NO DIA EM QUE Florentino Ariza viu Fermina Daza no adro da catedral, grávida de seis meses e com pleno domínio de sua nova
condição de mulher do mundo, tomou a decisão feroz de ganhar nome e fortuna
para merecê-la. Sequer perdeu
tempo em pensar no inconveniente de ser
ela casada, porque ao mesmo tempo
resolveu, como se dependesse dele, que o doutor Juvenal Urbino tinha que morrer. Não sabia quando nem como, mas estabeleceu como
inelutável o acontecimento, que estava resolvido a esperar sem pressas
nem arrebatamentos, ainda
que fosse até o fim dos séculos.
Começou pelo princípio. Apresentou-se sem
aviso no escritório do tio
Leão XII, presidente da Junta
Diretora e Diretor Geral da Companhia
Fluvial do Caribe, e manifestou a disposição de se submeter ao seus desígnios. O tio estava sentido com ele devido à maneira por que malbaratara o bom emprego de telegrafista na Vila de Leyva, mas se deixou levar por sua convicção
de que os seres humanos não nascem para sempre
no dia em que as mães os dão à luz,
e sim que a vida os obriga
outra vez e muitas vezes a se parirem
a si mesmos.
Além disso, a viúva do irmão
tinha morrido no ano anterior, com os rancores em carne viva mas sem deixar
herdeiros. Por isso deu o emprego ao
sobrinho errante.
Era uma decisão
típica do senhor Leão XII Loayza. Dentro de
sua casca grossa de traficante sem alma, carregava escondido um
lunático genial, que tanto fazia brotar um manancial de limonada
no deserto da Guajira como inundava de pranto um
funeral solene com seu canto
lancinante de In questa tomba oscura. Com seu cabelo crespo e seus beiços de fauno, só lhe faltavam a lira e a coroa de louros
para ser idêntico ao Nero incendiário da mitologia cristã. As horas
que lhe ficavam livres entre a
administração de seus navios decrépitos, ainda flutuantes por pura distração da fatalidade, e os problemas cada dia
mais críticos da navegação fluvial, ele
as consagrava a enriquecer seu repertório
lírico. Nada lhe agradava mais do que cantar em enterros. Tinha uma voz
de galeote, sem nenhuma disciplina acadêmica, mas capaz de registros
impressionantes. Alguém lhe contara
que Enrico Caruso podia fazer um jarro de
flores em pedaços com o simples
poder de sua voz, e durante anos tratou de
imitá-lo até com o vidro das janelas.
Os amigos traziam os jarros mais tênues que
encontravam em viagens pelo mundo, e
organizavam festas especiais para que ele
conseguisse por fim a culminação do seu sonho. Não conseguiu
nunca. Contudo, no fundo do seu trovão havia uma luzinha de ternura que fendia o coração
dos ouvintes
como o grande Caruso as ânforas de cristal,
e era isto que o tornava tão venerável
nos enterros. Com exceção de um, no qual teve a boa idéia de cantar When
I Wake up in Glory, um canto fúnebre
da Luisiana, formoso e aterrador, e foi silenciado pêlo capelão que não conseguiu entender aquela intromissão
luterana dentro da sua igreja.
Assim, entre bises de
ópera e serenatas napolitanas, seu talento
criador e seu invencível espírito de empreendimento
o converteram no prócer da navegação fluvial em sua
época de maior esplendor.
Tinha saído do nada, como os dois
irmãos mortos, e todos chegaram até onde quiseram apesar do estigma
de serem filhos naturais, e
com o agravante de jamais terem sido
reconhecidos. Eram a flor do que então se chamava a aristocracia de balcão,
cujo santuário era o Clube do Comércio.
No entanto, mesmo quando dispôs de recursos para
viver como o imperador romano que
parecia ser, tio Leão XII morava na cidade velha por comodidade de trabalho, com a esposa e três filhos, e de maneira
tão austera e numa casa tão despojada
que nunca conseguiu se livrar de uma injusta reputação de avarento. Mas seu único
luxo era ainda mais simples: uma
casa de mar, a duas léguas dos escritórios, que não tinha como móveis nada além de seis tamboretes
artesanais, a talha de filtrar água e
uma rede na varanda para dormir e pensar aos domingos. Ninguém
o definiu melhor do que ele
próprio quando alguém o
acusou de ser rico:
— Rico não — disse: — sou um pobre com dinheiro, o que não é o mesmo.
Esse curioso modo de ser, que
alguém certa vez elogiou num discurso
como uma demência lúcida, permitiu que
visse na hora o que ninguém via antes nem viu depois em Florentino Ariza. A partir do
momento em que este
se apresentou pedindo emprego nos
seus escritórios, com seu aspecto lúgubre e seus vinte e sete anos inúteis, ele o
pôs à prova na dureza de um regime de
quartel capaz de dobrar
o mais valente. Mas não conseguiu amedrontá-lo.
O que tio Leão XII nunca suspeitou foi que essa
tempera do sobrinho não lhe vinha de
necessidade de subsistir, nem de uma pachorra de bruto herdada do pai,
e sim de uma ambição de amor que
nenhuma contrariedade deste
mundo ou do outro conseguiria desalentar.
Os piores anos foram os primeiros, quando o nomearam
escrevente da Direção Geral, que
parecia um ofício inventado sob medida para
ele. Lotário Thugut, antigo
professor de música do tio Leão XII, foi quem
aconselhou este a nomear o
sobrinho para um emprego de escrever, porque era um consumidor
incansável de literatura a granel,
embora não tanto da boa quanto da pior. Tio Leão XII não fez caso da observação quanto à má classe das
leituras do sobrinho, pois
também dele dizia Lotário Thugut que tinha sido seu pior aluno de canto, e apesar disso fazia chorar até as lápides dos cemitérios. Em todo caso, o alemão teve razão naquilo em que menos
pensara, e era que Florentino Ariza escrevia qualquer coisa com tanta
paixão que até os documentos oficiais pareciam de amor. Os manifestos de embarque lhe saíam rimados por mais que se
esforçasse em evitá-lo, e as cartas comerciais de rotina tinham um sopro lírico que lhe cerceava a autoridade. O tio em pessoa
lhe apareceu um dia no
escritório com um pacote de correspondência
que não tinha tido coragem de assinar como sua, e lhe deu a última oportunidade de salvar a alma.
— Se você não é capaz de escrever uma carta comercial, vai recolher
o lixo do cais
—
disse.
Florentino Ariza aceitou o desafio. Fez um esforço
supremo para aprender a
simplicidade terrena da prosa
mercantil, imitando modelos de arquivos
notariais com tanta aplicação como a que dedicava antes aos poetas da moda. Era essa a época em que passava suas horas livres no Portal dos Escrivães, ajudando os enamorados implumes a escrever suas missivas perfumadas, para
descarregar o coração de tantas
palavras de amor que ficavam dentro
dele por falta de uso nos informes
de alfândega. Mas ao fim de seis meses,
por mais voltas que lhe desse,
não lograra torcer o pescoço do seu cisne empedernido. Por isso, quando o tio Leão XII o repreendeu pela segunda vez, ele se deu
por vencido, mas com uma certa altivez.
—
A única coisa que me interessa é
o amor — disse.
—
O mau — disse o tio — é que sem navegação
fluvial não há amor.
Cumpriu a ameaça de mandá-lo
recolher o lixo no cais, mas lhe deu a palavra de fazê-lo subir passo a passo pela escada do bom serviço até que encontrasse
seu lugar. Assim foi. Nenhuma
espécie de trabalho conseguiu derrubá-lo, por duro ou humilhante que fosse, nem o desmoralizou
a miséria do soldo, nem perdeu por
um instante sua impavidez essencial diante
das insolências dos superiores.
Tampouco foi inocente: todo aquele
que se atravessou em seu caminho
sofreu
as conseqüências de uma determinação arrasadora, capaz de qualquer
coisa, por trás de uma aparência desvalida. Tal como tio Leão XII previra e desejara para que ele
não ficasse sem conhecer qualquer segredo da empresa, passou por todos os cargos em trinta anos de consagração e tenacidade a toda prova. Desempenhou-os todos com uma capacidade admirável, estudando cada fio
daquela urdidura misteriosa que
tanto tinha a ver com os ofícios da poesia, mas sem conseguir a medalha de guerra mais anelada por ele, que era escrever uma carta comercial aceitável: uma só. Sem
propor a si mesmo, sem nem saber,
demonstrou com sua vida a razão que
tinha o pai, que repetiu até o último suspiro
que não havia ninguém com mais sentido
prático, nem pedreiros mais obstinados
nem gerentes mais lúcidos e perigosos do que os poetas. Isso, pelo menos, foi o
que lhe contou o tio Leão XII, que costumava falar-lhe no pai durante os ócios do coração, e que lhe deu dele a idéia mais de um sonhador
que de um empresário.
Contou-lhe que Pio Quinto
Loayza dava aos escritórios um uso mais
prazenteiro que o do trabalho, e os
arranjava sempre para sair de casa aos domingos, a pretexto de que tinha de receber ou despachar um navio.
Mais ainda: tinha feito instalar no
pátio das mercadorias uma caldeira fora de uso, com uma sereia
a vapor que apitava em claves de navegação, para o caso da esposa
estar atenta. Fazendo as contas, tio Leão XII estava certo de que
Florentino Ariza fora concebido em cima
da escrivaninha de algum escritório mal fechado numa tarde de bochorno dominical, enquanto a esposa de seu pai ouvia
em casa os adeuses de um navio que jamais partiu. Quando o
descobriu já era tarde para cobrar a
infâmia, porque o marido estava morto. Sobreviveu a ele muitos anos, destruída pelo azedume de não ter um filho, e
pedindo a Deus em suas orações maldição eterna para o bastardo.
A imagem do pai perturbava Florentino Ariza. A mãe
falava nele como num grande homem
sem vocação comercial, que acabara nos negócios do rio porque o irmão mais velho
fora colaborador muito próximo
do comodoro alemão João B. Elbers,
precursor da navegação fluvial. Eram
filhos naturais da mesma mãe, cozinheira de ofício, que os tivera de homens diferentes, e todos traziam o
sobrenome dela por trás do nome de um Papa
escolhido ao acaso no santoral, salvo
o do tio Leão XII, que era o nome do que
reinava quando ele nasceu. O que se chamava Florentino era o avô materno de todos, por isso o nome chegara até o filho de Trânsito Ariza
saltando por cima de toda uma geração de pontífices.
Florentino conservou sempre um caderno no qual o pai escrevia
versos de amor, alguns inspirados por
Trânsito Ariza, e as folhas estavam adornadas com desenhos de corações
feridos. Duas coisas o surpreenderam. Uma era a personalidade da caligrafia do pai, idêntica à sua, apesar
do fato de que a escolhera por ser a de
que mais gostara entre muitas de um manual.
A outra foi encontrar-se com uma frase que julgava sua, e que o pai escrevera num caderno
muito antes dele nascer: Só me dói morrer se não for de amor.
Tinha visto também os dois últimos retratos do pai.
Um tirado em Santa Fé, muito moço, na idade que ele tinha
quando o viu pela primeira vez, com um sobretudo
que era como estar metido dentro dum urso, e
recostado num pedestal de cuja
estátua só restavam as perneiras
decepadas. A criança ao seu lado era
tio Leão XII com um gorrinho de capitão de navio. Na outra
fotografia aparecia o pai com um grupo de
guerreiros, em quem sabe qual de tantas guerras, e tinha o fuzil maior e uns bigodes cujo cheiro de pólvora
se exalava da imagem. Era liberal e maçom, assim como os irmãos, e no
entanto queria que o filho entrasse para o seminário. Florentino Ariza não achava
que fossem parecidos, mas segundo o
tio Leão XII, também a Pio Quinto criticavam
o lirismo dos documentos. Em todo
caso, nem nos retratos se parecia com ele, não correspondia às suas lembranças
nem à imagem que pintava a mãe,
transfigurada pelo amor, nem à que
dele despintava tio Leão XII com sua graciosa
crueldade. Contudo, Florentino Ariza descobriu a parecença muitos anos depois, enquanto se penteava na frente do espelho,
e só então compreendeu que. Um
homem sabe quando começa a envelhecer porque começa a parecer com o pai.
Não se lembrava dele
na Rua das Janelas. Julgava saber que
por um tempo dormira ali, muito no princípio dos seus amores com Trânsito Ariza, mas que não
tinha tornado a visitá-la depois do seu nascimento. A certidão de batismo
foi durante muitos anos nosso único instrumento válido de identificação, e a de Florentino Ariza,
assentada na paróquia
de
Santo Toríbio, só dizia que
era filho natural de outra filha natural solteira que se chamava Trânsito Ariza. Esta condição social fechou a Florentino Ariza as portas do seminário, mas fez também com que escapasse ao serviço militar na época mais
sangrenta de nossas guerras, por ser filho único
de mãe solteira.
Todas as sextas-feiras depois da escola se sentava na frente dos escritórios da Companhia Fluvial do Caribe, repassando um livro de
estampas de animais tantas vezes repassado que caía aos pedaços. O pai entrava sem olhá-lo, vestido com as sobrecasacas de casimira que Trânsito Ariza devia ajustar depois para ele,
e com uma cara idêntica à do São João Evangelista dos altares. Quando
saía, depois de muitas horas e procurando não ser visto nem
pelo próprio cocheiro, lhe dava
o dinheiro para os gastos de uma semana.
Não se falavam, não só porque
o pai não tentava como porque ele tinha terror do pai. Um dia, depois de esperar
muito mais que de costume,
o pai lhe deu as moedas, dizendo:
— Tome e não volte mais.
Foi a última vez
que o viu. Com o tempo veio a saber
que tio Leão XII, que era uns dez anos mais moço, continuou levando o
dinheiro a Trânsito Ariza, e foi quem se ocupou dela quando Pio Quinto morreu de uma eólica mal tratada, sem deixar nada escrito, e sem
tempo para tomar qualquer
providência em favor do filho único
— um filho da rua.
O drama de Florentino
Ariza enquanto foi calígrafo da Companhia Fluvial do Caribe
era que não podia afastar seu lirismo porque não deixava de pensar em
Fermina Daza, e nunca aprendeu a escrever sem pensar nela. Depois, quando o passaram a outros cargos,
sobrava-lhe tanto amor por dentro que não sabia que fazer com
ele, e dava-o de presente aos enamorados implumes escrevendo para eles cartas de amor gratuitas no Portal dos Escrivães. Para lá ia depois do trabalho. Tirava a sobrecasaca com seus gestos discretos e a pendurava no
espaldar da cadeira, colocava os punhos postiços para não sujar a
camisa, desabotoava o colete para pensar
melhor, e às vezes até muito tarde da
noite reanimava os
desvalidos com umas cartas enlouquecedoras. De vez em quando encontrava uma pobre mulher que tinha um problema com um filho, um veterano
de guerra que insistia em reclamar o
pagamento de sua pensão, alguém que tivera algo roubado e queria fazer queixa ao governo, mas por mais que se esmerasse não podia satisfazê-los, porque
a única coisa com que lograva convencer alguém eram as cartas de amor. Nem mesmo fazia perguntas aos clientes
novos, pois bastava ver o branco do olho deles para ter noção do seu estado,
e escrevia folha após folha de amores desarvorados, mediante a fórmula infalível
de escrever pensando sempre em Fermina
Daza, e nada mais do que nela. No fim do primeiro
mês teve que estabelecer uma ordem
antecipada de reservas, para que não o submergissem as ânsias dos enamorados.
Sua lembrança mais grata daquela época foi de uma mocinha
muito
tímida, quase uma menina, que lhe pediu
tremendo que escrevesse uma resposta a uma carta irresistível que acabava de receber, e que Florentino Ariza
reconheceu como escrita por ele a tarde anterior. Respondeu-a num estilo
diferente, de acordo com a emoção e a idade da menina, e com uma letra que também parecesse
dela, pois sabia fingir uma escrita
para cada ocasião segundo o caráter de
cada qual. Escreveu
imaginando o que Fermina Daza teria respondido a ele se o amasse tanto
quanto aquela criatura desamparada amava seu
pretendente. Dois dias depois, é claro, teve que escrever também a
réplica do noivo com a caligrafia, o estilo e a classe de amor que lhe havia
atribuído na primeira carta, e foi assim
que acabou comprometido numa correspondência
febril consigo mesmo. Antes de um
mês ambos, cada um por seu
lado, foram lhe agradecer o
que ele próprio propusera na carta do
noivo e aceito com devoção na resposta da
garota: iam se casar.
Só quando tiveram o primeiro filho descobriram, numa conversa
casual, que as cartas de ambos tinham
sido escritas pelo mesmo escrivão, e
pela primeira vez foram juntos
ao portal para designá-lo
padrinho do menino. Florentino Ariza se entusiasmou tanto com a prova prática dos seus sonhos
que tirou tempo de onde não
tinha para escrever um Secretário dos Enamorados mais
poético e amplo do que aquele que até então se vendia por vinte centavos nos
portais, e que meia cidade
conhecia de memória. Pôs em ordem as situações imagináveis em que
poderiam se encontrar Fermina Daza e ele, e para
todas escreveu tantos modelos quantas alternativas de ida e
volta lhe pareceram possíveis. No fim teve
umas mil cartas em três tomos
tão quadrados quanto o dicionário de Covarrubias,
mas nenhum impressor da cidade
se arriscou a publicá-los, e
acabaram em
algum desvão da casa, com outros papéis da casa, pois Trânsito Ariza se negou de
plano a desenterrar as botijas para malbaratar
suas poupanças da vida inteira numa loucura editorial. Anos depois, quando
Florentino Ariza teve recursos próprios para
publicar o livro, foi-lhe duro admitir a realidade de que as cartas de amor já tinham passado de moda.
Enquanto ele dava os primeiros passos na Companhia Fluvial
do
Caribe e escrevia cartas grátis no Portal dos Escrivães, os amigos de Florentino Ariza tinham a certeza de
que o perdiam pouco a pouco, sem retorno.
