaceava com a realidade para não chorar. Mas três semanas depois recebeu uma cópia da carta póstuma, e então se rendeu à verdade. De um golpe revelou-se a ele a imagem do homem que conhecera antes de qualquer outro, que havia criado e instruído e havia dormido e fornicado trinta e dois anos  com  sua  mãe, e que no entanto, antes da última carta, nunca se mostrara tal como era de corpo e alma, por timidez rira e simples. Até então o doutor Juvenal Urbino e sua família tinham concebido a morte como um percalço que acontecia aos outros, aos pais dos outros, aos irmãos e cônjuges alheios e nunca aos próprios. Eram pessoas  de vidas lentas, às quais ninguém via envelhecer, nem adoecer e morrer, que se desvaneciam aos poucos no seu tempo, transformando-se em lembranças, brumas  de outra época, até serem assimiladas pelo esquecimento. No entanto, uma de suas lembranças mais antigas, talvez dos nove anos, dos onze anos talvez, era de certo modo um sinal prematuro da morte através do seu pai. Tinham ficado os dois no escritório da casa uma tarde chuvosa, ele desenhando calhandras e  girassóis  com  giz de cor nos ladrilhos do chão, e o pai lendo contra a luz da janela, colete desabotoado e braçadeiras de elástico nas mangas da camisa. De repente interrompeu a leitura para cocar as costas com um coçador de cabo comprido e mãozinha de prata na ponta. Como não conseguiu, pediu ao filho que o cocasse com as unhas, o que ele fez com a sensação curiosa de não sentir o próprio corpo sendo cocado. Quando parou o pai o olhou por cima do ombro com um sorriso  triste.
    Se eu caísse morto agora — disse — você mal se lembraria de mim quando tivesse minha idade.
Disse isto sem qualquer motivo visível, e o anjo da morte flutuou um instante na penumbra fresca do escritório, e tornou a sair pela janela deixando ao passar um rastro de penas, mas o menino não as viu. Mais de vinte anos haviam passado desde então, e Juvenal Urbino ia ter em breve a idade que tinha o pai aquela tarde. Sabia- se idêntico a ele, e à consciência disso se somava agora a consciência surpreendente de ser tão mortal quanto ele.
O cólera se transformou em obsessão. Não sabia a respeito mais do que aprendera na rotina de algum curso marginal, e lhe parecera inverossímil que apenas trinta anos tivesse causado na França, inclusive em Paris, mais de cento e quarenta mil mortes. Mas depois da morte do pai aprendeu tudo que se podia aprender sobre as diversas formas do cólera, quase como uma penitência para dar descanso à sua memória, e foi aluno do epidemiólogo mais destacado do seu tempo  e criador dos cordões sanitários, o professor Adrien Proust, pai do grande romancista. De modo que quando voltou à sua terra e sentiu vinda do mar a pestilência do mercado, e viu os ratos nos esgotos expostos e os meninos se revolvendo nus nas poças das ruas, não compreendeu que a desgraça tivesse acontecido como teve a certeza de que se repetiria a qualquer  momento.
Não passou muito tempo. Antes de um ano, seus alunos do Hospital da Misericórdia lhe pediram que os ajudasse com um enfermo indigente que apresentava uma estranha coloração azul em todo o corpo. Bastou ao  doutor  Juvenal Urbino vê-lo da porta para reconhecer o inimigo. Mas a sorte ajudou: o doente tinha chegado três dias antes numa goleta de Curaçau e    tinha ido à consulta

externa do hospital por seus próprios meios, não parecendo provável que houvesse contaminado ninguém. Por via das dúvidas, o doutor Juvenal Urbino preveniu os colegas, conseguiu que as autoridades transmitissem o alarma aos portos vizinhos com o fim de localizar e pôr em quarentena a goleta empestada, e teve que moderar  o chefe militar da praça, que queria decretar a lei marcial a aplicar de pronto a terapêutica do tiro de canhão a cada quarto de hora.
    Economize a pólvora para quando venham os liberais — lhe disse com bom humor. Não estamos mais na Idade Média.
O doente morreu quatro dias depois, sufocado por um vômito branco e  granuloso, mas nas semanas seguintes não se descobriu nenhum outro caso, apesar do alerta constante. Pouco depois, o Diário do Comércio publicou a notícia de que duas crianças tinham morrido de cólera em diferentes lugares da cidade. Comprovou-se que uma delas tinha disenteria comum, mas a outra, uma menina de cinco anos, parecia ter sido, com efeito, vítima do cólera. Seus pais e três irmãos foram separados e postos de quarentena individual, e todo o bairro foi submetido a uma vigilância médica estrita. Uma das crianças contraiu o cólera e se recuperou muito depressa, e toda a família voltou para casa quando passou o  perigo. Onze casos mais se registraram no curso de três meses, e no quinto houve um recrudescimento alarmante, mas no final do ano considerou-se que  os  riscos  de uma epidemia tinham sido conjurados. Ninguém pôs em dúvida que o rigor  sanitário do doutor Juvenal Urbino, mais do que a eficiência de sua pregação, tinha tornado possível o prodígio. Desde então, e quando já avançara muito este século, o cólera ficou endêmico não na cidade como em quase todo o litoral do Caribe e a bacia do Madalena, sem tornar a recrudescer como epidemia. O alarma serviu para que as advertências do doutor Juvenal Urbino fossem atendidas com  mais  seriedade pelo poder público. Foi imposta a cátedra obrigatória do cólera e da febre amarela, e reconheceu-se a urgência de cobrir os esgotos e construir um mercado distante do despejo do lixo. Contudo, o doutor Urbino não se preocupou na ocasião em proclamar vitória nem se sentiu com ânimo de perseverar em suas missões sociais, porque ele mesmo tinha então uma asa quebrada, aturdido e disperso, e decidido a mudar tudo e a esquecer tudo mais na vida frente ao relâmpago de amor de Fermina Daza.
Foi, em verdade, fruto de um equívoco clínico. Um médico amigo, que julgou vislumbrar os sintomas premonitórios do cólera numa paciente de dezoito anos, pediu ao doutor Juvenal Urbino que fosse visitá-la. Foi na mesma tarde, alarmado pela possibilidade de que a peste tivesse entrado no santuário da cidade  velha, já  que todos os casos até então tinham ocorrido nos bairros marginais, e quase todos entre a população negra. Encontrou outras surpresas menos ingratas. A casa, à sombra das amendoeiras do parque dos Evangelhos, vista de fora parecia tão arruinada como as outras do recinto colonial, mas dentro dela havia uma ordem de beleza e uma luz atônita que parecia de outra idade do mundo. O saguão dava direto num pátio sevilhano, quadrado e branco de cal recente, com laranjeiras floridas e piso empedrado com os mesmos azulejos das paredes. Havia um rumor invisível de água contínua, potes de cravos nas cornijas e gaiolas de pássaros raros nas arcadas. Os mais raros, numa gaiola muito grande, eram três corvos que ao sacudir as asas saturavam o pátio de um perfume equívoco. Vários cães acorrentados em algum  lugar da casa começaram logo a ladrar, enlouquecidos pelo cheiro do estranho, mas um grito de mulher os fez calar na hora, e numerosos gatos saltaram de todos os cantos e se esconderam entre as flores, assustados pela autoridade da voz. Então se fez um silêncio tão diáfano que através da desordem dos pássaros e das sílabas da água na pedra se percebia o alento desolado do mar.
Abalado pela certeza da presença física de Deus, o doutor Juvenal Urbino pensou que uma casa como aquela era imune à peste. Seguiu Gala Placídia pelo corredor de arcos, passou pela janela do quarto de costura onde Florentino Ariza viu pela primeira vez Fermina Daza, quando o pátio estava ainda em escombros, subiu pelas escadas de mármores novos até o segundo andar, e esperou ser anunciado antes de entrar no quarto da doente. Mas Gala Placídia tornou a sair com um recado:
— A senhorita disse que não pode entrar agora porque seu pai não está em casa. Por isso voltou às cinco da tarde, de acordo com a indicação da criada,  Lorenzo
Daza em pessoa lhe abriu o portão e o conduziu até o quarto da filha. Ficou   sentado
na penumbra dum canto do quarto, com os braços cruzados e fazendo esforços vãos para dominar a respiração penosa, enquanto durou o exame. Não era fácil saber quem estava mais constrangido, se o médico com seu tato pudico ou a enferma com seu recato de virgem dentro do camisolão de seda, mas nenhum olhou o outro nos olhos, enquanto ele fazia perguntas com voz impessoal e ela respondia com voz trêmula, ambos pendentes do homem sentado na penumbra. Por fim o doutor Juvenal Urbino pediu à doente que se sentasse, e lhe abriu a camisola até a cintura com mil cuidados: o peito intacto e altivo, de bicos infantis, resplandeceu um instante feito uma labareda nas sombras da alcova, antes que ela se apressasse a ocultá-lo com os braços cruzados. Imperturbável, o médico lhe afastou  os  braços sem olhá-la, e fez a auscultação direta com a orelha contra a pele, primeiro o peito e depois as costas.
O doutor Juvenal Urbino costumava contar que não experimentou nenhuma emoção quando conheceu a mulher com quem havia de viver até o dia da morte. Lembrava a camisola azul clara com bainha de renda, os olhos febris, o cabelo comprido, solto sobre os ombros, mas estava tão obnubilado pela irrupção da peste no quarteirão colonial que não reparou em nada do muito que tinha ela de adolescente em flor, concentrado no mais íntimo que pudesse ter de empestada. Ela foi mais explícita: o jovem médico de quem tanto ouvira falar a propósito do cólera lhe pareceu um pedante incapaz de amar qualquer pessoa além dele mesmo. O diagnóstico foi uma infecção intestinal de origem alimentar que cedeu com um tratamento caseiro de três dias. Aliviado com a constatação de que a filha não contraíra o cólera, Lorenzo Daza acompanhou o doutor Juvenal Urbino até o  estribo

do carro, pagou-lhe o peso ouro da visita que lhe pareceu excessivo mesmo para um médico de gente rica, mas dele se despediu com demonstrações exageradas de gratidão. Estava deslumbrado com o esplendor dos seus nomes de família, e não não o disfarçava como teria feito qualquer coisa que fosse para vê-lo outra vez, e em circunstâncias menos formais.
O caso devia dar-se por encerrado. Contudo, na terça-feira da semana seguinte, sem ser chamado e sem se anunciar de qualquer forma, o doutor Juvenal Urbino lá voltou à hora inoportuna de três da tarde. Fermina Daza estava no quarto  de costura, tendo uma lição de pintura a óleo junto com duas amigas, quando ele apareceu à janela de sobrecasaca branca, imaculada, e o chapéu também branco, de copa alta, e lhe fez sinal para que se aproximasse. Ela pôs o bastidor na cadeira e se dirigiu à janela caminhando na ponta dos pés com a cauda do vestido levantada até os tornozelos para que não arrastasse. Usava um diadema com uma pequena jóia pendente da testa, de luminosa pedra da mesma cor fugidia dos seus olhos, e ela  toda exalava uma aura de frescor. Chamou a atenção do médico que ela se vestisse para pintar em casa como se fosse a uma festa. Tomou-lhe o pulso do lado de fora   da janela, fez com que mostrasse a língua, examinou-lhe a garganta com uma espátula de alumínio, olhou por dentro a parte inferior da pálpebra, fazendo de cada vez um gesto de aprovação. Estava menos constrangido do que na visita anterior, mas ela mais, por não entender a razão daquele exame imprevisto, quando ele próprio tinha dito que não voltaria a menos que o chamassem devido a alguma novidade. E havia outra coisa: não queria tornar a vê-lo nunca mais. Quando terminou o exame, o médico guardou a espátula na maleta atulhada de instrumentos e vidros de remédio, e fechou-a com um golpe seco.
   Está como uma rosa recém-nascida — disse ele.
   Obrigada.
   Agradeça a Deus — disse ele, e citou São Tomás mal: — Lembre que tudo que    é bom, venha de onde vier, provém do Espírito Santo. Gosta de música?
Fez a pergunta com um sorriso encantador, de um modo natural, mas ela não retribuiu.
   Qual o motivo da pergunta? — perguntou por sua vez.
   A música é importante para a saúde — disse ele.
Acreditava mesmo, e ela ia ver muito em breve e pelo resto da vida que o tema   da música era quase uma fórmula mágica que ele usava para propor uma amizade, mas naquele momento ela entendeu que era uma brincadeira. Além disso, as duas amigas que tinham fingido pintar enquanto eles conversavam na janela  deram  umas risadinhas abafadas e taparam a cara com os bastidores, o que acabou de desorientar Fermina Daza. Cega de fúria, bateu a janela com um golpe seco. O médico, perplexo diante das cortininhas de renda, virou-se e procurou o caminho do portão, mas se enganou de rumo, e na sua atrapalhação deu com a gaiola dos  corvos

