O DOUTOR JUVENAL URBINO
tinha sido aos vinte e oito anos o mais cobiçado dos solteiros. Voltava de uma longa estada em Paris, onde fez estudos
superiores de medicina e cirurgia, e logo que pisou terra firme deu mostras definitivas de que não perdera um minuto de seu tempo.
Voltou muito mais atilado e senhor de sua índole, e se nenhum dos seus companheiros de geração parecia tão severo e tão sábio quanto ele em sua ciência, também nenhum havia, por outro lado, que dançasse melhor a música
da moda ou improvisasse melhor ao
piano. Seduzidas por suas graças pessoais e pela certeza de sua fortuna familiar, as moças do seu meio faziam rifas secretas no jogo de ver quem
o prenderia, e ele também
fazia suas apostas em relação às moças, mas conseguiu manter-se em estado de graça,
intacto e tentador, até que sucumbiu sem
resistência aos encantos plebeus de Fermina
Daza.
Gostava de dizer
que aquele amor tinha sido fruto de um equívoco
clínico. Ele mesmo custava a crer que tivesse acontecido, menos ainda naquele momento de sua vida, quando todas as suas reservas passionais se concentravam na sorte de sua cidade,
da qual dissera com demasiada
freqüência e sem pensar duas vezes que não havia outra igual no mundo. Em
Paris, passeando de braço dado com uma
noiva casual num outono tardio, quase não conseguia conceber felicidade mais pura que
a daquelas tardes douradas, com cheiro rústico das castanhas nos
braseiros, os acordeões sentimentais, os
namorados insaciáveis que não acabavam de se beijar nunca na calçada dos cafés, mas mesmo
assim dizia a si mesmo com a mão no coração que não se dispunha a trocar por tudo aquilo um único instante do seu Caribe em abril. Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas
e que graças a esse artifício conseguimos suportar o passado. Mas quando
voltou a ver do convés do navio o promontório branco do bairro colonial, os urubus imóveis nos telhados, a roupa dos
pobres estendida a secar nas sacadas, compreendeu até que ponto tinha sido uma vítima fácil das burlas caritativas da saudade.
O navio abriu passagem na baía através de uma colcha
flutuante de animais afogados, e em sua maioria os passageiros se abrigaram nos camarotes fugindo à
pestilência. O jovem médico desceu a ponte do
navio vestido de alpaca
perfeita, guarda-pó sobre o terno,
com uma barba de Pasteur juvenil e o cabelo repartido em risca nítida e pálida, e com bastante
domínio de si para dissimular o
nó na garganta que não era de tristeza e sim de terror. No molhe quase
deserto, guardado por soldados
descalços e sem farda, esperavam-no
as irmãs e a mãe com os amigos mais queridos. Achou todos macilentos e sem futuro, apesar dos ares mundanos, e
falavam da crise e da guerra civil como algo remoto e alheio, mas todos tinham um tremor evasivo na voz e uma incerteza nas pupilas que desmentiam as
palavras. Quem mais o comoveu foi a mãe, uma mulher ainda moça que se havia
imposto na vida com sua elegância e seu ímpeto social, e que agora murchava a
fogo lento na aura de cânfora
dos seus crepes de viúva.
Ela sem dúvida se reconheceu no constrangimento do filho,
tomando a dianteira de lhe perguntar em defesa própria por
que vinha ele com essa pele transparente como parafina.
—
É a vida, mãe — disse ele. —
Fica-se verde em Paris.
Pouco depois, derretendo-se de calor junto a ela na carruagem fechada, não agüentou mais
a inclemência da realidade que se metia aos
borbotões pelo postigo. O mar parecia de cinza, os antigos palácios de marqueses
estavam a ponto de sucumbir à proliferação dos mendigos, e era
impossível encontrar a fragrância ardente dos jasmins por trás das emanações mortais dos esgotos abertos.
Tudo lhe pareceu mais mesquinho do
que quando partira, mais indigente e lúgubre, e havia tantas ratazanas
famintas na lixeira das ruas que os
cavalos do carro tropeçavam assustados.
Do longo caminho do porto até sua casa, no coração do bairro dos Vice- Reis, não
viu nada que lhe parecesse digno de suas saudades.
Derrotado, virou a cabeça para que a
mãe não o visse, e se pôs a chorar em silêncio.
O antigo palácio do Marquês
de Casalduero,
residência histórica dos Urbino de Ia Calle,
não era o que se mantinha mais
altivo no meio do naufrágio. O doutor Juvenal Urbino fez essa descoberta
com o coração em pedaços logo que
entrou no saguão tenebroso e viu o repuxo poeirento do jardim interior, e os canteiros sem flores por onde
andavam lagartos, e reparou que faltavam muitas
lajes de mármore, e que outras estavam partidas, na vasta
escada de balaústres de cobre
que levava aos aposentos
principais. Seu pai, um médico mais
abnegado do
que eminente, tinha morrido na epidemia de cólera asiático que assolou a população seis anos antes, e com ele morrera
o espírito da casa. Dona Blanca, a
mãe, sufocada por um luto previsto para ser
eterno, substituíra por novenas
vespertinas os célebres saraus líricos e os concertos de câmara do marido
morto. As duas irmãs, contra suas graças naturais e sua vocação festiva, eram carne de convento.
O doutor Juvenal Urbino não dormiu nem um instante
da noite da chegada, assustado pela escuridão e o silêncio, e rezou três terços ao Espírito Santo e quantas orações
ainda sabia para conjurar
calamidades e naufrágios c toda
classe de ameaças da noite, enquanto uma saracura que se enfiou pela porta mal fechada cantava a cada hora, na hora em ponto, dentro do quarto.
Foi atormentado pelos gritos alucinados das loucas no vizinho manicômio da Divina
Pastora, a gota inclemente da talha na bacia com uma ressonância que enchia o âmbito da casa, os passos da saracura perdida no quarto, seu medo
congênito do escuro, a presença invisível do pai morto na vasta
mansão adormecida. Quando a saracura cantou as cinco, junto com os gaios da vizinhança,
o doutor Juvenal Urbino se encomendou de corpo
e alma à Divina Providência, porque não se
sentia com ânimo para viver um dia mais em
sua pátria de escombros. Contudo, o afeto dos seus,
os domingos campestres, os agrados cobiçosos
das solteiras
de sua classe acabaram por mitigar as amarguras de primeira impressão.
Foi pouco a pouco se habituando aos
bochornos de outubro, aos odores excessivos, aos juízos prematuros dos amigos, ao amanhã veremos, doutor, não se preocupe,
e terminou por se render aos
sortilégios do hábito. Não tardou a conceber uma explicação fácil para sua entrega.
Aquele era seu mundo, disse a si mesmo,
o mundo triste e opressivo que Deus
lhe destinara, e a ele se devia.
A primeira coisa que fez
foi tomar posse do consultório
do pai. Conservou no lugar os móveis ingleses, duros e sérios, cujas madeiras suspiravam com os
gelos do amanhecer, mas despachou para o sótão os tratados da ciência vice-reinal e da medicina romântica, e colocou nas estantes cobertas de vidro os da nova escola da
França. Tirou da parede os cromos desbotados, com exceção
daquele em que se vê o médico disputando à morte uma doente nua, e o juramento hipocrático impresso em letras
góticas, e pendurou em seus lugares, ao lado do diploma único do pai, os muitos e muitos variados que obtivera com qualificações
ótimas em diferentes escolas da Europa.
Tratou de impor
critérios atualizados no Hospital da Misericórdia,
mas não
achou a tarefa tão fácil como imaginara em seus entusiasmos juvenis, pois a bolorenta casa de
saúde se agarrava às
superstições atávicas, como a de colocar
os pés das camas em potes com água para impedir que as doenças subissem,
ou a de exigir traje de etiqueta e luvas de camurça na sala de cirurgia,
visto que se dava por axiomático que a elegância era condição essencial da
assepsia. Não podiam suportar
que o jovem recém-chegado provasse a urina do doente para descobrir a presença
de açúcar, que citasse Charcot
e Trousseau como se fossem seus companheiros de quarto, que fazia na aula severas advertências sobre os riscos
mortais das vacinas e por outro lado
nutria uma fé suspeita no novo
invento dos supositórios. Esbarrava em tudo:
seu espírito renovador, seu civismo maníaco, seu humor
sutil numa terra de famosos
chalaceiros, todas as suas virtudes
mais apreciáveis suscitavam o receio dos colegas mais velhos e as troças que pelas costas lhe faziam os jovens.
Sua obsessão era
o perigoso estado sanitário da cidade. Fez apelos às instâncias
superiores para que desativassem as
cloacas espanholas, que eram um imenso viveiro de
ratos, e construíssem em seu lugar esgotos fechados cujos despejos
não desembocassem na enseada do mercado,
como sempre ocorrera, e sim em algum
desaguadouro distante. As casas coloniais bem equipadas tinham
latrinas com fossas sépticas, mas dois terços da população amontoada em barracas à margem dos charcos faziam suas necessidades ao ar livre. As fezes
secavam ao sol, viravam
poeira, e eram respiradas por iodos com regozijos natalinos nas frescas e
venturosas brisas de dezembro.
O doutor Juvenal Urbino
criou na Municipalidade um curso obrigatório para ensinar os pobres a construírem suas próprias latrinas.
Lutou em vão para que o lixo não fosse atirado
aos manguezais, convertidos há séculos em
tanques de putrefação, e para que fosse
recolhido pelo menos duas vezes por dia
e incinerado em algum lugar despovoado.
Tinha consciência da ameaça
mortal que era a água de beber. A
mera idéia de construir um aqueduto parecia fantástica, pois os que
teriam podido impulsioná-la
dispunham de cisternas subterrâneas onde se
armazenavam debaixo de uma espessa nata de limo as águas chovidas durante anos. Entre
os móveis mais apreciados da época estavam as talhas de madeira lavrada cujos filtros de pedra
gotejavam dia e noite para dentro de bacias. Para impedir que alguém bebesse do próprio
jarro de alumínio
com que se apanhava a água, este tinha as bordas denteadas feito a
coroa de um rei de brincadeira.
A água era vítrea e fresca na penumbra da argila
cozida, e deixava na boca um sabor de floresta.
Mas o doutor Juvenal Urbino não caía nesses
embustes de purificação, pois
sabia que apesar de tantas precauções o fundo das talhas era um refúgio de vermes.
Havia passado as vagarosas horas da infância
a contemplá-los com um assombro quase
místico, convencido como tanta gente naquele tempo de que esses vermes eram
alminhas, criaturas sobrenaturais que
cortejavam donzelas nos sedimentos das águas pasmadas, e eram capazes de furiosas
vinganças de amor. Tinha visto
quando menino os escombros da casa de
Lázara Conde, uma professora
que se atreveu a fazer pouco dessas alminhas, e tinha visto a esteira
de vidro partido na rua e o montão de pedras que atiraram durante três dias e três noites contra suas janelas. De maneira
que passou muito tempo até aprender
que os vermes eram na realidade as larvas dos pernilongos, mas aprendeu para nunca mais esquecer, porque desde
então compreendeu que não só eles como muitas
outras alminhas danadas podiam
passar intactos através dos nossos ingênuos filtros de pedra.
À água das cisternas
se atribuiu durante muito tempo, e com muita honra, a hérnia rio escroto que tantos homens da
cidade suportavam não só sem pudor como inclusive com certa insolência patriótica.
Quando Juvenal Urbino ia à escola primária
não conseguia reprimir um arrepio de horror ao ver os potrosos sentados à porta de suas casas
nas tardes de calor, abanando o testículo enorme como se tivessem uma criança adormecida entre as pernas. Dizia-se que a hérnia emitia um
pio de pássaro lúgubre nas noites de tempestade
e se retorcia com uma dor insuportável se queimavam por perto uma pena
de
urubu, mas ninguém se queixava
de tais percalços porque uma hérnia grande
e bem tratada se ostentava antes
de mais nada como um apanágio de homem. Quando o
doutor Juvenal Urbino voltou da Europa
já conhecia muito bem a falácia
científica de tais crendices, mas
estavam tão arraigadas na
superstição local que muitos se opunham ao enriquecimento mineral da água das
cisternas por temerem tirar
dela a virtude de causar uma
hérnia nobilitante.
Tanto quanto com as impurezas da água, alarmava-se o doutor Juvenal Urbino com o estado higiênico
do mercado público, um vasto
descampado fronteiro à baía das Animas, onde atracavam os veleiros das
Antilhas. Um viajante ilustre da época o descreveu como um dos mais variados do mundo. Era rico, sem dúvida, profuso e ruidoso, mas era também talvez o mais
assustador. Assentava-se em sua própria
cloaca, à mercê das veleidades
da maré, e era ali que os arrotos da baía devolviam à terra as imundícies dos
esgotos. Também se atiravam ali os restos do matadouro contíguo, cabeças decepadas,
vísceras podres, e estéreo de animais, que ficavam boiando ao sol e ao sereno
num pântano de sangue. Os urubus os disputavam com os
ratos e os cachorros numa contenda
perpétua, entre os veados e os capões saborosos que vinham de Sotavento e se dependuravam nos barrotes dos barracões, e os legumes
primaveris de Arjona expostos em cima de
esteiras, no chão.
O doutor Juvenal Urbino queria sanear o lugar, queria
que pusessem o matadouro em outra parte, que construíssem um mercado
coberto com cúpulas de vidraças como
o que conhecera nas antigas feiras de Barcelona,
onde as provisões eram tão vistosas e limpas que dava para comê-las. Mas mesmo os
mais compreensivos dos seus amigos
notáveis se compadeciam de sua paixão
ilusória. Eram assim: passavam a vida
proclamando o orgulho de sua origem, os méritos históricos da cidade, o valor de suas relíquias, seu heroísmo
e sua beleza, mas eram cegos ao
caruncho dos anos. Enquanto que o doutor Juvenal Urbino lhe tinha amor bastante para vê-la
com os olhos da verdade.
—
Muito nobre será esta cidade
— dizia — se há quatrocentos
anos procuramos acabar com ela e
ainda não conseguimos.
Estavam quase, no entanto. A epidemia de cólera morbo, cujas primeiras vítimas
tombaram fulminadas nos charcos do mercado,
causara em onze semanas a maior
mortandade da nossa história. Até então, alguns mortos insignes eram sepultados
debaixo das lajes das igrejas, na vizinhança esquiva dos
arcebispos e dignitários, e os menos ricos eram enterrados nos pátios dos conventos. Os pobres
iam para o cemitério colonial, numa colina ventosa separada da cidade por um canal de águas áridas,
cuja ponte de argamassa tinha uma marquise com um letreiro esculpido por ordem de
algum prefeito clarividente: Lasciate ogni speranza voi ch 'entrate. Nas duas primeiras semanas do cólera o cemitério transbordou, e não
ficou um único lugar nas igrejas,
apesar de haverem passado ao ossuário
comum os restos carcomidos de numerosos próceres sem nome. O ar da catedral
ficou rarefeito com os vapores das criptas
mal lacradas, e suas portas só vieram a se abrir três anos depois, por volta da época em que Fermina
Daza viu Florentino Ariza de perto
pela primeira vez na missa do galo. Na
terceira semana o claustro do convento de Santa Clara ficou à cunha até
nas alamedas, e foi preciso habilitar
como cemitério o horto da comunidade,
que era duas vezes maior. Ali
escavaram sepulturas profundas para enterrar
em três níveis, às pressas e sem caixões,
mas foi preciso desistir delas porque
o solo revolvido ficou feito uma
esponja que ressumava debaixo
dos pés
uma sangueira nauseabunda.
Determinou-se então prosseguir com os
enterramentos em A Mão de Deus,
uma fazenda de gado de corte a menos de uma légua da cidade, que mais tarde foi consagrada
como Cemitério Universal.
A partir do momento em
que se afixou o édito do cólera, no quartel da guarnição local começou o disparo de um tiro
de canhão a cada quarto de hora, de dia e
de
noite, de acordo com a
superstição cívica de que a pólvora
purificava o ambiente. O cólera se encarniçou
muito mais contra a população negra,
por ser a mais numerosa e pobre, mas na realidade não teve
contemplação com cores nem linhagens.
Parou de
chofre como havia começado, e nunca se
soube o número de suas vítimas,
não porque fosse impossível
estabelecê-lo, e sim porque uma de nossas virtudes
corriqueiras era o pudor das próprias desgraças. O doutor Marco Aurélio
Urbino, pai de Juvenal, foi um herói
civil daqueles dias infaustos, e
também sua vítima mais notável. Por
determinação oficial concebeu e dirigiu em pessoa
a estratégia sanitária, mas de sua própria iniciativa acabou por intervir em todos os assuntos da ordem social, a ponto de que nos instantes mais críticos da peste não parecia existir nenhuma autoridade mais alta do que
a sua. Anos depois, revendo a crônica
daqueles dias, o doutor Juvenal Urbino comprovou que o método do pai tinha
sido mais caritativo do que
científico, e que de muitas maneiras era contrário à razão,
favorecendo assim em grande parte a voracidade da peste. Fez essa constatação com a com paixão dos filhos que a vida foi convertendo
pouco a pouco em pais dos próprios
pais, e pela primeira vez doeu-lhe não ter estado ao lado do seu na
solidão dos erros que cometeu. Mas
não lhe regateou os méritos: a diligência e a abnegação, e
sobretudo sua valentia pessoal,
tornaram-no digno das muitas homenagens que lhe prestaram quando a cidade se
restabeleceu do desastre, e seu nome
se inseriu com justiça entre os
de
tantos outros próceres de outras guerras menos recomendáveis.