Assim era. Ao voltar da viagem pelo rio ainda via alguns deles
na esperança de atenuar as lembranças
de Fermina Daza, jogava bilhar com eles, foi aos últimos bailes, prestava-se aos azares de ser rifado entre as
moças, prestava-se a tudo que lhe parecesse
bom para voltar a ser o que tinha sido. Depois, quando tio
Leão XII o acreditou como empregado, jogava dominó com os companheiros de escritório no Clube do Comércio, e estes começaram a reconhecê-lo como um dos seus, pois agora ele só lhes falava da empresa de navegação,
que nunca mencionava pelo nome completo
e sim pelas iniciais: a CF.C Mudou até
seus hábitos de comer. De indiferente e irregular que tinha sido até então à mesa, tornou-se regular e austero até o fim dos
seus dias: uma xícara
grande de café puro pela manhã, uma posta
de peixe cozido com arroz branco ao
almoço, e uma xícara de café com leite com um pedaço de
queijo antes de dormir. Tomava
café puro a
qualquer hora, em qualquer lugar
e em qualquer circunstância, e até trinta xicrinhas
por dia: uma infusão que mais parecia petróleo cru, que preferia preparar ele
mesmo e que sempre tinha numa garrafa térmica ao alcance da mão. Era outro, a despeito do seu propósito
firme e seus esforços ansiosos de continuar sendo o mesmo que tinha sido antes do tropeção mortal do amor.
A verdade é
que jamais tornaria a ser. Recuperar Fermina Daza foi o objetivo único de sua vida, e estava tão certo de atingi-lo mais cedo ou mais tarde que convenceu Trânsito Ariza a
prosseguir na restauração da casa para que estivesse
em condições de recebê-la
a qualquer momento em que ocorresse o milagre. Ao contrário de sua reação diante da proposta editorial do Secretário dos Enamorados, Trânsito
Ariza foi então muito mais longe: comprou a casa à vista e
empreendeu a renovação completa. Fizeram uma sala
de recepção do que tinha sido a alcova, construíram no sobrado um quarto de
dormir para os esposos e
outro para os filhos que iam ter, ambos muito amplos e bem iluminados, e no espace da antiga feitoria de tabaco
fizeram um extenso jardim de toda
classe de rosas, no qual Florentino
Ariza em pessoa consagrou seus ócios do
amanhecer. A única coisa que
ficou intacta, como um testemunho de gratidão pelo passado, foi a
loja do
armarinho. A parte de trás, onde dormia Florentino Ariza, foi deixada como sempre estivera, com a rede pendurada e a grande mesa de escrever atulhada de livros em
desordem, mas ele se mudou
para o quarto previsto como
alcova matrimonial no andar de cima.
Era o quarto mais amplo e fresco da casa,
e tinha um terraço interno onde era
agradável estar à noite na brisa do mar
e no vapor dos rosais, mas era também o que correspondia melhor ao rigor trapista de Florentino Ariza. As paredes eram lisas e ásperas, de cal viva, e só tinha como móveis um leito de presidiário,
uma mesinha de cabeceira
com uma vela num gargalo de garrafa, um guarda-roupa antigo e um gomil
d'água em seu prato, ao lado da bacia.
Os trabalhos duraram quase três anos, e coincidiram com um restabelecimento momentâneo da cidade,
devido ao auge da navegação fluvial e ao comércio de passagem, os mesmos fatores que tinham sustentado sua grandeza durante a Colônia e a tinham convertido durante mais de dois séculos
em porta da América. Mas também foi essa a época em que Trânsito Ariza manifestou
os primeiros sintomas de sua enfermidade sem remédio. Suas clientes de sempre vinham cada vez mais velhas ao
armarinho, mais pálidas e fugidias, e ela não as
reconhecia depois de ter
tratado com elas durante meia vida,
ou confundia os assuntos de umas com
os de outras. O que era muito grave em negócios como o seu, nos
quais não se assinavam papéis para proteger a honra, a própria e a alheia, e a palavra de honra
era dada e aceita como
garantia bastante. A princípio pareceu que estava ficando surda, mas em breve ficou evidente que era sua memória
que ia escorrendo pelas goteiras. De modo que liquidou o negócio de penhor, e com o tesouro das botijas
chegou a terminar e mobiliar a casa, e ainda lhe
sobraram muitas das jóias antigas mais prezadas da cidade, pois os donos não tiveram
recursos para resgatá-las.
Florentino Ariza tinha que atender então a demasiados compromissos
ao mesmo tempo, mas nunca lhe fraquejou o ânimo para fomentar seus
negócios de caçador furtivo. Depois da experiência errática com a viúva de Nazaret, que lhe abriu
o caminho dos amores rueiros, continuou caçando as passarinhas órfãs da noite durante vários anos, ainda na ilusão de
encontrar alívio para a dor
que era Fermina Daza. Mas depois não sabia mais dizer se seu costume de
fornicar sem esperanças era uma necessidade da consciência ou simples vício do
corpo. Ia cada vez menos ao hotel
suspeito, não só porque seus interesses
tomavam outros rumos, como também por não gostar de ser visto
ali em andanças diferentes das tão domésticas e castas que já eram
conhecidas a seu respeito. No entanto, em três casos de aperto
apelou para o recurso fácil de uma época
que não tinha vivido: fantasiava de homens as amigas temerosas de serem reconhecidas,
e entravam juntos no hotel com fumaças de pândegos tresnoitados. Não
faltou quem reparasse em pelo menos
duas das ocasiões em que ele
e o suposto acompanhante não iam ao bar e sim ao quarto, e a reputação já bastante alquebrada de Florentino Ariza sofreu o golpe de misericórdia.
Afinal deixou de ir, e as
pouquíssimas vezes em que ainda o fez não eram para que ele pusesse em dia
os atrasos, e sim pelo
contrário: buscando um refúgio para
se recompor dos excessos.
Não era para menos. Nem bem tinha saído do escritório, por volta das cinco da
tarde, e já andava em suas volatarias
de
gavião frangueiro. No princípio
se conformava com o que a noite lhe oferecia. Recolhia criadas nos parques, negras no mercado,
morenas nas praias, gringas nos navios de Nova
Orleans. Levava-as aos diques, onde metade da
cidade fazia o mesmo desde o
pôr-do-sol, levava-as para onde
podia, e às vezes onde não podia, pois
não foram poucas as ocasiões em que
teve que se meter às carreiras num saguão
escuro e fazer o que fosse possível, do jeito possível, atrás da porta.
A torre do farol
foi sempre um refúgio afortunado
que ele evocava com saudade quando já
tinha tudo resolvido nos albores da velhice, porque era um lugar
bom para
ser feliz, sobretudo de noite,
e achava que algo dos seus amores
daquela época chegava aos navegantes a cada
volta do feixe de luz. De maneira que continuou indo lá, mais
do que a qualquer outra parte,
enquanto seu amigo faroleiro o
recebia encantado, com uma cara de bobo que era o melhor atestado de discrição
para as passarinhas assustadas.
Havia uma casa embaixo, junto ao estrondo das ondas estourando contra os alcantis, onde o amor era mais intenso, porque tinha alguma coisa de naufrágio. Mas Florentino Ariza preferia
a torre da luz depois de cair
a noite,
porque se divisava a cidade inteira e a esteira de luzes dos pescadores do mar, e mesmo
dos pântanos distantes.
Vinham dessa época suas
teorias um tanto simplistas
sobre a relação entre o físico das mulheres
e suas aptidões para o amor. Desconfiava do tipo
sensual, as que pareciam capazes de comer cru um jacaré-açu, e que costumavam ser as mais passivas na cama. Seu tipo era
o contrário: essas rãzinhas sumidas,
que ninguém se dava ao trabalho de olhar
duas vezes na rua, que pareciam
reduzidas a nada quando tiravam a roupa, que davam
pena porque seus ossos rangiam ao primeiro impacto, e que no entanto podiam deixar pronto para a lata do lixo o maior dos gargantas.
Tinha tomado notas dessas observações prematuras com a intenção de escrever um suplemento prático do Secretário dos Enamorados, mas o projeto
sofreu a mesma sorte do anterior
depois que Ausência Santander o revirou pelo direito e o avesso com sua
sabedoria de cachorro velho, o aparou de cabeça, levantou e abaixou, pariu- o como novo, fez em tiras
seus virtuosismos
teóricos, e lhe ensinou a única coisa que tinha que aprender para o amor: que à vida ninguém ensina.
Ausência Santander tinha tido um casamento convencional durante
vinte anos, do qual lhe
ficaram três filhos que por sua vez tinham casado e tido filhos, de
modo que ela se prezava de
ser a avó com a melhor cama da cidade. Nunca ficou claro se
foi ela que abandonou o
marido, ou se foi este que a
abandonou, ou se ambos se abandonaram ao mesmo tempo quando ele foi morar
com sua amante de sempre, e ela se sentiu livre para receber em pleno dia pela porta principal Rosendo de La
Rosa, comandante de navio fluvial, a quem
recebera de noite muitas vezes
pela porta traseira. Foi ele
mesmo, sem pensar duas vezes, quem
levou lá Florentino Ariza.
Levou-o para almoçar.
Levou além dele um garrafão de aguardente caseira e os ingredientes de melhor
qualidade para uma panelada épica, como só era possível com galinhas de quintal, carne de osso mole, porco de monturo
e os legumes e hortaliças dos
povoados do rio. No entanto,
Florentino Ariza não se mostrou
entusiasmado desde o primeiro momento com
as excelências da cozinha, nem com
a exuberância da dona, e sim com a beleza
da casa. Gostou da
casa em si mesma, luminosa e fresca, com quatro
janelas grandes abertas ao mar, e no fundo a vista completa da cidade
antiga. Gostou da quantidade e esplendor das coisas, que davam à sala um aspecto confuso e ao mesmo tempo
rigoroso, com toda classe de primores
artesanais que o comandante Rosendo de Ia
Rosa tinha ido trazendo de cada
viagem até que não havia mais lugar para
um que fosse. No terraço do mar, parada
em seu aro privado, havia uma cacatua
da Malásia com uma plumagem de uma brancura inverossímil e uma quietude pensativa que dava
muito que pensar: o bicho mais
formoso que Florentino Ariza jamais
vira. O comandante Rosendo de Ia Rosa
se entusiasmou
com o entusiasmo do convidado, e lhe contou em detalhe a
história de cada coisa. Enquanto isso, bebia
aguardente a goles curtos mas sem trégua.
Parecia de cimento armado: enorme, peludo de corpo inteiro com exceção da
cabeça, com um bigode de
vasta broxa e uma voz de cabrestante que só a ele podia
pertencer, e de uma gentileza
requintada. Mas não havia corpo capaz de resistir ao seu modo de beber.
Antes de se sentar à mesa tinha acabado com metade do garrafão, e caiu de bruços em
cima da bandeja de copos e garrafas com um lento estrépito
de demolição. Ausência Santander
precisou pedir a ajuda de Florentino
Ariza para arrastar até a cama o
corpo inerte de baleia encalhada, e para despi-lo adormecido. Em seguida, num clarão de inspiração que os dois agradeceram à conjunção de seus astros,
se despiram ambos no quarto do lado sem
se porem de acordo, sem sequer uma sugestão, sem uma proposta, e continuaram se despindo
sempre que podiam durante mais de sete anos, quando o
comandante estava de viagem. Não havia riscos de surpresas, porque ele tinha
o costume de bom navegante de avisar
sua chegada ao porto com a sereia do
navio, mesmo de madrugada, primeiro com três bramidos
grandes para a esposa e seus nove filhos,
e depois com dois entrecortados e
melancólicos para a amante.
Ausência Santander tinha quase cinqüenta anos, e se notava, mas tinha também um instinto tão pessoal para o amor que não havia teorias
artesanais nem científicas capazes de amortecê-lo.
Florentino Ariza sabia pelos itinerários dos navios quando podia visitá-la, e
sempre ia sem se anunciar na hora que quisesse
do dia ou da noite, e não houve uma só vez em que
ela não o estivesse esperando. Abria a porta como a mãe a criou até os sete anos: nua
em pêlo, mas com um laço
de organdi na cabeça. Não deixava que ele desse um passo mais
antes de lhe tirar a roupa, pois sempre achou que dava azar ter um homem vestido
dentro de casa. Isto foi causa
de discórdia constante com o
comandante Rosendo de Ia Rosa, porque
ele tinha a superstição de que fumar
nu era de mau agouro, e às vezes preferia atrasar o amor do que apagar
seu infalível charuto cubano. Em compensação, Florentino Ariza era muito dado aos
encantos da nudez, e ela tirava a roupa dele com invariável
deleite mal a porta se fechava, sem lhe dar
sequer tempo de cumprimentá-la,
nem de tirar
o chapéu ou os óculos, beijando-o e
deixando-se beijar com beijos desenfreados, e soltando-lhe os botões de baixo para
cima, primeiro os da braguilha,
um por um depois de cada beijo, depois a fivela do
cinto, e por último o colete e
a camisa, até deixá-lo como um peixe
que se fende ao meio. Depois o sentava na sala e lhe tirava
as botas, puxava-lhe a calça pelos pernis para
que saísse ao mesmo tempo que as ceroulas, e por último desprendia as ligas de elástico da barriga da perna e lhe tirava as meias. Florentino Ariza parava
então de beijá-la e de se deixar
beijar para fazer a única coisa que lhe competia
naquela cerimônia pontual: soltava o
relógio de corrente da botoeira do colete e tirava os óculos, e
enfiava ambos nas botas para ter
certeza de não esquecê-los. Sempre tomava essa precaução, sempre, sem falta, quando se desnudava em casa alheia.
Mal acabava de fazê-lo
e ela já o assaltava sem dar tempo
de nada, no próprio sofá onde acabava de desnudá-lo, e só de vez em
quando na cama. Metia-se debaixo dele, e se apoderava dele todo para ela,
encerrada dentro de si mesma,
tateando com os olhos fechados
em sua
absoluta escuridão interior, avançando por aqui, retrocedendo,
corrigindo seu rumo invisível, tentando outra via mais
intensa, outra forma de andar sem
naufragar no alagado de mucilagem
que fluía do seu ventre, se perguntando e se respondendo a si mesma com um
zumbido de varejeira em seu jargão
nativo onde ficava essa alguma coisa
nas trevas que só ela conhecia e ansiava só para ela,
até que sucumbia sem esperar ninguém, se desbarrancava só em seu abismo com uma explosão jubilosa de vitória total que fazia tremer o mundo. Florentino Ariza ficava exausto, incompleto, flutuando no charco dos
suores de ambos, mas com a impressão de
não passar de um instrumento
de
gozo. Dizia: "Você me trata como se eu fosse um a mais." Ela dava uma risada de fêmea livre, e dizia: "Pelo contrário: como se você fosse
um a menos." E ele ficava com a impressão de
que ela ficava com tudo, com uma voracidade mesquinha, e o orgulho se rebelava
e saía da casa com a determinação de não voltar mais. Mas logo
acordava sem motivo, com a
lucidez tremenda da solidão no meio da noite, e a lembrança do amor ensimesmado de Ausência Santander lhe aparecia como aquilo que era: uma armadilha da felicidade que o entediava e atraía ao mesmo tempo, mas da qual
era impossível escapar.
Um certo domingo, dois anos depois de se haverem
conhecido, a primeira coisa que ela fez quando ele
chegou, em lugar de despi-lo, foi tirar os óculos dele
para melhor beijá-lo, e desse modo Florentino Ariza soube que ela
começara a gostar dele. Apesar de se
sentir tão bem desde o primeiro dia naquela
casa que já amava como sua, jamais
permanecera mais de duas horas de cada
vez, nunca para dormir, e só uma vez para
comer, por ter recebido dela convite formal. Lá só ia na realidade para o
que ia, trazendo sempre o presente único de uma rosa solitária, e desaparecia até a seguinte ocasião imprevisível. Mas no
domingo em que ela lhe tirou os óculos para beijá-lo, em parte por isso, e em
parte porque ficaram dormindo
depois de um amor repousado, passaram a tarde
nus na enorme cama do comandante.
Ao despertar da sesta, Florentino
Ariza conservava ainda a lembrança dos grasnidos da cacatua, cujos
metais estridentes iam no sentido contrário da
sua beleza. Mas o silêncio era diáfano no calor das quatro, e pela janela do quarto se
via o perfil da cidade
antiga com o sol da tarde
nas costas, suas cúpulas
douradas, seu mar de chamas
até a Jamaica. Ausência Santander estendeu a mão aventureira buscando às tontas
o animal jacente, mas Florentino Ariza a afastou.
Disse: "Agora não:
sinto uma
coisa esquisita, como se estivessem
nos vendo." Ela tornou a alvoroçar a cacatua com seu riso feliz.
Disse: "Esse pretexto nem a mulher
de Jonas engole."
Tampouco ela, diga-se logo, mas o admitiu como válido, e ambos se amaram durante longo tempo em silêncio sem repetir
o amor. Às cinco, com o sol ainda alto, ela se levantou da cama, nua
até a eternidade
e com o laço de organdi
na cabeça, e foi à cozinha buscar
alguma coisa de beber. Mas não chegou
a dar um passo fora do quarto
quando lançou um grito de espanto.
Não conseguia acreditar.
Os únicos objetos que restavam na casa eram as luzes fixas. Os demais, os móveis
assinados, os tapetes indianos, as estátuas e os gobelinos, as miudezas incontáveis de pedrarias e metais preciosos, tudo
quanto tinha feito de sua casa
uma das
mais aprazíveis e bem guarnecidas da cidade,
tudo, até a cacatua sagrada, tudo se havia
evaporado. Tudo carregado pelo terraço marinho sem perturbar o amor. Só ficaram os salões desertos com quatro janelas abertas, e um letreiro a broxa grossa na parede do
fundo: Isto acontece a vocês
por andarem trepando. O comandante Rosendo de
Ia Rosa jamais compreendeu por que Ausência Santander não denunciou a
pilhagem, nem tentou estabelecer qualquer contato com os
traficantes de coisas roubadas, nem permitiu que se tornasse a falar de sua desgraça.
