quarta-feira, 28 de outubro de 2015

cap 4

NO DIA EM QUE Florentino Ariza viu Fermina Daza no adro da catedral, grávida de seis meses e com pleno domínio de sua nova condição de mulher do mundo, tomou a decisão feroz de ganhar nome e fortuna para merecê-la. Sequer perdeu tempo em pensar no inconveniente de ser ela casada, porque ao mesmo tempo resolveu, como se dependesse dele, que o doutor Juvenal Urbino tinha que morrer. Não sabia quando nem como, mas estabeleceu como inelutável o acontecimento,  que estava resolvido a esperar sem pressas  nem arrebatamentos, ainda que  fosse  até o fim dos séculos.
Começou pelo princípio. Apresentou-se sem aviso no escritório do tio Leão XII, presidente da Junta Diretora e Diretor Geral da Companhia Fluvial do Caribe, e manifestou a disposição de se submeter ao seus desígnios. O tio estava sentido com ele devido à maneira por que malbaratara o bom emprego de telegrafista na Vila de Leyva, mas se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão  à luz, e sim que a vida os obriga outra   vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos. Além disso, a viúva do irmão tinha morrido no ano anterior, com os rancores em carne viva mas sem deixar herdeiros. Por isso deu o emprego ao sobrinho errante.
Era uma decisão típica do senhor Leão XII Loayza. Dentro de sua casca grossa de traficante sem alma, carregava escondido um lunático genial, que tanto fazia brotar um manancial de limonada no deserto da Guajira como inundava de pranto um funeral solene com seu canto lancinante de In questa tomba oscura. Com  seu  cabelo crespo e seus beiços de fauno, só lhe faltavam a lira e a coroa de louros para ser idêntico ao Nero incendiário da mitologia cristã. As horas que lhe ficavam livres entre a administração de seus navios decrépitos, ainda flutuantes por pura distração da fatalidade, e os problemas cada dia mais críticos da navegação fluvial, ele as consagrava a enriquecer seu repertório lírico. Nada lhe agradava mais do que cantar em enterros. Tinha uma voz de galeote, sem nenhuma disciplina acadêmica, mas capaz de registros impressionantes. Alguém lhe contara que Enrico Caruso podia fazer um jarro de flores em pedaços com o simples poder de sua voz, e durante anos tratou de imitá-lo até com o vidro das janelas. Os amigos traziam os jarros mais tênues que encontravam em viagens pelo mundo, e organizavam festas especiais para que ele conseguisse por fim a culminação do seu sonho. Não conseguiu nunca. Contudo, no fundo do seu trovão havia uma luzinha de ternura que fendia o  coração

dos ouvintes como o grande  Caruso as ânforas de  cristal, e era isto que o tornava  tão venerável nos enterros. Com exceção de um, no qual teve a boa idéia de cantar When I Wake up in Glory, um canto fúnebre da Luisiana, formoso e aterrador, e foi silenciado pêlo capelão que não conseguiu entender aquela intromissão luterana dentro da sua igreja.
Assim, entre bises de ópera e serenatas napolitanas, seu talento criador e seu invencível espírito de empreendimento o converteram no prócer da navegação fluvial em sua época de maior esplendor. Tinha saído do nada, como os dois irmãos mortos, e todos chegaram até onde quiseram apesar do estigma de serem filhos naturais, e com o agravante de jamais terem sido reconhecidos. Eram a flor do que então se chamava a aristocracia de balcão, cujo santuário era o Clube do Comércio. No entanto, mesmo quando dispôs de recursos para viver como o imperador  romano que parecia ser, tio Leão XII morava na cidade velha por comodidade de trabalho, com a esposa e três filhos, e de maneira tão austera e numa casa tão despojada que nunca conseguiu se livrar de uma injusta reputação de avarento. Mas seu único luxo era ainda mais simples: uma casa de mar, a duas léguas dos escritórios, que não tinha como móveis nada além de seis tamboretes artesanais, a talha de filtrar água e uma rede na varanda para dormir e pensar aos domingos. Ninguém o definiu melhor do que ele próprio quando alguém o acusou de ser  rico:
— Rico não — disse: — sou um pobre com dinheiro, o que não é o  mesmo.
Esse curioso modo de ser, que alguém certa vez elogiou num discurso como uma demência lúcida, permitiu que visse na hora o que ninguém via antes  nem  viu depois em Florentino Ariza. A partir do momento em que este se apresentou  pedindo emprego nos seus escritórios, com seu aspecto lúgubre e seus vinte e sete anos inúteis, ele o pôs à prova na dureza de um regime de quartel capaz de dobrar o mais valente. Mas não conseguiu amedrontá-lo. O que tio Leão XII nunca suspeitou foi que essa tempera do sobrinho não lhe vinha de necessidade de subsistir, nem de uma pachorra de bruto herdada do pai, e sim de uma ambição de amor que  nenhuma contrariedade deste mundo ou do outro conseguiria  desalentar.
Os piores anos foram os primeiros, quando o nomearam escrevente da Direção Geral, que parecia um ofício inventado sob medida para ele. Lotário Thugut, antigo professor de música do tio Leão XII, foi quem aconselhou este a nomear o sobrinho para um emprego de escrever, porque era um consumidor incansável de literatura a granel, embora não tanto da boa quanto da pior. Tio Leão XII não fez caso da observação quanto à classe das leituras do sobrinho, pois também dele dizia Lotário Thugut que tinha sido seu pior aluno de canto, e apesar disso fazia chorar  até as lápides dos cemitérios. Em todo caso, o alemão teve razão naquilo em que menos pensara, e era que Florentino Ariza escrevia qualquer coisa com tanta paixão que até os documentos oficiais pareciam de amor. Os manifestos de embarque lhe saíam rimados por mais que se esforçasse em evitá-lo, e as cartas comerciais de rotina tinham um sopro lírico que lhe cerceava a autoridade. O tio em pessoa lhe apareceu  um dia no escritório com um pacote de  correspondência que não tinha  tido coragem de assinar como sua, e lhe deu a última oportunidade de salvar a alma.
— Se você não é capaz de escrever uma carta comercial, vai recolher o lixo do  cais
   disse.
Florentino Ariza aceitou o desafio. Fez um esforço supremo para aprender a simplicidade terrena da prosa mercantil, imitando modelos de arquivos notariais com tanta aplicação como a que dedicava antes aos poetas da moda. Era essa a  época em que passava suas horas livres no Portal dos Escrivães, ajudando os enamorados implumes a escrever suas missivas perfumadas, para descarregar o coração de tantas palavras de amor que ficavam dentro dele por falta de uso nos informes de alfândega. Mas ao fim de seis meses, por mais voltas que lhe desse, não lograra torcer o pescoço do seu cisne empedernido. Por isso, quando o tio Leão XII   o repreendeu pela segunda vez, ele se deu por vencido, mas com uma certa  altivez.
   A única coisa que me interessa é o amor — disse.
   O mau — disse o tio — é que sem navegação fluvial não  amor.
Cumpriu a ameaça de mandá-lo recolher o lixo no cais, mas lhe deu a palavra de fazê-lo subir passo a passo pela escada do bom serviço até que  encontrasse  seu lugar. Assim foi. Nenhuma espécie de trabalho conseguiu derrubá-lo, por duro ou humilhante que fosse, nem o desmoralizou a miséria do soldo, nem perdeu por um instante sua impavidez essencial diante das insolências dos superiores. Tampouco foi inocente: todo aquele que se atravessou em seu caminho  sofreu  as conseqüências de uma determinação arrasadora, capaz  de  qualquer coisa, por trás de uma aparência desvalida. Tal como tio Leão XII previra e desejara para que ele não ficasse sem conhecer qualquer segredo da empresa, passou por todos os cargos em trinta anos de consagração e tenacidade a toda prova. Desempenhou-os todos com uma capacidade admirável, estudando cada fio daquela  urdidura  misteriosa que tanto tinha a ver com os ofícios da poesia, mas sem conseguir a medalha de guerra mais anelada por ele, que era escrever uma carta comercial  aceitável: uma  só. Sem propor a si mesmo, sem nem saber, demonstrou com sua vida a razão que tinha o pai, que repetiu até o último suspiro que não havia ninguém com mais sentido prático, nem pedreiros mais obstinados nem gerentes mais lúcidos e perigosos do que os poetas. Isso, pelo menos, foi o que lhe contou o tio Leão XII,  que costumava falar-lhe no pai durante os ócios do coração, e que lhe deu dele a  idéia mais de um sonhador que de um  empresário.
Contou-lhe que Pio Quinto Loayza dava aos escritórios um uso mais prazenteiro que o do trabalho, e os arranjava sempre para sair de casa aos domingos, a pretexto de que tinha de receber ou despachar um navio. Mais ainda: tinha feito instalar no pátio das mercadorias uma caldeira fora de uso, com uma sereia a vapor que apitava em claves de navegação, para o caso da esposa estar atenta. Fazendo as contas, tio Leão XII estava certo de que Florentino Ariza fora concebido em cima da escrivaninha de  algum  escritório mal fechado numa tarde  de  bochorno   dominical, enquanto a esposa de seu pai ouvia em casa os adeuses de um navio que jamais partiu. Quando o descobriu já era tarde para cobrar a infâmia, porque o marido estava morto. Sobreviveu a ele muitos anos, destruída pelo azedume de não ter um filho, e pedindo a Deus em suas orações maldição eterna para o bastardo.
A imagem do pai perturbava Florentino Ariza. A mãe falava nele como  num grande homem sem vocação comercial, que acabara nos negócios do rio porque o irmão mais velho fora colaborador muito próximo do comodoro alemão João B. Elbers, precursor da navegação fluvial. Eram filhos naturais da mesma mãe, cozinheira de ofício, que os tivera de homens diferentes, e todos traziam o sobrenome dela por trás do nome de um Papa escolhido ao acaso no santoral, salvo   o do tio Leão XII, que era o nome do que reinava quando ele nasceu. O que se chamava Florentino era o avô materno de todos, por isso o nome chegara até o filho de Trânsito Ariza saltando por cima de toda uma geração de pontífices.
Florentino conservou sempre um caderno no qual o pai escrevia versos de amor, alguns inspirados por Trânsito Ariza, e as folhas estavam adornadas com desenhos de corações feridos. Duas coisas o surpreenderam. Uma era a personalidade da caligrafia do pai, idêntica à sua, apesar do fato de que a escolhera por ser a de que mais gostara entre muitas de um manual. A outra foi encontrar-se com uma frase que julgava sua, e que o pai escrevera num caderno muito antes dele nascer: Só me dói morrer se não for de amor.
Tinha visto também os dois últimos retratos do pai. Um tirado em Santa Fé, muito moço, na idade que ele tinha quando o viu pela primeira vez, com um sobretudo que era como estar metido dentro dum urso, e recostado num pedestal    de cuja estátua só restavam as perneiras decepadas. A criança ao seu lado era tio Leão XII com um gorrinho de capitão de navio. Na outra fotografia aparecia o pai com um grupo de guerreiros, em quem sabe qual de tantas guerras, e tinha o fuzil maior e uns bigodes cujo cheiro de pólvora se exalava da imagem. Era liberal e maçom, assim como os irmãos, e no entanto queria que o filho entrasse para o seminário. Florentino Ariza não achava que fossem parecidos, mas segundo o tio Leão XII, também a Pio Quinto criticavam o lirismo dos documentos. Em todo caso, nem nos retratos se parecia com ele, não correspondia às suas lembranças nem à imagem que pintava a mãe, transfigurada pelo amor, nem à que dele despintava tio Leão XII com sua graciosa crueldade. Contudo, Florentino Ariza descobriu a parecença muitos anos depois, enquanto se penteava na frente do espelho, então compreendeu que. Um homem sabe quando começa a envelhecer porque começa a parecer com o pai.
Não se lembrava dele na Rua das Janelas. Julgava saber que por um tempo dormira ali, muito no princípio dos seus amores com Trânsito Ariza, mas que não tinha tornado a visitá-la depois do seu nascimento. A certidão de batismo  foi durante muitos anos nosso único instrumento válido de identificação, e a de Florentino  Ariza, assentada  na  paróquia  de  Santo  Toríbio, só  dizia  que  era  filho natural de outra filha natural solteira que se chamava Trânsito Ariza. Esta condição social fechou a Florentino Ariza as portas do seminário, mas fez também com que escapasse ao serviço militar na época mais sangrenta de nossas  guerras, por ser  filho único de mãe solteira.
Todas as sextas-feiras depois da escola se sentava na frente dos escritórios da Companhia Fluvial do Caribe, repassando um livro de estampas de animais tantas vezes repassado que caía aos pedaços. O pai entrava sem olhá-lo, vestido com as sobrecasacas de casimira que Trânsito Ariza devia ajustar depois para ele, e com  uma cara idêntica à do São João Evangelista dos altares. Quando saía, depois de muitas horas e procurando não ser visto nem pelo próprio cocheiro, lhe dava o dinheiro para os gastos de uma semana. Não se falavam, não porque o pai não tentava como porque ele tinha terror do pai. Um dia, depois de esperar muito mais que de costume, o pai lhe deu as moedas, dizendo:
— Tome e não volte mais.
Foi a última vez que o viu. Com o tempo veio a saber que tio Leão XII, que era  uns dez anos mais moço, continuou levando o dinheiro a Trânsito Ariza, e foi quem se ocupou dela quando Pio Quinto morreu de uma eólica mal tratada, sem deixar nada escrito, e sem tempo para tomar qualquer providência em favor do filho   único
   um filho da rua.
O drama de Florentino Ariza enquanto foi calígrafo da Companhia Fluvial do Caribe era que não podia afastar seu lirismo porque não deixava de pensar em Fermina Daza, e nunca aprendeu a escrever sem pensar nela. Depois, quando o passaram a outros cargos, sobrava-lhe tanto amor por dentro que não sabia que  fazer com ele, e dava-o de presente aos enamorados implumes escrevendo para eles cartas de amor gratuitas no Portal dos Escrivães. Para lá ia depois do trabalho.  Tirava a sobrecasaca com seus gestos discretos e a pendurava no espaldar da cadeira, colocava os punhos postiços para não sujar a camisa, desabotoava o colete para pensar melhor, e às vezes até muito tarde da noite reanimava os  desvalidos  com umas cartas enlouquecedoras. De vez em quando encontrava uma pobre  mulher que tinha um problema com um filho, um veterano de guerra que insistia  em reclamar o pagamento de sua pensão, alguém que tivera algo roubado e queria fazer queixa ao governo, mas por mais que se esmerasse não podia satisfazê-los, porque a única coisa com que lograva convencer alguém eram as cartas de amor. Nem mesmo fazia perguntas aos clientes novos, pois bastava ver o branco do olho deles para ter noção do seu estado, e escrevia folha após folha de amores desarvorados, mediante a fórmula infalível de escrever pensando sempre em Fermina Daza, e nada mais do que nela. No fim do primeiro mês teve que estabelecer uma ordem antecipada de reservas, para que não o submergissem as ânsias dos enamorados.
Sua lembrança mais grata daquela época foi de uma mocinha muito  tímida, quase  uma menina, que  lhe  pediu  tremendo  que  escrevesse  uma resposta  a uma carta irresistível que acabava de receber, e que Florentino Ariza reconheceu como escrita por ele a tarde anterior. Respondeu-a num estilo diferente, de acordo com a emoção e a idade da menina, e com uma letra que também  parecesse  dela, pois sabia fingir uma escrita para cada ocasião segundo o caráter de cada qual. Escreveu imaginando o que Fermina Daza teria respondido a ele se o amasse tanto quanto aquela criatura desamparada amava seu pretendente. Dois dias depois, é claro, teve que escrever também a réplica do noivo com a caligrafia, o estilo e a classe de amor que lhe havia atribuído na primeira carta, e foi assim que acabou comprometido numa correspondência febril consigo mesmo. Antes de um mês ambos, cada um por seu lado, foram lhe agradecer o que ele próprio propusera na carta do noivo e aceito com devoção na resposta da garota: iam se casar.
Só quando tiveram o primeiro filho descobriram, numa conversa casual, que as cartas de ambos tinham sido escritas pelo mesmo escrivão, e pela  primeira  vez foram juntos ao portal para designá-lo padrinho do menino. Florentino Ariza se entusiasmou tanto com a prova prática dos seus sonhos que tirou tempo de onde não tinha para escrever um Secretário dos Enamorados mais poético  e  amplo  do que aquele que até então se vendia por vinte centavos nos portais,  e  que  meia cidade conhecia de memória. Pôs em ordem as situações imagináveis em que poderiam se encontrar Fermina Daza e ele, e para todas escreveu tantos modelos quantas alternativas de ida e volta lhe pareceram possíveis. No fim teve umas mil cartas em três tomos tão quadrados quanto o dicionário de Covarrubias, mas nenhum impressor da cidade se arriscou a publicá-los, e acabaram em  algum  desvão da casa, com outros papéis da casa, pois Trânsito Ariza se negou de plano a desenterrar as botijas para malbaratar suas poupanças da vida inteira numa loucura editorial. Anos depois, quando Florentino Ariza teve recursos próprios para publicar o livro, foi-lhe duro admitir a realidade de que as cartas de amor já tinham passado de moda.
