FERMINA DAZA não podia imaginar que aquela carta sua, instigada por uma raiva cega, pudesse ser interpretada
por Florentino Ariza como uma carta de amor. Tinha posto nela toda a fúria de que era capaz, suas palavras mais cruéis, os opróbrios mais
injuriosos, e injustos aliás, que no entanto lhe
pareciam mínimos diante do tamanho da ofensa. Foi o último ato de um amargo exorcismo
com o qual procurava criar um pacto de conciliação com seu novo estado. Queria ser outra
vez ela mesma, recuperar tudo que
tivera de ceder em meio
século de uma servidão que a fizera feliz, sem dúvida, mas que uma vez morto o marido não deixava a ela nem traços
da sua
identidade. Era um fantasma numa casa alheia
que de um dia para outro se tornara imensa e
solitária, e na qual vagava à deriva, perguntando a si mesma angustiada quem estava mais morto: o que tinha morrido
ou a que tinha ficado.
Não podia afugentar um recôndito
sentimento de rancor contra o marido por havê-la deixado só no meio
do oceano tenebroso. Tudo que
era dele a fazia chorar: o pijama debaixo do
travesseiro, os chinelos que
sempre lhe pareceram de doente, a recordação de sua imagem
se despindo no fundo do espelho
enquanto ela se penteava para dormir, o cheiro de sua pele que havia de persistir na dela muito tempo
depois da morte. Parava no meio de qualquer
coisa que estivesse fazendo e dava um
tapinha na própria testa,
porque de repente se lembrava de alguma coisa que esquecera de lhe dizer.
A cada instante lhe vinham à mente as tantas perguntas cotidianas que só ele podia responder.
Certa vez ele dissera algo que ela não podia conceber: os amputados sentem dores, cãibras, cócegas, na perna
que não têm mais. Assim se sentia ela sem ele, sentindo que ele estava onde não mais se encontrava.
Ao despertar
em sua
primeira manhã de viúva, tinha
se virado na cama, ainda sem abrir os olhos, em busca de uma posição mais cômoda para continuar dormindo, e foi nesse momento que ele morreu para ela. Pois só então
tomou consciência de que ele
passara a noite pela primeira vez fora de
casa. A outra impressão foi à mesa, não porque se sentisse só, como de
fato estava, mas pela certeza estranha de
estar comendo com alguém que já não existia. Esperou que sua filha
Ofélia viesse de Nova Orleans, com o marido e as três filhas, para
de novo se sentar à mesa para comer, mas
não na de sempre e sim numa
mesa improvisada, menor, que mandou botar no corredor. Até então não
tinha feito nenhuma refeição regular. Passava
pela cozinha a qualquer hora, quando tinha
fome, e metia o garfo nas panelas e comia um pouco de
tudo sem nada pôr num prato, de pé na frente do fogão,
falando com as empregadas, as únicas com quem
se sentia bem, e com quem se entendia
melhor. Contudo, por mais que tentasse, não conseguia afastar a presença do
marido morto: por onde quer que
fosse, por onde quer que
passasse, em qualquer coisa que
fizesse esbarrava em alguma coisa que a fazia lembrar-se dele.
E se por um lado lhe parecia honesto e justo
que lhe doesse o que doía,
queria por outro lado fazer todo o
possível para não se deleitar com a dor. Por isso impôs a si mesma a resolução
drástica de desterrar da casa tudo quanto relembrasse o marido morto, como única coisa que lhe ocorria para continuar vivendo sem ele.
Foi uma cerimônia
de extermínio. O filho aceitou levar a biblioteca para que ela
instalasse no gabinete o quarto de costura
que jamais tivera depois de casada.
Pelo seu lado, a filha levaria alguns móveis e numerosos
objetos que lhe pareciam muito apropriados
para os leilões de antigüidades de Nova Orleans. Tudo isto foi
um alívio para Fermina Daza,
ainda que não achasse graça nenhuma em comprovar que as coisas compradas por ela na viagem de núpcias já fossem relíquias
de antiquário. Contra o estupor mudo das criadas, dos vizinhos, das amigas da vizinhança que vinham acompanhá-la naqueles dias, fez atear uma fogueira num
terreno vazio detrás da casa,
e nela queimou tudo que lhe lembrava o marido: as roupas mais custosas e elegantes que se viram na cidade desde o século anterior,
os sapatos mais finos, os chapéus que
se pareciam mais com ele do que
os retratos, a cadeira de balanço da sesta
da qual se levantara pela última vez para morrer,
inúmeros objetos tão ligados à sua vida que já formavam parte da
sua identidade. Tudo fez sem uma sombra de
dúvida, na certeza plena de que
o marido teria aprovado, e não somente por
higiene. Pois ele exprimira muitas vezes o
desejo de ser incinerado, e não encerrado na escuridão sem frestas de uma caixa de cedro. Sua religião o interditava, antes de mais nada: ousara sondar a opinião do arcebispo, pois não custava tentar, e este respondera com uma negativa terminante. Era uma
pura ilusão, porque a Igreja
não permitia a existência de fornos
crematórios em nossos cemitérios, nem para uso
de religiões diferentes da católica, e a ninguém mais do que ao próprio
Juvenal Urbino teria ocorrido a conveniência de construí-los.
Fermina Daza não esqueceu aquele
terror do esposo, e mesmo na confusão
das primeiras horas se lembrou de
mandar que o carpinteiro lhe deixasse
o consolo de uma brecha de
luz no caixão.
De todas as maneiras foi
um holocausto inútil. Fermina
Daza percebeu em pouco tempo que a
lembrança do marido morto era tão
refratária ao fogo como parecia ser à
passagem dos dias. Pior: depois da incineração
das roupas não só continuava penando pelo muito que tinha amado nele, como ainda pelo que mais a
incomodava: os barulhos que fazia quando se levantava.
Essas lembranças a ajudaram a sair dos charcos do luto. Acima de tudo, adotou a resolução firme de prosseguir
na vida lembrando o marido como se não
tivesse morrido. Sabia que o despertar
de cada
manhã continuaria sendo difícil, mas cada
vez menos.
No
término da terceira semana, com efeito, começou a vislumbrar as primeiras luzes. Mas à medida que aumentavam e se tornavam
mais claras, tomava consciência de que havia em sua vida um fantasma atravessado que não lhe dava um instante de sossego. Não era o fantasma digno de compaixão que a espreitava na pracinha
dos Evangelhos, e que ela evocava a
partir da velhice com certa ternura,
e sim o fantasma abominável da sobrecasaca de verdugo e do chapéu
apoiado no peito, cuja
impertinência estúpida a perturbara de tal modo que já lhe era impossível não pensar nele.
Sempre, desde que o repudiara aos dezoito anos, guardou a convicção de ter deixado nele uma semente de
ódio que o tempo só faria
dilatar. Contara com esse ódio em todos os momentos, sentia-o no ar quando o fantasma estava perto, sua mera visão a perturbava, a assustava de
tal modo que nunca encontrou uma maneira
natural de
se comportar com ele. Na
noite em que ele reiterou
seu amor, com as flores do
marido morto perfumando ainda a casa, ela
não pôde aceitar que aquele
desplante não fosse o primeiro passo de quem sabe
lá que sinistro propósito de vingança.
A persistência da lembrança
aumentava sua raiva. Quando acordou
pensando nele, no dia seguinte
ao do enterro, conseguiu varrê-lo da memória com um simples gesto da vontade. Mas a raiva voltava sempre, e em breve percebeu que o desejo de
esquecê-lo era o mais forte estímulo para se lembrar
dele. Então se atreveu a evocar pela
primeira vez, vencida pela saudade, os tempos ilusórios
daquele amor irreal. Tratava de precisar
como era a pracinha de então, as
amendoeiras ao vento, o banco de onde
ele a amava, porque nada disso
existia mais como naquele tempo. Tinha mudado tudo, haviam carregado as árvores
com seu tapete de folhas
amarelas, e em lugar da estátua
do herói decapitado tinham posto a de outro com uniforme de gala, sem nome, sem datas, sem motivos que o justificassem, sobre um pedestal
aparatoso dentro do qual estavam
instalados os controles elétricos do bairro.
Sua casa, por fim vendida há muitos
anos, caía aos pedaços nas mãos do governo
provincial. Não lhe era fácil recuperar a imagem de Florentino Ariza, e muito menos conceber que aquele rapaz taciturno, tão desvalido debaixo da chuva, fosse
aquela mesma ruína carunchosa
que se plantara diante dela sem nenhuma consideração pelo seu estado, sem o menor respeito
pela sua dor, e que lhe abrasara a alma como uma injúria de chamas vivas que até agora lhe
atalhava a respiração.
A prima Hildebranda Sánchez tinha vindo visitá-la pouco
depois de sua estada na fazenda de Flores
de Maria recuperando-se da hora negra da senhorita Lynch.
Tinha chegado velha, gorda, feliz, acompanhada do filho mais velho, que tinha sido coronel do
exército, como o pai, mas repudiado por ele devido à sua atuação
indigna na matança dos trabalhadores dos bananais em São João da Ciénaga. As duas primas se haviam visto muitas vezes, e sempre deixavam correr as horas nas saudades da época em
que se haviam conhecido. Na última
visita, Hildebranda estava mais nostálgica do que nunca, e muito atingida
pela carga da velhice. Para fruírem melhor as saudades, trouxe sua cópia do
retrato de dama antiga que
tirara o fotógrafo belga na tarde em que o jovem Juvenal Urbino deu a estocada
de
misericórdia na voluntariosa
Fermina Daza. A
cópia desta se perdera, e
a de Hildebranda era quase invisível, mas
ambas se reconheceram através das brumas do desencanto: moças e belas como jamais voltariam a ser.
Para Hildebranda era impossível não falar de Florentino Ariza, porque sempre
identificou a sorte dele com a sua. Evocava-o
como no dia em que passou o
primeiro telegrama, e jamais conseguira tirar do coração a lembrança do passarinho
triste condenado ao esquecimento. De sua parte, Fermina o vira muitas vezes, sem conversar com ele, é
claro, e não podia conceber que fosse a
mesma pessoa do seu primeiro amor.
Sempre lhe haviam chegado notícias
dele, como mais cedo ou mais tarde chegavam
as de tudo que significasse alguma
coisa na cidade. Dizia-se que ele não
tinha casado por ser de costumes
diferentes, mas tampouco a isso prestou
atenção, em parte por nunca fazer caso
de rumores,
e em parte porque de todos
os modos diziam-se coisas semelhantes de muitos
homens inatacáveis. Em compensação, achava estranho que Florentino Ariza
persistisse na indumentária mística, nas loções
raras, e que continuasse tão
enigmático depois de abrir seu caminho na vida de um modo tão espetacular,
além de tão honesto. Não conseguia acreditar que fosse o mesmo,
e sempre se admirava quando
Hildebranda suspirava: "Pobre homem, como
deve ter sofrido!" Pois ela o
via sem sofrimento desde muito tempo:
era uma sombra apagada.
Mesmo assim, na noite em que o encontrou no cinema, nos tempos em que
voltou de Flores de Maria, algo estranho aconteceu no seu coração. Não se admirou que estivesse com uma mulher, e preta,
ainda por cima. Admirou-se de vê-lo
tão bem conservado, comportando-se com mais naturalidade, e não lhe ocorreu achar que talvez fosse ela
e não ele quem havia mudado depois da irrupção perturbadora da senhorita
Lynch em sua vida privada.
A partir de então, e durante
mais de vinte anos, continuou a vê-lo
com olhos mais compassivos. Na noite do
velório do marido não só lhe pareceu
compreensível que estivesse ali, como
até interpretou o fato como término natural do rancor: um ato de perdão e esquecimento.
Por isso foi tão imprevista a
reiteração dramática de um amor que para ela não existira
nunca, e numa idade em que não restava
a ela e a Florentino Ariza nada mais
que esperar da vida.
A raiva mortal do primeiro
impacto continuava intacta depois da cremação
simbólica do
marido, e mais crescia e se ramificava
quanto menos capaz se sentia de dominá-la. Pior: os espaços da memória
onde lograva apaziguar as lembranças
do morto iam sendo ocupados
pouco a pouco de um modo inexorável pela campina de papoulas onde estavam enterradas as
lembranças de Florentino Ariza.
Assim, pensava nele sem querer, e quanto mais pensava nele mais raiva lhe dava, e quanto
mais raiva lhe dava mais pensava nele, até que a coisa ficou
tão insuportável que lhe afogou
a razão. Então sentou no gabinete do marido morto, e escreveu a Florentino
Ariza uma carta de três páginas irracionais, tão carregadas
de injúrias e de provocações infames que lhe deixaram
o alívio de ter cometido em sã consciência o ato mais indigno de sua longa vida. Também para Florentino
Ariza aquelas três semanas tinham sido de agonia.
Na noite em que reiterou seu amor
a Fermina Daza tinha vagado sem rumo pelas
ruas descompostas pelo dilúvio da tarde,
a si mesmo
perguntando aterrado o que ia fazer com
a pele do tigre que acabava de matar depois de haver resistido ao seu assédio
durante mais de meio século. A cidade estava em estado
de emergência devido à violência das águas.
Em algumas casas havia homens e mulheres meio nus procurando salvar do dilúvio
o que Deus quisesse, e Florentino
Ariza teve a impressão de que aquele
desastre de todos tinha algo a ver
com o seu. Mas o ar era manso e as
estrelas do Caribe estavam quietas em seu lugar.
De repente, em meio a um silêncio das
outras vozes, Florentino Ariza
reconheceu a do homem que Leona Cassiani e ele tinham ouvido cantar muitos anos antes, à mesma hora e na mesma esquina: Da ponte me retirei
banhado em lágrimas. Uma canção que de algum
modo, aquela noite e só para ele,
tinha algo a ver com a morte.
Nunca como então lhe fez tanta falta Trânsito Ariza, sua palavra sábia, sua cabeça
de rainha de brincadeira enfeitada com flores
de papel. Não podia evitar: sempre que se encontrava à beira do cataclismo, fazia-lhe falta o amparo de uma mulher. De maneira que passou pela Escola
Normal buscando o rumo das atingíveis, e viu que havia luz na grande
fileira de janelas do dormitório
de América Vicuña. Teve que fazer um grande esforço
para não incorrer na loucura de
avô de carregá-la às duas da madrugada,
morna de sono entre as fraldas, cheirando ainda a emanações de berço.
No outro extremo da cidade estava Leona Cassiani, só e livre, e disposta sem dúvida a lhe proporcionar às duas da madrugada,
às três, a qualquer hora e em qualquer
circunstância a compaixão que lhe fazia
falta. Não teria sido a primeira vez
que batia à sua porta no ermo de suas
insônias, mas compreendeu que ela era
demasiado inteligente, e se amavam demais, para que ele fosse chorar no seu regaço sem revelar o motivo. Ao cabo
de muito
pensar, sonâmbulo pela cidade deserta, ocorreu a ele que com nenhuma estaria melhor do que
com Prudência Pitre: a Viúva de Dois. Era dez anos mais moça que ele. No
século anterior se haviam
conhecido, e se haviam deixado de se encontrar era porque ela se empenhara em não se deixar ver como
estava, meio cega, e deveras à beira da decrepitude. Logo que se lembrou dela, Florentino Ariza voltou à
Rua das Janelas, meteu numa sacola de mercado duas garrafas de vinho
do porto e um vidro de conservas,
e foi procurá-la sem saber sequer
se estava em sua casa
de sempre, se estava só, ou se estava
viva.
Prudência Pitre não tinha esquecido a senha das
unhas arranhando a porta,
com a qual ele se identificava
quando ainda se acreditavam jovens
embora já não fossem, e
abriu sem perguntas. A rua estava às
escuras, e ele era apenas visível
com a roupa de lã preta, o chapéu duro e o guarda-chuva de morcego pendurado no braço, e ela não tinha olhos para vê-lo a menos que fosse
à plena luz, mas o reconheceu
pelo clarão do lampião na armação
metálica dos óculos. Parecia um assassino
de mãos ainda ensangüentadas.
—
Asilo para um pobre órfão — disse.
Foi
a única coisa que acertou dizer, só para dizer alguma coisa Surpreendeu-se de ver
quanto havia envelhecido desde que a vira pela última vez, e sentiu que ela
também o via assim. Mas se consolou pensando que um momento depois, quando se repusessem do golpe inicial, iriam notando menos
um no outro os desgastes da vida,
e tornariam a se ver tão jovens quanto
tinham sido um para o outro ao se conhecerem: quarenta anos atrás.
—
Você está com cara de enterro — disse ela.
Assim era. Ela também estivera na janela desde as onze, como quase toda a cidade, contemplando
a passagem do cortejo mais concorrido
e suntuoso que se vira desde a morte do arcebispo De Luna. Acordara da
sesta com trovões de artilharia que faziam tremer
a terra, com a discórdia das bandas militares, a desordem dos cânticos fúnebres por cima do clamor dos sinos de todas as igrejas, que dobravam sem pausas desde o dia anterior. Tinha visto da sacada
os militares da cavalaria em uniforme de parada, as comunidades religiosas, os colégios, as grandes limusines negras da autoridade invisível, as
carruagens de cavalos com morriões de plumas e gualdrapas de ouro, o ataúde amarelo coberto com a
bandeira na carreta de um canhão histórico, e por último a fila
das velhas vitórias
descobertas que continuavam a se manter vivas para carregar
as coroas. Ainda nem haviam acabado
de passar diante do balcão de
Prudência Pitre, pouco depois do meio-dia,
quando despencou o dilúvio, e o cortejo se dispersou
às carreiras.
—
Que maneira mais absurda de morrer
— disse ela.
—
A morte não tem noção do ridículo — disse ele, e
acrescentou com pena: — sobretudo em nossa idade.
Estavam sentados no terraço, frente ao mar aberto, vendo
a lua com um halo que ocupava metade do céu, vendo as luzes coloridas dos navios no horizonte,
gozando a brisa tíbia e perfumada depois da tempestade.
Bebiam porto e comiam conservas com o pão que
Prudência Pitre cozia em casa e trazia
em fatias da cozinha. Tinham passado muitas noites como essa, depois que ela ficou
viúva e sem filhos aos trinta e cinco
anos. Florentino Ariza a encontrou numa época em que teria recebido
qualquer homem que quisesse sua
companhia, ainda que fosse um operário horista, e conseguiram estabelecer uma relação mais séria e prolongada do que parecia possível.
Embora nunca tivesse jamais
insinuado tal coisa, ela teria
vendido a alma ao diabo para se casar com ele em segundas núpcias.
Sabia que não era fácil submeter- se à
sua mesquinharia, a suas necessidades de velho prematuro, à sua ordem de
maníaco, à sua ansiedade de pedir
tudo sem dar nada de nada,
mas em compensação não havia homem que mais que ele se deixasse
acompanhar, porque não havia outro no mundo tão necessitado de amor. Tampouco havia outro tão
escorregadio, de modo que o amor não passou
de onde sempre chegava com ele: até onde não interferisse com sua determinação
de se
conservar livre para Fermina Daza. Mesmo assim, prolongou-se
por muitos anos, até mesmo depois de arrumar ele as
coisas para que Prudência Pitre
casasse de
novo, com um caixeiro
viajante que ficava três meses e viajava outros três, e com quem ela teve uma
filha e quatro filhos, um dos quais, segundo ela jurava, era de Florentino Ariza.
Conversaram sem se preocupar com a hora, porque ambos
estavam acostumados a compartilhar suas
insônias de jovens, e tinham muito menos que perder em suas insônias
de velhos.
Embora quase nunca passasse do segundo cálice, Florentino Ariza não tinha recobrado
o alento depois do terceiro. Suava em bicas, e a Viúva de Dois lhe disse para tirar o paletó, o colete, as calças, que tirasse o que quisesse, porque porra, no fim das contas
se conheciam melhor nus do que
vestidos. Ele disse que tirava se ela também o fizesse, mas ela não quis: há tempos se vira
no espelho do guarda-roupa, e tinha compreendido na hora que não tinha mais
sentido deixar-se ver nua por ele ou por
ninguém.
Florentino Ariza, num
estado de exaltação que não
tinha conseguido apaziguar com quatro cálices de
vinho do porto, continuou
falando no passado, nas boas lembranças do passado
que eram seu tema único há tanto
tempo, mas ansioso por encontrar no
passado um caminho secreto para desabafar. Pois disso é que sentia falta: botar a alma pela boca. Quando
percebeu os primeiros fulgores no
horizonte tentou uma aproximação
enviesada. Perguntou, de um modo que parecia casual: "Que faria
você se alguém lhe propusesse casamento, assim como você está, viúva e na sua idade?" Ela riu, com um enrugado riso de velha, e perguntou por sua vez:
—
Você pergunta por
causa da viúva de Urbino?