Florentino Ariza continuou a visitá-la na casa saqueada,
cujo mobiliário ficou reduzido a três tamboretes de couro que os ladrões esqueceram na cozinha, e ao quarto de dormir onde eles estavam. Mas veio com menos
freqüência do que antes, não
pela desolação da casa, como supôs e
disse ela, e sim pela novidade do bonde de
burros em princípios do novo
século, que foi para ele um ninho
pródigo e original de passarinhas
soltas. Tomava-o quatro vezes por dia, duas para ir ao escritório e duas para
voltar para casa, e às vezes enquanto lia de verdade e na maioria das vezes
fingindo ler, conseguia estabelecer pelo
menos os primeiros contatos para um
encontro posterior. Mais tarde, quando tio Leão XII pôs à sua disposição um carro puxado por
duas mulinhas pardas de gualdrapas douradas, iguais às do presidente Rafael Núnez, sentiria saudades dos tempos do bonde como os mais fecundos de suas andanças de falcoeiro. Tinha razão: não havia pior inimigo dos amores
secretos do que um carro esperando na porta. Tanto assim
que quase sempre o deixava escondido em casa
e ia a pé em suas rondas de altanaria,
para não deixar sequer o sulco
das rodas no pó. Por isso evocava com tanta saudade o velho bonde com seus burros macilentos, roídos
de peladuras, dentro do qual bastava um olhar de soslaio para
saber onde estava o amor. Contudo, entre tantas lembranças
enternecedoras, não conseguia afastar
a de uma passarinha desamparada cujo nome
nunca soube e com a qual apenas
conseguiu viver uma metade frenética de noite, mas que tinha
bastado para lhe deixar pelo resto da vida
um travo amargo nas desordens
inocentes do carnaval.
Tinha chamado sua atenção
no bonde pela impavidez com que viajava em meio ao escândalo da pândega pública. Não devia
ter mais de vinte anos, e não
parecia com ânimo de carnaval, a menos que estivesse fantasiada
de inválida: tinha o cabelo muito claro, comprido e liso, solto ao natural s*obre os ombros, e
usava uma túnica de pano ordinário sem nenhum enfeite. Estava alheia
por completo ao rodopio da música das
ruas, aos punhados de pó-de-arroz, aos jorros de anilina
que atiravam aos passageiros do bonde em
marcha, cujos burros iam brancos de polvilho
e com chapéus de flores durante
aqueles três dias de loucura.
Aproveitando-se da confusão, Florentino Ariza a convidou a
tomar um sorvete, pois não achou
que desse para mais. Ela o olhou sem surpresa. Disse: "Aceito
com muito prazer, mas lhe aviso
que estou louca." Ele riu do gracejo, e a levou para assistir ao desfile de carros da sacada da
sorveteria. Enfiou depois um dominó alugado, e ambos se meteram na ronda de bailes da Praça da Alfândega, e se divertiram juntos como
noivos acabados de nascer, pois a
indiferença dela foi parar no extremo contrário no fragor da noite:
dançava feito uma profissional, e era imaginativa e audaz para a pândega, e de um encanto arrasador.
— Você nem sabe
a encrenca em que se meteu comigo
— gritava morta de rir na febre do carnaval. — Sou uma louca de hospício.
Para Florentino Ariza, aquela era uma noite de
regresso aos desmandos cândidos da adolescência,
quando o amor ainda não o havia desgraçado. Mas sabia, mais por escarmento que
por experiência, que uma felicidade
tão fácil não podia durar muito tempo. Por isso é que antes que a noite começasse a decair, como sempre
acontecia depois da distribuição dos
prêmios às melhores fantasias, propôs
à moça que fossem contemplar
o amanhecer no farol. Ela aceitou agradecida,
mas depois que acabassem de distribuir
os prêmios.
Florentino Ariza ficou com a certeza de que aquela demora lhe salvou a vida. Com efeito,
a moça tinha feito um sinal de que fossem
para o farol, quando dois
cérberos e uma enfermeira do manicômio da Divina Pastora lhe caíram em cima.
Estavam à procura dela desde que tinha fugido às três da tarde, não só eles como
toda a força pública. Tinha decapitado um guarda e ferido com gravidade outros dois com um
facão arrebatado ao jardineiro, porque queria sair para brincar no carnaval. Mas ninguém imaginou que estivesse dançando na
rua, e sim escondida em alguma das
tantas casas onde tinham revistado até as cisternas.
Não foi fácil
prendê-la. Defendeu-se com tesouras de podar que tinha escondidas no corpinho, e
foram necessários seis homens para pôr-lhe a camisa-de-força, enquanto a
multidão apinhada na Praça da Alfândega
aplaudia e assobiava de júbilo, pensando que a captura sangrenta era
uma das
farsas do carnaval. Florentino
Ariza ficou desarvorado, e na Quarta-Feira de
Cinzas, foi pela primeira vez
à rua da Divina Pastora com uma caixa de
bombons ingleses para ela. Ficava olhando as reclusas que lhe gritavam toda sorte de impropérios
e piadas pelas janelas, enquanto ele as alvoroçava com a caixa de bombons para ver se tinha a
sorte de fazer com que ela assomasse também às barras de ferro. Mas
nunca a viu. Meses depois, ao saltar do bonde
de
burro, uma meninazinha que estava com o pai lhe
pediu um dos chocolates da caixa que carregava na mão. O pai ralhou com ela e
pediu desculpas a Florentino Ariza. Mas ele deu
a caixa completa à menina achando que
aquele gesto o redimia de todo amargor, e acalmou o papai com um
tapinha no ombro.
— Eram para um amor que foi para o caralho — segredou-lhe.
Como compensação do destino, foi também no bonde de burro que Florentino Ariza conheceu Leona Cassiani, que foi a verdadeira mulher da sua vida,
embora nem ele nem ela jamais o soubessem, ou jamais fizessem o
amor. Ele a sentiu antes de vê-la quando voltava a casa no bonde das cinco: foi um olhar material que tocou nele
como se fosse um dedo. Ergueu a
vista e a viu, no extremo oposto, mas muito bem definida entre os outros
passageiros. Ela não desviou o olhar. Pelo contrário: manteve-o com tamanho
descaramento que ele não podia pensar
senão o que pensou: negra, jovem e
bonita, mas puta sem sombra de dúvida. Descartou-a da sua vida,
porque não podia conceber nada mais indigno do
que pagar pelo amor: não o fez nunca.
Florentino Ariza saltou na Praça dos Carros, que era o
ponto final dos bondes, escafedeu-se a toda pressa pelo labirinto do comércio porque a mãe o esperava às seis, e quando saiu do outro lado da multidão
ouviu ressoarem os saltos de mulher
alegre nas pedras, e se voltou para olhar e para se convencer do que já sabia: era ela. Estava vestida
como as escravas das estampas, com uma saia rodada que levantava com um
gesto de dança para passar sobre as poças da rua, um
decote que deixava os ombros descobertos, um maço de colares de cor e um
turbante branco. Ele as conhecia do hotel suspeito. Sucedia amiúde que às seis da tarde ainda estavam só com o café da manhã, e então o único recurso que lhes restava era usar o
sexo como um punhal de salteador de estrada, e o colocavam contra a garganta do primeiro que encontrassem na rua: a
piroca ou a vida. Em busca de uma prova final,
Florentino Ariza mudou de direção,
meteu-se pela ruela deserta do Candeeiro,
e ela o seguiu cada vez mais de perto. Então ele parou, se virou, fechou a passagem dela apoiado no guarda-chuva com as duas mãos. Ela ficou firme na frente dele.
—
Você se enganou, linda —
disse ele: — eu não dou.
—
Claro que sim — disse ela: —
vê-se na sua cara.
Florentino Ariza se lembrou
de uma
frase que ouvira menino do médico da
família, seu padrinho, a
propósito da sua prisão de ventre
crônica: "O mundo está dividido entre os que cagam bem e os que
cagam mal." Sobre esse dogma o
médico elaborara toda uma teoria do caráter, que considerava mais certeira do que a astrologia. Mas com as lições dos anos, Florentino Ariza a formulou de
outro modo: "O mundo está dividido entre os que trepam e os que não
trepam." Desconfiava dos últimos: quando
saíam dos trilhos, era para eles
tão insólito que alardeavam o
amor como se tivessem acabado de
inventá-lo. Os que o faziam amiúde, em
compensação, viviam só para isso.
Sentiam-se tão bem que se comportavam
como sepulcros lacrados, por saberem que da discrição
dependia sua vida. Nunca falavam de suas proezas,
não confiavam em ninguém, bancavam os
distraídos até o ponto de ganharem fama
de impotentes, de frígidos, e sobretudo de maricás tímidos, como era o caso de Florentino Ariza. Mas se compraziam no equívoco, porque o equívoco
também os protegia. Eram uma loja maçônica hermética, cujos sócios se reconheciam entre si no mundo inteiro, sem necessidade de um idioma
comum. Daí o fato de Florentino
Ariza não se surpreender com a
resposta da moça: era uma dos seus,
e portanto sabia que ele sabia
que ela sabia.
Foi o erro da sua vida, tal como sua consciência ia fazer com
que se lembrasse a cada hora de cada dia, até o último dia. Ela não queria lhe suplicar amor, menos ainda amor pago, e sim um emprego no que fosse, qualquer que fosse e
com o salário que fosse?, na Companhia Fluvial do Caribe. Florentino Ariza ficou tão
envergonhado com sua própria conduta que a levou ao chefe
do pessoal, e este lhe deu
um posto de ínfima categoria na seção geral, que ela desempenhou com seriedade, modéstia e
consagração durante três anos.
Os escritórios da C.F.C.
estavam desde sua fundação diante do cais fluvial,
sem nada em comum com o porto dos transatlânticos no
lado oposto da baía, nem com o atracadouro do mercado na baía das Animas. Era um edifício
de madeira com telhado de zinco de
duas águas, um único balcão grande com colunas na fachada e várias
janelas com telas de arame nos quatro
costados, das quais se viam completos os navios no cais como quadros
pendurados na parede.
Quando o construíram, os precursores alemães pintaram de vermelho
o zinco dos telhados e de branco brilhante os tabiques de madeira, de maneira que o próprio edifício
tinha algo de navio fluvial. Mais tarde pintaram-no todo de azul, e pelos tempos em que Florentino Ariza começou a trabalhar
na empresa era um galpão poeirento sem cor definida, e nos telhados oxidados
havia emendas de folhas de
zinco novas sobre as folhas originais.
Por trás do edifício, num pátio de caliça cercado de tela de galinheiro,
havia dois armazéns amplos de construção
mais recente, e no fundo havia um
desaguadouro fechado, sujo e
fedorento, onde apodreciam os despejos de meio século de navegação fluvial: escombros de navios históricos,
desde os primitivos de uma só chaminé,
inaugurados por Simão Bolívar, até alguns tão recentes que já tinham
ventiladores elétricos nos camarotes. Tinham sido em sua maioria
desmantelados para a utilização dos
materiais em outros navios, mas muitos estavam
em tão bom estado que parecia possível
dar-lhes uma mão de pintura e botá-los para navegar, sem espantar as iguanas nem derrubar as árvores de grandes
flores amarelas que os faziam mais nostálgicos.
No andar de cima do edifício ficava a seção administrativa, em escritórios pequenos mas cômodos e bem
aparelhados, como os camarotes dos
navios, pois não tinham sido feitos por
arquitetos civis e sim por engenheiros navais. No fim do corredor, como mais um empregado, despachava o tio Leão XII num escritório igual a todos, com a única
diferença de que ele encontrava pela manhã em sua secretária
um jarro de vidro com alguma espécie de
flores de cheiro bom. No andar
de baixo ficava a seção de passageiros, com uma sala de espera de bancos rústicos e um balcão
para a emissão de passagens e o
manuseio de bagagens. No fim de tudo
ficava a confusa seção geral,
cujo mero nome dava uma idéia do vago de
seus atributos, e onde morriam de má morte os problemas que permaneciam
por resolver
no resto da empresa. Ali
estava Leona Cassiani, perdida atrás
de uma
carteira escolar entre um montão
de sacos de milho arrumados e
papéis sem solução, no dia em que
o tio Leão XII em pessoa foi ver que diabo lhe ocorreria para fazer
com que a seção geral servisse para alguma coisa. Ao fim de três horas de perguntas, de suposições
teóricas e averiguações concretas com todos os
empregados em plenário, voltou
ao seu escritório atormentado pela
certeza de não haver encontrado nenhuma solução
para tantos problemas, e sim o contrário: novos e variados problemas para solução nenhuma.
No dia seguinte, quando Florentino
Ariza entrou no seu escritório, encontrou um memorando de Leona Cassiani, com o pedido
de
que o estudasse e mostrasse em seguida a seu tio, se lhe parecesse pertinente. Era a única que
não tinha dito uma palavra durante a inspeção da
tarde anterior. Mantivera-se de propósito em sua digna
condição de empregada por caridade,
mas no memorando fazia notar que não o fizera por negligência e sim por respeito às hierarquias da seção. Era de uma simplicidade
alarmante. Tio Leão XII propusera uma reorganização
a fundo, mas Leona Cassiani pensava o contrário, pela lógica simples de que a seção geral não existia na
realidade: era a lixeira dos
problemas encrencados mas insignificantes que as outras seções passavam adiante. A solução,
em conseqüência, era eliminar a
seção geral, e devolver os problemas para serem resolvidos em suas seções de origem.
Tio Leão XII não tinha a menor idéia de quem era Leona Cassiani nem recordava ter visto alguém que pudesse ser ela na reunião da tarde anterior, mas
quando leu o memorando chamou-a ao seu escritório e conversou com ela a portas fechadas durante duas horas.
Falaram um pouco de tudo, de
acordo com o método que ele usava para
conhecer as pessoas. O memorando era de
simples senso comum, e a solução
deu, com efeito, o resultado
apetecido. Mas isso não importava para tio
Leão XII: importava ela. O que mais lhe
chamou a atenção foi que seus únicos estudos depois do primário tinham sido na Escola de Chapelaria. Além disso, estava
aprendendo inglês em casa por um rápido
método sem mestre, e há
três meses tinha aulas noturnas de datilografia, um ofício moderno de grande
futuro, como antes se dizia do
telégrafo e se dissera antes das máquinas a vapor.
Quando saiu da entrevista
já tio Leão XII tinha começado a chamá-la como a chamaria sempre: xará Leona.
Resolvera eliminar de uma penada a seção conflituosa e repartir os problemas de maneira a que fossem resolvidos
pelos mesmos que os criavam, de acordo
com a sugestão de Leona Cassiani, e inventara para ela
um posto sem nome e sem
funções específicas, que na prática era o de assistente pessoal sua. Essa tarde, depois do enterro
sem flores
da seção geral, tio Leão XII
perguntou a Florentino Ariza de onde
havia tirado Leona Cassiani, e ele respondeu
com a verdade.
— Pois volte ao bonde e me traga
todas as que encontrar como esta —
disse o tio.
— Com
mais duas ou três assim botamos o seu galeão
a flutuar.
Florentino Ariza entendeu isso como uma piada típica de tio Leão XII, mas no dia seguinte
se viu sem o carro que lhe haviam designado seis meses
antes, e que agora lhe tiravam
para que continuasse buscando talentos ocultos
nos bondes. Leona Cassiani, por sua parte, perdeu em breve seus escrúpulos
iniciais, e tirou de dentro de si tudo
que tinha guardado com tanta astúcia
nos primeiros três anos. Em três mais abarcara
o controle de tudo, e nos
quatro seguintes chegou às portas da secretaria geral, mas se negou a entrar porque estava apenas um escalão abaixo de Florentino Ariza. Até então tinha estado sob suas ordens, e queria continuar estando, embora a realidade fosse outra: o próprio Florentino Ariza não se
dava
conta de que era ele quem estava
debaixo das ordens dela. Assim era: ele não fizera mais do que cumprir o que ela sugeria
na Direção Geral para ajudá-lo a subir contra os ardis de seus inimigos ocultos.
Leona Cassiani tinha um
talento diabólico para manejar
segredos, e sempre
sabia estar onde devia no momento
justo. Era dinâmica, silenciosa, de uma doçura
sábia. Mas quando era indispensável, com a dor na alma, soltava as rédeas a um caráter de ferro maciço. Contudo, nunca o usou para si mesma.
Seu único objetivo foi varrer a escada a qualquer preço, com sangue se não havia outro jeito, para que
Florentino Ariza subisse até onde se havia
proposto sem calcular muito bem a própria força. Ela teria feito
o mesmo de qualquer maneira, é
claro, por sua indomável vocação de poder, mas a verdade é que o fez de forma consciente
e por pura gratidão. Era tal sua determinação
que o próprio Florentino Ariza se perdeu em seus manejos,
e num momento de pouca sorte procurou fechar-lhe o
caminho pensando que ela procurava fechar o dele. Leona Cassiani colocou-o .em seu lugar.
—
Não se engane — disse. — Eu me afasto
de tudo isso quando você quiser, mas pense bem antes.
Florentino Ariza, que na Verdade não tinha
pensado bem, pensou então o melhor que
pôde, e lhe entregou suas armas. O certo é que em meio àquela
guerra sórdida dentro de uma empresa em crise perpétua, em meio a seus
desastres de falcoeiro sem sossego
e à ilusão cada vez mais incerta de Fermina
Daza, o
impassível Florentino Ariza não tivera um
instante de paz interior
diante do espetáculo fascinante
daquela negra brava besuntada de merda
e de amor na febre da peleja.
Tanto assim que muitas vezes lamentou em segredo
que ela não tivesse sido na realidade o que ele
acreditava que fosse na tarde em que a conheceu,
para
ter limpado o traseiro com seus
princípios e ter feito o amor
com ela ainda que pago com pepitas de ouro vivo. Pois Leona Cassiani continuava sendo igual à
daquela tarde no bonde, com as mesmas
roupas de roceira espaventosa,
seus turbantes loucos, seus brincos e
pulseiras de osso, seu maço de colares
e seus anéis de pedras falsas em todos os dedos: uma leoa de rua. O muito
pouco que os anos lhe haviam
acrescentado por fora era para seu bem. Navegava numa maturidade esplêndida, seus
encantos de mulher eram mais inquietantes, e seu ardoroso
corpo de africana se ia fazendo mais denso com a madureza.
Florentino Ariza não tinha tornado a se
insinuar em dez anos, pagando assim
a dura penitência do erro original, e
ela o ajudara em tudo, menos nisso.