Não desfrutou sua glória.
Quando reconheceu em si mesmo os transtornos irreparáveis que tinha
visto e lamentado nos outros, sequer tentou travar uma batalha
inútil,
limitando-se a se afastar
do mundo para não contaminar ninguém. Fechado
sozinho num quarto de serviço do Hospital da Misericórdia, surdo ao chamado dos colegas e à súplica dos seus, alheio
ao horror dos pestíferos que agonizavam no assoalho dos corredores apinhados, escreveu à esposa e aos filhos uma
carta de amor febril, de gratidão por haver existido, na qual revelava quanto e com
quanta avidez amara a vida. Foi um adeus
de vinte folhas desatinadas nas quais se notavam
os progressos do mal pelo declínio da escrita, e não era preciso ter conhecido
quem escrevera aquilo para saber que a assinatura foi colocada ali com o último suspiro. De acordo com
suas disposições, o corpo cinzento se confundiu no cemitério comum, e
não foi visto por ninguém entre os que o haviam amado.
O doutor Juvenal Urbino recebeu o telegrama três dias
depois em Paris, durante um jantar de
amigos, e fez um brinde com champanha à memória do pai.
Disse: "Era um homem bom." Mais tarde haveria de criticar a si mesmo por sua
falta de maturidade: negaceava
com a realidade para não chorar. Mas
três semanas depois recebeu uma cópia da carta póstuma, e então se rendeu à verdade. De um só golpe
revelou-se a ele a imagem do homem que conhecera antes de qualquer outro, que o havia criado
e instruído e havia dormido e fornicado trinta e dois anos com sua mãe,
e que no entanto, antes da última carta, nunca se mostrara tal como era de corpo
e alma, por timidez rira e simples. Até
então o doutor Juvenal Urbino e sua família tinham concebido a morte como um percalço que acontecia aos outros, aos pais dos outros, aos irmãos e cônjuges alheios
e nunca aos próprios. Eram pessoas
de vidas lentas, às quais ninguém via envelhecer, nem adoecer
e morrer, que se desvaneciam aos
poucos no seu tempo, transformando-se
em lembranças, brumas de outra
época, até serem assimiladas pelo esquecimento. No entanto, uma de suas lembranças
mais antigas, talvez dos nove anos, dos onze anos talvez, era de certo modo um sinal prematuro da morte
através do seu pai. Tinham ficado os dois no escritório da casa uma
tarde chuvosa, ele desenhando calhandras e girassóis
com giz de cor nos ladrilhos do chão,
e o pai lendo contra a luz da janela,
colete desabotoado e braçadeiras de elástico nas mangas da camisa.
De repente interrompeu a leitura para cocar as costas com um coçador de cabo comprido e mãozinha de
prata na ponta. Como não conseguiu,
pediu ao filho que o cocasse
com as unhas, o que ele fez com
a sensação curiosa de não sentir o próprio
corpo sendo cocado. Quando parou o pai
o olhou por cima do ombro com um sorriso triste.
—
Se eu caísse
morto agora — disse — você mal se lembraria
de mim
quando tivesse minha idade.
Disse isto sem qualquer motivo visível, e o anjo da morte flutuou um instante na penumbra fresca do escritório, e tornou a sair pela janela
deixando ao passar um rastro de penas, mas o menino não as viu. Mais de vinte anos haviam passado desde então, e
Juvenal Urbino ia ter em breve a idade que tinha o pai aquela tarde. Sabia- se idêntico
a ele, e à consciência disso se somava agora a consciência surpreendente de ser tão
mortal quanto ele.
O cólera se transformou
em obsessão. Não sabia a respeito mais do que aprendera na rotina de algum curso marginal, e lhe parecera inverossímil que há apenas
trinta anos tivesse causado na França,
inclusive em Paris, mais de cento e quarenta mil mortes. Mas depois da morte
do pai
aprendeu tudo que se podia
aprender sobre as diversas formas do cólera,
quase como uma penitência para dar
descanso à sua memória, e foi aluno
do epidemiólogo mais destacado
do seu
tempo e criador dos cordões
sanitários, o professor Adrien Proust, pai do grande romancista. De modo que quando
voltou à sua terra e sentiu vinda do mar a pestilência do mercado, e viu os ratos nos esgotos
expostos e os meninos se revolvendo nus nas poças das ruas, não só compreendeu
que a desgraça tivesse acontecido como
teve a certeza de que se repetiria a qualquer momento.
Não passou muito tempo. Antes de um ano, seus
alunos do Hospital da Misericórdia lhe pediram que os ajudasse com um
enfermo indigente que apresentava uma estranha
coloração azul em todo o corpo. Bastou
ao doutor Juvenal Urbino vê-lo da porta para reconhecer
o inimigo. Mas a sorte ajudou: o doente tinha chegado três dias antes numa goleta de Curaçau e tinha
ido à consulta
externa do hospital por seus próprios
meios, não parecendo provável que houvesse contaminado ninguém. Por via das dúvidas, o doutor Juvenal Urbino preveniu os colegas, conseguiu que as autoridades transmitissem o alarma aos portos vizinhos
com o fim de localizar e pôr em quarentena
a goleta empestada, e teve que moderar o
chefe militar da praça, que queria
decretar a lei marcial a aplicar de pronto a terapêutica do tiro de
canhão a cada quarto de hora.
—
Economize a pólvora para quando venham os liberais — lhe disse com bom humor. —
Não estamos mais na Idade Média.
O doente morreu quatro dias depois, sufocado por um vômito branco e granuloso, mas nas semanas seguintes não se descobriu nenhum outro
caso, apesar do alerta constante.
Pouco depois, o Diário do Comércio
publicou a notícia de que duas
crianças tinham morrido de cólera em
diferentes lugares da cidade. Comprovou-se que uma delas tinha disenteria comum, mas a outra, uma menina de cinco anos, parecia ter sido, com efeito, vítima do cólera. Seus pais e três irmãos foram separados e postos de quarentena individual, e todo o bairro foi submetido a uma vigilância médica estrita. Uma das crianças contraiu o cólera e se recuperou muito depressa,
e toda a família voltou para casa quando passou o perigo. Onze casos mais se registraram no curso de três
meses, e no quinto houve um recrudescimento alarmante, mas no
final do ano considerou-se que os
riscos de uma epidemia tinham
sido conjurados. Ninguém pôs em dúvida
que o rigor sanitário do doutor Juvenal Urbino, mais do que a eficiência
de sua pregação, tinha tornado possível o prodígio. Desde então, e
quando já avançara muito este século,
o cólera ficou endêmico não só na
cidade como em quase todo o litoral do Caribe
e a bacia do Madalena, sem tornar a recrudescer como epidemia. O
alarma serviu para que as
advertências do doutor Juvenal Urbino fossem atendidas com mais
seriedade pelo poder público. Foi imposta a cátedra obrigatória do cólera e da febre amarela, e reconheceu-se a urgência de cobrir os esgotos e construir um mercado distante do despejo do lixo.
Contudo, o doutor Urbino não se preocupou
na ocasião em proclamar vitória nem se sentiu com ânimo de perseverar em suas missões sociais,
porque ele mesmo tinha então uma asa
quebrada, aturdido e disperso, e decidido a
mudar tudo e a esquecer tudo mais na
vida frente ao relâmpago de amor de Fermina
Daza.
Foi, em verdade,
fruto de um equívoco clínico.
Um médico amigo, que julgou vislumbrar
os sintomas premonitórios do cólera numa paciente de dezoito anos, pediu ao doutor Juvenal Urbino que fosse visitá-la. Foi na mesma tarde, alarmado pela possibilidade de que a peste tivesse entrado no santuário da
cidade velha, já que todos os casos até então tinham ocorrido
nos bairros marginais, e quase todos entre a população negra. Encontrou outras
surpresas menos ingratas. A casa, à
sombra das amendoeiras do parque dos Evangelhos, vista de fora
parecia tão arruinada como as outras do recinto
colonial, mas dentro dela havia uma ordem
de beleza
e uma luz atônita que parecia de outra
idade do mundo. O saguão dava direto num pátio sevilhano, quadrado e branco de cal recente, com laranjeiras floridas
e o piso empedrado com os mesmos azulejos
das paredes. Havia um rumor invisível
de
água contínua, potes de cravos
nas cornijas e gaiolas de pássaros
raros nas arcadas. Os mais raros, numa gaiola
muito grande, eram três corvos que ao
sacudir as asas saturavam o pátio de um perfume equívoco. Vários cães
acorrentados em algum lugar da casa
começaram logo a ladrar, enlouquecidos pelo cheiro do estranho, mas um grito
de mulher
os fez calar na hora, e numerosos gatos saltaram de todos os cantos e se esconderam entre as flores, assustados pela autoridade da voz. Então se fez um silêncio
tão diáfano que através da desordem
dos pássaros e das sílabas da água
na pedra se percebia o alento desolado do mar.
Abalado pela certeza da presença física de
Deus, o doutor Juvenal Urbino
pensou que uma casa como aquela era imune à peste. Seguiu Gala Placídia pelo corredor de arcos,
passou pela janela do quarto de costura onde Florentino Ariza viu pela
primeira vez Fermina Daza, quando o pátio estava ainda em escombros, subiu pelas
escadas de mármores novos até o
segundo andar, e esperou ser anunciado antes de entrar no quarto da doente.
Mas Gala Placídia tornou a sair com um recado:
— A senhorita disse
que não pode entrar agora porque seu pai
não está em casa. Por isso voltou às cinco da tarde, de
acordo com a indicação da criada,
e Lorenzo
Daza em
pessoa lhe abriu o portão e o
conduziu até o quarto da filha. Ficou
sentado
na penumbra dum canto do quarto, com os braços cruzados e fazendo
esforços vãos para dominar a respiração penosa, enquanto durou o exame. Não era fácil saber quem estava mais constrangido, se o médico com seu tato pudico ou a enferma com
seu recato de virgem dentro do camisolão
de seda, mas nenhum olhou o outro nos olhos,
enquanto ele fazia perguntas
com voz impessoal e ela respondia com
voz trêmula, ambos pendentes do homem
sentado na penumbra. Por fim o
doutor Juvenal Urbino pediu à doente que se
sentasse, e lhe abriu a
camisola até a cintura com mil cuidados:
o peito intacto e altivo, de bicos infantis, resplandeceu um instante feito uma labareda nas
sombras da alcova, antes que ela se apressasse a ocultá-lo com os braços
cruzados. Imperturbável, o médico lhe afastou os
braços sem olhá-la, e fez a auscultação direta com a orelha contra a pele, primeiro o peito e
depois as costas.
O doutor Juvenal Urbino costumava contar que não
experimentou nenhuma emoção quando
conheceu a mulher com quem havia de
viver até o dia da morte. Lembrava a camisola azul clara
com bainha de renda, os olhos febris, o cabelo comprido, solto sobre os ombros, mas estava tão
obnubilado pela irrupção da peste no
quarteirão colonial que não reparou em nada do muito que
tinha ela de adolescente em flor, concentrado
no mais íntimo que pudesse ter de empestada.
Ela foi mais explícita: o jovem
médico de quem tanto ouvira falar a propósito do cólera lhe pareceu um pedante incapaz de amar qualquer pessoa além dele mesmo. O diagnóstico foi uma infecção intestinal de origem alimentar que cedeu com um tratamento caseiro de três dias. Aliviado com a constatação de que a filha
não contraíra o cólera, Lorenzo Daza acompanhou o doutor Juvenal Urbino
até o estribo
do carro, pagou-lhe o peso ouro da visita
que lhe pareceu excessivo mesmo para
um médico de gente rica, mas dele se despediu com demonstrações exageradas de gratidão. Estava deslumbrado com o
esplendor dos seus nomes de
família, e não só não o
disfarçava como teria feito qualquer
coisa que fosse para vê-lo outra vez, e em circunstâncias menos formais.
O caso devia dar-se por
encerrado. Contudo, na terça-feira da semana seguinte, sem ser chamado e sem se anunciar de qualquer forma, o doutor Juvenal Urbino lá voltou à hora
inoportuna de três da tarde. Fermina Daza estava no
quarto de costura, tendo uma lição de pintura a óleo junto com duas amigas, quando ele apareceu à janela de sobrecasaca branca, imaculada, e o
chapéu também branco, de copa alta, e lhe fez sinal para que se
aproximasse. Ela pôs o bastidor na cadeira e se dirigiu à janela caminhando na ponta dos pés com a cauda do vestido levantada até os tornozelos para que não arrastasse. Usava um diadema com uma pequena jóia pendente da testa,
de luminosa
pedra da mesma cor fugidia dos
seus olhos,
e ela
toda exalava uma aura de frescor. Chamou a atenção do médico
que ela se vestisse para pintar
em casa como se fosse a uma festa.
Tomou-lhe o pulso do lado de fora
da janela, fez com que mostrasse a língua, examinou-lhe a garganta com uma espátula de alumínio, olhou por dentro a parte inferior da pálpebra, fazendo de cada
vez um gesto de aprovação. Estava menos constrangido do que na visita anterior, mas ela
mais, por não entender a razão daquele exame imprevisto, quando ele próprio
tinha dito que não voltaria a menos que
o chamassem devido a alguma novidade.
E havia outra coisa: não queria tornar a vê-lo nunca mais. Quando terminou o
exame, o médico guardou a espátula na maleta atulhada
de
instrumentos e vidros de remédio, e fechou-a com um golpe seco.
—
Está como uma rosa
recém-nascida — disse ele.
—
Obrigada.
—
Agradeça a Deus — disse ele, e citou São Tomás
mal: — Lembre que tudo que é bom, venha de onde
vier, provém do Espírito Santo. Gosta de música?
Fez a pergunta com um
sorriso encantador, de um modo natural, mas ela não retribuiu.
—
Qual o motivo da pergunta? —
perguntou por sua vez.
—
A música é importante para a saúde — disse ele.
Acreditava mesmo, e
ela ia ver muito em breve e pelo
resto da vida que o tema da música
era quase uma fórmula mágica que ele usava para propor uma amizade, mas naquele momento ela entendeu que era uma brincadeira. Além disso, as duas amigas
que tinham fingido pintar enquanto eles conversavam
na janela deram umas risadinhas
abafadas e taparam a cara com os
bastidores, o que acabou de desorientar
Fermina Daza. Cega de fúria, bateu a
janela com um golpe seco. O médico, perplexo diante das cortininhas de renda, virou-se e procurou o caminho do portão, mas se enganou
de rumo,
e na sua atrapalhação deu com a
gaiola dos corvos
perfumados. Estes lançaram uns pios vis, voejaram assustados, e a
roupa do médico se impregnou de um cheiro de mulher.
O trovão da voz de Lorenzo
Daza pregou-o no lugar em que estava:
—
Doutor: espere aí.
Avistara-o do andar
de cima e descia as escadas abotoando
a camisa, balofo e rubicundo, as suíças ainda revoltas devido a um sonho mau da sesta. O médico
tentou dominar a situação.
—
Acabo
de dizer
à sua filha que está feito uma rosa.
—
E tem razão — disse Lorenzo Daza — mas com espinhos demais.
Passou junto do doutor Urbino sem cumprimentá-lo. Empurrou as duas folhas da janela do
quarto de costura e gritou
bronco para a filha:
—
Venha pedir desculpas ao doutor.
O médico quis intervir para
impedi-lo, mas Lorenzo Daza não lhe deu
atenção. Insistiu: "Depressa."
Ela olhou as amigas com uma súplica recôndita de compreensão, e respondeu ao pai que não tinha de que se desculpar,
pois só tinha fechado a janela para impedir que continuasse entrando o sol. O
doutor Urbino procurou justificar essas razões,
mas Lorenzo Daza persistiu na ordem. Então Fermina Daza voltou à janela, pálida
de raiva, e adiantando o pé direito enquanto levantava a cauda do vestido com a ponta dos dedos, fez ao médico uma reverência teatral.
—
Apresento-lhe minhas mais humildes desculpas,
cavalheiro — disse.
O doutor Juvenal Urbino a imitou de bom humor, fazendo com o chapéu de copa alta uma mesura de mosqueteiro, mas não obteve o sorriso de piedade que esperava. Lorenzo Daza o convidou então a
tomar no escritório um café de desagravo, e ele aceitou grato, para que
não houvesse nenhuma dúvida de que não lhe ficava na alma qualquer resquício de ressentimento.
A verdade era
que o doutor Juvenal Urbino não tomava café, a não ser uma xícara
em jejum.
Também não tomava álcool, salvo um copo
de vinho com a comida em ocasiões solenes, mas não só tomou o
café que lhe ofereceu Lorenzo Daza como aceitou além disso um cálice de
aguardente de anis. Depois
aceitou outro café e outro cálice, e depois outro e outro,
apesar de ter ainda algumas visitas a
fazer. A princípio escutou com atenção
as desculpas que Lorenzo Daza continuava a dar
em nome da filha, que definiu
como menina inteligente e séria, digna
de um
príncipe daqui ou de qualquer
parte, e cujo único defeito, segundo disse, era seu caráter de mula. Mas depois do segundo cálice julgou ouvir a voz de Fermina Daza no
fundo do
pátio, e sua imaginação foi atrás dela, perseguiu-a pela noite
recente da casa enquanto acendia as luzes do
corredor, fumigava os quartos de dormir
com a bomba de inseticida, destapava
no fogão a panela da sopa que ia
tomar essa noite com o pai,
ele e ela sós à mesa, sem
erguer a vista, sem sorver a sopa
para não quebrar o encanto do rancor,
até que ele acabasse
por se render e pedir perdão pelo rigor que tivera
à tarde.