Enquanto ele dava os primeiros passos na Companhia Fluvial do Caribe e escrevia cartas grátis no Portal dos Escrivães, os amigos de Florentino Ariza tinham  a certeza de que o perdiam pouco a pouco, sem retorno. Assim era. Ao voltar da viagem pelo rio ainda via alguns deles na esperança de atenuar as lembranças de Fermina Daza, jogava bilhar com eles, foi aos últimos bailes, prestava-se aos azares de ser rifado entre as moças, prestava-se a tudo que lhe parecesse bom para voltar a ser o que tinha sido. Depois, quando tio Leão XII o acreditou como empregado, jogava dominó com os companheiros de escritório no Clube do Comércio, e estes começaram a reconhecê-lo como um dos seus, pois agora ele lhes falava da empresa de navegação, que nunca mencionava pelo nome completo e sim pelas iniciais: a CF.C Mudou até seus hábitos de comer. De indiferente e irregular que tinha sido até então à mesa, tornou-se regular e austero até o fim dos  seus dias:  uma xícara grande de café puro pela manhã, uma posta de peixe cozido com arroz branco ao almoço, e uma xícara de café com leite com um pedaço de queijo antes de dormir.  Tomava  café  puro  a  qualquer  hora,  em  qualquer  lugar  e  em    qualquer circunstância, e até trinta xicrinhas por dia: uma infusão que mais parecia petróleo cru, que preferia preparar ele mesmo e que sempre tinha numa garrafa térmica ao alcance da mão. Era outro, a despeito do seu propósito firme e seus esforços ansiosos de continuar sendo o mesmo que tinha sido antes do tropeção mortal do amor.
A verdade é que jamais tornaria a ser. Recuperar Fermina Daza foi o objetivo único de sua vida, e estava tão certo de atingi-lo mais cedo ou mais tarde que convenceu Trânsito Ariza a prosseguir na restauração da casa para que estivesse em condições de recebê-la a qualquer momento em que ocorresse o milagre. Ao contrário de sua reação diante da proposta editorial do Secretário dos Enamorados, Trânsito Ariza foi então muito mais longe: comprou a casa à vista e empreendeu a renovação completa. Fizeram uma sala de recepção do que tinha sido a alcova, construíram no sobrado um quarto de dormir para os esposos e outro para os filhos que iam ter, ambos muito amplos e bem iluminados, e no espace da antiga feitoria  de tabaco fizeram um extenso jardim de toda classe de rosas, no qual Florentino Ariza em pessoa consagrou seus ócios do amanhecer. A única coisa que  ficou  intacta, como um testemunho de gratidão pelo passado, foi a loja do armarinho. A parte de trás, onde dormia Florentino Ariza, foi deixada como sempre estivera, com  a rede pendurada e a grande mesa de escrever atulhada de livros em desordem, mas ele se mudou  para o quarto previsto como alcova matrimonial no andar de  cima.  Era o quarto mais amplo e fresco da casa, e tinha um terraço interno onde era agradável estar à noite na brisa do mar e no vapor dos rosais, mas era também o que correspondia melhor ao rigor trapista de Florentino Ariza. As paredes eram lisas e ásperas, de cal viva, e tinha como móveis um leito de  presidiário, uma mesinha de cabeceira com uma vela num gargalo de garrafa, um guarda-roupa antigo e um gomil d'água em seu prato, ao lado da bacia.
Os trabalhos duraram quase três anos, e coincidiram com um restabelecimento momentâneo da cidade, devido ao auge da navegação fluvial e ao comércio de passagem, os mesmos fatores que tinham sustentado sua grandeza durante a  Colônia e a tinham convertido durante mais de dois séculos em porta da América. Mas também foi essa a época em que Trânsito Ariza manifestou os primeiros sintomas de sua enfermidade sem remédio. Suas clientes de  sempre vinham cada  vez mais velhas ao armarinho, mais pálidas e fugidias, e ela não  as  reconhecia depois de ter tratado com elas durante meia vida, ou confundia os assuntos de umas com os de outras. O que era muito grave em negócios como o seu, nos quais não se assinavam papéis para proteger a honra, a própria e a alheia, e a palavra de honra  era dada e aceita como garantia bastante. A princípio pareceu que estava ficando surda, mas em breve ficou evidente que era sua memória que ia escorrendo pelas goteiras. De modo que liquidou o negócio de penhor, e com o tesouro das botijas chegou a terminar e mobiliar a casa, e ainda lhe sobraram muitas das jóias antigas mais prezadas da cidade, pois os donos não tiveram recursos para resgatá-las.
Florentino Ariza tinha que atender então a demasiados compromissos ao  mesmo tempo, mas nunca lhe fraquejou o ânimo para fomentar seus negócios de caçador furtivo. Depois da experiência errática com a viúva de Nazaret, que lhe abriu o caminho dos amores rueiros, continuou caçando as passarinhas órfãs da noite durante vários anos, ainda na ilusão de encontrar alívio para a dor que era Fermina Daza. Mas depois não sabia mais dizer se seu costume de fornicar sem esperanças era uma necessidade da consciência ou simples vício do corpo. Ia cada vez menos ao hotel suspeito, não porque seus interesses tomavam outros rumos,  como também por não gostar de ser visto ali em andanças diferentes das tão domésticas e castas que já eram conhecidas a seu respeito. No entanto, em três casos de aperto apelou para o recurso fácil de uma época que não tinha vivido: fantasiava  de homens as amigas temerosas de serem reconhecidas, e entravam juntos no hotel com fumaças de pândegos tresnoitados. Não faltou quem reparasse em pelo menos duas das ocasiões em que ele e o suposto acompanhante não iam ao bar e sim ao quarto, e a reputação já bastante alquebrada de Florentino Ariza sofreu o golpe de misericórdia. Afinal deixou de ir, e as pouquíssimas vezes em que ainda o fez não eram para que ele pusesse em dia os atrasos, e sim pelo contrário: buscando um refúgio para se recompor dos excessos.
Não era para menos. Nem bem tinha saído do escritório, por volta das cinco da tarde, e já andava em suas volatarias de gavião frangueiro. No princípio se conformava com o que a noite lhe oferecia. Recolhia criadas nos parques, negras no mercado, morenas nas praias, gringas nos navios de Nova Orleans. Levava-as aos diques, onde metade da cidade fazia o mesmo desde o pôr-do-sol, levava-as para onde podia, e às vezes onde não podia, pois não foram poucas as ocasiões em que teve que se meter às carreiras num saguão escuro e fazer o que fosse possível, do jeito possível, atrás da porta.
A torre do farol foi sempre um refúgio afortunado que ele evocava com saudade quando já tinha tudo resolvido nos albores da velhice, porque  era um lugar bom  para ser feliz, sobretudo de noite, e achava que algo dos seus amores daquela época chegava aos navegantes a cada volta do feixe de luz. De maneira que continuou indo lá, mais do que a qualquer outra parte, enquanto seu amigo faroleiro o recebia encantado, com uma cara de bobo que era o melhor atestado de discrição para as passarinhas assustadas. Havia uma casa embaixo, junto ao estrondo das ondas estourando contra os alcantis, onde o amor era mais intenso, porque tinha alguma coisa de naufrágio. Mas Florentino Ariza preferia a torre da luz depois de cair a  noite, porque se divisava a cidade inteira e a esteira de luzes dos pescadores do mar, e mesmo dos pântanos distantes.
Vinham dessa época suas teorias um tanto simplistas sobre a relação entre o físico das mulheres e suas aptidões para o amor. Desconfiava do  tipo sensual, as  que pareciam capazes de comer cru um jacaré-açu, e que costumavam ser as mais passivas na cama. Seu tipo era o contrário: essas rãzinhas sumidas, que ninguém se dava ao trabalho de olhar duas vezes na rua, que pareciam reduzidas a nada quando tiravam a roupa, que davam pena porque seus ossos rangiam ao primeiro impacto, que no entanto podiam deixar pronto para a lata do lixo o maior dos gargantas.  Tinha tomado notas dessas observações prematuras com a intenção de escrever um suplemento prático do Secretário dos Enamorados, mas o projeto sofreu a mesma sorte do anterior depois que Ausência Santander o revirou pelo direito e o avesso com sua sabedoria de cachorro velho, o aparou de cabeça, levantou e abaixou, pariu- o como novo, fez em tiras seus virtuosismos teóricos, e lhe ensinou a única coisa  que tinha que aprender para o amor: que à vida ninguém ensina.
Ausência Santander tinha tido um casamento convencional durante  vinte  anos, do qual lhe ficaram três filhos que por sua vez tinham casado e tido filhos, de modo que ela se prezava de ser a avó com a melhor cama da cidade. Nunca ficou claro se foi ela que abandonou o marido, ou se foi este que a abandonou, ou se ambos se abandonaram ao mesmo tempo quando ele foi morar com sua amante de sempre, e ela se sentiu livre para receber em pleno dia pela porta principal Rosendo de  La Rosa, comandante de navio fluvial, a quem recebera de noite muitas vezes  pela porta traseira. Foi ele mesmo, sem pensar duas vezes, quem levou lá Florentino Ariza.
Levou-o para almoçar. Levou além dele um garrafão de aguardente caseira e os ingredientes de melhor qualidade para uma panelada épica, como era possível com galinhas de quintal, carne de osso mole, porco de monturo e os legumes e hortaliças dos povoados do rio. No entanto, Florentino Ariza não se mostrou entusiasmado desde o primeiro momento com as excelências da cozinha, nem com   a exuberância da dona, e sim com a beleza da casa. Gostou da casa em si mesma, luminosa e fresca, com quatro janelas grandes abertas ao mar, e no fundo a vista completa da cidade antiga. Gostou da quantidade e esplendor das coisas, que davam  à sala um aspecto confuso e ao mesmo tempo rigoroso, com toda classe de primores artesanais que o comandante Rosendo de Ia Rosa tinha ido trazendo de cada viagem até que não havia mais lugar para um que fosse. No terraço do mar, parada em seu aro privado, havia uma cacatua da Malásia com uma plumagem de uma brancura inverossímil e uma quietude pensativa que dava muito que pensar: o bicho mais formoso que Florentino Ariza jamais vira. O comandante Rosendo de Ia Rosa se entusiasmou com o entusiasmo do convidado, e lhe contou em detalhe a história de cada coisa. Enquanto isso, bebia aguardente a goles curtos mas sem trégua. Parecia de cimento armado: enorme, peludo de corpo inteiro com exceção da cabeça, com  um bigode de vasta broxa e uma voz de cabrestante que a ele podia pertencer, e   de uma gentileza requintada. Mas não havia corpo capaz de resistir ao seu modo de beber. Antes de se sentar à mesa tinha acabado com metade do garrafão, e caiu de bruços em cima da bandeja de copos e garrafas com um lento estrépito de demolição. Ausência Santander precisou pedir a ajuda de Florentino Ariza para arrastar até a cama o corpo inerte de baleia encalhada, e para despi-lo adormecido. Em seguida, num clarão de inspiração que os dois agradeceram à conjunção de seus astros, se despiram ambos no quarto do lado sem se porem de acordo, sem sequer uma sugestão, sem uma proposta, e continuaram se despindo sempre que podiam durante mais de sete anos, quando o comandante estava de viagem.  Não  havia riscos de surpresas, porque ele tinha o costume de bom navegante de avisar sua chegada ao porto com a sereia do navio, mesmo de madrugada, primeiro com três bramidos grandes para a esposa e seus nove filhos, e depois com dois entrecortados  e melancólicos para a amante.
Ausência Santander tinha quase cinqüenta anos, e se notava, mas tinha também um instinto tão pessoal para o amor que não havia  teorias  artesanais  nem científicas capazes de amortecê-lo. Florentino Ariza sabia pelos itinerários dos navios quando podia visitá-la, e sempre ia sem se anunciar na hora que quisesse do dia ou  da noite, e não houve uma vez em que ela não o estivesse esperando.  Abria a porta como a mãe a criou até os sete anos: nua em pêlo, mas com um laço    de organdi na cabeça. Não deixava que ele desse um passo mais antes de lhe tirar a roupa, pois sempre achou que dava azar ter um homem vestido dentro de casa. Isto foi causa de discórdia constante com o comandante Rosendo de Ia Rosa, porque ele tinha a superstição de que fumar nu era de mau agouro, e às vezes preferia atrasar o amor do que apagar seu infalível charuto cubano. Em compensação,  Florentino Ariza era muito dado aos encantos da nudez, e ela tirava a roupa dele com invariável deleite mal a porta se fechava, sem lhe dar sequer tempo de  cumprimentá-la, nem  de tirar o chapéu ou os óculos, beijando-o e deixando-se beijar com beijos desenfreados, e soltando-lhe os botões de baixo para cima, primeiro os da braguilha, um por um depois de cada beijo, depois a fivela do cinto, e por último o colete e a camisa, até deixá-lo como um peixe que se fende ao meio. Depois o sentava na sala   e lhe tirava as botas, puxava-lhe a calça pelos pernis para que saísse ao mesmo tempo que as ceroulas, e por último desprendia as ligas de elástico da barriga da perna e lhe tirava as meias. Florentino Ariza parava então de beijá-la e de se deixar beijar para fazer a única coisa que lhe competia naquela cerimônia pontual: soltava   o relógio de corrente da botoeira do colete e tirava os óculos, e enfiava ambos nas botas para ter certeza de não esquecê-los. Sempre tomava essa precaução, sempre, sem falta, quando se desnudava em casa alheia.
Mal acabava de fazê-lo e ela já o assaltava sem dar tempo de nada, no próprio  sofá onde acabava de desnudá-lo, e de vez em quando na cama. Metia-se debaixo dele, e se apoderava dele todo para ela, encerrada dentro de si mesma, tateando com os olhos fechados em sua absoluta escuridão interior, avançando por aqui, retrocedendo, corrigindo seu rumo invisível, tentando outra via mais intensa, outra forma de andar sem naufragar no alagado de mucilagem que fluía do seu ventre, se perguntando e se respondendo a si mesma com um zumbido de varejeira em seu jargão nativo onde ficava essa alguma coisa nas trevas que ela conhecia e ansiava para ela, até que sucumbia sem esperar ninguém, se desbarrancava só em seu abismo com uma explosão jubilosa de vitória total que fazia tremer o mundo. Florentino Ariza ficava exausto, incompleto, flutuando no charco dos suores de ambos, mas com a impressão de não passar de um instrumento de  gozo. Dizia: "Você me trata como se eu fosse um a mais." Ela dava uma risada de fêmea livre, dizia: "Pelo contrário: como se você fosse um a menos." E ele ficava com a  impressão de que ela ficava com tudo, com uma voracidade mesquinha, e o orgulho se rebelava e saía da casa com a determinação de não voltar mais. Mas  logo  acordava sem motivo, com a lucidez tremenda da solidão no meio da noite, e a lembrança do amor ensimesmado de Ausência Santander lhe aparecia como aquilo que era: uma armadilha da felicidade que o entediava e atraía ao  mesmo tempo,  mas da qual era impossível escapar.
Um certo domingo, dois anos depois de se haverem conhecido, a primeira coisa que ela fez quando ele chegou, em lugar de despi-lo, foi tirar os óculos dele para melhor beijá-lo, e desse modo Florentino Ariza soube que ela começara a  gostar dele. Apesar de se sentir tão bem desde o primeiro dia naquela casa que já amava como sua, jamais permanecera mais de duas horas de cada vez, nunca para dormir,   e uma vez para comer, por ter recebido dela convite formal. Lá ia na realidade para o que ia, trazendo sempre o presente único de uma rosa solitária, e desaparecia até a seguinte ocasião imprevisível. Mas no domingo em que ela lhe tirou os óculos para beijá-lo, em parte por isso, e em parte porque ficaram dormindo depois de um amor repousado, passaram a tarde nus na enorme cama do comandante. Ao despertar da sesta, Florentino Ariza conservava ainda a lembrança dos grasnidos da cacatua, cujos metais estridentes iam no sentido contrário da sua beleza. Mas o silêncio era diáfano no calor das quatro, e pela janela do quarto se via o perfil da cidade antiga com o sol da tarde nas costas, suas cúpulas douradas, seu mar de chamas até a Jamaica. Ausência Santander estendeu a mão aventureira buscando às tontas o animal jacente, mas Florentino Ariza a afastou. Disse: "Agora não: sinto  uma coisa esquisita, como se estivessem nos vendo." Ela tornou a alvoroçar a cacatua com seu riso feliz. Disse: "Esse pretexto nem a mulher de Jonas engole." Tampouco ela, diga-se logo, mas o admitiu como válido, e ambos se  amaram  durante longo tempo em silêncio sem repetir o amor. Às cinco, com o sol ainda alto, ela se levantou da cama, nua até a eternidade
e com o laço de organdi na cabeça, e foi à cozinha buscar alguma coisa de beber. Mas não chegou a dar um passo fora do quarto quando lançou um grito de  espanto.
Não conseguia acreditar. Os únicos objetos que restavam na casa eram as luzes fixas. Os demais, os móveis assinados, os tapetes indianos, as estátuas e  os gobelinos, as miudezas incontáveis de pedrarias e metais preciosos, tudo quanto tinha feito de sua casa uma das mais aprazíveis e bem guarnecidas da cidade, tudo, até a cacatua sagrada, tudo se havia evaporado. Tudo carregado pelo terraço marinho sem perturbar o amor. Só ficaram os salões desertos com quatro janelas abertas, e um letreiro a broxa grossa na parede do fundo: Isto acontece a vocês por andarem trepando. O comandante Rosendo de Ia Rosa jamais compreendeu por que Ausência Santander não denunciou a pilhagem, nem tentou estabelecer qualquer contato com os traficantes de coisas roubadas, nem permitiu que se tornasse a falar de sua desgraça.