perfumados. Estes lançaram uns pios vis, voejaram assustados, e a roupa do médico se impregnou de um cheiro de mulher. O trovão da voz de  Lorenzo Daza pregou-o  no lugar em que estava:
   Doutor: espere aí.
Avistara-o do andar de cima e descia as escadas abotoando a camisa, balofo e rubicundo, as suíças ainda revoltas devido a um sonho mau da sesta. O médico tentou dominar a situação.
   Acabo de dizer à sua filha que está feito uma rosa.
   E tem razão — disse Lorenzo Daza — mas com espinhos  demais.
Passou junto do doutor Urbino sem cumprimentá-lo. Empurrou as duas folhas  da janela do quarto de costura e gritou bronco para a  filha:
   Venha pedir desculpas ao doutor.
O médico quis intervir para impedi-lo, mas Lorenzo Daza não lhe deu atenção. Insistiu: "Depressa." Ela olhou as amigas com uma súplica recôndita de compreensão, e respondeu ao pai que não tinha de que se desculpar, pois tinha fechado a janela para impedir que continuasse entrando o sol. O doutor Urbino procurou justificar essas razões, mas Lorenzo Daza persistiu na ordem. Então Fermina Daza voltou à janela, pálida de raiva, e adiantando o direito enquanto levantava a cauda do vestido com a ponta dos dedos, fez ao médico uma reverência teatral.
   Apresento-lhe minhas mais humildes desculpas, cavalheiro —  disse.
O doutor Juvenal Urbino a imitou de bom humor, fazendo com o chapéu de copa alta uma mesura de mosqueteiro, mas não obteve o sorriso de piedade que  esperava. Lorenzo Daza o convidou então a tomar no escritório um café de desagravo, e ele aceitou grato, para que não houvesse nenhuma dúvida de que não lhe ficava na alma qualquer resquício de  ressentimento.
A verdade era que o doutor Juvenal Urbino não tomava café, a não  ser uma  xícara em jejum. Também não tomava álcool, salvo um copo de vinho com a comida em ocasiões solenes, mas não só tomou o café que lhe ofereceu Lorenzo Daza como aceitou além disso um cálice de aguardente de anis. Depois aceitou outro  café  e outro cálice, e depois outro e outro, apesar de ter ainda algumas visitas a fazer. A princípio escutou com atenção as desculpas que Lorenzo Daza continuava a dar em nome da filha, que definiu como menina inteligente e séria, digna de um príncipe daqui ou de qualquer parte, e cujo único defeito, segundo disse, era seu caráter de mula. Mas depois do  segundo cálice julgou ouvir a voz de  Fermina Daza no fundo  do pátio, e sua imaginação foi atrás dela, perseguiu-a pela noite recente da casa enquanto acendia as luzes do corredor, fumigava os quartos de dormir com a bomba de inseticida, destapava no fogão a panela da sopa que ia tomar essa noite com  o  pai, ele e ela sós à mesa, sem erguer a vista, sem sorver a sopa para não quebrar o encanto do rancor, até que ele acabasse por se render e pedir perdão pelo rigor que tivera à tarde.
O doutor Urbino conhecia bastante as mulheres para saber que Fermina Daza  não passaria pelo escritório enquanto ele não fosse embora, mas deixava-se ficar porque sentia que o orgulho ferido não lhe daria paz depois  das  afrontas  dessa tarde. Lorenzo Daza, já quase bêbado, não parecia notar sua falta de atenção, pois se bastava a si mesmo com sua loquacidade indomável. Falava à rédea solta, mastigando a ponta do charuto apagado, tossindo aos gritos, escarrando, acomodando-se a duras penas na poltrona giratória cujas molas soltavam gemidos  de animal no cio. Tinha bebido três cálices para cada um do convidado, e fez uma pausa ao perceber que já não se viam um ao outro e se levantou para acender a lâmpada. O doutor Juvenal Urbino o olhou de frente com a nova luz, viu que tinha um olho torto feito olho de peixe e que suas palavras não correspondiam ao movimento dos lábios, e achou que eram alucinações suas por abusar do álcool. Então se levantou com a sensação fascinante de que estava dentro de um corpo que não era o seu e sim o de alguém que continuava sentado no assento onde ele estava,  e teve que fazer um grande esforço para não perder a razão.
Passava das sete quando saiu do escritório precedido de Lorenzo Daza. Havia lua cheia. O pátio transfigurado pelo anis flutuava no fundo de um aquário, e as gaiolas cobertas com panos pareciam fantasmas adormecidos debaixo do odor quente de flores desabrochadas. A janela da sala de costura estava aberta, e havia uma candeia acesa na mesa de trabalho, e os quadros por terminar estavam nos cavaletes como numa exposição. "Onde está você que não está", disse o doutor Urbino ao passar, mas Fermina Daza não o ouviu, não podia ouvi-lo, porque chorava de raiva no quarto, largada de borco na cama e esperando o pai para lhe cobrar a humilhação da tarde. O médico não renunciava à ilusão de se despedir dela, mas Lorenzo Daza não mencionou tal coisa. Relembrou com saudade a marcha inocente do seu pulso, sua língua de gata, suas amígdalas suaves, mas desanimou-o a idéia de que ela não queria vê-lo nunca mais nem permitiria que ele o tentasse. Quando Lorenzo Daza entrou no saguão, os corvos acordados debaixo dos lençóis emitiram pios fúnebres. "Arrancarão teus olhos", disse o médico em voz alta, pensando nela, e Lorenzo Daza se voltou para perguntar o que é que ele tinha  dito.
   Não fui eu ele disse. — Foi o anis.
Lorenzo Daza acompanhou-o até o carro se esforçando para  fazê-lo  receber o peso ouro da segunda visita, mas ele não aceitou. Deu instruções corretas ao cocheiro para que o levasse até a casa de dois dos doentes  que  lhe faltava ver, e subiu ao carro sem ajuda. Mas começou a se sentir mal com os solavancos nas ruas empedradas, por isso mandou o cocheiro mudar de rumo. Olhou-se por um instante no espelho do carro e viu que também sua imagem continuava pensando em Fermina Daza. Deu de ombros. Afinal soltou um arroto, inclinou a cabeça contra o peito e adormeceu, e no sono começou a ouvir os sinos do luto. Ouviu primeiro os   da  catedral, e  depois  os  de  todas  as  igrejas, uma após  outra, até  o  som  de metal

rachado de São Julião o Hospitaleiro.
   Merda — murmurou dormindo — morreram os mortos.
Sua mãe e suas irmãs estavam jantando café com leite e bolinhos na mesa de festa da sala de jantar principal, quando o viram assomar à porta com o rosto desfeito e todo ele desmoralizado pelo perfume de  putas dos corvos. O sino maior   da catedral contígua ressoava na imensa cisterna da casa. A mãe lhe perguntou alarmada onde se havia metido, pois o haviam procurado em toda parte para que atendesse ao general Ignacio Maria, último neto do Marquês de Jaraíz de Ia Vera, derrubado à tarde por uma congestão cerebral: era por ele que os sinos dobravam. O doutor Juvenal Urbino escutou a mãe sem ouvi-la, apoiado no umbral da porta, em seguida deu meia-volta, procurando chegar ao seu quarto, mas caiu de bruços numa explosão de vômitos de anis  estrelado.
      Maria Santíssima — gritou sua mãe. — Coisa muito estranha deve ter acontecido para que você se apresente em casa nesse estado.
O mais curioso, contudo, não tinha acontecido ainda. Aproveitando a visita do conhecido pianista Romeo Lussich, que tocou um ciclo de sonatas de Mozart logo que a cidade se refez do luto do general Ignacio Maria, o doutor Juvenal Urbino fez subir o piano da Escola de Música numa carreta de mulas, e levou até Fermina Daza uma serenata que marcou época. Ela acordou com os primeiros compassos e não  teve que assomar aos rendilhados do balcão para saber quem era o promotor  daquela homenagem insólita. Só lamentou não ter a coragem de outras donzelas geniosas que tinham esvaziado o urinol na cabeça do pretendente indesejável. Lorenzo Daza, em compensação, vestiu-se às carreiras no transcurso da serenata, e no fim fez entrar na sala de visitas o doutor Juvenal Urbino e o pianista, ainda enfarpelados no traje de rigor do concerto, e agradeceu-lhes a serenata  com  um copo de bom conhaque.
Fermina Daza percebeu em breve que o pai estava procurando amolecer seu coração. No dia seguinte da serenata tinha dito, de modo casual: "Imagine como se sentiria sua mãe se soubesse que você é requestada por um Urbino de Ia Calle." Ela replicou com secura: "Morreria de novo dentro do caixão." As amigas que pintavam com ela lhe contaram que Lorenzo Daza tinha sido convidado a almoçar  no Clube Social pelo doutor Juvenal Urbino, e que este tinha sido objeto de uma notificação severa por contrariar normas do regulamento. Só então ficou sabendo também que o pai tentara várias vezes tornar-se membro do Clube  Social, e  em todas tinha sido barrado com uma quantidade de bolas pretas que não  possibilitavam qualquer tentativa nova. Mas Lorenzo Daza absorvia humilhações com um fígado de bom bebedor, e continuou dando tratos à bola para se encontrar por acaso com Juvenal Urbino, sem perceber que era Juvenal Urbino quem fazia mais do que o possível para se deixar encontrar. Às vezes passavam horas conversando no escritório, enquanto a casa permanecia como que suspensa à margem do tempo, porque Fermina Daza não permitia que nada seguisse seu   curso na vida enquanto ele não fosse embora. O Café da Paróquia foi um bom porto intermediário. Ali Lorenzo Daza deu a Juvenal Urbino lições primárias de xadrez, e ele foi um aluno tão aplicado que o xadrez se converteu num vicio incurável que o perseguiu até o dia de sua morte.
Urna noite, pouco tempo depois da serenata de piano, Lorenzo Daza encontrou uma carta com o envelope lacrado no saguão da casa, dirigido à sua filha e com o monograma de J.U.C. impresso no lacre. Deslizou-a por baixo da poria ao passar diante do quarto de Fermina, e ela não entendeu como chegara até ali, pois lhe parecia inconcebível que o pai tivesse mudado ao ponto de lhe levar carta de um pretendente. Deixou-a em cima da mesa de cabeceira, sem saber de fato que fazer com ela, e ali permaneceu fechada durante vários dias, até uma tarde de chuva em que Fermina Daza sonhou que Juvenal Urbino tinha reaparecido para presenteá-la com a espátula com que lhe examinara a garganta. A espátula do sonho não era de alumínio e sim de um metal apetitoso que ela havia saboreado com deleite em  outros sonhos, de modo que quebrou em duas partes desiguais, dando a ele  a  menor.
Ao acordar abriu a carta. Era breve e pulcra, e a única coisa que Juvenal Urbino lhe suplicava era que lhe permitisse pedir ao pai permissão para visitá-la. Impressionaram-na sua simplicidade e sua seriedade, e a raiva cultivada com tanto amor durante tantos dias se apaziguou de pronto. Guardou  a carta num cofre fora  de uso no fundo do baú, mas lembrou que ali guardara as cartas perfumadas de Florentino Ariza, e tirou-a do cofre para trocá-la de lugar, abalada por um sopro de vergonha. Achou então que o mais decente era dá-la como não recebida, e queimou- a na candeia, vendo como as gotas de lacre arrebentavam em borbulhas azuis sobre   a chama. Suspirou: "Pobre homem." Reparou logo que era a segunda vez que dizia isso em pouco mais de um ano, e por um instante pensou em Florentino Ariza, e se surpreendeu ao ver como ele estava longe de sua vida: pobre homem.
Em outubro, com as últimas chuvas, chegaram três cartas mais, acompanhada a primeira de uma caixinha de pastilhas de violeta da Abadia de Flavigny.  Duas  tinham sido entregues no portão da casa pelo cocheiro do doutor Juvenal Urbino, e este cumprimentara Gala Placídia da janela do carro, primeiro para que não houvesse dúvida de que as cartas eram suas, e segundo para que ninguém pudesse lhe dizer que não tinham sido recebidas. Além disso, ambas estavam seladas com o sinete do monograma no lacre, e escritas com as garatujas crípticas que Fermina Daza já conhecia: letra de médico. Ambas diziam em substância o mesmo que a primeira, e estavam concebidas com o mesmo espírito de submissão, mas no fundo de sua decência começava a se vislumbrar uma ansiedade que nunca fora evidente nas cartas circunspectas de Florentino Ariza. Fermina Daza as leu logo que foram entregues, com duas semanas de intervalo, e sem explicá-lo a si mesma mudou de opinião quando estava a ponto de atirá-las ao fogo. Mas nem por isso pensou em respondê-las.

A terceira carta de outubro tinha sido introduzida por baixo do portão, e era em tudo diferente das anteriores. A escrita era tão pueril  que sem dúvida tinha sido  feita com a mão esquerda, mas Fermina Daza só se deu conta disso  quando  o próprio texto provou seu anonimato infame. Quem a escrevera dava como fato que Fermina Daza tinha encantado com seus filtros o doutor Juvenal Urbino, e dessa suposição tirava conclusões sinistras. Acabava com uma ameaça: se Fermina Daza não renunciasse à sua pretensão de se apropriar do homem mais cobiçado da  cidade, seria exposta à vergonha pública.
Sentiu-se vítima de uma injustiça grave, mas sua reação não foi vingativa e sim o oposto: teria gostado de descobrir o autor da carta anônima para provar-lhe o erro com quantas explicações fossem pertinentes, pois estava certa de que nunca, por motivo nenhum, seria sensível aos galanteios de Juvenal Urbino.  Nos  dias seguintes recebeu mais duas cartas sem assinatura, tão pérfidas quanto a primeira, mas nenhuma das três parecia escrita pela mesma pessoa. Ou bem era vítima de uma conjura, ou a falsa versão dos seus amores secretos tinha ido mais  longe  do que se poderia supor. Inquietava-se com a idéia de que tudo aquilo fosse conseqüência de uma simples indiscrição de Juvenal Urbino. Ocorreu-lhe que talvez fosse homem diferente da sua aparência digna, que talvez desse com a língua nos dentes durante suas visitas e fizesse alarde de conquistas imaginárias, como tantos outros de sua classe. Pensou em escrever a ele para censurar o ultraje que fazia à sua honra, mas desistiu depois, achando que talvez fosse isso que ele queria. Procurou informar-se com as amigas que iam pintar com ela no quarto de costura, mas a única coisa que tinham ouvido eram comentários benignos sobre a serenata   de piano. Sentiu-se furiosa, impotente, humilhada. Ao contrário da sua reação  inicial, quando teria gostado de encontrar o inimigo invisível para convencê-lo de seus erros, agora gostaria de fazê-lo em pedaços com a tesoura de podar. Passava as noites em claro, analisando detalhes e expressões das cartas anônimas, na ilusão de encontrar o consolo de uma pista. Ilusão vã: Fermina Daza era alheia por natureza  ao mundo interior dos Urbino de Ia Calle, e tinha armas para se defender de suas boas intenções, mas não das más.
Esta convicção se tornou ainda mais amarga depois do pavor da  boneca preta  que chegou às suas mãos naqueles dias sem nenhuma carta, mas cuja origem lhe pareceu fácil de imaginar: o doutor Juvenal Urbino podia tê-la mandado. Tinha sido comprada na Martinica, de acordo com a etiqueta original, e trazia um vestido primoroso e fios de ouro no cabelo crespo, e fechava os olhos quando a deitavam. Pareceu a Fermina Daza tão divertida que dominou os escrúpulos  e  a deitava em  seu próprio travesseiro durante o dia. Acostumou-se a dormir com ela. Passado algum tempo, porém, depois de um sono sem repouso, descobriu que a boneca  estava crescendo: a linda roupa original que vestia ao chegar agora lhe deixava as coxas à mostra, e seus sapatos tinham arrebentado com a pressão dos pés. Fermina Daza ouvira falar de malefícios africanos, mas nenhum tão pavoroso como esse. Por outro lado, não podia conceber que um homem como Juvenal Urbino fosse capaz  de