O doutor Urbino conhecia bastante as mulheres para
saber que Fermina Daza não
passaria pelo escritório enquanto ele não
fosse embora, mas deixava-se ficar
porque sentia que o orgulho ferido não
lhe daria
paz depois das afrontas dessa tarde. Lorenzo Daza, já quase bêbado,
não parecia notar sua falta de atenção, pois se bastava a si mesmo com sua
loquacidade indomável. Falava à rédea solta, mastigando a ponta do charuto apagado, tossindo aos gritos, escarrando, acomodando-se a duras
penas na poltrona giratória cujas molas soltavam
gemidos de animal no cio. Tinha bebido três cálices para cada um do convidado, e só fez uma
pausa ao perceber que já não se viam
um ao outro e se levantou para acender
a lâmpada. O doutor Juvenal Urbino o olhou de frente com a nova luz, viu que tinha um olho torto feito olho de peixe e que suas palavras não correspondiam ao movimento dos lábios, e achou que eram alucinações suas por abusar do álcool. Então se levantou
com a sensação fascinante de que
estava dentro de um corpo que não era o seu e sim
o de alguém que continuava
sentado no assento onde ele estava,
e teve que fazer um grande
esforço para não perder a razão.
Passava das sete quando saiu do escritório precedido de Lorenzo
Daza. Havia lua cheia. O pátio
transfigurado pelo anis flutuava no
fundo de um aquário, e as gaiolas cobertas com panos pareciam fantasmas
adormecidos debaixo do odor quente de flores
desabrochadas. A janela da sala
de costura estava aberta, e havia uma candeia acesa na mesa de trabalho, e os
quadros por terminar estavam nos cavaletes como numa exposição. "Onde está
você que não está", disse o doutor Urbino ao passar, mas Fermina
Daza não o ouviu, não podia ouvi-lo,
porque chorava de raiva no quarto,
largada de borco na cama e esperando
o pai para lhe cobrar a humilhação da tarde. O médico não renunciava à ilusão de
se despedir dela, mas Lorenzo
Daza não mencionou tal coisa.
Relembrou com saudade a marcha inocente do seu pulso, sua língua de gata, suas amígdalas suaves, mas desanimou-o a idéia de
que ela não queria vê-lo nunca
mais nem permitiria que ele o tentasse.
Quando Lorenzo Daza entrou no saguão, os corvos acordados debaixo dos lençóis emitiram pios fúnebres. "Arrancarão
teus olhos", disse o médico em voz
alta, pensando nela, e Lorenzo Daza se voltou
para perguntar o que é que ele tinha dito.
—
Não fui eu — ele disse.
— Foi o anis.
Lorenzo Daza acompanhou-o até o carro se esforçando para fazê-lo receber o peso ouro da segunda visita, mas ele não
aceitou. Deu instruções corretas ao cocheiro para
que o levasse até a casa de dois dos doentes que lhe faltava ver, e subiu ao carro sem ajuda.
Mas começou a se sentir mal com os
solavancos nas ruas empedradas, por isso mandou
o cocheiro mudar de rumo. Olhou-se por um instante no espelho do carro e viu que também sua imagem continuava pensando em Fermina Daza. Deu de ombros. Afinal soltou um arroto, inclinou a cabeça contra o peito
e adormeceu, e no sono começou a ouvir os sinos
do luto. Ouviu primeiro os da catedral,
e depois
os de todas as
igrejas, uma após outra, até
o som de metal
rachado
de São
Julião o Hospitaleiro.
—
Merda — murmurou dormindo —
morreram os mortos.
Sua mãe e suas irmãs
estavam jantando café com leite e
bolinhos na mesa de festa da
sala de jantar principal,
quando o viram assomar à porta com o rosto desfeito
e todo ele desmoralizado pelo
perfume de
putas dos corvos. O sino maior da catedral
contígua ressoava na imensa cisterna da casa. A mãe lhe perguntou alarmada onde se havia
metido, pois o haviam procurado em toda
parte para que atendesse ao general
Ignacio Maria, último neto do Marquês de Jaraíz de Ia Vera,
derrubado à tarde por uma congestão cerebral: era por ele que os sinos dobravam. O doutor Juvenal Urbino escutou a mãe sem ouvi-la,
apoiado no umbral da porta, em seguida deu meia-volta, procurando chegar
ao seu quarto, mas caiu de bruços numa
explosão de vômitos de anis estrelado.
—
Maria Santíssima — gritou sua mãe. — Coisa muito estranha deve ter acontecido para que você se apresente em casa nesse estado.
O mais curioso, contudo, não tinha acontecido ainda.
Aproveitando a visita do conhecido
pianista Romeo Lussich, que tocou um ciclo de
sonatas de Mozart logo que a cidade se
refez do luto do general
Ignacio Maria, o doutor Juvenal Urbino fez subir o piano da Escola de Música numa carreta de mulas, e levou até Fermina Daza uma serenata que marcou época. Ela acordou
com os primeiros compassos e não teve
que assomar aos rendilhados do balcão
para saber quem era o promotor daquela
homenagem insólita. Só lamentou não ter a coragem de outras donzelas geniosas que tinham
esvaziado o urinol na cabeça do pretendente
indesejável. Lorenzo Daza, em compensação,
vestiu-se às carreiras no transcurso da serenata,
e no fim fez entrar na sala de visitas
o doutor Juvenal Urbino e o pianista, ainda enfarpelados no traje de rigor do
concerto, e agradeceu-lhes a serenata
com um copo de bom conhaque.
Fermina Daza percebeu em
breve que o pai estava
procurando amolecer seu coração. No dia seguinte da
serenata tinha dito, de modo
casual: "Imagine só como se sentiria sua mãe se soubesse que você é requestada por um Urbino de
Ia Calle." Ela replicou com secura: "Morreria de novo dentro do caixão." As amigas
que pintavam com ela lhe contaram que
Lorenzo Daza tinha sido convidado a almoçar
no Clube Social pelo doutor Juvenal Urbino, e que este tinha sido objeto de uma notificação
severa por contrariar normas do regulamento.
Só então ficou sabendo também que o pai tentara
várias vezes tornar-se membro do Clube
Social, e em todas tinha sido barrado com
uma quantidade de bolas pretas que não
possibilitavam qualquer tentativa nova. Mas Lorenzo Daza absorvia humilhações com um fígado de bom
bebedor, e continuou dando tratos à
bola para se encontrar por acaso com Juvenal Urbino, sem perceber que era Juvenal Urbino quem fazia mais do que o possível para se deixar
encontrar. Às vezes passavam horas
conversando no escritório, enquanto a casa permanecia como que suspensa à margem do tempo, porque Fermina Daza não permitia que nada seguisse seu
curso na vida enquanto ele não fosse embora. O
Café da Paróquia foi um bom porto intermediário. Ali Lorenzo
Daza deu a Juvenal Urbino lições primárias
de xadrez, e ele foi um aluno tão
aplicado que o xadrez se converteu num vicio incurável que o perseguiu até o dia de sua morte.
Urna noite, pouco
tempo depois da serenata de piano, Lorenzo Daza encontrou uma carta com o envelope lacrado no saguão da casa, dirigido
à sua filha e com o monograma de J.U.C. impresso no lacre. Deslizou-a por
baixo da poria ao passar diante do quarto de
Fermina, e ela não entendeu
como chegara até ali, pois lhe parecia
inconcebível que o pai tivesse mudado ao ponto de lhe levar
carta de um pretendente. Deixou-a em cima
da mesa
de cabeceira, sem saber de
fato que fazer com ela, e ali
permaneceu fechada durante vários dias, até uma
tarde de chuva em que Fermina
Daza sonhou que Juvenal Urbino tinha
reaparecido para presenteá-la com a
espátula com que lhe examinara a
garganta. A espátula do sonho não era de alumínio e sim
de um metal apetitoso que ela havia
saboreado com deleite em outros sonhos, de modo que
quebrou em duas partes desiguais, dando a ele a
menor.
Ao acordar
abriu a carta. Era breve e pulcra, e a única coisa que Juvenal Urbino lhe suplicava era que lhe permitisse pedir ao pai permissão para visitá-la. Impressionaram-na sua simplicidade e sua seriedade,
e a raiva cultivada com tanto amor durante tantos dias se apaziguou de pronto.
Guardou a carta num cofre fora de uso no
fundo do baú, mas lembrou que ali
guardara as cartas perfumadas de Florentino
Ariza, e tirou-a do cofre para trocá-la de lugar, abalada por um sopro
de vergonha. Achou então que o mais
decente era dá-la como não recebida,
e queimou- a na candeia, vendo como
as gotas de lacre arrebentavam em borbulhas azuis sobre a chama. Suspirou: "Pobre homem." Reparou logo que era a segunda
vez que dizia isso em pouco mais de um ano, e por um instante pensou em Florentino Ariza, e se surpreendeu ao ver como ele estava longe de sua vida: pobre homem.
Em outubro, com as últimas
chuvas, chegaram três cartas mais, acompanhada a primeira de uma caixinha
de pastilhas de violeta da Abadia
de Flavigny. Duas
tinham sido entregues no portão
da casa pelo cocheiro do doutor Juvenal Urbino, e este cumprimentara Gala Placídia da janela do carro, primeiro para que não houvesse dúvida
de que as cartas eram suas, e segundo para que ninguém pudesse
lhe dizer que não tinham sido
recebidas. Além disso, ambas estavam seladas com o sinete do monograma no lacre,
e escritas com as garatujas crípticas que Fermina Daza já conhecia: letra de médico. Ambas diziam em substância o mesmo que a primeira, e estavam concebidas com o mesmo espírito de submissão, mas no
fundo de sua decência começava a se vislumbrar uma ansiedade que nunca fora evidente nas cartas circunspectas de Florentino Ariza. Fermina Daza as leu logo que foram entregues, com duas semanas de intervalo,
e sem explicá-lo a si mesma mudou
de opinião quando estava a ponto de atirá-las ao fogo. Mas nem por isso
pensou em respondê-las.
A terceira carta de outubro
tinha sido introduzida por baixo do portão,
e era em tudo diferente das anteriores. A escrita era tão
pueril que sem dúvida tinha sido feita com a mão esquerda, mas Fermina Daza só se deu conta disso quando
o próprio texto provou seu anonimato infame. Quem a escrevera
dava como fato que Fermina Daza
tinha encantado com seus filtros o
doutor Juvenal Urbino, e dessa suposição tirava conclusões sinistras. Acabava com
uma ameaça: se Fermina Daza não renunciasse à sua pretensão de se apropriar
do homem mais cobiçado da cidade,
seria exposta à vergonha pública.
Sentiu-se vítima de uma injustiça
grave, mas sua reação não foi vingativa e sim o oposto: teria gostado de descobrir
o autor da carta anônima para provar-lhe o erro com quantas
explicações fossem pertinentes, pois
estava certa de que nunca, por
motivo nenhum, seria sensível aos galanteios de Juvenal
Urbino. Nos dias seguintes
recebeu mais duas cartas sem assinatura,
tão pérfidas quanto a primeira, mas nenhuma das três parecia escrita pela mesma pessoa. Ou bem era vítima de uma conjura, ou a falsa versão dos seus amores
secretos tinha ido mais longe do que se
poderia supor. Inquietava-se com a idéia de que tudo aquilo fosse conseqüência
de uma simples indiscrição
de
Juvenal Urbino. Ocorreu-lhe que talvez fosse
homem diferente da sua aparência
digna, que talvez desse com a língua nos dentes durante suas visitas e fizesse alarde
de conquistas imaginárias, como
tantos outros de sua classe.
Pensou em escrever a ele para censurar o ultraje que fazia à sua honra, mas desistiu depois, achando que
talvez fosse isso que ele queria. Procurou informar-se com as
amigas que iam pintar com ela no
quarto de costura, mas a única coisa
que tinham ouvido eram comentários benignos sobre a serenata de piano.
Sentiu-se furiosa, impotente,
humilhada. Ao contrário da sua reação inicial, quando teria gostado de encontrar o inimigo invisível para convencê-lo de seus erros, agora gostaria
de fazê-lo em pedaços com a tesoura de podar.
Passava as noites em claro,
analisando detalhes e expressões das cartas
anônimas, na ilusão de encontrar
o consolo de uma pista. Ilusão vã: Fermina Daza era alheia por natureza ao mundo interior dos Urbino de Ia Calle,
e tinha armas para se defender de suas boas intenções, mas não das más.
Esta convicção se tornou
ainda mais amarga depois do pavor da boneca
preta que chegou às suas mãos naqueles
dias sem nenhuma carta, mas
cuja origem lhe pareceu fácil de imaginar: só o doutor Juvenal Urbino podia tê-la mandado. Tinha sido
comprada na Martinica, de acordo com
a etiqueta original, e trazia um vestido primoroso e fios de ouro
no cabelo crespo, e fechava os olhos quando
a deitavam. Pareceu a Fermina Daza tão divertida que dominou os escrúpulos e a
deitava em
seu próprio travesseiro durante o dia.
Acostumou-se a dormir com ela. Passado algum tempo, porém, depois de um sono sem repouso,
descobriu que a boneca estava crescendo:
a linda roupa original que vestia ao
chegar agora lhe deixava as coxas à
mostra, e seus sapatos tinham
arrebentado com a pressão dos pés. Fermina Daza ouvira falar de malefícios
africanos, mas nenhum tão
pavoroso como esse. Por outro lado,
não podia conceber que um homem como
Juvenal Urbino fosse capaz de
semelhante atrocidade. Tinha razão: a boneca não tinha sido levada pelo
cocheiro e sim por um vendedor ocasional de camarão, sobre quem ninguém conseguira dar uma informação certa. Procurando decifrar o
enigma, Fermina Daza pensou por um momento em Florentino Ariza, cuja condição sombria a
assustava, mas a vida se encarregou de convencê-la do erro. Nunca se esclareceu
o mistério e sua simples evocação lhe dava um
arrepio de pavor até muito depois de se haver casado, tido
filhos e de se acreditar a eleita do
destino: a mais feliz.
A última tentativa
do doutor Urbino foi a mediação da irmã Franca de Ia
Luz, superiora do Colégio da Apresentação da Santíssima Virgem, que não podia se esquivar aos apelos de uma família
que favorecera sua comunidade
desde seu estabelecimento nas Américas. Apareceu acompanhada de uma noviça
às nove da manhã, e ambas precisaram se entreter com as gaiolas de pássaros
enquanto Fermina Daza acabava de tomar
banho. Era uma alemã viril, de timbre de voz metálico e olhar imperioso que não
tinham relação nenhuma com suas paixões pueris. Não havia nada neste mundo
que Fermina Daza odiasse mais do que
ela, ou qualquer coisa a ver com ela, e a simples lembrança de sua falsa piedade
lhe dava uma comichão de escorpiões
nas entranhas. Bastou reconhecê-la da porta
do banheiro para viver de novo de chofre os suplícios do colégio,
o sono insuportável da missa diária, o terror dos exames, a diligência servil das noviças, a vida inteira pervertida pelo
prisma da pobreza de espírito. A irmã Franca de Ia
Luz, em compensação, cumprimentou-a
com um júbilo que parecia sincero.
Espantou-se de vê-la tão crescida e
amadurecida, e elogiou a competência com que mantinha a casa, o bom gosto do pátio, as árvores floridas. Mandou a
noviça esperá-la ali, sem se aproximar demais dos corvos, que num momento de descuido podiam lhe arrancar
os olhos, e procurou um lugar afastado onde pudesse se sentar e
conversar a sós com Fermina,
que a convidou à sala.
Foi uma visita
breve e áspera. A irmã Franca de Ia
Luz, sem perder tempo com preâmbulos,
ofereceu a Fermina Daza uma reabilitação honrosa. O motivo da expulsão seria apagado não só das atas como da memória da comunidade, o que lhe permitiria terminar os estudos e obter
o diploma de Bacharel em Letras. Fermina Daza, perplexa, quis
saber a razão.
— É a petição de alguém
que merece tudo, e cujo único desejo é fazer você feliz
— disse a freira. — Sabe quem é?
Então compreendeu. Perguntou a si mesma com que
autoridade servia de emissária do
amor uma mulher que lhe havia prejudicado a vida por causa de uma carta
inocente, mas não se atreveu a falar assim. Disse, em resposta, que sim, que conhecia esse homem, e que ele não
tinha o menor direito de se
imiscuir em sua vida.
—
A única coisa que implora é que você lhe permita que venha conversar cinco minutos —
disse a freira. — Tenho certeza de que
seu pai
estará de acordo.
A raiva de Fermina Daza
ficou mais intensa com
a idéia de que
o pai fosse
cúmplice daquela visita.
—
Nós nos vimos duas vezes quando estive doente
— disse. — Agora não há nenhuma razão.
—
Para qualquer mulher
com dois dedos de juízo esse
homem é um presente da Divina Providência — disse a freira.
Continuou falando de suas virtudes, de sua devoção, de sua consagração
ao serviço dos aflitos. Enquanto
falava tirou da manga um rosário de ouro com o
Cristo talhado em marfim, e o moveu diante dos olhos de Fermina Daza.
Era uma relíquia de família, antiga de mais de cem anos,
talhada por um ourives de Siena e benta por Clemente IV.
—
É seu — disse.
Fermina Daza sentiu a
torrente do sangue que rugia em suas veias e então se atreveu.
—
Não consigo entender
como a senhora se presta a isso — disse — se na sua opinião o amor
é pecado.