Florentino Ariza continuou a visitá-la na casa saqueada, cujo mobiliário ficou reduzido a três tamboretes de couro que os ladrões esqueceram na cozinha, e ao quarto de dormir onde eles estavam. Mas veio com menos freqüência do que antes, não pela desolação da casa, como supôs e disse ela, e sim pela novidade do bonde de burros em princípios do  novo século, que foi para ele um ninho pródigo e original   de passarinhas soltas. Tomava-o quatro vezes por dia, duas para ir ao escritório e duas para voltar para casa, e às vezes enquanto lia de verdade e na maioria das vezes fingindo ler, conseguia estabelecer pelo menos os primeiros contatos para um encontro posterior. Mais tarde, quando tio Leão XII pôs à sua disposição um carro puxado por duas mulinhas pardas de gualdrapas douradas, iguais às do presidente Rafael Núnez, sentiria saudades dos tempos do bonde como os mais fecundos de  suas andanças de falcoeiro. Tinha razão: não havia pior inimigo dos amores secretos do que um carro esperando na porta. Tanto assim que quase sempre o deixava escondido em casa e ia a em suas rondas de altanaria, para não deixar sequer o sulco das rodas no pó. Por isso evocava com tanta saudade o velho bonde com seus burros macilentos, roídos de peladuras, dentro do qual bastava um olhar de soslaio para saber onde estava o amor. Contudo, entre tantas lembranças enternecedoras, não conseguia afastar a de uma passarinha desamparada cujo nome nunca soube e com a qual apenas conseguiu viver uma metade frenética de noite, mas que tinha bastado para lhe deixar pelo resto da vida um travo amargo nas desordens inocentes do carnaval.
Tinha chamado sua atenção no bonde pela impavidez com que viajava em meio ao escândalo da pândega pública. Não devia ter mais de vinte anos, e não parecia  com ânimo de carnaval, a menos que estivesse fantasiada de inválida: tinha o cabelo muito claro, comprido e liso, solto ao natural s*obre os ombros, e usava uma túnica de pano ordinário sem nenhum enfeite. Estava alheia por completo ao rodopio da música das ruas, aos punhados de pó-de-arroz, aos jorros de  anilina que atiravam  aos passageiros do bonde em marcha, cujos burros iam brancos de polvilho e com chapéus de flores durante aqueles três dias de loucura. Aproveitando-se da confusão, Florentino Ariza a convidou a tomar um sorvete, pois não  achou  que desse para mais. Ela o olhou sem surpresa. Disse: "Aceito  com  muito prazer, mas lhe aviso que estou louca." Ele riu do gracejo, e a levou para assistir ao desfile de carros da sacada da sorveteria. Enfiou depois um dominó alugado, e ambos se meteram na ronda de bailes da Praça da Alfândega, e se divertiram juntos como noivos acabados de nascer, pois a indiferença dela foi parar no extremo contrário no fragor da noite: dançava feito uma profissional, e era imaginativa e audaz para a pândega, e de um encanto arrasador.
— Você nem sabe a encrenca em que se meteu comigo — gritava morta de rir na febre do carnaval. — Sou uma louca de hospício.
Para Florentino Ariza, aquela era uma noite de regresso aos desmandos cândidos da adolescência, quando o amor ainda não o havia desgraçado. Mas sabia, mais por escarmento que por experiência, que uma felicidade tão fácil não podia durar  muito tempo. Por isso é que antes que a noite começasse a decair, como sempre acontecia depois da distribuição dos prêmios às melhores fantasias, propôs à moça  que  fossem contemplar o amanhecer no farol. Ela aceitou agradecida, mas depois que acabassem de distribuir os prêmios.
Florentino Ariza ficou com a certeza de que aquela demora lhe salvou a vida.  Com efeito, a moça tinha feito um sinal de que fossem para o farol, quando dois cérberos e uma enfermeira do manicômio da Divina Pastora lhe caíram em cima. Estavam à procura dela desde que tinha fugido às três da tarde, não  eles como toda a força pública. Tinha decapitado um guarda e ferido com gravidade  outros  dois com um facão arrebatado ao jardineiro, porque queria sair para brincar no carnaval. Mas ninguém imaginou que estivesse dançando na rua, e sim escondida em alguma das tantas casas onde tinham revistado até as  cisternas.
Não foi fácil prendê-la. Defendeu-se com tesouras de podar que tinha escondidas no corpinho, e foram necessários seis homens para pôr-lhe a camisa-de-força, enquanto a multidão apinhada na Praça da Alfândega aplaudia e assobiava de júbilo, pensando que a captura sangrenta era uma das farsas do carnaval. Florentino Ariza ficou desarvorado, e na Quarta-Feira de Cinzas, foi pela primeira vez à rua da Divina Pastora com uma caixa de bombons ingleses para ela. Ficava olhando as  reclusas que lhe gritavam toda sorte de impropérios e piadas pelas janelas, enquanto ele as alvoroçava com a caixa de bombons para ver se tinha a sorte de fazer com que ela assomasse também às barras de ferro. Mas nunca a viu. Meses depois, ao saltar do bonde de burro, uma meninazinha que estava com o pai lhe pediu um  dos chocolates da caixa que carregava na mão. O pai ralhou com ela e pediu desculpas a Florentino Ariza. Mas ele deu a caixa completa à menina achando que aquele gesto   o redimia de todo amargor, e acalmou o papai com um tapinha no  ombro.
— Eram para um amor que foi para o caralho — segredou-lhe.
Como compensação do destino, foi também no bonde de burro que Florentino Ariza conheceu Leona Cassiani, que foi a verdadeira mulher da  sua vida, embora nem ele nem ela jamais o soubessem, ou jamais fizessem o amor. Ele a sentiu antes de vê-la quando voltava a casa no bonde das cinco: foi um olhar material que tocou nele como se fosse um dedo. Ergueu a vista e a viu, no extremo oposto, mas muito bem definida entre os outros passageiros. Ela não desviou o olhar. Pelo contrário: manteve-o com tamanho descaramento que ele não podia pensar senão o que pensou: negra, jovem e bonita, mas puta sem sombra de dúvida. Descartou-a da sua vida, porque não podia conceber nada mais indigno do que pagar pelo amor: não o fez nunca.
Florentino Ariza saltou na Praça dos Carros, que era o ponto final dos bondes, escafedeu-se a toda pressa pelo labirinto do comércio porque a mãe o esperava às seis, e quando saiu do outro lado da multidão ouviu ressoarem os saltos de mulher alegre nas pedras, e se voltou para olhar e para se convencer do que já sabia: era ela. Estava vestida como as escravas das estampas, com uma saia rodada que levantava com um gesto de dança para passar sobre as poças da rua, um decote que deixava os ombros descobertos, um maço de colares de cor e um turbante branco. Ele as conhecia do hotel suspeito. Sucedia amiúde que às seis da tarde ainda estavam com o café da manhã, e então o único recurso que lhes restava era usar o sexo como um punhal de salteador de estrada, e o colocavam contra a garganta do primeiro que encontrassem na rua: a piroca ou a vida. Em busca de uma prova final, Florentino Ariza mudou de direção, meteu-se pela ruela deserta do Candeeiro, e ela o seguiu cada vez mais de perto. Então ele parou, se virou, fechou a passagem dela apoiado  no guarda-chuva com as duas mãos. Ela ficou firme na frente  dele.
   Você se enganou, linda — disse ele: eu não dou.
   Claro que sim — disse ela: — vê-se na sua cara.
Florentino Ariza se lembrou de uma frase que ouvira menino do médico da família, seu padrinho, a propósito da sua prisão de ventre crônica: "O mundo está dividido entre os que cagam bem e os que cagam mal." Sobre esse dogma o médico elaborara toda uma teoria do caráter, que considerava mais certeira do que a astrologia. Mas com as lições dos anos, Florentino Ariza a formulou de outro modo: "O mundo está dividido entre os que trepam e os que não trepam." Desconfiava dos últimos: quando saíam dos trilhos, era para eles tão insólito que alardeavam o amor como se tivessem acabado de inventá-lo. Os que o faziam amiúde, em compensação, viviam para isso. Sentiam-se tão bem que se comportavam como sepulcros lacrados, por saberem que da discrição dependia sua vida. Nunca falavam de suas proezas, não confiavam em ninguém, bancavam os distraídos até o ponto de ganharem fama de impotentes, de frígidos, e sobretudo de  maricás  tímidos, como era o caso de Florentino Ariza. Mas se compraziam no equívoco, porque o equívoco também os protegia. Eram uma loja maçônica hermética, cujos sócios se reconheciam entre si no mundo inteiro, sem necessidade  de  um idioma comum. Daí o fato de Florentino Ariza não se surpreender com a resposta da moça: era uma dos seus, e portanto sabia que ele sabia que ela sabia.
Foi o erro da sua vida, tal como sua consciência ia fazer com que se lembrasse a cada hora de cada dia, até o último dia. Ela não queria lhe suplicar amor, menos ainda amor pago, e sim um emprego no que fosse, qualquer que fosse e com o  salário que fosse?, na Companhia Fluvial do Caribe. Florentino Ariza ficou tão envergonhado com sua própria conduta que a levou ao chefe do pessoal, e este lhe deu um posto de ínfima categoria na seção geral, que ela desempenhou com seriedade, modéstia e consagração durante três anos.
Os escritórios da C.F.C. estavam desde sua fundação diante do cais fluvial, sem nada em comum com o porto dos transatlânticos no lado oposto da baía, nem com o atracadouro do mercado na baía das Animas. Era um edifício de madeira com telhado de zinco de duas águas, um único balcão grande com colunas na fachada e várias janelas com telas de arame nos quatro costados, das quais se viam completos os navios no cais como quadros pendurados na parede. Quando o construíram, os precursores alemães pintaram de vermelho o zinco dos telhados e de branco brilhante os tabiques de madeira, de maneira que o próprio edifício tinha algo de navio fluvial. Mais tarde pintaram-no todo de azul, e pelos tempos em que Florentino Ariza começou a trabalhar na empresa era um galpão poeirento sem cor definida, e nos telhados oxidados havia emendas de folhas de zinco novas sobre as folhas originais. Por trás do edifício, num pátio de caliça cercado de tela de galinheiro, havia dois armazéns amplos de construção mais recente, e  no  fundo havia um desaguadouro fechado, sujo e fedorento, onde apodreciam os despejos de meio século de navegação fluvial: escombros de navios históricos, desde os primitivos de uma chaminé, inaugurados por Simão Bolívar, até alguns tão recentes que já tinham ventiladores elétricos nos camarotes. Tinham sido em sua maioria desmantelados para a utilização dos materiais em outros navios, mas  muitos estavam em tão bom estado que parecia possível dar-lhes uma mão de pintura e botá-los para navegar, sem espantar as iguanas  nem derrubar as árvores  de grandes flores amarelas que os faziam mais  nostálgicos.
No andar de cima do edifício ficava a seção administrativa, em escritórios pequenos mas cômodos e bem aparelhados, como os  camarotes  dos  navios, pois não tinham sido feitos por arquitetos civis e sim por engenheiros navais. No fim do corredor, como mais um empregado, despachava o tio Leão XII num escritório igual a todos, com a única diferença de que ele encontrava pela manhã em sua secretária um jarro de vidro com alguma espécie de flores de cheiro bom. No andar de baixo ficava a seção de passageiros, com uma sala de espera de bancos rústicos e  um balcão para a emissão de passagens e o manuseio de bagagens. No fim de  tudo  ficava a confusa seção geral, cujo mero nome dava uma idéia do vago de seus atributos, e onde morriam de morte os problemas que permaneciam por  resolver no resto da empresa. Ali estava Leona Cassiani, perdida atrás de uma carteira escolar entre um montão de sacos de milho arrumados e papéis sem solução, no dia em que o tio Leão XII em pessoa foi ver que diabo lhe ocorreria para fazer com que a seção geral servisse para alguma coisa. Ao fim de três horas de perguntas, de suposições teóricas e averiguações concretas com todos  os  empregados em plenário, voltou ao seu escritório atormentado pela certeza de não haver encontrado nenhuma solução para tantos problemas, e sim o contrário: novos e variados problemas para solução nenhuma.
No dia seguinte, quando Florentino Ariza entrou  no  seu  escritório, encontrou um memorando de Leona Cassiani, com o pedido de  que o estudasse e mostrasse  em seguida a seu tio, se lhe parecesse pertinente. Era a única que não tinha dito   uma palavra durante a inspeção da tarde anterior. Mantivera-se de  propósito  em  sua digna condição de empregada por caridade, mas no memorando fazia notar que não o fizera por negligência e sim por respeito às hierarquias da seção. Era de uma simplicidade alarmante. Tio Leão XII propusera uma reorganização a fundo, mas Leona Cassiani pensava o contrário, pela lógica simples de que a seção geral não existia na realidade: era a lixeira dos  problemas  encrencados  mas     insignificantes que as outras seções passavam adiante. A solução, em conseqüência, era eliminar a seção geral, e devolver os problemas para serem resolvidos em suas seções de origem.
Tio Leão XII não tinha a menor idéia de quem era Leona Cassiani nem recordava ter visto alguém que pudesse ser ela na reunião da tarde anterior, mas quando leu o memorando chamou-a ao seu escritório e conversou com ela a portas fechadas durante duas horas. Falaram um pouco de tudo, de acordo com o método que ele usava para conhecer as pessoas. O memorando era de simples senso comum, e a solução deu, com efeito, o resultado apetecido. Mas isso não importava para tio  Leão XII: importava ela. O que mais lhe chamou a atenção foi que seus únicos estudos depois do primário tinham sido na Escola de Chapelaria. Além disso, estava aprendendo inglês em casa por um rápido método sem mestre, e três meses  tinha aulas noturnas de datilografia, um ofício moderno de grande futuro, como antes se dizia do telégrafo e se dissera antes das máquinas a  vapor.
Quando saiu da entrevista já tio Leão XII tinha começado a chamá-la como a chamaria sempre: xará Leona. Resolvera eliminar de uma penada a seção conflituosa e repartir os problemas de maneira a que fossem resolvidos pelos mesmos que os criavam, de acordo com a sugestão de Leona Cassiani, e inventara para ela um posto sem nome e sem funções específicas, que na prática era o de assistente pessoal sua. Essa tarde, depois do enterro sem flores da seção geral, tio Leão XII perguntou a Florentino Ariza de onde havia tirado Leona Cassiani, e ele respondeu com a verdade.
— Pois volte ao bonde e me traga todas as que encontrar como esta — disse o   tio.
   Com mais duas ou três assim botamos o seu galeão a  flutuar.
Florentino Ariza entendeu isso como uma piada típica de tio Leão XII, mas no  dia seguinte se viu sem o carro que lhe haviam designado seis meses antes, e que agora lhe tiravam para que continuasse buscando talentos ocultos nos bondes.  Leona Cassiani, por sua parte, perdeu em breve seus escrúpulos iniciais, e tirou de dentro de si tudo que tinha guardado com tanta astúcia nos primeiros três anos. Em três mais abarcara o controle de tudo, e nos quatro seguintes chegou às portas da secretaria geral, mas se negou a entrar porque estava apenas um escalão abaixo de Florentino Ariza. Até então tinha estado sob suas ordens, e queria  continuar estando, embora a realidade fosse outra: o próprio Florentino Ariza não se dava  conta de que era ele quem estava debaixo das ordens dela. Assim era: ele não fizera mais do que cumprir o que ela sugeria na Direção Geral para ajudá-lo a subir contra os ardis de seus inimigos ocultos.
Leona Cassiani tinha um talento diabólico para manejar segredos,  e  sempre  sabia estar onde devia no momento justo. Era dinâmica, silenciosa, de uma doçura sábia. Mas quando era indispensável, com a dor na alma, soltava as rédeas a um caráter de ferro maciço. Contudo, nunca o usou para si mesma. Seu único objetivo  foi varrer a escada a qualquer preço, com sangue se não havia outro jeito, para que

Florentino Ariza subisse até onde se havia proposto sem calcular muito bem a própria força. Ela teria feito o mesmo de qualquer maneira, é claro, por sua indomável vocação de poder, mas a verdade é que o fez de forma consciente e por pura gratidão. Era tal sua determinação que o próprio Florentino  Ariza se perdeu  em seus manejos, e num momento de pouca sorte procurou fechar-lhe o caminho pensando que ela procurava fechar o dele. Leona Cassiani colocou-o .em seu lugar.
   Não se engane — disse. — Eu me afasto de tudo isso quando você quiser, mas pense bem antes.
Florentino Ariza, que na Verdade não tinha pensado bem, pensou então  o  melhor que pôde, e lhe entregou suas armas. O certo é que em meio àquela guerra sórdida dentro de uma empresa em crise perpétua, em meio a seus desastres de falcoeiro sem sossego e à ilusão cada vez mais incerta de Fermina Daza,  o  impassível Florentino Ariza não tivera um instante de paz interior diante do espetáculo fascinante daquela negra brava besuntada de merda e de amor na febre  da peleja. Tanto assim que muitas vezes lamentou em segredo que ela não tivesse sido na realidade o que ele acreditava que fosse na tarde  em que a conheceu, para  ter limpado o traseiro com seus princípios e ter feito o amor com ela ainda que pago com pepitas de ouro vivo. Pois Leona Cassiani continuava sendo igual à daquela  tarde no bonde, com as mesmas roupas de roceira espaventosa, seus turbantes loucos, seus brincos e pulseiras de osso, seu maço de colares e seus anéis de pedras falsas em todos os dedos: uma leoa de rua. O muito pouco que os anos lhe haviam acrescentado por fora era para seu bem. Navegava numa maturidade esplêndida, seus encantos de mulher eram mais inquietantes, e seu ardoroso corpo de africana se ia fazendo mais denso com a madureza. Florentino Ariza não tinha tornado a se insinuar em dez anos, pagando assim a dura penitência do erro original, e ela o ajudara em tudo, menos nisso.