semelhante atrocidade. Tinha razão: a boneca não tinha sido levada pelo cocheiro e sim por um vendedor ocasional de camarão, sobre quem ninguém conseguira dar uma informação certa. Procurando decifrar o enigma, Fermina Daza pensou por um momento em Florentino Ariza, cuja condição sombria a assustava, mas a vida se encarregou de convencê-la do erro. Nunca se esclareceu o mistério e sua simples evocação lhe dava um arrepio de pavor até muito depois de se haver casado, tido filhos e de se acreditar a eleita do destino: a mais feliz.
A última tentativa do doutor Urbino foi a mediação da irmã Franca de Ia Luz, superiora do Colégio da Apresentação da Santíssima Virgem, que não podia se esquivar aos apelos de uma família que favorecera sua comunidade desde seu estabelecimento nas Américas. Apareceu acompanhada de uma noviça às nove da manhã, e ambas precisaram se entreter com as gaiolas de pássaros enquanto Fermina Daza acabava de tomar banho. Era uma alemã viril, de timbre de voz metálico e olhar imperioso que não tinham relação nenhuma com suas paixões pueris. Não havia nada neste mundo que Fermina Daza odiasse mais do que ela, ou qualquer coisa a ver com ela, e a simples lembrança de sua falsa piedade lhe dava uma comichão de escorpiões nas entranhas. Bastou reconhecê-la da porta do banheiro para viver de  novo de  chofre os suplícios do  colégio, o sono insuportável  da missa diária, o terror dos exames, a diligência servil das noviças, a vida inteira pervertida pelo prisma da pobreza de espírito. A irmã Franca de Ia Luz, em compensação, cumprimentou-a com um júbilo que parecia sincero. Espantou-se de vê-la tão crescida e amadurecida, e elogiou a competência com que mantinha a casa, o bom gosto do pátio, as árvores floridas. Mandou a noviça esperá-la ali, sem se aproximar demais dos corvos, que num momento de descuido podiam lhe arrancar os olhos, e procurou um lugar afastado onde pudesse se sentar e  conversar a sós com Fermina, que a convidou à sala.
Foi uma visita breve e áspera. A irmã Franca de Ia Luz, sem perder tempo com preâmbulos, ofereceu a Fermina Daza uma reabilitação honrosa. O motivo da expulsão seria apagado não das atas como da memória da comunidade, o que lhe permitiria terminar os estudos e obter o diploma de Bacharel em Letras. Fermina Daza, perplexa, quis saber a razão.
É a petição de alguém que merece tudo, e cujo único desejo é fazer você feliz
   disse a freira. — Sabe quem é?
Então compreendeu. Perguntou a si mesma com que autoridade servia de emissária do amor uma mulher que lhe havia prejudicado a vida por causa de uma carta inocente, mas não se atreveu a falar assim. Disse, em resposta, que sim, que conhecia esse homem, e que ele não tinha o menor direito de se imiscuir em sua vida.
   A única coisa que implora é que você lhe permita que venha conversar cinco minutos — disse a freira. — Tenho certeza de que seu pai estará de  acordo.
A  raiva  de  Fermina  Daza  ficou  mais  intensa  com  a  idéia  de  que  o  pai fosse
cúmplice daquela visita.
    Nós nos vimos duas vezes quando estive doente — disse. — Agora não nenhuma razão.
   Para qualquer mulher com dois dedos de juízo esse homem é um presente da Divina Providência — disse a freira.
Continuou falando de suas virtudes, de sua devoção, de sua consagração ao serviço dos aflitos. Enquanto falava tirou da manga um rosário de  ouro  com  o Cristo talhado em marfim, e o moveu diante dos olhos de Fermina Daza. Era uma relíquia de família, antiga de mais de cem anos, talhada por um ourives de Siena e benta por Clemente IV.
   É seu disse.
Fermina Daza sentiu a torrente do sangue que rugia em suas veias e então se atreveu.
    Não consigo entender como a senhora se presta a isso — disse — se na sua opinião o amor é pecado.
A irmã Franca de La Luz não deu mostras de ter ouvido, mas suas pálpebras se incendiaram. Continuou balançando o rosário diante dos seus olhos.
   É melhor você se entender comigo — disse — por- que depois de mim vem o senhor arcebispo, e com ele as coisas são diferentes.
   Que venha — disse Fermina Daza.
A irmã Franca de Ia Luz escondeu o terço de ouro na manga. Depois tirou da outra um lenço muito usado, feito uma bola, e o manteve apertado no punho, olhando Fermina de muito longe com um sorriso de  comiseração.
     Pobre filha minha — suspirou — você ainda continua pensando naquele homem.
Fermina Daza ruminou a impertinência olhando a freira sem pestanejar, olhou-a bem nos olhos, sem falar, ruminando em silêncio, até ver com infinito prazer que seus olhos de homem se anuviaram de lágrimas. Irmã Franca de Ia Luz as enxugou com a bola do lenço e se pôs de pé.
   Tem razão seu pai quando diz que você é uma mula disse.
O arcebispo não foi. De maneira que o assédio teria acabado naquele dia, não fosse o fato de Hildebranda Sánchez ter vindo passar o Natal com a prima, o que mudou a vida de ambas. Foi recebida na roleta de Riohacha às cinco da manhã, em meio a uma turba de passageiros agonizantes de enjôo, mas ela desembarcou radiosa, mulher da cabeça aos pés, e com o espírito alvoroçado pela noite no  mar. Veio carregada de jacas de perus vivos e de quantos frutos brotavam em suas prósperas veigas, para que ninguém sentisse falta do que comer durante sua visita. Lisímaco Sánchez, o pai, mandava perguntar se eram necessários músicos para as festas  de  Natal, pois  ele  tinha  os  melhores  à  sua disposição, e  prometia  mandar mais para a frente um carregamento de fogos de artifício. Acrescentava ainda que não podia vir buscar a filha antes de março, de modo que havia tempo de sobra para se viver.
As duas primas começaram sem perda de tempo. Tomaram banho juntas desde a primeira tarde, nuas, fazendo-se abluções recíprocas com a água da banheira de pedra. Ensaboavam-se, catavam lêndeas uma na outra, comparavam as nádegas, os seios imóveis, uma se olhando no espelho da outra para avaliar com quanta crueldade o tempo as tratara desde a última vez que tinham se visto nuas. Hildebranda era grande e maciça, de pele dourada, mas todo o pêlo do seu corpo era de mulata, curto e enroscado feito palha de aço. Fermina Daza, de sua parte, tinha uma nudez pálida, de linhas grandes, de pele serena, de pêlos macios. Gala Placídia tinha mandado pôr duas camas iguais para as duas no quarto, mas às vezes  dormiam numa e conversavam com as luzes apagadas até raiar o dia. Fumavam uns charutões de bandido que Hildebranda tinha trazido escondidos no forro  do  baú, e depois tinham que queimar folhas de papel da Armênia para purificar o ar de tugúrio que deixavam no quarto. Fermina Daza tinha fumado pela primeira vez em Valledupar, e tinha continuado a fazê-lo em Fonseca, em Riohacha, onde se trancavam até dez primas num quarto a falar de homens e a fumar às escondidas. Aprendeu a fumar ao contrário, com a brasa dentro da boca, como fumavam os homens nas noites das guerras para não serem denunciados pela ponta incandescente do charuto. Mas nunca tinha fumado sozinha. Com Hildebranda na casa passou a fazê-lo todas as noites antes de dormir, e desde então adquiriu  o hábito de fumar, embora sempre às escondidas, mesmo do marido e dos filhos, não porque era mal visto que mulher fumasse em público, como porque tinha  o prazer associado à clandestinidade.
A viagem de Hildebranda também tinha sido imposta pelos pais para ver se a afastavam de seu amor impossível, embora a tivessem convencido de que era para ajudar Fermina a se decidir por um bom partido. Hildebranda aceitara na esperança de enganar o esquecimento, como fizera a prima no  seu  momento, e  combinara com o telegrafista de Fonseca para que enviasse suas mensagens debaixo do maior sigilo. Por isso foi tão amarga sua desilusão quando soube que Fermina Daza repudiara Florentino Ariza. Além disso, Hildebranda tinha uma concepção universal do amor, e achava que qualquer coisa que acontecesse com uma pessoa  afetava todos os amores do mundo inteiro. Contudo, não renunciou ao projeto. Com uma audácia que provocou em Fermina Daza uma crise de espanto, foi sozinha à agência do telégrafo disposta a conquistar a boa vontade de Florentino  Ariza.
Não o teria identificado, pois não tinha um traço que correspondesse à imagem que ela formara através de Fermina Daza. À primeira vista lhe pareceu impossível que a prima tivesse estado a ponto de enlouquecer por aquele empregado quase invisível, com um ar de cachorro batido, cuja indumentária de rabino caído em desgraça e cujas maneiras solenes não podiam alterar o coração de ninguém. Mas logo  se  arrependeu  da  primeira  impressão,  pois  Florentino  Ariza  se  pôs  a    seu serviço incondicional sem saber quem era: não soube nunca. Ninguém a teria compreendido melhor do que ele, por isso não lhe exigiu que se identificasse nem lhe pediu endereço algum. Sua solução foi muito simples: ela passaria toda quarta- feira à tarde na agência do telégrafo para que ele lhe entregasse as respostas em sua mão, e nada mais. Por outro lado, quando ele leu a mensagem que Hildebranda trazia escrita, perguntou a ela se aceitava uma sugestão, e ela concordou. Florentino Ariza fez primeiro umas correções entre linhas, suprimiu-as, tornou  a  escrever, ficou sem espaço, e afinal rasgou a folha e escreveu completa uma mensagem diferente que a ela pareceu enternecedora. Quando saiu do escritório do telégrafo, Hildebranda estava à beira das lágrimas.
— É feio e triste — disse a Fermina Daza — mas é todo  amor.
O que mais chamou a atenção de Hildebranda foi a solidão da prima. Parecia, lhe disse, uma solteirona de vinte anos. Acostumada a uma família numerosa e dispersa, em casas onde ninguém sabia de ciência certa quantos  moravam  nem quem ia comer a cada refeição, Hildebranda nem podia imaginar uma moça da sua idade reduzida ao claustro da vida privada. Assim era: desde que se levantava às seis da manhã até que apagava a luz do quarto, se consagrava à perda do tempo. A vida lhe era imposta de fora. Primeiro, com os últimos gaios, o leiteiro a acordava com a aldraba do portão. Depois tocava a peixeira com um caixote de pargos moribundos num leito de algas, as quitandeiras com os cestos tornados suntuosos com as hortaliças de Maria La Baja e as frutas de São Jacinto. Em seguida, durante todo o dia, tocavam todos: os mendigos, as moças das rifas, as irmãs de caridade, o amolador, o garrafeiro, o que comprava ouro quebrado, o que comprava papel de jornal, as falsas ciganas que se ofereciam para ler a sorte nas cartas, nas linhas da mão, na borra do café, nas águas das bacias. A semana de Gala Placídia se esvaía no abrir e fechar do portão para dizer que não, volte outro dia, ou gritando da sacada já sem paciência que não amolem mais, porra, que já compramos tudo que não tinha na casa. Substituíra tia Escolástica com tanto fervor e tanta graça que Fermina a confundia com a outra até para gostar mais dela. Tinha obsessões de escrava. Logo que encontrava um tempo livre ia para o quarto de serviço para passar a roupa branca, que deixava perfeita, que guardava nos armários com flores de alfazema, e não passava e dobrava a que acabava de lavar como também a que  tivesse  perdido seu esplendor pela falta de uso. Com o mesmo cuidado continuava conservando o vestuário de Fermina Sánchez, mãe de Fermina,  morta  quatorze anos antes. Mas era Fermina Daza quem tomava as decisões. Resolvia o que  se  havia de comer, o que se havia de comprar, o que se tinha que fazer em cada caso, e desta forma determinava a vida de uma casa que na realidade não tinha nada que determinar. Quando acabava de lavar as gaiolas e pôr a comida dos pássaros, e  de ver que nada faltasse às flores, ficava sem rumo. Muitas vezes, depois de  ser expulsa do colégio, adormeceu na hora da sesta e foi acordar no dia seguinte. As aulas de pintura eram apenas uma forma mais entretida de perder o  tempo.
As relações com o pai careciam de afeto desde o exílio de tia Escolástica, embora
ambos tivessem encontrado o modo de viver juntos sem se atrapalhar. Quando ela se levantava, ele já tinha ido aos seus negócios. Poucas vezes faltava ao rito do almoço, embora quase nunca comesse, pois lhe bastavam os aperitivos  e  os acepipes galegos do Café da Paróquia. Tampouco jantava: deixavam sua porção na mesa, toda num prato e tapada com outro, embora soubessem que ele a comeria no dia seguinte requentada na hora do café. Uma vez por semana dava à filha o dinheiro da despesa, que ele calculava muito bem e que  ela administrava  com rigor, mas atendia com gosto a qualquer pedido que ela fizesse para gastos imprevistos. Nunca lhe regateava um vintém, nunca lhe pedia contas, mas ela se comportava como se tivesse que prestá-las perante o tribunal do Santo  Ofício.  Nunca lhe falara da índole ou estado dos seus negócios, nunca a levara a conhecer seus escritórios do porto, que estavam num lugar vedado a senhoritas decentes mesmo que acompanhadas do pai. Lorenzo Daza não chegava a casa antes das  dez  da noite, que era a hora do toque de recolher nas épocas menos críticas das guerras. Ficava até essa hora no Café da Paróquia, jogando o que fosse, porque era especialista em todos os jogos de salão, além de bom professor  deles.  Sempre  entrou em casa em seu perfeito juízo, sem despertar a filha, apesar de tomar a primeira pinga de anis ao acordar e de continuar mastigando a ponta do charuto apagado e tomando tragos espaçados durante o resto do dia. Uma noite, contudo, Fermina percebeu que ele entrava. Ouviu seus passos de cossaco nas escadas, ouviu seu arquejo enorme no corredor do segundo andar, seus golpes  com  a palma da mão na porta do quarto. Ela lhe abriu a porta, e pela primeira vez se assustou com seu olho torto e o engrolamento de suas palavras.
— Estamos na ruína — disse ele. — Ruína total, pode ficar sabendo.
Foi tudo que disse, e nunca mais tornou a dizê-lo nem aconteceu nada que indicasse se dissera a verdade, mas depois daquela noite Fermina Daza ficou consciente de que estava no mundo. Vivia num limbo social. Suas antigas companheiras de colégio estavam num céu proibido para ela, muito mais ainda depois da desonra da expulsão, mas nem por isso ela era vizinha dos  vizinhos, porque estes a haviam conhecido sem passado e com  o uniforme da Apresentação  da Santíssima Virgem. O mundo de seu pai era de traficantes e estivadores, de refugiados de guerras no albergue público do Café da Paróquia, de homens sós. No último ano, as aulas de pintura haviam aliviado um pouco sua reclusão, porque a professora preferia as aulas coletivas e costumava trazer outras alunas ao quarto de costura. Mas eram moças de condições sociais dispersas e mal definidas, e para Fermina Daza não passavam de amigas emprestadas cujo afeto acabava com cada aula. Hildebranda queria abrir a casa, ventilá-la, trazer os músicos e os foguetes e fogueteiros de seu pai e fazer um baile de carnaval cujas ventanias varressem o desânimo e as traças que roíam a vida da prima, mas em pouco tempo percebeu que seus propósitos eram inúteis. Por uma razão simples: não havia com quem.
De qualquer maneira, foi ela quem a pôs a viver. À tarde, depois das aulas de pintura, ela se fazia levar à rua para conhecer a cidade. Fermina Daza lhe mostrou   caminho que fazia todos os dias com tia Escolástica, o banco da pracinha onde Florentino Ariza fingia ler para esperá-la, as ruelas por onde a seguia,  os esconderijos das cartas, o palácio sinistro que abrigara o cárcere do Santo Ofício, e que depois tinha sido restaurado e convertido no Colégio da Apresentação da Santíssima Virgem, que ela odiava com toda a sua alma. Subiram a colina do cemitério dos pobres, onde Florentino Ariza tocava violino segundo o rumo dos ventos para que ela o escutasse na cama, e dali viram inteira a cidade histórica, os telhados quebrados e os muros carcomidos, os escombros das fortalezas entre os matagais, a fileira de ilhas na baía, os barracões da miséria ao redor dos pântanos, o Caribe imenso.
Na noite de Natal, foram à missa do galo na catedral. Fermina ocupou o assento onde lhe chegava melhor a música confidencial de Florentino Ariza, e mostrou à prima o lugar exato em que uma noite como aquela tinha visto de perto pela  primeira vez seus olhos espantados. Arriscaram-se sozinhas até o Portal dos Escrivães, compraram doces, se divertiram na loja dos papéis de fantasia, e Fermina Daza assinalou para a prima o lugar em que descobrira de golpe que seu amor não passava de uma miragem. Não tinha percebido ela própria que cada passo seu  da casa ao colégio, cada lugar da cidade, cada instante de seu passado recente pareciam existir por obra e graça de Florentino Ariza. Foi o que Hildebranda a fez ver, mas ela não admitiu, pois jamais reconheceria como realidade que Florentino Ariza, para o bem ou para o mal, era a única coisa que lhe acontecera na  vida.
Por aqueles dias chegou um fotógrafo belga que instalou seu estúdio no Portal  dos Escrivães, e quem quer que tivesse com que pagar-lhe o trabalho aproveitou a ocasião para tirar um retrato. Fermina e Hildebranda foram das primeiras. Esvaziaram o guarda-roupa de Fermina Sánchez, repartiram as roupas mais vistosas, as sombrinhas, os sapatos de festa, os chapéus, e se vestiram de damas da metade do século. Gala Placídia as ajudou a apertar os corpetes, ensinou-as a andar dentro das armações de arame das anquinhas, a calçar as luvas, a abotoar os botins de salto alto. Hildebranda preferiu um chapéu de abas grandes com penas de avestruz que lhe caíam sobre as costas. Fermina pôs um mais recente, enfeitado de frutas de gesso pintado e flores de crinolina. Acabaram troçando de si mesmas vendo-se no espelho tão semelhantes aos daguerreótipos das avós e saíram felizes, mortas de rir, para tirarem retrato de suas vidas. Gala Placídia as viu da sacada atravessando o parque com as sombrinhas abertas, se equilibrando como podiam  nos saltos, e empurrando as anquinhas com o corpo inteiro feito criança aprendendo a andar com andadeiras, e lhes deu a bênção para que Deus as ajudasse em seus retratos.
Havia um tumulto diante do estúdio do belga, porque  estavam  fotografando Beny Centeno, que naqueles dias tinha ganho o campeonato de boxe no Panamá. Estava de calções de luta, com as luvas calçadas e a coroa na cabeça, e não foi fácil fotografá-lo porque precisava ficar em posição de assalto durante um minuto e respirando  o  menos  possível,  mas   logo  que   armava  a  guarda  seus fanáticos prorrompiam em ovações, e ele não resistia à tentação  de  satisfazê-los  exibindo suas artes. Quando chegou a vez das primas o céu nublara e a chuva parecia iminente, mas elas se deixaram enfarinhar a cara com polvilho e se apoiaram com tanta naturalidade numa coluna de alabastro que conseguiram ficar imóveis por mais tempo do que parecia racional. Foi um retrato eterno. Quando Hildebranda morreu, quase centenária em sua fazenda de Flores de Maria,  encontraram  sua cópia debaixo de chave no armário do quarto, escondida entre as dobras dos lençóis perfumados, junto com o fóssil de um pensamento numa carta apagada pelos anos. Fermina Daza guardou a sua muitos anos na primeira folha de um álbum de  família, de onde desapareceu sem que se soubesse como, nem quando, e chegou às mãos de Florentino Ariza por uma série de casualidades inverossímeis, quando ambos já passavam dos sessenta anos.
A praça diante do Portal dos Escrivães estava apinhada até os sobrados quando Fermina e Hildebranda saíram do estúdio do belga. Tinham esquecido que  suas caras estavam brancas de polvilho e os lábios pintados com uma pomada cor de chocolate, e que suas roupas não eram apropriadas nem à hora nem à época. A rua  as recebeu com vaias e apupos. Estavam acuadas, procurando escapar à zombaria pública, quando abriu caminho pelo tumulto o landô dos alazães dourados. A vaia cessou e os grupos hostis debandaram. Hildebranda não esqueceria jamais a primeira visão do homem que apareceu no estribo, o casaco de seda, o colete de brocado, seus ademanes sábios, a doçura dos olhos, a autoridade da presença.
Embora nunca o tivesse visto, reconheceu-o logo. Fermina Daza tinha falado  nele, quase por casualidade e sem nenhum interesse, uma tarde do mês anterior em que não tinha querido passar pela casa do Marquês de Casalduero porque o landô  dos cavalos de ouro estava estacionado à porta. Disse a ela quem era o dono e procurou explicar as causas de sua antipatia, embora não dissesse palavra quanto às pretensões dele. Hildebranda esqueceu. Mas quando o identificou à porta do carro como uma aparição de fábula, um pé  em terra outro no estribo, não compreendeu  os motivos da prima.
— Façam-me o favor de subir — disse o doutor Juvenal Urbino. — Levo-as para onde mandarem.
Fermina Daza esboçou um gesto de dúvida, mas Hildebranda já havia aceito. O doutor Juvenal Urbino saltou, e com a ponta dos dedos, quase sem tocá-la, ajudou-a a subir no carro. Fermina, sem escolha, subiu depois dela, a cara ardendo de contrariedade.
A casa ficava a apenas três quarteirões. As primas não notaram que o doutor Urbino tivesse entrado em acordo com o cocheiro, mas deve ter sido assim, porque   o carro levou mais de meia hora para chegar. Iam sentadas no assento principal, e  ele diante delas, de costas para o sentido da marcha do carro. Fermina virou a cara para a janela e mergulhou no vazio. Hildebranda, em compensação, estava encantada, e o doutor Urbino mais encantado ainda com o encantamento dela.  Logo que o carro se pôs a andar, ela sentiu o cheiro cálido do couro natural dos assentos,   a intimidade do interior acolchoado, e disse que aquilo lhe parecia um lugar bom da gente ficar vivendo. Começaram logo a rir, a trocar chistes de velhos amigos, e acabaram no jogo de um jargão inventado, que consistia em intercalar entre cada sílaba uma sílaba convencional. Fingiam acreditar que Fermina não compreendia o que diziam, embora não soubessem que sim como que estava presa ao  que diziam, e por isso insistiam. Ao fim de um momento, depois de muito rir, Hildebranda confessou que não agüentava mais o suplício dos botins.
   Nada mais fácil — disse o doutor Urbino. — Vamos ver quem acaba primeiro.
Começou a soltar o cordão das botas, e Hildebranda aceitou o repto. Não achou fácil, por causa do corpete de varetas que não permitiam que se curvasse, mas o doutor Urbino demorou de propósito, até que ela tirou os botins de  debaixo  das saias com uma gargalhada de triunfo, como se acabasse de pescá-los num tanque. Ambos olharam então para Fermina, e viram seu magnífico perfil de  ave  mais  afiado do que nunca contra o incêndio do entardecer. Estava três vezes furiosa: pela situação imerecida em que se encontrava, pela conduta libertina de Hildebranda, e pela certeza de que o carro dava voltas sem sentido para retardar a chegada. Mas Hildebranda corria sem madrinha.
   Agora estou vendo — disse — que o que me atrapalhava não eram os sapatos, e sim esta gaiola de arame.
O doutor Urbino compreendeu que se referia às anquinhas, e pegou a ocasião no vôo. "Nada mais simples", disse. "Tire fora." Com um rápido passe de prestidigitador puxou o lenço do bolso e com ele vendou os  olhos.
   Não estou olhando — disse.
A venda realçou a pureza dos seus lábios entre a barba redonda e negra e  o  bigode de guias afiadas, e ela se sentiu sacudida por uma vergastada de pânico. Olhou Fermina e agora não a viu furiosa e sim apavorada com a idéia de que ela fosse capaz de tirar a saia. Hildebranda ficou séria e lhe perguntou em linguagem de dedos: "Que fazemos?" Fermina Daza respondeu no mesmo código que se não fossem diretamente a casa se atiraria do carro em marcha.
   Estou esperando — disse o médico.
   Já pode olhar — disse Hildebranda.
O doutor Juvenal Urbino a viu diferente quando tirou a venda, e compreendeu que o jogo tinha terminado, e terminado mal. A um sinal seu o cocheiro fez o carro dar uma volta completa, e entrou na praça dos Evangelhos no momento em que o acendedor municipal acendia as luminárias. Todas as igrejas deram o ângelus. Hildebranda desceu depressa, um pouco preocupada com a idéia de ter desgostado a prima, e se despediu do médico com um aperto de mãos sem cerimônias. Fermina a imitou, mas quando quis retirar a mão com a luva de seda, o doutor Urbino lhe apertou com força o dedo médio, o do coração.