Uma noite em que
ficou trabalhando até muito tarde,
como fazia com freqüência depois da morte
da mãe, Florentino Ariza já saía
quando viu luz no escritório de Leona
Cassiani. Abriu a porta sem bater, e ali estava: só no escritório, absorta, séria, com uns óculos
novos que lhe davam um
semblante acadêmico. Florentino Ariza constatou com um pavor ditoso que estavam os dois sós na casa, estavam os cais desertos, a cidade adormecida, a noite eterna no mar
tenebroso, o bramido triste de um navio
que ainda levaria mais de uma hora a chegar. Florentino Ariza se apoiou no guarda-chuva com as duas mãos, tal como havia feito na ruela do Candeeiro para lhe fechar o caminho, só que agora o fazia para não
demonstrar a desarticulação dos joelhos.
—
Diga-me uma coisa, leoa de minh'alma
— disse: — quando vamos sair disto?
Ela tirou os óculos sem surpresa, com um domínio absoluto, e o
deslumbrou com seu riso solar. Nunca o chamara de você.
—
Ai, Florentino Ariza — disse — estou há dez anos sentada aqui esperando que
você me pergunte. Era tarde: a ocasião ia com ela no bonde de burro,
tinha estado
sempre com ela na mesma cadeira em que estava sentada, mas agora tinha ido para
sempre. A verdade era que
depois de tantas cachorradas
subterrâneas que tinha feito por
ele, depois de tanta sordidez suportada para
ele, ela se adiantava na vida e estava muito para
lá dos vinte anos de idade que
ele tinha de vantagem: tinha envelhecido para
ele. Ela o queria tanto que em vez de
enganá-lo, preferiu continuar no seu amor
por ele ainda que tivesse que fazê-lo saber disso de uma forma brutal.
—
Não — disse a ele. — Eu me sentiria como se estivesse
indo para a cama com o filho que nunca tive.
Florentino Ariza guardou em si o espinho de que
não tivesse sido sua a última
palavra. Pensava que quando uma mulher
diz que não, está esperando que insistam com ela antes de
tomar a decisão final, mas com ela era diferente: não podia brincar com o
risco de se equivocar uma segunda
vez. Retirou-se de boa vontade, e mesmo com uma
certa graça que não lhe era
fácil manter. A partir dessa noite, qualquer
sombra que pudesse haver entre eles se dissipou sem ressentimento, e
Florentino Ariza compreendeu por fim que
se pode
ser amigo de uma
mulher sem ir para a cama com ela.
Leona Cassiani foi o
único ser humano a quem Florentino
Ariza esteve tentado a revelar o
segredo de Fermina Daza. As poucas pessoas que o conheciam
começavam a esquecê-lo por motivo de força maior. Três delas o haviam levado
consigo para o túmulo sem
dúvida nenhuma: sua mãe, que desde muito antes de morrer
já o havia apagado da memória; Gala Placídia, morta de boa velhice a serviço da que
lhe foi quase uma filha; e a inesquecível Escolástica Daza, a que lhe havia levado dentro de um livro
de missa
a primeira carta de amor que
recebeu na vida, e que não podia mais estar viva depois de tantos anos. Lorenzo Daza, de
quem não se sabia então se vivia ou estava morto, podia tê-lo revelado à irmã Franca de Ia Luz procurando evitar a expulsão, mas era pouco provável que
o houvessem divulgado. Restava contar
onze telegrafistas da província longínqua de Hildebranda
Sánchez, que tinham manipulado telegramas com seus
nomes completos e endereços
exatos, e ainda Hildebranda Sánchez e sua corte
de primas indômitas.
O que Florentino Ariza ignorava era que o doutor Juvenal
Urbino devia ser incluído na conta.
Hildebranda Sánchez lhe havia
revelado o segredo em algumas de suas tantas
visitas dos primeiros anos. Mas o fez de forma tão
casual e num momento tão inoportuno que, ao contrário do que ela pensou, não entrou por um ouvido do
doutor Urbino e saiu pelo outro, pois não entrou por ouvido nenhum. Hildebranda, na verdade, tinha
mencionado Florentino Ariza como um dos
poetas escondidos que segundo ela tinham
possibilidades de ganhar os Jogos
Florais. O doutor Urbino teve de fazer um esforço para
se lembrar quem era, e
ela lhe disse sem que fosse
indispensável mas sem um pingo
de malícia que ele fora
o único noivo que Fermina Daza tinha
tido antes de se casar. Falou convencida de que
se tratara de algo tão inocente e efêmero
que era mais comovente do que
outra coisa qualquer. O doutor Urbino respondeu
sem olhá-la: "Não
sabia que esse sujeito era poeta." E o apagou da memória no mesmo
instante, entre outras coisas porque sua
profissão o acostumara a um manejo
ético do esquecimento.
Florentino Ariza observou que os depositários do segredo, com exceção de sua mãe,
pertenciam ao mundo de Fermina Daza. No seu estava
só ele,
só com o peso esmagador de uma carga
que muitas vezes necessitara
compartilhar, mas ninguém até então lhe merecera tanta confiança. Leona
Cassiani era a única possível, e ele só estava esperando a maneira e a ocasião.
Nisto pensava na tarde de bochorno estivai em que o doutor Juvenal Urbino subiu
as escadas empinadas da C.F.C., fazendo uma pausa
em cada
degrau para sobreviver ao
calor das três, e apareceu arquejante
no escritório de Florentino Ariza
empapado de suor até nas calças, e disse com o último alento: "Acho que vem para cima de nós um ciclone." Florentino Ariza o vira
ali muitas vezes, em busca do tio
Leão XII, mas nunca tivera como agora a impressão tão nítida de que aquela aparição indesejável tinha
algo a ver com sua vida.
Era a época em que também o doutor Juvenal Urbino tinha
superado os escolhos da profissão, e andava quase de porta em
porta feito um mendigo de chapéu
na mão, buscando contribuições para suas promoções artísticas. Um dos seus contribuintes
mais assíduos e pródigos foi sempre
tio Leão XII, que naquele justo momento começara
a fazer sua sesta diária de dez minutos,
sentado na poltrona de molas da mesa de
trabalho. Florentino Ariza pediu ao doutor Juvenal Urbino o favor de esperar em seu escritório,
contíguo ao do tio Leão XII e que de certa forma
lhe servia de sala de espera.
Em diversas ocasiões se
haviam visto, mas nunca tinham estado assim,
frente a frente, e Florentino
Ariza padeceu mais uma vez a náusea de
se sentir inferior. Foram dez minutos eternos, durante os quais se levantou
três vezes na esperança de que
o tio tivesse acordado antes do tempo,
e tomou uma garrafa térmica inteira
de café puro. O doutor Urbino
não aceitou nem uma xícara. Disse: "Café é veneno."
E continuou encadeando um tema ao outro sem sequer se preocupar em ser escutado.
Florentino Ariza não podia suportar sua distinção
natural, a fluidez e precisão de suas palavras,
seu hálito recôndito de cânfora, seu encanto pessoal, a maneira tão fácil e elegante com que conseguia que mesmo as frases mais frívolas,
só porque ele as dizia, parecessem essenciais. De repente, o médico mudou de tema de um modo abrupto.
—
Gosta
de música?
Pegou-o de surpresa.
Na realidade, Florentino Ariza assistia a quantos concertos ou
representações de ópera houvesse na cidade, mas não se sentia capaz
de manter uma conversação crítica ou bem informada.
Tinha um xodó pela música da
moda, sobretudo as valsas sentimentais,
cuja afinidade com as que ele mesmo compunha quando adolescente, ou com seus versos secretos, não era possível negar. Bastava ouvi-las uma vez de
passagem para que logo não houvesse força de Deus que lhe tirasse
da
cabeça o fio da melodia
durante noites inteiras. Mas isso não
seria uma resposta
séria para uma pergunta tão séria de um especialista.
—
Gosto de Gardel —
disse.
O doutor Urbino compreendeu. "Sei", disse.
"Está na moda." E se embarafustou
pelo relato de seus novos e numerosos projetos, que havia de
realizar como sempre sem subsídio
oficial. Acentuou que era de cortar o
coração a inferioridade dos espetáculos que era possível trazer agora diante
dos esplêndidos do século anterior. Assim era: há um ano
vendia assinaturas para trazer o
trio Cortot-CasalsThibaud ao Teatro da Comédia,
e não havia ninguém no governo que soubesse quem
eram, enquanto para aquele mesmo mês
estavam esgotados os lugares para a
companhia de peças policiais Ramón Caralt, para a Companhia de Operetas
e Zarzuelas de Manolo de Ia Presa, para os Santane-las, inefáveis
transformistas mímico- fantásticos
que trocavam de roupa em cena aberta no instante de um relâmpago
fosforescente, para Danyse d'Altaine, que se apresentava como antiga bailarina do Folies
Bergère, e até para o
abominável Ursus, um energúmeno basco que lutava corpo a corpo
com um touro de tourada. No entanto,
não era o caso de nos queixarmos,
quando os próprios europeus davam uma
vez mais o mau exemplo de uma guerra bárbara,
quando nós começávamos a viver em paz depois de nove guerras civis em meio século, as quais bem contadas podiam ser uma só: sempre a mesma. O que mais chamou a atenção de Florentino Ariza
naquele discurso cativante foi a
possibilidade de retomar os Jogos Florais, a mais conhecida
e duradoura das iniciativas que o
doutor Juvenal Urbino concebera no passado. Teve que morder a língua para não contar que ele próprio
fora participante assíduo daquele concurso anual que chegou a interessar
poetas de grande nome, não só no resto do país como em outros do Caribe.
Apenas começada a conversa, o vapor quente do ar esfriou
de repente, e uma tempestade de ventos cruzados sacudiu portas e janelas com fortes estampidos, e o escritório rangeu até
os alicerces feito um veleiro à
deriva. O doutor Juvenal Urbino não pareceu reparar. Fez alguma referência
casual aos ciclones lunáticos de junho, e de
repente, sem que viesse ao caso, falou na esposa. Não só a tinha como sua colaboradora mais entusiasta,
como era a própria alma de suas iniciativas.
Disse:
"Eu não seria ninguém sem ela." Florentino Ariza o escutou impassível, aprovando tudo com um movimento
leve da cabeça, sem se atrever
a dizer nada por medo de ser traído
pela voz. No entanto, duas ou três
frases mais lhe bastaram para compreender que o doutor Juvenal
Urbino, em meio a tantos compromissos absorventes, ainda encontrava tempo para adorar a esposa quase tanto quanto ele, e essa
verdade o aturdiu. Mas não pôde reagir como teria querido, porque o
coração lhe pregou então uma dessas putas peças que só mesmo ao
coração ocorrem: revelou-lhe que ele e
aquele homem que considerara sempre
como o inimigo pessoal eram vítimas de um mesmo destino e partilhavam o azar de uma paixão
comum: dois animais de canga jungidos ao mesmo jugo. Pela primeira vez nos vinte e sete anos intermináveis que passava
esperando, Florentino Ariza não pôde resistir à
pontada de dor de que aquele homem admirável
tivesse que morrer para que ele fosse feliz.
O ciclone passou ao largo, mas suas lufadas destroçaram em quinze
minutos os bairros dos pântanos e
causaram estragos em metade da cidade. O doutor Juvenal Urbino, satisfeito uma
vez mais com a generosidade do tio
Leão XII, não esperou que amainasse por completo e carregou por distração o
guarda-chuva pessoal que Florentino Ariza lhe
emprestou para chegar ao
carro. Mas ele não ligou. Ao contrário: alegrou-se de pensar no que Fermina Daza ia pensar
quando soubesse quem era o dono do guarda-chuva. Sentia ainda a comoção da entrevista quando Leona Cassiani passou pelo seu escritório, e a ocasião lhe pareceu
única para revelar o segredo sem mais rodeios, que era como arrebentar um cacho de
furúnculos que não o deixava
viver: agora ou nunca. Começou por lhe perguntar que achava do
doutor Juvenal Urbino. Ela respondeu quase sem pensar: "É um homem que
faz muitas coisas, demasiadas talvez,
mas acho que ninguém sabe o que pensa." Depois refletiu, despedaçando a borracha do lápis com os dentes
afiados e grandes, de negra
grande, e afinal deu de ombros para liquidar um assunto que não a preocupava.
—
Vai ver que é por isso que faz tantas coisas — dis- se: — para
não ter que pensar.
Florentino Ariza tentou retê-la.
—
O que me dói é que tem de morrer — disse.
—
Todo mundo tem de morrer
— disse ela.
—
Sim — disse ele — mas este mais que todo mundo.
Ela não entendeu nada: tornou a dar de ombros sem falar, e foi embora. Então Florentino Ariza soube que em alguma noite
incerta do futuro, num leito feliz com Fermina Daza, ia contar-lhe que
não revelara o segredo de seu amor nem
mesmo à única pessoa que
conquistara o direito de sabê-lo.
Não: não havia de revelá-lo nunca, nem à
própria Leona Cassiani, não porque
não quisesse abrir para ela
o cofre onde o guardara tão bem ao longo de meia vida, mas
porque só então percebeu que tinha perdido a
chave.
Não era isso, contudo, o mais
perturbador daquela tarde. Ficava-lhe a saudade dos seus tempos de moço, a
lembrança vivida dos Jogos Florais, cujo estrondo repercutia cada 15
de abril no âmbito das Antilhas. Ele foi sempre um dos seus protagonistas, mas sempre, como em quase tudo, um protagonista secreto. Participara várias vezes desde o concurso inaugural, e nunca
obtivera nem a última menção. Mas não lhe importava,
pois não concorria pela ambição do prêmio
e sim porque o certame tinha para ele
uma atração adicional: Fermina
Daza foi a encarregada de abrir os envelopes lacrados e proclamar
o nome dos vencedores na primeira sessão, e desde então ficou estabelecido
que continuasse a
fazê-lo nos anos seguintes.
Escondido na penumbra
das
poltronas, com uma camélia viva
pulsando na botoeira da lapela com a força da sua ansiedade, Florentino Ariza viu Fermina
Daza abrindo os três envelopes lacrados no palco do antigo Teatro Nacional, na noite do primeiro concurso. A
si mesmo
perguntou o que ia suceder no coração dela quando descobrisse que era ele o ganhador da Orquídea de Ouro.
Tinha certeza de que ela reconheceria a letra, e que naquele
instante havia de evocar as tardes de bordados
debaixo das amendoeiras da pracinha, o odor das gardênias murchas nas cartas, a valsa confidencial da deusa coroada nas madrugadas de vento. Não aconteceu. Pior ainda: a Orquídea de Ouro, o galardão
mais cobiçado da poesia nacional, foi concedida a um imigrante chinês. O
escândalo público que a decisão insólita provocou
pôs em dúvida a seriedade do certame. Mas a sentença foi justa e a
unanimidade do júri tinha sua justificação na excelência do soneto.
Ninguém acreditou que o autor fosse o chinês premiado. Chegara em
fins do século anterior
fugindo ao flagelo de febre amarela que assolou o Panamá durante a construção da estrada de ferro dos dois oceanos, junto
com muitos outros que aqui ficaram
até morrer, vivendo em chinês, proliferando
em chinês, e tão parecidos uns com os outros que não havia quem os distinguisse. De início não passavam
de dez, alguns com as mulheres e os filhos e os cachorros de comer,
mas em poucos anos inundaram quatro
vielas dos arrabaldes do porto com
novos chineses intempestivos que
entravam no país sem deixar rastro
nos registros alfandegários. Alguns dos jovens se converteram em patriarcas
veneráveis com tanta precipitação
que ninguém explicava como tinham tido tempo de envelhecer. A
intuição popular dividiu-os em duas classes: os chineses maus e os chineses bons.
Os maus eram os das estalagens lúgubres do porto, onde tanto se comia como um rei ou se
morria de repente na mesa diante de um prato de
rato com girassóis, e das quais
se suspeitava que não passavam de biombos do comércio de brancas
e do tráfico de tudo. Os bons eram os chineses
das lavanderias, herdeiros de uma ciência
sagrada, que devolviam as camisas mais limpas do
que se fossem novas, com colarinhos e punhos feito hóstias recém engomadas. Foi um desses chineses bons
que derrotou nos Jogos Florais setenta e
dois rivais bem apetrechados.
Ninguém entendeu o nome
quando Fermina Daza o leu espantada.
Não só por ser um nome
insólito, como porque de toda
maneira ninguém sabia de ciência certa como se chamavam os chineses. Mas não havia muito que
pensar, porque o chinês premiado surgiu do fundo
da platéia com esse sorriso celestial que têm os chineses quando chegam cedo em casa. Tinha ido tão seguro da vitória
que vestia para receber o prêmio a
camisola de seda amarela dos ritos da primavera. Recebeu a Orquídea de Ouro de
dezoito quilates, e a beijou de ventura em meio às troças
estrondosas dos incrédulos. Não se alterou. Esperou no centro da cena, imperturbável como o apóstolo de uma Divina
Providência menos dramática do que a nossa,
e no primeiro silêncio leu o
poema premiado. Ninguém o entendeu. Mas
quando passou o novo bombardeio de vaias, Fermina Daza leu-o de novo,
impassível, com sua afônica voz insinuante, e o assombro se impôs desde
o primeiro verso. Era um soneto da mais
pura estirpe parnasiana, perfeito, atravessado por uma brisa de inspiração
que delatava a cumplicidade de alguma mão de mestre. A única explicação plausível era que
algum poeta dos grandes tivesse concebido
aquela troça para zombar dos Jogos
Florais, e que o chinês se prestara a ela com a determinação de guardar segredo até a morte. O Diário do Comércio, nosso jornal tradicional, tratou de remendar o prestígio cívico com um ensaio erudito e mais para
indigesto sobre a antigüidade e a influência
cultural dos chineses no
Caribe, e seu merecido direito de participar nos Jogos Florais. Quem escreveu o ensaio não duvidava de que o autor do soneto fosse na realidade quem dizia ser e o
justificava sem rodeios desde o título: Todos os chineses são poetas. Os promotores da conjura, se houve, apodreceram em seus sepulcros
com o segredo. De sua parte,
o chinês premiado morreu sem confissão numa
idade oriental, e foi enterrado com a Orquídea de Ouro dentro do ataúde, mas com a amargura de não
ter conseguido em vida a única
coisa a que aspirava, que era seu crédito
de poeta. Por motivo da
morte se evocou na imprensa o
incidente esquecido dos Jogos Florais, se
reproduziu o soneto com uma vinheta
modernista de donzelas r urgi
d as com cornucópias de ouro, e os deuses custódios da poesia se valeram
da
ocasião para pôr as
coisas em seu lugar: o soneto pareceu tão ruim à nova geração que
já ninguém pôs em dúvida que na realidade fora escrito pelo chinês morto.