Florentino Ariza esquecia
sempre quando menos devia que
as mulheres pensam mais no sentido oculto das
perguntas que nas próprias perguntas,
e Prudência Pitre mais que qualquer outra. Presa de um pavor súbito
devido à sua pontaria de arrepiar,
barafustou pela porta falsa: "Pergunto por sua causa." Ela tornou a rir: "Vá zombar da puta
da sua
mãe, que em paz descanse." Depois instou com ele
para que dissesse o que queria dizer, porque sabia
que nem ele nem nenhum*outro homem a teria despertado às três da madrugada, e depois de tantos anos sem vê-la, só para beber vinho do porto e comer pão caseiro com conservas. Disse: "Isso a gente só faz quando procura alguém com quem chorar." Florentino Ariza bateu em retirada.
—
Por uma vez
você se engana — disse. — Até que esta noite minhas razões são mais para cantar.
—
Então cantemos — disse ela.
Começou a entoar com muito boa voz
a canção da moda: Ramona, os sinos plangem para o céu. Foi o final
da noite,
pois ele não se atreveu a jogar jogos proibidos com uma mulher que lhe dera demasiadas provas de conhecer
o outro lado da lua. Saiu para uma
cidade diferente, rarefeita
pelas últimas dálias de junho, e para
uma rua de sua juventude por
onde desfilavam as viúvas de trevas da missa
das
cinco. Mas então foi ele e
não elas quem mudou de calçada
para que não lhe vissem as lágrimas que não podia mais reprimir, não desde a meia-noite,
como ele acreditava, porque estas
eram outras: as que trazia atravessadas na garganta há cinqüenta e um anos,
nove meses e quatro dias.
Tinha perdido a
conta do seu tempo, quando acordou sem saber
onde diante de um vendaval deslumbrante. A voz de América Vicuña jogando bola no
jardim com as empregadas colocou-o na realidade: estava
na cama da mãe, cuja alcova conservava intacta, e onde costumava dormir para se
sentir menos só nas poucas ocasiões em que a solidão o inquietava. Diante da cama estava o grande espelho da Pousada do Sancho, e a ele bastava
acordar para ver Fermina Daza
refletida no fundo. Soube que era sábado, porque era o dia em que o chofer apanhava no internato América
Vicuña, e a levava a sua casa.
Percebeu que tinha dormido sem saber,
sonhando que não podia dormir, com um sono perturbado pela cara de raiva de
Fermina Daza. Tomou banho pensando qual devia ser o passo seguinte, vestiu-se
bem devagar com suas melhores roupas, perfumou-se e engomou o bigode branco de pontas
afiadas, e ao sair do quarto viu do corredor do segundo andar a bela criatura de uniforme, que
agarrava a bola no ar com a graça que tantos sábados o fizera estremecer, mas que essa manhã não lhe causou
a menor perturbação. Chamou-a com um gesto para
sair, e antes de entrar no automóvel lhe
disse sem necessidade:
"Hoje não vamos fazer coisinhas."
Levou-a à Sorveteria Americana, apinhada a essa
hora de pais tomando sorvete com os filhos
debaixo dos ventiladores de pá pendurados do teto baixo. América Vicuña pediu um sorvete de vários andares, cada um de uma cor
diferente numa taça gigantesca, que
era seu predileto e o mais vendido
porque exalava uma fumaçada mágica.
Florentino Ariza tomou um café puro, olhando a menina sem
falar, enquanto ela tomava o
sorvete com uma colher de
cabo bem comprido para chegar
ao fundo da taça. Sem deixar de olhá-la, disse de repente:
—
Vou me casar.
Ela o olhou nos
olhos com um lampejo de incerteza,
mantendo a colher no ar, mas logo se refez e
sorriu.
—
Está brincando — disse. — Os velhinhos
não se casam.
Essa tarde deixou-a
no internato à hora do ângelus, debaixo de um aguaceiro
obstinado, depois de terem visto juntos os títeres do parque, de terem
almoçado nas barracas de peixe frito do cais, de terem visto
as feras enjauladas de um circo que acabava de chegar, de comprar nos portais toda classe de doces para levar para o internato, e de terem percorrido a cidade várias vezes no automóvel de capota
arriada para que ela fosse
se acostumando à idéia de que ele
era seu tutor, e não mais seu amante.
No domingo mandou o automóvel para
ver se ela queria passear com as amigas, mas não a quis ver, porque a
partir da semana anterior passara a ter noção plena da idade de ambos. Essa noite
tomou a decisão de escrever & Fermina Daza uma carta de
desculpas, embora fosse só para não
capitular, mas deixou-a para o dia seguinte.
Segunda-feira, ao fim de três
semanas exatas de paixão, entrou em casa
ensopado de chuva, e encontrou a
carta dela.
Eram
oito da noite. As duas criadas estavam deitadas e tinham deixado no corredor a única luz permanente que permitia a Florentino
Ariza chegar até o quarto de dormir.
Sabia que seu jantar esturricado e
insípido estava na mesa da sala de
jantar, mas o pouco de fome que tinha depois de tantos dias comendo de qualquer maneira se esvaiu com a comoção da carta.
Teve trabalho em acender a luz geral do
quarto de tanto que lhe tremiam as mãos. Pôs a carta molhada em cima
da cama, acendeu a lâmpada da mesa de cabeceira, e com a pretensa calma que
era recurso muito seu para se aquietar,
tirou o paletó empapado e o colocou no espaldar da cadeira, tirou o colete e o pôs muito bem dobrado em cima do
paletó, tirou a fita de seda preta e o colarinho de celulóide que já
tinha saído de moda no mundo, desabotoou a camisa até a cintura e desafivelou
o cinto para respirar melhor, e por último tirou o chapéu que pôs para
secar junto à janela. De
repente estremeceu porque não soube onde estava a carta, e era tal seu nervosismo
que se surpreendeu quando a
encontrou, pois não lembrava de tê-la
colocado em cima da cama. Antes de abri-la secou o
envelope com um lenço, tomando o cuidado de não borrar a tinta com que seu nome estava
escrito, e enquanto o fazia se deu
conta de que aquele segredo não era
mais compartilhado por duas pessoas, e sim três, pelo menos, pois
quem quer que houvesse trazido a carta teria reparado
que a viúva de Urbino tinha
escrito a alguém de fora do seu mundo
apenas três semanas depois de morto o
marido, com tanta premência que não mandara a carta pelo correio, e com tanto
sigilo que dera ordens para que não fosse entregue em mãos e sim enfiada por
baixo da porta como um bilhete
anônimo. Não precisou rasgar o
envelope, pois a cola se dissolvera
com a água, mas a carta estava seca:
três páginas densas, sem cabeçalhos,
e assinadas com as iniciais do nome de casada.
Leu-a uma vez
com toda a pressa sentado na cama, mais intrigado pelo tom que pelo conteúdo, e
antes de passar à segunda página já
sabia que era justo a carta de impropérios
que esperava receber. Colocou-a aberta na zona luminosa do abajur,
tirou os sapatos e as meias molhadas, apagou junto
à porta a luz do teto, e afinal colocou a bigodeira de camurça e se deitou sem tirar as
calças e a camisa, com a cabeça apoiada em dois
travesseirões que usava como espaldar para ler.
Assim releu a carta, agora letra por
letra, esquadrinhando cada letra para que nenhuma
de suas intenções ocultas ficasse por
desentranhar, e a leu depois quatro vezes mais,
até ficar tão saturado que as palavras escritas começaram a perder o sentido.
Por último guardou-a sem o envelope na gaveta da mesa de cabeceira, se deitou de costas
com as mãos entrelaçadas na nuca, e ficou
durante quatro horas com a vista imóvel no
espaço do espelho onde ela estivera,
sem pestanejar, mal respirando,
mais morto que um morto. À meia-noite em ponto
foi à cozinha, preparou e levou para
o quarto uma garrafa térmica de café espesso
como petróleo cru, atirou a dentadura postiça no copo d'água boricada
que estava sempre pronto para isto
na mesa de cabeceira, tornou a deitar na mesma posição de mármore jacente com variações instantâneas de
tempos em tempos
para tomar um sorvo de café, até que a arrumadeira
entrou às seis com outra garrafa térmica
cheia.
A essa hora,
Florentino Ariza já sabia qual ia ser cada um
dos seus passos seguintes. Na
realidade não lhe doeram os insultos nem se preocupou em aclarar as imputações injustas, que podiam ter sido piores
conhecendo-se o caráter de Fermina Daza e a gravidade do motivo. A
única coisa que lhe interessou foi
que a carta em si mesma lhe
dava a oportunidade e
reconhecia seu direito de resposta. Mais ainda: exigia. Desta forma a vida estava agora no limite onde tinha querido levá-la. Tudo mais
dependia dele, e tinha a convicção firme de que seu
inferno privado de mais de meio
século lhe propunha ainda muitas provações
mortais que ele estava disposto a afrontar com mais ardor e mais dor e mais
amor que todas as anteriores, porque seriam as
últimas.
Cinco dias depois de receber
a carta de Fermina Daza, quando
chegou aos seus escritórios, sentiu que flutuava
no vácuo abrupto e incomum das máquinas de escrever, cujo ruído de chuva
tinha acabado por se notar menos
que seu silêncio.
Era uma pausa. Quando o ruído recomeçou, Florentino Ariza assomou à sala de Leona Cassiani e a contemplou sentada diante de sua máquina pessoal, que obedecia à ponta dos seus dedos como um instrumento humano. Ela se sentiu observada, e olhou para
a porta com seu terrível
sorriso solar, mas não deixou de escrever
até o final do parágrafo.
—
Diga-me uma coisa,
leoa de minh'alma — perguntou Florentino Ariza: — como se sentiria você se recebesse uma carta de amor escrita nesse traste?
O gesto dela, que já não se espantava
com nada, foi de surpresa legítima.
—
Ora essa! — exclamou. — Juro
que nunca pensei no assunto.
Por isso mesmo não tinha resposta. Tampouco
Florentino Ariza tinha pensado no assunto até então, e resolveu correr o risco a fundo. Levou para casa uma das máquinas do escritório em meio às
troças cordiais dos subalternos: "Louro
velho
não aprende a falar." Leona Cassiani, entusiasta de qualquer
novidade, se ofereceu para lhe
dar lições de datilografia a
domicílio. Mas ele era contra os
aprendizados metódicos desde que Lotário Thugut quis ensiná-lo a tocar violino
por música, com a ameaça de
que ia precisar pelo menos um ano
para começar, cinco para ser
aceitável numa orquestra
profissional, e a vida inteira de seis horas diárias para tocar bem. Contudo, conseguiu que a mãe lhe comprasse um violino
de cego, e com as cinco regras
básicas dadas por Lotário Thugut se atreveu a tocar antes de um ano
no coro da catedral, e a endereçar
serenatas a Fermina Daza a partir do cemitério dos pobres e segundo a direção dos ventos. Se isto ocorrera aos seus vinte anos com algo tão difícil quanto
o violino, não via por que não faria o mesmo aos
setenta e seis com
um instrumento
de um dedo só como a máquina de escrever.
Assim foi. Necessitou
de três dias para aprender a posição das letras
no teclado, outros seis para aprender a pensar ao mesmo tempo que escrevia, e outros três para terminar a
primeira carta sem erros,
depois de rasgar meia resma de papel. O cabeçalho foi solene: Senhora, e a assinou
com a inicial de seu
nome, como costumava fazer nas missivas perfumadas de sua juventude. Mandou-a pelo correio, num envelope com tarjas de luto como
era de rigor numa carta para uma viúva recente, e sem o nome do remetente
no dorso.
Era uma carta de seis páginas
que não tinha nada que ver com qualquer
outra que jamais houvesse escrito. Não tinha nem o tom, nem o estilo, nem o sopro retórico dos primeiros
anos do amor, e seu argumento era tão racional e bem medido que o perfume de uma gardênia teria
sido um ex-abrupto. De certo
modo, foi
a aproximação mais acertada das cartas
mercantis que nunca soube escrever.
Anos depois, uma carta pessoal escrita
por meios mecânicos ia ser considerada quase ofensiva, mas nesse tempo a máquina de escrever
era ainda um animal de escritório, sem uma ética própria, cuja domesticação para usos
privados não estava prevista nos manuais de urbanidade. Mais parecia um
modernismo audaz, e assim terá entendido Fermina Daza, pois na segunda
carta que escreveu a Florentino Ariza,
depois de receber mais de cento e quarenta suas, começava se desculpando
pelos defeitos de sua letra, por não dispor de meios
de escrita mais
adiantados do que a pena de aço.
Florentino Ariza sequer
mencionou a carta tremenda que ela havia mandado, tentando desde o
princípio um método diferente de sedução,
sem qualquer referência aos amores do passado, nem ao simples passado: água passada não move moinho. Era antes uma extensa meditação
sobre a vida, com base nas suas idéias
e experiências das relações entre homem e mulher,
que um dia pensara em escrever
como complemento do Secretário dos
Namorados. Só que agora a envolveu num estilo
patriarcal, de memórias de velho,
para que não se notasse demais que na realidade era um documento de amor. Escreveu muitos rascunhos
à moda antiga, que antes de serem lidos de cabeça fria já estavam ardendo na candeia. Sabia que qualquer
descuido convencional, a menor ligeireza
nostálgica podia revolver no coração dela ressaibos do passado, e embora previsse que ela devolveria cem cartas antes de
ousar abrir a primeira,
preferia que isso não acontecesse nem uma vez.
Por isso planejou até o último pormenor como numa guerra final: tudo tinha que ser diferente
para suscitar novas curiosidades,
novas intrigas, novas esperanças, numa mulher que vivera em sua plenitude uma vida completa. Tinha que ser uma ilusão desatinada, capaz de lhe dar a
coragem de jogar no lixo os
preconceitos de uma classe
que não tinha sido a sua original, mas
acabara por ser mais que de outra qualquer. Tinha que ensiná-la a
pensar no amor como um estado de graça que não era meio para
nada, e sim origem e fim em si mesmo.
Teve o bom senso de não esperar uma resposta imediata, pois lhe
bastava que a carta não fosse devolvida.
Não foi, como não foi nenhuma das seguintes,
e à medida que passavam os dias se acelerava
sua ansiedade, pois quanto mais dias
passavam sem devoluções mais
aumentava a esperança de uma resposta. A freqüência das cartas começou condicionada pela
habilidade dos seus dedos: primeiro uma por semana, depois duas, e por fim uma diária.
Alegrou-se com o progresso dos correios desde seus
tempos de missivista, pois não teria corrido o risco de se deixar
ver todos os dias na Agência Postal pondo uma
carta para uma mesma pessoa, nem enviá-la por alguém que podia falar depois. Em compensação,
nada mais fácil que mandar um empregado comprar os selos para
todo um mês, e depois enfiar a carta numa das três caixas postais situadas na cidade velha. Em pouco tempo incorporou o rito à sua rotina:
aproveitava as insônias para escrever,
e no dia seguinte, a caminho do escritório,
pedia ao chofer que parasse um minuto
diante de uma caixa de
esquina e ele mesmo
saltava para depositar a
carta. Nunca permitiu que o chofer o fizesse por ele, como pretendeu numa manhã
de chuva, e às vezes tomava a precaução de não levar uma e sim várias cartas
ao mesmo tempo para parecer mais natural. O chofer
não sabia, é claro, que as cartas suplementares
eram folhas em branco que
Florentino Ariza dirigia a si mesmo, pois nunca mantivera correspondência
privada com ninguém, salvo o informe de tutor que mandava no fim de cada
mês aos pais de América
Vicuña com suas impressões pessoais
sobre a conduta, o ânimo e a saúde da
menina, e a boa marcha dos seus estudos.
Começou a numerar as cartas a partir do primeiro
mês, e a encabeçá-las com um resumo das
anteriores como os folhetins em série dos jornais, por temor de que
Fermina Daza não notasse que tinham uma certa
continuidade. Quando se tornaram
diárias, além disso, trocou os envelopes de tarja
de luto
por envelopes brancos e amplos, o que acabou de lhes dar a impessoalidade cúmplice das cartas comerciais. Quando começou
estava disposto a submeter sua paciência a uma prova maior, ao menos até
não ter a evidência de que perdia o
tempo com o único método diferente que pôde
conceber. Esperou, com efeito, sem os
desânimos de toda índole que lhe causavam as esperas da juventude,
e sim com a teimosia de
um ancião de cimento
sem nada mais em que pensar, sem nada mais que fazer numa companhia fluvial que já então navegava sozinha com ventos favoráveis, e ainda por
cima convencido de que estaria vivo e
no pleno domínio de suas faculdades de homem no dia de amanhã,
de mais tarde ou de sempre em que Fermina Daza se convencesse afinal de que
suas ânsias de viúva solitária só tinham
o remédio de arriar para ele
suas pontes levadiças.
Enquanto isso, continuou
com sua vida regular. Prevendo uma resposta favorável, iniciou uma segunda renovação da casa para
que fosse digna de quem teria podido considerar-se sua dona
e senhora desde que foi comprada. Tornou a visitar Prudência
Pitre várias vezes, como havia
prometido, para demonstrar que a
amava apesar dos estragos da idade, à
luz do
sol e com as portas abertas, e
não apenas em suas noites de desamparo. Continuou passando pela casa de
Andréia Varón quando encontrava apagada
a luz do banheiro, e se embrutecendo
com as loucuras de sua cama ainda que apenas para não perder a regularidade do amor, de
acordo com outra superstição sua, nunca desmentida até então, de que o corpo continua enquanto a gente continue.
O único estorvo foi o
estado de sua relação com América Vicuña. Tinha repetido ao chofer a ordem de apanhá-la aos sábados às dez da
manhã no internato, mas não sabia o que fazer com ela durante o fim de semana.
Pela primeira vez não se ocupou dela,
e ela se ressentiu com a mudança. Ele a entregava às empregadas para que a levassem à sessão de cinema da
tarde, aos coretos do parque infantil, às tômbolas de beneficência,
ou inventava para ela programas dominicais com outras
companheiras do colégio para não ter que levá-la ao paraíso
escondido atrás de seus escritórios, onde ela queria voltar sempre desde que a levou pela primeira vez. Não percebia, nas nebulosas de sua nova ilusão,
que as mulheres podem se tornar
adultas em três dias, e eram
três os anos que haviam passado desde que a recebera no motoveleiro de Porto
Pai. Por muito que ele quisesse suavizá-la, a mudança para ela
foi brutal, embora não concebesse o motivo. No dia em que ele
disse na sorveteria que ia se casar, ela
sofreu um impacto de pânico,
mas achou que a possibilidade era tão absurda que a esqueceu por completo. Em
breve compreendeu, porém, que ele se comportava
como se fosse coisa certa, com evasivas sem
explicação, não como se tivesse sessenta anos mais e sim menos
que ela.
Uma tarde de sábado,
Florentino Ariza a encontrou escrevendo
a máquina no seu quarto de dormir, e
bastante bem, pois estudava datilografia no colégio. Tinha feito mais de meia página de escritura automática, mas em certos trechos era fácil separar uma frase reveladora de seu estado de ânimo. Florentino Ariza se inclinou sobre seu ombro para ler o que escrevia. Ela se perturbou com seu calor de homem, seu alento entrecortado, o perfume de sua roupa, que era o mesmo de seu travesseiro.
Não era mais a menina recém-chegada que ele despia peça a peça com gracinhas de bebê: primeiro estes sapatinhos para o
ursinho, depois esta blusinha para o cachorrinho, depois estas calcinhas de flores
para o coelhinho, e agora um beijinho na pombinha linda do
papai. Não: agora era uma mulher feita
e direita e que gostava de tomar
a iniciativa. Continuou escrevendo com
um só
dedo da mão direita, e com a esquerda pegou às apalpadelas a perna dele,
tateou, encontrou, sentiu-o reviver,
crescer, suspirar de ansiedade, e sua respiração de velho se tornou
áspera e difícil. Ela o conhecia: a partir desse ponto ele ia perder o domínio, sua razão
se desarticulava, ficava à sua mercê, e não encontraria os caminhos da volta sem
antes chegar ao final. Ela o foi levando pela mão até a cama, como se fosse um pobre cego da rua, e o trinchou bocado a
bocado com uma ternura maligna, pôs sal a seu
gosto, pimenta de cheiro, um dente de
alho, cebola picada, o suco de um limão,
uma folha de louro, até que ele ficou temperado na travessa diante do forno pronto na temperatura exata. Não havia ninguém em casa.
As criadas
tinham saído, os pedreiros e carpinteiros da reconstrução não trabalhavam aos sábados: tinham o mundo
inteiro para eles dois. Mas ele saiu
do êxtase à beira do abismo, afastou a mão dela, se
recompôs, disse com voz trêmula:
— Cuidado, não temos camisinhas.