   Estou esperando sua resposta — disse.
Fermina deu então um puxão mais forte, e a luva vazia ficou pendurada da mão do médico, mas não esperou para recuperá-la. Foi se deitar sem comer.  Hildebranda, como se nada houvesse acontecido, entrou no quarto depois de jantar com Gala Placídia na cozinha, e comentou com sua graça natural os incidentes da tarde. Não disfarçou seu entusiasmo pelo doutor Urbino, por sua elegância e sua simpatia, e Fermina não correspondeu com nenhum comentário, mas estava refeita do aborrecimento. A um certo momento, Hildebranda confessou: quando o doutor Juvenal Urbino vendou os olhos e ela viu o brilho dos seus dentes perfeitos entre os lábios rosados, tinha tido um desejo irresistível de comê-lo  aos  beijos.  Fermina Daza se virou para a parede e pôs fim à conversa sem intuito de ofender, até sorrindo, mas com todo o coração.
   Que puta que você é! disse.
Dormiu sobressaltada, vendo o doutor Juvenal Urbino em todos os cantos, vendo-o rir, cantar, despedindo chispas de enxofre pelos dentes com os olhos vendados, troçando dela numa língua sem regras fixas num carro diferente que  subia até o cemitério dos pobres. Acordou muito antes de raiar o  dia, exausta, e  ficou acordada com os olhos fechados pensando nos anos incontáveis que ainda lhe faltavam viver. Depois, enquanto Hildebranda tomava banho, escreveu uma carta a toda pressa, dobrou-a a toda pressa, enfiou-a a toda pressa no envelope, e antes que Hildebranda saísse do banheiro mandou-a por Gala Placídia ao doutor Juvenal Urbino. Era uma carta das suas, sem uma letra a mais ou a menos, na qual dizia que sim, doutor, que falasse com seu pai.
Quando Florentino Ariza soube que Fermina Daza ia se casar com um médico de linhagem e fortuna, educado na Europa e com uma reputação rara em  sua idade, não houve força capaz de levantá-lo de sua prostração. Trânsito Ariza fez mais do que o possível para consolá-lo com atenções de noiva quando viu que ele tinha perdido a fala e o. apetite e passava as noites em claro chorando sem sossego, e ao fim de uma semana conseguiu que comesse de novo. Falou então com  o  senhor Leão XII Loayza, o único sobrevivente dos três irmãos, e sem dizer o motivo pediu- lhe que desse ao sobrinho um emprego para fazer qualquer coisa na companhia de navegação, contanto que fosse em algum porto perdido nos matos do  Madalena, onde não houvesse correio nem telégrafo, nem visse ninguém  que  lhe  contasse nada a respeito desta cidade de perdição. O tio não lhe deu o emprego por consideração com a viúva do irmão, que mal suportava a simples existência do bastardo, mas arranjou para ele o posto de telegrafista na Vila de Leyva, uma cidade de sonho a mais de vinte dias e a quase três mil metros de altura acima do nível da Rua das Janelas.
Florentino Ariza nunca teve noção clara daquela viagem medicinal. Sempre a lembraria, assim como tudo que aconteceu naquela época, através dos cristais rarefeitos de sua desventura. Ao receber o telegrama da nomeação nem pensou em levá-lo em consideração, mas Lotário Thugut o  convenceu  com  argumentos alemães de que um porvir radiante esperava por ele na administração  pública.  Disse: "O telégrafo é a profissão do futuro." Deu-lhe de presente um par de luvas forradas com pêlo de coelho, um gorro das estepes e um sobretudo com gola de pele provado nos janeiros glaciais da Baviera. O tio Leão XII o presenteou com  dois ternos de casimira e umas botas impermeáveis que tinham sido do  irmão  mais velho, e lhe deu uma passagem com camarote para o próximo navio. Trânsito Ariza reduziu as roupas às medidas do filho, que era menos corpulento que o pai e muito mais baixo que o alemão, e lhe comprou meias de lã e umas ceroulas de  corpo  inteiro para que não lhe faltasse nada contra os rigores do páramo. Florentino Ariza, endurecido de tanto sofrer, assistia aos preparativos da viagem como  um  morto teria assistido às disposições tomadas para suas exéquias. Não disse a ninguém que ia embora, não se despediu de ninguém, no mesmo hermetismo férreo com que só   à mãe revelou o segredo de sua paixão reprimida, mas na véspera da viagem  cometeu consciente uma última loucura do coração que bem poderia ter-lhe  custado a vida. Vestiu à meia-noite seu traje de domingo e tocou em solo debaixo do balcão de Fermina Daza a valsa de amor que compusera para ela, que eles dois conheciam, e que foi durante três anos o emblema de sua cumplicidade contrariada. Tocou-a murmurando a letra, o violino banhado em lágrimas, e com uma inspiração tão intensa que aos primeiros compassos começaram a ladrar os cachorros da rua, e em seguida os da cidade, mas depois se foram calando pouco a pouco graças ao feitiço da música, e a valsa terminou em meio a um silêncio sobrenatural. O balcão não se abriu, nem ninguém assomou à rua, nem mesmo o  guarda-noturno  que quase sempre acudia com sua lanterna para ver se colhia algum benefício com as sobras das serenatas. O ato foi uma invocação de alívio para Florentino Ariza, pois quando guardou o violino na caixa e se afastou pelas ruas mortas  sem olhar para  trás já não achava que ia embora na manhã seguinte, e sim que tinha ido embora muitos anos com a disposição inabalável de não voltar nunca  mais.
O navio, um dos três iguais da Companhia Fluvial do Caribe, tinha sido rebatizado em homenagem ao fundador: Pio Quinto Loayza. Era uma casa flutuante de dois andares de madeira sobre um casco de ferro, largo e chato, com um calado máximo de cinco pés que lhe permitia evitar melhor os fundos variáveis do rio. Os navios mais antigos tinham sido fabricados em Cincinnati em meados do século, no modelo legendário dos que faziam o comércio do  Ohio e Mississippi, e tinham  a  cada lado uma roda de propulsão movida por caldeira de lenha. Como estes, os navios da Companhia Fluvial do Caribe tinham no convés inferior, quase à tona d'água, as máquinas de vapor e as cozinhas, e os grandes cercados  de  galinheiro onde as tripulações dependuravam as redes, entrecruzadas em diferentes níveis. Tinham no andar superior a cabine de comando, os camarotes do capitão e seus oficiais, e uma sala de recreio e um refeitório, onde os passageiros notáveis eram convidados pelo menos uma vez para jantar e jogar cartas. No andar intermediário havia seis camarotes de primeira classe em ambos os lados de um passadiço que servia de refeitório comum, e na proa uma sala de estar aberta sobre o rio  com  gradis de madeira rendada e pilastras de ferro, onde dependuravam à noite suas redes os passageiros da plebe. No entanto, ao contrário dos mais antigos,  estes navios não tinham as pás de propulsão a cada lado, e sim uma enorme roda na popa com pás horizontais debaixo dos reservados sufocantes do convés de passageiros. Florentino Ariza não se dera o trabalho de explorar o navio logo que subiu a bordo, um domingo de julho às sete da manhã, como faziam quase por instinto os que viajavam pela primeira vez. Só teve noção de sua nova realidade ao entardecer, navegando diante do casario de Calamar, quando foi urinar na popa e viu pela vigia do reservado a gigantesca roda de grandes tábuas girando debaixo de seus pés num estrondo vulcânico de espumas e vapores  ardentes.
Nunca tinha feito uma viagem. Carregava um baú de folha com as roupas do páramo, os romances ilustrados que comprava em folhetins mensais e que ele próprio costurava em capas de papelão, e os livros de versos de amor que recitava de cor e que estavam a ponto de virar pó de tanto ser relidos. Deixara para trás  o violino, que se identificava demasiado com sua desgraça, mas a mãe o obrigara a levar o chamado petate, trouxa de dormir muito popular e prática: um travesseiro, um lençol, uma bacia de estanho e um toldo de filo contra os mosquitos, tudo isso enrolado numa esteira amarrada com duas cordas de pita para se pendurar uma  rede em caso de urgência. Florentino Ariza não queria levá-lo, pois achava que seria uma inutilidade num camarote que incluía o uso de camas, mas desde a primeira noite teve que agradecer uma vez mais o bom senso da  mãe.
Com efeito, à última hora subiu a bordo um passageiro em traje de etiqueta que havia chegado em navio da Europa aquela madrugada, e estava acompanhado do governador da província em pessoa. Queria continuar a viagem sem perda de tempo com a esposa e a filha, e com o criado de libré e os sete baús com frisos dourados equilibrados a duras penas pelas escadas. O capitão, um gigante de Curaçau, conseguiu tocar o sentido patriótico dos naturais da terra para acomodar os viajores imprevistos. A Florentino Ariza explicou numa salada de castelhano e dialeto de Curaçau que o homem vestido a rigor era o novo ministro plenipotenciário da Inglaterra em viagem para a capital da república, lembrou que aquele reino fornecera recursos decisivos para nossa independência do domínio espanhol, e por conseguinte qualquer sacrifício era pouco para que uma família de tão  alta dignidade se sentisse em nossa casa melhor do que na própria. Florentino Ariza, é claro, renunciou ao camarote.
No princípio não se queixou, pois o caudal do rio era abundante naquela época  do ano, e o navio navegou sem tropeços as duas primeiras noites. Depois do jantar, às cinco da tarde, a tripulação distribuía entre os passageiros camas de armar com fundo de lona, e cada um abria a sua onde podia, a arrumava com os panos do seu petate e instalava por cima o mosquiteiro de filo. Os que tinham rede penduravam- na no salão, e os que não tinham nada dormiam em cima das mesas do refeitório e  se  cobriam  com  as  toalhas  de  mesa que  não  eram  mudadas  mais  de  duas vezes durante a viagem. Florentino Ariza velava a maior parte da noite, acreditando ouvir  a voz de Fermina Daza na brisa fresca do rio, apascentando a solidão com a lembrança dela, ouvindo-a cantar na respiração do navio que avançava nas trevas com passos de bicho grande, até que apareciam as primeiras franjas rosadas no horizonte e o novo dia rebentava de repente sobre campinas desertas e pântanos de névoa. A viagem lhe parecia então mais uma prova da sabedoria de sua mãe, e se sentia com ânimo de sobreviver ao esquecimento.
Ao fim de três dias de boas águas, porém, a navegação ficou mais difícil entre bancos de areia intempestivos e turbulências enganosas. O rio ficou turvo e foi estreitando mais e mais numa selva emaranhada de árvores colossais, onde só se encontrava de vez em quando uma choça de palha junto às pilhas de lenha para a caldeira dos navios. A algaravia dos louros e o escândalo dos micos invisíveis pareciam aumentar o mormaço do meio-dia. Mas de noite era preciso amarrar o navio para dormir, e então se tornava insuportável o simples fato de estar vivo. Ao calor e aos pernilongos se acrescentava o mau cheiro das tiras de carne  salgada postas a secar pela balaustrada do navio. A maioria dos passageiros, sobretudo os europeus, abandonavam o podredouro dos camarotes e passavam a noite andando pelos conveses, espantando toda a classe de insetos com a mesma toalha com que secavam o suor incessante, e amanheciam exaustos e alastrados de picadas.
Além disso, naquele ano estourara mais um episódio da guerra civil intermitente entre liberais e conservadores, e o capitão tomara precauções muito severas para a ordem interna e a segurança dos passageiros. Procurando evitar equívocos e provocações, proibiu a distração favorita das viagens daquele tempo, que era atirar contra os jacarés que apanhavam sol nas praias da beira do rio. Mais adiante,  quando alguns passageiros se dividiram em dois bandos inimigos no curso de uma discussão, confiscou as armas de todos com o compromisso de honra de devolvê-las ao término da viagem. Foi inflexível inclusive com o ministro britânico, que no dia seguinte à partida amanheceu vestido de caçador, com uma carabina de precisão e um fuzil de dois canos de matar tigres. As restrições se tornaram ainda mais  drásticas para do porto de Tenerife, onde cruzaram com um navio  que desfraldava a bandeira amarela da peste. O capitão não conseguiu obter nenhuma informação sobre aquele sinal alarmante, porque o outro navio não respondeu aos seus sinais. Mas nesse mesmo dia encontraram outro com carga de gado para a Jamaica, e este informou que o navio com a bandeira da peste levava dois doentes   de cólera, e que a epidemia causava estragos no trecho do rio que ainda lhes faltava navegar. Então foi proibido aos passageiros deixar o navio não nos portos seguintes como ainda nos lugares despovoados onde arribava para carregar lenha. De modo que no restante da viagem até o porto final, que durou outros seis dias, os passageiros contraíram hábitos carcerários. Entre estes, a contemplação perniciosa de um pacote de postais pornográficos holandeses que circulou  de  mão  em mão sem que se soubesse de onde saíra, ainda que nenhum veterano do  rio  ignorasse que  os  cartões  não passavam  de  mostruário da  legendária coleção do capitão, Mas até essa distração sem futuro acabou por aumentar o tédio.
Florentino Ariza agüentou os rigores da viagem com a paciência mineral que desolava sua mãe e exasperava seus amigos. Não se relacionou com ninguém. Os  dias lhe corriam fáceis enquanto se sentava junto à amurada olhando os jacarés imóveis tomando sol nas praias com as mandíbulas abertas para pegar borboletas, olhando os bandos de garças assustadas que erguiam vôo nos charcos, os peixes-boi que amamentavam as crias nas grandes tetas maternais e surpreendiam os passageiros com seus prantos de mulher. Num único dia viu passarem boiando três corpos humanos, inchados e verdes, com vários urubus em  cima.  Passaram primeiro os corpos de dois homens, um deles sem cabeça, em seguida o de uma menina de poucos anos cujos cabelos de medusa ficaram ondulando na esteira do navio. Nunca soube, porque nunca se sabia, se eram vítimas do cólera ou da guerra, mas as exalações nauseabundas contaminaram em sua memória a lembrança de Fermina Daza.
Era sempre assim: qualquer acontecimento, bom ou mau, tinha alguma relação com ela. À noite, quando se atracava o navio e a maioria dos passageiros caminhava sem alívio pelos conveses, ele repassava quase de memória os folhetins ilustrados debaixo do lampião de gás do refeitório, que era a única luz acesa até o amanhecer,    e os dramas tantas vezes relidos recobravam a magia original quando substituía os protagonistas imaginários por conhecidos seus da vida real, e reservava para ele mesmo e para Fermina Daza os papéis de amores impossíveis. Outras noites lhe escrevia cartas de angústia, cujos fragmentos espargia em seguida nas águas que corriam sem cessar para ela. E assim passava as horas mais duras, encarnado às vezes num príncipe tímido ou num paladino do amor, e por outras vezes na sua própria pele escaldada de amante esquecido, até que se levantavam as primeiras brisas e ele se punha a dormitar sentado nas poltronas da amurada.
Certa noite em que interrompeu a leitura mais cedo que de costume, dirigia-se distraído para as privadas quando uma porta se abriu ao passar ele pelo refeitório deserto, e uma mão de falcão o agarrou pela manga da camisa e o fechou num camarote. Mal chegou a sentir o corpo sem idade de uma mulher nua nas trevas, empapada em suor quente e com a respiração ofegante, que o empurrou de barriga para cima no beliche, lhe abriu a fivela do cinturão, soltou os botões e se desmembrou toda, acavalada em cima dele, e o despojou sem glória da virgindade. Ambos rolaram agonizantes no vazio de um abismo sem fundo que cheirava como um alagado de camarões. Ela se deixou ficar em seguida jazendo sobre ele, resfolegando sem ar, e deixou de existir na escuridão.
— Agora, vá embora e esqueça — disse. — Isto não sucedeu nunca.
O ataque tinha sido tão rápido  e triunfante que  não se podia explicá-lo como  uma loucura súbita do tédio, e sim como fruto de um plano elaborado com todo o vagar e até nos seus pormenores minuciosos. Esta certeza esmagadora aumentou a ansiedade  de  Florentino  Ariza, que  no  auge  do  gozo  tinha tido  uma revelação na qual não podia acreditar, que se negava mesmo a admitir, e era que o amor ilusório de Fermina Daza podia ser substituído por uma paixão terrena. Por isso se empenhou em descobrir a identidade da violadora mestra em cujo instinto de pantera encontraria talvez o remédio para sua desventura. Mas não conseguiu. Ao contrário, quanto mais aprofundava a pesquisa mais longe se sentia da verdade.
O ataque tinha sido no último camarote, mas este se comunicava com o penúltimo por uma porta intermediaria, de maneira que os dois se convertiam num dormitório familiar com quatro beliches. Ali viajavam duas mulheres jovens, outra bastante mais velha mas muito atraente à vista, e uma criança de poucos meses. Haviam embarcado em Barranco de Loba, o porto onde se recolhia a carga e os passageiros da cidade de Mompox desde que esta ficou à margem dos itinerários de vapores devido às veleidades do rio, e Florentino Ariza tinha reparado nelas porque traziam o menino adormecido dentro de uma grande gaiola de pássaros.
Viajavam vestidas como nos transatlânticos da moda, com armação debaixo das saias de seda, golas de renda e chapéus de abas grandes enfeitadas com flores de crinolina, e as duas mais moças mudavam o traje completo várias vezes por dia, de modo que pareciam carregar em si mesmas sua própria atmosfera primaveril, enquanto os demais passageiros sufocavam de calor. As três eram destras no manejo das sombrinhas e dos leques de plumas, mas com os propósitos indecifráveis das moças de Mompox da época. Florentino Ariza não conseguiu  sequer precisar a relação entre elas, embora fossem sem dúvida da mesma família.  A princípio achou que a mais velha podia ser mãe das outras, mas  logo  percebeu que não tinha idade para tanto, e além disso guardava um meio luto que as outras não compartilhavam. Não concebia que uma delas tivesse feito o que fez enquanto  as outras dormiam nos beliches contíguos, e a única suposição razoável era de que aproveitara um momento casual, ou talvez combinado, em que ficara sozinha no camarote. Comprovou que às vezes saíam duas a tomar a fresca até muito tarde enquanto a terceira ficava cuidando da criança, mas certa noite de mais calor saíram as três juntas com o menino adormecido na gaiola de vime coberta com um toldo de gaze.
Apesar daquele emaranhado de indícios, Florentino Ariza se apressou em descartar a possibilidade de que a mais velha das três fosse a autora do ataque, e depois absolveu também a mais moça, que era a mais bela e atrevida. Chegou a isso sem razões válidas, porque a vigilância ansiosa que exercia sobre as três o  induzira a transformar em certeza seu arraigado desejo de que a  amante  instantânea fosse a mãe do menino engaiolado. Tanto o seduziu essa suposição que começou a pensar nela com mais intensidade do que em Fermina Daza, sem fazer caso da evidência de que aquela mãe recente vivia para a criança. Não tinha mais de vinte e cinco anos, e era esbelta e dourada, com umas pálpebras portuguesas que  a tornavam mais distante, e a qualquer homem teriam bastado as meras migalhas   da ternura com que cumulava o filho. Do café da manhã à hora de ir deitar se ocupava  dele  no  salão,  enquanto  as  outras  jogavam  xadrez  chinês,  e       quando conseguia fazê-lo dormir pendurava do teto a gaiola de vime no lado mais fresco do convés. Mas nem quando estava dormindo se descuidava dele, pois balançava então a gaiola cantando entre dentes canções de noiva, enquanto seus pensamentos voavam por cima das privações da viagem. Florentino Ariza se aferrou à ilusão de quem mais cedo ou mais tarde se denunciaria, por um único gesto que  fosse.  Vigiava até a mudança de sua respiração no ritmo do relicário que trazia pendente sobre a blusa de batista, olhando-a sem dissimulação por cima do  livro que fingia  ler, e cometeu a impertinência calculada de trocar de lugar no refeitório para se sentar diante dela. Mas não obteve o mínimo indício de que ela fosse na realidade a depositária da outra metade do seu segredo.
A única coisa que guardou dela, porque sua companheira mais moça a chamou, foi o nome sem sobrenome: Rosalba.
No oitavo dia o navio navegou a duras penas por um turbulento estreito murado entre alcantis de mármore, e depois do almoço atracou em Porto Nare. Ali ficavam  os passageiros que seguiriam viagem para o interior da província de Antioquia, uma das mais afetadas pela nova guerra civil. O porto era formado por meia dúzia de choças de palmas e um botequim de madeira com teto de zinco, e estava protegido por várias patrulhas de soldados descalços e mal armados, porque havia notícias de um plano dos insurretos para saquear os navios. Por trás das casas subia até o céu um promontório de montanhas agrestes com uma cornija de ferradura talhada à beira do precipício. Ninguém a bordo dormiu tranqüilo, mas não houve assalto durante a noite e o porto amanheceu transformado em feira dominical, com índios que vendiam amuletos de marfim vegetal e beberagens de amor, no meio das recuas de mulas preparadas para a ascensão de seis dias até as selvas de orquídeas da cordilheira central.
Florentino Ariza se havia entretido vendo a descarga do navio a lombo de negro, vira baixar os engradados de porcelana, os pianos de cauda para as solteiras de Envigado, e reparou tarde demais que entre os passageiros que ficavam estava o grupo de Rosalba. Viu-as quando já iam montadas à amazona, com botas de mulher e sombrinhas de  cores equatoriais, e então deu o passo que não se atrevera a dar  nos dias anteriores: fez a Rosalba um gesto de adeus com a mão, e as três lhe responderam do mesmo modo, com uma familiaridade que lhe doeu nas entranhas por sua audácia tardia. Viu-as dar a volta por trás do  botequim,  seguidas  pelas mulas carregadas com os baús, as caixas de chapéu e a gaiola da criança, e pouco depois viu-as subindo feito uma fila de formigas carregadeiras à beira do abismo, e desapareceram da sua vida. Então se sentiu só no mundo, e a lembrança de Fermina Daza, que ficara na tocaia durante os últimos dias, lhe desferiu a patada  mortal.
Sabia que ela se casava no sábado seguinte, em bodas de estrondo, e o ser que mais a amava e havia de amá-la por todo o sempre não teria sequer o direito de morrer por ela. Os ciúmes, até agora afogados em pranto, tornaram-se donos de sua alma. Rogava  a  Deus  que  a  centelha da  justiça  divina  fulminasse  Fermina  Daza quando se dispusesse a jurar amor e obediência a um homem que a queria para esposa como um enfeite social, e se extasiava na visão da noiva, ou sua ou de ninguém, estendida de costas sobre as lousas da catedral, a flor de laranjeira nevada pelo orvalho da morte, e a cascata de espuma do véu sobre os mármores fúnebres   de quatorze bispos sepultados diante do altar-mor. No entanto, uma vez consumada a vingança, arrependia-se da própria malvadez, e então via Fermina Daza levantando-se com seu alento de sempre, alheia mas viva, pois não conseguia imaginar o mundo sem ela. Não dormiu mais, e se às vezes se sentava para beliscar alguma coisa era para criar a ilusão de que Fermina Daza estivesse à mesa, ou ao contrário, para lhe recusar a homenagem de estar jejuando por causa dela. Às vezes se consolava com a certeza de que na embriaguez da festa de bodas, e até nas noites febris da lua-de-mel, Fermina Daza havia de padecer um instante, um ao menos, mas um de  todas as maneiras, em que se ergueria em sua consciência o fantasma   do noivo burlado, humilhado, cuspido, o que a faria perder a felicidade.
Na véspera da chegada ao porto de Caracolí, que era o ponto final da viagem, o capitão ofereceu a festa tradicional de despedida, com uma orquestra de sopro formada pelos membros da tripulação, e fogos de artifício coloridos espocando da cabine de comando. O ministro da Grã-Bretanha sobrevivera à odisséia com um estoicismo exemplar, caçando com a câmara fotográfica os animais que não lhe permitiam matar a fuzil, e não houve noite em que não viesse jantar vestido a rigor. Mas na festa final apareceu com o traje escocês do clã MacTavish, e tocou a gaita à vontade e ensinou quem se interessou a dançar suas danças nacionais, e antes de raiar o dia tiveram, que levá-lo quase arrastado para o camarote. Florentino Ariza, prostrado de dor, tinha ido para o canto mais afastado da coberta, onde não chegavam nem notícias da pândega, e enrolou-se no capote de Lotário Thugut tratando de resistir ao calafrio dos ossos. Despertara às cinco da manhã, como desperta o condenado à morte na madrugada da execução, e em todo o sábado nada fizera além de imaginar minuto a minuto cada uma das fases das núpcias de Fermina Daza. Mais tarde, quando regressou a casa, descobriu que havia  embrulhado as datas e que tudo tinha sido diferente de como imaginara, e teve até o bom senso de rir da própria fantasia.
Seja como for, viveu um sábado de paixão que culminou com uma nova crise de febre, quando lhe pareceu que era o momento em que os recém-casados fugiam em segredo por uma porta falsa para se entregarem às delícias da primeira noite.  Alguém que o viu tiritando de febre avisou o capitão, e este abandonou a festa com    o médico de bordo temendo que fosse um caso de  cólera, e o médico o despachou  por precaução para o camarote de quarentena com uma boa carga de brometos. No dia seguinte, porém, quando avistaram as escarpas de Caracolí, a febre desaparecera e tinha o ânimo exaltado, porque no marasmo dos sedativos resolvera de uma vez  por todas e sem mais aquela que mandava ao caralho o radiante futuro do telégrafo  e regressava no mesmo navio à sua velha Rua das Janelas.
Não  foi difícil fazer com  que  o levassem de  regresso em troca do  camarote  que havia cedido ao representante da rainha Vitória. O capitão também procurou dissuadi-lo com o argumento de que o telégrafo era a ciência do futuro. Tanto era assim, lhe disse, que já se inventava um sistema para instalá-lo nos navios. Mas ele resistiu a todo argumento, o capitão acabou por levá-lo de volta, não pela dívida do camarote, e sim porque conhecia seus vínculos reais com a Companhia Fluvial do Caribe.
A viagem de descida se fez em menos de seis dias, e Florentino Ariza se sentiu de novo em casa logo que entraram de madrugada na laguna de Mercedes, e viu a esteira de luzes das canoas pesqueiras ondulando na marola do navio. Era noite ainda quando atracaram na enseada do Menino Perdido, que era o último porto dos vapores fluviais, a nove léguas da baía, antes de dragarem e botarem em condições a antiga passagem dos espanhóis. Os passageiros tinham que esperar até as seis da manhã para abordar a flotilha de chalupas de aluguel que os levariam até seu  destino final. Mas Florentino Ariza estava tão aflito que saiu muito  antes  na  chalupa do correio, cujos empregados o reconheciam como um dos seus. Antes de abandonar o navio cedeu à tentação de um ato simbólico: atirou n'água o petate, e o acompanhou com a vista em meio às tochas dos pescadores invisíveis, até que saiu da laguna e desapareceu no oceano. Tinha certeza de que não precisaria mais dele pelo resto dos seus dias. Nunca mais, porque nunca mais havia de abandonar a cidade de Fermina Daza.
A baía era um remanso ao amanhecer. Por cima da névoa flutuante, Florentino Ariza viu a cúpula da catedral dourada pelas primeiras luzes, viu os pombais nos eirados, e guiando-se por eles localizou o balcão do palácio do Marquês de Casalduero, onde supunha que a mulher da sua desventura dormitava  apoiada  ainda no ombro do esposo saciado. Essa visão o dilacerou, mas não fez nada para reprimi-la, pelo contrário: desfrutou sua dor. O sol começava a esquentar quando a chalupa do correio abriu caminho pelo labirinto de veleiros ancorados, onde os cheiros incontáveis do mercado público, remexidos com a podridão do fundo, se confundiam numa pestilência. A goleta de Riohacha acabava de chegar, e os grupos de estivadores com água pela cintura recebiam os passageiros na amurada e os carregavam até a margem. Florentino Ariza foi o primeiro a tocar terra saltando  da chalupa do correio, e a partir de então não sentiu mais o fedor da  baía mas  apenas o cheiro pessoal de Fermina Daza no recinto da cidade. Tudo cheirava a  ela.
Não voltou à agência do telégrafo. Sua preocupação única eram os folhetins de amor e os volumes da Biblioteca Popular que a mãe continuava a comprar para ele,   e que ele lia e tornava a ler enterrado numa rede até decorá-los. Sequer perguntou onde estava o violino. Reatou os contatos com seus amigos mais  próximos, e  às vezes jogavam bilhar ou conversavam nos cafés ao ar livre debaixo dos arcos da Praça da Catedral, mas não voltou aos bailes dos sábados: não podia concebê-los  sem ela.
Na mesma manhã em que voltou    da viagem inacabada soube que Fermina Daza estava passando a lua-de-mel na Europa, e seu coração atordoado aceitou como fato que ela passaria a morar lá, se não para sempre ao menos por muitos anos. Esta certeza lhe trouxe as primeiras esperanças de esquecimento. Pensava em Rosalba, cuja lembrança se fazia mais ardente à medida que se apaziguavam  as  outras. Foi por essa época que deixou crescer o bigode de guias engomadas que não rasparia pelo resto da vida e que mudou seu modo de ser, e a idéia da substituição do amor o enfiou por caminhos imprevistos. O cheiro de Fermina Daza se foi tornando pouco   a pouco menos freqüente e intenso, e por fim ficou apenas nas gardênias brancas.
Andava à deriva, sem saber por onde continuar a vida, certa noite de guerra em que a célebre viúva de Nazaret se refugiou aterrada em sua casa, porque a dela tinha sido destruída por um canhonaço, durante o sítio do general rebelde Ricardo Gaitán Obeso. Foi Trânsito Ariza que pegou a ocasião no vôo e mandou a viúva para o  quarto do filho, a pretexto de que no seu não havia lugar, mas na verdade com a esperança de que outro amor o curasse daquele que não o deixava viver. Florentino Ariza não tinha tornado a fazer amor desde que foi desvirginado por Rosalba no camarote do navio, e lhe pareceu natural, numa noite de emergência, que a viúva dormisse na cama e ele na rede. Mas ela já tinha tomado a decisão por ele. Sentada na beira da cama em que Florentino Ariza estava deitado sem saber o que fazer, começou a falar com ele sobre a dor inconsolável da morte do marido três anos  antes, e enquanto isso ia despindo e jogando pelos ares os crepes da viuvez, até que não guardou mais em si nem o anel de núpcias. Tirou a blusa de tafetá com  bordados de vidrilho e a jogou através do quarto na poltrona do canto, atirou o corpinho por cima do ombro para o outro lado da cama, arrancou com um puxão  a saia talar de babados, as tiras de cetim das ligas e as fúnebres meias de seda, e espalhou tudo pelo chão, até atapetar o quarto com os últimos farrapos do seu luto. Fez tudo com tanto alvoroço, e com umas pausas tão bem medidas, que cada gesto seu parecia celebrado pelos canhonaços das tropas de assalto, que abalavam  a  cidade até os alicerces. Florentino Ariza procurou ajudá-la com o fecho do porta- seios, mas ela se antecipou com uma manobra destra, pois em cinco anos de devoção matrimonial aprendera a se bastar a si mesma em todos os trâmites do amor, inclusive seus preâmbulos, sem ajuda de ninguém. Por fim  tirou  os  calções de renda, fazendo-os resvalar pernas abaixo com um movimento rápido de nadadora, e ficou em carne viva.
Tinha vinte e oito anos e parira três vezes, mas sua nudez conservava intacta a vertigem de solteira. Florentino Ariza jamais compreenderia como umas roupas de penitente tinham podido dissimular os ímpetos daquela potranca xucra que o desnudou sufocada pela própria febre, como não podia fazer com o esposo para que não a considerasse uma corrompida, e que tratou de saciar num assalto a abstinência férrea do luto, com o estouvamento e a inocência de cinco anos de fidelidade conjugai. Antes dessa noite, e a partir da hora solene em que a mãe a pariu, jamais estivera sequer na mesma cama com um homem que não fosse o esposo morto.