Florentino Ariza associou sempre aquele escândalo à
lembrança de uma desconhecida
opulenta que se sentava ao seu lado. Reparara nela no princípio do ato, mas depois a esquecera no susto da espera. Ela lhe chamou a atenção por sua brancura de nácar, sua fragrância
de gorda feliz, seu grande peito de soprano coroado por uma magnólia artificial. Usava um vestido de veludo preto muito apertado,
tão preto quanto os olhos ansiosos e cálidos, e tinha o cabelo mais preto ainda, estirado na
nuca com uma travessa de cigana.
Usava brincos pendentes, colar do mesmo estilo
e anéis iguais em vários dedos,
todos de placas brilhantes, e um sinal pintado a lápis na face direita. Na confusão
dos aplausos finais, olhou Florentino Ariza com uma aflição
sincera.
—
Acredite que sinto muito — disse.
Florentino Ariza se
impressionou, não pelas condolências que na realidade merecia e sim pelo assombro de que alguém conhecesse seu segredo.
Ela esclareceu: "Percebi pela maneira como tremia a flor da sua lapela enquanto se abriam os envelopes." Mostrou-lhe
a magnólia de pelúcia que
tinha na mão, e lhe abriu o coração:
—
Eu por isso tirei a minha — disse.
Estava a ponto de chorar
devido à derrota, mas Florentino Ariza lhe mudou
o ânimo com seu instinto de caçador
noturno.
—
Vamos a algum lugar para chorar
juntos — disse.
Acompanhou-a à casa dela. Já na porta, e em vista
de ser
quase meia-noite e não haver ninguém na
rua, convenceu-a a convidá-lo para um conhaque enquanto viam os álbuns de recortes e fotografias de mais de dez anos de acontecimentos públicos,
que ela
dizia ter. O truque já então era velho,
mas dessa vez foi involuntário,
porque ela é que falara nos álbuns
enquanto caminhavam depois de deixar o Teatro Nacional. Entraram. A
primeira coisa que observou Florentino Ariza ao
chegar à sala foi que a porta do único quarto estava aberta, e que a cama era vasta e suntuosa, com uma colcha de brocado e cabeceira de ramagens de bronze. Esta visão o perturbou. Ela deve ter percebido,
pois se adiantou pela sala e fechou a porta do quarto. Convidou-o em seguida
a se sentar num canapé de cretone
florido onde dormia um gato, e
colocou na mesa de centro sua
coleção de álbuns.
Florentino Ariza começou a folheá-los sem
pressa, pensando mais nos passos seguintes
do que no que via, e de repente levantou o rosto e viu que os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Aconselhou-a a chorar quanto quisesse, sem pudor, pois nada aliviava
como o pranto, mas sugeriu que afrouxasse o corpinho para chorar. Apressou-se a ajudá-la, porque o corpinho se ajustava à força nas costas com uma grande
costura de cordões cruzados. Não precisou
acabar, pois o corpinho acabou de se soltar pela pura pressão interna, e a
tetaria astronômica respirou a seu bel-prazer.
Florentino Ariza, que nunca perdera o susto da primeira vez, mesmo nas ocasiões mais fáceis, arriscou-se a uma carícia epidérmica no pescoço com a
ponta dos dedos, e ela se retorceu com um gemido de menina que consente sem deixar de chorar. Então ele a beijou no mesmo lugar,
como fizera com os dedos, e não pôde fazê-lo
uma segunda vez porque ela se voltou
para ele com todo o seu corpo
monumental, ávido e quente, e ambos rolaram pelo chão abraçados.
O gato acordou no sofá com um guincho, e saltou para cima deles. Eles se buscaram às tontas como novatos
apressados e se encontraram de qualquer jeito, se revirando sobre
os álbuns desfolhados, vestidos,
ensopados de suor, e mais inclinados a evitar as unhadas furiosas cio gato coque o desastre de amor que estavam cometendo. Mas a parti:
da noite seguinte, com as feridas ainda sangrando, continuaram a fazê-lo
por vários anos.
Quando percebeu que tinha começado a amá-la, ela já estava na plenitude dos quarenta, e ele ia fazer trinta. Chamava-se Sara Noriega, e tivera um quarto de
hora de celebridade na juventude, ao ganhar um concurso com um livro
de versos sobre o amor dos pobres, que nunca foi publicado. Era professora de Urbanidade
e Instrução Cívica em escolas
oficiais, e vivia do seu ordenado numa casa alugada no multicolorido conjunto da Passagem dos Noivos, no antigo bairro de Getsêmani.
Tivera vários amantes de ocasião,
mas nenhum com ilusões matrimoniais, porque era difícil
que algum homem do seu
meio e do seu tempo se
casasse com uma mulher com quem tivesse dormido. Tampouco ela
tornou a alimentar essa ilusão depois que seu primeiro noivo formal, a quem
amou com a paixão quase
demente de que era capaz aos
dezoito anos, escapou ao compromisso uma semana antes da data prevista para as bodas, e a deixou perdida num
limbo de noiva enganada. Ou de solteira
usada, como se dizia então.
Contudo, aquela primeira experiência, ainda
que cruel e efêmera, não lhe deixou nenhum azedume, só a
convicção deslumbrante de que com casamento ou sem ele, sem Deus ou sem lei, não valia a pena viver se não fosse
para ter um homem na cama. O que mais Florentino
Ariza apreciava nela era que enquanto
fazia o amor tinha que chuchar uma chupeta
para
alcançar a glória plena.
Chegaram a ter uma réstia de todos os tamanhos, formas e cores
encontradiços no mercado, e Sara Noriega
pendurava as chupetas na cabeceira da cama
para encontrá-las às cegas nos momentos de
extrema urgência.
Embora ela fosse tão livre quanto ele, e talvez não se opusesse a que suas relações fossem públicas, Florentino Ariza as arrumou desde o princípio
como aventura clandestina. Esgueirava-se pela porta de serviço, quase sempre tarde
da noite, e escapava na ponta do
pé pouco antes de raiar o dia.
Tanto ela quanto ele sabiam que numa moradia compartilhada e populosa como aquela, os vizinhos no
fim das
contas deviam estar mais inteirados do
que davam a entender. Mas
ainda que fosse uma simples fórmula, Florentino
Ariza era assim, e assim seria com
todas até o fim da vida. Nunca cometeu um erro, nem com ela
nem com qualquer outra, nunca
incorreu numa deslealdade. Não exagerava: só numa ocasião deixou um rastro comprometedor ou prova escrita, o
que teria podido custar-lhe a vida. Na realidade, comportou-se sempre como se fosse o
esposo eterno de Fermina Daza, um esposo
infiel mas tenaz, que lutava sem tréguas para se libertar da sua servidão,
mas sem causar o desgosto de uma traição.
Semelhante hermetismo não
podia prosperar sem equívocos. A própria Trânsito Ariza morreu convencida de que o filho
concebido por amor e criado para o
amor estava imune a toda forma de amor
devido a sua primeira adversidade juvenil. Contudo, muitas pessoas menos benévolas
que estiveram muito próximas dele,
que conheciam seu caráter misterioso e sua predileção por indumentárias místicas e loções raras, partilhavam da suspeita
de que ele não era imune ao
amor, e sim à mulher. Florentino Ariza sabia disto e nunca fez nada para
desmenti-lo. Isso tampouco
preocupou Sara Noriega. Tal como as outras mulheres incontáveis que amou, e
mesmo as que lhe agradavam e o
achavam agradável sem amá-lo,
aceitou-o como aquilo que era na realidade: um
homem de passagem.
Acabou por aparecer em
sua casa a qualquer hora,
sobretudo nas manhãs de domingo, que
eram as mais pacatas. Ela abandonava o que estivesse
fazendo, fosse o que fosse, e se consagrava de corpo inteiro a fazê-lo feliz na enorme cama enfeitada que esteve sempre à disposição dele, e na qual nunca permitiu a
adoção de formalismos litúrgicos.
Florentino Ariza não compreendia como uma solteira
sem passado podia ser tão sábia em assuntos de homens, nem
como podia manejar seu doce
corpo de delfina com tanta leveza e tanta ternura, como se se movesse
por baixo d'água. Ela se defendia
dizendo que o amor, antes de mais
nada, era um talento natural. Dizia: "Ou se nasce sabendo ou não se sabe nunca." Florentino Ariza se retorcia
de ciúmes
regressivos pensando que talvez ela fosse mais passeada do que dizia ser, mas tinha que engolir as suspeitas inteiras
porque também ele lhe dizia, como
dizia a todas, que ela fora sua única amante. Entre muitas outras coisas que lhe apraziam menos, precisou resignar-se a ter na cama o gato furioso, cujas garras eram embotadas por Sara
Noriega para que não
dilacerasse os dois a unhadas enquanto
faziam amor. Contudo, quase tanto quanto gostava de folgar na cama até o esgotamento, ela gostava de consagrar
as fadigas do amor ao culto da poesia. Não só tinha uma memória
assombrosa para os versos sentimentais do seu tempo, cujas
novidades se vendiam em folhetos
populares de dois centavos,
como gravara com alfinetes na parede os poemas de que gostava mais, para lê-los
em voz alta a qualquer hora. Tinha feito
uma versão em endecassílabos pares dos textos de Urbanidade e Instrução Cívica, como os que
se usavam para a ortografia, mas não conseguiu
a aprovação oficial. Era tal seu arrebatamento
declamatório que às vezes continuava
recitando aos gritos enquanto fazia amor, e Florentino Ariza tinha que pôr-lhe a chupeta na boca à viva
força, como se fazia com as crianças para que parassem de chorar.
Na plenitude de suas relações, Florentino Ariza se perguntara qual dos dois estados seria o
amor, o da cama turbulenta ou o das tardes aprazíveis dos domingos, e Sara Noriega o tranqüilizou com o argumento singelo de
que tudo que fizessem nus era
amor. Disse: "Amor da alma da
cintura para cima e amor do corpo
da cintura para baixo." Esta definição pareceu a
Sara Noriega boa para um
poema sobre o amor dividido, que escreveram a quatro mãos, e que ela apresentou nos quintos Jogos Florais, convencida de que ninguém
participara até então com um poema
tão original. Mas tornou a perder.
Estava furibunda enquanto Florentino Ariza a acompanhava
a casa. Por alguma razão que não sabia explicar, tinha a convicção de que a manobra fora urdida contra ela por Fermina Daza, para não premiar seu poema. Florentino Ariza não lhe prestou atenção. Estava de um humor sombrio desde a entrega dos prêmios,
pois há muito tempo não via Fermina Daza e aquela noite teve a impressão de que sofrerá uma mudança profunda: pela primeira vez notava-se a um simples olhar sua condição de mãe. Não era novidade para ele, pois sabia
que o filho já ia à escola. Contudo, sua idade
maternal não lhe parecera
antes tão evidente quanto naquela noite, tanto
pelo diâmetro da cintura e seu andar um
tanto incerto como pelas hesitações de voz quando leu a lista dos prêmios.
Procurando documentar suas
lembranças, tornou a folhear os
álbuns dos Jogos Florais enquanto Sara Noriega
preparava algo de comer. Viu cromos de revistas, postais amarelecidos dos que se vendiam como lembrança nos portais de loja, e foi como uma reprise
fantasmagórica da falácia de sua própria vida. Até então fora sustentado
pela ficção de que era o mundo que
passava, os costumes, a moda: tudo menos ela. Mas naquela noite viu pela
primeira vez de forma consciente como a
vida de Fermina Daza estava passando,
e como passava a sua própria, enquanto ele nada fazia além de esperar.
Nunca falara dela com ninguém, porque se sabia incapaz de
pronunciar o nome sem que se
notasse a palidez dos seus lábios. Mas esta noite,
enquanto folheava os álbuns
como em outras tantas noitadas de tédio dominical, Sara Noriega teve um desses
acertos casuais que eram de gelar o sangue.
—
É uma puta — disse.
Disse de passagem,
vendo uma gravura de Fermina Daza fantasiada de pantera negra num baile de máscaras, e não teve que especificar ninguém para
que Florentino Ariza soubesse de quem falava.
Temendo alguma revelação que o fosse perturbar
pelo resto da vida, avançou uma defesa
cautelosa. Alegou que só conhecia
Fermina Daza de longe, que nunca
tinham passado dos cumprimentos formais
e não tinha notícia nenhuma de
sua intimidade, mas cava como
certo que era uma mulher admirável,
surgida do nada e enaltecida por seus próprios méritos.
—
Por obra e graça de um casamento,
de interesse
com um homem que não ama
—
interrompeu Sara Noriega. —
É a maneira mais baixa de ser puta.
Com menos crueza
mas igual rigidez morai, a mãe tinha dito o mesmo
a Florentino Ariza procurando consolá-lo de suas desventuras. Perturbado até o tutano
dos ossos, não achou uma resposta oportuna para a inclemência
de Sara Noriega, e tratou de se esquivar ao tema. Mas Sara Noriega não deixou, até que acabasse de desabafar contra Fermina Daza. Por um golpe de
intuição que não teria podido explicar,
estava convencida de que ela fora autora da conspiração para lhe escamotear o prêmio. Não havia nenhuma razão para isso:
não se conheciam, não se tinham visto nunca, e Fermina Daza não
tinha nada a ver com as decisões do concurso,
embora estivesse ao corrente dos seus segredos. Sara Noriega disse de um modo terminante: "Nós mulheres somos adivinhas." E pôs fim à discussão.
A partir desse momento,
Florentino Ariza a viu com outros olhos.
Também para ela passavam os anos. Sua natureza feraz
murchava sem glória, seu amor perdurava em soluços, e suas pálpebras começavam a mostrar a sombra das velhas tristezas. Era uma flor de ontem.
Além disso, na fúria da derrota perdera a conta dos conhaques. Não estava em uma boa noite: enquanto comiam o arroz de coco requentado, procurou estabelecer qual tinha sido a contribuição de cada
um no poema derrotado, para saber quantas pétalas da Orquídea
de
Ouro teriam correspondido a cada qual.
Não era a primeira vez que se entretinham em torneios bizantinos, mas ele
aproveitou a ocasião para se vingar do
golpe recente e se enredaram numa discussão mesquinha que revolveu em ambos
os rancores de quase cinco anos de amor dividido.
Quando faltavam dez minutos
para as doze, Sara Noriega trepou numa cadeira para dar corda no
relógio de pêndulo, e o colocou de memória
na hora certa, talvez querendo dizer sem
dizê-lo que era hora de ir
embora. Florentino Ariza sentiu então
a urgência de cortar pela raiz aquela
relação sem amor, e buscou a ocasião de tomar ele
a iniciativa: como faria sempre. Rogando a Deus que Sara Noriega
o convidasse a ficar na cama dela de modo que ele pudesse dizer que não, que estava tudo acabado
entre eles, pediu-lhe que se sentasse ao seu lado quando acabou de dar corda
no relógio. Mas ela preferiu
manter-se à distância na poltrona das visitas.
Florentino Ariza lhe estendeu então o
dedo empapado de conhaque para que ela o
chupasse, como gostava de fazer nos
preâmbulos do amor
de outra
época. Ela o afastou.
—
Agora não — disse. — Estou esperando alguém.
Desde que foi repudiado
por Fermina Daza, Florentino Ariza aprendera a ficar sempre com a última palavra. Em circunstâncias menos penosas teria persistido nos assédios a Sara Noriega, certo de terminar
a noite rolando com ela na cama, pois estava convencido de que uma
mulher que vai para a cama
com um homem uma vez continuará indo
para a cama com ele cada
vez que ele queira, desde que
saiba enternecê-la a cada vez. Tinha
suportado tudo em nome dessa
convicção, tinha passado por cima de tudo
mesmo nos negócios mais sujos do
amor, com o fim de não conceder a nenhuma mulher nascida de mulher
a oportunidade da última palavra. Mas aquela noite se sentiu tão humilhado que tomou o conhaque de um trago, fazendo
todo o possível para que
transparecesse seu rancor, e foi embora sem se despedir. Não tornaram a se ver. A relação com Sara Noriega
foi uma
das mais longas e estáveis de Florentino Ariza, embora não fosse a única que manteve naqueles cinco anos. Quando compreendeu que se sentia bem com ela, sobretudo na cama,
mas que jamais conseguiria substituir Fermina
Daza por ela, recrudesceram suas noites de caçador solitário, e dava um
jeito de repartir seu
tempo e suas forças para que bem rendessem. Contudo, Sara Noriega
operou o milagre de aliviá-lo durante
algum tempo. Ao menos pôde
viver sem ver Fermina Daza, ao
contrário do que acontecia antes,
quando interrompia a qualquer hora o que estivesse
fazendo para buscá-la pelos rumos incertos dos seus presságios, nas ruas menos
imagináveis, em lugares irreais
onde era impossível que estivesse, vagando
sem sentido com umas ânsias no peito que não lhe davam
trégua até que a visse por um instante que fosse. O rompimento com Sara Noriega,
pelo contrário, alvoroçou de novo suas saudades adormecidas, e se sentiu outra vez como nas tardes da pracinha e das leituras intermináveis, agora agravadas pela urgência da noção
de que o doutor Juvenal Urbino tinha
que morrer.
Sabia havia algum tempo que estava predestinado a fazer feliz
uma viúva, e a ser feito feliz por ela, e isso não o preocupava. Pelo contrário:
estava preparado. De tanto
conhecê-las em suas incursões de caçador solitário, Florentino Ariza
acabaria por saber que o mundo estava cheio de
viúvas felizes. Ele as vira enlouquecer de dor diante do cadáver
do marido, suplicando que as
enterrassem vivas dentro do mesmo caixão para não enfrentar sem ele os
azares do futuro, mas à medida que se reconciliavam
com a realidade do seu novo estado ele as vira surgir das cinzas
com uma vitalidade reverdecida.