Ela ficou muito tempo
deitada de costas na cama, pensando,
e quando voltou ao internato, com uma hora
de antecipação, tinha apurado o olfato e afiado as unhas para encontrar as
marcas da lebre enfurnada
que havia transtornado
sua
vida. Florentino Ariza, por sua vez, incorreu uma vez mais num erro de homem:
achou que ela se convencera da inutilidade de seus propósitos e tinha resolvido esquecê- lo.
Mergulhou em si mesmo. Ao fim de seis meses sem qualquer sinal, viu-se dando voltas na cama até romper o dia, perdido no deserto de uma insônia diferente. Pensava que Fermina Daza
tinha aberto a primeira carta devido à sua aparência
ingênua, tinha chegado até a inicial conhecida de outras cartas de outrora,
e a jogara nas chamas do lixo sem se dar sequer
o trabalho de rasgá-la. Teria
bastado ver o envelope das seguintes para
fazer o mesmo sem abri-las, e
assim até o fim dos tempos, enquanto ele chegava ao término de suas meditações escritas. Não acreditava que existisse uma mulher capaz de
resistir à curiosidade de meio ano
de cartas cotidianas sem sequer saber de que cor era a tinta com que estavam escritas. Mas se uma existia,
só podia ser ela. Florentino Ariza sentia
que o tempo da velhice não era
uma corrente horizontal mas uma cisterna sem fundo por onde se escoava
a memória. Seu engenho se esgotava.
Depois de rondar a quinta da Mangueira
durante vários dias, compreendeu que com aquele método juvenil não conseguiria transpor as portas condenadas pelo luto. Certa manhã, procurando um número
no catálogo telefônico, encontrou
por acaso o dela. A campainha tocou muitas
vezes, e por fim reconheceu a voz,
séria e afônica: "Sim?" Desligou sem
falar, mas a
distância infinita daquela voz
inatingível lhe abalou o espírito.
Naqueles dias Leona Cassiani celebrou seu aniversário e convidou a sua casa um
pequeno número de amigos. Ele estava distraído e entornou
o molho da galinha. Ela limpou sua
lapela molhando no copo d'água a ponta do
guardanapo, que em seguida
colocou nele feito um babador para evitar
acidente maior: ficou feito um bebê velho. Notou que várias vezes durante a refeição tirou os óculos para
enxugá- los no lenço, porque seus olhos choravam. À
hora do café dormiu com a xícara na
mão, e ela tratou de pegá-la sem o acordar, mas ele reagiu envergonhado: "Eu só estava descansando a vista." Leona
Cassiani foi se deitar espantada de ver como já se notava
a velhice dele.
No primeiro aniversário da morte
de Juvenal Urbino, a família enviou cartões de convite
para uma missa comemorativa
na catedral. Nessa altura, Florentino Ariza tinha mandado a carta número cento e trinta e dois sem receber de resposta qualquer
sinal, o que o impeliu à decisão audaz de ir
à missa embora não tivesse sido
convidado. Foi um acontecimento
social mais faustoso que comovente. Os assentos das primeiras filas, reservados com caráter vitalício e
hereditário, tinham no espaldar uma placa
de cobre com o nome do dono.
Florentino Ariza chegou entre os primeiros convidados para se sentar num lugar por onde Fermina Daza não pudesse
passar sem vê-lo. Pensou que os melhores seriam os da nave central, em seguida
aos assentos reservados, mas era
tamanha a afluência que nem ali
encontrou lugar vago, e teve que sentar-se na nave dos parentes pobres.
Dali viu entrar Fermina Daza pelo braço do filho, vestida de veludo preto até os punhos, sem nenhum adereço, com uma fileira contínua de botões do pescoço à ponta dos pés, como uma
sotaina de bispo, e um leve xale
de renda castelhana em lugar do
chapéu de véu das outras viúvas, e mesmo de muitas senhoras que gostariam
de
ser. O rosto descoberto tinha um
resplendor de alabastro, os olhos lanceolados viviam com a vida própria debaixo dos enormes
lustres da nave central, e
andava tão direita, tão altiva, tão dona de si, que
não parecia mais velha que o filho. Florentino Ariza, de pé, apoiou a ponta dos dedos no espaldar
do assento
até que a vertigem passou ao largo, porque sentiu que ele e ela não estavam a sete passos de distância e sim em duas
eras distintas.
Fermina Daza suportou a cerimônia no genuflexório familiar diante do altar- mor, de pé todo o tempo, na mesma postura
com que assistia à ópera. Mas no final
rompeu as normas da liturgia, e não
ficou no seu lugar para receber a renovação das condolências,
de acordo
com os usos vigentes, abrindo
caminho para agradecer a cada um
dos convidados: um gesto
inovador que estava muito de acordo
com seu modo de ser.
Cumprimentando uns e outros chegou
aos bancos dos parentes pobres, e afinal olhou à sua volta para se certificar
de que não faltava cumprimentar mais nenhum conhecido. Florentino Ariza sentiu então que um vento sobrenatural o
arrancava de seu centro: ela o havia
visto. Fermina Daza, com efeito, se afastou de
seus acompanhantes com a
naturalidade com que fazia tudo em sociedade,
estendeu-lhe a mão, e lhe disse com um sorriso muito doce:
— Obrigada por ter vindo.
Pois não só recebera
as cartas como as lera com grande interesse, encontrando nelas sérios motivos de reflexão para continuar vivendo. Estava na mesa, tomando café com a filha, quando
recebeu a primeira. Abriu-a por curiosidade ao ver que estava escrita a máquina,
e um rubor súbito lhe abrasou o rosto ao reconhecer a inicial
da assinatura. Mas se dominou e guardou a carta no bolso do avental. Disse: "São pêsames
do governo." A filha se espantou:
"Já chegaram todos." Ela
não se alterou: "Chegou mais
um." Seu propósito era queimar a carta mais tarde, longe das perguntas
da filha,
mas não resistiu à tentação de dar antes uma olhada. Esperava uma réplica
merecida à sua carta de injúrias, que tinha começado a lhe pesar no momento mesmo em que a mandou, mas a partir do cabeçalho senhorial e dos propósitos do primeiro parágrafo compreendeu que
alguma coisa tinha mudado no mundo. Ficou tão intrigada que se trancou no quarto para ler a carta com
tranqüilidade antes de queimá-la, e leu três vezes
sem tomar fôlego.
Eram meditações sobre a vida, o amor, a velhice, a morte: idéias que tinham passado muitas vezes a voejar como pássaros noturnos
sobre sua
cabeça, mas que se desmanchavam numa esteira de penas quando procurava segurá-las. Ali
estavam, nítidas, simples, tal como teria
gostado de dizê-las, e uma vez mais lamentou que o marido não estivesse
vivo para comentá-las com ele, como costumavam comentar antes de dormir
certos acontecimentos do dia. Desse
modo se revelava um Florentino Ariza desconhecido, com uma clarividência que não correspondia às missivas febris da juventude nem à sua conduta sombria da vida inteira.Eram antes as palavras do homem que tia
Escolástica imaginava inspirado pelo Espírito Santo, e este pensamento
tornou a assustá-la como da primeira
vez. Em todo caso, o que mais contribuiu para
acalmar seu ânimo foi a certeza de que aquela carta de velho sábio não era uma tentativa «e reiterar
a impertinência da noite do luto,
e sim uma maneira muito nobre de apagar
o passado.
As cartas
seguintes acabaram de apaziguá-la. Queimou as de todos os
modos, depois de lê-las com um interesse
crescente, ainda que elas enquanto as queimava lhe fossem deixando um sedimento de culpa que não conseguia dissipar.
Foi por isso que quando começou a recebê-las numeradas encontrou a
justificação moral que estava desejando para não destruí-las. Sua intenção
inicial, em todo caso, não era
conservá-las para si mas esperar uma ocasião de devolvê-las a Florentino Ariza para que não se perdesse
algo que a ela parecia de tanta
utilidade humana. O mal foi que
o tempo passou e as cartas continuaram chegando, uma cada três ou quatro
dias de todo o ano, e ela não soube
como devolvê-las sem dar a
impressão da desfeita que não
queria cometer, e sem ter que
apresentar razões numa carta que seu orgulho
se negava a escrever.
Aquele primeiro ano tinha bastado para que assumisse
a viuvez. A lembrança
purificada do marido deixou de ser
um tropeço em seus atos cotidianos, em seus pensamentos
íntimos, em suas intenções mais simples, e se
converteu numa presença
vigilante que a guiava sem estorvá-la.
Às vezes
o encontrava, não como uma aparição mas em carne e osso, onde em verdade
lhe fazia falta.
Animava-se com a certeza de que ele
estava ali, vivo ainda mas sem seus caprichos de homem, sem suas exigências patriarcais, sem a necessidade exaustiva de que ela
o amasse com o mesmo ritual de beijos importunos e palavras ternas com
que a amava. Agora o entendia melhor que
quando estava vivo, entendia a ansiedade de seu amor, a urgência de encontrar nela a segurança que parecia ser
o suporte de sua vida
pública, e que na realidade nunca teve.
Um dia, no cúmulo da exasperação, ela havia gritado: "Você nem
repara como sou infeliz."
Ele tirou os óculos com um gesto
muito seu, sem se alterar, inundou-a com as águas diáfanas de seus olhos pueris, e numa só frase atirou-lhe
em cima o peso de sua sapiência
insuportável: "Lembre sempre que o mais importante num bom casamento não é a felicidade e sim a estabilidade." Desde suas
primeiras solidões de viúva ela compreendeu que a frase não escondia a
ameaça mesquinha que lhe havia atribuído em seu tempo, e sim a pedra
de toque que a ambos
proporcionara tantas horas felizes.
Em suas tantas
viagens pelo mundo, Fermina Daza comprava todas as coisas que lhe chamassem
a atenção pela novidade. Ela as desejava devido a um impulso
primário que o marido se comprazia
em racionalizar, e eram coisas belas e
úteis enquanto estavam sem seu meio de origem, nas vitrines de Roma,
de Paris, de Londres, ou daquela Nova York trepidante do charleston onde começavam a crescer os
arranha-céus, mas não resistiam à prova das valsas
de Strauss com torresmos e das batalhas de flores a quarenta
graus à sombra. Por isso regressava
com meia dúzia de baús verticais, enormes,
de
metal laqueado,
fechaduras e cantoneiras
de cobre como féretros de fantasia, dona e senhora das últimas maravilhas do mundo, que no entanto só valiam
seu peso em ouro no instante fugaz em que
alguém do
seu mundo
local as via por uma vez. Pois com essa finalidade tinham sido compradas: para que os outros as vissem uma
vez. Ela adquirira noção do vazio
de
sua imagem pública desde muito antes de começar a envelhecer, e
com freqüência dizia em casa:
"Precisamos nos livrar de tantas
bugigangas que já não nos deixam onde viver." O doutor Urbino fazia troça
dos seus propósitos estéreis, pois sabia que os espaços
liberados só iam servir para que ela
os enchesse de novo. Mas ela insistia, já que na verdade não havia lugar para uma coisa mais, nem havia em canto
algum algo que na realidade servisse para algo, como camisas penduradas em maçanetas de porta ou abrigos de inverno
europeu socados nos armários da cozinha.
Havia por isso as manhãs em que se levantava
de espírito destemido e investia contra os guarda-roupas, esvaziava
os baús, desmantelava os desvãos, e armava uma
guerra sem quartel aos montões de
roupa demasiado vista, chapéus nunca usados por falta de ocasião
enquanto ainda estavam na moda, sapatos copiados por artistas da Europa dos que as imperatrizes usavam para ser
coroadas, e que aqui eram desprezados pelas senhoritas de alta linhagem por serem idênticos aos que as pretas compravam no mercado para andar em casa. Durante toda a
manhã o pátio permanecia em estado de emergência, e dava trabalho respirar na
casa devido às lufadas acres das bolas
de naftalina. Mas a calma se restabelecia em poucas horas, já que no final ela
se compadecia de tanta seda espalhada pelo chão, tantos
brocados inúteis e desperdícios de passamanaria, tantas caudas de raposas azuis condenadas à fogueira.
— Isto é pecado queimar — dizia — com tanta gente,
que não tem o que comer.
Assim, a queima se acalmava,
se acalmou sempre, e as coisas se limitavam a trocar de lugar, de
seus cantos de privilégio às antigas cavalariças
transformadas em depósito de sobras, enquanto os espaços liberados,
tal como ele dizia, começavam a encher de
novo, a transbordar de coisas
que viviam um instante e iam morrer
nos guarda-roupas: até a seguinte queima.
Ela dizia: "Devia-se inventar o que fazer
com as coisas que nem servem para nada nem se pode jogar
fora:" Assim era: amedrontava-se com a voracidade dos objetos invadindo os
espaços do viver, desalojando os humanos,
encurralando-os, até que Fermina Daza os punha onde não se vissem. Pois não era tão ordenada quanto
acreditava, mas tinha um método próprio e desesperado de parecer que era: escondia a desordem. No dia em que morreu Juvenal Urbino tiveram que
desocupar a metade do gabinete e
amontoar as coisas nos quartos para ter
um espaço em que velá-lo.
A passagem da morte
pela casa deixou a solução. Uma vez
que queimou a roupa do marido, Fermina Daza percebeu que o
pulso não lhe havia tremido, e com o mesmo impulso
continuou armando a fogueira de tempos
em
tempos, atirando tudo às
chamas, o velho e o novo, sem pensar na inveja dos ricos nem na desforra dos pobres
que morriam de fome. Por último,
fez cortar pela raiz o pé de manga até não ficar nenhum vestígio da desgraça, e
deu o louro vivo
de
presente ao novo Museu da Cidade. Só então respirou
a gosto numa casa como sempre a
sonhara: ampla, fácil e sua.
Ofélia, a filha, lhe fez companhia
três meses e voltou a Nova Orleans. O filho trazia os seus a almoçar em família aos
domingos, e sempre que podia durante a semana. As amigas mais próximas de Fermina
Daza começaram a visitá-la uma vez
superada a crise do luto, jogavam baralho diante do quintal pelado, ensaiavam novas receitas de cozinha, punham-na em dia quanto
à vida secreta do mundo insaciável
que continuava existindo sem ela. Uma
das mais assíduas foi Lucrécia dei Real dei Obispo, uma aristocrata à moda antiga com quem sempre manteve boa amizade, e que se aproximou mais dela a partir da morte de
Juvenal Urbino. Entrevada de artrite
e arrependida de sua vida airada,
Lucrécia dei Real não só lhe fazia então a melhor companhia, como a consultava acerca dos projetos cívicos e
mundanos que se preparavam na cidade, o que fazia com que ela se sentisse útil
por si mesma e não pela sombra protetora do marido. Contudo, nunca como então se identificou tanto com ele, pois
lhe tiraram o nome de solteira por que sempre a haviam chamado, e
começou a ser a viúva de Urbino.
Era inconcebível, mas à medida que se aproximava o primeiro aniversário da morte do
marido, Fermina Daza se sentia entrando
num âmbito de sombra, fresco, silencioso: a
floresta do irremediável. Não estava
ainda muito consciente, nem o esteve
durante vários meses, de quanto a ajudaram a recobrar a paz de espírito
as meditações escritas de Florentino
Ariza. Foram elas, aplicadas a suas experiências, que lhe permitiram entender sua própria
vida, e esperar com serenidade os
desígnios da velhice. O encontro na missa de ano foi
uma ocasião providencial de dar a entender a Florentino Ariza que ela também, graças às suas cartas de ânimo, estava disposta a apagar
o passado.
Dois dias depois recebeu dele uma carta diferente: escrita a mão, em papel de linho,
e com seu nome completo de remetente muito claro no dorso do envelope. Era a mesma
letra florida das primeiras cartas, a mesma vontade lírica, mas aplicadas a um parágrafo singelo de gratidão pela
deferência do cumprimento na
catedral. Fermina Daza continuou pensando nela
com as saudades alvoroçadas vários dias depois de lê-la, e com a consciência tão limpa que na quinta-feira seguinte perguntou a Lucrécia dei Real dei
Obispo, sem que viesse à baila, se por acaso conhecia Florentino Ariza, o dono dos navios do rio. Lucrécia respondeu que sim: "Parece que é um súcubo
perdido." Repetiu a
versão corrente de que nunca se soubera de
mulher dele, embora fosse tão bom partido, e que tinha um escritório secreto onde levava os meninos que perseguia de noite pelo cais. Fermina
Daza tinha escutado essa lenda
até onde ia sua memória, e nunca
acreditou nela ou lhe deu importância. Mas quando a ouviu repetida com tanta convicção por
Lucrécia dei Real dei Obispo, de quem também
se dissera numa época que tinha gostos esquisitos,
não pôde resistir à premência de pôr as coisas no seu devido lugar. Contou que conhecia Florentino Ariza
desde menino. Relembrou que a mãe dele
tinha armarinho na Rua das Janelas,
e que além disso comprava
camisas e lençóis velhos para desfiar e
vender como algodão de emergência durante as guerras
civis. E concluiu com firmeza: "É
gente honesta, feita à força de pulso."
Foi tão veemente que Lucrécia deu o
dito por não dito: "No fim das contas,
de mim
também dizem o mesmo." Fermina
Daza não teve a curiosidade de perguntar
a si mesma
por que fazia uma defesa
tão apaixonada de um homem que não passara de uma sombra
em sua
vida. Continuou pensando nele, sobretudo quando chegava o correio sem nova carta. Tinham transcorrido duas
semanas de silêncio, quando uma das empregadas a despertou da
sesta com um sussurro
de alarma.
—
Senhora — disse — aí está seu Florentino.
Estava ali. A primeira reação de Fermina Daza foi de pânico. Chegou a pensar que não,
que ele voltasse outro dia em hora
mais apropriada, que não estava em condições de receber visitas, que não havia nada de que falar. Mas se repôs
em seguida, e deu ordens para que o fizessem passar à sala e lhe levassem café enquanto ela
se arrumava para atendê-lo. Florentino Ariza tinha
esperado na porta da rua, ardendo sob o sol infernal
das três, mas com as rédeas na mão.
Estava preparado para não ser recebido, ainda que mediante desculpas amáveis,
e essa certeza o mantinha tranqüilo.
Mas a decisão do recado o abalou à medula dos ossos,
e ao entrar na sombra fresca da sala
não teve tempo de pensar no milagre
que estava vivendo, porque suas entranhas se encheram de pronto com uma explosão de espuma dolorosa. Sentou-se sem respirar, assediado pela lembrança
maldita da cagada de pássaro
em sua
primeira carta de amor, e permaneceu imóvel na penumbra enquanto passava a primeira rajada de
calafrios, resolvido a aceitar nesse
momento qualquer desgraça, menos aquele
percalço injusto.
Ele se conhecia
bem: apesar de sua prisão de
ventre congênita, os intestinos o
haviam traído em público três ou
quatro vezes em seus muitos
anos, e nas três ou quatro vezes tinha
tido que se render. Só nessas ocasiões, e em outras de igual
urgência, percebia a verdade de uma frase
que gostava de repetir de brincadeira: "Não
creio em Deus, mas tenho
medo dele." Não teve
tempo para dúvidas: tratou de rezar qualquer oração de que se
lembrasse, mas não encontrou nenhuma.
Quando menino, outro menino lhe
ensinara umas palavras mágicas para que acertasse num passarinho com uma pedra: "Tino tino se não te acerto te escarabino." Experimentou quando foi ao monte pela
primeira vez, com bodoque novo, e o pássaro caiu fulminado. De maneira confusa, achou que uma coisa tinha algo a ver com a outra, e repetiu a fórmula com fervor de oração, mas não surtiu o mesmo
efeito. Uma torcedura das tripas feito um eixo de espiral
o ergueu do assento, a espuma do seu ventre
cada vez mais espessa e dolorida emitiu um queixume, e o deixou coberto de um
suor gelado. A criada que
trazia o café se assustou com seu semblante de morto.
Ele suspirou: "É o calor."
Ela abriu a janela, para ser amável, mas o sol da tarde deu em cheio no rosto dele, e foi preciso
fechá-la de novo. Ele tinha
compreendido que não agüentaria um momento mais,
quando apareceu Fermina Daza quase invisível na penumbra, e se assustou
ao vê-lo em semelhante estado.
—
Pode tirar o paletó — disse.
Mais que a torcedura mortal, ele sofreria se ela conseguisse
ouvir suas tripas borbulhando. Mas conseguiu
sobreviver ainda um instante para dizer que não, que só tinha passado para lhe perguntar
quando poderia fazer uma visita. Ela, de pé, desconcertada, disse: "Mas já está aqui." E o convidou a passar ao pátio onde faria menos calor. Ele recusou com uma voz que a
ela mais pareceu um suspiro de dor.
—
Eu lhe imploro que seja amanhã.