A irmã Franca de La
Luz não deu mostras de ter ouvido,
mas suas pálpebras se incendiaram. Continuou balançando o rosário diante dos seus olhos.
—
É melhor você
se entender comigo — disse — por- que
depois de mim vem o senhor arcebispo,
e com ele as coisas são diferentes.
—
Que venha — disse Fermina Daza.
A irmã Franca de Ia
Luz escondeu o terço de ouro na
manga. Depois tirou da outra um
lenço muito usado, feito uma
bola, e o manteve apertado no punho, olhando Fermina de muito
longe com um sorriso de comiseração.
—
Pobre filha minha — suspirou — você ainda continua
pensando naquele homem.
Fermina Daza ruminou a
impertinência olhando a freira sem pestanejar,
olhou-a bem nos olhos, sem falar,
ruminando em silêncio, até ver com infinito prazer que seus olhos de homem
se anuviaram de lágrimas. Irmã Franca de Ia Luz as enxugou com a bola do lenço e se pôs de pé.
—
Tem razão seu pai quando diz que você é uma mula — disse.
O arcebispo não foi. De
maneira que o assédio teria acabado naquele
dia, não fosse o fato de Hildebranda Sánchez ter vindo passar o
Natal com a prima, o que mudou a vida de ambas.
Foi recebida na roleta de Riohacha às
cinco da manhã, em meio a
uma turba de passageiros agonizantes de enjôo, mas ela
desembarcou radiosa, mulher da cabeça aos pés, e com o espírito
alvoroçado pela má noite no mar. Veio carregada de jacas de perus vivos
e de quantos frutos brotavam em suas prósperas
veigas, para que ninguém sentisse
falta do que comer durante sua visita. Lisímaco Sánchez, o pai, mandava perguntar se eram necessários músicos para as festas de Natal,
pois ele tinha
os melhores à sua disposição,
e prometia mandar mais para
a frente um carregamento de fogos de
artifício. Acrescentava ainda que não podia vir buscar a filha antes de março, de modo que
havia tempo de sobra para se viver.
As duas
primas começaram sem perda de
tempo. Tomaram banho juntas desde a primeira tarde, nuas, fazendo-se abluções recíprocas com a
água da banheira de pedra.
Ensaboavam-se, catavam lêndeas uma na
outra, comparavam as nádegas, os seios imóveis, uma
se olhando no espelho da outra para
avaliar com quanta crueldade o tempo as tratara desde a última vez que tinham se visto nuas.
Hildebranda era grande e
maciça, de pele dourada, mas todo o
pêlo do seu corpo era de mulata,
curto e enroscado feito palha de aço. Fermina Daza, de sua parte,
tinha uma nudez pálida, de linhas grandes, de pele serena, de pêlos
macios. Gala Placídia tinha mandado
pôr duas camas iguais para as duas
no quarto, mas às vezes dormiam numa só e conversavam
com as luzes apagadas até raiar o dia. Fumavam uns charutões de bandido que Hildebranda tinha trazido
escondidos no forro do baú,
e depois tinham que queimar folhas de papel da
Armênia para purificar o ar de tugúrio que deixavam no quarto. Fermina
Daza tinha fumado pela primeira vez em Valledupar,
e tinha continuado a fazê-lo em Fonseca,
em Riohacha, onde se trancavam até dez primas num quarto a falar de homens e a fumar às escondidas. Aprendeu a fumar ao contrário, com a brasa dentro da boca, como fumavam os homens nas noites das
guerras para não serem denunciados pela ponta incandescente do charuto. Mas nunca tinha fumado sozinha.
Com Hildebranda na casa passou a fazê-lo todas as noites antes de dormir,
e desde então adquiriu o hábito de fumar,
embora sempre às escondidas, mesmo do marido e dos filhos, não só porque
era mal visto que mulher fumasse em
público, como porque tinha o
prazer associado à clandestinidade.
A viagem de Hildebranda
também tinha sido imposta pelos pais para ver
se a afastavam de seu amor impossível, embora a tivessem convencido de que
era para ajudar Fermina a se decidir por um bom partido. Hildebranda aceitara na esperança de enganar o esquecimento, como fizera a prima no seu momento, e combinara com o telegrafista de Fonseca para que enviasse suas
mensagens debaixo do maior
sigilo. Por isso foi tão amarga sua desilusão quando soube que Fermina Daza repudiara Florentino Ariza. Além disso,
Hildebranda tinha uma concepção
universal do amor, e achava que
qualquer coisa que acontecesse com uma pessoa afetava todos os amores do mundo inteiro. Contudo, não renunciou ao
projeto. Com uma audácia que provocou em Fermina Daza uma crise de espanto, foi sozinha
à agência do telégrafo
disposta a conquistar a boa vontade de Florentino
Ariza.
Não o teria identificado, pois não tinha um traço que correspondesse à imagem que ela formara através de Fermina
Daza. À primeira vista lhe pareceu
impossível que a prima tivesse estado
a ponto de enlouquecer por aquele empregado quase invisível, com um ar de cachorro batido, cuja indumentária de rabino caído em desgraça e cujas maneiras solenes
não podiam alterar o coração de ninguém. Mas logo se arrependeu da primeira impressão,
pois Florentino Ariza se pôs a seu serviço incondicional sem saber quem
era: não soube nunca. Ninguém a
teria compreendido melhor do que ele,
por isso não lhe exigiu que se identificasse nem lhe pediu endereço algum. Sua solução foi
muito simples: ela passaria toda quarta- feira à tarde
na agência do telégrafo para que ele
lhe entregasse as respostas em sua mão, e nada mais. Por outro lado, quando
ele leu a mensagem que Hildebranda trazia escrita, perguntou a ela se aceitava
uma sugestão,
e ela concordou. Florentino
Ariza fez primeiro umas correções entre linhas, suprimiu-as, tornou
a escrever, ficou sem espaço, e afinal rasgou a folha e escreveu completa uma mensagem
diferente que a ela pareceu
enternecedora. Quando saiu do escritório
do telégrafo, Hildebranda estava à
beira das lágrimas.
— É feio e triste — disse
a Fermina Daza — mas é todo amor.
O que mais chamou a atenção de Hildebranda foi a
solidão da prima. Parecia, lhe disse, uma solteirona de vinte
anos. Acostumada a uma família numerosa
e dispersa, em casas onde ninguém sabia de ciência certa quantos
moravam nem quem ia comer a cada refeição, Hildebranda nem podia imaginar uma moça da sua idade
reduzida ao claustro da vida privada. Assim era: desde que se levantava às seis da manhã até que apagava a luz do quarto, se consagrava à perda do tempo. A vida lhe era imposta de fora.
Primeiro, com os últimos gaios, o
leiteiro a acordava com a aldraba do portão.
Depois tocava a peixeira com um caixote
de pargos moribundos num leito
de algas, as quitandeiras com
os cestos tornados suntuosos com as
hortaliças de Maria La Baja e as
frutas de São Jacinto. Em seguida, durante todo o dia, tocavam todos: os
mendigos, as moças das rifas, as
irmãs de caridade, o amolador, o
garrafeiro, o que comprava ouro quebrado, o que comprava papel de
jornal, as falsas ciganas que se ofereciam
para ler a sorte nas cartas, nas linhas da mão, na borra do café,
nas águas das bacias. A semana de
Gala Placídia se esvaía no abrir e fechar do portão para dizer que não, volte outro dia, ou
gritando da sacada já sem paciência que não amolem mais, porra, que já compramos tudo
que não tinha na casa. Substituíra tia Escolástica com tanto fervor e tanta
graça que Fermina a confundia com a outra até para
gostar mais dela. Tinha obsessões de escrava. Logo que encontrava um tempo livre ia para o quarto de serviço
para passar a roupa branca, que
deixava perfeita, que guardava nos armários com flores de alfazema, e
não só passava e dobrava a que acabava
de lavar como também a que tivesse perdido
seu esplendor pela falta de uso. Com o mesmo cuidado continuava conservando o vestuário de Fermina Sánchez, mãe de Fermina,
morta quatorze anos antes. Mas
era Fermina Daza quem tomava as
decisões. Resolvia o que se havia de comer, o que se havia
de comprar, o que se tinha que fazer em cada caso, e
desta forma determinava a vida de uma casa
que na realidade não tinha nada que determinar. Quando acabava de lavar as gaiolas e pôr a comida dos
pássaros, e de ver que nada faltasse às
flores, ficava sem rumo.
Muitas vezes, depois de ser expulsa do
colégio, adormeceu na hora da sesta e só
foi acordar no dia seguinte.
As aulas de pintura eram apenas uma forma mais
entretida de perder o tempo.
As relações com o pai careciam
de afeto desde o exílio de tia Escolástica, embora
ambos tivessem
encontrado o modo de viver juntos sem
se atrapalhar. Quando ela se levantava, ele já tinha ido aos seus negócios. Poucas vezes faltava ao rito do almoço, embora quase nunca comesse, pois lhe bastavam os aperitivos
e os acepipes galegos do Café da
Paróquia. Tampouco jantava: deixavam sua
porção na mesa, toda num prato
só e tapada com outro, embora soubessem
que ele só a comeria no dia seguinte requentada
na hora do café. Uma vez por semana dava
à filha o dinheiro da despesa, que ele calculava muito bem
e que ela
administrava com rigor, mas
atendia com gosto a qualquer pedido que
ela fizesse para gastos imprevistos. Nunca lhe
regateava um vintém, nunca lhe pedia contas, mas ela se comportava como se tivesse que prestá-las perante o tribunal do Santo
Ofício. Nunca lhe falara da índole ou estado dos seus negócios,
nunca a levara a conhecer seus escritórios do porto, que estavam num lugar
vedado a senhoritas decentes mesmo que acompanhadas do pai. Lorenzo Daza não chegava a casa
antes das
dez da noite,
que era a hora do toque de recolher
nas épocas menos críticas das guerras. Ficava até essa hora no Café da Paróquia, jogando o que fosse,
porque era especialista em todos
os jogos de salão, além de bom professor deles.
Sempre entrou em casa em
seu perfeito juízo, sem
despertar a filha, apesar de tomar a primeira pinga de anis ao acordar e de continuar mastigando a ponta do charuto apagado e tomando tragos espaçados durante o resto do dia. Uma noite, contudo, Fermina percebeu que ele entrava. Ouviu seus passos de cossaco nas escadas, ouviu seu arquejo enorme no corredor do segundo andar, seus golpes com a
palma da mão na porta do quarto.
Ela lhe abriu a porta, e pela
primeira vez se assustou com seu olho torto e o engrolamento de suas palavras.
— Estamos na ruína — disse ele. —
Ruína total, pode ficar sabendo.
Foi tudo que disse, e nunca mais tornou a dizê-lo nem aconteceu nada que indicasse se dissera a verdade, mas depois daquela
noite Fermina Daza ficou consciente de que estava só no mundo. Vivia num limbo
social. Suas antigas companheiras de colégio
estavam num céu proibido para ela, muito
mais ainda depois da desonra da expulsão, mas nem por isso ela era
vizinha dos vizinhos, porque estes a
haviam conhecido sem passado e
com o uniforme
da Apresentação da Santíssima
Virgem. O mundo de seu pai
era de traficantes e
estivadores, de refugiados de guerras no albergue público do Café da
Paróquia, de homens sós. No último ano, as
aulas de pintura haviam aliviado um pouco sua
reclusão, porque a professora preferia as aulas coletivas e costumava
trazer outras alunas ao quarto de costura.
Mas eram moças de condições sociais
dispersas e mal definidas, e para Fermina
Daza não passavam de amigas
emprestadas cujo afeto acabava com cada aula. Hildebranda queria abrir a
casa, ventilá-la, trazer os músicos e
os foguetes e fogueteiros de seu pai
e fazer um baile de carnaval
cujas ventanias varressem o desânimo e as traças que roíam a vida da prima, mas em pouco tempo percebeu que seus
propósitos eram inúteis. Por uma razão simples:
não havia com quem.
De qualquer maneira, foi
ela quem a pôs a viver. À
tarde, depois das aulas de pintura, ela se fazia levar à rua
para conhecer a cidade. Fermina Daza
lhe mostrou o caminho que fazia todos os dias com tia
Escolástica, o banco da pracinha onde
Florentino Ariza fingia ler para esperá-la, as ruelas por onde a
seguia, os esconderijos das cartas, o palácio sinistro que abrigara
o cárcere do Santo Ofício, e que
depois tinha sido restaurado e convertido no Colégio da Apresentação da Santíssima
Virgem, que ela odiava com toda a sua alma. Subiram a colina do cemitério
dos pobres, onde Florentino Ariza tocava violino segundo o rumo dos ventos para que ela o escutasse na cama, e dali viram inteira a cidade histórica, os telhados quebrados e
os muros carcomidos, os escombros das fortalezas entre os matagais, a fileira de
ilhas na baía, os barracões da miséria ao redor dos pântanos, o Caribe imenso.
Na noite de Natal, foram à missa do
galo na catedral. Fermina ocupou o assento
onde lhe chegava melhor a música
confidencial de Florentino
Ariza, e mostrou à prima o lugar exato em que
uma noite como aquela tinha visto de perto pela primeira vez seus olhos espantados.
Arriscaram-se sozinhas até o Portal dos Escrivães, compraram doces, se
divertiram na loja dos papéis de fantasia, e Fermina Daza assinalou para a prima o lugar em que descobrira de golpe que seu amor
não passava de uma miragem. Não tinha percebido ela própria que cada passo seu da casa
ao colégio, cada lugar da cidade, cada instante de seu passado recente só pareciam existir por obra e graça de Florentino Ariza. Foi o que Hildebranda a fez ver, mas ela não admitiu, pois jamais reconheceria como realidade que
Florentino Ariza, para o bem ou para o mal, era a única coisa que lhe acontecera na vida.
Por aqueles dias
chegou um fotógrafo belga que
instalou seu estúdio no Portal dos Escrivães, e quem quer que tivesse com
que pagar-lhe o trabalho aproveitou a ocasião para
tirar um retrato. Fermina e
Hildebranda foram das primeiras. Esvaziaram o guarda-roupa de Fermina
Sánchez, repartiram as roupas mais vistosas, as
sombrinhas, os sapatos de festa, os chapéus, e se vestiram de damas da metade do
século. Gala Placídia as ajudou a apertar os
corpetes, ensinou-as a andar dentro das armações
de arame das anquinhas, a calçar as luvas,
a abotoar os botins de salto
alto. Hildebranda preferiu um chapéu de abas grandes com penas de avestruz
que lhe caíam sobre as costas.
Fermina pôs um mais recente,
enfeitado de frutas de gesso pintado
e flores de crinolina. Acabaram troçando
de si
mesmas vendo-se no espelho tão semelhantes aos daguerreótipos das
avós e saíram felizes, mortas de rir, para
tirarem retrato de suas vidas. Gala Placídia as viu da sacada
atravessando o parque com as sombrinhas abertas, se equilibrando como podiam
nos saltos, e empurrando as
anquinhas com o corpo inteiro feito criança aprendendo a andar com andadeiras,
e lhes deu a bênção para que Deus
as ajudasse em seus retratos.
Havia um tumulto diante
do estúdio do belga, porque
estavam fotografando Beny Centeno, que naqueles dias tinha ganho o campeonato de boxe no Panamá. Estava de calções
de luta,
com as luvas calçadas e a coroa na cabeça, e não foi fácil fotografá-lo porque precisava ficar em posição de
assalto durante um minuto e respirando o menos possível, mas
logo que armava
a guarda seus fanáticos prorrompiam em ovações, e ele não resistia à tentação de satisfazê-los exibindo suas
artes. Quando chegou a vez das primas
o céu nublara e a chuva parecia iminente, mas
elas se deixaram enfarinhar a cara com
polvilho e se apoiaram com tanta
naturalidade numa coluna de
alabastro que conseguiram ficar imóveis
por mais tempo do que parecia
racional. Foi um retrato eterno.
Quando Hildebranda morreu, quase centenária em
sua fazenda de Flores de
Maria, encontraram sua cópia
debaixo de chave no armário do quarto, escondida entre as dobras dos lençóis perfumados, junto com o fóssil de um pensamento numa carta apagada pelos
anos. Fermina Daza guardou a sua muitos anos na primeira folha de
um álbum de família, de onde desapareceu sem que
se soubesse
como, nem quando, e chegou às
mãos de Florentino Ariza por uma série de
casualidades inverossímeis, quando
ambos já passavam dos sessenta anos.
A praça diante
do Portal dos Escrivães estava
apinhada até os sobrados quando Fermina e Hildebranda saíram do estúdio do belga. Tinham esquecido que
suas caras estavam brancas de polvilho e os lábios pintados com uma pomada cor de chocolate, e que suas roupas
não eram apropriadas nem à hora nem
à época. A rua as recebeu com
vaias e apupos. Estavam acuadas, procurando escapar à zombaria pública, quando
abriu caminho pelo tumulto o landô
dos alazães dourados. A vaia cessou e
os grupos hostis debandaram.
Hildebranda não esqueceria jamais a
primeira visão do homem que apareceu no estribo, o casaco de seda, o colete de brocado, seus ademanes
sábios, a doçura dos olhos, a
autoridade da presença.
Embora nunca o tivesse
visto, reconheceu-o logo. Fermina Daza tinha falado nele, quase
por casualidade e sem nenhum interesse, uma
tarde do mês anterior em que não tinha querido passar pela casa do Marquês de Casalduero porque o landô
dos cavalos de ouro estava
estacionado à porta. Disse a ela quem era
o dono e procurou explicar as causas de sua antipatia, embora não dissesse palavra quanto às pretensões dele.