Não se permitiu o mau gosto de um remorso. Pelo contrário. Mantida em vigília pelas bolas de fogo que passavam zunindo por cima dos telhados, continuou evocando até o amanhecer as excelências do marido, lhe censurando  a deslealdade de haver morrido sem ela, e redimida pela certeza de  que  ele jamais  fora tão seu quanto agora, dentro de um caixão cravado com doze cravos de três polegadas, e a dois metros debaixo da terra.
— Sou feliz — disse — porque agora sei com certeza onde está quando  não  está em casa.
Aquela noite tirou o luto, de um golpe, sem passar pelo intervalo ocioso das blusas de florinhas cinzentas, e sua vida se encheu de canções de amor e trajes provocantes com araras e borboletas pintadas, e começou a repartir o corpo com todos aqueles que o pedissem. Derrotadas as tropas do general Gaitán Obeso, ao cabo de sessenta e três dias de sítio, reconstruiu a casa arrasada pelo canhoneio, e lhe pôs um formoso terraço marinho por cima dos cais, martelados em tempo de borrasca pela fúria assanhada da ressaca. Esse foi seu ninho de amor, como o chamava sem ironia, onde recebeu quem lhe agradou, quando quis e como quis,   e sem cobrar de ninguém um só vintém, por achar que eram os homens que lhe faziam o favor. Em casos muito especiais aceitava um presente, desde que não fosse de ouro, e era tão hábil em seus manejos que ninguém teria podido apresentar uma prova concludente de sua conduta imprópria. Só numa ocasião esteve à beira do escândalo público, quando correu o boato de que o arcebispo Dante de Luna não morrera por acidente ao comer um prato de cogumelos equivocado, mas que os comera de propósito, porque ela o ameaçara de se degolar se ele insistisse em seus assédios sacrílegos. Ninguém lhe perguntou se era verdade, nem lhe falou nisso, nem isso mudou nada em sua vida. Era, como dizia ela própria morrendo de rir, a única mulher livre da província.
A viúva de Nazaret nunca faltou aos encontros ocasionais com Florentino Ariza, nem nos seus tempos mais atarefados, e nunca teve pretensões a amar e ser amada, embora sempre nutrisse a esperança de encontrar algo que fosse como o amor, mas sem os problemas do amor. Algumas vezes era ele quem ia à sua casa, e então gostavam de se empapar de espuma de salitre no terraço do mar, contemplando o amanhecer do mundo inteiro no horizonte. Ele se empenhou a fundo em ensinar a ela todas as safadezas que tinha visto outros fazerem pelos buracos nas paredes do hotel suspeito, assim como as fórmulas teóricas apregoadas por Lotário Thugut em suas noites de farra. Incitou-a a se deixar ver enquanto faziam o amor, a trocar a posição convencional do missionário pela da bicicleta de mar, ou do frango assado, ou do anjo esquartejado, e estiveram a pique de acabar com a vida ao se arrebentarem os punhos quando procuravam inventar algo diferente numa rede. Foram lições estéreis. Pois a verdade é que ela era uma aprendiz temerária, mas carecia do talento mínimo para a fornicação dirigida. Nunca entendeu  os  encantos da serenidade na cama, nem teve um instante de inspiração, e seus orgasmos eram inoportunos e epidérmicos: uma trepada triste. Florentino Ariza viveu muito  tempo na ilusão de ser o único, e ela lhe dava o gosto de acreditar nisso, até que teve a sorte de falar dormindo. Pouco a pouco, ouvindo-a dormir, ele foi recompondo aos pedaços a carta de navegação dos seus sonhos, e se meteu por entre as ilhas numerosas de sua vida secreta. Assim ficou informado de que ela não pretendia se casar com ele, mas se sentia ligada à sua vida pela gratidão imensa que lhe devia por tê-la pervertido. Muitas vezes disse a ele:
Adoro você porque você me tornou puta.
Dito de outra maneira, não lhe faltava razão. Florentino Ariza a despojara da virgindade de um casamento convencional, mais perniciosa do que a virgindade congênita e a abstinência da viuvez. Ele lhe ensinara que nada do que se faça na cama é imoral se contribui para perpetuar o amor. E algo que havia de ser desde então a razão de sua vida: convenceu-a de que a gente vem ao mundo com as trepadas contadas, e as que não se usam por qualquer motivo, próprio ou alheio, voluntário ou forçado, se perdem para sempre. O mérito dela foi tomá-lo ao pé da letra. Contudo, porque acreditava conhecê-la melhor do que ninguém, Florentino Ariza não compreendia por que era tão solicitada uma mulher de recursos  tão pueris, que além disso não parava de  falar na cama das  saudades do esposo morto.  A única explicação que lhe ocorreu, e que ninguém pôde desmentir, foi que à viúva  de Nazaret sobrava em ternura o que faltava em artes marciais. Começaram a se ver com menos freqüência à medida que ela alargava seus domínios, e à medida que ele explorava os seus tratando de encontrar alívio para seus velhos padecimentos em outros corações desarvorados, e por fim se esqueceram sem dor.
Foi o primeiro amor de cama de Florentino Ariza. Mas em lugar de fazer com ela uma união estável, como sonhava sua mãe, aproveitavam-no ambos para se lançarem à vida. Florentino Ariza desenvolveu métodos que pareciam inverossímeis num homem como ele, taciturno e macilento, e além disso vestido feito um ancião  de tempos idos. Não obstante, tinha duas vantagens a seu favor. Uma era um olho certeiro para identificar de imediato a mulher que o esperava, ainda que no meio de uma multidão, e mesmo assim a cortejava com cautela, pois sabia que nada causava mais vergonha nem era mais humilhante do que uma negativa. A outra vantagem é que elas o identificavam de imediato como um solitário carente de amor, um indigente das ruas com uma humildade de cão batido que as submetia sem condições, sem pedir nada, sem nada esperar dele, exceto a tranqüilidade de consciência de lhe haverem feito um favor. Eram suas únicas armas, e com elas travou batalhas históricas mas em segredo absoluto, que foi registrando com um rigor de notário num caderno cifrado, colocado entre muitos outros com um título que dizia tudo: Elas. A primeira anotação foi feita com a viúva de Nazaret.  Cinqüenta anos mais tarde, quando Fermina Daza ficou livre de sua sentença sacramentai, tinha uns vinte e cinco cadernos com seiscentos e vinte  e  dois  registros de amores continuados, à parte as aventuras fugazes que não mereceram uma nota de caridade que fosse.