Ela lembrou que amanhã era quinta-feira, dia da visita
infalível de Lucrécia dei Real dei Obispo, mas encontrou uma solução
definitiva: "Depois de amanhã
às cinco." Florentino Ariza agradeceu, fez
uma despedida de emergência
com o chapéu, e foi embora sem provar o café. Ela continuou perplexa
no centro da sala, sem entender o que acabava de acontecer, até que se extinguiu no fundo da rua a petardaria do automóvel. Florentino
Ariza buscou então a posição menos dolorida no assento posterior, fechou os
olhos, afrouxou os músculos e se entregou à vontade do
corpo. Foi como tornar a nascer. O chofer,
que depois de tantos anos a seu serviço já não se espantava com nada, manteve-se impassível. Mas ao abrir a porta
diante do portal da casa, disse:
—
Tome cuidado, Seu
Floro, que isso parece cólera.
Mas era o de sempre.
Florentino Ariza o agradeceu a Deus na
sexta-feira às cinco em ponto, quando
a criada o conduziu pela penumbra da sala até o pátio, onde encontrou Fermina
Daza junto a uma mesinha posta para duas pessoas. Ofereceu- lhe chá,
chocolate ou café. Florentino Ariza pediu café, muito quente e muito forte, e
ela disse à criada: "Para mim o de sempre." O
de sempre era uma infusão bem
carregada de diversas classes de
chás orientais, que lhe erguiam
o ânimo depois da sesta. Quando ela terminou com o bule, e
ele com a cafeteira, ambos já haviam
ensaiado e interrompido vários temas, não
tanto porque deveras tivessem interesse neles, como para evitar outros que nem ele nem ela ousavam abordar. Estavam ambos intimidados, sem entender o que faziam tão longe da juventude na varanda enxadrezada de uma casa de ninguém
que ainda recendia a flores de cemitério. Pela primeira vez achavam-se
diante um do outro a tão curta distância e com tempo bastante para se verem
com serenidade depois de meio século, e ambos se haviam visto tal como eram: dois anciãos
espreitados pela morte, sem nada em
comum além da lembrança de um passado efêmero que já não era deles mas de dois jovens desaparecidos que podiam ser seus netos. Ela achou que ele ia convencer-se afinal
da irrealidade de seu
sonho, o que o redimiria da impertinência.
Para evitar silêncios incômodos
ou temas indesejáveis, ela fez perguntas óbvias sobre os navios fluviais. Parecia mentira que ele, sendo o dono, só tivesse viajado uma vez,
havia muitos anos, quando não tinha
nada a ver com a empresa. Ela não sabia o motivo, e ele teria dado a alma para dizer qual. Tampouco ela conhecia o rio. Seu marido
compartilhava sua aversão pelos ares
andinos, e a disfarçava com argumentos
variados: os perigos
da altura para o
coração, o risco
de uma pneumonia, a falsidade dos da terra,
as injustiças do centralismo. Por isso conheciam meio mundo
mas não conheciam seu país. No momento
havia um hidroavião Junkers
que ia de povoado em povoado pela bacia do Madalena, como um gafanhoto
de alumínio,
com dois tripulantes, seis passageiros
e os sacos do correio. Florentino
Ariza comentou: "É feito um caixão de defunto aéreo." Ela estivera na primeira viagem de balão, e não tinha sofrido nenhum susto, mas
mal podia crer que fosse a mesma pessoa que se atrevera a semelhante aventura.
Disse: "É diferente."
Querendo dizer que ela é que tinha
mudado, não as maneiras de viajar.
Às vezes se surpreendia com o
barulho dos aviões. Ela os vira passar
muito baixo, fazendo manobras
acrobáticas, no centenário da morte do Libertador. Um deles, preto como um urubu enorme,
passou roçando os telhados da Mangueira,
deixou um pedaço de asa numa árvore vizinha, e ficou pendurado nos fios elétricos. Mas nem mesmo assim Fermina
Daza assimilara a existência dos
aviões. Nem tivera a curiosidade de ir nos últimos anos
até a enseada de Manzanillo, onde
amerissavam os hidroaviões depois que as lanchas da guarda enxotavam as canoas
de pescadores e os botes de recreio, cada vez mais numerosos. Velha
como estava, tinha sido escolhida para receber
com um ramo de rosas Charles Lindbergh quando veio em seu vôo de boa vontade, e não entendeu como podia se elevar nos ares um homem tão grande, tão louro,
tão bonito, dentro de um aparelho que parecia de
folha enrugada, e que dois
mecânicos empurravam pela cauda para ajudar
a subir. A idéia de que uns aviões não muito maiores pudessem carregar oito pessoas não lhe entrava na cabeça. Em compensação,
tinha ouvido dizer que os navios fluviais eram
uma delícia porque não jogavam como os
do mar, mas enfrentavam outros
perigos mais graves, como os bancos de areia
e os assaltos de bandoleiros.
Florentino Ariza explicou que tudo isso eram lendas de outros tempos: os navios atuais tinham salão de baile, camarotes amplos e luxuosos como quartos de hotel,
com banheiro privado e ventiladores
elétricos, e desde a última guerra
civil não havia mais assaltos armados.
Explicou ainda, com a satisfação de um triunfo pessoal,
que estes progressos se deviam antes de mais nada à
liberdade de navegação propugnada por ele,
que estimulara a concorrência: em vez de
uma empresa única, como antes,
havia três muito ativas e prósperas.
Contudo, o rápido progresso da aviação era um perigo real para todos.
Ela procurou consolá-lo: os navios existiriam sempre, porque não eram muitos os loucos
dispostos a se meterem num aparelho que parecia ser contra a natureza. Por último, Florentino Ariza falou nos progressos do correio, tanto no transporte como na distribuição, vendo se ela falava
nas suas cartas. Não conseguiu.
Pouco depois, no entanto, a ocasião chegou
espontânea. Estavam muito afastados
do tema, quando uma criada
os interrompeu para entregar
a Fermina Daza uma carta
recebida nesse instante pelo correio
urbano especial, de criação recente,
que utilizava o mesmo sistema de
distribuição dos telegramas. Ela não encontrou os óculos
de ler, o que sempre lhe acontecia. Florentino Ariza conservou a serenidade.
—
Não é necessário — disse: — esta carta é minha.
Era. Ele a escrevera na véspera, num terrível estado de depressão
por não ter podido superar a
vergonha da primeira visita
frustrada. Nela se desculpava pela
impertinência de querer visitá-la sem permissão prévia, e desistia dos
Propósitos de voltar. Ele a pusera na caixa sem
pensar duas vezes, e quando refletiu melhor
já era tarde. Mesmo assim, não lhe
pareceram necessárias tantas explicações, embora pedisse a Fermina Daza
o favor de não ler a carta.
—
Claro — disse ela. — No fim das contas, as cartas são de quem as
escreve. Não é certo?
Ele deu um passo firme.
—
Sem dúvida — disse. — Por isso são a primeira coisa que se devolve quando há um rompimento.
Ela passou ao largo da
intenção e devolveu a carta, dizendo: "É pena que não possa lê-la
porque as outras me serviram
muito." Ele respirou fundo, surpreendido de
ouvir dela muito mais que esperara, e disse: "Não imagina como fico feliz em saber."
Mas ela
mudou o assunto, e ele não conseguiu que o retomasse pelo resto da tarde.
Despediu-se passadas as seis, quando começaram a acender as luzes da casa.
Sentia-se mais seguro, mas sem demasiadas
ilusões, porque não esquecia o caráter volúvel e as reações imprevistas de
Fermina Daza aos vinte anos, e não tinha razões para pensar que ela tivesse mudado. Por isso se atreveu a
perguntar com uma humildade sincera se podia voltar outro dia, e a resposta tornou
a surpreendê-lo.
—
O senhor volte quando quiser — disse ela. — Quase sempre estou só.
Quatro dias depois, terça-feira, voltou sem se anunciar,
e ela não esperou que servissem o chá para lhe falar de quanto tinham sido úteis suas
cartas. Ele disse que não eram cartas num
sentido estrito e sim folhas soltas
de um
livro que teria gostado de
escrever. Ela também tinha entendido assim.
Tanto assim que pensava em devolvê-las,
desde que ele não visse isso
como um desdouro, para que
lhes desse melhor destino. Continuou falando do bem que lhe haviam feito no duro transe que estava vivendo, e
o fazia com tanto entusiasmo, com
tanta gratidão, talvez com tanto afeto, que Florentino Ariza ousou dar
algo mais que um passo firme: um salto mortal.
—
Antes nós nos tratávamos por você —
disse.
Era uma palavra
proibida: antes. Ela sentiu passar o
anjo quimérico do passado, e procurou evitá-lo. Mas ele foi mais fundo: "Em nossas cartas de antes, quero
dizer." Ela se aborreceu,
e teve que fazer um esforço
sério para não demonstrá-lo.
Mas ele percebeu, e compreendeu que
devia avançar com mais tato, embora o tropeço lhe
ensinasse que ela continuava tão arisca como na juventude, mas tinha aprendido a ser arisca
com doçura.
—
Quero dizer — disse ele —
que estas cartas são coisa muito diferente.
—
Tudo mudou no mundo — disse ela.
—
Eu não — disse ele. — E a senhora?
Ela ficou com a segunda chávena de chá no meio do caminho e o increpou com uns olhos que eram sobreviventes dos tempos
da inclemência.
—
Tanto faz — disse. — Acabo de completar setenta e dois anos.
Florentino Ariza recebeu o golpe no centro do coração.
Teria gostado de encontrar uma réplica com a rapidez e o instinto de uma seta,
mas o peso da idade o venceu: nunca se sentira tão esgotado numa conversação tão breve, o coração lhe doía, e cada golpe repercutia com ressonância metálica em suas artérias. Sentiu-se velho, triste, inútil, e com umas ânsias
tão prementes de chorar que não pôde mais falar. Terminaram a segunda
xícara num silêncio sulcado de presságios, e quando ela
tornou a falar foi para pedir a uma criada a pasta das cartas. Ele esteve a ponto de pedir que ela guardasse as cartas, pois tinha cópias de papel
carbono, mas achou que tal precaução ia parecer ignóbil. Não havia mais nada que falar. Antes de se despedir,
ele sugeriu voltar na outra
terça-feira à mesma hora. Ela
perguntou a si mesma se devia ser tão condescendente.
—
Não vejo que sentido teriam tantas visitas — disse.
—
Eu não pensei que tivessem nenhum — disse ele.
De maneira que voltou na terça às cinco, e em todas as terças seguintes, sem a
convenção do aviso, porque as visitas
semanais se haviam incorporado à
rotina de ambos no final do segundo
mês. Florentino Ariza levava
biscoitinhos ingleses para o
chá, castanhas confeitadas, azeitonas gregas, pequenas delícias de mesa que encontrava nos transatlânticos.
Numa das terças-feiras levou a cópia do retrato dela e
Hildebranda, tirado pelo fotógrafo belga há mais
de meio
século, que ele comprara por
quinze cêntimos num saldo de cartões-postais do Portal dos Escrivães. Fermina Daza não pôde entender como o retrato chegara lá, nem ele pôde a não ser como um milagre do amor. Certa manhã, enquanto cortava
rosas do seu jardim, Florentino Ariza não pôde resistir à
tentação de lhe levar uma na próxima
visita. Foi um, problema difícil na
linguagem das flores por tratar-se de viúva
recente. Uma rosa vermelha, símbolo da paixão em
chamas, podia ser ofensiva a seu luto. As
rosas amarelas, que em outra
linguagem eram as flores da boa sorte, exprimiam ciúmes no
vocabulário comum. Certa vez lhe haviam falado nas rosas negras da Turquia,
que talvez fossem as mais
indicadas, mas não tinha podido obtê-las
para aclimatá- las em seu pátio.
Depois de muito pensar se arriscou
com uma
rosa das brancas, que lhe agradavam menos que as outras, por insípidas e mudas:
não diziam nada. À última hora,
prevenindo o caso de Fermina Daza
emprestar-lhes algum sentido, tirou os espinhos.
Foi bem recebida, como um
presente sem intenções
ocultas, e assim se enriqueceu o ritual das terças.
Tanto que quando
ele chegava com a rosa branca j estava preparado o jarro de flor com
água no centro da mesinha do
chá. Numa dessas terças, ao
colocar a rosa, ele disse de um jeito
que parecesse casual:
—
Em nossos tempos não se usavam rosas e sim camélias.
—
É verdade — disse ela — mas a intenção era outra, como o senhor sabe.
Assim foi sempre:
ele tentava avançar e ela lhe fechava o caminho. Mas nesta ocasião, apesar de sua resposta
na hora, Florentino Ariza percebeu que acertara no alvo, porque ela teve que virar o rosto para não se
ver que enrubescera. Um rubor ardente, juvenil,
com vida própria, cuja
impertinência lhe deu um sentimento
de irritação consigo mesma. Florentino Ariza tomou o maior cuidado em suscitar
temas menos ásperos, mas sua gentileza foi tão evidente que ela se soube descoberta, o que aumentou sua
raiva. Foi uma terça ruim. Ela esteve
a ponto de pedir que não
voltasse mais, mas a idéia de uma briga de
noivos pareceu tão ridícula na idade e
situação de ambos que lhe deu um
acesso de riso. Na terça-feira seguinte, quando Florentino Ariza punha a rosa no jarro, ela esquadrinhou a consciência e comprovou
com alegria que não restava da semana anterior
um só
traço de ressentimento.
As visitas começaram a
adquirir em tempo muito breve uma incômoda amplitude familiar, pois o doutor Urbino Daza e a mulher apareciam às vezes como por acaso, e se deixavam
ficar, jogando cartas. Florentino Ariza não sabia jogar, mas Fermina lhe ensinou
numa única visita, e os dois
mandaram aos esposos Urbino Daza um desafio
escrito para a terça-feira seguinte. Eram encontros tão agradáveis para todos que se oficializaram com tanta rapidez quanto as visitas, e se estabeleceram normas para as contribuições de cada
um. O doutor Urbino Daza e a mulher, que era uma doceira excelente, contribuíam
com tortas originais, sempre diferentes. Florentino Ariza continuou levando as
curiosidades que encontrava nos navios da Europa,
e Fermina Daza dava tratos à bola para inventar
cada
semana uma surpresa nova. Os torneios se jogavam na terceira terça-feira de cada
mês, e não se faziam
apostas em dinheiro, mas impunha-se ao perdedor uma contribuição especial para
a partida seguinte.
O doutor Urbino Daza correspondia à sua imagem pública: era fraco de iniciativa, tardo de maneiras, e sofria de
sobressaltos súbitos, tanto de alegria como de desgosto, e de rubores
inoportunos que faziam temer pelo seu vigor mental.
Mas era sem a menor dúvida, o que se notava até demais mesmo à
primeira vista, aquilo que Florentino Ariza mais temia que se dissesse dele:
um homem bom. Sua mulher, em
compensação, tinha vivacidade com uma chispa
plebéia, oportuna e certeira, que dava um toque mais humano à sua elegância. Não se podia
desejar casal melhor como parceiro de cartas, e a insaciável necessidade de amor de
Florentino Ariza chegou ao auge com a ilusão
de se sentir em família.
Uma noite, quando
saíam juntos da casa, o doutor Urbino Daza convidou-o a almoçar: "Amanhã,
às doze e meia em ponto, no Clube Social." Era um manjar delicioso com um vinho envenenado: o Clube Social
se reservava o direito
de vetar convidados por motivos diversos, e um dos mais importantes era a condição de filho
natural. Tio Leão XII tinha tido experiências irritantes nesse terreno, e o próprio Florentino Ariza sofrerá a vergonha de o fazerem sair quando já estava sentado
à mesa, a convite de um sócio
fundador. Este, a quem Florentino
Ariza fazia favores difíceis no comércio fluvial,
só teve o recurso de levá-lo a
almoçar em outro lugar.
—
Nós que fazemos
os regulamentos somos os mais
obrigados a cumpri-los — disse.
Não obstante, Florentino Ariza correu o risco com o doutor Urbino Daza,
e foi recebido com um tratamento especial, embora não lhe pedissem para assinar o livro de ouro dos convidados notáveis. O almoço foi breve, dos dois sozinhos, e transcorreu em tom
menor. Os temores que inquietavam
Florentino Ariza desde a tarde anterior
em relação àquele encontro se desfizeram com o cálice de vinho do porto do
aperitivo. O doutor Urbino Daza queria falar de sua mãe. Pelo muito que disse, Florentino Ariza percebeu
que ela falara nele ao filho.
E havia algo ainda mais surpreendente: mentira a seu favor. Contou-lhe que eram amigos desde crianças, que
brincavam juntos desde a chegada dela de São João
da Ciénaga, que ele a
iniciara nas primeiras leituras, e por
isso lhe guardava uma antiga gratidão. Tinha dito ademais que
amiúde, quando ela saía da escola, passava muitas horas com Trânsito Ariza fazendo prodígios de bordados no armarinho, pois era uma professora
notável, e que se não tinha continuado
a ver Florentino Ariza com a mesma freqüência
não tinha sido por gosto mas pela divergência de
suas vidas.
Antes de chegar
ao fundo de seus propósitos, o doutor Urbino Daza fez algumas divagações sobre a velhice.
Achava que o mundo andaria mais rápido
sem o estorvo dos anciãos. Disse: "A humanidade, como os exércitos
em campanha, avança na velocidade do mais lento." Previa um futuro mais humanitário, e por isso mesmo
mais civilizado, de seres
humanos isolados em cidades
marginais a partir do momento em
que não pudessem mais cuidar de si mesmos,
para lhes poupar a vergonha, os sofrimentos,
a solidão espantosa da velhice. Do ponto de vista médico, segundo ele, o
limite podia ser o dos sessenta anos.
Mas enquanto se chegava a esse grau de
caridade, a única solução eram
os asilos, onde os anciãos se consolavam uns aos outros, se identificavam
em seus
gostos e suas aversões, em suas mágoas e tristezas, a salvo das discórdias naturais com as gerações seguintes. Disse: "Os velhos, entre velhos, são menos velhos."
Pois bem: o doutor Urbino Daza queria agradecer a Florentino Ariza a boa
companhia que fazia a sua mãe na
solidão da viuvez, instava com ele para que continuasse
a fazê-lo para bem de ambos
e comodidade de todos, e para
que tivesse paciência com seus humores
senis. Florentino Ariza se sentiu aliviado
com a solução da entrevista. "Fique tranqüilo", disse. "Sou
quatro anos mais velho que ela. e não só agora mas desde antes, muito antes do seu nascimento."
Depois cedeu à tentação de desabafar
com um toque de ironia.
—
Na sociedade
do
futuro — concluiu — o senhor teria que ir agora ao
campo- santo,
para nos levar, a ela e a mim,
um ramo de antúrio para o almoço.
O doutor Urbino Daza não tinha reparado até então na inconveniência de sua profecia, e enfiou por um desfiladeiro de explicações
que acabaram de emaranhá-lo. Mas
Florentino Ariza o ajudou a sair. Estava radiante, pois sabia que mais tarde ou mais cedo ia ter um encontro como aquele com o doutor Urbino
Daza, para cumprir um requisito social inevitável: a petição
formal da mão de sua mãe. O almoço foi muito animador, não só pelo seu
próprio motivo, como por
demonstrar como ia ser fácil e bem
recebida aquela petição inexorável. Se tivesse
contado com o consentimento de Fermina Daza, nenhuma ocasião teria sido mais propícia. E mais: depois do que haviam falado durante aquele almoço
histórico, o formalismo do pedido
ficava de sobra.
Florentino Ariza subia
e descia escadas com um cuidado especial,
mesmo quando jovem, por ter sempre achado que a velhice
começava com uma primeira queda sem importância, e a morte vinha em seguida com a segunda. Mais perigosa que
todas as escadas lhe parecia a de seus escritórios, íngreme e de espaços
estreitos, e desde muito antes de começar a se esforçar
para não arrastar os pés ele a
subia olhando bem os degraus e agarrado ao corrimão com as duas mãos. Muitas vezes lhe sugeriram que a substituísse
por outra menos arriscada, mas
a decisão ficava sempre para o mês entrante, porque ele achava que seria uma concessão feita à velhice. À
medida que passavam os anos levava mais tempo para
subir, não porque lhe
custasse mais trabalho, como se apressava em explicar, e sim porque cada vez
subia com mais cuidado. Contudo, no dia em que
regressou do almoço com o doutor
Urbino Daza, depois do cálice de vinho do
porto do aperitivo e meio copo
de vinho tinto com a refeição,
e sobretudo depois da conversação
triunfal, procurou atingir o terceiro degrau com um passo de dança tão juvenil que torceu o tornozelo esquerdo,
caiu de costas e não se matou por milagre. No momento
em que caía teve lucidez suficiente para
pensar que não ia morrer daquele acidente, porque não era possível na
lógica da vida que dois homens que haviam amado tanto durante
tantos anos a mesma mulher pudessem
morrer do mesmo modo com apenas um ano
de diferença. Tinha razão.