Hildebranda esqueceu. Mas quando o
identificou à porta do carro como uma aparição de fábula, um pé em terra outro no estribo, não
compreendeu os motivos da prima.
— Façam-me o favor de
subir — disse o doutor Juvenal
Urbino. — Levo-as para onde mandarem.
Fermina Daza esboçou um
gesto de dúvida, mas
Hildebranda já havia aceito. O doutor Juvenal Urbino saltou, e com a ponta dos dedos, quase sem tocá-la, ajudou-a a subir no
carro. Fermina, sem escolha, subiu depois dela, a cara ardendo de contrariedade.
A casa ficava a apenas três quarteirões. As primas não notaram que o doutor Urbino tivesse entrado em acordo com o
cocheiro, mas deve ter sido assim, porque o carro levou
mais de meia hora para
chegar. Iam sentadas no assento principal,
e ele
diante delas, de costas para o sentido da marcha do carro.
Fermina virou a cara para a janela e
mergulhou no vazio. Hildebranda, em compensação, estava encantada, e o doutor
Urbino mais encantado ainda com o encantamento dela. Logo que o carro se pôs a andar, ela sentiu o cheiro cálido do couro natural dos assentos, a
intimidade do interior acolchoado, e
disse que aquilo lhe parecia um lugar bom da gente ficar vivendo.
Começaram logo a rir, a trocar chistes de velhos
amigos, e acabaram no jogo de um jargão inventado, que consistia em intercalar entre cada sílaba uma sílaba
convencional. Fingiam acreditar que Fermina não compreendia o que diziam,
embora não só soubessem que sim como
que estava presa ao que diziam, e por isso insistiam.
Ao fim de um momento, depois de muito rir, Hildebranda confessou que não agüentava mais o suplício
dos botins.
—
Nada mais fácil — disse o doutor Urbino. — Vamos ver quem acaba
primeiro.
Começou a soltar o cordão das botas,
e Hildebranda aceitou o repto. Não achou
fácil, por causa do corpete de varetas que não permitiam que se curvasse, mas o doutor Urbino demorou de propósito, até que ela tirou os botins de debaixo das saias
com uma gargalhada de triunfo,
como se acabasse de pescá-los num tanque. Ambos olharam então para
Fermina, e viram seu magnífico
perfil de
ave mais afiado do que
nunca contra o incêndio do entardecer.
Estava três vezes furiosa: pela
situação imerecida em que se encontrava, pela conduta libertina de Hildebranda, e pela certeza de que o carro dava voltas sem sentido
para retardar a chegada. Mas
Hildebranda corria sem madrinha.
—
Agora estou vendo
— disse — que o que me atrapalhava não
eram os sapatos, e sim esta gaiola de arame.
O doutor Urbino compreendeu que se referia às anquinhas, e pegou a ocasião no vôo. "Nada mais simples", disse. "Tire fora." Com um rápido
passe de prestidigitador puxou
o lenço do bolso e com ele vendou os olhos.
—
Não estou olhando — disse.
A venda realçou a pureza dos seus lábios entre a barba redonda
e negra e o bigode de guias
afiadas, e ela se sentiu sacudida por uma vergastada de pânico. Olhou Fermina
e agora não a viu furiosa e sim apavorada
com a idéia de que ela fosse
capaz de tirar a saia. Hildebranda ficou séria e lhe perguntou em linguagem de dedos:
"Que fazemos?" Fermina Daza
respondeu no mesmo código que se não fossem
diretamente a casa se atiraria do carro em marcha.
—
Estou esperando — disse o médico.
—
Já pode olhar — disse Hildebranda.
O doutor Juvenal Urbino a viu diferente quando tirou a
venda, e compreendeu que o jogo tinha terminado, e terminado mal. A um sinal seu
o cocheiro fez o carro dar uma volta
completa, e entrou na praça dos
Evangelhos no momento em que o acendedor municipal acendia as
luminárias. Todas as igrejas deram o
ângelus. Hildebranda desceu depressa, um pouco preocupada com a idéia de ter desgostado a prima, e se despediu do médico com um aperto
de mãos sem cerimônias. Fermina a imitou,
mas quando quis retirar a mão com a luva
de seda, o doutor Urbino lhe apertou com força o dedo médio, o do coração.
—
Estou esperando sua resposta
— disse.
Fermina deu então um puxão
mais forte, e a luva vazia ficou pendurada da mão do
médico, mas não esperou para recuperá-la.
Foi se deitar sem comer. Hildebranda,
como se nada houvesse acontecido, entrou no quarto depois de jantar com Gala Placídia na cozinha, e comentou
com sua graça natural os
incidentes da tarde. Não disfarçou seu entusiasmo pelo doutor Urbino, por sua elegância e sua simpatia,
e Fermina não correspondeu com nenhum comentário,
mas estava refeita do aborrecimento. A um certo momento, Hildebranda
confessou: quando o doutor Juvenal
Urbino vendou os olhos e ela viu o brilho dos seus dentes perfeitos entre os lábios
rosados, tinha tido um desejo
irresistível de comê-lo aos
beijos. Fermina Daza se virou para
a parede e pôs fim à conversa sem intuito de ofender, até sorrindo, mas com todo o coração.
—
Que puta que você é! — disse.
Dormiu sobressaltada, vendo o doutor Juvenal Urbino em todos os cantos, vendo-o rir, cantar,
despedindo chispas de enxofre pelos
dentes com os olhos vendados,
troçando dela numa língua sem regras fixas num carro diferente que subia até o cemitério dos pobres. Acordou muito antes de raiar o dia, exausta,
e ficou acordada com os olhos fechados
pensando nos anos incontáveis que ainda lhe faltavam
viver. Depois, enquanto Hildebranda tomava banho, escreveu uma carta a toda pressa, dobrou-a a toda
pressa, enfiou-a a toda pressa no
envelope, e antes que Hildebranda saísse do banheiro mandou-a por Gala Placídia ao doutor Juvenal Urbino. Era uma carta das
suas, sem uma letra a mais ou a menos, na qual só dizia que sim, doutor,
que falasse com seu pai.
Quando Florentino Ariza soube que Fermina Daza ia se casar
com um médico de linhagem e fortuna, educado na Europa e com uma reputação rara em sua idade, não houve força
capaz de levantá-lo de sua prostração. Trânsito Ariza fez mais do que o possível para consolá-lo com atenções de
noiva quando viu que ele tinha
perdido a fala e o. apetite e passava as noites em claro chorando sem sossego, e ao fim de uma semana
conseguiu que comesse de novo. Falou então com o senhor Leão XII Loayza, o único
sobrevivente dos três irmãos, e sem dizer
o motivo pediu- lhe que desse ao
sobrinho um emprego para fazer
qualquer coisa na companhia de navegação,
contanto que fosse em algum porto perdido nos matos do Madalena, onde não houvesse correio nem telégrafo, nem visse ninguém que
lhe
contasse nada a respeito desta cidade
de perdição. O tio não lhe deu
o emprego por consideração com a viúva do irmão,
que mal suportava a simples existência do bastardo,
mas arranjou para ele o posto de telegrafista na Vila de Leyva,
uma cidade
de sonho a mais de vinte
dias e a quase três mil metros de altura acima do nível da Rua das Janelas.
Florentino Ariza nunca teve noção clara daquela viagem
medicinal. Sempre a lembraria, assim como tudo que aconteceu naquela época,
através dos cristais rarefeitos de sua desventura. Ao receber
o telegrama da nomeação
nem pensou em levá-lo em consideração, mas Lotário Thugut o convenceu
com argumentos alemães de
que um porvir radiante
esperava por ele na
administração pública. Disse: "O
telégrafo é a profissão do futuro."
Deu-lhe de presente um par de luvas forradas com pêlo de coelho,
um gorro das estepes e um sobretudo com gola de pele
provado nos janeiros glaciais da Baviera. O tio Leão XII o presenteou
com dois ternos de casimira e umas botas
impermeáveis que tinham sido do irmão
mais velho, e lhe deu uma
passagem com camarote para o
próximo navio. Trânsito Ariza reduziu as roupas às medidas do filho,
que era menos corpulento que o
pai e muito mais baixo que o alemão, e lhe comprou meias de lã
e umas ceroulas de corpo inteiro para
que não lhe faltasse nada contra os rigores do páramo. Florentino Ariza, endurecido de tanto sofrer, assistia aos preparativos da viagem
como um morto teria assistido às disposições
tomadas para suas exéquias. Não disse
a ninguém que ia embora, não se despediu de ninguém, no mesmo hermetismo
férreo com que só à mãe revelou o segredo de sua paixão
reprimida, mas na véspera da viagem cometeu consciente
uma última
loucura do coração que bem poderia
ter-lhe custado a vida. Vestiu à
meia-noite seu traje de domingo e tocou em solo debaixo do balcão de
Fermina Daza a valsa de amor
que compusera para ela, que só eles dois
conheciam, e que foi durante três
anos o emblema de sua cumplicidade
contrariada. Tocou-a murmurando a letra, o violino banhado em lágrimas, e com uma inspiração tão intensa que
aos primeiros compassos começaram a ladrar os cachorros da rua, e em seguida os da cidade, mas depois se foram calando pouco a pouco graças ao feitiço da
música, e a valsa terminou em meio a
um silêncio
sobrenatural. O balcão não se abriu,
nem ninguém assomou à rua, nem mesmo o guarda-noturno que quase sempre acudia com sua lanterna para ver se colhia
algum benefício com as sobras das serenatas.
O ato foi uma invocação de alívio para Florentino Ariza, pois quando guardou
o violino na caixa e se afastou pelas
ruas mortas sem olhar para trás já não achava que ia embora na
manhã seguinte, e sim que tinha ido embora há muitos
anos com a disposição inabalável de não
voltar nunca mais.
O navio, um dos
três iguais da Companhia Fluvial do Caribe, tinha sido rebatizado em homenagem ao fundador: Pio Quinto Loayza. Era uma casa flutuante de dois andares de madeira sobre um casco
de ferro, largo e chato, com um calado máximo de cinco pés que lhe permitia
evitar melhor os fundos variáveis do rio. Os navios mais antigos tinham sido
fabricados em Cincinnati em meados do
século, no modelo legendário
dos que faziam o comércio do Ohio e Mississippi, e tinham a cada lado uma roda de propulsão
movida por caldeira de lenha. Como estes, os navios da Companhia
Fluvial do Caribe tinham no convés
inferior, quase à tona d'água, as máquinas de
vapor e as cozinhas, e os grandes cercados de galinheiro onde as tripulações
dependuravam as redes, entrecruzadas em diferentes
níveis. Tinham no andar superior a
cabine de comando, os camarotes do capitão e seus oficiais, e uma sala
de recreio e um refeitório, onde os passageiros notáveis eram convidados pelo menos uma
vez para jantar e jogar
cartas. No andar intermediário havia seis camarotes
de primeira classe em ambos os lados de um passadiço que servia de
refeitório comum, e na proa uma sala de
estar aberta sobre o rio com gradis de madeira rendada e pilastras de ferro, onde dependuravam à noite suas redes os passageiros da plebe. No
entanto, ao contrário dos mais antigos,
estes navios não tinham as pás de propulsão
a cada lado, e sim uma enorme
roda na popa com pás horizontais debaixo dos reservados sufocantes do
convés de passageiros.
Florentino Ariza não se dera o
trabalho de explorar o navio logo que
subiu a bordo, um domingo de julho
às sete da manhã, como faziam quase por instinto os que viajavam pela
primeira vez. Só teve noção de sua nova realidade ao entardecer, navegando
diante do casario de Calamar, quando foi urinar na popa e
viu pela vigia do reservado a
gigantesca roda de grandes tábuas
girando debaixo de seus pés num
estrondo vulcânico de espumas
e vapores ardentes.
Nunca tinha feito uma viagem. Carregava um baú de
folha com as roupas do páramo, os romances ilustrados que
comprava em folhetins mensais e que ele próprio
costurava em capas de
papelão, e os livros de versos
de amor que recitava de cor
e que estavam a ponto de virar pó de tanto ser relidos. Deixara para trás o violino, que se identificava demasiado com sua
desgraça, mas a mãe o obrigara a levar o chamado petate, trouxa de dormir muito
popular e prática: um travesseiro,
um lençol,
uma bacia de estanho
e um toldo de filo contra
os mosquitos, tudo isso enrolado numa esteira amarrada
com duas cordas de pita para se pendurar
uma rede
em caso de urgência. Florentino Ariza não queria levá-lo, pois achava que
seria uma inutilidade num camarote que incluía o uso de camas,
mas desde a primeira noite teve que agradecer uma
vez mais o bom senso da mãe.
Com efeito, à última hora subiu a bordo um passageiro em traje de etiqueta que havia chegado em navio da
Europa aquela madrugada, e estava acompanhado do governador da província em pessoa. Queria continuar a viagem sem perda de tempo com a esposa e a filha, e com o criado de libré e os sete baús com frisos dourados equilibrados a duras penas pelas escadas. O
capitão, um gigante de Curaçau,
conseguiu tocar o sentido patriótico
dos naturais da terra para acomodar os viajores imprevistos. A
Florentino Ariza explicou numa salada
de castelhano e dialeto de Curaçau que o homem vestido a rigor era o novo ministro plenipotenciário da Inglaterra em viagem para a
capital da república, lembrou que aquele reino fornecera recursos decisivos
para nossa independência do domínio
espanhol, e por conseguinte qualquer sacrifício era pouco para que uma
família de tão alta dignidade
se sentisse em nossa casa melhor do que na própria. Florentino Ariza, é claro,
renunciou ao camarote.
No princípio não se queixou, pois
o caudal do rio era abundante naquela
época do
ano, e o navio navegou sem tropeços
as duas primeiras noites. Depois do jantar, às cinco da tarde, a tripulação distribuía entre os passageiros camas de armar com fundo de lona, e cada um abria a sua onde podia, a arrumava com os panos do seu petate e
instalava por cima o mosquiteiro de filo.
Os que tinham rede penduravam- na no salão, e os que não tinham nada
dormiam em cima das mesas
do refeitório e se cobriam com
as toalhas de mesa
que não eram
mudadas mais de duas
vezes durante a viagem. Florentino Ariza
velava a maior parte da noite,
acreditando ouvir a voz de Fermina Daza na
brisa fresca do rio, apascentando a
solidão com a lembrança dela, ouvindo-a cantar na respiração do navio que avançava nas trevas com passos
de bicho grande, até que apareciam as
primeiras franjas rosadas no horizonte e o novo dia rebentava de repente
sobre campinas desertas e pântanos de névoa.
A viagem lhe parecia então mais uma prova da
sabedoria de sua mãe, e se
sentia com ânimo de sobreviver
ao esquecimento.
Ao fim de três dias
de boas águas, porém, a
navegação ficou mais difícil entre bancos de
areia intempestivos e turbulências enganosas. O rio ficou turvo e foi estreitando mais e mais numa selva
emaranhada de árvores colossais, onde só se encontrava de vez em quando uma
choça de palha junto às pilhas de lenha para a caldeira dos navios. A algaravia
dos louros e o escândalo dos micos
invisíveis pareciam aumentar o mormaço do meio-dia.
Mas de noite era preciso amarrar o
navio para dormir, e então se tornava insuportável o simples fato de estar vivo. Ao calor e aos pernilongos se acrescentava o mau cheiro das tiras de
carne salgada postas a secar pela
balaustrada do navio. A maioria dos
passageiros, sobretudo os europeus, abandonavam
o podredouro dos camarotes e passavam a noite andando
pelos conveses, espantando toda
a classe de insetos com a mesma toalha
com que secavam o suor incessante, e amanheciam exaustos e alastrados de picadas.
Além disso, naquele ano estourara mais um episódio da guerra civil intermitente entre liberais e conservadores, e o
capitão tomara precauções muito severas
para a ordem interna e a segurança
dos passageiros. Procurando evitar equívocos e provocações, proibiu a distração
favorita das viagens daquele tempo,
que era atirar contra os jacarés que apanhavam sol nas praias da beira do rio. Mais adiante, quando alguns passageiros se dividiram em dois bandos inimigos no curso de uma discussão, confiscou as armas de todos com o compromisso de honra
de devolvê-las ao término da viagem. Foi inflexível inclusive com o ministro britânico, que no dia seguinte
à partida amanheceu vestido de caçador, com uma carabina de precisão
e um fuzil de dois canos de matar
tigres. As restrições se tornaram ainda mais drásticas para
lá do porto de Tenerife, onde cruzaram com um navio
que desfraldava a bandeira amarela da
peste. O capitão não conseguiu obter
nenhuma informação sobre aquele sinal
alarmante, porque o outro navio não respondeu aos seus sinais. Mas nesse mesmo dia
encontraram outro com carga de gado para a Jamaica, e este informou que o navio com a bandeira da peste levava dois doentes
de cólera, e que a epidemia
causava estragos no trecho do rio que
ainda lhes faltava navegar. Então foi proibido aos passageiros deixar o navio
não só nos portos seguintes como ainda nos lugares despovoados
onde arribava para carregar lenha. De modo que no restante da viagem até o porto final, que durou outros seis dias, os passageiros contraíram
hábitos carcerários. Entre estes, a
contemplação perniciosa de um pacote de
postais pornográficos holandeses que circulou de mão
em mão sem que se soubesse de
onde saíra, ainda que nenhum veterano
do rio ignorasse que
os cartões não passavam
de
mostruário da legendária coleção do capitão, Mas até
essa distração sem futuro acabou por aumentar o tédio.