O próprio Florentino Ariza estava convencido, ao fim de seis meses de amores descomedidos com a viúva de Nazaret, de que conseguira sobreviver ao tormento de Fermina Daza. Não acreditou como comentou várias vezes o fato com Trânsito Ariza durante os quase dois anos que durou a viagem de núpcias, e continuou acreditando com uma sensação de libertação sem fronteiras até o domingo de sua  má estrela em que a viu de chofre sem qualquer aviso do coração, quando saía da missa solene pelo braço do marido e assediada pela curiosidade e as lisonjas do seu novo mundo. As mesmas damas de alta linhagem que no  princípio  a menosprezavam e zombavam dela por ser uma adventícia sem nome se esmeravam para que ela se sentisse uma delas, enquanto se embriagavam com seu encanto.* Assumira com tanta naturalidade sua condição de esposa mundana que Florentino Ariza precisou de um instante de reflexão para reconhecê-la. Era outra: a compostura de pessoa adulta, os botins altos, o chapéu de velilho com a pena colorida de algum pássaro oriental, tudo nela era correto e fácil, como  se  tudo tivesse sido seu desde sua origem. Achou-a mais bela e viçosa do que nunca, mas irrecuperável, como nunca, embora não tenha compreendido a razão até notar a curva do seu ventre debaixo da túnica de seda: estava grávida de seis meses. Entretanto, o que mais o impressionou foi que ela e o marido formavam um par admirável, e ambos manejavam o mundo cora tanta fluidez que pareciam flutuar acima dos escolhos da realidade. Florentino Ariza não sentiu ciúme nem  raiva, e  sim um grande desprezo por si mesmo. Sentiu-se pobre, feio, inferior, e não indigno dela como de qualquer outra mulher sobre a terra.
Lá estava ela de volta. Regressava sem nenhum motivo para se arrepender da guinada que tinha dado era sua vida. Pelo contrário: cada vez teve menos, sobretudo depois de sobreviver aos íngremes primeiros anos. Mais meritório ainda no caso dela, que chegara à noite de núpcias ainda nas brumas da inocência. Tinha começado a perdê-la no curso de sua viagem pela província da prima Hildebranda. Em Valledupar compreendeu enfim por que os gaios corriam atrás das galinhas, presenciou a cerimônia brutal dos burros, viu nascerem os bezerros, e ouviu as primas dizerem com naturalidade quais os casais da família que  continuavam  a fazer amor, e quais e quando e por que tinham deixado de fazê-lo embora continuassem morando juntos. Foi então que se iniciou nos amores solitários, com   a rara sensação de estar descobrindo algo que seus instintos tinham sempre sabido, primeiro na cama, com a respiração amordaçada para não se delatar no quarto compartilhado com meia dúzia de primas, e depois a duas mãos, largada à vontade no chão do banheiro, com o cabelo solto e fumando seus primeiros cigarros de tropeiro. Sempre o fez com umas dúvidas de consciência que conseguiu superar depois de casada, e sempre num segredo absoluto, enquanto as primas alardeavam entre si não a quantidade de vezes num dia, como inclusive a forma e o tamanho dos orgasmos. No entanto, apesar da bruxaria daqueles ritos iniciais, continuou carregando a convicção de que a perda da virgindade era um sacrifício sangrento.
De  maneira  que  sua festa de  bodas, uma das  mais  ruidosas  de  fins  do  século