Puseram-lhe uma couraça de gesso do pé à barriga da perna, e o obrigaram a ficar imóvel
na cama, mas continuou mais vivo que antes da queda. Quando o médico lhe ordenou
os sessenta dias de invalidez, não pôde acreditar em tanta desdita.
—
Não me faça isto, doutor — implorou.
— Dois meses dos meus são como dez anos dos seus.
Várias vezes procurou
se levantar carregando a perna de estátua
com as duas mãos, mas foi sempre vencido pela realidade. Mas
quando por fim voltou a andar com o
tornozelo ainda dolorido e as costas em carne
viva, teve motivos de sobra para acreditar que o destino tinha premiado sua perseverança com uma queda providencial.
Seu dia pior foi a
primeira segunda-feira. A dor
tinha cedido, e o prognóstico médico era muito animador, mas ele se negava a aceitar o fatalismo de
não ver Fermina Daza na tarde seguinte, pela primeira vez em quatro meses.
Não obstante, depois de uma sesta de
resignação se submeteu à
realidade e escreveu uma nota de desculpas. Escreveu-a a mão, em papel
perfumado e com tinta luminosa para se ler na escuridão, e dramatizou sem pudores a gravidade do percalço procurando suscitar compaixão. Ela respondeu dois dias
depois, muito comovida, muito amável, mas sem uma palavra a mais
ou a menos, como nos grandes dias do amor.
Ele pegou a oportunidade em pleno vôo e tornou a escrever. Quando ela respondeu pela segunda vez, resolveu ir muito mais longe do que
nas conversas cifradas das terças, e mandou instalar um telefone perto da cama
a pretexto de vigiar o curso diário da empresa. Pediu à telefonista central que o ligasse com o número de três
algarismos que sabia de cor desde a
primeira chamada. A voz de timbre apagado, tensa
no mistério da distância, a voz amada respondeu,
reconheceu a outra voz, e se despediu
depois de três frases convencionais de saudação. Florentino Ariza ficou
desconsolado com a indiferença: estavam outra vez no princípio.
Dois dias depois, no entanto, recebeu uma carta de
Fermina Daza suplicando que não lhe telefonasse mais. Suas razões eram válidas. Havia tão poucos telefones na cidade que a comunicação se fazia
através de uma telefonista que
conhecia todos os assinantes, sua vida e seus
milagres, e não importava que não estivessem
em casa: encontrava-os onde estivessem. Em troca de tanta
eficácia, mantinha-se inteirada das conversas,
descobria os segredos da vida privada, os dramas mais bem guardados, e
não era raro que interviesse num diálogo para introduzir
seu ponto de vista ou apaziguar
os ânimos. Por outro lado, no curso
daquele ano se havia
fundado A Justiça, um jornal
vespertino cuja finalidade única era fustigar as
famílias de nomes ilustres,
dando nomes próprios e sem considerações
de nenhuma
espécie, como represália do proprietário porque seus filhos
não tinham sido admitidos no Clube Social. Apesar da limpeza
de
sua vida, Fermina Daza se preocupava então mais do que nunca com tudo que falava ou fazia, mesmo
com suas amizades íntimas. De maneira que continuou ligada a
Florentino Ariza pelo fio anacrônico das cartas. A correspondência de ida e
vinda chegou a ser tão freqüente e intensa que ele esqueceu a perna, o castigo da cama, esqueceu
tudo e se consagrou por
completo a escrever numa mesinha portátil
das que se usavam nos hospitais para as
refeições dos doentes.
Tornaram a se tratar
por você, tornaram a trocar comentários sobre suas
vidas como nas cartas de antes,
mas Florentino Ariza tratou de andar
outra vez com pressa demais: escreveu o nome dela com furos de alfinete nas pétalas de uma camélia, e
mandou-a numa carta. Dois dias depois
recebeu-a de volta sem qualquer comentário. Fermina Daza não
tinha outro recurso: aquilo tudo para ela eram
coisas de crianças. Mais ainda
quando Florentino Ariza insistiu em evocar suas tardes
de versos melancólicos na pracinha
dos Evangelhos, os esconderijos das cartas no caminho da escola, as aulas de bordado debaixo das amendoeiras. Ainda que morta de pena ela o pôs no seu lugar com uma pergunta
que parecia casual em meio a outros comentários triviais: "Por que é que você insiste em falar no que não existe?" Mais tarde criticou nele a
pertinácia estéril de não se
deixar envelhecer com
naturalidade. Essa era, segundo ela, a
causa de sua precipitação e seus descalabros
constantes na evocação do passado. Não entendia como um homem capaz das reflexões que tanto apoio lhe haviam dado para suportar a viuvez se enrolava daquele modo infantil quando procurava
aplicá-las à sua própria vida. Os papéis se inverteram. Então foi ela quem procurou
dar-lhe novo ânimo para ver o futuro, com uma frase que ele, em sua pressa
estouvada, não soube decifrar: Deixe
que o tempo passe e já veremos o que
traz. Pois nunca foi tão bom aluno quanto ela. A imobilidade forçada, a
certeza cada dia mais lúcida da fugacidade
do tempo, os loucos desejos
de vê-la, tudo demonstrava que seus temores
da queda tinham sido mais
certeiros e trágicos do que havia
previsto. Pela primeira vez começou a pensar de
um modo racional na realidade da morte.
Leona Cassiani o ajudava a tomar banho e mudar o pijama de dois em
dois dias, dava as lavagens,
ajeitava o urinol portátil, aplicava compressas de arnica nas úlceras das
costas, fazia massagens a conselho médico
para evitar que a imobilidade lhe causasse outros males piores. Aos sábados e domingos alternava com ela América
Vicuña, que em dezembro daquele ano
devia receber seu diploma de professora.
Ele tinha prometido mandá-la fazer um curso superior no Alabama por conta da companhia fluvial, em parte para amordaçar
a consciência, e sobretudo para
não fazer frente às queixas que
ela não encontrava como fazer, nem às explicações que ele devia. Nunca imaginou quanto ela sofria
nas insônias do internato, nos
fins de
semana sem ele, na vida sem ele, porque
nunca imaginou quanto o amava. Sabia por uma carta
oficial do colégio que do primeiro
lugar que ela sempre ocupava tinha passado ao último, e estava a ponto de ser reprovada nos exames finais. Mas se esquivou ao dever de responsável:
não informou de nada aos pais de América
Vicuña, impedido por um sentimento de
culpa que procurava escamotear, tampouco comentou com ela, devido ao bem fundado temor de que o implicas se em seu
fracasso. Por isso deixou as
coisas como estavam. Sem perceber, começava a protelar seus problemas na esperança de que
a morte os resolvesse.
Não só as duas mulheres que se ocupavam dele, como o próprio Florentino
Ariza, se espantavam de ver como estava mudado. Apenas dez anos
atrás tinha atacado uma de suas criadas
atrás da escada principal da casa, vestida e em pé, e em menos tempo que um galo filipino a deixou em estado
de
graça. Teve que presenteá-la com uma casa
mobiliada para que ela jurasse que o autor de sua desonra
era um vago noivo dominical que sequer a havia beijado, e os pais e tios
dela, bons macheteiros de safra,
obrigaram os dois a casar. Não parecia
possível que fosse o mesmo homem,
aquele que manuseavam pelo direito e pelo avesso duas mulheres que
há poucos meses o faziam tremer de amor, que o ensaboavam por cima e por
baixo, secavam com toalhas de algodão
egípcio e lhe davam massagens de corpo
inteiro, sem que ele soltasse
um suspiro de perturbação. Cada qual tinha uma explicação diferente para sua
inapetência. Leona Cassiani achava que eram os prelúdios da morte. América Vicuña atribuía-lhe uma origem oculta cuja
trama não conseguia desentranhar. Só ele sabia a verdade, e tinha nome próprio. De qualquer maneira era injusto: mais padeciam elas a servi-lo do que ele
sendo tão bem
servido.
Três semanas bastaram a Fermina Daza para ver a falta que lhe faziam as visitas de Florentino Ariza. Passava muito bem seu
tempo com as amigas assíduas, melhor ainda
à medida que o tempo a afastava dos costumes
do marido. Lucrécia dei Real
dei Obispo tinha ido ao Panamá para examinar uma dor de ouvido que
não cedia com nada, e voltou muito aliviada depois de um
mês, mas ouvindo menos que
antes com uma trombetinha que colocava
na orelha. Fermina Daza era a amiga que tolerava melhor suas confusões de
perguntas e respostas, o que estimulava
tanto Lucrécia que não havia dia em que não aparecesse por ali a qualquer
hora que fosse
.,Mas Fermina Daza não pôde preencher com nenhuma outra pessoa as tardes calmantes de Florentino Ariza.
A memória do passado
não redimia o futuro, como ele se empenhava
em acreditar. Pelo contrário:
reforçava a convicção que Fermina Daza sempre tivera de que aquele alvoroço febril dos vinte anos tinha sido alguma
coisa muito nobre e muito bela, mas amor, não. Apesar de sua franqueza
crua não tinha intenção de revelar
isto a ele nem pelo correio nem em pessoa,
nem tinha coração para lhe
dizer como soavam falsos os sentimentalismos de suas cartas para quem
conhecera o prodígio de consolação
de suas
meditações escritas, como o desmereciam suas mentiras líricas e quanto sua
causa era prejudicada pela insistência
maníaca de resgatar o passado.
Não: nenhuma linha de suas cartas de outrora nem momento nenhum de sua própria juventude tediosa a haviam feito sentir
que sem ele as
tardes de uma terça-feira pudessem ser tão dilatadas como na realidade eram,
tão solitárias e indescritíveis sem ele.
Num de seus arrancos de simplificação, ela mandara
para as cavalariças a radiola com
que o marido a presenteara num de seus aniversários,
e que ambos tinham pensado em dar ao museu
por ter sido a primeira que chegou à cidade. Nas sombras do seu luto tinha resolvido não tornar a
usá-la, pois uma viúva da sua linhagem
não podia escutar música de espécie
nenhuma sem ofender a memória do morto, mesmo
que apenas na intimidade. Mas depois da
terceira terça de abandono mandou-a pôr de novo na sala, não para desfrutar das canções sentimentais da emissora
de Riobamba, como antes, mas para encher
suas horas mortas com as novelas de lágrimas
de Santiago de Cuba. Foi uma boa
coisa, pois quando nasceu sua filha tinha começado a perder o hábito da leitura
que o marido lhe inculcara com tanta aplicação a partir
da viagem de bodas, e com o cansaço progressivo da vista perdeu-o por completo, a ponto de passar meses sem saber onde estavam os óculos.
Apegou-se de tal
modo às novelas radiofônicas de Santiago
de Cuba que esperava com ansiedade os
capítulos encadeados de todos os
dias. De vez em quando ouvia asnotícias para saber o que acontecia no mundo, e nas poucas ocasiões em que ficava só em casa
escutava com o volume muito baixo,
remotos e nítidos, os merengues de São Domingos
e as plenas de Porto Rico. Uma noite,
numa estação desconhecida que irrompeu de súbito com tanta força e tanta claridade como se estivesse na casa
vizinha, ouviu uma notícia pavorosa: um casal
de anciãos que repetia a lua-de-mel
no mesmo lugar que quarenta anos antes
fora assassinado a golpes de remo
pelo barqueiro que os levava a passeio, para
roubar o dinheiro que tinham: quatorze dólares. Sua impressão foi ainda maior quando Lucrécia dei Real lhe contou o relato completo publicado num jornal local. A polícia tinha
descoberto que os anciãos mortos a pauladas, ela
de setenta e oito anos e ele de oitenta e quatro,
eram amantes clandestinos que
passavam férias juntos havia quarenta
anos, mas ambos tinham seus respectivos
lares, estáveis e felizes, e com famílias
numerosas. Fermina Daza, que
nunca chorara com os novelões radiofônicos,
teve que reprimir o nó de lágrimas que ficou entalado em sua garganta.
Na carta seguinte, Florentino Ariza lhe mandou
sem nenhum comentário o recorte de jornal com a notícia.
Não eram as últimas lágrimas
que Fermina Daza ia reprimir. Florentino Ariza ainda não cumprira seus sessenta
dias de reclusão, quando A
Justiça revelou, em toda a extensão da primeira página e com fotos dos protagonistas, os supostos amores ocultos do doutor Juvenal Urbino e Lucrécia dei Real
dei Obispo. Especulava-se sobre os pormenores da
relação, sua freqüência e seu modo, e sobre a complacência do marido, entregue a descalabros de sodomia com os pretos do seu engenho
de açúcar. O relato publicado
com enormes tipos de madeira em tinta de sangue
retumbou como o trovão de um cataclismo na desconjuntada aristocracia
local. No entanto, não havia uma só
linha verdadeira: Juvenal Urbino e Lucrécia dei Real eram amigos íntimos desde seus anos de solteiros e amigos continuaram depois de casados,
mas nunca foram amantes. Em todo caso, não parecia que a publicação se destinasse a enodoar o nome do doutor Juvenal Urbino, cuja memória gozava
do respeito unânime, e sim a
prejudicar o marido de Lucrécia dei
Real, eleito presidente do Clube Social a semana anterior. O escândalo foi
sufocado em poucas horas. Mas
Lucrécia dei Real não tornou a visitar Fermina Daza, o que esta interpretou como um reconhecimento da culpa.
Muito em breve ficou
claro, no entanto, que tampouco Fermina Daza estava a salvo dos riscos de sua classe. A Justiça se encarniçou contra ela pelo
seu único flanco débil: os negócios do pai. Quando este teve que se desterrar
à força, ela ficou a par de um só episódio de seus comércios
turvos, tal como lhe contou Gala Placídia. Mais tarde, quando o doutor
Urbino o confirmou depois da entrevista
com o governador, ficou convencida de que o pai
tinha sido vítima de uma infâmia. O fato é que dois agentes do governo se haviam apresentado com uma ordem
de busca na casa da praça
dos Evangelhos, revistaram-na de cima
a baixo sem achar o que procuravam, e
por fim mandaram abrir o guarda-roupa
com portas de espelho da antiga alcova de Fermina Daza. Gala Placídia,
sozinha na casa e sem meios de
prevenir ninguém, negou-se a abri-lo, com a desculpa de que
não tinha as chaves. Foi quando um dos agentes quebrou o espelho
das portas com a coronha do revólver, e descobriu que entre o cristal
e a madeira havia um espaço atulhado de notas falsas de cem dólares. Esta foi a
culminação de uma cadeia de pistas que
conduziam a Lorenzo Daza como último elo de uma vasta
operação internacional. Era uma fraude
de mestre
pois as notas ostentavam as marcas d'água do papel original:
tinham apagado notas de um dólar
mediante um procedimento químico que parecia coisa de magia, e tinham impresso em seu lugar notas de cem. Lorenzo Daza alegou que o guarda-roupa fora comprado muito depois do casamento da filha, e devia ter chegado a casa com as
notas escondidas, mas a polícia comprovou que estava ali desde que Fermina Daza
ia ao colégio. Ninguém senão ele teria
podido esconder a falsa fortuna atrás dos espelhos. Foi só isso que o doutor
Urbino contou à esposa quando se comprometeu com o governador a mandar o
sogro de regresso à sua terra para
abafar o escândalo. Mas o jornal contava muito mais.
Contava que durante uma
das tantas guerras civis do século
anterior, Lorenzo Daza tinha sido intermediário entre o governo do presidente liberal Aquileo Parra e um
tal Joseph K. Korzeniowski, polonês
de origem, que fizera estada de vários meses aqui na tripulação do navio
mercante Saint Antoine, de bandeira
francesa, procurando definir um confuso negócio
de armas. Korzeniowski, que mais tarde ficaria
célebre no mundo com o nome de Joseph Conrad, fez contato não se sabia
como com Lorenzo Daza, que lhe comprou
o carregamento de armas por conta do governo, com suas credenciais e seus recibos
em regra, e pago com ouro de lei. Segundo a versão do jornal, Lorenzo Daza deu como
desaparecidas as armas num assalto
improvável, e tornou a vendê-las pelo dobro
do preço real aos
conservadores em guerra contra o governo.
Também contava A Justiça que Lorenzo Daza comprou a
preço muito baixo um carregamento de botas que eram sobras do exército
inglês, nos tempos em que o general
Rafael Reyes fundou a Marinha de Guerra, e nessa única operação duplicou sua
fortuna em seis meses.
Segundo o jornal, quando o carregamento chegou a este porto, Lorenzo Daza negou-se a recebê-lo porque só vinham as botas do pé direito, mas foi o
único concorrente quando a alfândega o leiloou
de acordo com as leis vigentes,
e o comprou pela quantia simbólica de cem
pesos. Naqueles mesmos dias, um cúmplice seu comprou em iguais
condições o carregamento de botas
esquerdas, que chegara pela alfândega de Riohacha.
Uma vez emparelhadas, Lorenzo Daza se valeu
de seu
parentesco político com os Urbino de La
Calle, vendendo as botas à nova Marinha de Guerra com um lucro de
dois mil por cento.
A informação de A
Justiça terminava dizendo que Lorenzo Daza não abandonara São João da
Ciénaga em fins do século
anterior em busca de melhores
ares para o futuro da
filha, como gostava de dizer, e sim por ter sido pilhado na próspera indústria de misturar tabaco importado com papel picado, e de uma forma tão hábil que nem os fumadores refinados notavam o engano. Também se revelavam seus vínculos com uma empresa
clandestina internacional, cuja atividade mais fecunda em fins do século anterior tinha sido a introdução-ilegal de chineses a partir do Panamá. Em compensação, o suspeito negócio de mulas, que tanto havia prejudicado sua reputação, parecia ser o único honesto que jamais tivera.
Quando Florentino Ariza abandonou a cama, com as costas em áscuas e pela primeira vez com uma sólida bengala em lugar do guarda-chuva,
foi à casa de Fermina Daza. Encontrou-a desconhecida, com os estragos da idade à flor da pele, e com um ressentimento
que lhe havia tirado os
desejos de viver. O doutor Urbino
Daza, em duas visitas que fez a Florentino Ariza durante seu exílio, lhe havia falado na consternação em que mergulhara a mãe com as duas publicações de A Justiça. A primeira lhe provocou uma raiva tão insensata devido
à infidelidade do marido e à traição da amiga que renunciou ao costume de
visitar o mausoléu familiar um domingo de cada mês, porque ficava fora de si com
o fato dele não poder ouvir dentro do caixão os impropérios que ela
queria gritar: brigou com o morto. A Lucrécia dei Real mandou dizer, por
quem quisesse
dizê-lo, que se contentasse
com o consolo
de
ter tido pelo menos um homem no
meio de tanta gente que
passara por sua cama. Da publicação sobre Lorenzo Daza era impossível saber o
que é que a afetava mais, se a
publicação ela própria, ou o tardio descobrimento da verdadeira identidade do pai. Mas uma das duas, ou ambas,
a haviam aniquilado. O cabelo cor de aço
limpo, que tanto enobrecia seu rosto,
parecia agora de fiapos amarelos de milho,
e os formosos olhos de
pantera não recobravam o brilho de outrora
nem com o esplendor da raiva. Notava-se em cada gesto seu a decisão de não continuar vivendo. Há muito tempo tinha renunciado ao hábito de fumar, trancada no banheiro ou de qualquer outra forma, mas reincidiu pela
primeira vez em público e com uma voracidade desenfreada, a princípio com
cigarros que ela própria
preparava, como sempre gostara de fazer,
e depois com os mais ordinários dos encontrados no comércio, porque já não
tinha tempo nem paciência para enrolá-los. Um homem que não fosse Florentino Ariza teria perguntado a si mesmo que podia
prometer o futuro a um ancião como ele, coxo e com as costas esbraseadas de esfoladuras de burro,
e a uma mulher que já não ansiava por nenhuma
felicidade além da morte. Mas ele não. Ele resgatou uma luzinha
de esperança entre os
escombros do desastre, pois achou que
a desgraça de Fermina Daza a
engrandecia, a raiva a embelezava, o rancor contra o mundo lhe devolvera o caráter agreste dos vinte anos.
Tinha um novo
motivo para ser grata a Florentino Ariza, porque com base nas publicações infames ele
havia mandado a A Justiça uma carta
exemplar sobre a responsabilidade ética da imprensa e o respeito pela honra
alheia. Não foi publicada, mas o autor mandou uma cópia ao Diário do Comércio, o mais antigo e sério do litoral caribe, e este a
destacou na primeira página. Estava assinada com o pseudônimo de Júpiter, e era tão argumentada, incisiva
e bem escrita que foi atribuída a
alguns dos escritores mais notáveis da província.