Florentino Ariza agüentou os rigores da viagem com a paciência mineral que
desolava sua mãe e exasperava seus amigos. Não se relacionou com ninguém. Os
dias lhe corriam fáceis
enquanto se sentava junto à amurada olhando os jacarés imóveis tomando sol nas praias com as mandíbulas abertas para pegar borboletas, olhando os bandos de garças assustadas que erguiam vôo nos charcos, os peixes-boi
que amamentavam as crias nas grandes tetas maternais e surpreendiam os
passageiros com seus prantos de mulher.
Num único dia viu passarem
boiando três corpos humanos, inchados
e verdes, com vários urubus em cima.
Passaram primeiro os corpos de dois
homens, um deles sem cabeça, em seguida o de uma menina
de poucos anos cujos cabelos de medusa
ficaram ondulando na esteira do navio. Nunca soube, porque nunca se sabia,
se eram vítimas do cólera ou da guerra, mas as exalações nauseabundas contaminaram em sua memória a lembrança de Fermina Daza.
Era sempre assim: qualquer
acontecimento, bom ou mau, tinha
alguma relação com ela. À noite, quando
se atracava o navio e a maioria dos
passageiros caminhava sem alívio
pelos conveses, ele repassava quase de memória os folhetins ilustrados debaixo do lampião de gás do refeitório,
que era a única luz acesa até o
amanhecer, e os dramas tantas vezes relidos recobravam a magia original
quando substituía os protagonistas
imaginários por conhecidos seus da vida real, e reservava para ele
mesmo e para Fermina Daza os papéis de
amores impossíveis. Outras noites lhe
escrevia cartas de angústia,
cujos fragmentos espargia em seguida
nas águas que corriam sem cessar para ela. E assim passava as horas mais
duras, encarnado às vezes num príncipe tímido ou num paladino do amor, e por outras vezes na
sua própria
pele escaldada de amante
esquecido, até que se levantavam as
primeiras brisas e ele se punha a dormitar sentado nas poltronas da amurada.
Certa noite em que
interrompeu a leitura mais cedo que de costume,
dirigia-se distraído para as privadas quando uma porta se abriu ao
passar ele pelo refeitório deserto, e
uma mão de falcão o agarrou pela manga da
camisa e o fechou num camarote.
Mal chegou a sentir o corpo sem idade
de uma mulher nua nas trevas, empapada em suor quente
e com a respiração ofegante, que o empurrou de
barriga para cima no beliche,
lhe abriu a fivela do cinturão, soltou os botões e se desmembrou
toda, acavalada em cima dele, e o
despojou sem glória da virgindade. Ambos rolaram agonizantes no
vazio de um abismo sem fundo que
cheirava como um alagado de camarões.
Ela se deixou ficar em seguida jazendo sobre ele, resfolegando sem ar, e deixou de existir
na escuridão.
— Agora, vá embora e esqueça —
disse. — Isto não sucedeu nunca.
O ataque tinha sido tão rápido e triunfante
que não se podia explicá-lo como uma loucura
súbita do tédio, e sim como fruto
de um plano elaborado com todo o vagar e até nos seus pormenores minuciosos. Esta certeza esmagadora aumentou a ansiedade de Florentino Ariza, que
no auge do gozo
tinha tido uma revelação na qual não podia acreditar, que se negava mesmo
a admitir, e era que o amor ilusório de Fermina
Daza podia ser substituído por uma paixão terrena. Por isso se
empenhou em descobrir a identidade da
violadora mestra em cujo
instinto de pantera encontraria talvez o remédio para sua desventura.
Mas não conseguiu. Ao contrário,
quanto mais aprofundava a pesquisa mais longe se
sentia da verdade.
O ataque tinha sido no último
camarote, mas este se comunicava
com o penúltimo por uma porta intermediaria, de maneira que os dois se convertiam num dormitório familiar com quatro beliches. Ali viajavam duas mulheres
jovens, outra bastante mais velha mas muito
atraente à vista, e uma criança
de poucos meses. Haviam embarcado em Barranco
de Loba, o porto onde se recolhia a carga e os passageiros da cidade
de Mompox desde que esta ficou à margem dos itinerários de vapores devido às veleidades do rio, e Florentino Ariza tinha reparado nelas porque traziam o menino adormecido dentro de uma grande gaiola de pássaros.
Viajavam vestidas como nos transatlânticos da moda, com armação debaixo das saias de
seda, golas de renda e chapéus
de abas grandes enfeitadas com flores de
crinolina, e as duas mais moças mudavam o traje completo várias vezes por dia, de modo que pareciam carregar em
si mesmas sua própria
atmosfera primaveril, enquanto
os demais passageiros sufocavam de calor. As três eram destras no manejo das sombrinhas
e dos leques de plumas, mas com os
propósitos indecifráveis das moças de Mompox da
época. Florentino Ariza não conseguiu sequer
precisar a relação entre elas, embora
fossem sem dúvida da mesma família. A princípio achou que a mais velha podia ser mãe das outras,
mas logo
percebeu que não tinha idade para tanto, e além disso guardava um meio luto que as outras não
compartilhavam. Não concebia que uma delas tivesse
feito o que fez enquanto
as outras dormiam nos beliches contíguos, e a única suposição razoável
era de que aproveitara um momento casual, ou talvez combinado, em que ficara sozinha no camarote. Comprovou que às vezes saíam duas a tomar a fresca até muito tarde enquanto a
terceira ficava cuidando da criança,
mas certa noite de mais calor saíram
as três juntas com o menino adormecido
na gaiola de vime coberta com um toldo de
gaze.
Apesar daquele emaranhado de indícios, Florentino
Ariza se apressou em descartar a possibilidade de que a mais velha das três fosse a autora do ataque, e depois absolveu também a mais moça, que era a mais
bela e atrevida. Chegou a isso sem razões
válidas, só porque a vigilância ansiosa que exercia sobre as três o induzira a transformar em certeza seu
arraigado desejo de que
a amante
instantânea fosse a mãe do menino
engaiolado. Tanto o seduziu essa suposição
que começou a pensar nela com mais
intensidade do que em Fermina Daza, sem fazer caso da evidência de que aquela mãe recente só vivia
para a criança. Não tinha mais de vinte e cinco anos, e era esbelta
e dourada, com umas pálpebras
portuguesas que a tornavam mais
distante, e a qualquer homem teriam
bastado as meras migalhas da ternura com que cumulava o filho. Do
café da manhã à hora de ir deitar se ocupava dele no
salão, enquanto as
outras jogavam xadrez
chinês, e
quando conseguia fazê-lo dormir pendurava do teto
a gaiola de vime no lado mais fresco do convés. Mas nem quando estava dormindo se descuidava
dele, pois balançava então a gaiola cantando entre dentes canções de noiva,
enquanto seus pensamentos voavam por
cima das privações da viagem. Florentino Ariza se aferrou à ilusão de quem mais cedo ou mais tarde se
denunciaria, por um único
gesto que fosse. Vigiava até a
mudança de sua respiração no ritmo do relicário
que trazia pendente sobre a blusa de batista, olhando-a sem dissimulação por cima do livro
que fingia ler, e cometeu a impertinência calculada de trocar de
lugar no refeitório para se sentar diante dela. Mas não obteve o mínimo indício de que ela fosse na realidade a depositária da outra metade do seu segredo.
A única coisa que guardou dela, porque sua companheira mais moça a chamou, foi
o nome sem sobrenome: Rosalba.
No oitavo dia o navio navegou
a duras penas por um turbulento estreito murado entre alcantis de mármore, e depois do almoço atracou em Porto Nare. Ali
ficavam os passageiros que seguiriam
viagem para o interior da província de Antioquia, uma das mais afetadas pela nova guerra civil. O
porto era formado por meia dúzia de choças de
palmas e um botequim de madeira com teto de zinco, e estava protegido por várias patrulhas de soldados descalços e mal armados, porque
havia notícias de um plano dos insurretos para saquear os navios. Por trás das casas subia
até o céu um promontório de montanhas agrestes com uma cornija de ferradura talhada à beira do
precipício. Ninguém a bordo dormiu
tranqüilo, mas não houve assalto
durante a noite e o porto amanheceu transformado em feira dominical, com índios que vendiam amuletos de marfim
vegetal e beberagens de amor, no meio das
recuas de mulas preparadas
para a ascensão de seis dias até as selvas de orquídeas da cordilheira central.
Florentino Ariza se havia
entretido vendo a descarga do navio a
lombo de negro, vira baixar os
engradados de porcelana, os pianos de cauda para
as solteiras de Envigado, e só reparou tarde
demais que entre os passageiros que ficavam estava o grupo de Rosalba. Viu-as quando já iam montadas à
amazona, com botas de mulher e sombrinhas de cores equatoriais, e
então deu o passo que não se atrevera
a dar nos dias anteriores: fez a Rosalba um gesto de adeus com a
mão, e as três lhe responderam do mesmo modo,
com uma familiaridade que lhe doeu nas entranhas por sua audácia tardia. Viu-as dar a volta por trás do botequim, seguidas
pelas mulas carregadas com os
baús, as caixas de chapéu e a gaiola da criança, e pouco depois viu-as subindo feito uma
fila de formigas carregadeiras à beira do abismo, e desapareceram da sua vida. Então se sentiu só no mundo, e a lembrança de Fermina Daza, que ficara na tocaia durante os últimos dias, lhe desferiu a patada mortal.
Sabia que ela se casava no sábado seguinte, em bodas de estrondo,
e o ser que mais a amava e havia de amá-la por todo o sempre não teria sequer o direito de morrer por ela. Os ciúmes, até
agora afogados em pranto, tornaram-se
donos de sua alma. Rogava a Deus que
a centelha da justiça divina
fulminasse Fermina Daza quando se
dispusesse a jurar amor e obediência a um
homem que só a queria para esposa como um enfeite social, e se extasiava
na visão da noiva, ou sua ou de
ninguém, estendida de costas sobre as lousas da catedral, a flor de laranjeira
nevada pelo orvalho da morte, e a
cascata de espuma do véu sobre os
mármores fúnebres de quatorze
bispos sepultados diante do altar-mor.
No entanto, uma vez consumada a vingança, arrependia-se da própria malvadez, e então via Fermina Daza
levantando-se com seu alento de sempre, alheia mas viva, pois não conseguia
imaginar o mundo sem ela. Não dormiu mais, e se às vezes se sentava para beliscar alguma coisa era para criar a ilusão de que Fermina
Daza estivesse à mesa, ou ao contrário, para lhe
recusar a homenagem de estar jejuando por causa dela. Às vezes
se consolava com a certeza de que
na embriaguez da festa de
bodas, e até nas noites febris da lua-de-mel, Fermina Daza havia de padecer um instante, um ao menos, mas um de todas as maneiras, em que se ergueria
em sua
consciência o fantasma do noivo burlado, humilhado, cuspido, o que a faria perder a felicidade.
Na véspera da chegada ao
porto de Caracolí, que era o ponto
final da viagem, o capitão ofereceu a festa
tradicional de despedida, com uma orquestra de sopro formada pelos membros da
tripulação, e fogos de artifício
coloridos espocando da cabine de
comando. O ministro da Grã-Bretanha
sobrevivera à odisséia com um estoicismo exemplar, caçando com a câmara
fotográfica os animais que não lhe permitiam
matar a fuzil, e não houve noite em que não viesse jantar
vestido a rigor. Mas na festa final
apareceu com o traje escocês do clã
MacTavish, e tocou a gaita à vontade e ensinou
quem se interessou a dançar suas danças
nacionais, e antes de raiar o dia tiveram, que levá-lo quase arrastado para o camarote. Florentino Ariza,
prostrado de dor, tinha ido para o canto mais afastado da coberta, onde não chegavam nem notícias da pândega, e enrolou-se no capote de Lotário Thugut tratando de resistir ao calafrio dos ossos. Despertara às cinco da manhã, como desperta o condenado à morte
na madrugada da execução, e em todo o sábado nada fizera além de imaginar minuto a minuto cada uma
das fases das núpcias de Fermina
Daza. Mais tarde, quando regressou a casa, descobriu que havia embrulhado as datas e que tudo tinha sido diferente de como imaginara, e teve até o bom senso de rir da própria fantasia.
Seja como for, viveu um
sábado de paixão que culminou com uma nova crise de febre,
quando lhe pareceu que era o momento em
que os recém-casados fugiam em segredo
por uma porta falsa para se entregarem às delícias da primeira noite. Alguém que o viu
tiritando de febre avisou o capitão,
e este abandonou a festa com
o médico de bordo temendo que fosse um caso de cólera,
e o médico o despachou por precaução para o camarote de quarentena com uma boa
carga de brometos. No dia seguinte, porém, quando avistaram as
escarpas de Caracolí, a febre
desaparecera e tinha o ânimo exaltado, porque no marasmo dos sedativos
resolvera de uma vez por todas e sem mais aquela que mandava ao caralho o
radiante futuro do telégrafo e regressava no mesmo navio à sua velha Rua das Janelas.
Não
foi difícil fazer com que o levassem de regresso em troca do camarote que havia cedido ao representante da rainha
Vitória. O capitão também procurou dissuadi-lo com o argumento de que o telégrafo era a ciência do futuro.
Tanto era assim, lhe disse, que já se inventava um sistema para instalá-lo nos navios. Mas ele resistiu
a todo argumento, o capitão acabou por levá-lo de volta, não pela dívida do camarote, e sim porque conhecia seus vínculos
reais com a Companhia Fluvial do Caribe.
A viagem de descida
se fez
em menos de seis dias, e Florentino Ariza se sentiu de
novo em casa logo que entraram de madrugada na laguna de Mercedes, e viu a esteira de
luzes das canoas pesqueiras ondulando na marola do navio. Era noite ainda quando atracaram na enseada do Menino
Perdido, que era o último porto
dos vapores fluviais, a nove léguas da baía, antes de dragarem e botarem em condições
a antiga passagem dos espanhóis. Os passageiros tinham que esperar até as seis da manhã
para abordar a flotilha de
chalupas de aluguel que os levariam até seu destino
final. Mas Florentino Ariza estava tão
aflito que saiu muito antes
na chalupa do correio, cujos empregados o reconheciam
como um dos seus. Antes de abandonar
o navio cedeu à tentação de um ato simbólico: atirou n'água o petate, e
o acompanhou com a vista em meio às tochas dos pescadores invisíveis, até que saiu da laguna e desapareceu no oceano. Tinha
certeza de que não precisaria mais
dele pelo resto dos seus dias. Nunca
mais, porque nunca mais havia de abandonar
a cidade de Fermina Daza.
A baía era um remanso
ao amanhecer. Por cima da névoa flutuante, Florentino Ariza viu a cúpula da catedral dourada pelas primeiras luzes, viu os pombais nos eirados, e
guiando-se por eles localizou o
balcão do palácio do Marquês de Casalduero, onde supunha que a mulher da sua desventura
dormitava apoiada ainda no ombro do esposo saciado. Essa visão
o dilacerou, mas não fez nada para reprimi-la, pelo contrário: desfrutou
sua dor. O sol começava a esquentar quando
a chalupa do correio abriu caminho
pelo labirinto de veleiros ancorados,
onde os cheiros incontáveis do mercado
público, remexidos com a podridão do fundo, se
confundiam numa só pestilência. A goleta de Riohacha acabava de chegar, e os grupos de estivadores
com água pela cintura recebiam os passageiros na amurada e os carregavam até a
margem. Florentino Ariza foi o
primeiro a tocar terra saltando da chalupa do correio, e a partir de então
não sentiu mais o fedor da baía
mas apenas o cheiro pessoal de Fermina Daza no recinto da cidade. Tudo cheirava a ela.
Não voltou à agência do telégrafo.
Sua preocupação única eram os folhetins de amor e os volumes da Biblioteca
Popular que a mãe continuava a comprar para
ele,
e que ele lia e tornava a ler enterrado numa rede
até decorá-los. Sequer perguntou onde estava o violino. Reatou os contatos com seus amigos mais próximos, e
às vezes jogavam bilhar ou
conversavam nos cafés ao ar livre debaixo dos arcos da Praça da Catedral, mas não voltou aos bailes dos
sábados: não podia concebê-los sem ela.
Na mesma manhã em que voltou da viagem
inacabada soube que Fermina Daza estava passando a lua-de-mel na Europa,
e seu coração atordoado aceitou como
fato que ela passaria a morar lá, se não para
sempre ao menos por muitos anos. Esta certeza lhe trouxe as primeiras esperanças de esquecimento.
Pensava em Rosalba, cuja
lembrança se fazia mais ardente à
medida que se apaziguavam as
outras. Foi por essa época que
deixou crescer o bigode de guias
engomadas que não rasparia pelo resto da vida
e que mudou seu modo de ser, e a idéia da substituição do amor
o enfiou por caminhos imprevistos. O
cheiro de Fermina Daza se foi tornando
pouco a pouco menos freqüente e intenso, e por fim ficou apenas nas gardênias
brancas.
Andava à deriva, sem saber por
onde continuar a vida, certa noite de guerra
em que a célebre viúva de Nazaret se refugiou aterrada em sua casa, porque a dela tinha sido destruída
por um canhonaço, durante o sítio do general rebelde Ricardo Gaitán Obeso.