Começavam vivendo feito parasitas de sombra nos casarões desertos, viravam
confidentes das criadas, amantes dos
próprios travesseiros, sem nada que fazer depois de tantos anos de cativeiro
estéril. Desperdiçavam as horas de sobra cosendo na roupa do morto os botões que nunca tinham tido
tempo de pregar, passavam e tornavam
a passar a ferro suas camisas de punhos e colarinhos de goma para
que estivessem sempre
perfeitos. Continuavam botando seu sabonete
no banheiro, a colcha com suas iniciais
na cama, o prato e os talheres em seu lugar
na mesa, caso voltassem da morte sem
avisar, como costumavam fazer em vida.
Mas naquelas missas de solidão
iam tomando consciência de que eram outra vez donas de seu arbítrio, depois de terem
renunciado não só ao seu nome de família
como à própria identidade, e
tudo isso em troca de uma segurança
que não foi mais do que mais uma de suas tantas ilusões de
noivas. Só elas sabiam como pesava o homem
que amavam com loucura, e que
talvez as amasse, mas que tinham tido
que continuar a criar até o último suspiro,
dando-lhe de mamar, mudando-lhe as
fraldas borradas, distraindo-o com historinhas de mãe para lhe aliviar o terror de sair de
manhã e dar de cara com a realidade. E no entanto,
quando o viam sair de casa instigado
por elas próprias a enfrentar o
mundo, então eram elas que ficavam com o terror de que o homem não
voltasse nunca. Isso era a vida. O
amor, caso houvesse, era uma coisa à parte: outra vida.
No ócio reparador da solidão,
em compensação, as viúvas descobriam
que a forma
honrada de viver era à mercê do corpo, só
comendo por fome, amando sem mentir, dormindo sem ter que fingir que dormiam para escapar à indecência do amor
oficial, donas por fim do direito a uma cama inteira só para elas,
na qual ninguém lhes disputasse a metade do lençol,
a metade do ar de respirar,
a metade da noite, até que o
corpo se fartava de sonhar seus
sonhos próprios, e despertava só. No seu madrugar de caçador furtivo, Florentino
Ariza as encontrava à saída da missa das
cinco, amortalhadas de preto e
com o corvo do destino no ombro.
Logo que o vislumbravam na claridade da alba atravessavam a rua e mudavam de calçada com passos miúdos e entrecortados, passos de passarinho, pois o mero passar perto de um
homem podia enodoar-lhes a honra. Contudo, era sua convicção que uma viúva
desconsolada, mais do que qualquer
outra mulher, podia carregar em si a semente
da felicidade.
As muitas viúvas de sua vida,
a partir da viúva de Nazaret, tinham tornado possível que ele vislumbrasse
como eram as casadas felizes depois
da morte dos maridos. O que até então
tinha sido para ele mera ilusão
se converteu graças a elas numa possibilidade
que se podia colher com a mão. Não encontrava
razões para que Fermina Daza não fosse uma viúva igual, preparada pela vida a aceitá-lo tal como
era, sem fantasias de culpa pelo marido morto, resolvida a
descobrir com ele a outra felicidade de ser
feliz duas vezes, com um amor de
uso cotidiano que convertesse cada instante num milagre de viver, e
com outro amor, dela só, preservado de todo contágio pela imunidade da morte.
Não teria sido talvez tão entusiástico
se tivesse sequer suspeitado
como Fermina Daza estava longe daqueles cálculos ilusórios, quando mal começava a vislumbrar o horizonte de um mundo
em que tudo estava previsto, menos a adversidade. Ser rico naquele tempo
tinha muitas vantagens, e também muitas desvantagens,
é claro, mas meio mundo
aspirava à riqueza
como a maior
possibilidade de ser eterno.
Fermina Daza tinha repelido Florentino
Ariza num rasgo de maturidade que pagou de pronto com uma crise de pena, mas
jamais duvidou de que sua decisão tinha sido certa. No momento
não pôde explicar a si mesma que
causas ocultas da razão lhe haviam dado aquela clarividência, mas muitos
anos mais tarde, já nas vésperas da velhice,
descobriu-as de repente e sem saber como numa conversação casual sobre Florentino Ariza. Todos os
interlocutores conheciam sua condição de delfim da
Companhia Fluvial do Caribe em sua época
culminante, todos estavam certos de havê-lo visto muitas vezes, inclusive de haverem
tratado com ele, mas nenhum conseguia
identificá-lo na memória. Foi então que Fermina Daza teve a intuição dos
motivos inconscientes que tinham impedido que o amasse. Disse: "É como se não
fosse uma pessoa e sim uma sombra."
Era isso: a sombra de alguém que ninguém jamais conhecera. Mas enquanto resistia aos assédios do doutor Juvenal
Urbino, que era o homem contrário,
se sentia atormentada pelo fantasma da culpa: o único sentimento que era incapaz de suportar.
Quando o sentia vir se apoderava dela uma espécie de pânico
que só conseguia controlar quando
encontrava alguém para lhe aliviar a consciência. Desde muito menina, quando se quebrava um prato na cozinha, quando alguém caía, quando ela própria
espremia o dedo na porta,
voltava- se assustada para o adulto que estivesse mais perto, e se apressava em acusá-lo: "Foi sua culpa." Embora na realidade não lhe importasse quem fosse o culpado, nem quisesse se
convencer da própria inocência: bastava deixá-la estabelecida.
Era um fantasma
tão notório que o doutor Urbino percebeu em tempo
até que ponto ameaçava a harmonia de sua casa, e logo que o vislumbrava se apressava em dizer à mulher: "Não se preocupe, meu amor, a
culpa foi minha." Pois não havia nada que temesse mais do que as
decisões súbitas e definitivas da mulher, e estava convencido de que sempre tinham origem num sentimento
de culpa. Contudo, a confusão proveniente do repúdio a Florentino Ariza não se resolvia com alguma
frase de consolo. Fermina Daza continuou abrindo o
balcão de manhã durante
vários meses, e sempre notava a
falta do fantasma solitário que a vigiava da pracinha deserta,
via a árvore que foi sua, o banco menos visível em que se sentava para
ler pensando nela, sofrendo
por ela, e tinha que fechar a janela,
suspirando: "Pobre homem." Sofreu
inclusive a decepção de ver que ele não era tão pertinaz quanto supusera, quando já era tarde demais para remendar o passado,
e não deixou de sentir de
vez em quando a ansiedade
tardia de uma carta que não chegou nunca. Mas quando teve que enfrentar a
decisão de se casar com Juvenal Urbino sucumbiu
a uma crise maior, ao perceber
que não tinha razões válidas para preferi-
lo depois de ter repudiado Florentino Ariza sem
razões válidas. Na realidade,
amava-o tão pouco quanto ao outro, e além disso o conhecia muito menos, e suas cartas não tinham a febre das cartas do outro, nem
lhe dera tantas provas
comovedoras de sua determinação. A verdade é que as pretensões de Juvenal Urbino nunca tinham sido formuladas em termos de
amor, e era pelo menos curioso que um militante católico como ele
só lhe oferecesse bens terrenos: a segurança, a ordem, a felicidade,
cifras imediatas que uma vez
somadas poderiam talvez se
assemelhar ao amor: quase
amor. Mas não eram, e estas dúvidas aumentavam sua confusão, porque
também estava convencida de que o
amor era na realidade aquilo que mais falta lhe
fazia para viver.
Em todo caso, o fator principal contra o doutor Juvenal
Urbino era sua semelhança mais que suspeita com
o homem ideal que Lorenzo Daza
desejara com tanta ansiedade para a filha. Era impossível não vê-lo como a
criatura de uma conspiração paterna, ainda que na verdade não fosse, e
Fermina Daza estava convencida de que
era logo que o viu entrar em sua casa pela segunda vez para uma
visita médica não solicitada. As conversações
com a prima Hildebranda acabaram de confundi-la.
Por sua própria situação de vítima,
esta tendia a se identificar com Florentino Ariza, esquecendo inclusive de que
talvez Lorenzo Daza a tivesse feito vir
para que influísse a favor do doutor.
Deus sabia do esforço feito por Fermina Daza para não acompanhá-la quando a prima foi conhecer Florentino Ariza na agência do telégrafo. Ela também teria gostado de vê-lo outra vez para confrontá-lo com suas dúvidas,
falar com ele a sós, conhecê-lo a fundo para estar segura de que sua decisão
impulsiva não ia precipitá-la em outra
mais grave, que era capitular na guerra pessoal contra o pai. Mas foi o que fez
no minuto crucial da sua vida,
sem levar em conta para nada a beleza viril do pretendente, nem sua riqueza lendária, nem sua glória
precoce, nem nenhum dos seus méritos
reais, e sim aturdida pelo medo da oportunidade
que lhe escapava e da iminência dos vinte e um
anos, que era seu limite
confidencial para se render ao destino. Bastou-lhe esse minuto
único para assumir a decisão como estava previsto nas leis de Deus e dos homens: até a morte. Então se dissiparam
todas as dúvidas, e pôde fazer sem
remorsos o que a razão lhe indicou
como o mais decente: passou uma esponja
sem lágrimas por cima da lembrança de Florentino Ariza, apagou-o por completo, e no espaço que ele ocupava em sua memória deixou que florescesse uma campina de papoulas. A única coisa que permitiu a si mesma foi um suspiro mais fundo que de costume,
o último: "Pobre homem!"
As dúvidas
mais temíveis, contudo, começaram logo
que voltou da viagem de núpcias. Mal haviam acabado de abrir os baús, de desencaixotar os móveis e esvaziar as onze caixas que
trouxera para tomar posse como ama
e senhora do antigo
palácio do Marquês de Casalduero, e já percebera numa vertigem mortal que estava aprisionada
na casa errada, e o que era ainda pior, com
o homem que não era. Precisou de seis anos para sair. Os piores da sua vida,
desesperada com o azedume de dona
Blanca, sua sogra, e o atraso mental das cunhadas, que se não tinham ido apodrecer
vivas numa cela de claustro é porque já a carregavam
dentro de si.
O doutor Urbino, resignado a pagar os tributos da estirpe,
se fez
surdo às suas súplicas,
confiando em que a sabedoria de Deus e
a infinita capacidade de adaptação da esposa haviam de pôr as coisas no seu devido
lugar. Doía-lhe o declínio da mãe,
cuja alegria de viver infundia outrora o desejo de estar
vivos até nos mais incrédulos. Era
certo: aquela mulher formosa, inteligente,
de uma sensibilidade humana nada comum em seu meio, tinha sido durante quase quarenta
anos a alma e o corpo do seu paraíso
social. A viuvez a perturbara a ponto de não
se acreditar que fosse a
mesma, e a tornara balofa e ácida, e
inimiga do mundo. A única explicação
possível de sua degradação era seu rancor por achar que o marido se sacrificara em sã consciência por uma montoeira
de negros, como dizia ela,
quando o único sacrifício justo teria sido o de sobreviver para ela. Em todo caso, o casamento feliz de
Fermina Daza tinha tido a duração da viagem
de núpcias, e a única pessoa que
podia ajudá-la a impedir o naufrágio final vivia paralisada
de terror perante a potestade da mãe. Era a ele, e não às cunhadas imbecis e à sogra meio doida, que
Fermina Daza atribuía a culpa pela armadilha de
morte em que fora apanhada. Tarde demais,
desconfiava de que, por trás da sua autoridade
profissional e seu fascínio mundano,
o homem com quem se casara era um fraco
sem redenção: um pobre-diabo avalentoado
pelo peso social de um sobrenome.
Refugiou-se no filho recém-nascido.
Ela o sentira sair do seu corpo com o alívio de se livrar
de algo que não era seu, e tinha sofrido com o próprio espanto ao comprovar que não sentia o menor
afeto pôr aquele bezerro nonato
que a parteira lhe mostrou em carne viva, sujo de sebo e de sangue, e com a tripa umbilical enrolada
no pescoço. Mas na solidão do palácio aprendeu a conhecê-lo, se conheceram, e descobriu com uma grande
emoção que os filhos não são
queridos por serem filhos e sim pela amizade que surge quando os
criamos. Acabou por não suportar nada nem
ninguém que não fosse ele na casa da sua desventura. A
solidão a deprimia, o jardim de cemitério, a desídia do tempo nos enormes aposentos sem janelas.
Sentia-se enlouquecer nas noites dilatadas pelos gritos das loucas
no manicômio vizinho. Tinha vergonha do costume de
pôr a mesa de banquetes todos os dias, com toalhas bordadas, serviços de prata e candelabros de funeral,
para que cinco fantasmas
jantassem uma xícara de café com leite e bolinhos de queijo. Detestava o terço ao entardecer, as
posturas afetadas à mesa, as críticas
constantes à sua maneira de pegar o
talher, de andar com essas passadas misteriosas de mulher da
rua, de se vestir como no circo, e até seu jeito matuto
de tratar o marido e de dar
de mamar ao filho sem tapar o seio com a mantilha. Quando fez os primeiros convites para o chá das cinco da tarde,
com biscoitinhos imperiais e geléias de flores,
de acordo com uma moda
recente na Inglaterra, dona Blanca se opôs
a que em sua casa fossem bebidos
remédios para suar a febre em lugar do chocolate com queijo frito e roscas de pão de iúca.
Não lhe escaparam nem os sonhos.
Certa manhã em que Fermina Daza
contou que sonhara com um desconhecido
que passeava nu semeando punhados de cinza pelos salões do palácio,
dona Blanca a interrompeu com secura:
— Uma mulher direita não pode ter essa
classe de sonhos.
À sensação de estar
sempre em casa alheia,
acrescentaram-se duas desgraças maiores. Uma era a dieta quase diária de berinjelas em todas as suas formas, que
dona Blanca se negava a variar em respeito ao marido morto, e que Fermina
Daza recusava comer. Detestava
berinjelas desde menina,
mesmo
antes de tê-las provado, por achar que tinham cor de veneno.
Só que essa vez teve de admitir que de todas
as maneiras algo havia mudado para melhor em
sua vida, já que aos cinco anos
tinha dito o mesmo à mesa, e o pai
a obrigou a comer inteiro o
ensopado previsto para seis pessoas. Pensou que ia morrer, primeiro
devido vômitos da berinjela moída, e em seguida devido à caneca de óleo de rícino que a fizeram tomar à força para curá-la do castigo. As duas
coisas ficaram misturadas em sua memória
como um só purgante, tanto pelo gosto como pelo
terror do veneno, e nos almoços abomináveis do palácio do Marquês de Casalduero
tinha que afastar a vista para não
enjoar em plena mesa com a náusea glacial do óleo de rícino.
A outra desgraça foi a
harpa. Um dia, muito consciente do que queria dizer, dona Blanca tinha
dito: "Não creio em mulheres
direitas que não saibam tocar piano." Foi uma ordem que até o filho tratou
de discutir, pois os melhores anos de sua infância tinham
transcorrido nas galeras das aulas de piano, embora já adulto se sentisse
até grato por elas. Não podia imaginar a mulher submetida à mesma sentença, aos vinte e cinco anos e com um caráter como o seu. Mas a única concessão que obteve da mãe foi que trocasse
o piano pela harpa, com o argumento pueril de
que era o instrumento dos
anjos. Por isso trouxeram de Vieña a harpa magnífica, que parecia de ouro e soava como se fosse, e
que foi uma das relíquias mais
apreciadas do Museu da Cidade, até que o consumiram as chamas
com tudo que tinha dentro. Fermina Daza se submeteu a essa sentença de luxo tratando
de impedir o naufrágio com um sacrifício final. Começou com um mestre de
mestres que trouxeram para isso
da cidade de Mompox, e
que morreu de repente aos quinze dias, e
continuou por vários anos com o músico principal do seminário, cujo
hálito de coveiro deformava os arpejos.
Ela própria se surpreendeu com sua obediência. Pois embora não o admitisse em seu foro
íntimo, nem nos pleitos surdos que
tinha com o marido nas horas que antes consagravam ao amor, enrolara-se
mais depressa do que acreditava no emaranhado de convenções e preconceitos do seu novo
mundo. No início tinha uma frase ritual para afirmar sua liberdade
de critério: "À merda o leque que o tempo é de brisa."
Mas depois, zelosa dos seus privilégios bem conquistados, temerosa da
vergonha e do escárnio, se dispunha a suportar até a humilhação, na esperança de que Deus
se apiedasse por fim de dona
Blanca, não se cansando de suplicar em suas orações que lhe mandasse
a morte.
O doutor Urbino justificava sua própria fraqueza
com argumentos de crise, sem sequer perguntar a si mesmo se não contrariavam sua igreja. Não admitia
que os conflitos com a esposa tivessem origem no ar rarefeito da casa, atribuindo-os à natureza mesma do casamento:
uma invenção absurda que só podia existir pela graça infinita de
Deus. Ia contra toda razão
científica que duas pessoas apenas conhecidas, sem parentesco nenhum entre
si, com caracteres diferentes, com
culturas diferentes, e até com sexos diferentes,
se
vissem comprometidas de repente
a viver juntas, a dormir na mesma cama, a compartilhar dois destinos que
talvez estivessem determinados em sentidos divergentes.
Dizia: "O problema do casamento é que se acaba todas as noites depois
de se
fazer o amor, e é preciso tornar
a reconstruí-lo todas as manhãs antes do café."
Pior ainda o deles, dizia, surgido de duas
classes antagônicas, e numa cidade
que ainda continuava sonhando com o regresso dos vice-reis. A única
argamassa possível era algo tão improvável e volúvel
como o amor, se é que havia, e no caso deles não havia quando se casaram, e o destino não fizera mais do que pô-los à frente da realidade quando estavam a ponto de inventá-lo.
Esse era o estado de suas vidas na época da harpa. Tinham ficado para trás
os acasos deliciosos dela entrando enquanto ele
tomava banho, e apesar das discussões,
das berinjelas venenosas, e apesar das irmãs dementes e da mãe
que as pariu, ele tinha ainda
bastante amor para pedir a ela que o ensaboasse.
Ela começava a fazê-lo com as
migalhas de amor que ainda sobravam da Europa, e os dois iam se deixando trair pelas lembranças, abrandando sem querer, se querendo sem dizer, e acabavam morrendo de amor
no chão, besuntados de espumas fragrantes, enquanto ouviam as criadas falando deles na lavanderia: "Se não têm mais filhos é porque não trepam." De vez em quando, ao voltarem de uma festa louca, a saudade agachada atrás da porta os derrubava de uma patada, e
então ocorria uma explosão
maravilhosa na qual tudo era outra vez como antes, e durante cinco minutos tornavam a ser os amantes desbragados da lua-de-mel.