Uma noite em que ficou trabalhando até muito tarde, como fazia com freqüência depois da morte da mãe, Florentino Ariza já saía quando viu luz no escritório de Leona Cassiani. Abriu a porta sem bater, e ali estava: no escritório, absorta, séria, com uns óculos novos que lhe davam um semblante acadêmico. Florentino Ariza constatou com um pavor ditoso que estavam os dois sós na casa, estavam os cais desertos, a cidade adormecida, a noite eterna no mar tenebroso, o bramido triste de um navio que ainda levaria mais de uma hora a chegar. Florentino Ariza se apoiou no guarda-chuva com as duas mãos, tal como havia feito na ruela do Candeeiro para lhe fechar o caminho, que agora o fazia para não demonstrar a desarticulação dos joelhos.
   Diga-me uma coisa, leoa de minh'alma — disse: — quando vamos sair disto?
Ela tirou os óculos sem surpresa, com um domínio absoluto, e  o deslumbrou  com seu riso solar. Nunca o chamara de você.
   Ai, Florentino Ariza — disse — estou há dez anos sentada aqui esperando que você me pergunte. Era tarde: a ocasião ia com ela no bonde de burro, tinha estado

sempre com ela na mesma cadeira em que estava sentada, mas agora tinha ido para sempre. A verdade era que depois de tantas cachorradas subterrâneas que  tinha  feito por ele, depois de tanta sordidez suportada para ele, ela se adiantava na vida e estava muito para lá dos vinte anos de idade que ele tinha de vantagem: tinha envelhecido para ele. Ela o queria tanto que em vez de enganá-lo, preferiu continuar no seu amor por ele ainda que tivesse que fazê-lo saber disso de uma forma  brutal.
   Não — disse a ele. — Eu me sentiria como se estivesse indo para a cama com o filho que nunca tive.
Florentino Ariza guardou em si o espinho de que não tivesse sido sua a última palavra. Pensava que quando uma mulher diz que não, está esperando que insistam com ela antes de tomar a decisão final, mas com ela era diferente: não podia brincar com o risco de se equivocar uma segunda vez. Retirou-se de boa vontade, e mesmo com uma certa graça que não lhe era fácil manter. A partir dessa noite, qualquer sombra que pudesse haver entre eles se dissipou sem ressentimento, e Florentino Ariza compreendeu por fim que se pode ser amigo de uma mulher sem ir para a cama com ela.
Leona Cassiani foi o único ser humano a quem Florentino Ariza esteve tentado a revelar o segredo de Fermina Daza. As poucas pessoas que o conheciam começavam  a esquecê-lo por motivo de força maior. Três delas o haviam levado consigo para o túmulo sem dúvida nenhuma: sua mãe, que desde muito antes de morrer já o havia apagado da memória; Gala Placídia, morta de boa velhice a serviço da que lhe foi quase uma filha; e a inesquecível Escolástica Daza, a que lhe havia levado dentro de um livro de missa a primeira carta de amor que recebeu na vida, e que não podia mais estar viva depois de tantos anos. Lorenzo Daza, de quem não se sabia então se vivia ou estava morto, podia tê-lo revelado à irmã Franca de Ia Luz procurando  evitar a expulsão, mas era pouco provável que o houvessem divulgado. Restava contar onze telegrafistas da província longínqua de Hildebranda Sánchez, que tinham manipulado telegramas com seus nomes completos e endereços exatos, e ainda Hildebranda Sánchez e sua corte de primas indômitas.
O que Florentino Ariza ignorava era que o doutor Juvenal Urbino devia ser incluído na conta. Hildebranda Sánchez lhe havia revelado o segredo em algumas de suas tantas visitas dos primeiros anos. Mas o fez de forma tão casual e num momento tão inoportuno que, ao contrário do que ela pensou, não entrou por um ouvido do doutor Urbino e saiu pelo outro, pois não entrou por ouvido nenhum. Hildebranda, na verdade, tinha mencionado Florentino Ariza como um dos poetas escondidos que segundo ela tinham possibilidades de ganhar os Jogos Florais. O doutor Urbino teve de fazer um esforço para se lembrar quem era, e  ela lhe disse sem que fosse indispensável mas sem um pingo de malícia que  ele fora o único  noivo que Fermina Daza tinha tido antes de se casar. Falou convencida de que se tratara de algo tão inocente e efêmero que era mais comovente do que outra coisa qualquer. O doutor Urbino respondeu sem olhá-la: "Não sabia que esse sujeito era poeta." E o apagou da memória no mesmo instante, entre outras coisas porque sua profissão o acostumara a um manejo ético do  esquecimento.
Florentino Ariza observou que os depositários do segredo, com exceção de sua mãe, pertenciam ao mundo de Fermina Daza. No seu estava ele, com o peso esmagador de uma carga que muitas vezes necessitara compartilhar, mas ninguém até então lhe merecera tanta confiança. Leona Cassiani era a única possível, e ele estava esperando a maneira e a ocasião. Nisto pensava na tarde de bochorno estivai em que o doutor Juvenal Urbino subiu as escadas empinadas da  C.F.C., fazendo  uma pausa em cada degrau para sobreviver ao calor das três, e apareceu arquejante no escritório de Florentino Ariza empapado de suor até nas calças, e disse com o último alento: "Acho que vem para cima de nós um ciclone." Florentino Ariza o vira ali muitas vezes, em busca do tio Leão XII, mas nunca tivera como agora a impressão tão nítida de que aquela aparição indesejável tinha algo a ver com sua vida.
Era a época em que também o doutor Juvenal Urbino tinha superado  os  escolhos da profissão, e andava quase de porta em porta feito um mendigo  de chapéu na mão, buscando contribuições para suas promoções artísticas. Um  dos seus contribuintes mais assíduos e pródigos foi sempre tio Leão XII, que naquele justo momento começara a fazer sua sesta diária de dez minutos, sentado na poltrona de molas da mesa de trabalho. Florentino Ariza pediu ao doutor Juvenal Urbino o favor de esperar em seu escritório, contíguo ao do tio Leão XII e que de certa forma lhe servia de sala de espera.
Em diversas ocasiões se haviam visto, mas nunca tinham estado assim, frente a frente, e Florentino Ariza padeceu mais uma vez a náusea de se sentir inferior. Foram dez minutos eternos, durante os quais se levantou  três vezes na esperança   de que o tio tivesse acordado antes do tempo, e tomou uma garrafa térmica inteira   de café puro. O doutor Urbino não aceitou nem uma xícara. Disse: "Café é veneno."  E continuou encadeando um tema ao outro sem sequer se preocupar em ser escutado. Florentino Ariza não podia suportar sua distinção natural, a fluidez e precisão de suas palavras, seu hálito recôndito de cânfora, seu encanto pessoal, a maneira tão fácil e elegante com que conseguia que mesmo as frases mais frívolas,  porque ele as dizia, parecessem essenciais. De repente, o médico mudou de tema de um modo abrupto.
   Gosta de música?
Pegou-o de surpresa. Na realidade, Florentino Ariza assistia a quantos concertos ou representações de ópera houvesse na cidade, mas não se sentia capaz de manter uma conversação crítica ou bem informada. Tinha um xodó pela música da moda, sobretudo as valsas sentimentais, cuja afinidade com as que ele mesmo compunha quando adolescente, ou com seus versos secretos, não era possível negar. Bastava ouvi-las uma vez de passagem para que logo não houvesse força de Deus que lhe tirasse  da  cabeça o fio da  melodia durante noites inteiras. Mas  isso não seria   uma resposta séria para uma pergunta tão séria de um especialista.
   Gosto de Gardel — disse.
O doutor Urbino compreendeu. "Sei", disse. "Está na moda." E se embarafustou pelo relato de seus novos e numerosos projetos, que havia de realizar como sempre sem subsídio oficial. Acentuou que era de cortar o coração a inferioridade dos espetáculos que era possível trazer agora diante dos esplêndidos do século anterior. Assim era: um ano vendia assinaturas para trazer o trio Cortot-CasalsThibaud ao Teatro da Comédia, e não havia ninguém no governo que soubesse quem eram, enquanto para aquele mesmo mês estavam esgotados os lugares para a companhia  de peças policiais Ramón Caralt, para a Companhia de Operetas e Zarzuelas de Manolo de Ia Presa, para os Santane-las, inefáveis transformistas mímico- fantásticos que trocavam de roupa em cena aberta no instante de um relâmpago fosforescente, para Danyse d'Altaine, que se apresentava como antiga bailarina do Folies Bergère, e até para o abominável Ursus, um energúmeno basco que lutava corpo a corpo com um touro de tourada. No entanto, não era o caso de nos queixarmos, quando os próprios europeus davam uma vez mais o mau exemplo de uma guerra bárbara, quando nós começávamos a viver em paz depois de nove guerras civis em meio século, as quais bem contadas podiam ser uma só: sempre a mesma. O que mais chamou a atenção de Florentino Ariza naquele discurso cativante foi a possibilidade de retomar os Jogos Florais, a mais conhecida e duradoura das iniciativas que o doutor Juvenal Urbino concebera no passado. Teve que morder a língua para não contar que ele próprio fora participante assíduo daquele concurso anual que chegou a interessar poetas de grande nome, não no resto do país como em outros do  Caribe.
Apenas começada a conversa, o vapor quente do ar esfriou de repente, e uma tempestade de ventos cruzados sacudiu portas e janelas com fortes estampidos, e o escritório rangeu até os alicerces feito um veleiro à deriva. O doutor Juvenal Urbino não pareceu reparar. Fez alguma referência casual aos ciclones lunáticos de junho, e de repente, sem que viesse ao caso, falou na esposa. Não a tinha como sua colaboradora mais entusiasta, como era a própria alma de suas iniciativas. Disse:  "Eu não seria ninguém sem ela." Florentino Ariza o escutou impassível, aprovando tudo com um movimento leve da cabeça, sem se atrever a dizer nada por medo de ser traído pela voz. No entanto, duas ou três frases mais lhe bastaram para compreender que o doutor Juvenal Urbino, em meio a tantos compromissos absorventes, ainda encontrava tempo para adorar a esposa quase tanto quanto ele, e essa verdade o aturdiu. Mas não pôde reagir como teria querido, porque o coração lhe pregou então uma dessas putas peças que mesmo ao coração ocorrem: revelou-lhe que ele e aquele homem que considerara sempre como o  inimigo  pessoal eram vítimas de um mesmo destino e partilhavam o azar de uma paixão comum: dois animais de canga jungidos ao mesmo jugo. Pela primeira vez nos vinte e sete anos intermináveis que passava esperando, Florentino Ariza não pôde resistir à pontada de dor de que aquele homem admirável tivesse que morrer para que ele fosse feliz.
O ciclone passou ao largo, mas suas lufadas destroçaram em quinze minutos os bairros dos pântanos e causaram estragos em metade da cidade. O doutor Juvenal Urbino, satisfeito uma vez mais com a generosidade do tio Leão XII, não esperou que amainasse por completo e carregou por distração o guarda-chuva pessoal que Florentino Ariza lhe emprestou para chegar ao carro. Mas ele não ligou.  Ao contrário: alegrou-se de pensar no que Fermina Daza ia pensar quando soubesse quem era o dono do guarda-chuva. Sentia ainda a comoção da entrevista quando Leona Cassiani passou pelo seu escritório, e a ocasião lhe pareceu  única  para  revelar o segredo sem mais rodeios, que era como arrebentar um cacho de furúnculos que não o deixava viver: agora ou nunca. Começou por lhe perguntar  que achava do doutor Juvenal Urbino. Ela respondeu quase sem pensar: "É um homem que faz muitas coisas, demasiadas talvez, mas acho que ninguém sabe o   que pensa." Depois refletiu, despedaçando a borracha do lápis com os  dentes  afiados e grandes, de negra grande, e afinal deu de ombros para liquidar um assunto que não a preocupava.
    Vai ver que é por isso que faz tantas coisas — dis- se: para não ter que pensar.
Florentino Ariza tentou retê-la.
   O que me dói é que tem de morrer —  disse.
   Todo mundo tem de morrer — disse ela.
   Sim — disse ele — mas este mais que todo  mundo.
Ela não entendeu nada: tornou a dar de ombros sem falar, e foi embora. Então Florentino Ariza soube que em alguma noite incerta do futuro, num leito feliz com Fermina Daza, ia contar-lhe que não revelara o segredo de seu amor nem mesmo à única pessoa que conquistara o direito de sabê-lo. Não: não havia de  revelá-lo  nunca, nem à própria Leona Cassiani, não porque não quisesse abrir para ela o cofre onde o guardara tão bem ao longo de meia vida, mas porque então percebeu que tinha perdido a chave.
Não era isso, contudo, o mais perturbador daquela tarde. Ficava-lhe a saudade dos seus tempos de moço, a lembrança vivida dos Jogos Florais, cujo estrondo repercutia cada 15 de abril no âmbito das Antilhas. Ele foi sempre um dos seus protagonistas, mas sempre, como em quase tudo, um protagonista secreto. Participara várias vezes desde o concurso inaugural, e nunca obtivera nem a última menção. Mas não lhe importava, pois não concorria pela ambição do prêmio e sim porque o certame tinha para ele uma atração adicional: Fermina Daza foi a encarregada de abrir os envelopes lacrados e proclamar o nome dos vencedores na primeira sessão, e desde então ficou estabelecido que  continuasse  a  fazê-lo  nos anos seguintes.
Escondido  na  penumbra  das  poltronas,  com  uma  camélia  viva  pulsando    na botoeira da lapela com a força da sua ansiedade, Florentino Ariza viu Fermina Daza abrindo os três envelopes lacrados no palco do antigo Teatro Nacional, na noite do primeiro concurso. A si mesmo perguntou o que ia suceder no coração dela quando descobrisse que era ele o ganhador da Orquídea de Ouro. Tinha certeza de que ela reconheceria a letra, e que naquele instante havia de evocar as tardes de bordados debaixo das amendoeiras da pracinha, o odor das gardênias murchas nas cartas, a valsa confidencial da deusa coroada nas madrugadas de vento. Não aconteceu. Pior ainda: a Orquídea de Ouro, o galardão mais cobiçado da poesia nacional, foi concedida a um imigrante chinês. O escândalo público que a decisão insólita provocou pôs em dúvida a seriedade do certame. Mas a sentença foi justa e a unanimidade do júri tinha sua justificação na excelência do  soneto.
Ninguém acreditou que o autor fosse o chinês premiado. Chegara em fins do século anterior fugindo ao flagelo de febre amarela que assolou o Panamá durante a construção da estrada de ferro dos dois oceanos, junto com muitos outros que aqui ficaram até morrer, vivendo em chinês, proliferando em chinês, e tão parecidos uns com os outros que não havia quem os distinguisse. De início não passavam de dez, alguns com as mulheres e os filhos e os cachorros de comer, mas em poucos anos inundaram quatro vielas dos arrabaldes do porto com novos chineses intempestivos que entravam no país sem deixar rastro nos registros alfandegários. Alguns dos jovens se converteram em patriarcas veneráveis com tanta precipitação  que  ninguém explicava como tinham tido tempo de envelhecer. A intuição popular dividiu-os em duas classes: os chineses maus e os chineses bons. Os maus eram os das estalagens lúgubres do porto, onde tanto se comia como um rei ou se morria de repente na mesa diante de um prato de rato com girassóis, e das quais se suspeitava que não passavam de biombos do comércio de brancas e do tráfico de tudo. Os bons eram os chineses das lavanderias, herdeiros de uma ciência sagrada, que devolviam as camisas mais limpas do que se fossem novas, com colarinhos e punhos feito hóstias recém engomadas. Foi um desses chineses bons que derrotou nos Jogos Florais setenta e dois rivais bem apetrechados.
Ninguém entendeu o nome quando Fermina Daza o leu espantada. Não por  ser um nome insólito, como porque de toda maneira ninguém sabia de ciência certa como se chamavam os chineses. Mas não havia muito que pensar, porque o chinês premiado surgiu do fundo da platéia com esse sorriso celestial que têm os chineses quando chegam cedo em casa. Tinha ido tão seguro da vitória que vestia para  receber o prêmio a camisola de seda amarela dos ritos da primavera. Recebeu a Orquídea de Ouro de dezoito quilates, e a beijou de ventura em meio às troças estrondosas dos incrédulos. Não se alterou. Esperou no centro da cena, imperturbável como o apóstolo de uma Divina Providência menos dramática do que a nossa, e no primeiro silêncio leu o poema premiado. Ninguém o entendeu. Mas quando passou o novo bombardeio de vaias, Fermina Daza leu-o de novo, impassível, com sua afônica voz insinuante, e o assombro se  impôs  desde  o primeiro   verso.   Era   um   soneto   da  mais   pura   estirpe   parnasiana,     perfeito, atravessado por uma brisa de inspiração que delatava a cumplicidade de alguma  mão de mestre. A única explicação plausível era que algum poeta dos  grandes  tivesse concebido aquela troça para zombar dos Jogos Florais, e que o chinês se prestara a ela com a determinação de guardar segredo até a morte. O Diário do Comércio, nosso jornal tradicional, tratou de remendar o prestígio cívico com um ensaio erudito e mais para indigesto sobre a antigüidade e a influência cultural dos chineses no Caribe, e seu merecido direito de participar nos Jogos Florais. Quem escreveu o ensaio não duvidava de que o autor do soneto fosse na realidade quem dizia ser e o justificava sem rodeios desde o título: Todos os chineses são poetas. Os promotores da conjura, se houve, apodreceram em seus sepulcros com  o segredo.  De sua parte, o chinês premiado morreu sem confissão numa idade oriental, e foi enterrado com a Orquídea de Ouro dentro do ataúde, mas com a amargura de  não  ter conseguido em vida a única coisa a que aspirava, que era seu crédito de poeta.  Por motivo da morte se evocou na imprensa o incidente esquecido dos  Jogos  Florais, se reproduziu o soneto com uma vinheta modernista de donzelas r urgi d as com cornucópias de ouro, e os deuses custódios da  poesia se valeram  da  ocasião para pôr as coisas em seu lugar: o soneto pareceu tão ruim à nova geração que já ninguém pôs em dúvida que na realidade fora escrito pelo chinês  morto.