Foi uma voz solitária no meio do oceano,
mas que se ouviu muito fundo e muito longe. Fermina Daza soube
quem era o autor sem que ninguém lhe
dissesse nada, pois reconheceu
algumas idéias e até uma frase literal
das reflexões morais de Florentino Ariza. De maneira que o recebeu com um afeto reverdecido
na desordem do seu
abandono. Foi por essa época que América Vicuña se viu só uma tarde
de sábado no quarto de dormir da
Rua das Janelas, e sem que as procurasse, por puro acaso,
descobriu dentro de um armário
sem chave as cópias datilográficas das meditações
de Florentino Ariza, e as cartas
manuscritas de Fermina Daza.
O doutor Urbino Daza se
alegrou com o reatamento das visitas que tanto animavam sua mãe. Ao
contrário de Ofélia, a irmã, que voltou de Nova Orleans no primeiro navio de transporte de frutas logo que soube que
Fermina Daza mantinha uma amizade
estranha com um homem cuja
qualificação moral não era das melhores. Seu alarma gerou crises desde a
primeira semana, quando verificou o grau de familiaridade
e domínio com que Florentino Ariza entrava na casa, e dos cochichos e fugazes arrufos de noivos com que transcorriam as visitas até bem entrada a noite. O que para o doutor Urbino Daza era uma
saudável afinidade de dois
anciãos solitários, para ela era uma
forma viciosa de concubinato secreto.
Assim foi sempre Ofélia Urbino, mais parecida com dona
Blanca, sua avó paterna, do que se
tivesse sido sua filha. Era distinta como a avó, altaneira
como a avó, e vivia como a avó à mercê dos
preconceitos. Não era capaz de conceber
a inocência de uma amizade entre um homem e uma mulher nem aos cinco
anos de idade, e muito menos aos oitenta. Numa disputa
aguerrida que teve com o irmão, disse que
a única coisa que faltava para que
Florentino Ariza acabasse de consolar sua mãe era que se metesse
com ela em sua cama
de viúva. O doutor Urbino Daza não
tinha coragem para enfrentá-la,
nunca tinha tido, mas sua mulher intercedeu
com uma justificação serena do
amor a qualquer idade. Ofélia perdeu
as estribeiras.
—
O amor é ridículo na nossa idade — gritou —
mas na idade deles é uma porcaria.
Empenhou-se com tal ímpeto na determinação de afugentar Florentino Ariza da casa que chegou aos ouvidos de Fermina Daza. Ela a chamou ao quarto,
como sempre que queria falar sem ser ouvida
pelas criadas, lhe pediu que
repetisse as recriminações. Ofélia não
suavizou nada: estava certa de que
Florentino Ariza, cuja fama de pervertido
ninguém ignorava, mantinha uma relação equívoca, mais prejudicial ao
bom nome da família que as
tratantadas de Lorenzo Daza e as
aventuras ingênuas de Juvenal Urbino.
Fermina Daza a escutou sem dizer palavra, sem mesmo pestanejar,
mas quando acabou de escutar era
outra: tinha voltado à vida.
—
Só tenho pena
é de não ter forças para dar
em você a surra de couro que você merece, por atrevida e cheia de
malícia — disse. —- Mas agora mesmo você
vai embora desta casa, e juro pelos restos de
minha mãe que não pisa mais nela enquanto eu estiver viva.
Não houve poder capaz de
dissuadi-la. Enquanto isso, Ofélia foi morar na casa do irmão,
e de lá mandou toda espécie de súplicas por emissários de monta. Mas
foi inútil. Nem
a mediação do filho nem a intervenção
das amigas conseguiram demovê-la. À nora, com quem manteve sempre uma certa cumplicidade plebéia, soltou
por fim uma confidencia com a fala florida de seus melhores anos: "Faz um século me
cagaram a vida com esse pobre homem porque éramos demasiado
jovens, e agora querem repetir
a dose porque somos demasiado
velhos." Acendeu um cigarro na guimba de outro, e acabou de se livrar do veneno
que lhe roía as entranhas.
—
Que vão à merda —
disse. — Se nós viúvas temos alguma
vantagem, é que já não resta ninguém que
nos dê ordens.
Não houve nada a
fazer. Quando por fim se convenceu de que estavam esgotadas todas as instâncias, Ofélia voltou a Nova Orleans. A única coisa
que conseguiu da mãe foi
que se despedisse dela, e
Fermina Daza concordou depois de muitas súplicas, mas sem lhe permitir que entrasse na casa: tinha jurado pelos ossos da
mãe, que para ela, naqueles dias de trevas, eram os únicos que continuavam limpos.
Numa de suas primeiras visitas, falando de seus navios,
Florentino Ariza tinha feito a
Fermina Daza um convite formal para que embarcasse numa viagem de descanso pelo rio. Com mais um
dia de trem podia ir até a capital da
república, que eles, como a
maioria dos caribenhos de sua geração, continuavam chamando pelo nome que teve até o século anterior: Santa Fé. Mas ela
conservava as prevenções do mando e não queria conhecer uma cidade
gelada e sombria onde as mulheres só saíam de
casa para a missa das
cinco, e não podiam entrar nas sorveterias nem nas repartições públicas, segundo lhe haviam dito, e onde havia a toda hora engarrafamentos de enterros nas ruas e uma garoa miúda desde os tempos do descobrimento: pior do que em
Paris. Em compensação, sentia uma atração muito forte pelo rio, queria ver os jacarés tomando sol nas pontas de areia, queria ser acordada no meio da noite pelo
choro de mulher dos peixes-boi, mas a idéia de uma viagem tão
difícil, na sua idade, e ainda por
cima viúva e só, lhe parecia irreal.
Florentino Ariza reiterou o convite mais adiante, quando
ela resolvera continuar viva sem o marido, e então lhe pareceu mais viável. Mas depois da briga com a filha, azedada pelas injúrias ao pai, pelo rancor ao marido morto,
pela raiva de lembrar os salamaleques hipócritas de Lucrécia dei Real, que teve por tantos
anos como sua melhor amiga, ela mesma se
sentia de sobra na própria
casa. Uma tarde, enquanto tomava sua infusão de
folhas universais, olhou para
o pântano do quintal, onde não
tornaria a brotar a árvore da sua desventura.
—
O que eu gostaria
de fazer
era me soltar desta casa,
andando, em linha reta, reta, reta, e
não voltar nunca mais — disse.
—
Vá num navio — disse Florentino Ariza. Fermina Daza o olhou pensativa.
— Pois olhe
que podia ser — disse.
Não tinha pensado nisso um momento antes de falar, mas bastou admitir a possibilidade para dar a
coisa como feita. O filho e
a nora ouviram encantados.
Florentino Ariza se apressou a precisar que Fermina Daza seria hóspede de honra
em seus
navios, haveria para ela um camarote arranjado como se fosse
sua casa, um serviço perfeito,
e o comandante em pessoa se devotaria à sua segurança e seu bem
estar. Levou mapas da rota para
entusiasmá-la, cartões postais de poentes furibundos, poemas ao paraíso
primitivo do Madalena escritos por viajantes
ilustres, ou que tinham chegado
a tal pela excelência do poema. Ela lhes dava
uma olhadela quando estava no humor certo.
—
Você não precisa me enganar como a uma criança
— dizia. — Se vou, é porque resolvi,
não pelo interesse da paisagem.
Quando o filho sugeriu
que sua esposa a acompanhasse, ela cortou a proposta pela raiz:
"Estou muito crescida para que alguém cuide de mim."
Ela própria acertou os pormenores da viagem. Sentiu um imenso descanso com a idéia de
viver oito dias de subida e
cinco de descida sem nada além do indispensável: meia dúzia de vestidos
de algodão, suas coisas de toucador
e asseio, um par de sapatos para embarcar e desembarcar e as babuchas caseiras para a viagem, e nada mais: o sonho de
sua vida.
Em janeiro de 1824,
o comodoro João Bernardo Elbers, fundador da
navegação fluvial, tinha içado
a bandeira do primeiro navio a vapor
que sulcou o rio Madalena, um traste primitivo de quarenta cavalos de força
chamado Fidelidade. Mais de um século depois, num 7 de julho às seis
da tarde, o doutor Urbino Daza
e a mulher acompanharam Fermina Daza a
embarcar no navio que a levaria em sua primeira viagem pelo rio. Era o primeiro
construído nos estaleiros locais, que
Florentino Ariza batizara em memória de
seu antecessor glorioso: Nova Fidelidade. Fermina Daza jamais pôde acreditar que aquele nome tão significativo para eles fosse deveras uma casualidade histórica, e não mais uma graça do romantismo
crônico de Florentino Ariza.
Em todo caso, ao contrário de outros navios fluviais, antigos
e modernos, o Nova Fidelidade tinha junto do camarote do comandante um camarote
suplementar, amplo e confortável: uma sala
de visitas com móveis de
bambu de cores festivas, um quarto de
dormir matrimonial decorado de alto
a baixo com motivos chineses, um banheiro
com banheira e chuveiro, um mirante
coberto, muito amplo, com samambaias
dependuradas e uma visão completa pela
frente e pelos dois bordos do navio, e um
sistema de refrigeração silencioso que mantinha todo o recinto a
salvo do
estrondo exterior num clima de primavera perpétua. Este aposento de luxo, conhecido
como Camarote Presidencial porque ali haviam viajado até então três presidentes
da república, não tinha um propósito comercial, reservado que era a
autoridades de categoria e convidados
muito especiais. Florentino Ariza o
fizera construir com essa finalidade de imagem pública logo que foi nomeado presidente da C.F.C.,
mas com a certeza íntima de que mais
cedo ou mais tarde ia ser o refúgio
feliz de sua viagem de núpcias com Fermina Daza.
Chegado o dia, com
efeito, ela tomou posse do Camarote Presidencial
em sua condição de dona e senhora. O comandante do
navio fez as honras de bordo
ao doutor Urbino Daza e esposa, e a Florentino Ariza, com champanha e
salmão defumado. Chamava-se Diego Samaritano, vestia
uniforme de linho branco, de uma correção
absoluta, do bico dos botins ao boné
com o escudo da C.F.C. bordado em fio de ouro,
e tinha em comum com os demais
capitães do rio uma corpulência de paineira, uma voz
peremptória e maneiras de cardeal florentino. Às sete da noite deram o primeiro sinal de partida,
e Fermina Daza sentiu-o ressoar com uma
dor aguda dentro do ouvido
esquerdo. Na noite anterior tinha
tido sonhos sulcados de maus
pressentimentos que não ousou decifrar.
Muito cedo de manhã se fez levar ao vizinho panteão do seminário, que então se chamava Cemitério
da Mangueira, e se reconciliou com o marido morto, de pé diante da sua cripta, num monólogo
em que soltou os justos reproches que trazia atravessados na garganta. Depois lhe contou
os pormenores da viagem e se despediu até muito breve. Não quis
dizer a ninguém mais que partia, como
fizera quase sempre que viajava à Europa, para
evitar os adeuses exaustivos. Apesar
de suas
tantas viagens tinha a impressão de ser esta a
primeira, e à medida que o dia rodava
lhe aumentava a aflição. Uma vez a
bordo, se sentiu abandonada e triste,
e queria ficar só para chorar.
Quando soou o último aviso, o doutor Urbino Daza e a mulher se despediram
dela sem dramas, e Florentino Ariza
os acompanhou à passarela de desembarque.
O doutor Urbino Daza se afastou para lhe
ceder o lugar depois de passar
sua esposa, e só então percebeu que Florentino Ariza também partia em viagem. O doutor Urbino Daza não conseguiu disfarçar seu desconcerto.
—
Mas disto não havíamos falado — disse.
Florentino Ariza lhe mostrou
a chave do seu camarote com uma intenção demasiado evidente: um camarote ordinário na coberta comum. Mas isso não pareceu ao doutor Urbino Daza prova suficiente de
inocência. Dirigiu à mulher um olhar de
náufrago, em busca de um ponto
de apoio para seu desconcerto,
mas se encontrou com uns olhos gelados. Ela lhe disse muito
baixo, com voz severa: "Você também?"
Sim: ele também, como a irmã Ofélia, pensava que o amor tinha uma idade
em que começava a ser indecente. Mas soube reagir a tempo, e se despediu
de
Florentino Ariza com um aperto
de mão mais resignado que agradecido.
Florentino Ariza os viu desembarcar da amurada do salão. Tal como
esperava e desejava, o doutor Urbino Daza e a mulher
se voltaram para olhá-lo antes de entrar no automóvel, e
ele fez
um aceno de despedida. Os dois retribuíram. Continuou na amurada até o automóvel desaparecer na poeirada do pátio de
carga, e depois foi para o seu
camarote, para pôr um traje mais adequado ao primeiro jantar a
bordo, na sala de jantar privada do comandante.
Foi uma noite
esplêndida, que o comandante Diego Samaritano condimentou com relatos suculentos de seus quarenta anos no
rio, mas Fermina Daza teve que fazer um grande
esforço para parecer entretida. Apesar de
haver soado às oito o último aviso
e de terem
feito
descer a essa hora
os visitantes e
recolhido a passarela, o navio não zarpou até que o
comandante acabasse de jantar e subisse ao posto de comando para dirigir
a manobra. Fermina Daza e Florentino Ariza ficaram debruçados na amurada do salão comum,
confundidos com os passageiros ruidosos que disputavam entre si o jogo de
identificar as luzes da cidade, até que o navio saiu da baía, meteu-se
por canais invisíveis e pântanos salpicados de luzes ondulantes de pescadores, e resfolegou afinal a plenos pulmões
no livre ar do rio Grande da Madalena. Então a banda irrompeu numa peça popular da moda,
houve um alarido de prazer dos passageiros, e a dança
começou em tropel.
Fermina Daza preferiu se
refugiar no camarote. Não tinha
dito uma palavra durante toda a noite, e Florentino Ariza a deixara perdida em
suas cavilações. Só a interrompeu para
se despedir diante do camarote, mas ela não estava com sono, só um pouco de
frio, e sugeriu que se sentassem um pouco para
olhar o rio do mirante
privado. Florentino Ariza rodou duas poltronas de vime até a amurada, apagou as luzes, pôs nos ombros dela uma manta
de lã
e se sentou ao seu lado. Ela enrolou um cigarro da caixinha que ele lhe trazia de presente, enrolou-o
com uma habilidade surpreendente, fumou-o devagar com o fogo dentro da boca, sem
falar, e depois enrolou mais dois em seguida
e os fumou sem pausas. Florentino
Ariza tomou gole a gole duas
garrafas térmicas de café forte.
O resplendor da cidade tinha desaparecido no horizonte.
Vistos do mirante escuro, o
rio liso e silente, e as pastagens das duas
margens debaixo da lua cheia, se converteram numa planície
fosforescente. De vez em quando se
via uma choça de palha
perto das grandes fogueiras que
anunciavam que ali se vendia lenha para
as caldeiras dos navios. Florentino Ariza conservava lembranças esbatidas
de sua
viagem de juventude,
e a visão do rio fazia com que revivessem em rajadas deslumbrantes,
como se fossem de ontem. Contou
algumas a Fermina Daza, achando que podia animá-la, mas ela fumava em outro
mundo. Florentino Ariza renunciou às suas lembranças
e deixou-a só com as dela, e enquanto isso enrolava cigarros e os ia dando já acesos, até que a caixa acabou. A música cessou depois da meia-noite, o
bulício dos passageiros se dispersou e
se desfez em sussurros sonolentos, e os dois corações ficaram sozinhos no mirante em sombras, vivendo ao compasso do
resfolegar do navio.
Depois de um longo tempo, Florentino Ariza olhou Fermina Daza ao fulgor do
rio, viu-a espectral, o perfil de estátua suavizado por um
tênue resplendor azul, e viu que
chorava em silêncio. Mas em vez de
consolá-la, ou esperar que esgotasse
suas lágrimas, como queria ela, deixou-se invadir pelo pânico.
—
Você quer ficar só? — perguntou.
—
Se quisesse não diria a você
que entrasse — disse ela.
Então ele estendeu
os dedos gelados na escuridão, buscou tateante a outra mão na escuridão, e a encontrou à espera. Ambos
foram bastante lúcidos para perceber,
num mesmo instante fugaz,
que nenhuma das duas
era a mão
que tinham imaginado antes de se tocar, e sim duas mãos de ossos velhos. Mas no
instante seguinte já eram. Ela começou
a falar do marido morto, no tempo
presente, como se estivesse vivo, e Florentino Ariza soube nesse
momento que também para ela soara
a hora de se perguntar com dignidade, com grandeza,
com desejos incontidos de viver, o que devia fazer com o amor sem dono
que lhe havia ficado.
Fermina Daza parou de
fumar para não soltar a mão que ele
guardava na sua. Estava perdida na ansiedade de compreender. Não podia conceber marido melhor
que tinha sido o seu, e no
entanto encontrava mais tropeços do que
complacências na evocação de sua vida,
demasiadas incompreensões recíprocas, brigas inúteis,
rancores mal solucionados. Suspirou de
repente: "É incrível como se pode ser
tão feliz durante tantos anos,
no meio de tanto bate-boca, tantas chateações, porra, sem saber de
verdade se isso é
amor ou não." Quando acabou de desabafar,
alguém tinha apagado a lua. O navio avançava com os passos
contados, pondo um pé antes de
pôr o outro: um imenso animal à espreita. Fermina Daza
tinha voltado da ansiedade.
—
Agora vá — disse.
Florentino Ariza lhe apertou
a mão, se inclinou para ela, e procurou beijá-la na face. Mas
ela o afastou com sua voz rouca e suave.
—
Ainda não — disse: — estou
com cheiro de velha.
Ouviu-o sair na escuridão, ouviu seus passos nas
escadas, ouviu-o deixar de ser até o dia
seguinte. Fermina Daza acendeu
outro cigarro, e enquanto o fumava viu
o doutor Juvenal Urbino com seu terno
de linho imaculado, seu rigor profissional, sua simpatia deslumbrante, seu amor oficial, fazendo-lhe de outro navio do passado um aceno de adeus com seu chapéu branco. "Nós homens
somos uns pobres criados dos preconceitos", ele tinha dito certa vez. "Em compensação, quando uma mulher resolve dormir com um homem não há barreira que não salte, nem fortaleza
que não derrube, nem consideração moral nenhuma que
não esteja disposta a varar de lado a lado: não há Deus que valha."
Fermina Daza continuou imóvel até a
madrugada, pensando em Florentino
Ariza, não como o sentinela desolado da pracinha
dos Evangelhos cuja lembrança já não lhe suscitava sequer uma luzinha de saudade, e sim como era agora, decrépito e descadeirado, mas real: o homem que estivera sempre ao alcance de sua mão,
sem que ela o admitisse. Enquanto o navio a carregava resfolegante rumo ao fulgor das primeiras rosas, só rogava a Deus que Florentino Ariza soubesse
por onde começar outra vez no dia seguinte.
Soube. Fermina Daza deu instruções ao camareiro para que a deixasse dormir a seu gosto, e quando acordou havia na mesa da cabeceira
um jarro com uma rosa branca, fresca, ainda suada de orvalho, e com ela uma carta de
Florentino Ariza com tantas folhas quantas
conseguira escrever depois de se despedir dela. Era uma carta tranqüila, que procurava apenas
exprimir o estado de ânimo que o
embargava desde a noite anterior: tão lírica quanto as outras, tão retórica
como todas, mas apoiada na realidade. Fermina Daza leu-a um tanto envergonhada de si mesma com
os descarados galopes do seu coração. Acabava com
o pedido de que avisasse
ao camareiro quando estivesse pronta,
pois o capitão os esperava no posto de comando
para mostrar o funcionamento do navio.
Estava pronta às onze,
banhada e recendente a sabonete de flores, com um vestido de viúva muito
singelo de étamine cinzenta, e
inteiramente refeita da tempestade
da noite.
Pediu um café sóbrio ao
camareiro de branco impecável, que
estava no serviço pessoal do comandante, mas não mandou o recado de que viessem buscá-la.
Subiu só, deslumbrada pelo céu sem nuvens, e encontrou Florentino Ariza
conversando com o comandante no posto de comando.
Pareceu-lhe diferente, não só porque ela o via agora com outros olhos, como porque havia de fato mudado. Em lugar da fúnebre
indumentária da vida inteira
usava sapatos brancos muito cômodos,
calça e camisa de linho de colarinho
aberto e manga curta e seu monograma bordado no bolso do peito.
Usava além disso um gorro escocês, também branco, e um dispositivo de vidros escuros superposto
a seus eternos óculos de míope. Via-se logo que era tudo de primeiro uso e acabado de comprar
com o propósito da viagem,
salvo o cinto de couro marrom, muito gasto, que Fermina Daza notou ao
primeiro golpe de vista como uma mosca na
sopa. Ao vê-lo assim, vestido para ela de um modo
tão ostensivo, não pôde impedir o rubor de fogo que lhe subiu ao rosto.