Foi Trânsito Ariza que pegou a ocasião no vôo e mandou a viúva para o
quarto do filho, a pretexto de que no seu não havia
lugar, mas na verdade com a
esperança de que outro amor o curasse
daquele que não o deixava viver. Florentino Ariza não tinha tornado a fazer amor desde que foi desvirginado por Rosalba no camarote do navio, e lhe pareceu
natural, numa noite de emergência, que a viúva dormisse na cama
e ele na rede. Mas ela já tinha tomado a decisão por ele. Sentada na beira da cama em
que Florentino Ariza estava deitado sem
saber o que fazer, começou a falar com ele
sobre a dor inconsolável da morte
do marido três anos antes, e enquanto isso ia despindo e jogando pelos ares os crepes da viuvez,
até que não guardou mais em si nem o
anel de núpcias. Tirou a blusa de tafetá com
bordados de vidrilho e a jogou através do quarto na poltrona do canto, atirou o corpinho por cima do ombro para
o outro lado da cama, arrancou
com um só puxão a saia talar de babados, as tiras de cetim das
ligas e as fúnebres meias de seda, e espalhou tudo pelo chão, até
atapetar o quarto com os últimos farrapos
do seu
luto. Fez tudo com tanto alvoroço, e com umas pausas tão bem medidas, que cada
gesto seu parecia celebrado
pelos canhonaços das tropas de assalto, que abalavam a cidade até os alicerces. Florentino Ariza
procurou ajudá-la com o fecho do porta- seios,
mas ela se antecipou com uma manobra destra, pois em cinco
anos de devoção matrimonial aprendera a se bastar a si mesma em todos
os trâmites do amor, inclusive seus
preâmbulos, sem ajuda de ninguém.
Por fim tirou
os calções de renda,
fazendo-os resvalar pernas abaixo com um movimento rápido
de nadadora, e ficou em carne viva.
Tinha vinte e oito anos e parira três vezes, mas sua nudez conservava intacta a vertigem de solteira. Florentino Ariza jamais
compreenderia como umas roupas de penitente tinham podido dissimular os ímpetos daquela potranca xucra que o
desnudou sufocada pela própria febre,
como não podia fazer com o esposo para que não a considerasse uma corrompida, e que tratou de saciar num
só assalto a abstinência férrea
do luto,
com o estouvamento e a
inocência de cinco anos de fidelidade conjugai. Antes dessa noite, e a partir da hora solene em que a mãe a pariu, jamais estivera sequer na mesma
cama com um homem que não fosse o esposo morto.
Não se permitiu o
mau gosto de um remorso. Pelo contrário. Mantida em vigília pelas bolas de fogo que passavam zunindo por cima dos
telhados, continuou evocando até o amanhecer as excelências do marido,
só lhe
censurando a deslealdade de haver morrido sem ela, e redimida pela certeza de que ele jamais fora tão seu
quanto agora, dentro de um caixão cravado
com doze cravos de três
polegadas, e a dois metros debaixo da terra.
— Sou feliz —
disse — porque só agora sei com certeza onde está quando
não está em casa.
Aquela noite tirou o luto,
de um só golpe, sem passar pelo intervalo ocioso das blusas
de florinhas cinzentas, e sua vida se
encheu de canções de amor e trajes provocantes com araras e
borboletas pintadas, e começou a repartir o corpo com todos aqueles que o pedissem. Derrotadas as tropas
do general Gaitán Obeso, ao cabo de sessenta
e três dias de sítio, reconstruiu a casa arrasada pelo
canhoneio, e lhe pôs um formoso
terraço marinho por cima dos cais, martelados em tempo de borrasca
pela fúria assanhada da ressaca. Esse foi seu ninho de amor,
como o chamava sem ironia, onde só recebeu quem
lhe agradou, quando quis e
como quis,
e sem cobrar de ninguém
um só vintém, por achar que eram os homens
que lhe faziam o favor. Em
casos muito especiais aceitava um presente, desde que não fosse de ouro,
e era tão hábil em seus manejos
que ninguém teria podido apresentar uma prova concludente de sua conduta imprópria. Só numa ocasião esteve à beira do escândalo público, quando correu o boato de que o arcebispo Dante de Luna não morrera por acidente ao comer um prato de
cogumelos equivocado, mas que
os comera de propósito, porque ela o ameaçara de se degolar se ele insistisse em seus assédios sacrílegos. Ninguém lhe perguntou se era
verdade, nem lhe falou nisso, nem isso mudou nada em sua vida. Era, como
dizia ela própria morrendo de rir,
a única mulher livre da província.
A viúva de Nazaret
nunca faltou aos encontros ocasionais
com Florentino Ariza, nem nos seus tempos mais atarefados, e nunca teve
pretensões a amar e ser amada, embora
sempre nutrisse a esperança de encontrar algo que fosse como o amor, mas sem os problemas do amor. Algumas vezes era
ele quem
ia à sua casa, e então gostavam
de se
empapar de espuma de
salitre no terraço do mar,
contemplando o amanhecer do mundo
inteiro no horizonte. Ele se empenhou a
fundo em ensinar a ela todas as safadezas que tinha visto
outros fazerem pelos buracos nas paredes do hotel suspeito, assim como as fórmulas teóricas apregoadas por Lotário
Thugut em suas noites de farra. Incitou-a a se deixar ver enquanto faziam o amor, a
trocar a posição convencional do missionário
pela da bicicleta de mar, ou do frango assado, ou do anjo esquartejado, e estiveram a pique de acabar
com a vida ao se arrebentarem os
punhos quando procuravam inventar algo diferente numa rede. Foram lições
estéreis. Pois a verdade é
que ela era uma aprendiz temerária, mas carecia do talento mínimo para a fornicação dirigida. Nunca entendeu
os encantos da serenidade na cama, nem teve um
instante de inspiração, e seus orgasmos eram inoportunos e
epidérmicos: uma trepada triste.
Florentino Ariza viveu muito tempo na ilusão
de ser o único, e ela lhe dava o gosto de acreditar nisso, até
que teve a má sorte de falar dormindo. Pouco a pouco, ouvindo-a
dormir, ele foi recompondo aos
pedaços a carta de navegação dos seus sonhos,
e se meteu por entre as ilhas numerosas
de sua vida secreta. Assim ficou informado de que ela não
pretendia se casar com ele, mas se
sentia ligada à sua vida pela
gratidão imensa que lhe devia por tê-la pervertido. Muitas vezes disse a ele:
— Adoro você porque você me tornou
puta.
Dito de outra
maneira, não lhe faltava razão.
Florentino Ariza a despojara da virgindade de um casamento
convencional, mais perniciosa do que
a virgindade congênita e a abstinência da viuvez. Ele lhe ensinara que nada do que
se faça na cama é imoral se contribui para perpetuar o amor. E algo que havia de ser desde então a
razão de sua vida: convenceu-a de que
a gente vem ao mundo com as trepadas contadas, e as que não se usam por qualquer motivo, próprio ou alheio, voluntário ou forçado, se
perdem para sempre. O mérito
dela foi tomá-lo ao pé da letra. Contudo, porque acreditava
conhecê-la melhor do que ninguém,
Florentino Ariza não compreendia por que era tão solicitada uma mulher de
recursos tão pueris, que além
disso não parava de falar
na cama das
saudades do esposo
morto. A única explicação que lhe ocorreu, e que ninguém pôde desmentir,
foi que à viúva de Nazaret
sobrava em ternura o que faltava em artes marciais. Começaram a se ver com menos
freqüência à medida que ela alargava
seus domínios, e à medida que ele explorava os seus tratando de encontrar
alívio para seus velhos padecimentos em outros corações desarvorados, e por fim se esqueceram
sem
dor.
Foi o primeiro amor de
cama de Florentino Ariza. Mas em lugar de
fazer com ela uma união
estável, como sonhava sua mãe, aproveitavam-no ambos para se lançarem
à vida. Florentino Ariza desenvolveu métodos que pareciam inverossímeis num homem como ele, taciturno
e macilento, e além disso vestido feito um ancião de tempos
idos. Não obstante, tinha duas
vantagens a seu favor. Uma era um olho certeiro para identificar de imediato
a mulher que o esperava, ainda que no meio de uma multidão,
e mesmo assim a cortejava com cautela,
pois sabia que nada causava mais vergonha nem
era mais humilhante do que uma
negativa. A outra vantagem é que elas o identificavam de imediato como um solitário carente de amor,
um indigente das ruas com uma humildade de cão batido que as submetia sem
condições, sem pedir nada, sem nada esperar dele, exceto a
tranqüilidade de consciência de lhe haverem
feito um favor. Eram suas únicas armas, e com elas travou
batalhas históricas mas em segredo
absoluto, que foi registrando com um rigor de
notário num caderno cifrado,
colocado entre muitos outros com um título
que dizia tudo: Elas. A primeira anotação foi feita com a viúva de Nazaret.
Cinqüenta anos mais tarde, quando Fermina Daza ficou livre de sua sentença sacramentai, tinha uns vinte e cinco cadernos com seiscentos e vinte e
dois registros de amores continuados, à parte as aventuras fugazes que não mereceram uma nota
de caridade
que fosse.
O próprio Florentino
Ariza estava convencido, ao fim de seis meses de amores
descomedidos com a viúva de Nazaret, de que conseguira sobreviver ao tormento de Fermina
Daza. Não só acreditou como comentou várias
vezes o fato com Trânsito Ariza
durante os quase dois anos que durou a viagem de
núpcias, e continuou acreditando com uma
sensação de libertação sem fronteiras até o domingo de sua má
estrela em que a viu de chofre
sem qualquer aviso do coração, quando saía da missa
solene pelo braço do marido e
assediada pela curiosidade e as lisonjas do seu novo mundo. As mesmas damas de alta linhagem que no princípio
a menosprezavam e zombavam dela por ser
uma adventícia sem nome
se esmeravam para que ela se sentisse uma
delas, enquanto se embriagavam
com seu encanto.* Assumira com tanta
naturalidade sua condição de esposa mundana que Florentino Ariza
precisou de um instante de reflexão
para reconhecê-la. Era outra: a
compostura de pessoa adulta, os
botins altos, o chapéu de velilho com a pena colorida de algum pássaro oriental, tudo nela era correto e fácil, como se tudo tivesse
sido seu desde sua origem. Achou-a mais bela e viçosa do que nunca, mas irrecuperável, como
nunca, embora não tenha compreendido a
razão até notar a curva do seu ventre debaixo da túnica de seda:
estava grávida de seis meses.
Entretanto, o que mais o impressionou foi
que ela e o marido formavam um par admirável,
e ambos manejavam o mundo cora tanta fluidez que
pareciam flutuar acima dos escolhos da
realidade. Florentino Ariza não sentiu
ciúme nem raiva, e sim um grande
desprezo por si mesmo. Sentiu-se pobre, feio, inferior, e não só indigno dela como de qualquer outra mulher sobre
a terra.
Lá estava ela de volta. Regressava sem nenhum motivo para se arrepender da guinada
que tinha dado era sua vida. Pelo contrário: cada vez teve menos, sobretudo depois de sobreviver
aos íngremes primeiros anos. Mais meritório ainda no caso dela, que chegara à
noite de núpcias ainda nas brumas da inocência. Tinha começado a perdê-la no
curso de sua viagem pela província da prima
Hildebranda. Em Valledupar compreendeu enfim
por que os gaios corriam atrás das galinhas,
presenciou a cerimônia brutal dos burros, viu nascerem os bezerros, e ouviu as primas dizerem com naturalidade
quais os casais da família que
continuavam a fazer amor, e quais e quando e por que
tinham deixado de fazê-lo embora continuassem morando juntos. Foi
então que se iniciou nos amores
solitários, com a rara sensação de estar descobrindo algo que seus instintos tinham sempre sabido,
primeiro na cama, com a respiração amordaçada para
não se delatar no quarto
compartilhado com meia dúzia de primas, e depois a duas mãos, largada à vontade no chão do banheiro, com o cabelo solto e fumando seus primeiros cigarros de tropeiro. Sempre o fez com umas dúvidas de consciência que só conseguiu superar depois de casada,
e sempre num segredo absoluto,
enquanto as primas alardeavam entre si não
só a quantidade de vezes num dia, como inclusive a forma e o
tamanho dos orgasmos. No entanto,
apesar da bruxaria daqueles ritos
iniciais, continuou carregando a convicção de
que a perda da virgindade era um sacrifício sangrento.
De maneira que sua festa
de
bodas, uma das mais ruidosas
de
fins do século
passado, transcorreu para ela
nas vésperas do horror. A
angústia da lua-de-mel afetou-a muito mais do que o escândalo social do seu casamento com um galã como não havia dois naqueles
anos. Logo que começaram a correr os proclamas na missa solene da catedral, Fermina Daza voltou a receber cartas anônimas,
algumas com ameaças de morte, mas mal
passava os olhos nelas, pois todo o medo de que era capaz estava ocupado pela iminência da violação. Era o modo correto de
tratar os missivistas anônimos, embora
ela não o fizesse de propósito, numa classe acostumada, pelas reviravoltas históricas, a curvar a
cabeça diante dos fatos consumados. Por isso
tudo quanto lhe era contrário
ia ficando a seu favor à medida que a
boda se tornava irrevogável. Ela
notava isso nas mudanças graduais do cortejo de mulheres lívidas. degradadas pelo artritismo e os ressentimentos, que um dia se convenciam de que eram vãs suas intrigas
e apareciam sem se anunciar na pracinha dos Evangelhos como se estivessem
em casa, carregadas de receitas de cozinha e de presentes augurais. Trânsito Ariza
conhecia aquele mundo, embora só dessa
vez o sofresse na própria carne, e sabia que suas clientes apareciam na véspera das festas
grandes pedindo-lhe o favor de desenterrar as botijas e emprestar as
jóias empenhadas, só por vinte e
quatro horas, mediante o pagamento de um juro adicional. Há muito tempo não
acontecia como dessa vez, quando as botijas ficaram vazias para que as senhoras de extensos
sobrenomes abandonassem seus santuários de sombras para aparecerem
radiantes, com suas próprias jóias tomadas de empréstimo, numa boda como não se viu
outra de tanto esplendor no resto do século, e cuja glória final foi a de
ostentar como padrinho o doutor Rafael
Núfiez, três vezes presidente da república, filósofo, poeta
e autor da letra do Hino Nacional, como se podia
ver desde então em alguns
dicionários recentes. Fermina Daza chegou ao altar-mor da catedral pelo braço do pai,
a quem o traje de cerimônia conferiu por um dia um ar
equívoco de respeitabilidade.
Casou-se para sempre perante o
altar-mor da catedral numa missa
concelebrada por três bispos,
às onze da manhã da sexta-feira
de glória da Santíssima Trindade, e sem
um pensamento de caridade para Florentino Ariza, que a essa hora delirava de febre, morrendo por ela,
à intempérie num navio que não
havia de levá-lo ao esquecimento. Durante a cerimônia, e depois
na festa, manteve um sorriso que parecia fixado com alvaiade,
uma expressão sem alma que alguns interpretaram como o sorriso de zombaria da vitória, mas que na realidade era um pobre recurso para dissimular
seu terror de virgem recém-casada.
Por sorte, as circunstâncias imprevistas, junto com a compreensão do marido, resolveram suas três primeiras noites sem dor. Foi
providencial. O navio da Compagnie Générale Transatlantique, com o itinerário transtornado pelo mau
tempo do Caribe, anunciou com apenas
três dias de antecipação que avançava
a partida vinte e quatro horas, de modo que não zarparia para La Rochelle
no dia seguinte à boda, como estava previsto há seis meses, e sim
na mesma noite. Ninguém acreditou que aquela
alteração não fosse mais uma das tantas
surpresas elegantes da boda, pois
a festa acabou depois
da meia-noite a bordo do
transatlântico iluminado, com uma orquestra de Vieña que estreava naquela viagem as valsas mais recentes de Johann Strauss. De modo que os vários
padrinhos ensopados de champanha
foram arrastados para terra pelas
esposas atribuladas, quando já andavam perguntando aos camareiros se não haveria camarotes disponíveis para que continuasse
o pagode até Paris. Os últimos a desembarcar viram Lorenzo Daza
diante das tavernas do porto, sentado no chão em plena rua e com a roupa de cerimônia em farrapos. Chorava à goela solta, como choram os árabes seus
mortos, sentado num fio de águas podres que bem podia ter sido um charco de lágrimas.
Nem na primeira noite de
mar ruim, nem nas seguintes de
navegação aprazível, nem nunca em sua mui
longa vida matrimonial aconteceram os atos de barbárie que temia Fermina
Daza. A primeira, apesar do tamanho do navio e dos luxos do camarote, foi uma repetição
horrível da goleta de Riohacha, e o marido foi um médico serviçal que não dormiu um instante para confortá-la, que era a única coisa que um médico demasiado eminente sabia fazer contra
o enjôo. Mas a borrasca amainou no
terceiro dia, passado o porto da Güayra,
e então já tinham estado juntos
tanto tempo e conversado tanto que se sentiam
amigos antigos. A quarta noite, quando
ambos retomaram a vida habitual, o doutor Juvenal Urbino se surpreendeu com o fato de sua jovem
esposa não rezar antes de dormir. Ela
foi sincera: a duplicidade das freiras provocara nela uma resistência
aos ritos, mas sua fé estava
intacta, e aprendera a mantê-la em silêncio.
Disse: "Prefiro me entender
direto com Deus." Ele compreendeu suas razões,
e desde então cada um praticou à sua maneira a mesma religião.