Mas à parte essas ocasiões raras, um dos dois estava sempre mais cansado que
o outro à hora de dormir. Ela se atrasava no banheiro enrolando seus cigarros de papel perfumado,
fumando sozinha, reincidindo em seus amores de consolação como quando
era jovem e livre em sua casa, dona única do seu corpo. Estava
sempre com dor de cabeça, ou
fazia calor demais, sempre, ou fingia que estava dormindo, ou tinha a regra de novo, a regra, sempre a regra. De tal forma que o doutor Urbino se atrevera a dizer em classe, pelo exclusivo alívio
de um
desafogo sem confissão, que depois de dez anos de casadas as mulheres tinham
a regra até três vezes por semana.
Desgraças chamando desgraças, Fermina Daza teve que
afrontar no pior
dos seus anos o que aconteceria
mais cedo ou mais tarde sem remédio: a verdade sobre os negócios fabulosos
e nunca conhecidos do pai. O governador provincial que
convocou Juvenal Urbino a seu gabinete
para pô-lo ao corrente dos desmandos
do
sogro resumiu-os numa frase: "Não há lei divina nem humana que esse sujeito não
tenha levado de roldão." Algumas de suas trapaças
mais graves ele as fizera à
sombra do poder do genro, e teria sido difícil pensar que este e sua
esposa não estivessem ao
corrente. Sabendo que a única
reputação a proteger era a sua, por ser a
única que ficava de pé, o doutor
Juvenal Urbino interpôs todo o peso de seu poder, e conseguiu cobrir o escândalo com sua
palavra de honra. E Lorenzo
Daza saiu do país no primeiro navio para não
voltar nunca mais. Voltou à sua terra de origem como se fosse uma dessas
pequenas viagens feitas de vez em
quando para enganar a
saudade, e no fundo dessa aparência havia algo de verdade: havia já algum tempo subia aos navios
de
sua pátria
apenas para tomar um copo
d'água dos tanques abastecidos nos mananciais de seu povoado
natal Partiu sem dar o braço a torcer, protestando
inocência, e ainda tentando convencer o genro de
que fora vítima de uma conspiração
política. Partiu chorando pela menina, como chamava Fermina Daza desde que se casara, chorando pelo neto, pela terra em que se fizera
rico e
livre, e onde conseguira a façanha de
converter a filha numa dama requintada
à base de negócios turvos.
Partiu envelhecido e doente, mas ainda viveu
muito mais do que
qualquer de suas vítimas teria
desejado. Fermina Daza não pôde reprimir um suspiro
de alívio quando recebeu a notícia da morte, e não pôs luto para evitar
perguntas, mas durante vários meses chorava
com uma raiva surda sem saber por que quando se trancava para fumar no
banheiro, e é que chorava por ele.
O mais absurdo da situação
é que nunca pareceram tão felizes em público como naqueles anos de infortúnio. Pois na realidade foram os anos de suas vitórias
maiores sobre a hostilidade soterrada de um meio que não se resignava a admiti-los como eram: diferentes e inovadores, e
portanto transgressores da ordem
tradicional. Contudo, essa tinha
sido a parte fácil para Fermina Daza. A vida mundana, que
tantas incertezas lhe trazia antes de conhecê-la, não passava de um
sistema de pactos atávicos, de cerimônias banais, de palavras previstas, com o qual se entretinham uns aos outros na sociedade para
não se assassinarem. O signo
dominante desse paraíso da frivolidade
provinciana era o medo do desconhecido. Ela o definira de um modo mais simples: "O problema da vida pública é aprender a dominar o
terror, o problema da vida conjugai é
aprender a dominar o tédio." Tinha feito
a descoberta de repente com a
nitidez de uma revelação no instante em que
entrou arrastando a interminável cauda de noiva
no vasto salão do Clube Social,
rarefeito pelos vapores misturados de tantas flores, o brilho das valsas, o tumulto de homens
suarentos e mulheres trêmulas que a olhavam sem saber ainda como iam conjurar aquela ameaça deslumbrante que lhes mandava o mundo exterior. Acabava de
fazer vinte e um anos e mal tinha saído de casa para
ir ao colégio, mas lhe bastou um olhar circular para compreender
que seus adversários não estavam
dominados pelo ódio e sim paralisados
pelo medo. Em vez de assustá-los,
como estava ela assustada, fez a caridade
de os ajudar a conhecê-la.
Ninguém foi diferente daquilo que ela queria que fosse, como lhe ocorria
com as cidades, que não lhe pareciam melhores nem
piores, e sim como as construía
em seu
coração. De Paris, apesar da chuva perpétua, dos lojistas sórdidos e da grosseria
homérica dos cocheiros, ela havia de se lembrar
sempre como a cidade mais formosa do
mundo, não porque na realidade fosse ou
deixasse de ser, e sim porque ficara vinculada à saudade de seus anos
mais felizes. O doutor Urbino, de sua parte,
se impôs com armas iguais às que
usavam contra ele, só que manejadas com mais inteligência, e
com uma solenidade calculada. Nada acontecia sem eles: os passeios cívicos, os
Jogos Florais, as manifestações artísticas,
as tômbolas de caridade, os atos patrióticos, a primeira viagem em balão. Ninguém poderia imaginar, em seus anos de desgraças,
que pudesse haver alguém mais feliz do que eles
nem um casamento tão harmônico quanto o seu. A casa abandonada pelo pai
deu a Fermina Daza um refúgio próprio
contra a asfixia do palácio
familiar. Logo que escapava à vista pública, ia às escondidas à praça dos
Evangelhos, e lá recebia as amigas novas e algumas antigas do colégio ou das aulas de pintura: um substituto
inocente da infidelidade.
Vivia horas aprazíveis de mãe solteira com o muito que ainda lhe restava
das lembranças de menina. Tornou a comprar os corvos
perfumados, recolheu gatos da rua e os colocou aos cuidados de Gala Placídia,
já velha e um tanto entrevada pelo reumatismo,
mas ainda com ânimo para ressuscitar a casa. Tornou a abrir o quarto de costura onde Florentino Ariza a viu pela
primeira vez, onde o doutor Juvenal Urbino a fez mostrar a língua para lhe
conhecer o coração e o converteu num santuário
do passado. Uma tarde de inverno foi
fechar a sacada antes que
desabasse a tempestade, e viu Florentino Ariza em seu banco debaixo das amendoeiras da pracinha, com o
traje do pai diminuído para ele e o livro aberto no colo, mas não o viu
como então o via por acaso de vez em quando, e sim na idade com que lhe ficou na memória. Sentiu o temor de que
aquela visão fosse um aviso da
morte, e teve pena. Atreveu-se a dizer a si mesma que talvez tivesse sido feliz com ele, só com ele
naquela casa que ela reformara
para ele com tanto amor quanto ele havia reformado a sua
para ela, e a mera suposição
a assustou, porque a fez perceber os extremos de desdita a que havia chegado. Então
apelou para suas últimas forças e obrigou o marido a discutir sem evasivas, a lhe fazer frente, a
brigar com ela, a chorarem juntos de raiva pela perda do paraíso, até
que ouvissem cantar os últimos gaios, e a luz se fez pelos beirais do palácio, e se acendeu
o sol, e o
marido inflamado de tanto falar, esgotado de não dormir, com o coração
fortalecido de tanto chorar, apertou os cordões das botas, apertou o cinto, apertou tudo
o que
ainda lhe restava de homem,
e lhe disse que sim, meu amor, que iam buscar o amor que
havia fugido deles na Europa: amanhã mesmo e
para sempre. Foi uma decisão tão correta que acertou com o
Banco do Tesouro, seu administrador universal, a liquidação
imediata da vasta fortuna familiar, dispersa desde as origens em toda classe de negócios, investimentos e
papéis sagrados e lentos, e da qual ele
só sabia como ciência certa que
não era tão desmedida como dizia a lenda: apenas o justo para não ter que
pensar nela. O que fosse, convertido em ouro registrado, devia ser transferido pouco a pouco para seus
bancos no exterior, até que não restasse mais a ele e sua mulher nesta pátria inclemente nem um palmo de terra onde cair mortos.
Pois Florentino Ariza existia, na realidade, ao
contrário do que ela se propusera
crer. Estava no cais do transatlântico
da França quando ela chegou com o marido e o filho no
landô dos cavalos de ouro, e os viu
descer como tantas vezes vira nos atos
públicos: perfeitos. Iam com o filho, educado
de uma
forma que já permitia saber
como seria adulto: tal como foi. Juvenal
Urbino saudou Florentino Ariza com um chapéu
alegre: "Vamos à conquista de Flandres."
Fermina Daza fez uma inclinação de cabeça,
e Florentino Ariza se descobriu, com uma reverência ligeira, e ela reparou nele
sem um gesto de compaixão pelos estragos prematuros de sua calvície.
Era ele, tal como ela o via: a sombra de alguém que jamais conheceu.
Florentino Ariza também não estava em seu
melhor momento. Ao trabalho cada dia
mais intenso, a seus caprichos de caçador furtivo, à mole calma dos anos, acrescentara-se a
crise final de Trânsito Ariza, cuja memória acabara
sem lembranças: quase em branco. Até o ponto em que às vezes
se voltava para ele, o via lendo na cadeira de braços de sempre, e lhe perguntava espantada: "E você é filho de quem?"
Ele respondia sempre a verdade, mas ela
tornava a interromper.
—
E me diga uma coisa, filho — perguntava: — quem sou
eu?
Tinha engordado tanto que não podia se mexer, e passava o dia no armarinho onde já não havia nada a
vender, enfeitando-se desde que se levantava
com os primeiros gaios até a madrugada do dia seguinte,
pois dormia muito poucas
horas. Punha grinaldas de flores
na cabeça, pintava os lábios, empoava o rosto e os braços, e no fim perguntava
a quem estivesse com ela como
tinha ficado. Os vizinhos sabiam que esperava
sempre a mesma resposta: "Você é
a Cucarachita Martínez." Esta identidade, usurpada à personagem de uma história
infantil, era a única que a deixava satisfeita. Balançava-se na cadeira,
abanava-se com o ramalhete de grandes
plumas cor-de-rosa, até começar tudo de novo:
a coroa de flores de papel, o
almíscar nas pálpebras, o carmim nos lábios, a crosta de alvaiade na cara. E outra vez a pergunta a quem estivesse
perto: "Como fiquei?" Quando
se converteu na rainha de troças da
vizinhança, Florentino Ariza fez desmontar
numa noite o balcão e as cômodas do antigo armarinho, condenou a porta da rua, arrumou o local de acordo
com a descrição que ela fazia do quarto de
Cucarachita Martínez, e ela nunca
mais tornou a perguntar quem era.
Por sugestão do tio Leão XII empregara uma mulher mais velha para se ocupar dela, mas a coitada andava sempre
mais para dormindo que para acordada, e às vezes dava a impressão de que também ela esquecia quem era. De modo que Florentino
Ariza ficava em casa desde que saía do escritório até que conseguia botar a mãe para dormir. Não foi mais jogar
dominó no Clube do Comércio, nem tornou a ver durante muito tempo as poucas amigas antigas que
continuava freqüentando, pois algo muito profundo
mudara em seu coração depois do seu encontro de horror com Olímpia Zuleta.
Tinha sido fulminante.
Florentino Ariza acabava de levar
o tio Leão XII até sua casa, durante uma daquelas tempestades de outubro
que nos deixavam em convalescença,
quando viu do carro uma moça miúda, muito ágil, com um traje
cheio de babados de organdi que
mais parecia um vestido de noiva. Viu-a correndo atarantada de um lado para
outro, porque o vento lhe arrancara
da
mão a sombrinha e a carregava voando pelo mar. Ele a acolheu no carro e se desviou do seu caminho
para levá-la para casa, uma antiga
ermida adaptada para fazer
face ao mar aberto, cujo pátio cheio de
casinhas de pombos se via da
rua. Ela contou no caminho que tinha se
casado há menos de
um ano com um vendedor de louça do mercado que Florentino Ariza tinha visto
muitas vezes nos navios da sua empresa,
desembarcando caixotes de toda a espécie de potes para vender, e com um mundo de pombos numa gaiola de vime como a que usavam as mães nos
navios fluviais para carregar os filhos recém-nascidos. Olímpia Zuleta parecia pertencer à família das
vespas, não só pelas ancas
empinadas e o busto exíguo, como por toda ela: o cabelo de fio de cobre, as sardas, os olhos redondos e vivos, mais separados que
o normal, e uma voz afinada que ela só usava
para dizer coisas inteligentes e divertidas. Pareceu a
Florentino Ariza mais graciosa do que
atraente e a esqueceu mal a deixou na sua casa,
onde morava com o marido, e com o pai deste
e outros membros da família.
Uns dias depois, tornou a ver o marido no porto,
embarcando mercadoria em vez de desembarcá-la, e quando o navio zarpou,
Florentino Ariza ouviu muito clara no ouvido a voz do diabo. Nessa tarde, depois de acompanhar tio Leão XII, passou como por acaso pela casa de Olímpia Zuleta, viu-a por cima da cerca,
dando
de comer aos pombos
alvoroçados. Gritou-lhe do carro por
cima da cerca: "Quanto custa uma pomba?"
Ela o reconheceu e respondeu com voz alegre: "Não se vendem." Ele perguntou:
"Então como se faz para ter uma?"
Sem deixar de dar de comer aos pombos, ela respondeu: "Leva-se de
carro a pombeira que se encontra
perdida no aguaceiro." Desta forma, Florentino Ariza chegou a casa
naquela noite com um presente de gratidão de Olímpia Zuleta: um pombo-correio
com um anel de metal na canela.
Na tarde seguinte, à mesma hora da
comida, a bela pombeira viu a pomba presenteada de volta ao pombal, e pensou que tivesse fugido. Mas quando a pegou para examiná-la reparou que tinha um papelzinho enrolado no anel:
uma
declaração de amor. Era
a primeira vez que Florentino Ariza deixava uma
pegada escrita, e não seria a
última, embora nesta ocasião tivesse tido
a prudência de não assinar. Ia
entrando em casa na tarde seguinte,
quarta-feira, quando um menino da rua lhe
entregou a mesma pomba dentro de uma gaiola
com o recado decorado de que aqui lhe
manda isto a senhora dos
pombos, e lhe manda dizer que por
favor guarde bem a pomba na gaiola fechada porque do contrário torna a voar e esta
é a última vez que é
devolvida. Não soube que interpretação dar: ou bem a pomba tinha perdido a carta no caminho, ou a pombeira
tinha resolvido fazer-se de tola, ou
mandava a pomba para que ele tornasse a mandá-la. Neste último caso, contudo, o natural teria sido ela devolver a pomba com uma resposta.
Sábado pela manhã, depois de muito pensar, Florentino Ariza tornou a
mandar a pomba com outra carta sem assinatura.
Desta vez não teve que esperar o dia seguinte.
À tarde, o mesmo menino tornou a trazê-la em outra gaiola, com o recado de aqui vai outra vez a pomba que lhe fugiu
de novo, que anteontem foi devolvida por boa educação e que agora é devolvida por
pena, más que agora a pura verdade é
que não será mais mandada se tornar a
voar. Trânsito Ariza se entreteve até muito tarde
com a pomba, tirou-a da gaiola,
arrulhou para ela embalando-a nos braços, procurou
adormecê-la com canções de ninar, e de repente percebeu que tinha no anel do pé
um papelzinho com uma só linha:
Não aceito carta anônima. Florentino
Ariza o
leu
com o coração
enlouquecido, como se fosse a
culminação de sua primeira aventura, e mal conseguiu
dormir à noite em sobressaltos de impaciência. No dia seguinte muito
cedo, antes de ir para o escritório, soltou de novo a pomba
com um papel de amor assinado
com seu nome muito claro, e
botou ainda no anel a rosa mais fresca, mais afogueada e fragrante do seu jardim.
Não foi tão fácil. Ao cabo de
três meses de assédios, a bela pombeira continuava
respondendo o mesmo: "Eu não sou dessas." Mas nunca deixou de receber as mensagens ou de acudir
aos encontros que Florentino Ariza arrumava de
maneira a parecerem casuais. Estava desconhecido: o amante que nunca
mostrava a cara, o mais ávido de amor
mas também o mais mesquinho, o que
não dava nada e queria tudo, o que
não permitia que ninguém lhe deixasse no coração a pegada de
um
passo, o caçador acocorado saiu pelo meio da rua num arrebatamento de cartas assinadas, de presentes galantes, da rondas imprudentes à casa da pombeira, mesmo em duas ocasiões em que o marido não andava de viagem
nem estava no mercado. Foi a única
vez, desde os primeiros tempos do primeiro
amor, que se
sentiu atravessado por uma lança.
Seis meses depois
do primeiro encontro se viram por fim no camarote de um navio fluvial
que estava em reparos de pintura no cais do rio. Foi uma tarde maravilhou. Olímpia Zuleta tinha um amor alegre, de pombeira alvoroçada, e gostava de ficar nua
durante várias horas, num repouso
lento que tinha para ela
tanto amor quanto o amor. O camarote estava desmantelado, pintado pela
metade, e o cheiro da terebintina era bom de se carregar
com as lembranças de uma tarde
feliz. De repente, a conselho de
uma inspiração insólita,
Florentino Ariza destapou um tacho de pintura
vermelha que estava ao alcance do beliche,
molhou o indicador, e pintou no púbis
da bela pombeira uma flecha
de sangue voltada para o sul,
e lhe escreveu um letreiro no ventre:' 'Esta pomba é minha''. Nessa mesma noite
Olímpia Zuleta se despiu na frente do marido sem
se lembrar do letreiro, e ele não disse uma palavra,
nem se alterou sua respiração, nada, se limitando
a ir ao banheiro pegar a navalha de barba enquanto ela punha a camisola e a degolou
de um talho.