Florentino Ariza associou sempre aquele escândalo à lembrança de uma desconhecida opulenta que se sentava ao seu lado. Reparara nela no princípio do  ato, mas depois a esquecera no susto da espera. Ela lhe chamou a atenção por sua brancura de nácar, sua fragrância de gorda feliz, seu grande peito de soprano  coroado por uma magnólia artificial. Usava um vestido de veludo preto muito apertado, tão preto quanto os olhos ansiosos e cálidos, e tinha o cabelo mais preto ainda, estirado na nuca com uma travessa de cigana. Usava brincos pendentes, colar do mesmo estilo e anéis iguais em vários dedos, todos de placas brilhantes, e um sinal pintado a lápis na face direita. Na confusão dos aplausos finais, olhou Florentino Ariza com uma aflição sincera.
   Acredite que sinto muito disse.
Florentino Ariza se impressionou, não pelas condolências que na realidade merecia e sim pelo assombro de que alguém conhecesse seu segredo.  Ela esclareceu: "Percebi pela maneira como tremia a flor da sua lapela enquanto se abriam os envelopes." Mostrou-lhe a magnólia de pelúcia que tinha na mão, e lhe abriu o coração:
   Eu por isso tirei a minha disse.
Estava a ponto de chorar devido à derrota, mas Florentino Ariza lhe mudou o ânimo com seu instinto de caçador noturno.
   Vamos a algum lugar para chorar juntos disse.
Acompanhou-a à casa dela. na porta, e em vista de ser quase meia-noite e não haver ninguém na rua, convenceu-a a convidá-lo para um conhaque enquanto viam os álbuns de recortes e fotografias de mais de dez anos de acontecimentos públicos,

que ela dizia ter. O truque já então era velho, mas dessa vez foi involuntário, porque ela é que falara nos álbuns enquanto caminhavam depois de deixar o Teatro Nacional. Entraram. A primeira coisa que observou Florentino Ariza ao  chegar à  sala foi que a porta do único quarto estava aberta, e que a cama era vasta  e  suntuosa, com uma colcha de brocado e cabeceira de ramagens de bronze.  Esta  visão o perturbou. Ela deve ter percebido, pois se adiantou pela sala e fechou a porta do quarto. Convidou-o em seguida a se sentar num canapé de cretone florido onde dormia um gato, e colocou na mesa de centro sua coleção de álbuns. Florentino  Ariza começou a folheá-los sem pressa, pensando mais nos passos seguintes do que no que via, e de repente levantou o rosto e viu que os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Aconselhou-a a chorar quanto quisesse, sem pudor, pois nada aliviava como o pranto, mas sugeriu que afrouxasse o corpinho para chorar. Apressou-se a ajudá-la, porque o corpinho se ajustava à força nas costas com uma grande costura  de cordões cruzados. Não precisou acabar, pois o corpinho acabou de se soltar pela pura pressão interna, e a tetaria astronômica respirou a seu bel-prazer.
Florentino Ariza, que nunca perdera o susto da primeira vez, mesmo nas  ocasiões mais fáceis, arriscou-se a uma carícia epidérmica no pescoço com a ponta dos dedos, e ela se retorceu com um gemido de menina que consente sem deixar de chorar. Então ele a beijou no mesmo lugar, como fizera com os dedos, e não pôde fazê-lo uma segunda vez porque ela se voltou para ele com todo o seu corpo monumental, ávido e quente, e ambos rolaram pelo chão abraçados. O gato acordou no sofá com um guincho, e saltou para cima deles. Eles se buscaram às tontas como novatos apressados e se encontraram de qualquer jeito, se revirando sobre  os  álbuns desfolhados, vestidos, ensopados de suor, e mais inclinados a evitar as unhadas furiosas cio gato coque o desastre de amor que estavam cometendo. Mas a parti: da noite seguinte, com as feridas ainda sangrando, continuaram a fazê-lo por vários anos.
Quando percebeu que tinha começado a amá-la, ela já estava na plenitude dos quarenta, e ele ia fazer trinta. Chamava-se Sara Noriega, e tivera um quarto de hora de celebridade na juventude, ao ganhar um concurso com um livro de versos sobre    o amor dos pobres, que nunca foi publicado. Era professora de Urbanidade e Instrução Cívica em escolas oficiais, e vivia do seu ordenado numa casa alugada no multicolorido conjunto da Passagem dos Noivos, no antigo bairro de Getsêmani. Tivera vários amantes de ocasião, mas nenhum com ilusões matrimoniais, porque era difícil que algum homem do seu meio e do seu tempo se casasse com uma  mulher com quem tivesse dormido. Tampouco ela tornou a alimentar essa ilusão depois que seu primeiro noivo formal, a quem amou  com a paixão quase demente  de que era capaz aos dezoito anos, escapou ao compromisso uma semana antes da data prevista para as bodas, e a deixou perdida num limbo de noiva enganada. Ou de solteira usada, como se dizia então. Contudo, aquela primeira experiência, ainda  que cruel e efêmera, não lhe deixou nenhum azedume, a convicção deslumbrante de que com casamento ou sem ele, sem Deus ou sem lei, não valia a pena viver se não fosse para ter um homem na cama. O que mais Florentino Ariza apreciava nela era que enquanto fazia o amor tinha que chuchar uma chupeta para  alcançar a  glória plena. Chegaram a ter uma réstia de todos os tamanhos, formas e cores encontradiços no mercado, e Sara Noriega pendurava as chupetas na cabeceira da cama para encontrá-las às cegas nos momentos de extrema  urgência.
Embora ela fosse tão livre quanto ele, e talvez não se opusesse a que suas  relações fossem públicas, Florentino Ariza as arrumou desde o princípio como aventura clandestina. Esgueirava-se pela porta de serviço, quase sempre tarde da noite, e escapava na ponta do pé pouco antes de raiar o dia. Tanto ela quanto ele sabiam que numa moradia compartilhada e populosa como aquela, os vizinhos no fim das contas deviam estar mais inteirados do que davam a entender. Mas ainda  que fosse uma simples fórmula, Florentino Ariza era assim, e assim seria com todas até o fim da vida. Nunca cometeu um erro, nem com ela nem com qualquer outra, nunca incorreu numa deslealdade. Não exagerava: numa ocasião deixou um rastro comprometedor ou prova escrita, o que teria podido custar-lhe a vida. Na realidade, comportou-se sempre como se fosse o esposo eterno de  Fermina Daza,  um esposo infiel mas tenaz, que lutava sem tréguas para se libertar da sua servidão, mas sem causar o desgosto de uma traição.
Semelhante hermetismo não podia prosperar sem equívocos. A própria Trânsito Ariza morreu convencida de que o filho concebido por amor e criado para o amor estava imune a toda forma de amor devido a sua primeira adversidade juvenil. Contudo, muitas pessoas menos benévolas que estiveram muito próximas dele, que conheciam seu caráter misterioso e sua predileção por indumentárias místicas e loções raras, partilhavam da suspeita de que ele não era imune ao amor, e sim à mulher. Florentino Ariza sabia disto e nunca fez nada para desmenti-lo. Isso tampouco preocupou Sara Noriega. Tal como as outras mulheres incontáveis que amou, e mesmo as que lhe agradavam e o achavam agradável sem amá-lo, aceitou-o como aquilo que era na realidade: um homem de passagem.
Acabou por aparecer em sua casa a qualquer hora, sobretudo nas manhãs de domingo, que eram as mais pacatas. Ela abandonava o que estivesse fazendo, fosse   o que fosse, e se consagrava de corpo inteiro a fazê-lo feliz na enorme cama  enfeitada que esteve sempre à disposição dele, e na qual nunca permitiu a adoção    de formalismos litúrgicos. Florentino Ariza não compreendia como  uma solteira sem passado podia ser tão sábia em assuntos de homens, nem como podia manejar seu doce corpo de delfina com tanta leveza e tanta ternura, como se se movesse por baixo d'água. Ela se defendia dizendo que o amor, antes de mais nada, era um talento natural. Dizia: "Ou se nasce sabendo ou não se sabe  nunca." Florentino  Ariza se retorcia de ciúmes regressivos pensando que talvez ela fosse mais passeada do que dizia ser, mas tinha que engolir as suspeitas inteiras porque também ele lhe dizia, como dizia a todas, que ela fora sua única amante. Entre muitas outras coisas que lhe apraziam menos, precisou resignar-se a ter na cama o gato furioso, cujas garras eram embotadas por Sara Noriega para que não dilacerasse os dois a  unhadas enquanto faziam amor. Contudo, quase tanto quanto gostava de folgar na cama até o esgotamento, ela gostava de consagrar as fadigas do amor ao culto da poesia. Não tinha uma memória assombrosa para os versos sentimentais do seu tempo, cujas novidades se vendiam em folhetos populares de dois centavos, como gravara com alfinetes na parede os poemas de que gostava mais, para lê-los em voz alta a qualquer hora.  Tinha feito uma versão em endecassílabos pares dos textos de Urbanidade e Instrução Cívica, como os que se usavam para a ortografia, mas não conseguiu a aprovação oficial. Era tal seu arrebatamento declamatório que às vezes continuava recitando aos gritos enquanto fazia amor, e Florentino Ariza tinha que pôr-lhe a chupeta na boca à viva força, como se fazia com as crianças para que parassem de chorar.
Na plenitude de suas relações, Florentino Ariza se perguntara qual dos dois estados seria o amor, o da cama turbulenta ou o das tardes aprazíveis dos domingos, e Sara Noriega o tranqüilizou com o argumento singelo de que tudo que fizessem nus era amor. Disse: "Amor da alma da cintura para cima e amor  do  corpo  da cintura para baixo." Esta definição pareceu a Sara Noriega boa para um poema sobre o amor dividido, que escreveram a quatro mãos, e que ela apresentou nos quintos Jogos Florais, convencida de que ninguém participara até então com um poema tão original. Mas tornou a perder.
Estava furibunda enquanto Florentino Ariza a acompanhava a casa. Por alguma razão que não sabia explicar, tinha a convicção de que a manobra fora urdida contra ela por Fermina Daza, para não premiar seu poema. Florentino Ariza não lhe prestou atenção. Estava de um humor sombrio desde a entrega dos prêmios, pois muito tempo não via Fermina Daza e aquela noite teve a impressão de que sofrerá uma mudança profunda: pela primeira vez notava-se a um simples olhar sua condição de mãe. Não era novidade para ele, pois sabia que o filho já ia à escola. Contudo, sua idade maternal não lhe parecera antes tão evidente quanto naquela noite, tanto pelo diâmetro da cintura e seu andar um tanto incerto como pelas hesitações de voz quando leu a lista dos prêmios.
Procurando documentar suas lembranças, tornou a folhear os álbuns dos Jogos Florais enquanto Sara Noriega preparava algo de comer. Viu cromos de revistas, postais amarelecidos dos que se vendiam como lembrança nos portais de loja, e foi como uma reprise fantasmagórica da falácia de sua própria vida. Até então fora sustentado pela ficção de que era o mundo que passava, os costumes, a moda: tudo menos ela. Mas naquela noite viu pela primeira vez de forma consciente  como  a vida de Fermina Daza estava passando, e como passava a sua própria, enquanto ele nada fazia além de esperar. Nunca falara dela com ninguém, porque se  sabia  incapaz de pronunciar o nome sem que se notasse a palidez dos  seus lábios. Mas  esta noite, enquanto folheava os álbuns como em outras tantas noitadas de tédio dominical, Sara Noriega teve um desses acertos casuais que eram de gelar o  sangue.

   É uma puta — disse.
Disse de passagem, vendo uma gravura de Fermina Daza fantasiada de pantera negra num baile de máscaras, e não teve que especificar ninguém para que Florentino Ariza soubesse de quem falava. Temendo alguma revelação que o fosse perturbar pelo resto da vida, avançou uma defesa cautelosa. Alegou que conhecia Fermina Daza de longe, que nunca tinham passado dos cumprimentos formais  e  não tinha notícia nenhuma de sua intimidade, mas cava como certo que era uma mulher admirável, surgida do nada e enaltecida por seus próprios méritos.
   Por obra e graça de um casamento, de interesse com um homem que não   ama
   interrompeu Sara Noriega. — É a maneira mais baixa de ser puta.
Com menos crueza mas igual rigidez morai, a mãe tinha dito o mesmo a Florentino Ariza procurando consolá-lo de suas desventuras. Perturbado até o tutano dos ossos, não achou uma resposta oportuna para a inclemência de Sara Noriega, e tratou de se esquivar ao tema. Mas Sara Noriega não deixou, até que acabasse de desabafar contra Fermina Daza. Por um golpe de intuição que não teria podido explicar, estava convencida de que ela fora autora da conspiração para lhe escamotear o prêmio. Não havia nenhuma razão para  isso: não  se  conheciam, não se tinham visto nunca, e Fermina Daza não tinha nada a ver com as decisões do concurso, embora estivesse ao corrente dos seus segredos. Sara Noriega disse de um modo terminante: "Nós mulheres somos adivinhas." E pôs fim à discussão.
A partir desse momento, Florentino Ariza a viu com outros olhos. Também para ela passavam os anos. Sua natureza feraz murchava sem glória, seu amor perdurava em soluços, e suas pálpebras começavam a mostrar a sombra das velhas tristezas. Era uma flor de ontem. Além disso, na fúria da derrota perdera a conta dos conhaques. Não estava em uma boa noite: enquanto comiam o arroz de coco requentado, procurou estabelecer qual tinha sido a contribuição de cada um no poema derrotado, para saber quantas pétalas da Orquídea de Ouro teriam correspondido a cada qual. Não era a primeira vez que se entretinham em torneios bizantinos, mas ele aproveitou a ocasião para se vingar do golpe recente e se enredaram numa discussão mesquinha que revolveu em ambos os rancores  de  quase cinco anos de amor dividido.
Quando faltavam dez minutos para as doze, Sara Noriega trepou numa cadeira para dar corda no relógio de pêndulo, e o colocou de memória na hora certa, talvez querendo dizer sem dizê-lo que era hora de ir embora. Florentino Ariza sentiu então a urgência de cortar pela raiz aquela relação sem amor, e buscou a ocasião de tomar ele a iniciativa: como faria sempre. Rogando a Deus que Sara Noriega o convidasse   a ficar na cama dela de modo que ele pudesse dizer que não, que estava  tudo acabado entre eles, pediu-lhe que se sentasse ao seu lado quando acabou de dar corda no relógio. Mas ela preferiu manter-se à distância na poltrona das visitas. Florentino Ariza lhe estendeu então o dedo empapado de conhaque para que ela o chupasse, como  gostava de  fazer nos  preâmbulos  do  amor de  outra época. Ela     o afastou.
— Agora não — disse. — Estou esperando alguém.
Desde que foi repudiado por Fermina Daza, Florentino Ariza aprendera a ficar sempre com a última palavra. Em circunstâncias  menos penosas  teria persistido  nos assédios a Sara Noriega, certo de terminar a noite rolando com  ela na cama,  pois estava convencido de que uma mulher que vai para a cama com um homem uma vez continuará indo para a cama com ele cada vez que ele queira, desde que saiba enternecê-la a cada vez. Tinha suportado tudo em nome  dessa  convicção, tinha passado por cima de tudo mesmo nos negócios mais sujos do amor, com o fim de não conceder a nenhuma mulher nascida de mulher a oportunidade da última palavra. Mas aquela noite se sentiu tão humilhado que tomou o conhaque de um trago, fazendo todo o possível para que transparecesse seu rancor, e foi embora sem se despedir. Não tornaram a se ver. A relação com Sara Noriega foi uma das mais longas e estáveis de Florentino Ariza, embora não fosse a única que manteve naqueles cinco anos. Quando compreendeu que se sentia bem com ela, sobretudo na cama, mas que jamais conseguiria substituir Fermina Daza por ela, recrudesceram suas noites de caçador solitário, e dava um jeito de repartir seu tempo e suas forças para que bem rendessem. Contudo, Sara Noriega operou o milagre de aliviá-lo durante algum tempo. Ao menos pôde viver sem ver Fermina Daza, ao contrário do que acontecia antes, quando interrompia a qualquer hora o que estivesse fazendo para buscá-la pelos rumos incertos dos seus presságios, nas ruas menos imagináveis, em lugares irreais onde era impossível que estivesse, vagando sem sentido com umas ânsias no peito que não lhe davam trégua até que a visse por um instante que fosse. O rompimento com Sara Noriega, pelo contrário, alvoroçou de novo suas saudades adormecidas, e se sentiu outra vez como nas tardes da pracinha e das leituras intermináveis, agora agravadas pela urgência da noção de que o doutor Juvenal Urbino tinha que morrer.