Perturbou-se ao cumprimentá-lo, e ele se perturbou mais ainda com a perturbação
dela. A consciência de que se comportavam como noivos perturbou-os
ainda mais, e a consciência de estarem
ambos perturbados acabou de perturbá-los
a tal ponto que o comandante Samaritano notou tudo com um trêmulo de compaixão.
Tirou-os do apuro explicando o manejo dos comandos e o mecanismo geral do navio durante duas horas. Navegavam muito devagar
por um rio sem margens que se dispersava
entre praias áridas até o horizonte.
Mas ao contrário das águas turvas da desembocadura, aquelas eram lentas e
diáfanas, e tinham um resplendor de metal debaixo do sol impiedoso.
Fermina Daza teve a impressão de um delta povoado de ilhas de areia.
—
É o pouco que nos vai restando do rio
— disse o comandante.
Florentino Ariza, com efeito,
estava surpreendido com o que havia de
mudado, e mais ainda estaria no dia seguinte, quando a navegação ficou mais
difícil, e percebeu que o rio pai, o Madalena, um dos maiores do mundo, não passava de uma ilusão
da memória. O capitão
Samaritano explicou como o desmatamento irracional tinha acabado com o rio em cinqüenta anos: as caldeiras dos navios
tinham devorado a selva emaranhada
de árvores colossais que Florentino
Ariza sentia como uma opressão na primeira viagem. Fermina
Daza não veria os bichos de seus sonhos: os caçadores de peles dos curtumes de Nova Orleans haviam exterminado os jacarés que fingiam de mortos com as fauces abertas durante horas e horas nos barrancos da margem para
surpreender as borboletas, os louros com
suas algaravias e os micos com seus gritos de doidos tinham ido morrendo
à medida que acabavam as frondes, os peixes-boi de grandes tetas de mãe
que amamentavam as crias e choravam com vozes de
mulher desolada nas pontas de areia eram uma espécie extinta pelas balas blindadas dos caçadores de prazer.
O capitão Samaritano tinha um afeto quase maternal
pelos peixes-boi, porque lhe davam
a impressão de senhoras
condenadas por algum extravio de amor,
e tinha como certa a lenda de que
eram as únicas fêmeas sem machos no
reino animal. Sempre se opunha a que
disparassem de bordo como era costume, apesar de existirem
leis que o proibiam. Um caçador da Carolina
do
Norte, com sua documentação em regra, tinha desobedecido as suas ordens e destroçado a cabeça de uma mãe de
peixe-boi com um disparo
certeiro de sua Springfield, e a cria tinha ficado enlouquecida de dor
chorando aos gritos sobre o corpo estendido. O comandante tinha feito subir
para bordo o órfão, para cuidar dele, e deixou o
caçador abandonado na praia deserta junto
do cadáver da mãe assassinada. Passou seis meses
no cárcere, devido a protestos diplomáticos, e quase perdeu sua licença
de navegante, mas saiu
disposto a repetir o feito sempre que
houvesse ocasião. Contudo, aquele
passou a ser um episódio histórico: o
peixe-boi órfão, que cresceu e viveu muitos anos no parque de animais raros de São Nicolau das Barrancas, foi o último que se viu no
rio.
—
Cada vez que passo por essa praia — disse — rogo a Deus
que aquele gringo volte a embarcar no meu
navio, para que eu volte a
deixá-lo.
Fermina Daza, que não simpatizava com ele, comoveu-se de tal modo com aquele gigante terno que desde essa manhã o pôs em lugar privilegiado de seu coração. Fez bem: a viagem mal
começava, e em breve teria ocasiões de sobra
para perceber que não se enganara.
Fermina Daza e Florentino Ariza permaneceram nos postos de comando até a hora do almoço, e pouco depois passaram diante do povoado de Calamar, que uns poucos
anos antes vivia em festa perpétua, e agora era um porto em
ruínas de ruas desoladas. O
único ser que se avistou do navio foi uma
mulher vestida de branco que fazia sinais com um lenço. Fermina Daza
não entendeu por que não a recolhiam, se parecia tão aflita, mas o comandante
explicou que era a aparição de uma afogada que fazia sinais de engano com o intuito de desviar os
navios para os perigosos remoinhos da
outra margem. Passaram tão perto dela que Fermina Daza a viu em todos
os detalhes, e não duvidou de que
na realidade não existisse, mas seu rosto
lhe pareceu conhecido.
Foi um dia longo e calorento. Fermina Daza voltou
ao camarote depois do almoço, para
sua sesta inevitável, mas não dormiu bem com a dor de ouvido, que ficou mais intensa quando o navio trocou as saudações de rigor com outro da C.F.C. com o qual cruzou algumas léguas acima de Barranca Velha. Florentino Ariza
cochilou um sonho instantâneo sentado
no salão principal, onde a maioria dos passageiros sem camarote dormia como à meia-noite, e sonhou com Rosalba muito perto
do lugar em que a vira embarcar. Viajava só,
com suas modas da Mompox do
século anterior, e era ele e não a criança que dormia a sesta na gaiola de vime pendente da viga.
Foi um sonho ao mesmo tempo tão enigmático e divertido que ele guardou seu sabor durante
toda a tarde,
enquanto jogava dominó
com o comandante
e dois passageiros amigos. O calor cessava ao pôr-do-sol, e o navio revivia. Os
passageiros emergiam como de um letargo,
recém-banhados e de roupa limpa, e
ocupavam as poltronas de vime do salão à espera do jantar, anunciado às cinco em
ponto por um copeiro que
percorria o convés de um extremo
ao outro fazendo soar entre aplausos de brincadeira
uma sineta
de sacristão. Durante o
repasto, começava a banda sua música
de fandango, e a dança não
cessava até a meia-noite.
Com a dor de ouvido,
Fermina Daza não quis jantar, e assistiu ao
primeiro embarque de lenha para
as caldeiras, numa barranca
pelada onde nada havia além dos troncos amontoados, e um homem muito velho que
atendia ao negócio. Não parecia
haver nada mais em muitas léguas. Para
Fermina Daza foi uma escala lenta e tediosa, inimaginável nos
transatlânticos da Europa, e o calor
era tanto que se podia sentir mesmo dentro do mirante refrigerado. Mas quando o navio zarpou de novo soprava um vento fresco recendente a entranhas de selva, e a música ficou
mais alegre. Na povoação de Sítio Novo havia uma única luz numa única
janela de uma única Casa, e no escritório do
porto não fizeram o sinal combinado
de
que havia carga ou passageiros para
o navio, de maneira que este passou sem saudar.
Fermina Daza estivera toda a tarde perguntando a si mesma de que
recursos ia valer-se Florentino Ariza para vê-la
sem chamar à parte do camarote, e
por volta das oito não agüentou mais
as ânsias de estar com ele. Saiu ao corredor na esperança de encontrá-lo
de
um modo que parecesse casual,
e não precisou andar muito: Florentino
Ariza estava sentado num banco do corredor, calado e triste como na
pracinha dos Evangelhos, há mais de duas horas se perguntando como ia fazer para vê-la. Fizeram ambos o mesmo gesto de surpresa que ambos sabiam fingido, e percorreram juntos o convés da primeira classe atulhado de
gente jovem, a maioria estudantes
ruidosos que se esfalfavam com certa
ansiedade na última pândega das festas.
Na cantina, Florentino Ariza
e Fermina Daza tomaram um refresco de garrafa sentados como estudantes ao
balcão, e ela se viu de repente numa situação temida. Disse: "Que horror!" Florentino
Ariza perguntou em que pensava para ter semelhante impressão.
—
Nos pobres velhinhos
— disse ela. — Os que mataram a golpes de
remo no bote.
Foram dormir quando acabou a música, depois de uma longa conversa sem tropeços no mirante escuro.
Não houve lua, o céu estava
nublado, e no horizonte explodiam relâmpagos sem
trovões que os iluminavam por um instante.
Florentino Ariza enrolou os cigarros para ela,
que não fumou mais de quatro, atormentada pela dor que se aliviava por momentos e recrudescia quando o navio bramia ao cruzar com outro,
ou ao passar na frente de um povoado adormecido, ou quando navegava
devagar para sondar o fundo do rio. Ele lhe contou com que ansiedade a vira sempre nos Jogos Florais, no
vôo em balão, no velocípede de acrobata, e com quanta ansiedade
esperava as festas públicas durante
todo o ano só para vê-la. Também ela o vira muitas
vezes, e nunca teria imaginado que ele
ali estivesse só para vê-la.
Contudo, há apenas um ano, ao ler suas cartas, se perguntara de repente como explicar que ele
jamais houvesse competido nos
Jogos Florais: sem dúvida teria
ganho. Florentino Ariza mentiu: só escrevia para ela, versos para ela,
e só ele
os lia. Então foi ela quem buscou sua mão no escuro, não a
encontrou esperando-a como esperara a dele na noite da véspera, e pegou-a de surpresa.
Gelou-se o coração de Florentino Ariza.
—
Como são curiosas as mulheres
— disse.
Ela deu uma risada
profunda, de pomba jovem, e tornou a pensar nos anciãos do bote. Estava escrito: aquela imagem havia
de persegui-la sempre. Mas nessa noite podia suportá-la, porque se sentia tranqüila e bem, como poucas vezes na
vida: limpa de toda culpa.
Teria ficado assim até o amanhecer, calada, a mão dele suando gelo em sua mão,
mas não pôde suportar o tormento do ouvido. De modo que quando se apagou a música, e depois cessou a
bulha dos passageiros comuns pendurando redes no salão, ela compreendeu que sua dor era mais forte que
o desejo de estar com ele. Sabia que o simples dizer isso
a ele ia aliviá-la, mas não
o fez para não preocupá-lo. Pois já tinha então
a impressão de conhecê-lo como se tivesse vivido com ele toda a vida, e acreditava que ele era capaz
de mandar o navio voltar ao
porto se isso pudesse curar sua dor.
Florentino Ariza previra que essa noite as coisas aconteceriam assim, e se retirou. Já à porta do camarote
procurou se despedir com um beijo, mas ela lhe ofereceu a face
esquerda. Ele insistiu, já com a
respiração entrecortada, e ela ofereceu a outra face com uma coqueteria que ele não vira nela quando
colegial. Então insistiu pela segunda
vez, e ela o recebeu nos lábios,
recebeu-o com um tremor profundo que procurou sufocar
com um riso esquecido desde sua noite de
núpcias.
—
Deus meu — disse — que louca que eu fico nos navios!
Florentino Ariza estremeceu:
com efeito, e ela própria
dissera, tinha o cheiro azedo da idade.
No entanto, enquanto andava para seu
camarote, abrindo caminho entre o labirinto de redes adormecidas, consolava-se com a idéia de que ele
devia ter o mesmo cheiro, só que quatro anos mais velho, e que ela sem dúvida o sentira com a mesma
emoção. Era o cheiro dos fermentos humanos, que ele percebera nas amantes mais antigas, e que elas tinham sentido
nele. A viúva de Nazaret, que não guardava nada para si, tinha dito a ele de modo
mais cru: "Já temos cheiro
de urubu." Cada um suportava o cheiro do outro, porque estavam à mão: meu cheiro contra o seu. Em compensação, muitas
vezes pensara no caso de América
Vicuña, cujo cheiro de fraldas
despertava nele os instintos
maternais, enquanto o inquietava a idéia de que
ela não pudesse agüentar o seu: seu cheiro
de velho
verde. Mas tudo isso pertencia
ao passado. O importante era que pela primeira vez desde
aquela tarde em que tia Escolástica deixara o livro de missa no balcão do telégrafo,
Florentino Ariza não tornara a sentir uma felicidade como a dessa noite: tão intensa que
lhe causava medo.
Começava a adormecer quando o contador do navio o despertou às cinco no porto
de Zambrano para lhe entregar um telegrama
urgente. Estava assinado
por Leona Cassiani, com data do dia anterior,
e todo seu horror cabia numa linha: América Vicuña morta ontem motivos inexplicáveis. Às onze da
manhã soube dos pormenores
através de uma conferência telegráfica com Leona Cassiani, na qual ele mesmo operou o equipamento transmissor como não voltara a fazer desde
seus dias de telegrafista. América Vicuña, presa de uma depressão
mortal por ter sido reprovada nos exames finais, tinha tomado um vidro de láudano roubado na enfermaria do colégio. Florentino Ariza sabia no fundo de sua alma
que a notícia estava incompleta. Mas não: América Vicuña não deixara nenhuma nota explicativa que permitisse culpar quem quer que fosse de sua resolução. A família estava chegando de Porto Pai nesse momento, avisada
por Leona Cassiani, e o enterro
seria às cinco da tarde. Florentino
Ariza respirou. A única coisa que podia fazer para continuar vivo era não permitir o suplício daquela
lembrança. Apagou-o da memória, embora de vez em quando pelo
restante de seus anos fosse
senti-lo reviver de repente, sem qualquer razão, como a pontada súbita numa cicatriz antiga.
Os dias seguintes foram
calorentos e intermináveis. O rio ficou turvo e se foi estreitando cada vez mais, e em vez do emaranhado de árvores
colossais que assombrara Florentino Ariza na primeira viagem, havia planícies
calcinadas, destroços de selvas
inteiras devoradas pelas caldeiras dos navios, escombros de povoados abandonados de Deus,
cujas ruas permaneciam inundadas mesmo
nas épocas mais cruéis da seca.
Durante a noite não eram despertados pelos cantos de sereia dos peixes-boi nas pontas de areia, e sim pela baforada nauseabunda dos mortos que passavam boiando rumo ao mar. Pois já não havia guerras nem pestes mas os corpos inchados
continuavam passando. O capitão foi sóbrio
por uma vez: "Temos ordens de dizer aos passageiros que são afogados
acidentais." Em lugar da algaravia
dos louros e do escândalo dos micos invisíveis que em outros tempos aumentavam o bochorno do meio-dia, só restava
o vasto silêncio da terra
arrasada.
Havia tão poucos lugares onde fazer lenha, e estavam tão separados entre si, que o Nova Fidelidade ficou sem
combustível no quarto dia de viagem.
Permaneceu atracado quase uma semana, enquanto membros da tripulação se internavam por pântanos de cinzas
em busca das últimas árvores
dispersas. Não havia outras: os lenhadores tinham abandonado suas veredas fugindo à ferocidade dos senhores da
terra, fugindo ao cólera invisível, fugindo
das guerras larvadas que os governos se empenhavam em ocultar com decretos de distração.
Enquanto isso, os passageiros,
enfadados, faziam torneios de natação,
organizavam expedições de caça,
voltavam com iguanas vivas que abriam ao meio
e tornavam a costurar com agulhas de ensacamento
depois de extrair delas as pencas de ovos, translúcidos
e moles, que punham a secar
enfileirados nos parapeitos do navio.
As prostitutas pobres dos povoados
próximos seguiram a trilha das expedições, improvisaram tendas de campanha
na barranca da margem, trouxeram
música
e cantina, e
plantaram a pândega
diante do navio encalhado Desde muito antes
de ser
presidente da C.F.C.,
Florentino Ariza recebia informes alarmantes
da condição do rio, e mal os lia. Tranqüilizava os sócios: "Não se preocupem, quando a lenha acabar já haverá navios de petróleo." Nunca se deu o trabalho de pensar no assunto, obnubilado
pela paixão por Fermina Daza, e quando percebeu a verdade já não havia nada a fazer, a menos que se arranjasse um rio
novo. À noite, mesmo nas épocas de melhores águas, era
preciso atracar para dormir, e então
se tornava insuportável o mero fato de estar vivo. A maioria dos passageiros,
sobretudo os europeus, abandonavam o
podredouro dos camarotes e passavam a noite andando
pelas cobertas, espantando toda classe de
insetos com a mesma toalha com que secavam o suor incessante,
e amanheciam exaustos e
inchados de picadas. Um viajante
inglês de princípios do século
XIX, referindo-se à viagem combinada em
canoa e mula, que podia durar até cinqüenta dias, tinha
escrito: "Esta é uma das peregrinações
piores e mais incômodas que um ser
humano possa realizar." Isto deixara de ser verdade nos primeiros oitenta anos da navegação a vapor, e depois tinha
voltado a ser para sempre, quando os jacarés comeram a última borboleta, e acabaram os peixes-boi maternais, acabaram os
louros, os micos, as povoações: acabou tudo.
— Não há problema — ria o comandante. — Dentro de uns anos viremos
pelo leito seco em automóveis de luxo.
Fermina Daza e Florentino Ariza estiveram protegidos
durante os três primeiros dias pela suave primavera do mirante fechado, mas quando racionaram a lenha e começou a falhar o sistema de
refrigeração, o camarote presidencial se
converteu numa cafeteira a
vapor. Ela sobrevivia às noites com o
vento fluvial que entrava pelas janelas abertas, e espantava os mosquitos com uma toalha, pois a bomba de inseticida
era inútil com o navio encalhado. A
dor de ouvido tinha ficado insuportável, e certa manhã quando ela acordou cessou de repente e por
completo, feito o canto de uma cigarra
arrebentada. Mas até a noite não percebeu que tinha perdido a audição do ouvido
esquerdo, quando Florentino Ariza lhe falou por esse
lado, e ela precisou virar a
cabeça para ouvir o que dizia. Não disse
nada a ninguém, resignada diante de mais um
dos tantos defeitos sem remédio
da idade.
No entanto, a demora do navio
tinha sido para eles um percalço providencial. Florentino
Ariza tinha lido certa vez: "O amor se torna
maior e mais nobre na calamidade." A umidade do Camarote Presidencial afogou-os num letargo irreal em que
era mais fácil amar sem perguntas.
Viviam horas inimagináveis de mãos dadas nas poltronas da amurada, beijavam-se devagar, gozavam a embriaguez das cadeias sem o estorvo da exasperação.
Na terceira noite de torpor ela
o esperou com uma garrafa de aguardente de anis, daquela que tomava às escondidas com a malta da prima Hildebranda, e mais tarde, já
casada e mãe dos filhos, trancada
com as amigas do seu mundo de empréstimo. Precisava de um certo
aturdimento para não pensar na própria sorte com demasiada lucidez, mas
Florentino Ariza acreditou que era para
se dar coragem no passo final. Animado
por essa ilusão, atreveu-se a explorar com a ponta dos dedos seu pescoço flácido, o peito encouraçado de varetas metálicas, as cadeiras de ossos
carcomidos, as coxas de corça
velha. Ela o aceitou com agrado e de olhos
fechados, mas sem arrepios,
fumando e bebendo aos goles espaçados. No final, quando as carícias deslizaram para seu
ventre, já tinha bastante anis no coração.
—
Se temos de fazer safadezas,
vamos a elas — disse — mas que seja como
gente grande.
Levou-o para o
quarto e começou a se despir sem falsos
pudores com as luzes acesas.
Florentino Ariza se estendeu de costas na cama, procurando recobrar o
domínio, de novo sem saber o que fazer com a pele do tigre
que tinha matado. Ela disse: "Não olhe."
Ele perguntou por que sem afastar a
vista do teto baixo.
—
Porque você não vai gostar — disse
ela.
Então ele a olhou, viu-a nua até a cintura, tal como a imaginara. Tinha os
ombros enrugados, os seios caídos
e as costelas forradas de um pelame pálido e frio como o de uma rã.
Ela tapou o peito com a blusa que
acabava de tirar, e apagou a luz. Ele
então se refez e começou a se despir na escuridão, jogando nela cada
peça de roupa que tirava e que ela devolvia
morta de rir.
Permaneceram deitados de
costas um longo tempo, ele mais e mais aturdido à medida que o
abandonava a embriaguez, e ela tranqüila,
quase abúlica, mas rogando a Deus
que não a deixasse rir sem razão,
como sempre que exagerava um pouco
com o anis. Conversaram para entreter
o tempo. Falaram de si mesmos.
De suas vidas diferentes, do acaso inverossímil
de estarem nus no camarote escuro de um navio
encalhado, quando o justo era pensar
que já não tinham tempo senão para esperar
a morte. Ela jamais ouvira dizer que ele tivesse tido uma mulher, uma que fosse,
numa cidade em que tudo se sabia até mesmo antes de acontecer.
Disse isso de um modo casual, e ele respondeu de pronto
sem o mais leve tremor na voz:
—
É que me conservei virgem para você.