passado, transcorreu para ela nas vésperas do horror. A angústia da lua-de-mel afetou-a muito mais do que o escândalo social do seu casamento com um galã como não havia dois naqueles anos. Logo que começaram a correr os proclamas na missa solene da catedral, Fermina Daza voltou a receber cartas anônimas, algumas com ameaças de morte, mas mal passava os olhos nelas, pois todo o medo de que era capaz estava ocupado pela iminência da violação. Era o modo correto de tratar os missivistas anônimos, embora ela não o fizesse de propósito, numa classe acostumada, pelas reviravoltas históricas, a curvar a cabeça diante dos fatos consumados. Por isso tudo quanto lhe era contrário ia ficando a seu favor à medida que a boda se tornava irrevogável. Ela notava isso nas mudanças graduais do cortejo de mulheres lívidas. degradadas pelo artritismo e os ressentimentos, que um dia se convenciam de que eram vãs suas intrigas e apareciam sem se anunciar na pracinha dos Evangelhos como se estivessem em casa, carregadas de receitas de cozinha e de presentes augurais. Trânsito Ariza conhecia aquele mundo, embora dessa vez o sofresse na própria carne, e sabia que suas clientes apareciam na véspera das festas grandes pedindo-lhe o favor de desenterrar as botijas e emprestar as jóias empenhadas, por vinte e quatro horas, mediante o pagamento de um juro adicional. muito tempo não acontecia como dessa vez, quando as botijas ficaram vazias para que as senhoras de extensos sobrenomes  abandonassem  seus  santuários de sombras para aparecerem radiantes, com suas próprias jóias tomadas de empréstimo, numa boda como não se viu outra de tanto esplendor no resto do século, e cuja glória final foi a de ostentar como padrinho o doutor Rafael  Núfiez, três vezes presidente da república, filósofo, poeta e autor da letra do Hino Nacional, como se podia ver desde então em alguns dicionários recentes. Fermina  Daza  chegou ao altar-mor da catedral pelo braço do pai, a quem o traje de cerimônia conferiu por um dia um ar equívoco de respeitabilidade. Casou-se para sempre perante o altar-mor da catedral  numa missa concelebrada por três  bispos, às  onze da manhã da sexta-feira de glória da Santíssima Trindade, e sem um pensamento de caridade para Florentino Ariza, que a essa hora delirava de febre, morrendo por ela,  à intempérie num navio que não havia de levá-lo ao esquecimento. Durante a cerimônia, e depois na festa, manteve um sorriso que parecia fixado com alvaiade, uma expressão sem alma que alguns interpretaram como o sorriso de zombaria da vitória, mas que na realidade era um pobre recurso para dissimular seu terror de virgem recém-casada.
Por sorte, as circunstâncias imprevistas, junto com a compreensão do marido, resolveram suas três primeiras noites sem dor. Foi providencial. O navio da Compagnie Générale Transatlantique, com o itinerário transtornado pelo mau tempo do Caribe, anunciou com apenas três dias de antecipação que avançava a partida vinte e quatro horas, de modo que não zarparia para La Rochelle no dia seguinte à boda, como estava previsto seis meses, e sim na mesma noite. Ninguém acreditou que aquela alteração não fosse mais uma das tantas surpresas elegantes   da   boda,   pois   a   festa   acabou   depois   da  meia-noite   a   bordo     do