Sabia havia algum tempo que estava predestinado a fazer feliz uma viúva, e a ser feito feliz por ela, e isso não o preocupava. Pelo contrário: estava preparado. De tanto conhecê-las em suas incursões de caçador solitário, Florentino Ariza acabaria por saber que o mundo estava cheio de viúvas felizes. Ele as vira enlouquecer de dor diante do cadáver do marido, suplicando que as enterrassem vivas dentro do mesmo caixão para não enfrentar sem ele os azares do futuro, mas à medida que se reconciliavam com a realidade do seu novo estado ele as vira surgir das cinzas com uma vitalidade reverdecida. Começavam vivendo feito parasitas de sombra nos casarões desertos, viravam confidentes das criadas, amantes dos próprios travesseiros, sem nada que fazer depois de tantos anos de cativeiro estéril. Desperdiçavam as horas de sobra cosendo na roupa do morto os botões que nunca tinham tido tempo de pregar, passavam e tornavam a passar a ferro suas camisas  de punhos e colarinhos de goma para que estivessem sempre perfeitos. Continuavam botando seu sabonete no banheiro, a colcha com suas iniciais na cama, o prato e os talheres em seu lugar na mesa, caso voltassem da morte sem avisar, como costumavam fazer em vida. Mas naquelas missas de solidão iam tomando consciência de que eram outra vez donas de seu arbítrio, depois de terem renunciado não ao seu nome de família como à própria identidade, e tudo isso em troca de uma segurança que não foi mais do que mais uma  de  suas  tantas ilusões de noivas. Só elas sabiam como pesava o homem que amavam com loucura,   e que talvez as amasse, mas que tinham tido que continuar a criar até o último suspiro, dando-lhe de mamar, mudando-lhe as fraldas borradas, distraindo-o com historinhas de mãe para lhe aliviar o terror de sair de manhã e dar de cara com a realidade. E no entanto, quando o viam sair de casa instigado por elas próprias a enfrentar o mundo, então eram elas que ficavam com o terror de que o homem não voltasse nunca. Isso era a vida. O amor, caso houvesse, era uma coisa à parte: outra vida.
No ócio reparador da solidão, em compensação, as viúvas descobriam que  a forma honrada de viver era à mercê do corpo, comendo por fome, amando sem mentir, dormindo sem ter que fingir que dormiam para escapar à indecência do amor oficial, donas por fim do direito a uma cama inteira para elas, na qual ninguém lhes disputasse a metade do lençol, a metade do ar de  respirar, a metade  da noite, até que o corpo se fartava de sonhar seus sonhos próprios, e despertava só. No seu madrugar de caçador furtivo, Florentino Ariza as encontrava à  saída  da missa das cinco, amortalhadas de preto e com o corvo do destino no ombro. Logo  que o vislumbravam na claridade da alba atravessavam a rua e mudavam de calçada com passos miúdos e entrecortados, passos de passarinho, pois o mero passar perto de um homem podia enodoar-lhes a honra. Contudo, era sua convicção que uma viúva desconsolada, mais do que qualquer outra mulher, podia carregar em si a semente da felicidade.
As muitas viúvas de sua vida, a partir da viúva de Nazaret, tinham tornado possível que ele vislumbrasse como eram as casadas felizes depois da morte dos maridos. O que até então tinha sido para ele mera ilusão se converteu graças a elas numa possibilidade que se podia colher com a mão. Não encontrava razões para que Fermina Daza não fosse uma viúva igual, preparada pela vida a aceitá-lo tal como era, sem fantasias de culpa pelo marido morto, resolvida a descobrir com ele a outra felicidade de ser feliz duas vezes, com um amor de uso cotidiano que convertesse cada instante num milagre de viver, e com outro amor, dela só, preservado de todo contágio pela imunidade da morte.
Não teria sido talvez tão entusiástico se tivesse sequer suspeitado como Fermina Daza estava longe daqueles cálculos ilusórios, quando mal começava a vislumbrar o horizonte de um mundo em que tudo estava previsto, menos a adversidade. Ser rico naquele tempo tinha muitas vantagens, e também muitas  desvantagens, é  claro, mas  meio  mundo  aspirava  à  riqueza  como  a  maior  possibilidade  de  ser  eterno.

Fermina Daza tinha repelido Florentino Ariza num rasgo de maturidade que pagou de pronto com uma crise de pena, mas jamais duvidou de que sua decisão tinha sido certa. No momento não pôde explicar a si mesma que causas ocultas da razão lhe haviam dado aquela clarividência, mas muitos anos mais tarde, já nas vésperas da velhice, descobriu-as de repente e sem saber como numa conversação casual sobre Florentino Ariza. Todos os interlocutores conheciam sua condição de delfim da Companhia Fluvial do Caribe em sua época culminante, todos estavam certos de havê-lo visto muitas vezes, inclusive de haverem tratado com ele, mas nenhum conseguia identificá-lo na memória. Foi então que Fermina Daza teve a intuição dos motivos inconscientes que tinham impedido que o amasse. Disse: "É como se não fosse uma pessoa e sim uma sombra." Era isso: a sombra de alguém que ninguém jamais conhecera. Mas enquanto resistia aos assédios do doutor  Juvenal  Urbino, que era o homem contrário, se sentia atormentada pelo fantasma da culpa: o único sentimento que era incapaz de suportar. Quando o sentia vir se apoderava dela uma espécie de pânico que só conseguia controlar quando encontrava alguém para lhe aliviar a consciência. Desde muito menina, quando se quebrava um prato na  cozinha, quando alguém caía, quando ela própria espremia o dedo na porta, voltava- se assustada para o adulto que estivesse mais perto, e se  apressava em  acusá-lo: "Foi sua culpa." Embora na realidade não lhe importasse  quem fosse o culpado,  nem quisesse se convencer da própria inocência: bastava deixá-la estabelecida.
Era um fantasma tão notório que o doutor Urbino percebeu em tempo até que ponto ameaçava a harmonia de sua casa, e logo que o vislumbrava se apressava em dizer à mulher: "Não se preocupe, meu amor, a culpa foi minha." Pois não  havia nada que temesse mais do que as decisões súbitas e definitivas da mulher, e estava convencido de que sempre tinham origem num sentimento de culpa. Contudo, a confusão proveniente do repúdio a Florentino Ariza não se resolvia com alguma  frase de consolo. Fermina Daza continuou abrindo o balcão de manhã  durante  vários meses, e sempre notava a falta do fantasma solitário que a vigiava da pracinha deserta, via a árvore que foi sua, o banco menos visível em que se sentava para ler pensando nela, sofrendo por ela, e tinha que fechar a janela, suspirando: "Pobre homem." Sofreu inclusive a decepção de ver que ele não era tão pertinaz quanto supusera, quando já era tarde demais para remendar o passado,  e  não  deixou de sentir de vez em quando a ansiedade tardia de uma carta que não chegou nunca. Mas quando teve que enfrentar a decisão de se casar com Juvenal Urbino sucumbiu a uma crise maior, ao perceber que não tinha razões válidas para preferi- lo depois de ter repudiado Florentino Ariza sem razões válidas. Na realidade, amava-o tão pouco quanto ao outro, e além disso o conhecia muito menos, e suas cartas não tinham a febre das cartas do outro, nem lhe dera tantas provas comovedoras de sua determinação. A verdade é que as pretensões de  Juvenal  Urbino nunca tinham sido formuladas em termos de amor, e era  pelo  menos curioso que um militante católico como ele lhe oferecesse bens terrenos: a segurança, a ordem, a felicidade, cifras  imediatas  que  uma vez  somadas  poderiam talvez se assemelhar ao amor: quase amor. Mas não eram, e estas dúvidas aumentavam sua confusão, porque também estava convencida de que o amor era na realidade aquilo que mais falta lhe fazia para viver.
Em todo caso, o fator principal contra o doutor Juvenal Urbino era sua semelhança mais que suspeita com o homem ideal que Lorenzo Daza desejara com tanta ansiedade para a filha. Era impossível não vê-lo como a criatura de uma conspiração paterna, ainda que na verdade não fosse, e Fermina Daza estava convencida de que era logo que o viu entrar em sua casa pela segunda vez para uma visita médica não solicitada. As conversações com a prima Hildebranda acabaram de confundi-la. Por sua própria situação de vítima, esta tendia a se identificar com Florentino Ariza, esquecendo inclusive de  que  talvez Lorenzo Daza a tivesse feito vir para que influísse a favor do doutor. Deus sabia do esforço feito por Fermina Daza para não acompanhá-la quando a prima foi conhecer Florentino Ariza na agência do telégrafo. Ela também teria gostado de vê-lo outra vez para confrontá-lo com suas dúvidas, falar com ele a sós, conhecê-lo a fundo para estar segura de que sua decisão impulsiva não ia precipitá-la em outra mais grave, que era capitular na guerra pessoal contra o pai. Mas foi o que fez no minuto crucial da sua vida, sem levar em conta para nada a beleza viril do pretendente, nem sua riqueza lendária, nem sua glória precoce, nem nenhum dos seus méritos reais, e sim aturdida pelo medo da  oportunidade que lhe escapava e da iminência dos  vinte e um anos, que  era seu limite confidencial para se render ao destino. Bastou-lhe esse minuto único para assumir a decisão como estava previsto nas leis de Deus e dos homens: até a morte. Então se dissiparam todas as dúvidas, e pôde fazer sem remorsos o que a razão lhe indicou como o mais decente: passou uma esponja sem lágrimas por cima da lembrança de Florentino Ariza, apagou-o por completo, e no espaço que ele ocupava em sua memória deixou que florescesse uma campina de papoulas. A única coisa que permitiu a si mesma foi um suspiro mais fundo que de costume, o último: "Pobre homem!"
As dúvidas mais temíveis, contudo, começaram logo que voltou da viagem de núpcias. Mal haviam acabado de abrir os baús, de desencaixotar os móveis e esvaziar as onze caixas que trouxera para tomar posse como ama e  senhora  do antigo palácio do Marquês de Casalduero, e já percebera numa vertigem mortal que estava aprisionada na casa errada, e o que era ainda pior, com  o homem que não  era. Precisou de seis anos para sair. Os piores da sua vida, desesperada com o azedume de dona Blanca, sua sogra, e o atraso mental das cunhadas, que se não tinham ido apodrecer vivas numa cela de claustro é porque já a carregavam dentro  de si.
O doutor Urbino, resignado a pagar os tributos da estirpe, se fez surdo às suas súplicas, confiando em que a sabedoria de Deus e a infinita capacidade de adaptação da esposa haviam de pôr as coisas no seu devido lugar. Doía-lhe o declínio da mãe, cuja alegria de viver infundia outrora o desejo de estar vivos até nos mais  incrédulos.  Era  certo:  aquela  mulher  formosa,  inteligente,  de  uma sensibilidade humana nada comum em seu meio, tinha sido durante quase quarenta anos a alma  e o corpo do seu paraíso social. A viuvez a perturbara a ponto de  não se acreditar  que fosse a mesma, e a tornara balofa e ácida, e inimiga do mundo. A única explicação possível de sua degradação era seu rancor por achar que o marido se sacrificara em sã consciência por uma montoeira de negros, como dizia ela, quando  o único sacrifício justo teria sido o de sobreviver para ela. Em todo caso, o casamento feliz de Fermina Daza tinha tido a duração da viagem de núpcias, e a única pessoa que podia ajudá-la a impedir o naufrágio final vivia  paralisada  de terror perante a potestade da mãe. Era a ele, e não às cunhadas imbecis e à sogra meio doida, que Fermina Daza atribuía a culpa pela armadilha de morte  em  que  fora apanhada. Tarde demais, desconfiava de que, por trás da sua autoridade profissional e seu fascínio mundano, o homem com quem se casara era um fraco sem redenção: um pobre-diabo avalentoado pelo peso social de um  sobrenome.
Refugiou-se no filho recém-nascido. Ela o sentira sair do seu corpo com o alívio de se livrar de algo que não era seu, e tinha sofrido com o próprio espanto ao comprovar que não sentia o menor afeto pôr aquele bezerro nonato que a parteira lhe mostrou em carne viva, sujo de sebo e de sangue, e com a tripa umbilical enrolada no pescoço. Mas na solidão do palácio aprendeu a conhecê-lo, se conheceram, e descobriu com uma grande emoção que os filhos não são queridos  por serem filhos e sim pela amizade que surge quando os criamos. Acabou por não suportar nada nem ninguém que não fosse ele na casa da sua desventura. A solidão  a deprimia, o jardim de cemitério, a desídia do tempo nos enormes aposentos sem janelas. Sentia-se enlouquecer nas noites dilatadas pelos gritos das loucas no manicômio vizinho. Tinha vergonha do costume de pôr a mesa de banquetes todos  os dias, com toalhas bordadas, serviços de prata e candelabros de funeral, para que cinco fantasmas jantassem uma xícara de café com leite e bolinhos de queijo. Detestava o terço ao entardecer, as posturas afetadas à mesa, as críticas constantes   à sua maneira de pegar o talher, de andar com essas passadas misteriosas de  mulher da rua, de se vestir como no circo, e até seu jeito matuto de tratar o marido   e de dar de mamar ao filho sem tapar o seio com a mantilha. Quando fez os primeiros convites para o chá das cinco da tarde, com biscoitinhos imperiais e  geléias de flores, de acordo com uma moda recente na Inglaterra, dona Blanca se opôs a que em sua casa fossem bebidos remédios para suar a febre em lugar do chocolate com queijo frito e roscas de pão de iúca. Não lhe escaparam nem  os sonhos. Certa manhã em que Fermina Daza contou que sonhara com um desconhecido que passeava nu semeando punhados de cinza pelos salões do  palácio, dona Blanca a interrompeu com secura:
— Uma mulher direita não pode ter essa classe de sonhos.
À sensação de estar sempre em casa alheia, acrescentaram-se duas desgraças maiores. Uma era a dieta quase diária de berinjelas em todas as suas formas, que dona Blanca se negava a variar em respeito ao marido morto, e que Fermina Daza recusava   comer.   Detestava   berinjelas   desde   menina,   mesmo   antes   de   tê-las provado, por achar que tinham cor de veneno. Só que essa vez teve de admitir que   de todas as maneiras algo havia mudado para melhor em sua vida, já que aos cinco anos tinha dito o mesmo à mesa, e o pai a obrigou a comer inteiro o ensopado previsto para seis pessoas. Pensou que ia morrer, primeiro devido vômitos da berinjela moída, e em seguida devido à caneca de óleo de rícino que a fizeram tomar à força para curá-la do castigo. As duas coisas ficaram misturadas em sua memória como um purgante, tanto pelo gosto como pelo terror do veneno, e nos almoços abomináveis do palácio do Marquês de  Casalduero tinha que  afastar a vista para  não enjoar em plena mesa com a náusea glacial do óleo de  rícino.
A outra desgraça foi a harpa. Um dia, muito consciente do que queria dizer, dona Blanca tinha dito: "Não creio em mulheres direitas que não saibam tocar piano." Foi uma ordem que até o filho tratou de discutir, pois os melhores anos de sua infância tinham transcorrido nas galeras das aulas de piano, embora já adulto se sentisse até grato por elas. Não podia imaginar a mulher submetida à mesma sentença,  aos  vinte e cinco anos e com um caráter como o seu. Mas a única concessão que obteve da mãe foi que trocasse o piano pela harpa, com o argumento pueril de que era o instrumento dos anjos. Por isso trouxeram de Vieña a harpa magnífica, que parecia de ouro e soava como se fosse, e que foi uma das relíquias mais apreciadas  do Museu da Cidade, até que o consumiram as chamas com tudo que tinha dentro. Fermina Daza se submeteu a essa sentença de luxo tratando de impedir o naufrágio com um sacrifício final. Começou com um mestre de mestres que trouxeram para isso da cidade de Mompox, e que morreu de  repente aos quinze dias, e continuou  por vários anos com o músico principal do seminário, cujo hálito de coveiro deformava os arpejos.
Ela própria se surpreendeu com sua obediência. Pois embora não o admitisse em seu foro íntimo, nem nos pleitos surdos que tinha com o marido nas  horas  que antes consagravam ao amor, enrolara-se mais depressa do que acreditava no emaranhado de convenções e preconceitos do seu novo mundo. No início tinha uma frase ritual para afirmar sua liberdade de critério: "À merda o leque que o tempo é   de brisa." Mas depois, zelosa dos seus privilégios bem conquistados, temerosa da vergonha e do escárnio, se dispunha a suportar até a humilhação, na esperança de que Deus se apiedasse por fim de dona Blanca, não se cansando de suplicar em suas orações que lhe mandasse a morte.
O doutor Urbino justificava sua própria fraqueza com argumentos de crise, sem sequer perguntar a si mesmo se não contrariavam sua igreja. Não admitia que os conflitos com a esposa tivessem origem no ar rarefeito da casa, atribuindo-os à natureza mesma do casamento: uma invenção absurda que podia existir pela graça infinita de Deus. Ia contra toda razão científica que duas pessoas apenas conhecidas, sem parentesco nenhum entre si, com caracteres diferentes, com culturas diferentes, e até com sexos diferentes, se  vissem  comprometidas  de repente a viver juntas, a dormir na mesma cama, a compartilhar dois destinos que talvez  estivessem  determinados  em  sentidos  divergentes.  Dizia:  "O  problema do casamento é que se acaba todas as noites depois de se fazer o amor, e é  preciso tornar a reconstruí-lo todas as manhãs antes do café." Pior ainda o deles, dizia, surgido de duas classes antagônicas, e numa cidade que ainda continuava sonhando com o regresso dos vice-reis. A única argamassa possível era algo tão improvável e volúvel como o amor, se é que havia, e no caso deles não havia quando se casaram,    e o destino não fizera mais do que pô-los à frente da realidade quando estavam a ponto de inventá-lo.
Esse era o estado de suas vidas na época da harpa. Tinham ficado para trás os acasos deliciosos dela entrando enquanto ele tomava banho, e apesar das  discussões, das berinjelas venenosas, e apesar das irmãs dementes e da mãe que as pariu, ele tinha ainda bastante amor para pedir a ela que o ensaboasse. Ela  começava a fazê-lo com as migalhas de amor que ainda sobravam da Europa, e os dois iam se deixando trair pelas lembranças, abrandando sem querer, se querendo sem dizer, e acabavam morrendo de amor no chão, besuntados de espumas fragrantes, enquanto ouviam as criadas falando deles na lavanderia: "Se não têm mais filhos é porque não trepam." De vez em quando, ao voltarem de uma festa louca, a saudade agachada atrás da porta os derrubava de uma patada, e  então ocorria uma explosão maravilhosa na qual tudo era outra vez como antes, e durante cinco minutos tornavam a ser os amantes desbragados da lua-de-mel.