Ela não teria acreditado nisso de maneira alguma,
ainda que fosse verdade, porque suas cartas de amor estavam cheias de frases
como essa que não valiam pelo seu sentido mas pelo seu poder de
deslumbramento. Mas gostou da coragem
com que ele falou. Florentino Ariza, de sua parte,
perguntou de repente a si mesmo o
que jamais teria ousado perguntar: que classe de vida oculta tinha
tido ela
à margem do casamento. Nada o teria surpreendido, por saber muito bem que as mulheres são
iguais aos homens em suas aventuras secretas: os mesmos estratagemas, as mesmas inspirações súbitas, as mesmas traições sem remorsos. Mas fez bem em
não lhe perguntar. Numa época em que suas
relações com a igreja já andavam
bastante avariadas, o confessor lhe perguntou
sem que viesse à baila se alguma
vez tinha sido infiel ao marido, e ela se levantou
sem responder, sem terminar, sem se despedir, e nunca
mais voltou a se confessar com esse confessor nem com nenhum outro. Por outro lado, a prudência de Florentino Ariza teve uma recompensa inesperada: ela estendeu a mão no escuro, acariciou-lhe o ventre, os flancos, o púbis quase sem pêlos. Disse: "Você tem uma pele
de neném." Depois deu o passo final: buscou-o onde não estava, tornou a
buscá-lo sem ilusões, e o encontrou inerme.
—
Está morto — disse ele.
Acontecia amiúde da primeira
vez, com todas, desde sempre, de modo
que tinha aprendido a conviver com
aquele fantasma: a cada vez tinha
que aprender de novo, como se fosse a
primeira. Pegou a mão dela e a colocou no próprio
peito: Fermina Daza sentiu quase
à flor da pele o velho coração
incansável batendo com a força, a pressa e a desordem de um adolescente. Ele
disse: "Amor demais é tão mau para isto
como falta de amor." Mas disse sem convicção: estava envergonhado, furioso consigo mesmo, ansiando por um motivo
para culpá-la do seu fracasso.
Ela sabia, e começou a provocar o corpo indefeso
com carícias de brinquedo, feito uma
gata terna folgando na crueldade, até que ele não agüentou mais o martírio e foi para o seu camarote. Ela continuou pensando nele até o amanhecer, convencida por fim de seu amor, e à medida que o anis a
abandonava em lentas ondas, ia sendo
invadida pela aflição de que ele se
tivesse revoltado e não voltasse nunca mais.
Mas voltou no mesmo dia,
à hora insólita de onze da
manhã, fresco e restaurado, e se desnudou
na frente dela com uma certa
ostentação. Foi um prazer vê-lo a
plena luz tal como o imaginara no escuro: um
homem sem idade, de pele
escura, lúcida e tensa como um guarda-chuva aberto, sem pêlos além dos muito escassos e
espichados das axilas e do púbis. Estava de guarda alta, e ela percebeu
que não deixava ver a arma por acaso e sim que
a exibia como um troféu de
guerra para se dar coragem. Nem lhe deu tempo de tirar
a camisola que tinha posto quando começou a brisa do amanhecer, e sua pressa
de principiante provocou nela um arrepio
de compaixão. Que não a afetou, porque
em casos como aquele não lhe parecia fácil distinguir entre a
compaixão e o amor. No fim, porém, se sentiu vazia.
Era a primeira vez que fazia amor em mais de
vinte anos, e o fizera embargada pela curiosidade de sentir
como podia ser, em sua idade
e depois de um recesso
tão prolongado. Mas ele não
tinha lhe dado tempo de saber se seu corpo
também estava querendo. Tinha sido rápido e
triste, e ela pensou: "Agora está tudo fodido." Mas se enganou: apesar do desencanto de ambos,
apesar do arrependimento dele pela sua bisonhice e do arrependimento dela pela loucura
do anis, não se separaram um instante nos dias seguintes.
Mal saíam do camarote para
as refeições. O comandante Samaritano, que descobria por
instinto qualquer mistério que quisessem manter em seu navio,
mandava-lhes a rosa branca todas as manhãs, armou-lhes uma serenata de valsas do seu tempo,
e mandava preparar para eles comidas de brincadeira com ingredientes alentadores. Não tentaram de novo o amor até muito
depois, quando a inspiração chegou sem
que a buscassem. Bastava- lhes a ventura simples de estar
juntos.
Não
teriam sequer pensado em sair
do
camarote se o comandante
não lhes
comunicasse numa nota que
depois do almoço chegariam a Dourada,
o porto final, ao fim de onze
dias de viagem. Fermina Daza e
Florentino Ariza avistaram do camarote
o promontório de casas iluminadas por
um sol
pálido, e acreditaram descobrir a razão do seu nome, mas já
acharam a razão menos evidente quando
sentiram o calor que resfolegava como as caldeiras, e viram ferver o
asfalto das ruas. Além disso, o
navio não atracou ali e sim na margem
oposta, onde ficava a estação terminal da estrada
de ferro de Santa Fé.
Abandonaram o refúgio logo
que os passageiros desembarcaram. Fermina Daza respirou o bom ar da impunidade no salão vazio, e ambos
contemplaram da amurada a multidão alvoroçada que
identificava as bagagens nos vagões de um trem
que parecia de brinquedo. Alguém
poderia pensar que chegavam da Europa,
sobretudo as mulheres, cujos abrigos
nórdicos e chapéus do século anterior eram um contra-senso
na canícula poeirenta. Algumas traziam os cabelos enfeitados com formosas flores que começavam a fenecer com o calor. Acabavam de chegar da
planície andina depois de um dia de trem através de uma savana de sonho,
e ainda não tinham tido tempo de mudar
de roupa para o Caribe.
Em meio à
algazarra de feira, um homem muito velho de aspecto
inconsolável tirava pintos dos bolsos do capote
de mendigo. Tinha aparecido de repente, abrindo caminho entre a
multidão com um sobretudo em farrapos que pertencera a alguém muito mais alto e corpulento. Tirou o
chapéu, que pôs de abas para
cima no cais caso alguém quisesse arremessar urna moeda, e começou a
tirar dos bolsos punhados de pintinhos
frágeis e descoloridos que pareciam proliferar entre seus dedos. Num momento estava
o cais atapetado de pintos inquietos piando
por todos os lados, entre os viajantes apressados que pisavam neles sem saber. Fascinada pelo espetáculo de maravilha que parecia executado em sua homenagem, pois só ela o contemplava, Fermina Daza não percebeu em que momento
começaram a entrar no navio os passageiros da viagem de volta.
Acabou sua festa: entre os que chegavam notou logo muitas caras conhecidas, algumas de
amigos que fazia pouco a haviam acompanhado em seu luto, e se apressou em refugiar-se outra vez no camarote. Florentino Ariza encontrou-a
consternada: preferia morrer a ser descoberta
pelos seus numa viagem de prazer,
pouco tempo depois da morte do marido. Florentino Ariza ficou tão
afetado pelo seu abatimento que
prometeu pensar em algum modo de protegê-la
que não fosse o cárcere do camarote.
A idéia lhe veio
de repente quando jantavam na sala privada. O comandante estava inquieto
devido a um problema que há tempos queria discutir com
Florentino Ariza, mas que ele afastava
sempre com o argumento usual: "Dessas
amolações Leona Cassiani cuida melhor que
eu." Contudo, esta vez escutou. O caso é que os navios transportavam carga de subida, mas desciam vazios, enquanto
ocorria o contrário com os passageiros. "A vantagem está com a carga, que paga mais
e além disso não come", disse. Fermina Daza jantava de má vontade, aborrecida com a enervada
discussão dos dois homens quanto à
conveniência de estabelecer tarifas diferenciais.
Mas Florentino Ariza
chegou ao final, e só então soltou uma pergunta que ao capitão pareceu o anúncio de uma idéia salvadora:
—
Falando por hipótese — disse — seria possível fazer uma viagem
direta sem carga nem passageiros, sem tocar em porto nenhum, sem nada?
O comandante disse que só
era possível por hipótese. A
C.F.C. tinha compromissos trabalhistas que Florentino Ariza conhecia melhor que ninguém, tinha contratos de carga,
de passageiros, de correio, e muitos mais, incontornáveis em sua maioria. A única coisa que permitia
saltar por cima de tudo era um caso de
peste a bordo. O navio se declarava
de quarentena, içava-se a bandeira
amarela e se navegava numa emergência. O comandante Samaritano
tinha tido que fazê-lo várias vezes devido
aos muitos casos de cólera aparecidos no rio, embora as
autoridades sanitárias obrigassem logo os médicos a expedir certificados de disenteria comum. Além disso, muitas vezes
na história do rio içava-se a
bandeira amarela da peste
para burlar impostos, para não recolher
um passageiro indesejável, para impedir buscas inoportunas.
Florentino Ariza encontrou a mão de Fermina
Daza por baixo da mesa.
—
Pois bem — disse — façamos isso.
O comandante se espantou,
mas em seguida, com seu instinto de raposa velha, viu tudo claro.
—
Eu mando neste navio,
mas o senhor manda em nós — disse. — De maneira que se está falando sério, me dê a
ordem por escrito, e poremos mãos à obra.
Era sério, é claro, e Florentino Ariza assinou a ordem. No fim das contas todo mundo sabia que os tempos do cólera não haviam terminado, apesar dos
alegres informes das autoridades
sanitárias. Quanto ao navio, não havia problema. Transferiu-se a pouca carga
embarcada, aos passageiros se disse
que havia um percalço de máquinas, e foram passados de madrugada para um navio de outra empresa. Se coisas assim se faziam por tantas razões imorais, e até
indignas, Florentino Ariza não via por que não seria lícito fazê-las por amor.
A única coisa que o capitão suplicava que se fizesse era uma escala em Porto Nare,
para recolher alguém que o acompanharia na viagem: também ele tinha seu
coração escondido.
Assim, o Nova Fidelidade zarpou ao amanhecer do dia seguinte, sem
carga nem passageiros, e com a
bandeira amarela do cólera flutuando
com júbilo no mastro maior. Ao entardecer
recolheram em Porto Nare uma
mulher mais alta e robusta que o
comandante, de uma beleza
descomunal, à qual só faltava a
barba para ser contratada por um circo.
Chamava-se Zenaida Neves, mas o comandante a chamava Minha Energúmena: uma antiga
amiga sua, que costumava pegar num porto para
deixar em outro e que subiu a bordo
tocada pela ventania da ventura.
Naquele morredouro triste, onde Florentino Ariza reviveu as saudades de Rosalba
quando viu o trem de Envigado subindo a duras penas pela
antiga cornija de mulas, desabou um aguaceiro amazônico que havia de continuar com muito poucas pausas
até o fim da viagem. Mas ninguém se incomodou: a festa navegante tinha seu teto
próprio. Aquela noite, como
uma contribuição pessoal
à pândega, Fermina Daza desceu às cozinhas, entre as ovações
da tripulação, e preparou
para todos um prato inventado ao qual Florentino Ariza
deu como nome de batismo: berinjelas ao amor.
Durante o dia jogavam
cartas, comiam até rebentar, faziam sestas de granito que deixavam todos exaustos, e mal baixava o sol, davam
livre curso à orquestra, e bebiam aguardente de anis com salmão até muito além
da saciedade. Foi uma viagem
rápida, com o navio leve e águas boas, melhoradas pelas cheias
que se precipitavam das cabeceiras, onde choveu tanto aquela semana quanto em todo o trajeto. De alguns povoados lhes disparavam canhonaços de caridade para espantar o cólera, que eles agradeciam com um bramido
triste. Os navios de qualquer
companhia com que cruzavam no caminho mandavam sinais de condolências. Na povoação
de Magangué, onde nasceu Mercedes,
carregaram lenha para o resto da viagem.
Fermina Daza se assustou quando começou a sentir a sereia
do navio dentro do ouvido são, mas no segundo dia de anis
ouvia melhor com ambos. Descobriu que as rosas cheiravam mais que
antes, que os pássaros cantavam ao amanhecer muito
melhor que antes, e que Deus tinha
feito um peixe-boi e o pusera na
praia de Tamalameque só para que
a acordasse. O comandante o ouviu, fez desviar o navio, e viram por fim a matrona enorme amamentando sua criança nos braços. Nem Florentino nem Fermina perceberam o quanto se haviam amalgamado: ela o ajudava com os clisteres, se levantava antes dele para escovar a dentadura postiça que ele punha no copo enquanto dormia, e resolveu seu
problema dos óculos perdidos,
pois os dele lhe serviam para ler
e cerzir. Certa manhã, ao acordar, viu-o na penumbra pregando um botão de camisa, e se apressou a pregá-lo, antes que ele repetisse a frase ritual de que precisava de duas esposas. Em compensação, a única coisa que ela precisou dele foi que lhe aplicasse uma ventosa
para uma dor nas costas.
Florentino Ariza, de sua parte, se
pôs a revolver saudades com o violino da
orquestra, e em meio dia
já era capaz de executar para ela a valsa da Deusa
Coroada, que tocou durante horas até que o fizeram parar à força. Uma noite, pela primeira vez em sua vida, Fermina Daza despertou de repente afogada num pranto que não era de raiva
e sim de pena, pela lembrança dos anciãos do bote mortos a pauladas pelo remeiro. Em compensação, a chuva
incessante não a comoveu, e achou
demasiado tarde que talvez Paris
afinal não tivesse sido tão lúgubre
quanto lhe parecera, nem Santa Fé tivesse tido tantos enterros pelo meio da rua. O sonho de
outras viagens futuras com
Florentino Ariza se ergueu no
horizonte: viagens loucas, sem tantos baús, sem compromissos sociais: viagens de amor.
Na véspera da chegada fizeram
uma festa
grande, com grinaldas de papel e lanternas coloridas. Estiou ao
entardecer. O comandante e Zenaida dançaram
muito juntos os primeiros boleros que naqueles
anos começavam a estilhaçar corações. Florentino Ariza se atreveu a sugerir a Fermina Daza que
dançassem sua valsa confidencial, mas ela se
negou. No entanto, a noite
inteira marcou o compasso com a cabeça e os saltos, e houve até um momento em que dançou sentada sem perceber, enquanto o comandante se confundia com sua terna energúmena na
penumbra do bolero. Bebeu tanto do anis que foi preciso ajudá-la a subir as
escadas, e sofreu um ataque de
riso com lágrimas que chegou a alarmar a todos. Não obstante, quando conseguiu dominá-lo no remanso perfumado do camarote, fizeram um amor tranqüilo e são, de serenos
avós, que se fixaria em sua memória como a melhor lembrança daquela viagem lunática. Não se sentiam mais
como noivos recentes, ao contrário do que
o comandante e Zenaida supunham, e menos ainda como amantes tardios. Era como se tivessem saltado o árduo calvário da vida conjugai, e tivessem ido sem rodeios ao grão do amor. Deixavam passar o tempo como dois velhos esposos escaldados pela vida, para lá das
armadilhas da paixão, para lá das troças
brutais das ilusões e das miragens
dos desenganos: para lá do
amor. Pois tinham vivido juntos o
suficiente para perceber que o amor era o amor em qualquer tempo e em qualquer
parte, mas tanto mais denso ficava quanto mais perto da morte.
Acordaram às seis. Ela com a dor de cabeça perfumada de anis, e com o coração aturdido pela impressão de que o doutor Juvenal Urbino tinha
voltado, mais gordo e mais moço que quando escorregou da árvore, e estava sentado na cadeira de balanço, esperando-a à porta da casa. Contudo, estava bastante lúcida para perceber que não era efeito do
anis, mas da iminência da volta.
— Vai ser como morrer — disse.
Florentino Ariza se surpreendeu
porque era a adivinhação de um pensamento que não o deixava viver desde o início da volta. Nem ele nem ela conseguiam se ver numa casa que não
fosse o camarote comendo de modo diferente do que o faziam no navio, incorporados a uma vida que lhes seria alheia para sempre. Era, com efeito, como morrer. Não pôde mais dormir. Permaneceu deitado de costas na cama, as mãos entrelaçadas na
nuca. A um certo momento, a pontada de América Vicuña fez com
que se retorcesse de dor, e não pôde protelar mais a verdade: trancou-se no banheiro e chorou à
vontade, sem pressa, até a última lágrima. Só então teve a coragem de confessar
a si mesmo quanto a amara.
Quando se levantaram
já vestidos para desembarcar, tinham
deixado para trás os canais e
pântanos da antiga passagem
espanhola, e navegavam entre os escombros
de navios e os tanques de óleos
mortos da baía. Erguia-se uma quinta-feira radiante sobre as cúpulas
douradas da cidade dos vice-reis, mas Fermina Daza não pôde suportar do tombadilho a pestilência de
suas glórias, a arrogância de seus baluartes
profanados pelas iguanas: o horror da vida
real. Nem ele nem ela, sem nada dizerem, sentiram-se capazes de se render
de maneira tão. fácil.
Encontraram o comandante na sala de jantar, num estado de desordem que não estava de acordo
com a pulcritude de seus hábitos: a barba por fazer, os olhos injetados
pela insônia, a roupa suada da noite
anterior, a fala transtornada pelos
arrotos de anis. Zenaida dormia.
Começavam a tomar o café em silêncio quando
um bote
a gasolina da Saúde do Porto mandou parar o navio.
O comandante, da sua ponte de
comando, respondeu aos gritos às perguntas da patrulha armada. Queriam saber que tipo de peste
grassava a bordo, quantos passageiros vinham, quantos estavam doentes, que
possibilidades havia de novos
contágios. O comandante respondeu que só traziam
três passageiros, e todos
tinham o cólera, mas se mantinham
em reclusão estrita. Nem os que deviam
embarcar na Dourada, nem os vinte e sete homens
da tripulação, tinham tido
qualquer contato com eles. Mas o chefe da
patrulha não ficou satisfeito, e
mandou que saíssem da baía e esperassem no pântano das Mercês até as duas da tarde, enquanto se preparavam os
trâmites para que o navio ficasse de
quarentena. O comandante soltou um palavrão de carroceiro e com um gesto
da mão mandou o prático dar a volta completa e voltar aos pântanos.
Fermina Daza e Florentino Ariza tinham ouvido tudo da mesa, mas
pouco pareciam importar ao comandante. Continuou
comendo em silêncio, e seu mau humor
era visível na maneira por que violava as leis de urbanidade
que sustentavam a reputação legendária dos capitães do rio. Arrebentou com a ponta da faca
os quatro ovos fritos, arrebanhou-os para seu
prato com patacões de banana verde que enfiava inteiros na
boca e mastigava com um deleite selvagem. Fermina Daza e Florentino Ariza o
olhavam sem falar, esperando a leitura das
notas finais num banco da escola. Não tinham trocado uma palavra
enquanto durou o diálogo com a patrulha sanitária, nem tinham a menor idéia
do que ia ser de suas vidas, mas ambos sabiam que o comandante estava
pensando por eles: via-se pelo pulsar
das suas têmporas.
Enquanto ele despachava
a ração de ovos, a bandeja de rodelas
de banana, o bule de café com leite, o navio saiu da baía
com as caldeiras sossegadas, abriu caminho nos canais através dos lençóis de tarulla, o lótus fluvial de flores
de púrpura e grandes folhas em forma de coração, e voltou aos pântanos. A água era furta-cor devido ao
mundo de peixes que boiavam de costas, mortos pela dinamite dos
pescadores furtivos, e os pássaros da terra e da água voavam em círculos
sobre eles com guinchos metálicos. O vento do Caribe se meteu pelas
janelas com o alarido dos pássaros, e
Fermina Daza sentiu no sangue as
batidas desordenadas de seu livre-arbítrio. À direita, turvo e
parcimonioso, o estuário do rio
Grande da Madalena se espraiava até o outro lado do mundo.
Quando não havia mais nada que comer nos pratos, o comandante limpou os lábios com o canto da toalha, e falou num jargão procaz
que acabou de uma vez por todas com o prestígio do bom falar dos capitães do rio.
Pois não falou por eles nem para ninguém,
mas apenas tentando pôr-se de acordo com a própria raiva. Sua conclusão, ao fim de uma réstia de
impropérios bárbaros, foi que
não descobria como sair da embrulhada em que se metera com a
bandeira do cólera.
Florentino Ariza o escutou
sem pestanejar. Depois olhou pelas janelas o círculo completo do quadrante
da rosa náutica, o horizonte nítido,
o céu de dezembro
sem uma única nuvem, as águas navegáveis para sempre, e disse:
—
Sigamos em linha reta, reta, reta, outra vez até a Dourada.
Fermina Daza estremeceu,
porque reconheceu a antiga voz iluminada pela graça do Espírito Santo, e olhou o comandante: ele era o destino. Mas o comandante não a viu, porque
estava anonadado pelo tremendo poder de inspiração
de Florentino Ariza.
—
Está dizendo isso a sério? — perguntou.
—
Desde que nasci — disse Florentino Ariza — não
disse uma
única coisa que não fosse a sério.
O comandante olhou Fermina
Daza e viu em suas pestanas os primeiros
lampejos de um orvalho de inverno. Depois olhou Florentino
Ariza, seu domínio invencível, seu amor impávido, e se assustou
com a suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, a que
não tem limites.
—
E até quando acredita o senhor que podemos continuar neste
ir e vir do caralho? — perguntou.
Florentino Ariza tinha a resposta preparada havia cinqüenta e três anos, sete meses
e onze dias com as respectivas noites.
—
Toda a vida — disse.
Nenhum comentário:
Postar um comentário