transatlântico iluminado, com uma orquestra de Vieña que estreava naquela viagem as valsas mais recentes de Johann Strauss. De modo que os vários padrinhos ensopados de champanha foram arrastados para terra pelas esposas atribuladas, quando já andavam perguntando aos camareiros se não haveria camarotes disponíveis para que continuasse o pagode até Paris. Os últimos a desembarcar viram Lorenzo Daza diante das tavernas do porto, sentado no chão em plena rua e com a roupa de cerimônia em farrapos. Chorava à goela solta, como choram  os árabes seus mortos, sentado num fio de águas podres que bem podia ter sido um charco de lágrimas.
Nem na primeira noite de mar ruim, nem nas seguintes de navegação aprazível, nem nunca em sua mui longa vida matrimonial aconteceram os atos de  barbárie  que temia Fermina Daza. A primeira, apesar do tamanho do navio e dos luxos do camarote, foi uma repetição horrível da goleta de Riohacha, e o marido foi um médico serviçal que não dormiu um instante para confortá-la, que era a única coisa que um médico demasiado eminente sabia fazer contra o enjôo. Mas a borrasca amainou no terceiro dia, passado o porto da Güayra, e então já  tinham  estado juntos tanto tempo e conversado tanto que se sentiam amigos antigos. A quarta noite, quando ambos retomaram a vida habitual, o doutor Juvenal Urbino se surpreendeu com o fato de sua jovem esposa não rezar antes de dormir. Ela foi sincera: a duplicidade das freiras provocara nela uma resistência aos ritos, mas sua  estava intacta, e aprendera a mantê-la em silêncio. Disse: "Prefiro me entender direto com Deus." Ele compreendeu suas razões, e desde então cada um praticou à sua maneira a mesma religião. Tinham tido um noivado breve, mas bastante informal para a época, pois o doutor Urbino a visitava em sua casa, sem vigilância, todos os dias ao entardecer. Ela não teria permitido que ele lhe tocasse nem na  ponta dos dedos antes da bênção episcopal, mas tampouco ele tentara. Foi na primeira noite de bom mar, já na cama mas ainda vestidos, que ele iniciou as primeiras carícias, e o fez com tanto cuidado que a ela pareceu natural a sugestão de que vestisse a camisola. Foi trocar de roupa no banheiro, mas antes apagou as luzes do camarote, e quando saiu com o camisolão calafetou com panos as  fendas  da porta, para deixar a cama em escuridão absoluta. Enquanto agia, falou de bom humor:
— O que é que você quer, doutor? É a primeira vez que durmo com um desconhecido.
O doutor Juvenal Urbino sentiu que se esgueirava junto a ele feito um bichinho assustado, procurando se manter o mais longe possível num leito onde era difícil estarem dois sem se tocar. Tomou-lhe a mão, fria e crispada de terror, entrelaçou seus dedos nos dela, e quase num sussurro começou a contar suas lembranças de outras viagens por mar. Ela estava tensa outra vez, porque ao voltar à cama  percebeu que ele se desnudara por completo enquanto ela estava no banheiro, o que fez renascer seu terror do passo seguinte. Mas o passo seguinte demorou várias horas,  pois   o   doutor   Urbino   continuou   falando   muito   devagar,  enquanto  se apoderava milímetro a milímetro da confiança de seu corpo. Falou-lhe de Paris, do amor em Paris, dos namorados de Paris que se beijavam na rua, no ônibus, nos terraços floridos dos cafés abertos ao hálito de fogo e aos acordeões lânguidos do verão, e faziam o amor de pé nos cais do Sena sem que ninguém os incomodasse. Enquanto falava nas sombras, acariciou-lhe a curva do pescoço com a ponta dos dedos, lhe acariciou a penugem de seda dos braços, o ventre evasivo, e  quando  sentiu que a tensão cedera, fez uma primeira tentativa de lhe levantar a camisola, mas ela o deteve com um impulso típico do seu caráter. Disse: "Sei fazer isso sozinha." Tirou-a, de fato, e depois ficou tão imóvel que o doutor Urbino poderia pensar que já não estava ali, não fosse o calor de sol do seu corpo nas  trevas.
Ao fim de um momento tornou a lhe agarrar a mão, e então sentiu-a quente e solta, embora úmida ainda de um orvalho suave. Ficaram outro momento silenciosos e imóveis, ele aguardando a ocasião para o passo seguinte, ela a esperá-  lo sem saber por onde, enquanto a escuridão se ampliava com sua respiração cada vez mais intensa. Ele a soltou de repente e deu o salto  no  vácuo: umedeceu  na língua a ponta do dedo médio e lhe tocou apenas no bico desprevenido do seio, e ela sentiu uma descarga de morte, como se tocada num nervo vivo. Alegrou-se de estar às escuras para que ele não visse o rubor esbraseado que lhe fez tremer até as raízes do crânio. "Calma", disse ele, muito calmo. "Não esqueça que os conheço." Sentiu que ela sorria, e sua voz soou doce e nova nas trevas.
   Lembro muito bem — disse — e ainda não passou minha raiva.
Então ele soube que tinham passado o cabo da boa esperança, e tornou a pegar- lhe na mão grande e macia, e cobriu-a de beijinhos órfãos, primeiro o metacarpo áspero, os grandes dedos clarividentes, as unhas diáfanas, e depois o hieróglifo do seu destino na palma suada. Ela não soube como foi que sua mão chegou até o peito dele, e esbarrou em algo que não soube adivinhar o que fosse. Ele disse: "É um escapulário." Ela lhe acariciou os pêlos do peito, e depois agarrou o matagal completo com os cinco dedos para arrancá-lo pela raiz. "Mais forte", disse ele. Ela tentou, até o ponto em que sabia que não ia machucá-lo, e depois foi sua mão que buscou a dele perdida nas trevas. Mas ele não deixou que os dedos de novo se entrelaçassem, agarrando-lhe o pulso e conduzindo a mão dela ao longo do próprio corpo com uma força invisível mas muito bem dirigida, até que ela sentiu o sopro ardente de um animal em carne viva, sem forma corporal, mas ansioso e arvorado. Ao contrário do que ele imaginou, mesmo ao contrário do que ela própria teria imaginado, não retirou a mão, nem a deixou inerte onde ele a pôs, mas, encomendando-se de corpo e alma à Santíssima Virgem, cerrou os  dentes  com  medo de rir da própria loucura, e começou a identificar pelo tato o inimigo empinado, tomando conhecimento do seu tamanho, a força do seu talo, a extensão de suas asas, assustada com sua determinação mas compadecida de sua solidão, tornando-o seu com uma curiosidade minuciosa que alguém menos experiente que seu esposo teria confundido com carícias. Ele fez apelo às suas últimas forças para resistir à vertigem do escrutínio mortal, até que ela o largou com uma graça  infantil, como se o tivesse jogado no lixo.
   Nunca pude entender como é esse aparelho — disse.
Então ele o explicou a sério com seu método magistral, enquanto lhe carregava a mão pelos lugares que mencionava, e ela a deixava entregue com uma obediência de aluna exemplar. Ele sugeriu num momento propício que tudo aquilo era mais fácil com a luz acesa. Ia acendê-la, mas ela lhe deteve o braço, dizendo: "Eu vejo melhor com as mãos." Na realidade queria acender a luz, mas queria fazê-lo ela própria  e não recebendo ordens, e assim foi. Ele a viu então em posição fetal, e além do mais coberta com o lençol, sob a claridade repentina. Mas viu-a agarrar outra vez sem afetações o animal da sua curiosidade, virou-o do direito e do avesso, observou-o com um interesse que já começava a parecer mais do que científico, e disse em conclusão: "Para de feio, mais feio que o das mulheres." Ele concordou, e assinalou outros inconvenientes mais graves que a feiúra. Disse: "É como o filho mais velho, que a gente passa a vida trabalhando para ele, sacrificando tudo por ele, e na hora da verdade acaba fazendo o que lhe na veneta." Ela continuou a examiná-lo, perguntando para que servia isso, e para que servia aquilo, e quando se considerou bem informada sopesou-o com ambas as mãos, como para concluir que nem pelo peso valia a pena, e o deixou cair com um muxoxo de  menosprezo.
   Além de tudo, acho que tem muita coisa de sobra —  disse.
Ele ficou perplexo. A proposta original de sua tese de graduação tinha sido essa:   a conveniência de simplificar o organismo humano. Parecia-lhe antiquado, com muitas funções inúteis ou repetidas que foram imprescindíveis para outras idades   do gênero humano, mas não para a nossa. Sim: podia ser mais simples e por isso mesmo menos vulnerável. Concluiu: "É coisa que Deus pode fazer, sem dúvida, mas todas as maneiras seria bom deixá-lo estabelecido em termos teóricos." Ela riu divertida, de um modo tão natural que ele aproveitou a ocasião para abraçá-la e lhe deu o primeiro beijo na boca. Ela correspondeu, e ele continuou a lhe dar beijos muito suaves nas faces, no nariz, nas pálpebras, enquanto deslizava a mão por baixo do lençol, e lhe acariciou o púbis redondo e liso: um púbis de japonesa. Ela não lhe afastou a mão, mas conservou a sua em estado de alerta, caso ele avançasse um  passo mais.
   Não vamos continuar com a aula de medicina —  disse.
   Não — disse ele. — Esta vai ser de amor.
Então, tirou o lençol de cima dela e ela não não se opôs como o atirou para longe do beliche com um golpe rápido dos pés, pois já não agüentava o calor. Mais   do que parecia quando ela estava vestida, seu corpo era ondulante  e  elástico, com um cheiro próprio de animal montes que permitia distingui-la entre todas as mulheres do mundo. Indefesa à plena luz, uma onda de sangue fervente lhe subiu à cara, e a única coisa que lhe ocorreu como disfarce foi se grudar ao pescoço do seu homem, e beijá-lo a fundo, bem forte, até que gastaram no beijo todo o ar de respirar.

Ele tinha consciência de que não a amava. Casara-se porque gostava da sua altivez, sua seriedade, sua força e também por um tico de vaidade, mas enquanto ela o beijava pela primeira vez teve a certeza de  que  não haveria nenhum obstáculo  para inventar um bom amor. Não falaram a respeito nessa primeira noite em que falaram de tudo até o amanhecer, nem falariam nunca. Mas de um modo geral, nenhum dos dois se equivocou.
Ao despontar do dia, quando adormeceram, ela continuava virgem, mas não o seria por muito tempo. A noite seguinte, com efeito, depois que ele lhe ensinou a dançar as valsas de Vieña debaixo do céu sideral do Caribe, ele teve que ir ao banheiro depois dela, e quando voltou ao camarote encontrou-a esperando por ele nua na cama. Então foi ela quem tomou a iniciativa, e se entregou sem medo, sem dor, com a alegria de uma aventura de alto mar, e sem vestígios de cerimônia sangrenta além da rosa da honra no lençol. Ambos o fizeram bem, quase como um milagre, e continuaram a fazê-lo bem de  noite e de  dia e cada vez melhor no resto   da viagem, e quando chegaram a La Rochelle se entendiam como amantes  antigos.
Permaneceram dezesseis meses na Europa, com base em Paris, e  fazendo viagens curtas pelos países vizinhos. Durante esse tempo fizeram amor todos  os  dias, e mais de uma vez nos domingos de inverno, quando ficavam até a hora do almoço preguiçando na cama. Ele era homem de bons ímpetos, além de bem treinado, e ela não fora feita para aceitar vantagem de ninguém, de maneira que tiveram que se conformar com o poder compartilhado na cama. Depois  de  três meses de amores febris ele compreendeu que um dos dois era estéril, e ambos se submeteram a exames severos no Hospital de La Salpêtrière, onde ele fora interno. Foi uma diligência árdua mas infrutífera. Contudo, quando menos o esperavam, e sem nenhuma mediação científica, aconteceu o milagre. Em fins do ano seguinte, quando voltaram a casa, Fermina estava grávida de seis meses, e se julgava a  mulher mais feliz da terra. O filho tão desejado por ambos, que nasceu sem novidades sob o signo de Aquário, foi batizado em homenagem ao avô morto de cólera.
Era impossível saber se foi a Europa ou o amor que os tornou diferentes, pois as duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Ambos estavam mudados, e  a fundo,  não só em si mesmos como em relação aos demais, como percebeu Florentino Ariza ao vê-los à saída da missa duas semanas depois da volta, naquele domingo da sua desgraça. Voltaram com uma concepção nova da vida, carregados de novidades do mundo, e prontos para mandar. Ele com as primícias da literatura, da música, e sobretudo as de sua ciência. Trouxe uma assinatura de Le Fígaro, para não perder o fio da realidade, e outra da Revue des Deux Mondes para não perder o fio da poesia. Tinha feito além disso um acordo com seu livreiro de Paris para receber as novidades dos escritores mais lidos, entre eles Anatole France e Pierre Loti, e daqueles de que gostava mais, como Remy de Gourmont e Paul Bourget, mas em nenhum caso Émile Zola, que lhe parecia insuportável, apesar de sua valente irrupção  no  julgamento de  Dreyfus. mesmo livreiro  se comprometeu  a mandar pelo correio as partituras mais sedutoras do catálogo de Ricordi, sobretudo de música de câmara, para manter o título bem ganho por seu pai de primeiro promotor de concertos na cidade.
Fermina Daza, sempre contrária aos rigores da moda, trouxe seis baús com roupas de tempos diversos, pois não a convenceram as grandes marcas.  Tinha  estado nas Tulherias, em pleno inverno, para o lançamento da coleção de Worth, o indiscutível tirano da alta costura, e a única coisa que conseguiu foi uma bronquite que a derrubou por cinco dias na cama. Laferrière lhe pareceu menos pretensioso e voraz, mas sua decisão sábia foi arrebanhar o que mais lhe agradava nas lojas de liquidação, ainda que o esposo jurasse aterrado que eram roupas de defunto. Da mesma forma, trouxe quantidades de sapatos italianos sem marca, que preferiu aos afamados e extravagantes de Ferry, trouxe uma sombrinha de Dupuy,  vermelha como os fogos do inferno, que deu muito que escrever aos nossos assustadiços cronistas sociais. Só comprou um chapéu de Madame Reboux,  mas  em compensação encheu um baú de cachos de cerejas artificiais, ramalhetes de quantas flores de feltro conseguiu encontrar, feixes de penas de avestruz, morriões de pavões, rabos de gaios asiáticos, faisões inteiros, colibris, e uma  variedade incontável de pássaros exóticos dissecados em pleno vôo, em pleno grito, em plena agonia: tudo quanto servira nos últimos vinte anos para que os mesmos chapéus parecessem outros. Trouxe uma coleção de leques de diversos países do mundo, e  um diferente e apropriado para cada ocasião. Trouxe uma essência perturbadora escolhida entre muitas na perfumaria do Bazar de La Charité, antes que os ventos primaveris dispersassem suas cinzas, mas usou-a uma vez só, porque se  desconheceu a si mesma com o perfume trocado. Trouxe também um estojo de cosméticos que era a última novidade no mercado da sedução, e foi a primeira mulher que apareceu com ele nas festas, quando o simples ato de  retocar o rosto  em público era considerado indecente.
Traziam, ademais, três lembranças inesquecíveis: a estréia sem precedentes dos Contos de Hoffmann, em Paris, o incêndio pavoroso de quase todas as gôndolas de Veneza diante da Praça de São Marcos, que haviam presenciado com o coração dolorido da janela de seu hotel, e a visão fugaz de Oscar Wilde na primeira nevada   de janeiro. Mas no meio dessas e de tantas outras lembranças, o doutor Juvenal Urbino conservava uma que sempre lamentou não compartilhar com a esposa, pois vinha de seus tempos de estudante solteiro em Paris. Era a lembrança de Victor Hugo, que desfrutava aqui de uma celebridade comovente a margem de seus livros, porque alguém disse que ele tinha dito, sem que jamais alguém o ouvisse dizer na realidade, que nossa Constituição não era para um país de homens e sim de anjos. Desde então foi-lhe rendido um culto especial, e a maioria dos numerosos compatriotas que viajavam para a França morria de vontade de vê-lo. Uma meia dúzia de estudantes, entre eles Juvenal Urbino, montaram guarda por um tempo diante da sua residência na avenida Eylau, e nos cafés onde se dizia  que  ele  ia chegar sem  falta e  nunca  chegou, e  por último tinham  solicitado  por escrito  uma

audiência privada, em nome dos anjos da Constituição de Rionegro. Nunca receberam resposta. Um dia qualquer, Juvenal Urbino  passou  por acaso  na frente do Jardim do Luxemburgo e o viu sair do Senado com uma mulher moça que lhe dava o braço. Achou-o muito velho, movendo-se a duras penas, com a barba e o cabelo menos radiantes que nos retratos, e dentro de um sobretudo que parecia de alguém mais corpulento. Não quis estragar a lembrança com um cumprimento impertinente: bastava essa visão quase irreal que havia de durar-lhe a vida toda. Quando voltou casado a Paris, em condição de vê-lo de um modo mais  formal,  Victor Hugo já morrera.
Como consolo, Juvenal e Fermina traziam a lembrança compartilhada de uma tarde de neves em que ficaram intrigados pelo grupo que desafiava a tempestade diante de uma pequena livraria do Boulevard des Capucines, e era que Oscar Wilde estava lá dentro. Quando por fim saiu, elegante deveras, mas talvez demasiado consciente disso, o grupo o cercou para pedir autógrafos em seus livros. O doutor Urbino se detivera para vê-lo, mas sua impulsiva esposa quis atravessar  o  bulevar para que ele autografasse a única coisa que  lhe pareceu  apropriada  à falta de um livro: sua formosa luva de gazela, grande, macia, suave, e da mesma cor de sua pele de recém-casada. Estava certa de que um homem tão refinado ia apreciar aquele gesto. Mas o marido se opôs com firmeza, e quando ela procurou fazê-lo apesar de suas razões, ele sentiu que não sobreviveria à  vergonha.
   Se atravessar essa rua — lhe disse — ao voltar aqui você me encontrará  morto.
Era algo natural a ela. Antes de um ano de casada se movimentava pelo mundo com o mesmo desembaraço com que o fazia desde menina no morredouro de São João da Ciénaga, como se tivesse nascido sabendo, e tinha uma facilidade de trato com os desconhecidos que deixava o marido perplexo, e um talento misterioso para se entender em castelhano com quem fosse e em qualquer parte. "A gente precisa Saber os idiomas quando vai vender alguma coisa", dizia com risos de troça. "Mas quando vai comprar, todo o mundo um jeito de entender." Era difícil imaginar alguém que tivesse assimilado tão depressa e com tanta animação a vida cotidiana  de Paris, que aprendeu a amar na lembrança apesar de suas chuvas eternas. No entanto, quando regressou a casa esmagada por tantas experiências juntas, cansada de viajar e meio sonolenta com a gravidez, a primeira coisa que lhe perguntaram no porto foi o que achara das maravilhas da Europa, e ela resumiu dezesseis meses de ventura com três palavras, no seu modo de falar caribe:

   É mais onda.

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