Mas à parte essas ocasiões raras, um dos dois estava sempre mais cansado que o outro à hora de dormir. Ela se atrasava no banheiro enrolando seus cigarros  de papel perfumado, fumando sozinha, reincidindo em seus amores de consolação  como quando era jovem e livre em sua casa, dona única do seu corpo.  Estava  sempre com dor de cabeça, ou fazia calor demais, sempre, ou fingia que estava dormindo, ou tinha a regra de novo, a regra, sempre a regra. De tal forma que o doutor Urbino se atrevera a dizer em classe, pelo exclusivo alívio de um desafogo sem confissão, que depois de dez anos de casadas as mulheres tinham a regra até  três vezes por semana.
Desgraças chamando desgraças, Fermina Daza teve que afrontar  no  pior  dos seus anos o que aconteceria mais cedo ou mais tarde sem remédio: a verdade sobre os negócios fabulosos e nunca conhecidos do pai. O governador provincial que convocou Juvenal Urbino a seu gabinete para pô-lo ao corrente dos desmandos do sogro resumiu-os numa frase: "Não lei divina nem humana que esse sujeito não tenha levado de roldão." Algumas de suas trapaças mais graves ele as fizera  à  sombra do poder do genro, e teria sido difícil pensar que este e sua esposa não estivessem ao corrente. Sabendo que a única reputação a proteger era a sua, por ser a única que ficava de pé, o doutor Juvenal Urbino interpôs todo o peso de seu poder, e conseguiu cobrir o escândalo com sua palavra de honra. E Lorenzo Daza saiu do país no primeiro navio para não voltar nunca mais. Voltou à sua terra de origem como se fosse uma dessas pequenas viagens feitas de vez em quando para enganar a saudade, e no fundo dessa aparência havia algo de verdade: havia já algum tempo subia  aos  navios  de  sua  pátria  apenas  para  tomar  um  copo  d'água  dos tanques abastecidos nos mananciais de seu povoado natal Partiu sem dar o braço a torcer, protestando inocência, e ainda tentando convencer o genro de que fora vítima de uma conspiração política. Partiu chorando pela menina, como chamava Fermina Daza desde que se casara, chorando pelo neto, pela terra em que se fizera rico  e  livre, e onde conseguira a façanha de converter a  filha numa dama  requintada  à base de negócios turvos. Partiu envelhecido e doente, mas ainda viveu  muito mais  do que qualquer de suas vítimas  teria desejado. Fermina Daza não pôde  reprimir  um suspiro de alívio quando recebeu a notícia da morte, e não pôs luto para evitar perguntas, mas durante vários meses chorava com uma raiva surda sem saber por que quando se trancava para fumar no banheiro, e é que chorava por ele.
O mais absurdo da situação é que nunca pareceram tão felizes em público como naqueles anos de infortúnio. Pois na realidade foram os anos de suas vitórias maiores sobre a hostilidade soterrada de um meio que não se resignava a admiti-los como eram: diferentes e inovadores, e portanto transgressores da ordem  tradicional. Contudo, essa tinha sido a parte fácil para Fermina Daza. A vida mundana, que tantas incertezas lhe trazia antes de conhecê-la, não passava de um sistema de pactos atávicos, de cerimônias banais, de palavras previstas, com o qual se entretinham uns aos outros na sociedade para não se assassinarem. O signo dominante desse paraíso da frivolidade provinciana era o medo do  desconhecido.  Ela o definira de um modo mais simples: "O problema da vida pública é aprender a dominar o terror, o problema da vida conjugai é aprender a dominar o tédio." Tinha feito a descoberta de repente com a nitidez de uma revelação no instante em que entrou arrastando a interminável cauda de noiva no vasto salão do Clube Social, rarefeito pelos vapores misturados de  tantas flores, o brilho das  valsas, o tumulto de homens suarentos e mulheres trêmulas que a olhavam sem saber ainda como  iam conjurar aquela ameaça deslumbrante que lhes mandava o mundo exterior. Acabava de fazer vinte e um anos e mal tinha saído de casa para ir ao colégio, mas  lhe bastou um olhar circular para compreender que seus adversários não estavam dominados pelo ódio e sim paralisados pelo medo. Em vez de assustá-los, como estava ela assustada, fez a caridade de os ajudar a conhecê-la. Ninguém foi diferente daquilo que ela queria que fosse, como lhe ocorria com as cidades, que não lhe pareciam melhores nem piores, e sim como as construía em seu coração. De Paris, apesar da chuva perpétua, dos lojistas sórdidos e da grosseria homérica dos cocheiros, ela havia de se lembrar sempre como a cidade mais formosa do mundo, não porque na realidade fosse ou deixasse de ser, e sim porque ficara vinculada à saudade de seus anos mais felizes. O doutor Urbino, de sua parte, se impôs com armas iguais às que usavam contra ele, que manejadas com mais inteligência, e com uma solenidade calculada. Nada acontecia sem eles: os passeios cívicos, os  Jogos Florais, as manifestações artísticas, as tômbolas de caridade, os atos patrióticos, a primeira viagem em balão. Ninguém poderia imaginar, em seus anos  de desgraças, que pudesse haver alguém mais feliz do que eles nem um casamento tão harmônico quanto o seu. A casa abandonada pelo pai deu a Fermina Daza um refúgio próprio contra a asfixia do palácio familiar. Logo que escapava à vista pública, ia às escondidas à  praça dos Evangelhos, e lá recebia as amigas novas e algumas antigas do colégio ou das aulas de pintura: um substituto inocente da infidelidade. Vivia horas aprazíveis de mãe solteira com o muito que ainda lhe restava das lembranças de menina. Tornou a comprar os corvos perfumados, recolheu gatos da rua e os colocou aos cuidados de Gala Placídia, já velha e um tanto entrevada pelo reumatismo, mas ainda com ânimo para ressuscitar a casa. Tornou a abrir o quarto de costura onde Florentino Ariza a viu pela primeira vez, onde o doutor Juvenal Urbino a fez  mostrar a língua para lhe conhecer o coração e o converteu num santuário do passado. Uma tarde de inverno foi fechar a sacada antes que desabasse a tempestade, e viu Florentino Ariza em seu banco debaixo das amendoeiras da pracinha, com o traje do pai diminuído para ele e o livro aberto no colo, mas não o viu como então o via por acaso de vez em quando, e sim na idade com que lhe ficou na memória. Sentiu o temor de que aquela visão fosse um aviso da morte, e teve pena. Atreveu-se a dizer a si mesma que talvez tivesse sido feliz com ele, com ele naquela casa que ela reformara para ele com tanto amor quanto  ele  havia  reformado a sua para ela, e a mera suposição a assustou, porque a fez perceber os extremos de desdita a que havia chegado. Então apelou para suas últimas forças e obrigou o marido a discutir sem evasivas, a lhe fazer frente, a brigar com ela, a chorarem juntos de raiva pela perda do paraíso, até que ouvissem cantar os últimos gaios, e a luz se fez pelos beirais do palácio, e se acendeu o sol, e  o  marido  inflamado de tanto falar, esgotado de não dormir, com o  coração  fortalecido  de tanto chorar, apertou os cordões das botas, apertou o cinto, apertou tudo o  que  ainda lhe restava de homem, e lhe disse que sim, meu amor, que iam buscar o amor que havia fugido deles na Europa: amanhã mesmo e para sempre. Foi uma decisão tão correta que acertou com o Banco do Tesouro, seu administrador universal, a liquidação imediata da vasta fortuna familiar, dispersa desde as origens em toda classe de negócios, investimentos e papéis sagrados e lentos, e da qual ele sabia como ciência certa que não era tão desmedida como dizia a lenda: apenas o justo para não ter que pensar nela. O que fosse, convertido em ouro registrado, devia ser transferido pouco a pouco para seus bancos no exterior, até que não restasse mais a ele e sua mulher nesta pátria inclemente nem um palmo de terra onde cair mortos.
Pois Florentino Ariza existia, na realidade, ao contrário do que ela se propusera crer. Estava no cais do transatlântico da França quando ela chegou com o marido e    o filho no landô dos cavalos de ouro, e os viu descer como tantas vezes vira nos atos públicos: perfeitos. Iam com o filho, educado de uma forma que já permitia saber como seria adulto: tal como foi. Juvenal Urbino saudou Florentino Ariza com um chapéu alegre: "Vamos à conquista de Flandres." Fermina Daza fez uma inclinação de cabeça, e Florentino Ariza se descobriu, com uma reverência ligeira, e  ela reparou nele sem um gesto de compaixão pelos estragos prematuros de sua calvície. Era ele, tal como ela o via: a sombra de alguém que jamais  conheceu.

Florentino Ariza também não estava em seu melhor momento. Ao trabalho cada dia mais intenso, a seus caprichos de caçador furtivo, à mole calma dos anos, acrescentara-se a crise final de Trânsito Ariza, cuja memória acabara sem lembranças: quase em branco. Até o ponto em que às vezes se voltava para ele, o via lendo na cadeira de braços de  sempre, e lhe perguntava espantada: "E você é filho de quem?" Ele respondia sempre a verdade, mas ela tornava a interromper.
   E me diga uma coisa, filho — perguntava: — quem sou eu?
Tinha engordado tanto que não podia se mexer, e passava o dia no armarinho onde já não havia nada a vender, enfeitando-se desde que se levantava com os primeiros gaios até a madrugada do dia seguinte, pois dormia muito poucas horas. Punha grinaldas de flores na cabeça, pintava os lábios, empoava o rosto e os braços,  e no fim perguntava a quem estivesse com ela como tinha ficado. Os  vizinhos sabiam que esperava sempre a mesma resposta: "Você é a Cucarachita Martínez." Esta identidade, usurpada à personagem de uma história infantil, era a única que a deixava satisfeita. Balançava-se na cadeira, abanava-se com o ramalhete de grandes plumas cor-de-rosa, até começar tudo de novo: a coroa de flores de papel, o almíscar nas pálpebras, o carmim nos lábios, a crosta de alvaiade na cara. E outra vez a pergunta a quem estivesse perto: "Como fiquei?" Quando se converteu na rainha de troças da vizinhança, Florentino Ariza fez desmontar numa noite o balcão e as cômodas do antigo armarinho, condenou a porta da rua, arrumou o local de acordo com a descrição que ela fazia do quarto de Cucarachita Martínez, e ela nunca mais tornou a perguntar quem era.
Por sugestão do tio Leão XII empregara uma mulher mais velha para se ocupar dela, mas a coitada andava sempre mais para dormindo que para acordada, e às  vezes dava a impressão de que também ela esquecia quem era. De modo que Florentino Ariza ficava em casa desde que saía do escritório até que conseguia botar a mãe para dormir. Não foi mais jogar dominó no Clube do Comércio, nem tornou a ver durante muito tempo as poucas amigas antigas que continuava freqüentando, pois algo muito profundo mudara em seu coração depois do seu encontro de horror com Olímpia Zuleta.
Tinha sido fulminante. Florentino Ariza acabava de levar o tio Leão XII até sua casa, durante uma daquelas tempestades de outubro que nos deixavam em convalescença, quando viu do carro uma moça miúda, muito ágil, com um traje cheio de babados de organdi que mais parecia um vestido de noiva. Viu-a correndo atarantada de um lado para outro, porque o vento lhe arrancara da mão a sombrinha e a carregava voando pelo mar. Ele a acolheu no carro e se desviou do seu caminho para levá-la para casa, uma antiga ermida adaptada para fazer face ao mar aberto, cujo pátio cheio de casinhas de pombos se via da rua. Ela contou no caminho que tinha se casado menos de um ano com um vendedor de louça do mercado que Florentino Ariza tinha visto muitas vezes nos navios da sua empresa, desembarcando caixotes de  toda a espécie de  potes para vender, e com um    mundo de pombos numa gaiola de vime como a que usavam as mães nos navios fluviais para carregar os filhos recém-nascidos. Olímpia Zuleta parecia pertencer à família das vespas, não pelas ancas empinadas e o busto exíguo, como por toda ela: o cabelo de fio de cobre, as sardas, os olhos redondos e vivos, mais separados que o normal, e uma voz afinada que ela usava para dizer coisas inteligentes e divertidas. Pareceu a Florentino Ariza mais graciosa do que atraente e  a esqueceu mal a deixou na sua casa, onde morava com o marido, e com o pai deste e outros membros da família.
Uns dias depois, tornou a ver o marido no porto, embarcando mercadoria em vez de desembarcá-la, e quando o navio zarpou, Florentino Ariza ouviu muito clara no ouvido a voz do diabo. Nessa tarde, depois de acompanhar tio Leão XII, passou  como por acaso pela casa de Olímpia Zuleta, viu-a por cima da cerca,  dando  de comer aos pombos alvoroçados. Gritou-lhe do carro por cima da cerca: "Quanto custa uma pomba?" Ela o reconheceu e respondeu com voz alegre: "Não  se  vendem." Ele perguntou: "Então como se faz para ter uma?" Sem deixar de dar de comer aos pombos, ela respondeu: "Leva-se de carro a pombeira que se encontra perdida no aguaceiro." Desta forma, Florentino Ariza chegou a casa naquela noite com um presente de gratidão de Olímpia Zuleta: um pombo-correio com um anel de metal na canela.
Na tarde seguinte, à mesma hora da comida, a bela pombeira viu a pomba presenteada de volta ao pombal, e pensou que tivesse fugido. Mas quando a pegou para examiná-la reparou que tinha um papelzinho enrolado no anel:  uma  declaração de amor. Era a primeira vez que Florentino Ariza deixava uma pegada escrita, e não seria a última, embora nesta ocasião tivesse tido a prudência de não assinar. Ia entrando em casa na tarde seguinte, quarta-feira, quando um menino da rua lhe entregou a mesma pomba dentro de uma gaiola com o recado decorado de que aqui lhe manda isto a senhora dos pombos, e lhe manda dizer que por favor guarde bem a pomba na gaiola fechada porque do contrário torna a voar e esta é a última vez que é devolvida. Não soube que interpretação dar: ou bem a pomba tinha perdido a carta no caminho, ou a pombeira tinha resolvido fazer-se de tola, ou mandava a pomba para que ele tornasse a mandá-la. Neste último caso, contudo, o natural teria sido ela devolver a pomba com uma resposta.
Sábado pela manhã, depois de muito pensar, Florentino Ariza tornou a mandar a pomba com outra carta sem assinatura. Desta vez não teve que esperar o dia seguinte. À tarde, o mesmo menino tornou a trazê-la em outra gaiola, com o recado de aqui vai outra vez a pomba que lhe fugiu de novo, que anteontem foi devolvida  por boa educação e que agora é devolvida por pena, más que agora a pura verdade é que não será mais mandada se tornar a voar. Trânsito Ariza se entreteve até muito tarde com a pomba, tirou-a da gaiola, arrulhou para ela embalando-a nos braços, procurou adormecê-la com canções de ninar, e de repente percebeu que tinha no  anel do pé um papelzinho com uma linha: Não aceito carta anônima. Florentino Ariza  o  leu  com  o  coração  enlouquecido,  como  se  fosse  a  culminação  de      sua primeira aventura, e mal conseguiu dormir à noite em sobressaltos de impaciência. No dia seguinte muito cedo, antes de ir para o escritório, soltou de novo a pomba com um papel de amor assinado com seu nome muito claro, e botou ainda no anel a rosa mais fresca, mais afogueada e fragrante do seu jardim.
Não foi tão fácil. Ao cabo de três meses de assédios, a bela pombeira continuava respondendo o mesmo: "Eu não sou dessas." Mas nunca deixou de receber as mensagens ou de acudir aos encontros que Florentino Ariza arrumava de maneira a parecerem casuais. Estava desconhecido: o amante que nunca mostrava a cara, o mais ávido de amor mas também o mais mesquinho, o que não dava nada e queria tudo, o que não permitia que ninguém lhe deixasse no coração a pegada de um  passo, o caçador acocorado saiu pelo meio da rua num arrebatamento de cartas assinadas, de presentes galantes, da rondas imprudentes à casa da pombeira,  mesmo em duas ocasiões em que o marido não andava de viagem nem estava no mercado. Foi a única vez, desde os primeiros tempos do primeiro amor, que se  sentiu atravessado por uma lança.
Seis meses depois do primeiro encontro se viram por fim no camarote de um navio fluvial que estava em reparos de pintura no cais do rio. Foi uma tarde maravilhou. Olímpia Zuleta tinha um amor alegre, de pombeira alvoroçada, e gostava de ficar nua durante várias horas, num repouso lento que tinha para ela tanto amor quanto o amor. O camarote estava desmantelado, pintado pela metade,   e o cheiro da terebintina era bom de se carregar com as lembranças de uma tarde feliz. De repente, a conselho de uma inspiração insólita, Florentino Ariza destapou um tacho de pintura vermelha que estava ao alcance do beliche, molhou o indicador, e pintou no púbis da bela pombeira uma flecha de sangue voltada para o sul, e lhe escreveu um letreiro no ventre:' 'Esta pomba é  minha''. Nessa  mesma noite Olímpia Zuleta se despiu na frente do marido sem se lembrar do letreiro, e ele não disse uma palavra, nem se alterou sua respiração, nada, se limitando a ir ao banheiro pegar a navalha de barba enquanto ela punha a camisola e a degolou  de um talho.