Tinham tido um noivado breve, mas
bastante informal para a época, pois
o doutor Urbino a visitava em sua casa, sem
vigilância, todos os dias ao entardecer. Ela não teria permitido que ele lhe tocasse nem na ponta dos dedos
antes da bênção episcopal, mas
tampouco ele tentara. Foi na primeira
noite de bom mar, já na cama mas
ainda vestidos, que ele iniciou as
primeiras carícias, e o fez com tanto
cuidado que a ela pareceu natural a sugestão de
que vestisse a camisola. Foi
trocar de roupa no banheiro, mas
antes apagou as luzes do camarote, e quando saiu com o camisolão
calafetou com panos as fendas da porta,
para deixar a cama em escuridão absoluta. Enquanto agia, falou de bom
humor:
— O que é que você quer, doutor? É a primeira vez que
durmo com um desconhecido.
O doutor Juvenal Urbino sentiu que se esgueirava junto a ele
feito um bichinho assustado, procurando se manter o mais longe possível num
leito onde era difícil estarem
dois sem se tocar. Tomou-lhe a mão, fria e crispada de terror, entrelaçou seus dedos
nos dela, e quase num sussurro começou a contar suas lembranças de outras viagens por mar. Ela estava tensa outra vez, porque ao voltar à cama percebeu que ele se desnudara por
completo enquanto ela estava no
banheiro, o que fez renascer seu terror do passo seguinte. Mas o
passo seguinte demorou várias
horas, pois o
doutor Urbino continuou
falando muito devagar, enquanto se apoderava milímetro a milímetro da confiança de seu corpo. Falou-lhe
de Paris, do amor em Paris, dos
namorados de Paris que se beijavam na rua, no ônibus, nos terraços floridos dos cafés abertos
ao hálito de fogo e aos acordeões
lânguidos do verão, e faziam o amor de pé nos cais do Sena sem que ninguém os incomodasse. Enquanto falava nas
sombras, acariciou-lhe a curva do pescoço
com a ponta dos dedos, lhe acariciou
a penugem de seda dos braços, o
ventre evasivo, e quando sentiu que
a tensão cedera, fez uma primeira
tentativa de lhe levantar a camisola, mas ela
o deteve com um impulso típico do seu caráter. Disse: "Sei fazer isso sozinha."
Tirou-a, de fato, e depois ficou tão imóvel que o doutor Urbino poderia pensar
que já não estava ali, não fosse o
calor de sol do seu corpo nas trevas.
Ao fim de um momento tornou a lhe agarrar a mão, e então sentiu-a quente e
solta, embora úmida ainda de um orvalho
suave. Ficaram outro momento silenciosos
e imóveis, ele aguardando a ocasião para o passo seguinte, ela a
esperá- lo sem saber por onde, enquanto a escuridão se ampliava com sua respiração
cada vez mais intensa. Ele a soltou de
repente e deu o salto no vácuo: umedeceu na língua a ponta do dedo
médio e lhe tocou apenas no
bico desprevenido do seio, e ela
sentiu uma descarga de morte,
como se tocada num nervo vivo. Alegrou-se de estar
às escuras para que ele não visse
o rubor esbraseado que lhe fez tremer
até as raízes do crânio.
"Calma", disse ele, muito calmo.
"Não esqueça que os conheço." Sentiu que ela sorria, e sua voz soou doce e nova nas trevas.
—
Lembro muito bem — disse — e
ainda não passou minha raiva.
Então ele soube que tinham passado o cabo da boa esperança, e tornou a pegar- lhe na mão grande e macia, e cobriu-a de
beijinhos órfãos, primeiro o metacarpo áspero, os grandes dedos
clarividentes, as unhas diáfanas, e
depois o hieróglifo do seu destino
na palma suada. Ela não soube como foi que sua
mão chegou até o peito dele, e esbarrou em algo que não soube adivinhar
o que fosse. Ele disse: "É um escapulário." Ela lhe acariciou os pêlos do peito,
e depois agarrou o matagal completo com os cinco dedos para arrancá-lo pela raiz. "Mais forte", disse ele. Ela tentou,
até o ponto em que sabia que
não ia machucá-lo, e depois foi sua mão que buscou a dele perdida nas trevas. Mas ele não deixou que os dedos de novo se
entrelaçassem, agarrando-lhe o pulso e conduzindo a mão dela ao longo do próprio
corpo com uma força invisível
mas muito bem dirigida, até que ela sentiu o sopro ardente de um animal
em carne viva, sem forma corporal, mas ansioso e arvorado. Ao contrário do que ele imaginou, mesmo ao contrário do que
ela própria
teria imaginado, não retirou a mão, nem
a deixou inerte onde ele a
pôs, mas, encomendando-se de corpo e
alma à Santíssima Virgem, cerrou os
dentes com medo de rir da própria loucura, e começou a identificar
pelo tato o inimigo empinado, tomando conhecimento
do seu tamanho, a força do seu talo, a extensão de suas asas,
assustada com sua determinação mas
compadecida de sua solidão, tornando-o seu com uma
curiosidade minuciosa que
alguém menos experiente que seu esposo teria confundido com carícias.
Ele fez apelo às suas últimas forças para resistir à
vertigem do escrutínio mortal, até
que ela o largou com uma graça infantil, como
se o tivesse
jogado no lixo.
—
Nunca pude entender como é esse aparelho
— disse.
Então ele o
explicou a sério com seu método
magistral, enquanto lhe carregava a
mão pelos lugares que mencionava, e ela a
deixava entregue com uma obediência de aluna exemplar.
Ele sugeriu num momento propício que
tudo aquilo era mais fácil com a luz acesa.
Ia acendê-la, mas ela lhe deteve o
braço, dizendo: "Eu vejo melhor com
as mãos." Na realidade queria
acender a luz, mas queria fazê-lo ela própria e não recebendo ordens, e assim foi. Ele a viu então em posição fetal,
e além do mais coberta com o lençol, sob a claridade repentina. Mas viu-a agarrar
outra vez sem afetações o
animal da sua curiosidade, virou-o do direito
e do avesso, observou-o com um interesse que já começava a parecer mais do que científico, e disse em conclusão: "Para lá de feio, mais
feio que o das mulheres." Ele concordou, e assinalou
outros inconvenientes mais graves que
a feiúra. Disse: "É como o filho mais velho, que a gente passa a vida trabalhando para ele,
sacrificando tudo por ele, e
na hora da verdade acaba fazendo o que lhe
dá na veneta." Ela
continuou a examiná-lo, perguntando para que
servia isso, e para que servia aquilo, e quando se considerou bem informada sopesou-o com
ambas as mãos, como para concluir que nem pelo peso valia a pena, e o deixou cair com um muxoxo de
menosprezo.
—
Além de tudo, acho que tem muita coisa de sobra — disse.
Ele ficou perplexo. A proposta original de sua tese de graduação
tinha sido essa: a conveniência de simplificar o organismo humano. Parecia-lhe antiquado, com muitas funções
inúteis ou repetidas que foram
imprescindíveis para outras
idades do gênero humano, mas
não para a nossa. Sim: podia ser mais
simples e por isso mesmo menos
vulnerável. Concluiu: "É
coisa que só Deus pode fazer, sem dúvida, mas dê todas as maneiras seria bom deixá-lo estabelecido em termos teóricos." Ela riu divertida,
de um
modo tão natural que ele aproveitou
a ocasião para abraçá-la e lhe deu o primeiro beijo na boca. Ela correspondeu, e ele continuou a lhe dar beijos muito suaves
nas faces, no nariz, nas
pálpebras, enquanto deslizava a mão por baixo do
lençol, e lhe acariciou o púbis redondo e liso: um púbis
de japonesa. Ela não lhe afastou a mão, mas conservou a sua em estado
de alerta, caso ele avançasse um passo mais.
—
Não vamos continuar com a aula de medicina — disse.
—
Não — disse ele. —
Esta vai ser de amor.
Então, tirou o lençol de cima dela e ela não só não se opôs como o atirou para longe do beliche com um golpe
rápido dos pés, pois já não
agüentava o calor. Mais do que parecia quando ela estava vestida, seu corpo era ondulante
e elástico, com um cheiro próprio
de animal montes que
permitia distingui-la entre todas as mulheres
do mundo. Indefesa à plena luz, uma onda de sangue fervente
lhe subiu à cara, e a única coisa que lhe ocorreu como disfarce foi se grudar ao pescoço do seu homem, e
beijá-lo a fundo, bem forte, até que
gastaram no beijo todo o ar de respirar.
Ele tinha consciência de
que não a amava. Casara-se porque gostava da sua altivez, sua seriedade, sua força e também por um tico
de vaidade, mas enquanto ela o beijava pela primeira vez teve a
certeza de
que não haveria nenhum obstáculo para inventar
um bom amor. Não falaram a respeito nessa primeira
noite em que falaram de tudo até o amanhecer, nem falariam nunca. Mas de um modo
geral, nenhum dos dois se equivocou.
Ao despontar
do dia, quando adormeceram, ela continuava virgem, mas não o seria por muito tempo. A noite seguinte, com efeito, depois que ele lhe ensinou a dançar as valsas de Vieña debaixo do céu sideral do Caribe,
ele teve que ir ao banheiro depois
dela, e quando voltou ao camarote encontrou-a esperando por ele nua na cama. Então foi ela quem
tomou a iniciativa, e se entregou
sem medo, sem dor, com a alegria de uma aventura de alto mar, e sem vestígios
de cerimônia sangrenta além da rosa da
honra no lençol. Ambos o
fizeram bem, quase como um milagre, e
continuaram a fazê-lo bem de noite e de dia e cada vez melhor no resto da viagem,
e quando chegaram a La Rochelle se entendiam
como amantes antigos.
Permaneceram dezesseis
meses na Europa, com base em Paris, e
fazendo viagens curtas pelos países vizinhos.
Durante esse tempo fizeram
amor todos os dias, e mais de uma vez nos domingos de inverno, quando ficavam até a hora do almoço preguiçando na cama. Ele era homem de
bons ímpetos, além de bem
treinado, e ela não fora feita para
aceitar vantagem de ninguém, de
maneira que tiveram que se conformar
com o poder compartilhado na cama. Depois
de
três meses de amores febris ele compreendeu que um dos
dois era estéril, e ambos se submeteram a exames severos no Hospital de La Salpêtrière, onde ele fora
interno. Foi uma diligência árdua mas infrutífera. Contudo, quando menos o esperavam, e sem nenhuma mediação científica, aconteceu
o milagre. Em fins do ano seguinte,
quando voltaram a casa, Fermina estava grávida de seis meses, e se
julgava a mulher mais feliz da terra. O filho tão desejado por ambos, que nasceu sem novidades sob o
signo de Aquário, foi batizado em homenagem ao avô morto de cólera.
Era impossível saber se
foi a Europa ou o amor que os
tornou diferentes, pois as duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Ambos estavam mudados, e a fundo,
não só em si mesmos como em relação aos demais, como percebeu Florentino Ariza ao vê-los à
saída da missa duas semanas depois da volta,
naquele domingo da sua desgraça. Voltaram com uma concepção nova da vida, carregados de novidades
do mundo, e prontos para mandar. Ele com as primícias da literatura, da música, e sobretudo
as de sua ciência. Trouxe uma assinatura
de Le Fígaro, para não perder o fio da realidade, e outra da Revue des
Deux Mondes para não perder o fio da poesia. Tinha feito além disso um acordo com seu livreiro de Paris para
receber as novidades dos escritores mais lidos, entre eles Anatole France e Pierre Loti, e
daqueles de que gostava mais, como Remy de Gourmont e Paul Bourget, mas em nenhum
caso Émile Zola, que lhe parecia
insuportável, apesar de sua valente
irrupção no julgamento de Dreyfus. O
mesmo livreiro se comprometeu a mandar pelo correio as partituras mais sedutoras
do catálogo de Ricordi, sobretudo de música de câmara,
para manter o título bem ganho por seu pai de primeiro
promotor de concertos na cidade.
Fermina Daza, sempre contrária aos rigores da moda, trouxe seis baús com roupas de tempos
diversos, pois não a convenceram as grandes marcas. Tinha
estado nas Tulherias, em pleno
inverno, para o lançamento da coleção de Worth, o indiscutível
tirano da alta costura, e a única
coisa que conseguiu foi uma bronquite
que a derrubou por cinco dias na cama. Laferrière lhe pareceu menos pretensioso
e voraz, mas sua decisão sábia foi arrebanhar o que mais lhe agradava
nas lojas de liquidação, ainda
que o esposo jurasse aterrado que eram roupas de
defunto. Da mesma forma, trouxe quantidades de sapatos italianos sem marca, que preferiu aos afamados e
extravagantes de Ferry, trouxe uma sombrinha de Dupuy, vermelha como os fogos do inferno,
que deu muito que escrever aos
nossos assustadiços cronistas
sociais. Só comprou um chapéu de Madame Reboux, mas em compensação encheu um baú de cachos de
cerejas artificiais, ramalhetes de quantas
flores de feltro conseguiu encontrar,
feixes de penas de avestruz,
morriões de pavões, rabos de gaios asiáticos, faisões inteiros, colibris, e uma variedade incontável de pássaros exóticos dissecados em pleno vôo, em pleno grito, em plena
agonia: tudo quanto servira nos últimos vinte
anos para que os mesmos chapéus parecessem outros. Trouxe uma coleção de leques de
diversos países do mundo,
e um diferente
e apropriado para cada ocasião.
Trouxe uma essência perturbadora escolhida entre muitas na perfumaria do Bazar
de La Charité, antes que os ventos
primaveris dispersassem suas cinzas,
mas usou-a uma vez só, porque se desconheceu
a si mesma
com o perfume trocado. Trouxe também um
estojo de cosméticos que era a última
novidade no mercado da sedução,
e foi a primeira mulher que apareceu com ele nas festas,
quando o simples ato de retocar o rosto em público
era considerado indecente.
Traziam, ademais, três lembranças inesquecíveis: a estréia sem precedentes
dos Contos de Hoffmann, em Paris, o incêndio pavoroso de quase todas as gôndolas de Veneza
diante da Praça de São Marcos,
que haviam presenciado com o coração dolorido da
janela de seu hotel, e a visão fugaz de Oscar Wilde na primeira nevada de janeiro.
Mas no meio dessas e de tantas outras lembranças, o doutor
Juvenal Urbino conservava uma que
sempre lamentou não compartilhar com a
esposa, pois vinha de seus tempos de estudante solteiro em Paris.
Era a lembrança de Victor Hugo, que
desfrutava aqui de uma celebridade comovente a margem de seus livros,
porque alguém disse que ele tinha
dito, sem que jamais alguém o ouvisse dizer na realidade, que nossa Constituição não era para um
país de homens e sim
de anjos. Desde então foi-lhe
rendido um culto especial, e a
maioria dos numerosos compatriotas
que viajavam para a França morria de vontade de vê-lo. Uma meia dúzia
de estudantes, entre eles Juvenal Urbino, montaram guarda por um tempo diante da sua residência na
avenida Eylau, e nos cafés onde se dizia que ele ia
chegar sem
falta e nunca chegou, e por último
tinham solicitado por escrito uma
audiência privada, em nome dos
anjos da Constituição de Rionegro. Nunca receberam resposta. Um dia qualquer, Juvenal Urbino passou
por acaso na frente do Jardim
do Luxemburgo e o viu sair do Senado com uma mulher moça que lhe dava o
braço. Achou-o muito velho, movendo-se a duras penas, com a barba e o cabelo menos radiantes que nos retratos, e dentro de um sobretudo
que parecia de alguém mais
corpulento. Não quis estragar a
lembrança com um cumprimento
impertinente: bastava essa visão
quase irreal que havia de durar-lhe a
vida toda. Quando voltou casado a Paris, em condição
de vê-lo de um modo mais formal,
Victor Hugo já morrera.
Como consolo, Juvenal e Fermina traziam a lembrança compartilhada de uma tarde de
neves em que ficaram intrigados pelo grupo que desafiava a tempestade
diante de uma pequena livraria do Boulevard
des Capucines, e era que Oscar Wilde estava lá dentro. Quando por fim saiu,
elegante deveras, mas talvez demasiado consciente disso, o grupo o
cercou para pedir autógrafos em seus livros.
O doutor Urbino se detivera só para vê-lo,
mas sua impulsiva esposa quis
atravessar o bulevar para
que ele autografasse a única
coisa que lhe pareceu apropriada
à falta de um livro: sua
formosa luva de gazela, grande, macia, suave, e da
mesma cor de sua pele
de recém-casada. Estava certa de que um
homem tão refinado ia apreciar aquele gesto. Mas o marido se opôs com firmeza, e quando ela procurou fazê-lo apesar de suas razões,
ele sentiu
que não sobreviveria à vergonha.
— Se atravessar essa rua — lhe disse —
ao voltar aqui você me encontrará morto.
Era algo natural a ela. Antes de um ano de casada se
movimentava pelo mundo com o mesmo desembaraço
com que o fazia desde menina no
morredouro de São João da Ciénaga,
como se tivesse nascido sabendo, e
tinha uma facilidade de trato com os desconhecidos que deixava o
marido perplexo, e um talento misterioso para
se entender em castelhano com quem fosse e em qualquer parte. "A gente precisa
Saber os idiomas quando vai vender alguma coisa", dizia com risos de troça. "Mas quando vai comprar,
todo o mundo dá um jeito de
entender." Era difícil imaginar alguém que tivesse assimilado tão depressa e com tanta animação a vida
cotidiana de Paris, que aprendeu a amar na lembrança apesar de suas chuvas
eternas. No entanto, quando
regressou a casa esmagada por tantas experiências juntas, cansada de viajar
e meio sonolenta com a gravidez, a primeira coisa que lhe perguntaram no porto foi o que achara das maravilhas da Europa,
e ela resumiu dezesseis meses de ventura com três palavras, no seu modo de
falar caribe:
—
É mais onda.
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