Florentino Ariza só veio
a saber muitos dias depois, quando o
marido fugitivo foi capturado e
contou aos jornais as razões e a forma do crime. Durante muitos anos pensou com temor nas
cartas assinadas, guardou a conta dos anos de
cárcere do assassino que o conhecia muito bem devido aos negócios que fazia nos
navios, mas não temia tanto a
navalhada no pescoço, nem o escândalo
público, como a má sorte de que Fermina Daza viesse a saber da sua deslealdade. Nos anos de espera,
a mulher que cuidava de Trânsito Ariza teve que se retardar no mercado por causa de um aguaceiro fora de estação, e quando voltou a casa encontrou-a morta. Estava
sentada na cadeira de balanço,
sarapintada e floral, como sempre, e com os olhos tão vivos em um sorriso tão
malicioso que a guardiã só reparou que
estava morta passadas duas horas. Pouco antes tinha distribuído pelas crianças da vizinhança a fortuna em ouros e pedrarias das
botijas enterradas debaixo da cama,
dizendo que eram de comer, feito caramelos, e
não foi possível recuperar
algumas das mais valiosas. Florentino Ariza a enterrou na
antiga fazenda da Mão de Deus,
que era ainda conhecida como o Cemitério
do Cólera, e semeou sobre seu túmulo um bosque
de
rosas.
Desde as primeiras visitas ao cemitério, Florentino
Ariza descobriu que muito perto
estava enterrada Olímpia Zuleta, sem lápide,
mas com o nome e a data escritos com o dedo no cimento fresco da cripta,
e achou horrorizado que era uma zombaria
sangrenta do marido. Quando o rosai floresceu, punha uma rosa no túmulo, se não houvesse
ninguém à vista, e mais tarde plantou ali uma muda cortada do rosai
da mãe. Ambos os rosais proliferaram
com tanto alvoroço que Florentino Ariza tinha que levar suas tesouras e outras ferramentas de jardim para mantê-los
em ordem. Mas foi superior às suas forças:
passados alguns anos os dois rosais se haviam
espalhado feito mato no meio dos túmulos,
e o bom cemitério da peste passou a se chamar Cemitério das Rosas, até que algum prefeito menos realista que a sabedoria popular arrasou numa só noite
os rosais e pendurou um letreiro
republicano no arco da entrada: Cemitério
Universal.
A morte da mãe deixou Florentino Ariza condenado
outra vez a seus compromissos
maníacos: o escritório, os encontros em turnos
estritos com as amantes crônicas, as partidas
de
dominó no Clube do Comércio,
os mesmos livros de amor,
as visitas dominicais ao cemitério. Era o oxido da rotina, tão denegrido e tão temido, mas que o havia protegido da consciência da idade. Contudo, num domingo
de
dezembro, quando os rosais dos túmulos,
tinham derrotado as tesouras, viu as andorinhas nos fios da luz elétrica recém-instalada, e notou de repente quanto tempo se passara desde a morte da mãe,
e quanto desde o assassinato de Olímpia
Zuleta, e quanto e quanto desde aquela outra tarde
do dezembro distante em que
Fermina Daza lhe mandara uma carta dizendo que sim, que o amaria por todo o sempre. Até
então se comportara como se o tempo só
passasse para os outros e não
para ele. Ainda na semana anterior tinha encontrado na rua um dos
tantos casais que o eram graças às cartas escritas por ele, e não reconheceu o filho mais
velho, que era seu afilhado. Saiu do constrangimento
com o espavento convencional:
"Puxa, está um homem!"
Continuava sendo assim, mesmo depois que o corpo começou a lhe mandar os primeiros sinais de alarma,
pois sempre gozara da saúde de pedra
dos doentios. Trânsito Ariza costumava dizer: "Meu filho só ficou
doente mesmo com o cólera."
Confundia o cólera com o amor, é claro, e isso
muito tempo antes da sua memória
se embrulhar. Mas de todas as
maneiras se enganava, porque o filho tinha tido em segredo seis blenorragias,
embora o médico dissesse que não eram seis e sim
a mesma e única que reaparecia
depois de cada batalha perdida. Tinha
tido ademais uma adenite, quatro
cancros moles e seis orquites, mas nem a ele nem a homem
nenhum ocorreria enumerar tais coisas como doenças, e sim como troféus
de guerra.
Completados quarenta anos, tinha tido que recorrer ao
médico com dores indefinidas em várias
partes do corpo. Depois de muitos
exames, o médico tinha dito: "São coisas
da idade." Ele voltava sempre
para casa sem sequer perguntar a si mesmo se aquilo tinha
algo a ver com ele. Pois o único
ponto de referência do seu passado
eram seus amores efêmeros com Fermina Daza, e só o que tivesse
alguma coisa a ver com ela tinha
algo a ver com as contas da sua vida. De maneira que na tarde em
que viu as andorinhas nos fios de luz, repassou
seu passado desde a lembrança mais
antiga, repassou seus amores de ocasião, os incontáveis escolhos que tinha tido que contornar para alcançar um posto de mando, os
incidentes sem conta que lhe causara a determinação encarniçada de que Fermina Daza fosse sua, e ele dela por cima de tudo e contra tudo, e só então
descobriu que sua própria vida estava se escoando. Sentiu um calafrio nas vísceras que o deixou sem luz, e teve que soltar as ferramentas de jardim e se apoiar no
muro do
cemitério para não ser derrubado pela primeira patada da velhice.
—
Porra — disse aterrado — tudo está fazendo
trinta anos!
Assim era. Trinta anos tinham passado também para Fermina Daza, sem dúvida, mas tinham sido para
ela os mais gratos e
reparadores de sua vida. Os dias de horror do Palácio de Casalduero
estavam relegados à lixeira da memória.
Morava em sua nova casa da Mangueira,
dona absoluta do seu destino, com um marido que tornaria a preferir entre todos os homens do
mundo se tivesse tido que escolher outra vez, com um filho que prolongava a tradição da estirpe na Escola de Medicina, e uma filha tão parecida
com ela quando tinha sua idade
que às vezes a perturbava a
impressão de se sentir repetida. Tinha voltado três vezes à Europa depois da viagem
de desespero prevista como sem retorno para não continuar a viver num
susto perpétuo.
Deus deve ter escutado por fim as
orações de alguém: depois de dois
anos de estada em Paris, quando Fermina Daza e Juvenal
Urbino mal começavam a buscar o que sobrara do
amor entre os escombros, um telegrama
de meia-noite os acordou com a
notícia de que dona Blanca de Urbino estava com doença grave, e quase foi alcançado pelo outro, com a notícia da morte. Voltaram de pronto. Fermina Daza desembarcou com uma túnica de luto cuja largueza não dava para disfarçar seu estado. Estava grávida de novo, com efeito, e a notícia deu origem a uma canção popular mais maliciosa que maligna, cujo estribilho esteve na moda o resto do ano:
O que será que dá na bela em Paris, que sempre que vai volta para parir! Apesar da letra ordinária, o
doutor Juvenal Urbino mandava tocá-la até muitos
anos depois nas festas do
Clube Social como prova de sua boa disposição.
O nobre palácio do Marquês
de Casalduero, de cuja existência e brasões não se encontrou
nunca uma notícia certa, foi vendido primeiro à Tesouraria
Municipal por um preço adequado, e depois revendido por uma fortuna ao governo
central, quando um pesquisador
holandês andou fazendo escavações para provar
que ali estava o verdadeiro túmulo de Cristóvão Colombo: o quinto. As irmãs
do doutor Urbino foram morar no
convento das Salesianas, em reclusão sem votos, e Fermina Daza permaneceu na antiga casa do pai até
que se terminou a quinta da Mangueira. Entrou nela pisando firme, entrou para mandar, com os móveis
ingleses trazidos desde a viagem de núpcias e os complementares que fez vir depois da viagem
de reconciliação, e a partir do primeiro dia começou a enchê-la de toda
classe de bichos exóticos que ela própria
ia comprar nas goletas das Antilhas.
Entrou com o marido recuperado, o filho bem
criado, a filha que nasceu quatro meses depois da volta e à qual batizaram com o nome de Ofélia. O doutor Urbino, de sua parte,
entendeu que era impossível recuperar a esposa de um modo tão completo
como a tivera na viagem de núpcias, porque a parte de
amor que ele queria ela a dera aos filhos com o melhor do
seu tempo, mas aprendeu a
viver e a ser feliz com os resíduos.
A harmonia pela qual tanto aspiravam culminou
por onde menos esperavam num jantar de cerimônia em que
serviram um prato delicioso que Fermina Daza não conseguiu identificar. Começou com
uma boa porção, mas gostou tanto que
repetiu com outra igual, e estava com pena de
não se servir outra igual por
princípio de boas maneiras quando descobriu que
acabava de comer com um prazer insuspeitado dois pratos transbordantes de purê de
berinjela. Perdeu com galhardia: a partir de então, na quinta da Mangueira
foram servidas berinjelas em todas as suas formas quase com tanta freqüência
quanto no Palácio de Casalduero, e
eram tão apetecidas por todos que o
doutor Juvenal Urbino alegrava os tempos livres da velhice dizendo que
queria ter outra filha para lhe
pôr o nome bem-amado na casa:
Berinjela Urbino.
Fermina Daza sabia então que a vida privada, ao contrário da vida pública, era mutável e imprevisível. Não lhe
era fácil estabelecer diferenças
reais entre crianças e adultos, mas em última
análise preferia as crianças, por terem critérios mais certos. Mal dobrara o cabo da maturidade,
desprovida por fim de qualquer ilusão, começou a vislumbrar a decepção de não ter sido nunca o que sonhava ser quando jovem, na praça dos Evangelhos, e sim algo que nunca ousara dizer sequer a si
mesma: uma criada de luxo. Em
sociedade passou a ser a mais amada,
a mais mimada, e por isso mesmo a mais temida, mas em nada exigia de si mesma rigor maior ou se perdoava menos do que no governo da casa. Sempre se sentiu vivendo
uma vida emprestada pelo marido:
soberana absoluta de um vasto império de felicidade edificado
por ele e só para ele. Sabia que ele a amava para lá de tudo, mais do que ninguém no mundo,
mas só para ele: a seu santo serviço.
Se alguma coisa a mortificava era a cadeia perpétua das refeições
diárias. Pois não tinham só que estar na hora: tinham que ser perfeitas, e tinham que ser justo o que ele queria comer sem que antes lhe fosse perguntado. Se
ela o fazia alguma vez, como uma das tantas
cerimônias inúteis do ritual doméstico, ele sequer levantava a vista do jornal
para responder: "Qualquer
coisa." Dizia a sério, com seu jeito
amável, porque não se podia
conceber um marido menos despótico. Mas à hora de comer não
podia ser. qualquer coisa, e sim justo o que ele queria, e sem a mínima falha: que a carne não soubesse a carne, que o peixe não soubesse a peixe, que o porco não soubesse a sarna, que o frango não soubesse a penas. Mesmo quando não era tempo de aspargos
era preciso encontrá-los a qualquer preço para
que ele pudesse se extasiar no vapor de sua própria urina fragrante. Não punha
a culpa nele: punha a culpa na vida. Mas ele era
um protagonista implacável da vida.
Bastava o tropeço de uma dúvida para
que ele empurrasse o prato na mesa,
dizendo: "Esta comida foi feita
sem amor." Nesse sentido chegava a rasgos fantásticos de inspiração.
Certa vez, mal provou uma tisana de camomila devolveu-a com uma única frase: "Esta droga está
com gosto de janela."
Tanto ela quanto as criadas se
espantaram, pois ninguém sabia de alguém que tivesse bebido uma janela
fervida, mas quando provaram a tisana procurando entender, entenderam: tinha
gosto de janela.
Era um marido
perfeito: nunca apanhava nada no chão, nem apagava a luz, nem fechava a
porta. Na escuridão da manhã, quando faltava um botão na roupa, ela o ouvia dizer:
"A gente devia ter duas mulheres, uma para
querer bem, outra para pregar
botão." Todos os dias, ao primeiro gole do
café, e à primeira colherada de sopa fumegante,
dava um uivo desesperado que
já não assustava ninguém, e em seguida o suspiro: "No dia
em que me mande desta casa, podem saber
que foi porque me cansei de viver com a boca queimada." Dizia
que nunca o almoço era mais apetitoso e fino do que
nos dias em que ele não podia comê-lo por ter tomado
purgante, e estava tão convencido de que
era uma perfídia da mulher que acabou por não se purgar
se ela
não se purgasse com ele.
Aborrecida com sua incompreensão,
ela lhe pediu um insólito presente de aniversário: que ele fizesse por um dia os trabalhos domésticos. Ele aceitou divertido,
e com efeito tomou posse da casa
desde o amanhecer. Serviu um café
esplêndido, mas esqueceu que ela não se
dava bem com ovos fritos e
não tomava café com leite. Deu logo instruções para o almoço de aniversário com oito
convidados e tomou disposições para a arrumação da casa, e tanto se esforçou por
fazer um governo melhor que o
dela que antes do meio-dia teve que
capitular sem um gesto de vergonha. Desde o primeiro momento percebeu que não tinha a menor idéia de onde estava nada,
sobretudo na cozinha, e as criadas deixaram que
revirasse tudo para encontrar
cada coisa, pois também jogaram o
jogo. Às dez não se haviam tomado decisões para o almoço porque ainda não estava
terminada a limpeza da
casa nem a arrumação dos
quartos, o banheiro estava por limpar, e ele
esquecera de mandar botar o papel higiênico, trocar os lençóis e mandar o cocheiro buscar os
filhos, e confundiu as tarefas das criadas: ordenou à cozinheira
que fizesse as camas e pôs as arrumadeiras na cozinha. Às onze, quando
já estavam a ponto de chegar os
convidados, era tal o caos na casa que Fermina Daza reassumiu o comando, morta
de rir, mas não com a atitude
triunfal que teria querido adotar, e sim
trêmula de compaixão diante da inutilidade doméstica do marido. Ele tirou sua forra com o argumento de sempre: "Pelo menos não me
saí tão mal quanto você sairia procurando curar doentes." Mas a
lição foi útil, e não só para ele.
No
curso dos anos ambos
chegaram por caminhos diferentes à
conclusão sábia de que não era possível morar juntos de outro modo, nem se amarem de outro modo: nada neste mundo era mais difícil do Que o amor Na plenitude de sua nova vida, Fermina
Daza via Florentino Ariza em diversas ocasiões públicas, e com tanto mais
freqüência quanto mais ele ascendia em seu trabalho,
mas aprendeu a vê-lo com tanta naturalidade que mais de uma vez se esqueceu de cumprimentá-lo por distração. Ouvia falar dele amiude, porque
no mundo dos negócios era um tema constante sua escalada cautelosa mas
irresistível na C.F.C. Ela o via melhorar de maneiras, sua timidez se decantava num certo distanciamento enigmático,
assentava-lhe bem um ligeiro aumento de peso, convinha-lhe a lentidão da idade, e soubera resolver com dignidade a
calvície arrasadora. Só continuou desafiando para
sempre o tempo e a moda com a indumentária sombria, as sobrecasacas
anacrônicas, o chapéu extraordinário, as gravatas de poeta, de fitas do armarinho da mãe, o guarda-chuva sinistro. Fermina Daza foi se acostumando
a vê-lo de outro modo, e acabou por
não relacioná-lo com o adolescente
lânguido que se sentava a suspirar por
ela exposto às ventanias de flores amarelas da praça dos
Evangelhos. De qualquer maneira, nunca o viu com indiferença, e sempre se alegrou com as boas notícias que lhe davam a
respeito dele, porque pouco a pouco iam
aliviando sua culpa.
Contudo, quando já o imaginava apagado por completo da memória,
reapareceu por onde menos o esperava,
convertido em fantasma de suas saudades.
Foram as primeiras auras da velhice,
quando começou a sentir que
algo irreparável acontecera em sua vida
sempre que ouvia trovejar antes da chuva. Era a ferida incurável do trovão solitário, pedregoso e pontual,
que retumbava todos os dias de outubro
às três da tarde na serra de Villanueva,
e cuja lembrança ia ficando mais recente com o passar dos anos. Enquanto as
lembranças novas se confundiam na memória em poucos dias, as da viagem
lendária pela província da prima Hildebranda se tornavam tão vividas que pareciam de ontem, com a nitidez perversa da
saudade. Lembrava-se de Manaure,
a da serra, sua rua única, reta e verde, seus
pássaros de bom agouro, a casa
dos espantos onde acordava com a camisola empapada com as lágrimas de Petra Morales,
morta de amor muitos anos antes na mesma cama em
que ela dormia. Lembrava-se do gosto das
goiabas de então que nunca mais tinha tornado a ser o mesmo, dos
presságios tão intensos que seu barulho se confundia com o da chuva,
das tardes de topázio de São João de César, quando saía a passeio com a corte de primas assanhadas e mantinha
os dentes apertados para que
o coração não lhe saísse pela boca à medida que se aproximavam do telégrafo. Vendeu de qualquer
maneira a casa do pai porque não podia agüentar a dor da adolescência, a visão da pracinha desolada tal como aparecia da
sacada, a fragrância sibilina das gardênias
nas noites de calor, o susto do retrato de dama antiga na tarde de fevereiro em que se decidiu seu destino, e onde quer que se revolvia sua memória
daqueles tempos esbarrava na lembrança de
Florentino Ariza. Contudo, sempre teve bastante serenidade para perceber que não eram lembranças de amor, nem
de arrependimento, e sim a
imagem de uma insipidez que lhe deixava
um rastro de lágrimas. Sem saber, estava ameaçada pelo mesmo ardil
de compaixão que levara à
perdição tantas vítimas desprevenidas de Florentino Ariza. Aferrou-se ao marido. E justo na época em que ele mais precisava dela, porque ia adiante
dela com dez anos de desvantagem
tateando só entre as névoas da velhice,
e com as desvantagens piores de ser homem e mais fraco. Acabaram por se conhecer tanto que antes dos trinta anos de casados eram como um mesmo ser dividido, e se sentiam pouco à vontade com a freqüência com que adivinhavam sem querer o pensamento um do outro,
ou pelo acidente ridículo de um se antecipar
a dizer em público o que o outro ia
dizer. Tinham contornado juntos as
incompreensões cotidianas, os ódios instantâneos, as grosserias recíprocas e
os fabulosos relâmpagos de glória da cumplicidade
conjugai. Foi a época em que se amaram melhor,
sem pressa e sem excessos,
e ambos foram mais conscientes e gratos pelas vitórias inverossímeis contra a adversidade. A vida
ainda havia de confrontá-los com outras provas mortais, sem dúvida, mas já não tinha importância:
estavam na outra margem.
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