Florentino Ariza veio a saber muitos dias depois, quando o marido fugitivo foi capturado e contou aos jornais as razões e a forma do crime. Durante muitos anos pensou com temor nas cartas assinadas, guardou a conta dos anos de cárcere do assassino que o conhecia muito bem devido aos negócios que fazia nos navios, mas não temia tanto a navalhada no pescoço, nem o escândalo público, como a sorte de que Fermina Daza viesse a saber da sua deslealdade. Nos anos de espera,  a mulher que cuidava de Trânsito Ariza teve que se retardar no mercado por causa de um aguaceiro fora de estação, e quando voltou a casa encontrou-a morta. Estava sentada na cadeira de balanço, sarapintada e floral, como sempre, e com os olhos tão vivos em um sorriso tão malicioso que a guardiã reparou que estava morta passadas duas horas. Pouco antes tinha distribuído pelas crianças da vizinhança a fortuna em ouros e pedrarias das botijas enterradas debaixo da cama, dizendo que eram  de  comer,  feito  caramelos,  e  não  foi  possível  recuperar  algumas  das  mais valiosas. Florentino Ariza a enterrou na antiga fazenda da Mão de Deus, que era ainda conhecida como o Cemitério do Cólera, e semeou sobre seu túmulo um  bosque de rosas.
Desde as primeiras visitas ao cemitério, Florentino Ariza descobriu que muito perto estava enterrada Olímpia Zuleta, sem lápide, mas com o nome e a  data  escritos com o dedo no cimento fresco da cripta, e achou horrorizado que era uma zombaria sangrenta do marido. Quando o rosai floresceu, punha uma rosa no túmulo, se não houvesse ninguém à vista, e mais tarde plantou ali uma muda cortada do rosai da mãe. Ambos os rosais proliferaram com tanto alvoroço que Florentino Ariza tinha que levar suas tesouras e outras ferramentas de jardim para mantê-los em ordem. Mas foi superior às suas forças: passados alguns anos os dois rosais se haviam espalhado feito mato no meio dos túmulos, e o bom cemitério da peste passou a se chamar Cemitério das Rosas, até que algum prefeito  menos realista que a sabedoria popular arrasou numa noite os rosais e pendurou um letreiro republicano no arco da entrada: Cemitério Universal.
A morte da mãe deixou Florentino Ariza condenado outra vez a seus compromissos maníacos: o escritório, os encontros em turnos estritos com as amantes crônicas, as partidas de  dominó no Clube do Comércio, os mesmos livros   de amor, as visitas dominicais ao cemitério. Era o oxido da rotina, tão denegrido e tão temido, mas que o havia protegido da consciência da idade. Contudo, num domingo de dezembro, quando os rosais dos túmulos, tinham derrotado  as tesouras, viu as andorinhas nos fios da luz elétrica recém-instalada, e notou de repente quanto tempo se passara desde a morte da mãe, e quanto desde o assassinato de Olímpia Zuleta, e quanto e quanto desde aquela outra tarde do dezembro distante em que Fermina Daza lhe mandara uma carta dizendo que sim, que o amaria por todo o sempre. Até então se comportara como se o tempo passasse para os outros e não para ele. Ainda na semana anterior tinha encontrado  na rua um dos tantos casais que o eram graças às cartas escritas por ele, e não reconheceu o filho mais velho, que era seu afilhado. Saiu do constrangimento com    o espavento convencional: "Puxa, está um homem!" Continuava sendo assim, mesmo depois que o corpo começou a lhe mandar os primeiros sinais de  alarma, pois sempre gozara da saúde de pedra dos doentios. Trânsito Ariza costumava dizer: "Meu filho ficou doente mesmo com o cólera." Confundia o cólera com o amor, é claro, e isso muito tempo antes da sua memória se embrulhar. Mas de todas as maneiras se enganava, porque o filho tinha tido em segredo seis blenorragias, embora o médico dissesse que não eram seis e sim a mesma e única que reaparecia depois de cada batalha perdida. Tinha tido ademais uma adenite, quatro cancros moles e seis orquites, mas nem a ele nem a homem nenhum ocorreria enumerar  tais coisas como doenças, e sim como troféus de  guerra.
Completados quarenta anos, tinha tido que recorrer ao médico com dores indefinidas em várias partes do corpo. Depois de muitos exames, o médico tinha dito: "São coisas da idade." Ele voltava sempre para casa sem sequer perguntar a si mesmo se aquilo tinha algo a ver com ele. Pois o único ponto de referência do seu passado eram seus amores efêmeros com Fermina Daza, e o que tivesse alguma coisa a ver com ela tinha algo a ver com as contas da sua vida. De maneira que na tarde em que viu as andorinhas nos fios de luz, repassou seu passado desde a lembrança mais antiga, repassou seus amores de ocasião, os incontáveis escolhos que tinha tido que contornar para alcançar um posto de mando, os incidentes sem conta que lhe causara a determinação encarniçada de que Fermina Daza fosse sua, e ele dela por cima de tudo e contra tudo, e então descobriu que sua própria vida estava se escoando. Sentiu um calafrio nas vísceras que o deixou sem luz, e teve que soltar as ferramentas de jardim e se apoiar no muro do cemitério para não ser derrubado pela primeira patada da velhice.
   Porra — disse aterrado — tudo está fazendo trinta anos!
Assim era. Trinta anos tinham passado também para Fermina Daza, sem dúvida, mas tinham sido para ela os mais gratos e reparadores de sua vida. Os dias  de  horror do Palácio de Casalduero estavam relegados  à lixeira da  memória. Morava em sua nova casa da Mangueira, dona absoluta do seu destino, com um marido que tornaria a preferir entre todos os homens do mundo se tivesse tido que escolher outra vez, com um filho que prolongava a tradição da estirpe na Escola de Medicina, e uma filha tão parecida com ela quando tinha sua idade que às vezes a perturbava a impressão de se sentir repetida. Tinha voltado três vezes à Europa depois da viagem de desespero prevista como sem retorno para não continuar a viver num susto perpétuo.
Deus deve ter escutado por fim as orações de alguém: depois de dois anos de estada em Paris, quando Fermina Daza e Juvenal Urbino mal começavam a buscar o que sobrara do amor entre os escombros, um telegrama de meia-noite os acordou com a notícia de que dona Blanca de Urbino estava com doença grave, e quase foi alcançado pelo outro, com a notícia da morte. Voltaram de pronto. Fermina Daza desembarcou com uma túnica de luto cuja largueza não dava para disfarçar seu estado. Estava grávida de novo, com efeito, e a notícia deu origem a uma canção popular mais maliciosa que maligna, cujo estribilho esteve na moda o resto do ano:  O que será que na bela em Paris, que sempre que vai volta para parir! Apesar da letra ordinária, o doutor Juvenal Urbino mandava tocá-la até muitos anos  depois nas festas do Clube Social como prova de sua boa disposição.
O nobre palácio do Marquês de Casalduero, de cuja existência e brasões não se encontrou  nunca uma notícia certa, foi vendido primeiro à Tesouraria Municipal  por um preço adequado, e depois revendido por uma fortuna ao governo central, quando um pesquisador holandês andou fazendo escavações para provar que ali estava o verdadeiro túmulo de Cristóvão Colombo: o quinto. As irmãs do doutor Urbino foram morar no convento das Salesianas, em reclusão sem votos, e Fermina Daza permaneceu na antiga casa do pai até que se terminou a quinta da Mangueira. Entrou  nela pisando  firme, entrou  para  mandar, com  os  móveis  ingleses trazidos desde a viagem de núpcias e os complementares que fez vir depois da viagem de reconciliação, e a partir do primeiro dia começou a enchê-la de toda classe de bichos exóticos que ela própria ia comprar nas goletas das Antilhas. Entrou com o marido recuperado, o filho bem criado, a filha que nasceu quatro meses depois da volta e à qual batizaram com o nome de Ofélia. O doutor Urbino, de sua parte, entendeu que era impossível recuperar a esposa de um modo tão completo como a tivera  na viagem de núpcias, porque a parte de amor que ele queria ela a dera aos filhos com    o melhor do seu tempo, mas aprendeu a viver e a ser feliz com os resíduos. A harmonia pela qual tanto aspiravam culminou por onde menos esperavam num jantar de cerimônia em que serviram um prato delicioso que Fermina Daza não conseguiu identificar. Começou com uma boa porção, mas gostou tanto que repetiu com outra igual, e estava com pena de não se servir outra igual por princípio  de  boas maneiras quando descobriu que acabava de comer com  um prazer  insuspeitado dois pratos transbordantes de purê de berinjela. Perdeu com galhardia: a partir de então, na quinta da Mangueira foram servidas berinjelas em todas  as  suas formas quase com tanta freqüência quanto no Palácio de Casalduero, e eram  tão apetecidas por todos que o doutor Juvenal Urbino alegrava os tempos livres da velhice dizendo que queria ter outra filha para lhe pôr o nome bem-amado na casa: Berinjela Urbino.
Fermina Daza sabia então que a vida privada, ao contrário da vida pública, era mutável e imprevisível. Não lhe era fácil estabelecer diferenças reais entre crianças   e adultos, mas em última análise preferia as crianças, por terem critérios  mais certos. Mal dobrara o cabo da maturidade, desprovida por fim de qualquer ilusão, começou a vislumbrar a decepção de não ter sido nunca o que sonhava ser quando jovem, na praça dos Evangelhos, e sim algo que nunca ousara dizer sequer a si mesma: uma criada de luxo. Em sociedade passou a ser a mais amada, a mais mimada, e por isso mesmo a mais temida, mas em nada exigia de si mesma rigor maior ou se perdoava menos do que no governo da casa. Sempre se sentiu vivendo uma vida emprestada pelo marido: soberana absoluta de um vasto império de felicidade edificado por ele e para ele. Sabia que ele a amava para de tudo, mais do que ninguém no mundo, mas para ele: a seu santo  serviço.
Se alguma coisa a mortificava era a cadeia perpétua das refeições diárias. Pois  não tinham que estar na hora: tinham que ser perfeitas, e tinham que ser justo o que ele queria comer sem que antes lhe fosse perguntado. Se ela o fazia alguma vez, como uma das tantas cerimônias inúteis do ritual doméstico, ele sequer levantava a vista do jornal para responder: "Qualquer coisa." Dizia a sério, com seu  jeito  amável, porque não se podia conceber um marido menos despótico. Mas à hora de comer não podia ser. qualquer coisa, e sim justo o que ele queria, e sem a mínima falha: que a carne não soubesse a carne, que o peixe não soubesse a peixe, que o porco não soubesse a sarna, que o frango não soubesse a penas. Mesmo quando não era tempo de aspargos era preciso encontrá-los a qualquer preço para que ele pudesse  se  extasiar no  vapor de  sua própria  urina  fragrante. Não  punha  a   culpa nele: punha a culpa na vida. Mas ele era um protagonista implacável da vida.  Bastava o tropeço de uma dúvida para que ele empurrasse o prato na mesa, dizendo: "Esta comida foi feita sem amor." Nesse sentido chegava a rasgos fantásticos de inspiração. Certa vez, mal provou uma tisana de camomila devolveu-a com uma única frase: "Esta droga está com gosto de janela." Tanto ela quanto as criadas se espantaram, pois ninguém sabia de alguém que tivesse bebido uma janela fervida, mas quando provaram a tisana procurando entender, entenderam: tinha gosto de janela.
Era um marido perfeito: nunca apanhava nada no chão, nem apagava a luz, nem fechava a porta. Na escuridão da manhã, quando faltava um botão na roupa, ela o ouvia dizer: "A gente devia ter duas mulheres, uma para querer bem, outra para pregar botão." Todos os dias, ao primeiro gole do café, e à primeira colherada  de sopa fumegante, dava um uivo desesperado que já não assustava ninguém, e em seguida o suspiro: "No dia em que me mande desta casa, podem saber  que  foi porque me cansei de viver com a boca queimada." Dizia que nunca o almoço era  mais apetitoso e fino do que nos dias em que ele não podia comê-lo por ter tomado purgante, e estava tão convencido de que era uma perfídia da  mulher que acabou  por não se purgar se ela não se purgasse com ele.
Aborrecida com sua incompreensão, ela lhe pediu um insólito presente de aniversário: que ele fizesse por um dia os trabalhos domésticos. Ele aceitou divertido, e com efeito tomou posse da casa desde o amanhecer. Serviu um café esplêndido, mas esqueceu que ela não se dava bem com ovos fritos e não tomava  café com leite. Deu logo instruções para o almoço de aniversário com oito convidados e tomou disposições para a arrumação da casa, e tanto se esforçou por fazer um governo melhor que o dela que antes do meio-dia teve que capitular sem um gesto de vergonha. Desde o primeiro momento percebeu que não tinha a menor idéia de onde estava nada, sobretudo na cozinha, e as criadas deixaram  que  revirasse tudo para encontrar cada coisa, pois também jogaram o jogo. Às dez não se haviam tomado decisões para o almoço porque ainda não estava terminada  a  limpeza da casa nem a arrumação dos quartos, o banheiro estava por limpar, e ele esquecera de mandar botar o papel higiênico, trocar os lençóis e mandar o cocheiro buscar os filhos, e confundiu as tarefas das criadas: ordenou à  cozinheira  que  fizesse as camas e pôs as arrumadeiras na cozinha. Às onze, quando já estavam a ponto de chegar os convidados, era tal o caos na casa que Fermina Daza reassumiu   o comando, morta de rir, mas não com a atitude triunfal que teria querido adotar, e sim trêmula de compaixão diante da inutilidade doméstica do marido. Ele tirou sua forra com o argumento de sempre: "Pelo menos não me saí tão mal quanto você sairia procurando curar doentes." Mas a lição foi útil, e não para ele. No  curso  dos anos ambos chegaram  por caminhos diferentes à conclusão sábia de  que não  era possível morar juntos de outro modo, nem se amarem de outro modo: nada  neste mundo era mais difícil do Que o amor Na plenitude de sua nova vida, Fermina Daza via Florentino Ariza em diversas ocasiões públicas, e com tanto mais freqüência quanto mais ele ascendia em seu trabalho, mas aprendeu a vê-lo com tanta naturalidade que mais de uma vez se esqueceu de cumprimentá-lo por distração. Ouvia falar dele amiude, porque no mundo dos negócios era um tema constante sua escalada cautelosa mas irresistível na C.F.C. Ela o via melhorar de maneiras, sua timidez se decantava num certo distanciamento enigmático, assentava-lhe bem um ligeiro aumento de peso, convinha-lhe a lentidão da idade, e soubera resolver com dignidade a calvície arrasadora. Só continuou desafiando para sempre o tempo e a moda com a indumentária sombria, as sobrecasacas anacrônicas, o chapéu extraordinário, as gravatas de poeta, de fitas do armarinho da mãe, o guarda-chuva sinistro. Fermina Daza foi se acostumando a vê-lo de outro modo, e acabou por não relacioná-lo com   o adolescente lânguido que se sentava a suspirar por ela exposto às ventanias de flores amarelas da praça dos Evangelhos. De qualquer maneira, nunca o viu com indiferença, e sempre se alegrou com as boas notícias que  lhe davam  a respeito  dele, porque pouco a pouco iam aliviando sua culpa.
Contudo, quando já o imaginava apagado por completo da memória, reapareceu por onde menos o esperava, convertido em fantasma de suas saudades. Foram as primeiras auras da velhice, quando começou a sentir que algo irreparável  acontecera em sua vida sempre que ouvia trovejar antes da chuva. Era a ferida incurável do trovão solitário, pedregoso e pontual, que retumbava todos os dias de outubro às três da tarde na serra de Villanueva, e cuja lembrança ia ficando mais recente com o passar dos anos. Enquanto as lembranças novas se confundiam na memória em poucos dias, as da viagem lendária pela província da prima Hildebranda se tornavam tão vividas que pareciam de ontem, com a nitidez  perversa da saudade. Lembrava-se de Manaure, a da serra, sua rua única, reta e verde, seus pássaros de bom agouro, a casa dos espantos onde acordava com a camisola empapada com as lágrimas de Petra Morales, morta de amor muitos anos antes na mesma cama em que ela dormia. Lembrava-se do gosto das goiabas  de então que nunca mais tinha tornado a ser o mesmo, dos presságios tão intensos que seu barulho se confundia com o da chuva, das tardes de topázio de São João de César, quando saía a passeio com a corte de primas assanhadas e  mantinha  os dentes apertados para que o coração não lhe saísse pela boca à medida que se aproximavam do telégrafo. Vendeu de qualquer maneira a casa do pai porque não podia agüentar a dor da adolescência, a visão da pracinha desolada tal como  aparecia da sacada, a fragrância sibilina das gardênias nas noites de calor, o susto do retrato de dama antiga na tarde de fevereiro em que se decidiu seu destino, e onde quer que se revolvia sua memória daqueles tempos esbarrava na lembrança de Florentino Ariza. Contudo, sempre teve bastante serenidade para perceber que não eram lembranças de amor, nem de arrependimento, e sim a imagem de uma insipidez que lhe deixava um rastro de lágrimas. Sem saber, estava ameaçada pelo mesmo ardil de compaixão que levara à perdição tantas vítimas desprevenidas de Florentino Ariza. Aferrou-se ao marido. E justo na época em que ele mais precisava dela, porque ia adiante dela com dez anos de desvantagem tateando entre as névoas da velhice, e com as desvantagens piores de ser homem e mais fraco. Acabaram por se conhecer tanto que antes dos trinta anos de casados eram como um mesmo ser dividido, e se sentiam pouco à vontade com a freqüência com que adivinhavam sem querer o pensamento um do outro, ou pelo acidente ridículo de um se antecipar a dizer em público o que o outro ia dizer. Tinham contornado juntos as incompreensões cotidianas, os ódios instantâneos, as grosserias recíprocas e os  fabulosos  relâmpagos de glória da cumplicidade conjugai. Foi a época em que se amaram melhor, sem pressa e sem excessos, e ambos foram mais conscientes e gratos pelas vitórias inverossímeis contra a adversidade. A vida ainda havia de  confrontá-los  com outras provas mortais, sem dúvida, mas já não tinha importância: estavam na outra margem.










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